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Ensaio sobre fantasmas

Camila Barone Priscila Cristina Rafael Fernandes


Gostaríamos de agradecer ao grupo de pesquisa da escola, às escucadoras Flávia Peret e Débora Braun e aos nossos colegas que contribuíram para a pesquisa com conversas informais e de valor incontestável para este trabalho. Todos os nomes citados no texto são fictícios.


Eu n達o quero ser artista. Rafael Fernandes


A ideia era sentar e conversar com várias pessoas da escola: coordenação, educadores e alunos. Fiz todo um plano que depois não executei. Não consegui, mas conversei com alguns colegas de forma aleatória, sem regra. Quase todos já produziam coisas antes da escola. Todos tinham uma necessidade de exteriorizar seus sentimentos. Assim como eu, eles queriam transformar uma coisa fantasmagórica que mora dentro deles em matéria pintada, escrita, visual, palpável. Às vezes, essas sensações não são nada racionais. “Eu quero fazer isso, mas eu não sei porquê, não sei de onde isso saiu, mas precisa sair.” Rafaela me disse isso um vez em um bar. Ali, as conversas nos dão uma inquietação e inspiração sem tamanho. Costumamos sair sempre: eu, Rafaela, Fernando e Joana. Eles sempre falam que sentem falta de confiança da escola, uma pressão para poder pegar e fazer o trabalho, eles têm vontade de fazer as coisas no próprio tempo e, às vezes, isso não acontece dentro da escola, que exige outro tempo. Conversas em mesas de bar também são processos criativos.


Para mim e para Henrique, o processo criativo funciona muito bem aqui. A vontade de fazer o trabalho combina com a racionalidade às vezes necessária no ambiente de ensino da escola. Aqui, as coisas precisam ser explicadas, pensadas e escritas. E isso ajuda no nosso entendimento sobre o trabalho e sobre nós mesmos, ajuda a visualizar o trabalho dentro da cabeça. Fernando e Gabriela se sentem presos quando têm que falar sobre essas coisas. Eles só querem fazer. A burocracia artística não combina com o impulso criativo deles. Eles são como máquinas expressas de criação. Não que eles não tenham esse cuidado com seus trabalhos, percebo, apenas, modos diferentes de concebê-los. Pensar sobre processo criativo me ajuda a criar. Costumo fazer isso no ônibus, um lugar nada propício, já que há sempre cortes de luz e falta de espaço. Mas durante os 45 minutos de viagem, esse é o lugar mais confortável e sossegado. Nesse caminho, minha letra é linda, os desenhos da Vanessa são maravilhosos e as músicas do Henrique nascem como bebês.


Referências e influências são duas questões importantíssimas no processo criativo com a escola. Aprendemos a entender, pesquisar e usar as referências. Além de conhecer um monte de coisas e nos apaixonarmos por elas. Aqui, nós aprendemos a valorizar nosso trabalho, a igualá-los às nossas inspirações. Nos sentimos livres para criar e usar as referências à nosso favor. É a referência de ter uma referência. Nessa montanha russa, eu descobri como me empolgar com as coisas e também conheci a insegurança e incerteza. Conheci um monte de coisas ruins que posso dizer e sentir sobre os meus trabalhos. Conversei com a Leandra. Ela é capaz de produzir, olhar para as coisas e não acreditar nelas, não enxergar o trabalho ali. Do mesmo modo que ela faz, ela desfaz. Me lembrei também da Gabriela que faz até o ponto de não fazer. Vou tentar explicar: ela quer fazer agora, depois ela não quer fazer mais nada, depois ela quer fazer aquilo que ela tinha desistido de fazer e, no final, ela não faz nada, mas, mesmo assim, ela fez uma tanto de coisa. Confuso? Isso é o processo criativo dela, faz parte de um efeito cíclico, um começo sem fim, um fim sem razão. Um monte de coisa racionalizada sem razão nenhuma.


