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PRINCIPIO

REVISTA DE FILOSOFIA

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UNIVERSIDADE FEDERAL IX) RIo GRANDE IX) NORTE DEPARTAMENTO DE FILOSOFlA

PRINCiPIOS Revista de Filosofia

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Novembro de 1994


PluNctPIOS

Revista de Filosofia do Departamento de Filosofia da

Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Reitor

Geraldo dos Santos Queiroz

Vice-Reitor

J080 Felipe da Trindade

DEPARTAMENTO DE FILoSOFIA

Chefe

Hermano Machado Ferreira Lima

Coordenador de Gradua~o

Eduardo Jorge Maciel Pinheiro

Conselho Editorial

Claudio Ferreira Costa

Juan Adolfo Bonaccini

Markus Figueira da Silva

Ruben Guedes Nunes

Oscar Federico Bauchwitz

Publi~ Anual

A revista est3 aberta a

editoriaL devendo ser

contribui~

a serem avaliadas pelo conseIho

enviadas em disquetes com programa Word for

Windows au Fcicil. E~:

Departamento de Filosofia da UFRN. CCHLA. campus Uni­ versitario • Lagoa Nova. CEP: 59072-970. Natal-RN.

Preco do exemplar: 5 reais

Aceita-se permuta


Apresentarlio Verbo, "big-bang", chaos, fluxo, niJus, transcendencia, imanen­ cia, 0 uno, a ousia, os atomoi orkhai, os atomoi stoikheia, a existencia, a essencia, 0 amor, a energia, 0 imaterial em movimento, a torfiJo do espaco, 0 nada, 0 autoconsciencia, a praxis, a vida, a ideia - qual 0 pnncipio? Essa profuslio tematica aberta pela interrogafiJo curiosa e critica da mente humana desde a Grecia. e quift1 antes dela, tem produ­ zido a riqueza de "verdades e saberes" cujos fios conceituais tem entre­ tecido, na Historia da Filosofia, os caminnos do filosofar. Principios foi concebida como um veiculo informativo estimula­ dor e articulador dessa multiparidade de pontos de vitsa que, no jim das contas, conmbui para aprofundar e ampliar 0 campo da Filosofia; e, destarte, coloea a rejlexilo filosofica como campo privilegiado do dialo­ go interdisciplinar. Reconvergir aqui, aquela eruwiJo de verdades. Essa e nossa proposta.

Principios tera, inicialmente. uma periodicidade anual. Este pnmeiro volume prionza os trabalbos desenvolvidos pelos docentes do Departamento de Filosofia da UFRN, cujo nivel tem sido contmuamente elevado, tanto pela constante preocupacao dos programas administrati­ vos em qualificar os antigos professores, quanta pela admissiJo de novas professores excelentemente qualificados. Inserimos, ainda, nesta edifl/o algumas colaboracses de docentes de outras Universidades, como esti­

mulo a frutuoso intercdmbio. Gostariamos de agradecer 0 apoio recebido do prof. Jose Lacer­ da Alves Felipe, editor da revista V"'brcia, que se pronttficou a impri­ DO pessoal do Cooperativa do Editora Universita­ ria e todos aqueles que de alguma forma contnbuiram com esta reolizafiJo.

mir esses exemplares,

A Comissao editorial


SUMAIuo AntOnio Basilio N T de Menezes HABERMAS E A FENOMENOLOGIA DO FATO MORALDE SlRAWS<>N

7

Cinora Nahra

o AGIR. MORAL E A TRAGEDIAMODERNANA FILOSOFIA DE K.ANf

17

Claudio Ferreira Costa AS APORIAS DO REALISMO CLAssICO

39

Manoel Barbosa de Lucena ECONOMIA DE MERCADO

47

Jorge L. R. de V'asconcellos BERGSON E AS IMAGENS 00 CINEMAMODERNO

51

Jose Ramos Coelho A DIALETICADA NATUREZA UM NOVOPARADIGMA FJLOS6. FICO PARA A ECOCOGIA

59

Juan Adolfo Bonaccim 00 PROBLEMA DO ENSAIO - 00 ENSAIO COMO PROBLEMA

91

Marbs Figueira SABEIX>RIAE lARDIM

101

OscarFederico Bauclrwitz AIllS1'6RIAEMI0AQUlMDEFIORE

109

Ruben G. Nunes LUX IN" pRAxIs

131

CharlesSandersPeirce OBJE<;OES AO CARTESIANISMO

149


HABERMAS E A FENOMENOLOGIA DO FATO

MORAL DE STRAWSON

Antonio Basilio Novaes Thomaz Menezes

A presente exposi~ trata da apr~ que Habermas faz na "Consciencia Moral e Ag)r Comunicativo" a partir das quatro observa­ ~. de Strawson em "Freedom and resentment". Esta toma como objeto de an3lise os aspectos de validez dos fundamentos MOrais das nonnas e, "as ~ de validade que erguemos com os atos de fala Iigados norma" 1, levantados pelas consi~ de Habermas atraves das ob­ ~ de Strawson.

a

I Delimitada no campo das encas cognitivas, a contrar~ de Habermas apresenta como pano-de-fundo a retomada da ~ kantiana da idCia fundamental da possibilidade de verdade das quest&s das condi~ pr3tico-morais, no aspecto geral da an3Iise das condi9Des de p)$sibilidade de uma ~ imparcial das questCies pr3ticas basea­ daapenas em razOes. Situando-se navertente da Otica do disgu'so cJesen­ vOlvida por Apel, sua perspectiva de abordagem centra-se na fimd:unen­ ~ transcendental da etica, a partir de pr~ da razio no discurso. De modo que esta tem 0 sentidopropedeutico de elaboracio da


8 problematiea das etieas cognitivistas no quadro de distin~ de aborda­ gens nio-a>gnitivistas. Tomada na forma de urn diaIogo com 0 "empirista que se apre­ senta como cetico moral"2, a contrar~ de Habermas encontra 0 seu nUcleo na conexlo entre a ~ empirista do conceito de raciona­ lidade (poQulada em Horkbeimer na concep;:io de razio instrumental ) e a correspondente reinte~ das experiencias morais basicas (na perspectiva de Me Intyre, do afastamento das questCies pranco-morais ­ do tipo "0 que fazer?" - da discussfio racional). 0 nUcleo da conttargu­ ~ se desenvolve a partir do procedimento terapeutico e mobiliza­ dor das fo~ de auto-saneamento da reflexao da etica fil0s6fica, "contra o deslocamento dissimulador dos fen6IDeOOS morais fundamentais" 3, classificados em termos de uma "patologia da consciencia moderna"4 que exige uma expli~ no quadro de uma teoria da sociedade, a qual a etica filosOfiea nio pede fomecer. Para isso, Habermas se utiliza da fe­ nomenologia lingUistica da conscieneia mea de Strawson, enquanto forc;a mai&1tiea das in~ morais da vida cotidiana, fazendo valer contra 0 empirismo cCtico 0 aspecto fenomenol6gico da rede de sentimentos e atitudes morais, que se encontra tecido na pr3tiea cotidiana. Sinalizando ja ai 0 perfomatico na esfera da pnltico-moral, enquanto elemento central para a fundame~ de uma etica do discurso. Contudo, nos restringindo aqui apenas as passo propedeutico, no carater geral da conttar~com uma forma de ceticismo moral, Habermas trata, especificamente oeste ponto, da realidade das expenen­ cias morais, como da possibilidade de uma filosofia moral na determina­ ~ do sen objeto e da perspectiva de abordagem. De modo que, 0 que se encontra tematizado com a fenomenologia de Strawson 0 aspecto de realidade das experimcias morais no seu carater implicito de universali­ dade. Na medida em que, a ~ da realidade das experiCncias morais feim por Strawson. impIiea na acei~ de uma determinada esfera de objetividade, a qual est! pressuposta uma universalidade do fato moral. E isto, por sua vez, abre a possibilidade de uma etiea cogniti­ vista enquanto uma filosofia moral. Strawson demonstra a realidade das expenencias morais a part!r de uma ~ emotiva, a "indi~ com que reagimos injUria"S; que atesta 0 seu car3ter de objetividade como uma ~ que se consoli­ da em res-centimento enquantc expressio de u.ma conden~ moral que permanece oculta pela nOO-~da ofensa. Tal caI3ter de urn senti­ mento persistente impIiea numa pressuposi~ de universalidade na qual todo individuo estA sujeito ao ressentimento. E este revela a dimensIo moral da··injUria na medida em que do se refere diretamente ao a10 da ofensa, mas a injlistic;a que foi cometida. 0 que, em outros termos, eqiii­ valeria dizer que a injUria, enquanto tal,s{) tomada como ressentimento,

canter

acao

e

a

e


9

enquanto este, como sentimento permanente, esta referido a um conteUdo normativo, pressuposto em um conceito de justi~ 0 qual se configura na forma de uma espectativa do participante da iritetaItIo. Assim, no Ambito da ~, subliDhando o sell carater de ali­ tude perfonnativa, e que, a partir da reaJidade das experiencias moraiSe de sua universalidade. Habennas tonJa as quatro. obse~ que Strawson faz soble 0 exemplo do ressentimento. A primeira

na

trata em carater das desculpas e enfoca 0' aspecto determiJJante da

~

in~

atitude.

Tomadas sob 0 aspecto do proa'dimento, as descu1pas procedidas pelo autor ou pot urn terceiro, assinalam diferentes perspectivas de ex­ plici~ da ~ nas respectivas atitudes do participantes e do nJo.. participante. "As descul~ do como que reparos que.procedemos em inte~ perturbadas" . iDicialmente, etas se situam no :imbito das ~ que lesam a integridade do outro, aga acei~ das descu1pas nJo pereniza 0 sentimento de indi~ inicial com re~ a esses tipos de ~.

Strawson, na medida em que tenta identificar 0 genero desses dis­ tWbios. distingue duas esp6cies de desculpas: I) urn tipo que se refere ao autor, como reconhecimento exp1fcito da ofeasa, na perspectiva do patti­ cipante 113 ~. 2) e urn outro tipo, referido ao terceiro, enquanto um reconhecimento parcial voltado para as circunstAncias da ofensa, 113 perspectiva do observador 113 inte~. A partir dessa diferenci~, Habermas toma 0 caso da referencia a circunstancias atenuadoras do ato cia injUria, no sentido em que a partir detas " . seria inteiramente aprapriado sentir 0 ato de injUria como in­ flingir uma injustitra,,7. Expressa na forma de sent~ como: "Sua in­ te~ nIo era isso", ou "Ele nJo sabia que...", esse tipo de descu1pas iluminaria a ~ e 0 sentimento de ofensa sob uma outra luz que nJo poria em dUvida a imputabilidade' do agente. Embora, dentro dessa di­ mensIo, Habermas chama' nossa ~ para 0 caso especffioo do ato cometido por alguem sem consciancia de tal (caso da criant;a, do louco, do bebado etc.), ondeesse tipo de desculpas ilumina 0 prOprio autor em ato, de tal modo que a este nio se possa atn"buir a qualidade de um sujeito imputivel sem restri~. ExchiiDdo de antemio as eensuras morais na a~de tuna atiUlde ~te. De modo que, nesse tipo de descul­ pas, salienta-se em~ cia atitude, odes1ocarnento do foco iluminador da ~ para 0 prOprio ator, sob 0 carater dean~ da imputabilidade do sujeito na esfera cIa~. Concluindo-se dai que "a atitude objeti­


10

vante de urn nio-participante suprime os papeis comunicacionais de 18 e 28 pessoa e neutraliza oAri1bito dos fenOmenos morais em geral"S. Assim , a descri~ do ambito fenomenal em Strawson 0 leva a concluslo de que as ~ pessoais do ofendido (exemplo dos ressenti­ mentos), apenas do possiveisna atitude perfonnativa da ~. Se sua atitude diante de alguem e inteiramente objetiva, entJo muito embora voce possa combate-la, voce nio pode discutir com ele e, muitoembora a voce possa falar com eles e ate negociar com ele, voce nIo pOck argumentar com ele. Voce PQde, no maximo, fingir que esta discutindo, ou argumentando com ele,,9. Com isto, a consideralyio propedeutica da IE observ~ deriva do aspecto metodol6gico de pen;:eWio do fen6meno moral, oude Haber­ mas destaca a necessidade da filosofia moral adotar uma pe~ a partir da qual possa perceberosfen6menos morais enquanto tais" 10. A segunda ~ trata da possibilidade. pela analise da linguagem , de uma instincia de esclarecimento no complexo de

atitudes efetivas as quais estio submetidas as in~.

