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Tribuna Nacional ANO 1 N° 1 R$ 3,50

tribunanacional.com.br

28 DE MARÇO DE 2010 EDIÇÃO DE 22H

DOMINGO Exposição De terça a domingo, “Andy Warhol, Mr America.” na Estação Pinacoteca em São Paulo

CULTURA

Oscar Filho

estréia sua peça, “Puts Grill...” em São Paulo.Todos os sábados as 23h59 no teatro Frei Caneca

LAZER

Super Mário em São Paulo

O evento ocorrerá no Centro de Convenções do Shopping Frei Caneca, em São Paulo

CLASSIFICADOS

14.432 ofertas 90 páginas

Governo cria nova Teletelabrás Segundo comunicado do governo, a estatal gerenciará a nova tecnologia de teletelas

George Jedi Lukacs A Teletelabrás, estatal responsável pela manutenção das teletelas, será recriada. A estatal gerenciará a nova tecnologia de teletelas que enviarão à Polícia do Pensamento imagens das webcams dos usuários de banda larga, além do conteúdo

de e-mails e sites por onde os cidadãos navegam. Os usuários que tiverem suas vidas monitoradas pelo novo sistema, deverão pagar uma mensalidade de R$ 30 referentes aos custos de transmissão de dados em banda larga. NACIONAL/PÁG. A5

TV Brasil Socialista As teletelas enviarão ao usuário o sinal da TV Brasil Socialista, emissora dirigida pelo Ministro da Verdade e ex-seqüestrador Franklin Martinez, e criada para divulgação da verdade e das ações

Corinthians vence São Paulo em clássico de sete gols

Emmanuel Goldstein

A União Nacional dos Estudantes (UNE) divulgou nota de repúdio contra a série de protestos estudantis contra-revolucionários organizados por universitários venezuelanos. O comunicado, que pede o reconhecimento das garantias da liberdade de censura estatal e do devido processo sumário no país, é assinado pelo Comitê Central da entidade.

Corinthians faz 4 a 3 sobre o São Paulo, no clássico deste domingo, disputado no Estádio do Pacaembu, pelo Campeonato Paulista. Com o triunfo, o time do Parque São Jorge continua na briga pela classificação às semifinais, agora com 29 pontos, contra 30 do rival. Faltam duas rodadas para o encerramento da primeira fase do estadual. ESPORTE/PÁG. E7

PREVISAO DO TEMPO NA CAPITAL

14º MIN. 20º MAX.

o céu nublado e com chuvisco na capital.

PAG. C2

CV202007 SENAC2008

chega ao mar e deixa

9

mas vento úmido

ISBN 86-2909-132-X

Frente fria se afasta,

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, afirmou nesta segundafeira que a rede social Twitter nada mais é que um instrumento terrorista. O microblog se tornou um canal de luta a favor da liberdade de expressão pelos venezuelanos. ITERNACIONAL/PÁG. A15

UNE protesta contra universitários da Venezuela

ESPORTE

Cesar Cielo acerta com o Flamengo para 2010

do governo contra os inimigos do povo.A Polícia do Pensamento será comandada por Erenice Guerra e Paz, diretora da Comissão da Verdade. Ela é a responsável pelo dossiê contra o inimigo do povo Fernando Esquerdista Cardoso.

Chávez chama Twitter de terrorista

O campeão olímpico e mundial Cesar Cielo irá nadar a temporada de 2010 pelo Flamengo, após clube e nadador fecharem acordo nesta quarta-feira. Henrique Bar-

bosa e Nicholas dos Santos, companheiros de treino do brasileiro, também farão parte da equipe de natação carioca. ESPORTE/PÁG. E5

O texto afirma que a RCTVI (Rede Caracas de Televisão Internacional) e outros cinco canais reacionários estavam a serviço do imperialismo estadunidense. A nota informa ainda que a censura promovida pelo Estado é uma medida que garante a pluralidade de apoio à revolução bolivariana, além de ser o primeiro passo para democratizar os meios de comunicação no país. NACIONAL/PÁG. A10

Carlos Alberto Sanderberg Bolsas para todos

Almir Pazzianotto Pinto Tancredo, CUT e PT

Ilan Goldfajn

O jornalista Ancelmo Gois, do jornal O Globo, criou a expressão “Bolsa Miami”. ECONOMIA/PÁG.B4

No dia 21 de abril completam-se 25 anos da morte do presidente Tancredo Neves.