Outro dia conversei com o Paulo e ele disse que suas coisas precisam ser passadas pra frente, ele faz os trabalhos para as outras pessoas poderem ver e participar. Ele é muito inseguro e um pouco frustrado com a escola. Estranho, porque o trabalho dele é lindo. Paulo e Gabriela são parecidos em algumas coisas. Nesse dia, ele começou a falar sobre suas experiências com o design e o fato de ter feito a escolha errada. Já Gabriela, disse,chorando, que as angústias de Paulo também eram dela, mesmo tendo feito a “escolha certa”. Eu sinto que para eles existem várias coisas mal resolvidas na relação com a escola, com a linguagem e com o processo criativo. A escola tem também um papel importante no processo criativo e emocional dos alunos. São muitas descobertas e muitas opiniões de todos os lados. Mostrar um trabalho para o educador nem sempre é fácil. Ele pode interpretar aquele trabalho de uma forma que você nunca tinha imaginado. Interpretar a visão que ele teve depois dele ter interpretado o meu trabalho influencia o processo criativo, as vezes, até abala. É o nosso posicionamento diante da nossa criação e a relação que ela estabelece com as outras pessoas. O emocional participa demais no processo criativo, as coisas de fora são as que sempre entram e mudam a gente.


Mas no fim das contas é isso mesmo. Pesquisar sobre processo criativo é um processo criativo. Tudo é criado, nós criamos o tempo todo. Eu escrevo este texto para tentar entender como eu crio as coisas. O texto faz parte do meu processo criativo. Entender o processo dentro de uma escola de arte, onde nem sabemos direito o que somos é muito difícil. Estudantes de arte? Artistas? Mas o que viemos fazer aqui? Henrique decidiu entrar na escola para dar vida aos seus desenhos, queria fazer arte, e a primeira coisa que me disse foi “eu não quero ser artista” . Tentar ver a dimensão disso tudo é produzir essas palavras sem resposta. É um ensaio sobre uma coisa irracional. É difícil querer aprisionar um fantasma. Por Priscila Cristina


Ensaio sobre fantasmas é um livro-vivo: cheio de certezas, interrogações, contradições. Inquieto como seus autores. Mistura texto, imagens e rascunhos. Um ensaio sobre um assunto que motiva grandes discussões e reflexões dentro de uma Escola de Arte: processo criativo. Camila Barone, Priscila Cristina e Rafael Fernandes cada um de sua forma - pensam, falam e desenham sobre o tema. O projeto do livro surgiu dentro do Grupo de Pesquisa da Oi KABUM! Belo Horizonte Julho de 2012.


Ensaio sobre fantasmas

Camila Barone Priscila Cristina Rafael Fernandes


Por que eu crio? Frustração, sufocamento, necessidade. Por todos os lados não vejo saída, por toda parte me perco... Um ponto luminoso fosco que tento alcançar, tento me encontrar, mas sempre me perco. Um alívio inexplicável, vômito de sensações e sentimentos. Preciso desintoxicar socialmente, preciso tirar o peso e a sujeira dos meus ombros, não busco a perfeição, rejeito a perfeição em todos os sentidos. Abraço meus defeitos e me torturo por isso. Não faço parte de nada e o todo me atinge diretamente. Me expresso e me procuro, sensibilidade suicida matando algo dentro de algo que me leva a nada e que me incomoda em tudo. Crio pelo alívio, crio porque não consigo expressar de forma mais sincera algo que está dentro de mim e não é possível enxergar.


Crio de dentro para fora, crio para mim mesmo, não pela aceitação, não quero elogios, nem aplausos, não quero expor em uma grande galeria, odeio chamar de arte o que faço, odeio dar um rótulo, como se tudo precisasse de explicação para ser aceito pelas pessoas. Por isso espero que as chamas das verdades reais destruam todos os conceitos de beleza, sociedade, arte, família, amor e vida e que as cinzas reformulem a forma de pensar e agir. Como isso nunca acontecerá, espero que eu possa, pelo menos, achar uma saída. Enquanto procuro, o ar fica mais denso, a respiração mais ofegante, não sei mais ao certo o que é real, e o que eu acho ser real.... Mas sei que o mais próximo que consigo chegar de tudo isso é me expressando por meio de minhas criações, é o único momento em que chego perto de mim mesmo e sinto um toque suave de prazer, paz e motivos para continuar... Por Rafael Fernandes


Ensaio Sobre Fantasmas  

livro pesquisa sobre processo criativo e seus fantasmas.

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