Tal ~ enfoca a demo~ do emrelacamento miltuo dos diferentes sentimentos morais( a partir dos sentimentos de culpa e da obri~) em re~ intemas, sa1ien1ando 0 duplo aspecto: 1) das rea­ ~ pessoais do ofendido, compensaOOs por desculpas~ 2) e do perdio da injusti~ sofrida por parte da pessoa atingida. De modo que, nesse entre­ ~, desdobra-se uma dupla correspondencia entre os sentimentos do ofendido e a gratidio daquele a quem se faz urn. beneficio, e entre a con~ da ~ injusta e a ~ da boa. No complexo de atitudes efetivas, "possivel de ser esclarecido pela analise da lingnagem" II, Strawson destaca 0 fato de que todas as eDlOQi5es estJo inseridas numa pritica cotidiana acessivel apenas numa atitude performativa e estabelece deste modo uma conexlo entre senti­ mentos moraise atitude peIfonnativa. onde a inevitabilidade da rede de sentimentos se eocontra DO engajamento assumido a partir do DOSSO per­ tencimento aurn. mundo da vida que nIo podemos revogar. Disto deriva endo que, sob 0 car3ter irrevoglivel do engajamentO da rede de sentimentos morais com 0 mundo da vida, a atitude ol!jetivan­ te assume urn. aspecto secundiiriO,· tanto na ~ dos fenOIDenOS morais, como na perspectiva do participante da inte~. Desta forma Habermas aponta a questio das ~ desenvolvidas na perspectiva do observador,"gue resuItam DlJDI3 reinterpretadlo das intens;(§es morais do cotidiano,,12, as$ina);uvJo. 0 aspecto de deficiCncia das eu<3 empiristas quanto a sua capacidade esclarecedora, na medida


11 em Que (sob 0 aspecto das reinterp~) mesmo que etas fossem, ver­ dadeiras, elas nJo atingiriam as in~ da pratica cotidiana. Cita

Strawson

"0 compromisso humano com a partici~ nas relac&s inter­ pessoais ordinanas e, acredito, par demais abrangente e arraigado em nOs para levarmos a serio 0 pensamento de que uma convi~ te6rica geral poderia modificar 0 nosso mundo a tal ponto que nio haveria nada de parecido com as rel~ interpessoais, tais como a entendemos normal­ mente" 13. Assim, a coosi~ propedeutica que Habermas faz na 2- ob­ serv~, volta-se para a necessidade da filosofia moral tomar oomo ponto de partida, "pelo menos virtualmente" 14, a atitude dos participan­ tes na pr3tica comunieativa cotidiana, enquanto tarefa de "oontribuir para o aclaramento das intui~ cotidianas no curso da sociaJiza'¥io,,15. A terceira obse~, tomadaenquanto "8mago moral das ~ efetivas" 16, trata do aspecto universal da expectativa normativa no 3mbito moral das ~ afetivas (indi~ e ressentimento) na ~. Eta parte do sentido das reac;Oes afetivas, da indi~ e em res­ sentimento, dirigidos contra 0 agente ofensor da integridade do outro na in~. Deslocando 0 carater moral da indi~ e do ressentimento, da esfera da re1a'¥io interpessoal (do imbito da circunstincia a qual a in~ entre duas. pessoas particuIares tenba sido perturbada) para a esfera 5Ut!jaceDte da expedativa normativa, abaVes dos sentimentos de culpa e obri~ que remetem para alem do particuJarismo concernente 80

indivfduo Duma determinada si~. o car3ter moral da indi~ remete-sea ~ de uma ex­

pectativa normativa, cuja a validez se esteDde do caso de normas morais estritas para todos os atores imputaveis em geral. De forma que a validez pressuposta para aIem da interafrOO entre Ego e Alter se estende para todos os membros de um grupo social. Sob 0 aspecto da desculpa, isto se explicita no fenomeno do senti­ mento de culpa que emerge na autoeensura do autor da ~ . A ceo­

sura corresponde ao rompimento de uma

obri~

naquilo que

e reco­

nhecido como uma "ofensa", enquanto fere na pessoa do ofendiem uma expectativa suprapessoal que subsiste em todos os casas, igualmente para ambos as partes. De modo que a censura do ofendido oorresponde 80S escr6pulos de quem cometeu a injusti~ .Ass:im. .para Strawson, 0 carater moral das .~ afetivas, "dirigidas em si~ detenninadas contra pessoas pa.rti.culares,,17, esta


12 associado a forma impessoal da indi~", dirigida contra a vio~ de expectativas de .comportamento geneI3lizadas ou normas"18. Deri­ vando-se dai que, apenas a pretensio de vaJidez universal e que pode conferir ao interesse, a vontade OIl a norma, a dignidade de uma autori­ dade moral. Oeste modo, partindo docar3ter de pretensio universal da autori­ dade moral, Habermas tece como consi~ propedeutica da 3- obser­ ~ 0 aspecto de que a fil0s0fia moral, ao tentar contribuir para 0 acla­ ramento das intui~ cotidianas, a partir da atitude dos particulares na pnitica comunicativa cotidiana, eIa deve constituir como seu objeto, a pretensio de validez erguida nos conteUdos do ato de fala na perspectiva do procedimento 118~.

A quarta ~ trata, por fim, do aspecto cogni­ tivo da pretensio de universaJidade da validez moral na conexio interna entre a autoridade das normas e a pretensio impessoal das nonnas de ~. Tomando como ponto de partida a peculiaridade da validez moral (a pretendo de validezuniversal), enquanto aquilo que confere autorida­ de moral ao interesse, vontade on norma ; a quarta observ~ assinala 0 conteUdo cognitivo da indi~ e da censura, ao dirigir-se contra a vio~ das

normas.

"Quem faz uma censura quer dizer com isso que 0 culpado pode eventualmente se justificar" 19. A indi~e acensura assim como a sua possibilidade de justifi~ nos remete ao conteUdo cognitivo pre­ sente no dever de comprimento de nonna como taIntlem de sua prOpria justifi~ . De tal modo que ai se identifica uma coneuo intema que as estabe1ece entre: 0 aspecto da autoridade de nonnas vigentes, enquanto obri~ dos desbnatarios de fazer on Ilio fazer, relacionado ao acordo de nonnas, e 0 aspecto da pretensio impessoal com a qual as nonnas de ~ e os mandamentos se apresentam, ou seja, 0 car3ter de legitimidade destes na medida em que (em caso de necessidade) possam mostrar como legitimos. Neste aspecto, 0 dever de cumprimento da norma ("<lever fazer a1go"), corresponde raz6es para 0 seu prOprio cumprimento (.,., ra­ zOes para fazer alSO"). 0 que traz como contrapartida, 118 esfera da justi­ fi~, a recusada expectativa normativa; do fundamento do sentiinento de indi~, como injustificada. .Com isto se coloca entao 0 problema da naturez.a das razOes, as quais apela a expectativa normativa. Como tambem 0 sentido das justifi­ ~!JlQfaI-pr3tioasna rede de sentimentos morais, tecidos;peIa pratica comunicativa· cotidiana. Noutros termos, 0 problema poderia: ser dimen­ -r ,

as


13

sianado a partir do aspecto de devo,au que deve'rnOs 6zet?"

localiz~

correta da quesdo: "0 que

Sd;n'e esse~, flabermasatiaves de Strawson, salienta a im­ possibilidade dotipo de 'cinalise d8s razlies do agir moral relacionada a fins . De modo que a razio do agir moral se encontraria obIiterada: tanto na perspectiva Cmpirista .de ~ da questio pnitica que devo fazer?") 'a questOes correlativas de segunda ordem ("0 que quem fa­ zerr'~ "Como posso faz8-10?"), quando na perspectiva utilitarista., do bem-estar social que reduz a questio ("0 que devemos fazer?") 'a tecnica des efeitos desej3veis da ~ social, enquanto uma razao tomada como ~ des meios aos fins. Cita Strawson

eO

" ....:falar apenas em termos de utilidade social ~ dei­

xar de fora algo que e vital em nossa con~ dessas

pr3ticas. Esse alga vital pode ser restauradoo atentanoo apenas para essa complicada teia de atitudes e senti­ mentos que formam uma parte essencial da vida moral tal como a conhecemos e que se opOe em tudo a ~e­ tividade de atitude"20. Na esfera de arti~ social do sentimento justificad>, Strawson compreende de antemio as normas, enquanto instrumentos passiveis de justifi~, de urn. ponto de vista da utilidade social, como mais ou menos adequados 'a fins. Embora, ele nIo coloque em questJo a utilidade das prancas sociais, mas 0 sentimento justificado no contexto delas.

.

Assim, dentro da estrutura geral, da teia de atitudes e sentimentos humanos, ele toma a existencia de "urn ~ para modifi~, redi­ recionamentos, criticas e justifi~"21 concomitantemente ao aspecto da internalidade das questiSes de justifi~ para com a estrutura, na medida em que etas, ou Ihe do internas, au se relacionam com as suas ~internas.

"A existencia do quadro geral de atitudes e ela prOpria alga que nos e dado como fato da sociedade humana"22. E como tal quadro, no seu conjunto, "nio requer, nem permite uma justificaQio racional exter­ na"23. Strawson desdobra do ambito da internalidade, das questOes de justifi~ em re~ a estrutura, 0 caniter de independencia 00 quadro geral das atitudes com re~ a uma justifi~ par raz6es extemas. Com isto, a consi~ propedeutica que Habermas tece nesta Ultima obse~ refere-se ao aspecto cognitivo das razoes que, como pretenslio de universalidade da validez moral, enquanto justifi~ prati­


14 co-moral de urn modo de agir, etas 1100 se radicam numa r~ afetiva­ mente neutra de re1af;Io meio-fim. Ao contrUio, '0 3$pficto cognitivo das raz6esas remete para urn outro aspecto de jUstificaQio racionaI intema: a ~ da ~ pela pratica do discurso. Assim. DO quadro geral das ~ aqui expostas, no que se refere 80S sentimentos relativos ~ moral das formas de ~, Habermas identifica DO tipo de anAlise desses sentimentos "om significa­ do semeIhante ao que as ~ tern para a expli~ te6rica dos fa­ tos,,24. E nessa medida, dentro de uma perspectiva oognitivista a feno­ menologia do falo moral de Strawson contribuiria com t.res elementos fundamentais para a abordagem do fato moral peIa etica. eles: 1) a demar~ do Mundo dos fenOmenos morais, a partir da atitude perfor­ mativa, na perspectiva dos participantes na~; 2) 0 car3ter supra­ pessoal dos criterios de av~ dos mandamentos e normas, referidos ~ afetivas e aos ressentimentos em geral; 3) e 0 vislumbre de "urn outro aspeclO,,25 da justifi~ prfrtico-moral das formas de ~ que 1100 a ~ das re~ meio-fim. Tendo em mente que a exposi~ eucam.inhada ate aqui refere-se ao aspecto intr0dut6rio do capitulo soble as ~ propedeuticas para a fundamen~ de uma mca do discurso. E que esta prossegue ao longo de toda argumenta(:lo das "notas program3ticas". A guisa de uma conchlslo, decidimos nos referir entia existencia de uma fundamenta­ ~ do principio moral pela etica do discurso na sua argume~ contra o relativistnocenco. Nesse aspecto gostariamos de ressaltar aqui a importhcia do ca­ niter perfOl'lD3tico assinalado nas qua1rO ~. Contudo, agora seu aspecto mais geml, dentro do quadro de toda a argum~. Em poucas paIavras, a partir do elemento -perfurmatico das in­ ~ que, DO terrene comum das ~ pragmaticas da argo­ ~, Habennas toma para si 0 argumento de ~ trans­ cedental-pragm3tica de Apel. E, DO passo seguinte, transforma-o, reti­ rando-lhe a pretensio de .~ Ultima". De modo que de se lorna om argumento forte contra 0 cenco, sem qualquer tipo de prejuizo para 0 car.iter transeedental do fundamento discursivo da etica.

a

sao

as

a

e

NotQS:

1 J. Habermas, "ConsciCncia Moral e Agir Comunicativo";cap.3,I, p.62. 2 op.cit., cap.3,I;p.63


15 3 ibid

4 ibid 5 op. cit.; p.l64 6 ibid

7 ibid 8 op.cit.; p.165 9 Ibid. cit.7; P. F. Strawson, "Freedom and Resentment", London 1974, 9. 10 ibid 11 op.cit; p.66 12 op. cit;p.67 13 ibid, cit 9; Strawson 1974, lis. 14 ibid 15 ibid 16 ibid 17 op.cit; p.68 18 ibid 19 ibid 20 op. cit; p.69, cit 12, Strawson 1974, 22 21 op.cit; p.70, cit. 13, Strawson 197774,23 22 ibid, ibidem 23 ibid; ibidem 24 ibid 25 ibid


o AGIR MORAL E A TRACEDIA MODERNA NA FILOSOFIA DE KANT

Cinara Nahra

o presente artigo denominado "0 Agir Moral e a Tragedia Mo­ deraana Filosofia de Kant", est3 baseado em 4 capitulos da disse~ de mestrado "Teoria da ;w;ao moral em Kant", da mesma autora, e que defendida este aDO no corso de p6s-gradu~o em filosofia da Uni­ versidade Federal do Rio Grande do SulIUFRGS. o artigo edividido em quatto partes: Na primeira, denominada "Estabelecendo que a razio pula e pra­ tica", trata-se de reconstituir a argumen~o que Kant utiliza para esta­ belecer oQjetivamente que a razlo porn e pratica, ou seja, pode determi­ nar a vontade. Na segunda, denominada "Sentimento Moral", trata-se de mos­ trar de que modo a razao porn pode se oonstituirem motivo para a vonta­ de, ~ mio da n~ de sentimento moral. Na tereeira" denominada "A Trag6dia Moderna", mostra-se que se desenvolve na filosofia pr3tica de Kant uma tensio entre natureza e razao cuja radicalidade se expressana compreenslo de urn homem que, quando age, ve-se obrigado a escoJher entre estas duas leis. Trabalha-se esta tendo como sendo uma dimens30 existencial da fiJosofia moral de

sera


18 Kant e a ela demos

0 nome de "Tragedia Modema", conceito que sera trabalhado oeste ponto do artigo. Na quarta, deoominada "E se nioexistirem ~ morais", trata­ se de mostrar que ap6s ter provado que a razio pula pode determinar a vontade, resta a Kant, ainda, urn outro problema que ele cleve resolver em sua filosofia pr3tica, que diz respeito a impossibilidade de provar a exis­ rencia de ~ morais.