O presidente do BC do Brasil talvez fosse deixar o BC, mas resolveu ficar.

POLITICA/PAG. B4

Incerteza certa

ECONOMIA/PÁG.B5


A2 ESPAÇO ABERTO

Tribuna Nacional

Projeto Editar PRISCILA DE OLIVEIRA Para a elaboração do jornal para o Projeto Editar, do terceiro semestre do curso de comunicação Visual do Senac Santo Amaro, foi necessária uma pesquisa visando conhecer como se comportam os jornais formadores de opinião e os jornais populares, entender como se adequam ao seu público alvo e como são pensados, em todos os seus detalhes. O tipo de jornal escolhido para esse projeto foi o formador de opinião, e sua digramação foi baseada principalmente no jornal O Estado de São Paulo. A adequação da diagramação do jornal ao conceito formador

de opinião fica clara em todos os elementos contidos no jornal. Os elementos da capa foram pensandos de uma maneira a chamar atenção para as matérias e principalmente para a matéria principal, devido a disposição das imagens e dos textos. O nome Tribuna Nacional é um nome que passa seriedade e já sugere logo de cara ser um jornal formador de opinião, bem como a diagramação mais limpa, sem grande apelo à imagens, cores fortes ou propagandas em demasia. O tipo de matérias apresentadas também contribui para que o jornal se encaixe nesse conceito, pois são matérias escritas para a linguagem do leitor da classe média.

Indefinição ELIANE CANTANHÊDE A última pesquisa Datafolha deu um susto no governo e foi um alívio para a oposição, por desmentir a expectativa de uma virada pró-Dilma Rousseff. Ao contrário, mostra uma interrupção tanto no crescimento constante de Dilma, que recuou um ponto, para 27%, quanto na queda de José Serra, que recuperou quatro pontos, indo para 36%. Ciro Gomes desliza suavemente para fora do páreo, enquanto Marina Silva está emperrada em apenas 8%, comprovando, mais uma vez, que a partida final deverá ser travada entre a petista Dilma e o tucano Serra. Dilma tem melhores condições, com a popularidade de Lula em alta, de recorde em recorde, e uma campanha muito mais estruturada. Os petistas, como se sabe, não brincam em serviço. Estão todos unidos, engoliram as alianças de Lula garganta abaixo, têm equipes bem definidas e até bases físicas já montadas. Mas precisam caprichar mais na empatia da sua candidata com o eleitorado e na

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simbiose entre os índices dela e a popularidade de Lula. Já na oposição ocorre o contrário: o forte é o candidato, já que Serra, continua solidamente na dianteira, sempre acima dos 30%. O lado fraco é a falta de unidade, a indefinição de Aécio Neves na vice, a demora na montagem da estrutura, a ausência de um discurso, de uma bandeira. Além de menos alianças partidárias, o que significa menos tempo num instrumento decisivo, a TV. O dia 31 de março vem aí e, com ele, uma mudança significativa no ritmo de campanha. Tanto Serra sai do Palácio dos Bandeirantes quanto Dilma deixa a Casa Civil, e os dois entram de cabeça na campanha pelo país afora. Como toda eleição indefinida, esta é uma eleição tensa, que fatalmente trará muitas emoções. O risco é a emoção desandar para a agressão e para o jogo baixo, o que não será apenas ruim para Serra, Dilma, Ciro e Marina, mas para a própria força dos políticos e da crença na política. FOI COLUNISTA DO JORNAL

PUBLICAÇÃO S.A. Tribuna Nacional

Fundado em 2010

Rua do Retiro 1371 - CEP 13209-201

Priscila de Oliveira (1991)

Jundiaí - SP. Tel/Fax (11) 4586-4282 (PABX)

