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chegam ao conhecimento do público e o modo de atuar das polícias brasileiras começa a ser questionado repetidamente. O mais recente caso que recebeu boa repercussão na mídia foi o de Fabio Hideki, técnico de laboratório do Centro de Saúde-Escola na USP e estudante de jornalismo na universidade. Ele foi preso no dia 23 de junho em uma manifestação contra os gastos da Copa do Mundo e ficou 45 dias na cadeia baseado apenas no relato dos policiais do DEIC que o abordaram nas escadas da estação Consolação do Metrô e em um artefato que os policiais diziam ser explosivo e estar sob a guarda de Fabio. Chegou-se à conclusão que aparentemente não era nem uma coisa nem outra. Hideki afirma que o flagrante que acarretou em sua prisão foi forjado, e pior, que foi torturado dentro das instalações do DEIC, departamento da Polícia Civil. Ele teria sofrido pelo menos duas “sessões de socos” antes de ser encaminhado para o Complexo Penitencário de Tremembé, no interior de São Paulo. Isso com um rapaz que era definido assim por seus colegas de trabalho: “Uma pessoa normal, calma, tranquila. É muito brincalhão e gosta muito de crianças. Elas são a paixão dele. Passava a maior parte do tempo alegrando elas e era sempre muito atencioso”. Na primeira semana de setembro o Tribunal de Justiça de São Paulo considerou o repórter fotográfico Alexandro Wagner Oliveira da Silveira culpado por ter levado um tiro de bala de borracha no olho esquerdo em um protesto de professores no dia 18 de maio de 2000. A instância judicial não condenou a atitude violenta da polícia de reprimir protestos com tiros indiscriminados de balas de borracha. A culpa foi

do fotógrafo por ter “se colocado em posição de risco”. A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) lançou uma nota repudiando a decisão da Justiça. “A decisão do desembargador Abreu Amadei dá carta branca para que essa violência persista e, quiçá, se agrave, já que não é passível de punição. Trata-se, portanto, de uma ameaça à liberdade de imprensa”, diz a nota. Esse tipo de tratamento que perdoa a truculência policial e prefere culpar a vítima se reflete morbidamente na atuação da corporação. Os “autos de resistência”, forma de colocar quem foi assassinado por algum policial militar como culpado pela própria violência sofrida, eram utilizados indiscriminadamente nos boletins de ocorrência para retirar a responsabilidade da ação policial. A Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo aboliu essa denominação em janeiro de 2013, e desde então os mortos pela polícia não podem entrar mais para as estatísticas como culpados pela própria morte. Uma pesquisa feita pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública junto à Fundação Getúlio Vargas, que mostra a opinião de policiais tanto militares quanto civis, da polícia rodoviária, federal, científica e dos bombeiros, sobre a postura das corporações que trabalham, mostrou alguns dados estarrecedores. Quase metade dos entrevistados (43,2%) concorda em certa medida com a afirmação “policial que mata criminoso deve ser premiado pela corporação”. Mais de 40% também considera justo que um policial que matar um suspeito seja inocentado. Por outro lado, os próprios policiais têm convicção de que o modo como as polícias brasileiras atuam hoje é 17

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Revista Contexto - 9ª edição  

Revista online sobre política, movimentos sociais e cultura, escrita por jovens.

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