I. Estabelecendo que a razio pura e pr3tica

e

Estabelecer que a razOO pura e pratica, que 0 problema principal da KpV, mostrar que a Iazlo pula pode determinar imediatamente a vontade e como ela pode fazer isso'. Isto envolve duas questOes. A pri­ meira e mostrar que a razIo pode, independentemente de motiv~ empfricas., determinar os principios a partir dos quais os homens Wo agir. Trata-se aqui de estabelecer objetivamente que a razio pura pnlti­ ca, ou seja, pode detenninar a vontade. A seguoda questiIo mostrar como a razIo pura pode fazer isto, ou seja, mostrar de que modo eta pode se constituir em motivo para a vontade humana (esta segunda questAo trataremos no ponto sabre 0 sentimento moral). Para mostrar que a razao pura epranca, Kant parte do pressupos­ to de que a razao epranea, ou seja, que os seres humanos do dotados de vontade e livre-arbitrio (arbitrium liberum). Esta pressuposi~ estar3 autorizada pelos resultados obtidos na Critica da Razio Pula, onde ele mostra que mo e impossivel admitir a idCia de uma Iiberdade transcen­ dental, ou seja. de uma faculdade de iniciar espontaneamenteurn estado e cuja causali~ nJo esteja sob uma outra causa que a determine quanto ao tempo", Contorme nos adverte Kanf "a liberdade pr3tica enteDdida como independencia do aIbitrium frente a ~ pelos impulsos da sensibilidade, esta fundada na ideia de hDerdade transcendental amedida em que, se esta fosse decretada impossivel, estaria aniquilada toda a

e

e

e

Jiberdadepr3tica". Se a liberdade transcendental sai da terceira antinomia da razao te6rica como nJo impossivel, entio e possivel, ao menos, pressupor a liberdade pratica, ainda que nio possamos ~. eenos de sua existencla. A liberdade pr3tica enteDdida negati~ s : ou seja, como livre­ arbitrium, como propriedade da vontade depoder ~agir independentemen­ te de causas esttanhas que a detenninem, comovontade. simplesmente, deixara de ser uma mera suposi~ se cooseguinnos mostrar que os ho­ mens agem por principios. Se os homens agem PQf principios, ~ temos a liberdade pr8tica negativa, ou seja, os seres humanos 530.dotados


19

de vontade, e pois, de razio pr3tica, os bomens nio agem por mero esti­ mulo-respostacomo agem osanimais. Principios pr3ticos, confonne e definido no primeiro panigrafo da Critica da Razio Pr3tica, do proposi~ que centem uma determi~ geral da vontade qual estio S1Dnetidas muitas .regras pnllicas. Estes principios serio ~os quando a condi~ e valida apenas para a vontade de urn sujeito au serio ~os quando a condi~ e objetiva e valida para a vontade de todo ser racional. Se a razao pura puder nos fomecer urn fundamento pr3tico objetivo e universal para os homens, entia existirio principios pr3ticos objetivos. Se este fundamento n40 puder ser dado, entJo os homens sempre agiIiIo apenas par principios subjetivos(m3ximas). A razio pwa epr3tica, entio, se e somente se em­ tirem principios pn\ticos objetivos. Se nIo existirem principios pr3ticos objetivos, entio a razao podenl ser apenas pnllica e nunca razio pura

a

pratica.

e

Temos, entia: Razio pura pr3tica. Existem principios pr3ticos objetivos para estabelecer que a razio pura epnllica, Kant devera mostrar que existe urn principio pr3tico que objetivo. Esta prova dividida em dois pontos. No primeir~, trata-se de mostrar que nio verdade que todo principio pr3tico empqico e material e, no segundo, trata-se de mostrar que efetivamente . existem principios pnlticos objetivos.

e

e

e

e

A argunien~ Kantiana no que se refere ao primeiro ponto vai no sentido de reduzir ao absurdo 0 argumento empirista de que todos os empiricos e materiais. Ele parte, entia, da hip6te­ principios pr3ticos se que todos os principios pniticos do empiricos e que todos os princfpios pr3ticos empiricos materiais (0). Se assim, entia todos os principios pr3ticos materiais (1). Se todos os principios pr3ticos materiais, entia n30 existe nenbum principio pr3tico que nIo seja material (2). Mas o fato que existe ao menos umprincipio pr3tico nio material, que a lei da moralidade, ~ prindpio formaL Sabemos disto porque temos consciencia deste princfpio pr3tico formal como bern 0 demonstra a ~ pria razio comum ~mpre capaz de apontar ~ confonnes a esta lei e contrariasa ela(3). Se existe urn principio pr3tico nIo material entio nSo verdade que todo principio pnllico material (4). 0 que ainda passivel-¢4Uvidaeasuposi~ kantiana de que existe urn prin­ cipio pr3ticoquenioe material, que e formal. Kant nIo vai demonstrar

sao

sao

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e

isto, que corresponderia a deduzira lei moral. 0 que ele wi fazer e mos­ deum principio pr3tico formal a medida em que .mesmo 0 entendimento.mais ordinario pode distinguir qual forma e ou~, na m3xima, capaz de se adaptar a uma legisl~ universal. trar que os homens tem consciCncia


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A prova de que os homens tem consciencia deste princfpio fur­

mal

e que somos capazes de distinguir e apontar ~ confonnes e con­ 4

tranas ao dever. Segundo Kant

"Assim, entao, no conhecimentomoral cia IazJo huma­ na comum nOs chegamos a isto que e seu princfpio, principio que seguramente ela nIo conhece separado em uma f6rmulauniversal, mas que oem por isso ela deixa de ter sob seus oIhos e que ela emprega como re­ gra de seu julgamento. Seria aqui tacil mostrar como, com 0 compasso em suas mios, ela tem em todos os ca­ sas que acontecem a plenac:ompetencia que e necessa­ ria para distinguir 0 que e bom e 0 que e mall, 0 que e conforme ou 0 que e contrario ao dever, contanto que, scm nada aprender do mundo de novo, se tome atenta, cOmO fazia SOcrates, ao seu pr6prio principio. Mostra­ se, por conseguinte, que nio ha necessidade nero de 0­ 8ncia nem de filosofia para saber 0 que e preciso fazer para ser honesto e bom e mesmo samo e virtuoso. Po­ deriamos mesmo dizer, ja avaJl9lndo, que 0 conheci­ mento disto que pertence a todo homem fazer, e mesmo saber, deve ser feito de todo homem, mesmo do mais comum".

Paradistinguir que ~ do imorais e que ~ podem ser roo­ rais e neeessario saber que condi~ uma ~ deve preencher para ser dita imoral (b) ou do imoraJ (010 b). Para determinar que ~ do imorais (erradas) e que arw&s sao nIo-imorais (certas), os homens apIi­ cam urn principio formal. Este principio e a lei mom, que no campo humano, tolna a fi>rma de Imperativo CategOriCQ, do dever. As ~ que sobrevivem ao Imp:;lativO CategOrico do confonnes ao dever, e do, pois, certas, e as que 010 sobrevivem do contr3rias ao dever, sao erradas. Saber que uma ~ e errada e saber que ela e imom.l. Por outro !ado saber que uma ~ e certa nio e ainda saber se ela e moral. E pos­ sivel haver 8Ij;6es certas mas que nIo sao morais. Ninguem diria que os Ilomens que agem confonnemente ao dever Rio agem certo. 0 que se coloca em dUvida e se eles efetivamente agiram moIalmente, ou seja, agiram por dever, entendendo pordever "a necessidade de realizar uma ~ pelo respeito a lei"s. 0 que importa, para mostIar que existe um principio pr3ticoformal e que os homenstem consciCncia deste principio, e que eles sao capazes de aplicar este principio, como reahnente 0 fazem,


21

a medida em que distinguem e apontam ~ confonnes e contrarias ao dever. Noo importa 0 fato de que e impossivel distinguir e apontar ac&s efetivamente morais e que, talvez, estas ~ nem mesmo existam. Para mostrar que os homens tern consciCncia de urn principio pratico formal e que ele e aplicavel nOO e necess3rio que os homens saibam distinguir ac&s morais e imorais, basta que saibam distinguir e apontar ac&s certas e a¢es erradas. Mostrando que os homens aplicam urn principio formal quando . distinguem ~ certas e erradas Kant tern dois ganhos sistematicos. 0 primeiro destes ganhos e que fica estabelecido com certeza 0 pressuposto de que partiramos, ou seja. que a razIo e pr.Itica. Dissemos que a forma do argumento kantiano era a de que, se existissem principios pr3ticos (fossem ~os ou nfio), entao a razIo era pr.itica Kant mostra que os homens aplicam urn principio pratico formal quando distinguem ~ certas e erradas e, sendo assim, existem ~ que podemos dizer com certeza que sao certas e ac&s que podemos dizer com certeza que sao erradas. Se as ~ certas, para serem certas, devem estar de aoordo com o principio formal de deterrni~o da vontade, e as ac&s erradas, para serem erradas, devem estar em desacordo com este principio, entia e fato que existem atos humanos que foram realizados por principios , au seja. nOO foram realizados por mem estimuIolresposta, necessitaram do uso da razio ao menos para efetivar a escolha de agir conforme ou contraria­ mente ao dever. Se os Seres Humanos agem por principios, entOO oJio estJo necessitados naturalmente na sua ~ por ~ sensiveis como esdo os animais, Fica estabelecido aqui que 0 3lbftrio humano e liberum, que os homenspossuem vontade, que a razio epr3tica . 0 segundo ganho sistematico que Kant tern ao mostrar que os homens aplicam urn principio pnitico formal quando distinguem ~ certas e ac&s erradas, e 0 de que a prova kantiana de que nio e verdade que todo principio pnitico e empirico e material se lorna absolutamente consistente (conforme podemos ver pela formalizllfWio anterior). Provado isto ja nOO sera mais impossivel mostrar que a razio pura pode determi­ Dar a vontade, que a razao pura epnitica. Agora est3 afastado 0 principal empecilho para a prova de que a razio pura e pnitica, ou seja, a possim­ lidade de que todos principios pr3ticos fossem empiricos e materiais. Afastamos esta hip6tese quando mosttamos que existe urn principio pra­ tico fonnalque os homens aplicam para distinguir ac&s·certas e ~ erradas. Agora, entIo, 0 segunoo ponto da prova kantiana de que a razao pura epr3tica, ou seja, mostrar que efetivamente existem principios pra­ ticos oqetivos, j3 poder{l ser realizado. Os principios pr3ticos serio d:!je­


22 tivos quando a detennjD~ geral da vontade que eles contem for objeti­ va, ou seja, valida para a vontade de todo ser raeional", Kant deveni, entIo, estabelecer a objetividade propriamente dita deste principio, mos­ trando que v3lido para a vontade de todoser racional. , Um. principio. valido para avontllde de todo ser racional um principia .atraves do qual uma vontade que fosse integralmente racional seria sempre por ele detenninada. Tal principio teria para esta vontade 0 carater de lei. Uma lei, por defini~, deve ser necessaria e universal. As leis da.naturezadetenninam infalivelmente 0 que aconteee e, quando a natureza 010. se comporta como a lei preve, este fato suficiente para refutal a lei.· Um principio objetivo, uma lei da moralidade, detennina integra1mente uma vontade racional, de modo que uma vontade totalmen­ te racional nio poderia agir em desacordo com esta lei, exatamente como a natureza pode se comportar em desacordo com as leis naturais. Que lei seria esta, no campo pratico, que determinaria uma von­ lade integralmente racional? Uma lei que tenha ao menos a forma de uma lei natural, ou seja, uma lei, ,Ulliversal. Uma lei que nenbum ser integraImente racional poderia deixardeseguir. Tal lei a lei moral": "Age de tal modo que a maxima· <Ie.tua vontade possa sempre valer ao mesmo tempo como principio <Ie,DIDalegi~universal". Kant estabe­ Ieee, entio, uma lei objetiva., Wlida para a vontade de todo ser racionaL Existem aqui, entretamo, dois problemas: Primeiro:Por mais que nos pareea razoavel que uma vontade ra­ clonal pura <leva seguir sempre a lei moral, se apresenta na experi­ encia nenbum exemplo de tal vonlade e, portanto, estamos pretendendo possuir &qUi .um conhecimento do supra-sensivel ao qual nao estamos ainda autorizados. Segundo: Avontade humana n40 integralmente racional e para eta que deveremosestabe1ecer a objetividade dos principios pr3ticos. Se estabeleeemos que existem principios pr3ticos objetivos para uma vontade integralmente racional, nIo estabelecemos, ainda, a objetividade destes principios para a voDtade humana Para estabelecer que existem principios praticos objetivos para a vontade bumana, deveremos mostrar, do que existem principios pr3ticos 80S quais nenburn Seres Humanos pode deixar de seguir, mas sim que existem principios pr3ticos aos qaais; A) Nenbum Seres Humanos pode deixar de reconbecer como de­ vendo ser v3l.ido para a vontade de todo Seres Humanos B) Nenbum Seres Humanosesteja impossibilitado de. ser por ele detenninado a agir.