Presidente : Priscila de Oliveira

Diretor editorial : Priscila de Oliveira

Editor-executivo : Priscila de Oliveira

Diretoria-executiva : Priscila de Oliveira

O País polarizado e o lugar da imprensa EUGÊNIO BUCCI Com a aproximação das eleições, o País vai-se dividindo em campos opostos. Chamam a isso de polarização. De um lado e de outro, sempre há quem acredite que a tal polarização rende dividendos eleitorais. Tanto na situação como na oposição, agitam-se os que vivem de jogar lenha na fogueira, disparando provocações e xingamentos cujo propósito só pode ser o de acirrar ainda mais os ânimos. O caminho da exacerbação é o caminho da sombra. Não que a franqueza não ajude o eleitor. Ela ajuda e é necessária, mesmo quando se expressa com rispidez. Os bons modos, por mais que sejam desejáveis, não devem implicar o sacrifício da clareza. Quanto mais os candidatos são diretos em ressaltar em que se diferenciam dos outros, melhor. O nosso problema, contudo, não é o excesso de boas maneiras - talvez seja o excesso de grosseria. Não corremos o risco de obscurecer as diferenças entre os candidatos por mesuras ou gentilezas artificiais; corremos, sim, o risco de transformar o ódio em espetáculo de palanque e, aí, perder de vista o que temos em comum. Nosso proble-

ma, enfim, não é ignorar as propostas que separam os partidos, mas esquecer o que nos une, independentemente dos partidos. Nesse contexto, a imprensa pode ajudar o cidadão a desconfiar da propaganda eleitoral, que tende a ser apelativa, chantagista, extremista. A imprensa tem hoje a grande chance de se apresentar como o fator de equilíbrio. Só depende dos jornalistas. Enquanto os cabos eleitorais têm o seu lado - ou a sua trincheira, como se gabam de dizer -, os jornalistas têm a chance de se distanciar das emoções enfurecidas e promover o esclarecimento. Entre um partido e outro, entre a esquerda e a direita, podem ficar ao lado do cidadão que procura bons fundamentos para decidir em quem votar.

A imprensa é a favor da autonomia do leitor. Ela é contra o fanatismo e a intolerância. Não é exagero falar em fanatismo e intolerância no Brasil dos nossos dias. A começar pelos pequenos sintomas. Por vezes, eu noto esses sintomas em leitores que comentam meus artigos, quando elogio a fala de um minis

DO BRASIL, DO

ESTADO DE S. PAULO, DIR. DE REDAÇÃO DE O GLOBO E GAZETA MERCANTIL

tro de Estado, logo alguém me acusa de “petista de banho tomado”. Quando critico arroubos de arrogância no presidente da República, sou tachado de opositor. É como se os seus candidatos fossem a virtude em estado puro e só merecessem aplausos deslumbrados. O eleitor indeciso se vê rifado, atingindo por tiros envenenados que o constrangem, que o confundem ainda mais. Em sua ânsia por se diferenciar, os propagandistas partidários ateiam fogo à própria credibilidade para desqualificar o adversário. Contra esse maniqueísmo estreito e eleitoreiro, o cidadão tem poucas instâncias a lhe socorrer além da imprensa. Se ele souber manter-se distante das paixões partidárias, a imprensa poderá ser útil. Tanto em mostrar as diferenças reais, como em mostrar as semelhanças entre os candidatos - e há mais semelhanças entre eles do que simulam suas campanhas raivosas. Só jornalismo independente pode serenar os ânimos e chamar o público à razão. Não existe outra opção para o jornalismo: ou ele se dedica a ser a reserva da razão em meio a essa guerra de irracionalismos, ou poderá ser percebido apenas como linha auxiliar de uma candidatura. Há quem compare as campanhas eleitorais a um campeonato de futebol: cada um torce pelo seu time e, desde que o juiz não apite, vale tudo. A comparação é indevida, naturalmente, pois, em se tratando de eleições, o jogo pra valer só começa depois da apuração. Mesmo assim, se as eleições fossem uma final de campeonato, a imprensa não deveria torcer por nenhum dos times. Deveria torcer para o juiz, ou seja, pela lisura da competição, pela soberania do eleitor. É isso que fortalece a democracia. O resto é polarização, essa mania dos irresponsáveis. JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP

CARTAS DOS LEITORES FICHA LIMPA Temer

Acho que precisa ficar muito claro que o projeto ficha limpa não será votado porque Michel Temer, desde o início, foi contra a iniciativa popular. ANTONIO DO VALE

adevale@uol.com.br São Paulo

Não comoveu

Com grande desapontamento e uma imensa revolta soube que o projeto ficha limpa será enviado para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), onde, além de ser desfigurado por falsos representantes do povo brasileiro, será empurrado com a barriga para não ser aplicado já nas eleições

deste ano. DEM, PSDB, PPS, PHS, PSOL e PV assinaram o pedido para a votação imediata do projeto, mas foram atropelados pela maioria formada por PMDB, PT, PTB, PP e PR, que se negou a dar apoio à votação e permitiu que ele fosse mandado à CCJ.Vamos guardar na memória os nomes desses partidos que negaram apoio ao projeto e mostraram ao