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E impassivel que exista algum Seres Humaoosque nIo possa re­ conheeer 0 principio formal do dever, expressllo no campo humano da lei moral, amedida que todo ser humano, como vimos;e capaz de distinguir ~ certas e ~ erradas e, portanto, ecapaz de teetmhecer 0 principio formal do dever, reconhecer que todas ~ devem estar de acordo com a lei moral ( mesmo que sempre ache ocasiao de abrir ex~ para si na universalidade da regra no que se refere a urn ato particular ou mescle motivos de ordem : empirica na detennjna~ da ~). Do mesmo modo, nenhurn Seres Humanos esta impossibilitado de agir segundo 0 que 0 principio do <lever determina, a medida em que, se existem ~ certas, entJo a vontade humana atoa, por vezes, de acordo com 0 que determina este principio (mesmo que nIo seja capaz de formula-Io) e, assim. nio existe imposslbilidade de que ela (a vontade humana) seja determinada pela mera represen~ do principio do de­ ver, pela mera obri~ impostapelo Imperativo Categ6rico ( ainda que 010 possamos saber se ela e , de fato, exclusivamente pelo Imperativo Categ6rico determinada). Existe, entJo, urn principio pritico objetivo no campo humano que e0 Imperativo Categ6rico, 0 principio formal do dever. 0 Imperativo .• Categ6rico e urn Imperativo e do uma lei porque ele diz·respeito a von­ tade bumana, que mo e inteiramente racional, e que, portanto, pode do segui-Io. Sua objetividade, entretanto, a obri~ que ele enseja atoda vontade humana de aeata-lo nio se altera pelo fato· de que nero todas as ~ estIo a ele conformes ou foram reaJizadas unicamente pela sua represen~.

Exatamente,porque no campo humano nem todas as ~ sao .~ e nem todas as ~ sic marais (talvez ate mesmo nem existindo >~ morais) que 0 principio da moralidade toma a forma de Imperati­ :y.o Categ6rico e 010 de lei moral. A objetividade do Imperativo Categ6ri­ co enquanto urn principio de determi~ da vontade esta dadapelo fato .de que todo Seres Humanospode reconhecer a obri~ que ele enseja e pode ser determinado a agir pela sua mera reptesen~ e nIo pelo fato de que efetivamente existem ~ morais, ou seja, pelo fato de que a vontade humana realmente determinada a agir pela sua mera represen­ ~. Nio epreciso, pais, mostrarque os homens agem pelo dever, des­ ·providos de qualquer interesse empirico, para mostrar que 0 principio formal do dever, 0 Imperativo Categ6rico, eumprincfpio objetivo de detennin~ da vontade. Mostrando, entao, que. existem princlpiospnlticos objetivos, a prova Kantiana de que a raz40 pura e pratica esta completa. Confonne vimos no inicio deste ponto, a razio pura C pratica se e somente se exis­

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24 tern principios praticos objetivos. Existem principios praticos ol:!jetivos e. portanto, a razio pUla pode determinar a vontade. E importante observar, entretanto, que mostrar que a razIo pula e pr3tica e mostrar que a razIo pura pode detenninar a vontade dos homens, e nio que a razIo para efetivamente determina a vontade bnma na MostIamos que a razlo pma pode determinar a vontade humana quando mostramos que os Seres Humanos reconhecem a lei moral quando distinguem 0 agir ceno do agir errado, e que existem ~ certas, a9fies oonformes ao dever, de modo que nio e impossivel existirem ~ morais.

2. 0 Sentimento Moral

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Ate aqui estabelecemos que a razIo pula pr3tica, au seja, que a razlo para pode determinar a vontade. Falla, entretanto, mostrar se esta possibilidade praticamente consistente, ou seja, de que modo a razlIo pula pode se constituir em motivo para a vontade humana. A quesllo a ser respondida aqui a de que modo possivd que os homens ~ motivados peJa lei moraI.. tomando a mera representalWlo ~.leicomopri.lM;ipio ~o de sua Q>. Se conseguinnos mostrar istO 0 resultado obtido no ponto anterior de que a razio pura epritica, ou sejit, que a razIo pura pode determinar a vontade, toma-se Diet sO logi­ camente consistente como, ta.IDbem, consisteDte do ponto de vista emp1ri­ co8 . 0 pmoedimento adotado por Kant pode ser compreendido da seguinte indi~ metodoI6gic/:

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atraves

" Em efeito saber como uma lei pode ser, per ela me&­ rna e imediatamente, principio determinante da morali­ dade um problema insolilvd para a hllmanidade e identico aquele que consiste em saber como possivel uma vontade livIe. EntJo n6s nIo vamos mostrar a priori porque a lei moral fomece nela mesma um mati­ vo mas isto que enquanto motivo eIa produz (00 poT melhor dizer, cleve produzir) no espirito".

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o que Kant deverci fazer, entJo, e mostrar como a lei moral pode se consistir em um lD()tivo para a ~, indqJendentement de qualquer motivo de ordem empirica, e muitas vezes, amtrariamente a des. Trata­ se de mostrar de que modo uma lei racional pode se transformar em mo­ tivo para 0 arbitrio de um homem que nJo eja. em razao de sua natureza, inteiramente racional. Fazendo isto Kant justifica que a razIo pwa pode


25 determinar a vontade, que os bomens podem agir moralmente, mostrando o que acontece do ponto devista do sujeito agente. Kant inicia definindo motivo - 0 elater anima }O como sendo "0 principio subjetivo de dete~ da vontade de urn ser cuja razAo nIo e, em virtude de sua natureza, necessariamente conforme a lei objetiva". Motiv08, pois, pertencem exclusivamente ao reino bumano. Em uma vontade divina haveria coincidencia entre sua vontade ~etiva e a lei objetiva. Definido 0 que sIo·motivos Kant devera ter uma dupla tarefa, a saber, determinar: I. 0 que a lei moral deve produzir no espirito enquanto ela urn motivo. 2. Quando a lei moral e urn motivo, 0 que acontece na faculdade de desejar como efeito da lei enquanto principia determinante sobre essa faculdade de desejar. Para responder 2. Kant vai nos dizer no capitulo sabre os motivos da razao pura pnltica da KpV que 0 carater essencial de toda determina­ ~ao da vontade pela lei moral e que ela seja delerminada simplesmente pela lei moral como vontade livre, nao somente sem a partici~ das moti~ sensiveis, mas mesmo a exclusao de todas elas. Assim e que a lei moral, a medida em que traz prejuizo a todas nossas inclin~, produz urn sentimento que pode ser nomeado de dor, e esse 0 mco caso onde podemos determinar atraves de conceitos a priori a re~ de urn conhecimento (no caso da razao pura pratica) ao sentimento de pra­

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zer ou dor, A razao pura pr3tica vai causar prejuizo ao amor pr6prio (benevoJencia excessiva por si mesmo) a medida em que constrange os bomens a respeitarem a lei moral. E vai entenar completamente a pre­ ~ (sati~ de si mesmo), ja que todas as pretenslSes a estima de si mesmo que precedem 0 acordo com a lei moral sIo ilegftimas. Ainda deniro da tentativa de mostrar 0 que acontece na facu1da­ de de desejar como efeito da lei enquanto principio determinante sabre esta, Kant segpe mostrando urn segundo efeito, ou seja. urn efeito positi­ vo. 0 primeiro eo enfraquecimenlo da presun~, 0 segundo eo respeito. respeito urn sentimento de origem nJo empirica e conbecido a priori; urn sentimento produzido por urn principio intelectual. A conscib1cia da lei moral produz sobre os homens urn sentimento de bumi1b~ (a medida em que este compara sua tendCncia natural com esta lei), mas produz taJlibem, positivamente, 0 sentimento de respeito. A lei moral entio, subjetivamente, urn principio de respeito, e 0 respeito urn sentimento moral. 0 respeito nlo urn motivo para a moralidade, 0 que evidente, a medida em que a lei moral se basta por si mesma e nIo

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Wi uecessidade de ser motivada por Dada.· 0 respeito

ea

moralidade

mesma. considerada subjetivamente, comomotivo. Ele nio e um sentido

particular para 0 bem e 0 mal que nOs Dio possuimos em re~ a verda­ de; nOs temos somente a capacidade de.sermotivados em nosso livre­ aIbitrio pela razIo pura pratica (e a sua lei) e isto que (;~.senti­ 11 :mento moral . respeito uma ~ sabre 0 senUmento, uma ~ sobre a sensibilidade, e enquanto efeito da a;io da razlo pura pdtica sabre a sensibilidade, produz um sentimento de ordem diversa que 0 sentimen­ to moml. Esse sentimento moral exclusivamente produzido pela razIo, e Dio serve nem para julgar ~ nem para fundal a lei moral oi:!jetiva. mas simplesmente como motivo para fazer da prOpria lei uma 1WOOma. Este ponto fundamental a me.dida em que impossivel haver ~ sem milximas (principios ~vos da ~). A lei moral. pais, quando toma a forma do respeito, . pode ser 0 motivo para uma ~. EIa torna-se, entia, nIo sO urn ~ objetivo para a ~, formal e universal, como

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se constitui em um principosuqetivo para a ~. Falta aiDda mostrar 0 ponto 1. OIl seja. 0 que a lei moral enquanto motivo produz 110 espirito. A resposta comet;a a ser dada quando verifica­ se que 0 sentimento que resulta da consciencia da obri~ moral nio e patologico como urn sentimento que seria produzido por um ~ dos sentidos, mas somente pr3tico, OIl seja. possivel por uma causalidade da razio. Ele nio contem em si nenhumprazer, mas enquanto tal ele con­ tern antes desprazer relacionado a~. A1J mesmo tempo em que Wi esse desprazer, 110 entanto, Wi alguma coisa nesta ~ que eleva, e 0 efeito subjetivo disto ea ~ de si mesmo. A ~ de dever, ela prOpria. esta relacionada com 0 desprazer relacionado a ~, por um lado,e a apr~ de si, por outro. Kant quer fazer ver que nossa vontade·do e santa. e que por isso DOSSO.agir realmente moral estara sempre relacionado a ~ de ~. de obri~­ ~12. Somos submissos a uma disciplina da razio, ee ~ o nlo diminuir a autoridade da lei colocando 0 principia deterJninan,te da von­ tade, ainda que conforme a lei,· em qualquer outra coiss. que nJo no res­ peito pela lei. Assim eque fazer 0 hem por amor 8 humanidade, 011 ser justo por amor 8 ordem, nJo e aioda 8 verdadeira maxima moral. Assim e que a moralidade.nio pode repousar sabre 0 amor 8 lei, e sim.sobre 0 dever, emboraesse amor pennalJC9 como um ideal 8 ser atingido. Kant preville assimcontra 0 fanatismo moral insistindo que 0 degrau moral onc:ie esdo colocadosos homens e odo respeito pela lei moral. 0 estado. moral, pais, que os homens devem estar sempre e 0 da virtude, .00 seja, ·8 inte~


27 moral na luta e nJo a santidade na possessio presumida de uma peIfeita pureza das inten~ da vontadel 3 . Colocar 0 motivomom em mo~ sensiveis como a simpatia ou mesmo 0 amor de si, leva a uma maneira de pensar frivola e irreal, pressupondo uma bondade espontinea de espirito, como se a moralidade do envolvesse, necessariamente, freios e espinhos. Conceber, entia, de maneira nIo ilusOria a moralidade, envolve relaciona-la a n~ de de­ ver. o que Kant pretende salientar e exatamente as duas ordens irredutf­ veis de coisas, ou seja, a vida "natural" e a "moral". Ha uma tranqiiilida­ de interior deconente da ~ moral e que nada tern a ver com a vida. Segundo Kant

14:

"A majestade do dever nada tem a ver com 0 gozo da vida. Ela tern seu pr6prio tribunal, e mesmo que se qui­ sesse sacudir as duas para lhes misturar e lhes apresen­ tar como urn remediopara a alma doente, elas se sepa­ ranam, Se assim nJo fosse, a primeira simplesmente do agiria e quando a vida fisica ali ganhasse algoma for~ a vida moml se esvaeceria para sempre".

Atraves da JlOItIo de sentimento moral Kant do somente mostra o que aconteee com 0 agente no caso de set determinado a agir pela Ra­ zIo Pula, como, tambem, estabelece a disposi~ a sentir 0 respeito pela lei moral enquanto motivo suficiente do arbitrio (di~ a personali­ dade. que ja aventamos no capitulo 3.1). Esta caracterizada a si~ de conflito pr3tico em que se encontram os seres cbados de livre-arbItrio, condenados a escolherentre agir bern ou agir mal. Esta caracterizada a T~ Modema onde existe uma irredu­ tibilidade e urn confronto entre a .ordem da natureza e a ordem da mora­ lidade. Os homens dotados de wqa disposi~ ao bern e de uma propen­ do ao mal, do 05 Unicos respons;lyeis por suas oprwOes morais, devendo, quando ouvem a voz da natureza e a voz da moralidade, escolher qual destas leis sera a senhora de seu juizo. 3. A Tragedia Modema .• 0 H()IIlem de KOnnigsberg consegue (como vimos nos pont.os esfabelecer. que a razIo pura e pr3tica, OIl seja, que a razJo pura pode determinar a vontade b1Jl!13Da. Com isto fica provado que os bomens podem agir beseados unicamenteem motiv~ de ordem 000­ nat, atraves ~princjpiospraticos ~vos. Fica mostrada assim a pas­ anteri~)


28 sibilidade do prOprio agir moral, amedida em que. se sO pudessemosagir por princlpios subjetivos, a moralidade estaria varrida do horizonte hu­

mana. Mosttando que podem haver ~ morais, Kant estabelece. tam­

e "liberum". au seja, que nossas ~ 1110 estJo detenninadas seja por uma lei da natureza seja peIa vontade diviDa. Afasta-se, assim, a bip6tese de que os homens nao possam agir d:iferen­ temente do modo como efetivamente agem, condenando-os a menoridade moral e , na pratica. desreponsabiJizando-os por suas a¢es. EstA construido um sistema prltico cientffico. 0 sistema moral critico, que se contrapOe ao ceticismo e ao dogmatismo (determinismo) moral, entendidos 0 primeiro como as co~ filosOficas que negam a possibilidade de que os bomens possam agir moralmente e 0 segundo como as co~ que ou negam ao homema capacidade de escolher livremente seus atos au creditam a Deus 0 estabeIecimento das regras morais que devem ser seguidas pelos homens. o sistema e cientifico porque est3 de acordo com os padr6es da ciCncia. Kant estabelece uma lei que devereger todos os seres raciooais e que sO nJo determina sempre e infaIivaImente as ~ dos seres huma­ DOS porque estes nio sao inteiramente racionais, sao seres afetados. tam­ bem, pol fatores sensiveis. Trata-se, endo, de uma lei que DO campo humano toma a forma de imperativo. au seja, imp&: uma obri~ a uma vontade que e dupJamente detenninada, mas se fossem os homens seres inteiramente racionais nio haveria como do seguir a lei moral, exatamente como um corp>ao cair nio pode deixar de obedecer as leis da hem, que 0 aIbitrio humano

gravidade. Nio e mais Deus au os deuses que movem 0 universo e os ho­ mens, do as leis. As leis da natureza movendo os astros e os corpos e as leis da razIo impelindo a vontade humana para 0 bern. As virtudes e os deveres nIo silo mais determinados pelos ceus ou pela sua utiJidade, mas sim, sao derivados a partir de um principia moral formal e universal que eestabelecido peIa razSo, peIos horneoSenquanto sao seres tambCm raci­ onais. o sistema pnitico critico estabeIece uma regra moral objetiva a qual os homens devem seguir, que e0 imperativo eateg6rico, recoohece a capacidade que temos de efetuar escolhas e agir moralmente e,"assim. confere-nos a total responsabilidade pelos DOSSOS atos. Kant distancia-se com'seu sistema tanto da correntecetica quanto da corrente dogm8tica e inaugura um novo momenta na bist6ria da fiIosofia Ja nio estam mais em discussIo a possibilidade dos homens escoIherem suas a96es e agirem morahnente, definitivamente esta6eIecidas a partir de Kant Ao estabeIe­ , :, . . ~

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eer isto, entretanto, a filosofia pranca de Kant revela urn bomem que deve efetivar sozinho as suas escolhas e que para faze-las, deve contar apenas com sua conscieneia. Esta sera uma espeeie de "dimensio exis­ tencial" da filosofia kantiana e vai inaugurar urn novo capitulo na hist6­ ria da filosofia. Existe uma dupIa ~ na vontade humana, eindida entre 0 que pede a sensibilidade e 0 que oniena a razio. Existem duas leis, opostas, que atuam sabre esta causalidade que e a vontade humana. Uma lei, a lei da razao, ordena 80S homens a moralidade, e a outra lei, da natureza, ordena 80S homens a felicidade e 0 arnor de si. Esta dupla de~ radical e faz com que os homens, quando agem, devarn escolher qual destas leis seguir. Quando estas leis nio se op5em, 0 agir humano quotidiano, mas quandoelas c:olidem, a natureza sugerindo uma ~ e a razlo ordenandO outra, 0 agir humano torna-se traaico. Esta tensao entre ser e dever-ser, entre as leis da natureza e da razio, sera constitutiva da filosofia pnitica de Kant ja que e uma tensio que se desenvolve no seio da vontade. Ela aparece na raz10 te6rica sob a forma da ~ sensivellinteligiveI, que permite a Kant resolver as antinomias, e ja ent30 divide campos, ja que a razao pura e teorica quan­ do diz respeito ao que e, e pnitica quando diz respeito ao que deve ser.E no campo do pdtico que eta assume seu canlter mais radical em ~ da dupIa ~ da vontade humana. . A radicalidade da tensio se expressa na compreenslo de urn ho­ mem que, quando age, ve-se obrigado a escolher entre duas leis.Ou ele segue a lei da natureza, que no campo do pnltico lhe ordena 0 arnor de si e a busca da felicidade, ou ele Optapela lei da razio, a autonomia da vontade que lhe sugere obediencia ao Imperativo Categ6rico. Quando Kant propunha seus exemplos de ~ em que aparecia 0 contlito pniti­ COlS, como 0 do suicfdio, 0 nio pagamento de urn emprestimo, 0 cultivo do talento e 0 da caridade, tinha por base uma determinada ~ da vontade humana e des bomens, concebendo-os como cindidos entre duas leis. Cada urn destes exemplos sao modelos de milhares de "trag6dias" pessoais pelasquais passam os seres humanos no seu dia-a-dia. Dar lim on nio a sua vida, pagar ou nio urn emprestimo, desenvolver ou nio urn talento, sao exemplos de dilemas que todo homem enfrenta diariamente. Kant conseguiu perceber que todos estes pequenos dilemas derivavam de urn dilema maier, uma especie de tragedia constitutiva da natureza bu­ mana que era, justameDte, a da natureza da vontade, cindida entre as leis . da natureza e da razio. E esta e a tragedia mOdema. Uma tragedia grega classtea aconte­ ce quando se ehocain duas ordens, a ordem humana e a ordein des deu­

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ses. Antigona morre para nao desobedecer a lei dos deuses, £dipo soere porque urn pastor tem a ousadia de tentar drihIar 0 destino, e Prometeu porque desobedece a Zeus, ensinaDdo aos homens como ohler a luz. A TI3gCdia modema eigual a Tragedia classica naquilo que e a sua carac­ terlstica mais essenciaJ, on se~ 0 coatlito entre duas ordens. E diferente, entretanto, 4a. TI3gedia ~ a medida em que nesta Ultima as ordens em questioliOO a divina ea dos bomens, enquanto na TI3gtdia Modema as ordens que estIo em·questIo sao as da razio e da natureza.O conflito modemo da-se a medida· em que as leis da natureza e da razio atuam sabre a vontade humana.O homem no seu cotidiano depara-se com situa­ ~ nas quais ele deve escolher seguir uma lei ou outra, e essas do as pequenas trag6dias do homem modemo. Com a ~ de autonomia e a ~ de razIo que surge na modemidade a contraposi~ se dB entre razio e natureza e nao mais no plano do humano em contraposi~ ao divino.E entao que as tragCdias saem dos palcos dos teatros gregos e vCm para 0 grande palco do mundo. EIas deixam de ser enamadas para serem vividas. A Tragtdia ModenJa nos a1erta para om problema que eda mais alta relev3ncia na filosofia· de Kant. Trata-se do fato de que 0 agir hurna­ no do e inteiramente racional, de que os homens efetivam escolhas e, portanto, que a possibilidade do mal estar3 sempre aberta. Kant consegue mostrar que a razio pura e pratica, ou seja, pode determinar a vontade, mas a TI3gema ModenJa evidencia que a razao para do determina sem­ pre e infaIivelmente a vontade humana. A TI3gCma Modema evidencia os tres degraus do mal, on seja, a fragilidade do co~ bumano que sempre acba ocasiio de abrir ex~ para si na lei moral, a sua impure­ za, que faz com que os motivos de ordem moral se mesclem com os moti­ vos do amor de si, e 0 mal propriamente dito, entendido como a capaci­ dade que temos de submeter os principios morais aos sensfveis e agir de acordo com 0 que estes determinam e nio de acordo com 0 que a lei mo­ ral determina. Mostrando que a razio pura e pr3tica Kant do consegue evitar 0 resto de uma divisIo que nJo e exam. 0 resto que a Tragtdia Modema evidencia ejustamente 0 fato de que, embora a razio pura seja pr3tica, os' homens nIo do integraImente racionais, e portanto, nJo agem sempre de acordo com 0 que a razao detennina. A COJJSeQU&.cia pr3tica mais impor-' tante disto enJo sO que as ~ mas sao sempre possiveis, mas, tambem, que e passivel que todas as ~ sejam mas, ou seja, que taIvez do exista uma Unica boa ~ em toda histOria humana. Os problemas imanentes ao ceticismo e ao dogmatismo e que Kant havia resolvido se recolocam de urn outro modo. Nlo esta mais em


31 questio apossibilidade do agir moral e neiIi· 0 fato de que 0 homem tal­ vez nio seja dotado de livre-arbitrio, mas uma· nova questio se ooloca, on seja. seos bomens efetivamente agem moraImente. Se nio existirem .~. morais 0 bern sera uma quimera assim como os conceitos de boa vontade e soberano bem, exatamente confoime possibilidade ja admitida pOf.Kant

16;

"Existe nesta idCia de valor absoluto da vontade, oeste modo de estima-la sem tomar em conta nenhuma utili­ dade, alguma coisa de tao estranba que embora 0 acor­ do entre eIa e a razIo comum uma supos~ pode ser ainda lewntada: taIvez esta vontade seja simplesmeme

uma quimera e talvez estejamos compreendendo mal a inteD~ com a qual a natureza delegou a como

razao

govemante de BOSSa vontade". Se nio existirem ~ morais, se nIo existir uma vontade boa.

sera a prOpria razao que tera falhado em sua ~, que segundo Kant11 , tIe a de produzir uma vontade boa". Kant nio fina1iza sua Critica

da Razio Pnitica na Analitica, exatamellte para poder af8star. a hip6tese de que 0 bem nas suas diversas formas seja inexistente e que as pr6prias oI:lri~ que a teoria moral de Kant mostra que a razlio pura determi­ na, sejam, efetivamente, inaplicavcisa experienciahumana. 4. E se n30 existirem ~ morals? A primeira grande tarefa de Kant na Critica da R.azao Pratica, como vimos, e mostrar que a razao pura epnltica. Mostrar que a razao pura e pnitica e mostrar que os homens podem agir moralmente, ou seja, podem agir de conformidade a lei moral.Toda a priJneira parte de nosso trabaIho foi dedicada a mostrar como Kant efetiva esta prova, ou seja, como ele consegueprovar a posslbilidade do agir moral. Embom kant tenha obtido sucessonesta investida, mostrando que os homens utiJizam unrcriteno que lhes permite distinguir as ~ eer­ las da&~ -erradas, e explicitado pela primeira vez na' histOria da filo­ sofia estcaiterio, que Dada mais edo que 0 Imperativo Categ6rico, surge ainda urn problema da maior importincia no sistema Kantiano. Este problema diz respeito ao fato de que Kant consegue provar a possibilida­ de das ~ morais e nao a existenciadestas. Unica ~ Se Kant nao consegue mostrar a existencia de moral sequer, existe sempre a possibilidade de que n30 exista nenhuma

uma


32

mas

~

moral no mundo. A possibilidade de que os homens cometam surgida porque Kant prova que os homens podem cometer ~ morais mas nio prova que os homens realmente cometem ~ morais, implica a possibilidade de que todas ac;Oes que tenham existido, existam au venham a existirna histOria da humanidade sejam ~,

mas.

Cometer ~ mas Dada mais e do que praticar ~ haSeadas em m3ximas derivadas do arnor de si au da felicidade, em detrimento de m8ximas racionais. E passivel, pois, cometer uma ~ correta, porem, rna. Uma ~ correta porem rna e uma ~ que esta em conformidade ao Impel'ativo CategOrico mas que nio foi reaJizada pelo mero respeito a lei moral. Assim e que um homem que deixa de cometer urn crime ape足 nas porque pode ser legalmeme responsabilizado por este crime e um homem que esta agindo corretamente, mas I'.Io esta agindo moralmente. Se fosse possivel ptovar as reais motiv~ deste homem dirlamos que ele agiu mal.