Brasil que estão se lixando para a opinião do seu povo. RONALDO GOMES FERRAZ

ronferraz@globo.com Rio de Janeiro DESASTRES

Dor e vergonha

Dói assistir à tragédia das mortes

nos deslizamentos dos morros do Rio. Insuportável é tolerar os políticos que deixaram de fazer o que deveria ter sido feito e, em entrevistas patéticas, tentam atribuir à população a responsabilidade sobre o que na verdade sempre foi tarefa deles. PAULO SERODIO

pserodio@uol.com.br São Paulo


A3

Tribuna Nacional

DOMINGO, 28 DE MARÇO DE 2010

ECONOMIA & Negócios

União Européia coloca 30 bilhões de euros à disposição da Grécia

Ministros europeus realizaram conferência neste domingo para definir ajuda; ativação do empréstimo dependerá do governo grego BRUXELAS-Os governos da zona do euro (grupo dos 16 países que adotam o euro como moeda) entraram em um acordo neste domingo, 11, sobre as condições para a concessão de um primeiro empréstimo no valor de € 30 bilhões à Grécia, caso o país necessite. O anúncio foi feito pelo presidente do grupo de ministros das finanças, o Eurogrupo, JeanClaude Juncker. Ele ressaltou, contudo, que o Eurogrupo não decidiu sobre a ativação dos empréstimos, o que dependerá da decisão do governo grego.

O ministro de Finanças grego, Yorgos Papaconstantínu, disse que “o governo não pediu para ativar o mecanismo, apesar de este estar à sua disposição de forma imediata”. Outra parte da ajuda, não detalhada ainda, será dada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). O encontro foi realizado neste domingo por meio de tecon

ferência. O preço dos empréstimos bilaterais europeus será fixado conforme as regras usadas pelo FMI e deverá girar em torno de 5% de juros no primeiro ano, afirmou o comissário europeu de Assuntos Econômicos e Monetários, Olli Rehn. Na semana passada, cresceram as especulações e perspectivas de que a Grécia terá de recorrer ao pacote, tendo em vista a dificuldade que o país vem encontrando para se financiar no mercado, por causa do elevado retorno pedido pelos investidores. O país enfrenta um grande desequilíbrio nas contas públicas e taxas de desemprego cada vez maiores. Na última sexta-feira, a agência de classificação Fitch Ratings rebaixou as notas de risco de probabilidade de inadimplência do emissor (IDR) de longo prazo da Grécia em moeda estrangeira e local para BBB-, de BBB+. As perspectivas para os ratings são negativas. Em um comunicado, a agência afirmou que o rebaixamento reflete a intensificação dos desafios fiscais

Eric Feferberg/AFP

Encontro reuniu chefes de Estados e de governos dos 27 países da UE

em resposta às perspectivas mais adversas para o crescimento econômico e ao aumento dos custos com juros. O governo grego busca cumprir a meta de déficit

orçamentário de 8,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2010. Em 2009, o resultado negativo deverá ficar em 12,9% do PIB, segundo estimativas do próprio governo,

mais do que quatro vezes o limite estipulado pela União Europeia. DANIELLE CHAVES E GUSTAVO NICOLETTA.

Mantega pode baixar taxas de importação e evitar preços altos ‘Sempre temos possibilidade de abrir mais as importações para combater algum preço irrealista na economia brasileira’ SÃO PAULO - O ministro da Fazenda, Guido Mantega, sinalizou hoje que o governo poderá atuar para impedir aumento de preços considerado abusivo, reduzindo as taxas de importação para facilitar a entrada de produtos importados no país. Questionado sobre se fazia referência ao setor siderúrgico, ele foi taxativo: “não, me refiro a vários produtos”. Mantega ressaltou não ter visto nenhum setor cometer abusos ou dar indícios de formação de car-

tel, mas destacou que o governo está “vigilante”. “Eu acompanho todos os preços importantes, como insumos de forma geral, mas não tenho notado nenhuma anomalia”, afirmou. Mantega disse ainda que, se isso ocorrer, o governo chamará os empresários para discutir o assunto. Na sua avaliação, o aumento de preços em alguns casos está relacionado à retirada de descontos oferecidos no ano passado. “Alguns setores que deram desconto no ano passado estão retirando esses descontos este ano. Então, algum ajuste de preços haverá”, exemplificou. Um dos exemplos, de acordo com ele, é o setor serviços que pode elevar preços devido ao aumento

na economia e ao crescimento da renda da população. “Os preços administrados, não vão subir”, disse, citando que estes itens são reajustados com base nos IGPs, que foram baixos no ano passado. “De resto, sempre temos possibilidade de abrir mais as importações para combater algum preço alto na economia do país”, afirmou. Ele confirmou ainda que o governo lançará nas próximas semanas um pacote para estimular as exportações brasileiras. O ministro também fez críticas à China, que mantém sua moeda artificialmente desvalorizada. Ao falar sobre a possibilidade de devolução de créditos tributários aos exportadores, Mantega decla-

rou que essa também é uma medida em estudo pelo governo. Na sua avaliação, é preciso elevar a competitividade das exportações

brasileiras, uma vez que a maior parte dos países não está crescendo. ANNE WARTH


A4 ECONOMIA

Tribuna Nacional

DOMINGO, 28 DE MARÇO DE 2010

JOSÉ PAULO KUPFER

Um copo com água pela metade Os significados dos movimentos de preços embutidos no IPCA de março são do tipo do copo com água pela metade. Dependendo de quem observe o copo, ele pode estar meio cheio ou meio vazio. Dependendo de quem olha para os componentes do IPCA e para as comparações com o índice em outros períodos, a inflação pode estar explodindo ou caminhando para uma acomodação. Assim, a pergunta relevante a responder, no momento, é a seguinte:as pressões remanescentes são também sazonais ou derivam realmente de um aquecimento exagerado da demanda?

Ocorreu em março, como era de esperar, um refluxo dos picos sazonais registrados em janeiro e fevereiro. Os preços de itens dos grupos educação e transportes, vilões do primeiro bimestre, ao lado dos alimentos, acomodaram-se. Destaque para os combustíveis, que mostram tendência de descompressão. Infelizmente, o item que mais pesou no IPCA de março não permite uma resposta inequívoca sobre o comportamento da demanda. As maiores pressões, que respondem por dois terços do índice, vieram do item alimenta-

EDITORIAL ECONÔMICO

Os poderes do Fisco Tribuna Nacional

A ação articulada contra operações ilegais de planejamento tributário por meio do qual as empresas utilizam brechas na legislação para pagar menos impostos é uma prova clara de que a Receita Federal dispõe de quadros instruídos e preparados e dos instrumentos legais para combater as formas mais sofisticadas de sonegação. São excessivos os poderes adicionais que lhe confere o conjunto de propostas do governo em exame no Congresso Nacional. Três projetos de lei ordinária e um projeto de lei complementar dão à Receita o poder de agir como Polícia e competência para tomar decisões privativas da Justiça. Os fiscais poderão quebrar sigilo, penhorar bens e levá-los a leilão e até mesmo arrombar portas sem autorização judicial. Por violar garantias básicas do cidadão, des respeitando a Constituição, e também por ser desnecessário pois a Receita já dispõe de meios suficientes para bem desempenhar a sua função. A Receita, reconheceu o subsecretário de

Fiscalização, Marcos Neder, tem como distinguir as operações de planejamento tributário legítimas, das ilegítimas. Já sabe como combater estas últimas e se prepara para fazer isso com mais eficácia. Trata-se de organizar o trabalho de fiscalização, orientar as equipes e focar a ação no exame das operações mais frequentes empregadas pelos contribuintes para deixar de declarar e recolher os tributos devidos. Para defender o conjunto de propostas em tramitação no Congresso, o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, argumenta que a Receita poderá reduzir o espaço de manobra dos contribuintes devedores, que respondem por cerca de 80% dos débitos lançados como dívida ativa da União, a dívida que não pode mais ser contestada em nenhuma instância e que já venceu. O que o governo tem a fazer é cobrar aquilo que lhe é devido e que, só no caso das dívidas tributárias, soma mais de R$ 800 bilhões, e para isso não precisa impor o terror a todos os contribuintes.