Nllo e possivel, porem, para nenhum ser humano, segundo Kant,

ter

Urn ccnhecimemo completo seja das suas pr6prias in~ seja das

~ dos outms. Considerando-se que as ~ corretas, ou seja, confonnes at> Impemtivo Categ6rico, nlo podem ainda ser consideradas 3l;6es morais, exatamente porque impossivel saber se foram reaJizadas unicamente pela ~ do dever, toma-se impossivel determinar se elas efetivamente sio boas ~. ~ boas, para Kant, serio aquelas baseadas em m3ximas boas, ou seja, m3ximas derivadas da ~ 18 da lei moral. Segundo Kant :

e

"Nio hi dif~ entre urn homem de bons costumes (bene moratus) e urn homem moralmente born (moraliter bonus) DO que con<:eme a concordincia das ~ com a lei (nos dois casos eta deve existir), a DIo ser pelo motivo que nos primeiros os atos nJo tern sem足 pre, e talvez nJo tenham mmca, a lei por motive imico e supremo, enquanto que nos segundOS a lei (moral) sempre 0 motivo de seus atos. 00 priineiro se pode di足 zer que ele se conforma lei seguiido a "Ietra", ou seja, nisto que conceme ~ que a lei ordena, mas, do 00:' tro, que ele a observa segundo 0 espfrito (0揃 espb1to da lei .mOral consiste em que ela seja suficiente enquanto moti\to)".

e

a

a


33

"Porconseqiiencia, a dif~ entre 0 homembam e 0 homem mau deve se encontrar nJo na difereJ1¥l de !DO­ tivos que eles admitem nas m3ximas (nJo na materia destes) mas em sua subordin~sua forma)". Toda questio e saber "De qual destes motivos 0 homem faz condi~ do outro?" Segundo Kant, 0 hamem estar8 sempre apto a acolber como mo­ tivo determinante de sua vontade tanto maximas derivadas do principio empirico do amor de si au da felicidade pessoal ou geral, quanta .maxi­ mas derivadas da ou seja. m8xim.as derivadas da ~ da lei moral. A disposi~ lei moral, pois, e a propensio ao mal ine­ rentes a natureza humana e esdo presentes em todos os homens. 0 ho­ inem sO aginl mal, entretanto, se ele acolher os principios empkicos como determinantes de suas m8.ximas ao inves de acolher os principios

razao,

a

sao

racionais. Segue Kanr"; "Embora haja esta inversio de motivos em sua nuixima contIa a ordem moral, as ~ podem, entretanto, se apresentar em conformidade a lei. tanto quanta se cIeri­ vassem de principios autenticos. Assim a raz40 se serve da UDidade das maximas , prOpria a lei moral. para in­ troduzir nos motivos da iDclina~"" sob 0 nome de feli­ cidade, uma unidade de m3ximas que nfIo poderia aconteeer de outro modo (como se tom8ssemos por principio fundamental a veracidade unicamente para evitar a ansiedade de sustentar a concord4ncia em nos­ sas mentiras enos embrulhar em suas voltas sinuosas). Neste caso 0 carater empirico da ~ bam, mas 0 ca­ niter inteligtve1 permanece semple man"

e

Todas estas reflexlies de Kant na "Religijo nos Umites da Sim­ ples Razao" foram trazidas aqui com 0 intuito de mostrar que as ~ em conformidade a lei moral nio sao. ainda boas ~ e que, dado 0 princi­ pio assumido por Kant js na F~ da Metafisica dos Costumes da incognoscibilidade de nossas ~ torna-se imposs1vel determi­ nar urn Unico caso sequel de uma boa ~ cometida pelos homens.Sendo assim, existe a possibilidade de que nao tenha existido, do exista e nfIo va existir nenhuma boa ~ na hist6ria da bumanidade, 00 seja, que todas as ~ sejam mas, entendendo-se por mas ~, como vimos,


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aquelas ~ que nIo tern como maximas aquelas derivadas unicamente da represe~ da lei mom) Se e possfvel, entretanto, que nenhuma ~ praticada na hist6ria humana seja boa, au seja, que todas ~ sejam possivel, entretanto que todas ~ sejam boas, au seja, que Dio existam ~ mas. E impossivel que todas ~ sejam boas porque existem ~ as quais podemos mostrar que sao mas, utilizando 0 Imperativo Categarico como criterio para ism. As a95es que nao sobrevivem ao Imperativo Ca­ tegerico, au seja, as 8Qi5es que estIo em desacordo com a lei moral e 0 Imperativo Categ6rico, podemos classificar como Nio precisamos conhecer as reais inteJ196es de urn infanticida, por exemplo, para earac­ terizar os seas assassinatos como ~ fronta1mente contr3rias ao Impe­

mas, nao e

mas.

rativo CategOrico, e portanto, mas.

AD conttario, sena necessario conheeer as reais in~ deum benfeitor para caIaCterizar suas ~ como boas, a medida que nIo basta para esta caracterizaIj;I a conformidade das 8Qi5es ao Imperativo Categ6­ rico. Este conbecim.ento das in~, entretanto, impossivel de ser obtido, e assim, permanece sempre a dUvida seere se a ~ foi efetiva­ mente boaem relal;lo ao seu car3ter inteligivel.Assim eque, enquanto a hip6tese de que existem 8Qi5es mas e10­ gicamente possfvel e empiricamente comprovada, a hip6tese de que existem ~ boas e logicamente possivel mas nio pede ser comprovada pela experi!ncia. Em outras paIavras, pedemos conhecer 0 mal mas nao podemos conhecer 0 be!n- Isto geradais problemas da maior importancia no sistema Kantiano: I. A boa vontade, entendida esta como uma vontade que do boaem ~ de a1gum fun, mas que eboa em si, au seja, que pratica 0 bern. motivada unicamente pelo respeito a lei moral, talvez seja uma qui­

e

e

mera. 2. Se podemos conhecer 0 mal e nIo 0 bern. seria racional para os homens esperar que 0 J11UDdo nIo seja orientado em ~ ao bern e a moralidade. Em outras paJavras, nIo seria racional esperar a concretiza­ ~ do soberano bem tanto. no sentido de bern supremo(ou seja, a boa vontade acima aventada), quanta de bern perfeito (consummabun), ou seia, de per!eita proporcionaJidade entre virtude e felicidade. Assim e que, setomamos como conhecimento apenas aquilo que pede ser produzido pelo entendimento quando ele pensa e organiza 0 mUltiplo fomecido pelas intui~ senstveis, au seja, aquilo que constitui­ ra 0 saber propriamente dito, entia 0 homem do se sentira racionalmen­ te autorizado a esperar 0 bern. 0 saber 0 considerar algo verdadeiro que tanto subjetiva quanto ~tivamente suficiente21• Como vimos ao

e

e

ja


Iango deste artigo, tanto 0 conhecimento 16gi.CQ jnf~ quanto 0 conhecimento empirico que sao formas por ex~" do Saber nos le­ vama esperar a hip6tese do mal, mas nunca a hip6tese do bern. 56 poderemos tamar racional a ~ do"Soberano bern se tomannos a razIo nIo enquanto uma faculdade 16gica, mas enquanto uma faculdade transcendental. A razJo enquanto faculdade transcenden­ tal contem a origem. de certos conceitos e principios que nio tomamos emprestados nem dos sentidos nem do entendimento. Admitindo que exista este 1150 transcendental. ou seja, este uso puro da razJo, entJo'-senl ja possivel esperar 0 bern., porque a razao pura nos fornece 3" conceitos, ou seja, tres idCias transcendentais (Liberdade, Deus.'lmortalidade) que tomam pJausivel a hip6tese do bem22• "

Notas: I Kant, I - Kritik der PIaktiscben Vemunft, Suhrkamp, Band 160.

vn, pp

2 Kant, I - Kritik der reinen Vernunft, Suhrkamp, Band IV, 561B, pp 488.

3 Idem, 562B, pp 489 4 Kant, I - Grundlegung zur Metaphysik der Sitten, Suhrkamp, Band vn, pp 30.

5 Idem pp 26. 6 KpV A 35,36, pp 125. 7 KpV A 54 pp 140

8 No ponto anterior mostramos que a raz30 pura pode determinar a vontade e que, assim, nIo e impassivel que a razJo pura determine a vontade. Com a n~ de sentimento moral mostraremosde que modo a razIo pwa pode determinar a vontade. A ~ de sentimento moral nos mostta a viabilidade empirica de que a vontade humana seja mo­ tivada peIa razJo pura. Com isto, do provamos que a razJo pwa de­ termina a vontade, mas mostramos 0 que aconteceria com a Ultima caso eIa fosse determinada peIa primeira. A ~ sentimento IDQ­ ral, por6m. nJo explica como e passive! que os homCnS ajam motiva­ dos peIa razio pura," pela lei moral. Para explicar esta posSiQilidade cleve Bel' postuJada uma causalidade inteligivel que e a liberdade"posi­ tiva. 0 sentimento moral nlIo poderia ser explicado se olio fosse COD­

*


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cebida esta causalidade. A rigor, se nao Fosse esta causalidade pela ra­ zao pwa, 0 sentilnento moral oem existiria. 9 KpV A 128, pp 192. 10 KpV A 127, 1'1' 191. 11 Kant, I - Metapb:ysik der Smen, Tugend1ehre - Suhrtamp, Band VIII A 35, 36, pp 530. 12 Se a vontade humana Fosse santa 0 agir moral seria determinado por sua prOpria natureza. Assim, necessariamente os homens agiriam mo­ ralmente. Entretanto, como a vontade humana nio santa 0 agir m0­ ral esta inteiramente relacionado a ~ de dever. Muitas vezes ao agir moralmente 0 homem age contrariamente a aquilo que scria sua felicidade ouseu prazerimediato.

e

E importante notar que na Tugendlehre Kant nos

dira que a obri~ dos seres humanos nIo diz respeito ao fato de possuirmos ou adqui­ rirmos sentimento moral, j3 que todo homem possui origiDariamente este sentimento. A obri~ vai dizer respeito ao sell cultivoe fortifi­ ~. Ainda na Tugendlehre ele vai esclarecer que 0 sentimento m0­ ral nio e um sentido particular que se tem para 0 bern au para 0 mal moral e que nio temos para a verdade. 0 sentimento moral e sim­ plesmente a capacidade que tem nosso livre-arbitrio de ser motivado pela razio pura pratica.

13 KpV A 151, 152,1'1' 207 14 KpV A 159 pp 212 15 GMpp52ess 16 GMpp20 17 GMpp22 18 Kant, I - Die Religion Innerhalb der Grenzen der Blossen Vernunft, Suhrkamp, band VIII, 1'1'678 19 Idem, pp 685 20 Idem, pp 68S 21 KrV, 850B, pp 689 22 Na KrV (356B) Kant distingue 2 usos da razio: urn uso formal, isto e, 10gioo, ja que a razio abstrai todo conteUdo do conhecimento, e tambem urn usa real. uma va que ela contem a origem de certos con­ ceitos e princlpiosque nio toma emprestado nem dos sentidosnem do entendimento.


37

A facu1dade 1000ca (correspondeodo ao primeiro uso) e aquela ja ex­ plicada pelos 10gicos como a faculdade de conehnr mediatameute. Alem desta faculdade 1000ca, existe a faculdade transcendental (correspondendo ao segundo usa). aquela que produz conceitos. Dada esta divislo seni procurar urn conceito superior desta fonte de conhecimento. que compreenda sob si ambos os conceitos.

necessano

o uso J6gico da razIo, diD Kant(KrV 360B) e 0 uso i.nferencial. Em toda inferencia, b3 uma proposi~ tomada como fundamento, uma outra. a conseqUbJcia. que e tirada desta, e finaJmente a sucessIo in­ ferencial (~), segundo a qual a verdade da Ultima e conec­ tada com a verdade da primeira Se 0 juizo inferido encontra-se ja no primeiro, de modo a poder SCI deduzido dele sema ~ de uma terceiIa lep1esent~, a inferencia e imediata e chamaremos esta de infer!ncia do entendimento. Se, contudo. alem do conhecimento posto como fimdamento,

necessano um outto juizo para produzit a concluslo, a

e ainda

inf~

cbama-se inferencia da razIo (silogismo). Em todo silogismo. pensa­ mes em primeiro Ingar uma regra (maior) pelo entendimento. Em se­ gundo lugar, subsumimos um conhecimento sob a condi~ da regra (menor) mediante a capacidade de julgar.

Finalmente. determinamos

o conhecimento pelo predicam da regra(concludo), por conseguinte. a priori. peJa razio. Este uso e0 uso inferencial da razIo.