ção e bebidas. As relações deles com os excessos de demanda não são fáceis de identificar. Tomate, batata e leite continuam campeões de alta de preços, mas isso configura mais um choque de oferta, por causa da temporada estendida de chuvas, do que pressões de demanda. Excesso de gastos públicos,aumento do salário mínimo e crédito abundante não são boas explicações para as fortes altas registradas nos preços da batata, do tomate e da polpa de açaí. Também não é possível localizar pressões de demanda nos preços administrados, que respondem

por um terço do IPCA e se movimentam independentemente da demanda e da taxa básica de juros (Selic). Eles, aliás, devem contribuir, nesta quadra, para moderar as altas do índice. Resta, então, investigar as altas de preço dos itens que compõem o grupo dos serviços, diretamente afetados pelo nível de demanda. A chave da questão, no caso, localiza-se nos grupos habitação, despesas pessoais, saúde e cuidados pessoais. Esses estão realmente em alta, ainda que essa alta se revele moderada. O resumo da história é que, embora o IPCA mensal deva continuar recuando, o que já acumulou no primeiro trimestre do ano é mais do que suficiente para justificar a aplicação imediata de um freio na demanda. Mas, pelo exposto, seria bom tomar cuidado para não exagerar na dose, diferentemente do que uma parcela do mercado está recomendando.

RESUMO BOVESPA

INTERNACIONAL

OPINIÃO

A culpa é do governo CARLOS ALBERTO SARDENBERG

Chegaram a dizer que o governo gasta pouco em obras de prevenção dos desastres naturais porque é obrigado, por lei, a fazer um superávit primário elevado. Isso, o superávit, é a parte do orçamento que vai para o pagamento de juros da dívida pública com o objetivo de reduzir o endividamento. Fazer esse superávit, regra introduzida pelo governo FHC em 1998 e mantida no governo de Lula, é um dos pilares da política econômica de estabilização, que antes se acusava de neoliberal. Tem enchente por causa do mercado que exige do governo o pagamento de juros em vez de investimento público em obras de contenção e saneamento. Um governo altamente endividado tem dificuldades para se financiar e paga juros cada vez mais altos. Isso reduz sua capacidade de investimento. Ao contrário, um governo que faz o sacrifício de sanear as finanças e equilibrar suas contas adquire maior capacidade de financiamento e investimento. O governo se endividou muito

no passado, fez inflação para desvalorizar suas dívidas e gastos e depois aumentou brutalmente os impostos. E onde está a infraestrutura que amenizaria as catástrofes naturais? Em vez disso, tivemos inflação e calotes. Do Real para cá, o setor público cada vez mais saneado, mais capaz de gastar de maneira saudável. De novo, onde estão as obras? Quais foram os gastos que mais cresceram nos últimos anos? Pessoal, custeio, previdência. O governo arrecada mais de 36% do PIB e aplica menos de 3% no superávit primário. Descontado isso, sobram 33% do PIB, uma receita superior à de qualquer outro país emergente. Descontando o primário, o Brasil dispõe proporcionalmente de mais recursos do que as nações de desenvolvimento parecido. Nessas, a carga tributária não passa dos 22% do PIB. Mesmo assim, não consta que os serviços públicos aqui sejam proporcionalmente superiores. Ocorre que os gastos são mal administrados. Considere Niterói. A prefeitura e o governo estadual

tiveram dinheiro para urbanizar bairros levantados em áreas que se sabia serem de risco. Assim mesmo, acharam melhor levar para esses bairros avenidas asfaltadas, ruas pavimentadas, redes de água e de luz, centros esportivos e até escolas. Por que fizeram isso em vez de, primeiro, impedir que se levantássem os bairros e, segundo, remover as populações dessas áreas perigosas? Quando vem o desastre, autoridades mandam que as pessoas saiam, mas não oferecem locais razoáveis para abrigá-las. E ainda dizem que as pessoas deviam ter consciência de que estavam em uma área de risco. Eis o ponto: o governo é ruim, os políticos são tão desprovidos de espírito público que um ministro acha natural que mande mais verbas para o Estado em que faz política. A culpa é deles, não é do superávit primário, nem do neoliberalismo e, muito menos, das chuvas. JORNALISTA. SARDENBERG@CBN.COM.BR; CARLOS.SARDENBERG@TVGLOBO. COM.BR


Jornal "Tribuna Nacional"  

Jornal feito para a matéria de Projeto Editar

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