Kant. endo. VIi se colocar outra quesdo: pode-se isoJar a razJo e ela e, ainda. uma Conte peculiar de concenos e juizos que surgem unica­

e uma faculdade simplesmente subaltema de fomecer a conhecimentos dados a forma

mente dela, e pelos quais se tefere a oijetos, au ela

lOgica? RcAmridamente, a razIo pula a priori contem principios sin­

teticose regras? Em que podem consistir tais principios? Kant desenvolve nos dois Iivros da DiaI~ca Transcendental a teoria de que a razIo pula capaz de produzir conceitos. Estes conceitos servem para conceber (enquanto que os do entendimento servem para compreender) e se chamatio ideias transcendentais. No apendice Dialetica Transcendental da Crltica da Razao Pura denominado "Do uso reguJativo das idCias da razIo pua" Kant vai afirmar (KrV 672B) que as id6ias transeendentais nIo possuem um U50 constitutivo, de modo que atraves dela sejam dados conceitos de certos objetos. AD contr3rio. possuem urn uso exceJente e necess3rio que 0 uso regula­ nvo, que consiste em dirigir 0 entendimento para urn. determinado objetivo. As ideias transcendentais sAo as ideias da hberdade, de Deus e da Imortalidade, e sID elas que vIo tomar consistente a hip6tese do bem e do soberano bern.

e

a

e


AS APORIAS DO REALISMO CLAsSICO

Claudio Ferreira Costa

o problema dos universais pode ser posta sob a forma de uma pergunta muito simples: "Existem universaisT' Essa perguuta supOe que tenhamos claro 0 que entendemos por universais. Um bom caminho para se chegar a talescJarecimento e concebe-Ios, como PIat40 mesmo 0 fazia, como os objetos a serem designados por termos gerais em sua forma no­ . l'JZuua. ,-~ n....&:cados ...c. lUOl;;llUCO • ..IA-' • nuna .r.~ como " ......-' '--"" UUUI, ...... a... " , podem tomar a forma de DOmes como "0 bern. ( em si)", "0 identico ( em si)", 0 que supostamente os evidencia como termos designadores de universais. Com isso a pergunta "Existem universaisT' pode ser mais precisamente formulada como: "Existem designata prOprios para as nossas nominaJiza~ de termos gerais r Para essa pergunta podemos ter, a grosso modo, duas respostas: "sim", que e a resposta do realista; "0.10", que e a resposta do nominaJista. Essas respostas definem, nIo importa 0 que se aerescente, as duas altemativas basicas. , Responder que s~ significa admitir que 0 termo geral nominali­ zado pode referir-se '~um objeto individual. de maneira anaIoga a urn termo originariamente Singular. Contudo, como sugeriram B. Russell, G. Ryle e outios(l), essa suposi~ deriva de urn equfvoco, que consiste em se tomar a mera. estrutura gramatical ou ,sintatica de certos emmciados como espelbando a sua estrutura logica efetiw. Considere 0 seguinte par de enunciados:


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l.a SOcrates ecalvo. 2.b 0 belo e aprazivel.

A forma sintatica ea mesma: sao frases do tipo sujeito-predicado; S e P. Mas, enquanto 0 enunciado l.a pede ser formaJizado como "Cs", l.b formaliza-se muito diversamente como "(x) (Bx ~ Ax)", que quer dizer: "Tudo 0 que e belo e aprazfvel", on, "Se algo e belo, e tambem aprazivel". Ora, se e isso 0 que efetivamente queremos dizer COlD l.b, entao 0 predi.cado nominaHzado "0 0010" nao desempenha realmente 0 papel de referir-se ao "belo em si"; pois a frase analisada mostra que "0 belo" nio funciona realmente como urn nome prOprio, urn termo singular, deixando-se melhor conceber como um predicado indicador de uma propriedade empirica que certas coisas talvez possuam, qual seja, a de serem betas. Para tornar isso ainda mais evidente, vejamos urn outro par de enunciados, com os quais parecemos atribuir existencia ao que e referido: 2.a 0 Aleph existe. 2.b A beleza existe. Aqui ambos os enunciados parecem predicar exislencia dos objetos referidos por seus sujeitos. Isso j8 em si suspeito, porquanto a existaDcia nio euma propriedade de objetos, mas de ~tos. A forma

e

16gica de cada enunciado revela-se, tambem aqui, muitO diveI$a. Vejamos 0 primeiro deles. Supondo-se que 0 ~ (0 do conto de Borges) possa ser definido como algo capaz de exprinUfem si todo 0 universe, com 2.a queremos dizer algo como: "Existe a coisa que reflete em si todo 0 universo", mais exatameree, "H3 ao menos uma coisa, e somente uma, que reQete em si todo 0 universo", au., formalmente: "(Ex) (Ax) . (y) (Ay -+ (x : y禄". A exist&lcja euma propriedade do conceito de Aleph, que e a de aplicar-se a somente um objeto. Essa forma de an8lise se impOe, pois se a predica(:io da..~ fosse feita diretamente de um ~ referido pelo sujeito, enunciados como "0 Aleph nio existe" nio fariam sentido, pois. DiQ~ o Aleph, nIo poderiamos predicar dele a sua nIo existencia. Quanta ao enunciado 2.b, "Abeleza existe", ele nem assevera a existencia do universal refurido pelo sujeito, nem, analogamente Aanalise de z.a, que 0 conceito de beleza tern a propriedade de aplicar-se a um enunciado menos restritjvo que. 2,a, somente urn ~. 2.b formalizanckH;e simplesmente como "(Ex) (Bx)":,com "A路 beleza existe.. queremos dizer 0 mesmo que com 0 enunciado .~~stem coisas betas", ou

e


41

ainda. com "Existe ao menos uma coisa sensivel que e bela". Ora. se a frase "A beleza existe" quer dizer isso, nio PJOPriamente a exist!ncia da.beleza em si que par eIa asseverada,. mas apenas a existencia de coisas sensiveis com as propriedades. tambem eIas sensiveis. de serem

e

e

~.

A. luz de semelbantes an8lises. sO tomadas possiveis pela introducio do c3lallo dos predicados. ~ razoavel a conclusfto de que termos gerais nominalizados do ~ ~ de desi~ prOprios. decorreudo essa ~contr8ria de um equfvoco propiciado peIa gramitica de superficie. em soma. de uma simples iluslo sint3tica. Pur que endo insistir na ideia de que os universais existem? I

PIatio foi 0 primeiro filOsofo a levantar 0 problema dos universais. Tentando dar-lhe uma resposta realista. ele originou uma polCmica que percorreu toda ahistOria da filosofia, e que ainda hoje permanece viva. ConvCJ:n, pais, se nosso objetivo aqui e mostrar os rendimen10s e insuficiencias capitais da sol~ realista. considerar as principais raz&s e ~ que lhe deram origem. A ~ rea1ista de PIatIo reside em sua doutrina das ideias. Ha duas razCies basicas. que podem ser separadamente consideradas. pelas quais ele precisou desenvolveressa doutrina. A primeira delas eque a doutrina das ideias propicia uma so~ pam um problema:~ atual: 0 problema de generalidode. que e 0 de se saber como possivcl esse ~ fundamental de toda a BOSSa experimcia cognmva, que consiste na apreensiio da unidade na multiplicidade. que nos possibilita dizer 0 mesmo de muuos (Phd. lOOe. Rp. 5900). Trata-se, em outras palavras, de se resolver a questIo da predi~: como e possivel que urn mesmo termo geral possa ser aplicado a multiplicidade <:los designata <:los termos singulares que 0 possam completar. A segqnda razao para 0 desenvolvimento da doutrina das idCias foi exposta pm: Arist6teles. que sugeriu ter a doutrina das ideias nascido da tentattva.de hannonizar duas ~ gerais. que juntas pareciam desttuir a possibilidade do conhecimento (Cf. Met. 1086). A primeira deIas era a in~. henIada de Heracllito. de que no mundo das coisas visiveis nada permanece, encontrando-se tudo em perpewo fluxo. A segunda assun9lo era advinda do model0 matem8tico adotado par Platao do que deve ser conhecimento: para ele 0 conhecimento genuino deve se足 loapenas de verdades etemas, necess8rias. como a de que 2 + 2 = 4. Se e assim. aquilo que conhecemos. os objetos do conhecimento. devem ser imutlweis, casocontr3rio 0 conhecimento corre 0 risco de. vir a perdersua validade. revelando-se nIo-necess3rlo. Ora. se e assim, e preciso que os

e


42

objetos do conhecimento nao pertencam ao mundo senstvel, caso contrario nio sera passivel urn. conhecimento efetivo do que sao a justiea, a beleza, 0 bern etc. E sent esse conhecimento tomamo-nos presas f3ceis do relativismo sofista. A sol~o dessa dificuldade ja havia sido antevista par Parmenides. que sugeriu ser 0 ~eto do conhecimento algo nJo pertencente ao mundo sensivel, podendo ser entao imutavel. Esse ~ seria 0 Ser. A sol~ pIatOnica e semelhante. Plat30 apenas substituiu 0 Ser parmenidico imico por uma multiplicidade hierarquizada de ideias. Ou seja: ele sugeriu que os ~etos do conhecimento sio 0 que ele chamou de ideias (idea) au formas (eidos), que sio entidades designadas par termos gerais ncminalizados. Uma expressio como "0 hem" designa assim a ideia do hem, que e 0 hem em si mesmo. Para Plat30 as ideias eram essencias necessarias, unas, perfeitas, imutaveis, eternas, nio­ sensiveis e portanto Wlo lecalizaveis no espIIfWO e no teDlp), e ainda causas formais de toda a realidade sensivel. que sO e real na medida em que as reflete. Imiscui-se aqui a doutrina todo urn veio de ~ e evasio mistica, que, embora, historicamente influente. do DOS importa considerar. Mas isso nJo e tudo. Coma doutrina das idCias Platio pretendeu ter acer1ado dois coelhos de urn. sO golpe, pais ela tam.bem fomece respos­ ta para 0 problema da generalidade: a razIo pela qual podemos aplicar urn mesmo termo gerai a uma multiplicidade de individuos no mundo sensivel e aqui explicada pelo fato de que 0 termo geral refere-se a Ulna mesma ideia, a qual se relaciona 80S diversos individuos enquanto des sao suas cOpias imperfeitas, enquanto eles de algum modo participam dela.

u

E na ~ entre as ideias pIatOnic:as e os individuos, as coisas justas, betas, boas...• que tern sido apontadas as maioreSdificuldades. Platlo explicou 0 relacionamento das ideias com OS individuos atraves das metDforas da participo¢o (methexis) e da c6pia (mimesis). Mas ambos revelam-se resistentes a urn esclarecimento satisfatorio. Consideremos primeiro a re~ de c6pia. Se as coisas sensiveis sao o6pias das ideias, fica dificil entender 0 que se quer dizer nesse caso com a ~ "x e cOpia de y". COmpreendemos a re~ de 00pia quan­ do ela se da entre coisas empiric:as: a pintura na tela de urn. pintor e a cOpia da paisagem que ele pinta. pertencendo ambas ao mundo sensivel. COpia e copiado, no caso, se assemelham entre si: seme~ e Ulna re~ simetrica. Contudo, a re~ de 00pia do deveria ser simCtrica: emboraa cOpia empirica se assemelhe a ideia transcendente, essa Ultima


43 Dio cleve assemelhar-se a. sua cOpia empirica. E mesmo que isso seja possivel que sentido fitz,. afinal, falar de uma re~ de cOpia, quando um dostermos nio possui qualquer existencia empfrica1 Plata<> propOs, como alternativa, a talvez mais auspiciosa

da partici~. Nlo obstante, como ele pr6prio veio a perceber, se as coisas sensiveis participam da ideia, ou ela deve multiplicar-se, estando inteiramente em cada coisa sensivel, ou ela deve dividir-se entre elas, como uma vela de barco estendida sabre a ~ de muitos homens. Todavia, multiplicando-se ou dividindo-se, a ideia perde a sua essencial unidade, necessaria para que ela cumpra com a ~ de nos permitir dizer 0 mesmo de muitos (Parm. l3lae). Em defesa da doutrina, comentadores notaram que essa ~ trata a ideia como uma coisa sensivel entre outras coisas sensiveis, como 0 demonstra claramente a comparaeao que Platio faz da ideia com uma vela de barco; ora, sendo a ideia eategorialmente distinta das coisas sensiveis, faz-se admissivel que ela tenha urn "comportamento idiossincratico", sendo capaz de dividir-se entre tais coisas scm perder a sua essencial unidade! A icteia nao e como a vela de uma barco, mas antes como 0 dia, que permanece urn e 0 mesmo em muitos lugares (Parm. l3lb). Uma resposta semelbante pode ser dada a outras ~ conhe­ cidas, como 0 argumento do terceiro bomem. Para estabelecer 0 que ba de comum aos homens particulares hI, h2, b3... precisamos reeorrer a ideia de bomem, H, da qual os homens particulares participam. Mas se, para explicar a seme~ entre os homens particulares., precisamos da idem H, endo parece que para explicar a seme~ entre eles e H precisaremos de uma outra ideia de homem, HI, e assim por diante, caindo em um regresso ao infinito. A resposta a ~ consiste em notar que essa Ultima reifica as ideias, pondo os homens particulares e H no mesmo plano. CoDtudo, a ideia do homem Rio humana, assim como a ideia do grande nao e grande: as ideias niJo se autoJ'edicam. Devido, mais uma vez, anatureza idiossincratica das ideias, a regresdo Dio chega a ter inicio. Certamente, isso tem sua Iogica, que nio obstante pode nao ser realista. A dificuldade consiste antesno usa arbitrtlrio que pode ser feito do apelo ao que cbamei de natureza idiossincnltica das ideias. Pois ela pode bern ser ininteligivel, essa natureza, e'dO que carece de sentido, como do Dada, tudo se deixa coneluir, Consideremos, para evidenci3-lo, outra vez 0 primeiro argumento. Podemosentender como as coisas sensiveis participam umas das outras, dividindo-as: os gomos sao partes, da laranja. Mas nao podemos entender como 0 concreto possa participar de um suposto abstratoque 0 transcende inteiI3meote, e ainda concluir que 0 Ultimo nao se divide. Aqui fracassa tambem a analogia mais sutil. Se por "dia" metMOI3

e


.44

entendermos uma forte iJumi~ do ceu e de todos as locais sob ele, a il~ de cada lugar e parte do dia, que e urn todo composto que neles se divide; se por "dia" entendemas um cello periodo de tempo, tamJ:Jent ele contem partes que 0 integram. Tais difiCllldades despertam suspeitas mais profuDdas, concemen­ tes ainteligibilidadeda prOpria ~ platOnica de ideia. Ha na Jioguagem natural urn sentido platOnico para a palavra 'ideia',no qp.aI ela indica algo atemporal? E verdade que somas normal­ mente ¢apazes de distinguir entre idCia como ideia-evento - a ideia que "agora .ocorre na minha~" - e ideia como alga espaco­ temporalmente ilocahzado - como a idCia geral e abstrata do m1mero x, a qual divenos homens podem ter acesso por caIculo. Isso quer dizer que possllhnos urn sentido plat6nico para a palavm 'ideia'? Parece que Il1o. Pais e mais compreensfvel concebermos a ideia geral como 0 que eu preferiria cbamar de ideia-tipo: algo como um conjunto aberlo de ideios­ eventos similares. Assim, a denomin~ 'ideia geral do nUmero 1t: estaria simplesmente indicaudo aquela multiplicidade de ideias do nUmero 11:. que ocorrem e podem ooorrera cada urn de nOs, e que sao similares. Como conseqii&1cia, a idCia-npo Il1o e reaImente ilocaJizada; apenas que sua Joca)i~ e difiJsa e em grande medidaindeterminflvel. Supoudo ainda que a paJavra 'idCia' tenba urn sentido no qual indique alga ~ que sentido b8 em se dizer que as ideias existem, siD reais? Podemos CODlpleender que algo seja aberto aintui~ sensfvel, ao menos temporaJmeute localizavel, e por isso mesmo real e existente. Mas e compreensivel que algo seja dito "real" e "existente" sem ser, nem mesmo da maneira mais indireta, acessivel a ~ sensivel? Nio e esse urn uso que transgride a prOpria gramidica 16gica desses dois conceitos? Parece que sim, mas nesse caso e profundamente equivoco dizer que as ideias "existem" OIl que possuem "realidade" OIl "ser", dado que isso nos lew a confundir as supostos usos platOOicos dessas paJavras com seus usos OIl sentidos cotidianos, naturais, que os contrariam.

Suponbamos agora, altemativamente, que com sua doutrina PIatIo estivesse desenvo1vendo coneeuos novas, pam os quais faham equivalentesna linguagem cotidiana. Nesse caso seria aconseJ.b8veL para .eviw equivocos, que 0 platonista rebatizasse seus pretensos novos sentidos com paJavras semantica.mente neutras, que nlo· lembrassem aquilo que 0 sensa comurn gmdativamente sedimentou como uso vernacuIa,t (algumassugest&s: "aiedi", "aicnetsixe", "edadjJaef"..,), na ~ dedefinir-lhes entao 0 sentido prOprio, au de que 0 contexto de exposi~ da doutrina, ao menos, fosse capaz de clanfica-lo 0 que lhes »

causana previ$veis~. ." ~

..

.


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m AristOteles, pera:bendo claramente as dificuldades da doutrina assun~ semelhantes, sugeriu uma altemativa que resultou ainda mais obscura que a de sen mestre. As referencias dos termos gerais existem, pensava ele, mas sua existencia nio extra足 mundana; e forma (eidos) ou universal (to katbotJou) existe nascoisas e nIo em separado, de maneim que, se nio existisse 0 Mundo das coisas sensiveis, as pr6prias .ideias ou formas nio mais deveriam existir. Contudo, mesmo que dividindo-se na pluralidade <las coisas, a forma permanece uma e a mesma. (Cf. Met. 108OO-1087a; Anal. Post. lOOa) (2). Essa expli~ escassarnente inteligivel, e a dificuldade deve足 se, como penso, a uma incoerCncia. Nio podemos conceber que a forma esteja oas coisas sem co~la como perdendo a sua unidade: Se a forma do extra-mundana, nIo separada, eJa deve ser entendida como aquilo que se encontra instanciado em cada coisa, sendo pois mUltipla, e do mais um universal; mas se a forma permanece a mesma, como Arist6teIes tambem quer, entao eIa precisa dividir-se entre as coisas que dela compartilham. Isso significa que a forma aristotelica, se tomada em sua face..de..valor, comporta-se como a ideia pIatOnica unitaria, da qual as coisas devem participar,1Ornando-se aberta mesmas ~. reaIismo aristotilico, ou irtemediavelmente obscuro e confuso, ou ent30 colapsa em platonismo, ao menos ao ponto de berdar as suas dificuldades. AristOteles abandonou 0 barco do platonismo scm alcancar a t8bua de salvaIwio do nominaJismo, e esSa a razio de suas vertigens.

platOnica, mas preso a

e

e

e

o

e

as

e

e

IV As razi5es inicialrnente consideradas para a admissio da

existencia de universais nIo sao as nossas, pois hi muito que deixamos de pa.rtilhar <las mesmas

~

dos fil6s0fos antigos. Embora

concordemos em admitir que nada no Mundo emptrico tern a sua pe~ncia assegurada, ba muito que renunciamos, na crescente consciencia de nossas 1imita~ .a exigencia de que CJ conhecimento deva ser de verdades necessArias. Nllo julgamos necess8.rio que a lei fisica "E=mc2" seja etemamente v3lida. E suficiente que ela se aplique ao universo tal como eIe tem sido, C, e que (pot isso) esperamos que continue senda. Mas isso em nada exclui a possibilidade de que a natureza deixe de se comportar segundo essa lei. Basta que exista, DO possivel fluxo universal, uma permanencia relativa; suficiente para assegurar a validade de nossas leis quando aplicadas iquilo que permaneee, enquanto permanece, sem a obri~ de que essa permanen足


46

cia e a consequente aplicabilidade das leis tenha dur~ ilimitada. Seriam entio precisamente aqueles aspectos mais permanentes da natureza, oS que chamamos de estruturais, quilo que. as nossas leis espelbam, e podemos considerar esses aspectos como osobjetos reais do conhecimento, que pela razao mesma de re-Ios, nio 'precisa sec

absolutamente nec:ess8rio. Por esse raciocinio, nosso conhecimento da justiea ou do bem e urn conhecimento empirico, e tais objetos de conhecimento deixarlio de

existir quando nJo houverem mais seres vivos que possam ser bons ou justos ou que possam imaginar que outros seres vivos sejam boDs ou justos. Com isso podemos admitir, diversamente dos gregos, que termos gerais indicam propriedades ou conjuntos recorrentes de propriedades das coisas ou delas dependentes, propriedades essas que deixarIo de existir quando as coisas ou (no caso de objetos concebidos) nossas representa­ cCks delas cessarem de existir. De outro lado, porque h3 uma relativa constincia de certos aspectos da realidade sabre outros, que podemos

e

manterg~.

Embora Dio compartilhemos mais das especlficas dificuldades gnosiologico-metafisicas que conduziram os filOsofos gregos a desenvolverem doutrinas realistas dos universais, mantemos ainda 0 problema de generaJidade. Cabe a pergunta: precisamos, para resolver 0 problema da generalidade, recorrer a teorias de valor explieativo suspeito - nJo por serem metaforicase ¡;3Dalogicas, mas por se valerem de metMoras e analogias irresgataveis> parece inevitavel no caso do rea1ismo? Precisarlamos, se nio houvesse alternativa. Mas h3 0 nominalismo. Devemos, tambempor isso, examma-lo comboos olhos.

como

Notas:

especia1mente G. Ryle: "ExpressOes sistematicamente enganadoras" (1931), trad. in: Col. Os Pensadores, Vol LII, 1975. 2 cr. por exemplo, G. E. M. Ascombe : "Aristotle: the search for subs­ tance", in: Three Philosophers. (cd G. E. M Anscombe & P. Geach), Oxford 1973, pp. 31-32. 1 Ver


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ECONOMIA DE MERCADO

Manoel Barbosa de Lucena

01. 0 que nos espera 0 seculo XXI ? a messjanj~ do mercado irrestrito? a indecisio da impIan~ da economia de m.en:ado no leste europeu? A total transnaeiOMJjz~ do capital? A gJma)jz~o da co­ muni~? 0 absurdo e· total predominio do capital financeiro sobre 0 produtivo? A descartabilidad de milhOes de seres humanos? A brutal desigualdade de oportunidades?.. TWo resultante da "Economia de Mer­ cado". 02. Estranhamente, cresce 0 mimero de teOricos que assumem 0 pressuposto dessa racionalidade que se impOe como sendo verdadeira e condizente com a realidade, racionalidade que se associa a defesa ideo­ 16gica do livre Mercado. Os "irracionais"ficam de fora do grandeuniver­ so unidimensionado. 316m dos "irracionais" por prOpria natureza, isto e. os sem poder aquisitivo que nem entram no circuito... 03. A filosofia cabe criar conceitos, aprender a pensar, estranhar, encantar-se, desvendar significados. sem esquecer jamais que a razoo recobre apenas parcialmente 0 real. Filosofar nIo resolver problemas. detectar ou remexer :repre­ se~. sem que se possa ir alem delas. Filosofar 6 trabalhar os pres­ supostOs existentes em paJavras, palavras-imagem, conhecendo as conste­ l~ que nela transitam.

e

au


48 04. Frente AEconomia e ARealidade, qual afinal 0 papel da Filo­ sofia? Enquanto critica, a Filosofia ajuda a desentIanbar e trazer a luz os pressupostos amropologicos das diferentes maneiras de ver a Eoonomia. Diante de urn conceitu3rio implantado, imposto e faneional, quaJ.quer sonho e ilusOrio, porque absorvido peJa "unidimensionalidade"', de que falou H. Marcuse. A Economia de Mercado e matriz fimdante do capitalismo, pra­ zeirosamente circundado por urn discurso de sua ~. Matriz conceitual, ao tempo em que, simuIando a centralidade do ttabalho e do ser humano, dissimula a mercadoria humana e 0 seu trabalho. o regresso a ~ do horoem foj invocado por Marx. medi­ ante a centralidade da eategoria "trsbalho", e com ele, a ~ da prOpriavida humana, antes excluida, rompendo 0 simulacro produtivista. 05.Chega.mos a urn ponto cruciaL Como dar as palavras, sem escamoteios, conceitos que nos permi­ tam avaliar 0 real, ate cbegarmos ao "mundo da vida'" de Habermas? Nio Selia necess3rio reconceituar as cate'gOrias "trabalho" e "necessidades humanas", dotando-as de elementos que hoje escapam a essas categorias? As paIavras tern urn significadooculto, porque "0 que as criaturas qaerem dizer quando dizem se relaciona com 0 que nJo dizem" eo que "intentam dizer nJo pode ser considerado em seu sentido imediato, nio porque mintam , mas porque 0 universo do pensamento e da pratica em que vivem e urn universo de contradi~ manipuladas,,(l) Ha difere~ irredutiveis entre 0 universo da linguagem estabe­ lecida e 0 conteUdo filosOfico da lingnagem A co~ politica e pr0­ funda do conceito e irremediavelmen coJidenada pela linguagem funci­ onal e operat6ria, silenciando a dimensio histOrica do significado. Ser-de-necessidade-e-desejos nJIo e considerado pelo pensamento econOmico, porque :flutua ele por cima da corporeidade concreta. Oaf poique a Filosofia cabe ensaiar CODceitos que operem por urna critica a Economia e criar saidas em prol da dignifi~ dos seres hJlJDllDO!i. Busca-se a dimenslo oculta do significado,· do dizer que nJo diz ou da linguagem que DIo fala. Esvaziado 0 real. a Economia de Mercado cria urn vasto "mentiral" no conceitu3rio ecooomico. A comuni~ em massa dos provisionadotes do "status'" torna defini~ e pr~ quase hipnOti­ cas, Durna linguagem totatitaria. Linguagem fechada, aIheia a prOpria critica. Nio demonstra nem explica, apenas comunica. 06. A Filosofia nJIo desistin\ de tomar por inteiro 0 outro", na sua corporeidade, unificando todos os sentidos das palavras "1roca", "in1erclmbio", "mercado" etc. ate cbegar a treca-entrega, realiz~ da Economia em sua signifi~ meta-econemica. Uma Economia para 0 Homem.


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A Economia de Mercado em Dada se refere a nOs enquanto seres humanos, concretos, seres de necessidade e desejos, corporeidade vivas. Nlo basta criar conceito novos... "quaJidade total", "modemidade", economia social" etc., substituindo conceitos que Cali足 ram. E preciso dar urn passo alem: eperguntar-se sabre 0 que 1100 estava adequadamente nomiDado e definido nas ~ existentes na linguagem ficcional da Economia de Mercado. 07. "0 que e 1100 pode ser verdade", pois a verdade da semente esta no seu retorno. o ausente deve ser tornado presente, pois a verdade esta na nega足 ~ do principio que govemaa atual ~. Para onde caminbamos? o poder de negarcomeca a sentir-se adulto. A transfo~ estl em ~. E com a m~ encerra-se 0 ciclo da coisificacao. Sell nascedouro, a corporeidadeconcreta, denecessidades e desejos.

Notas:

1 Herbel Marcuse, "Etica de la Revolucion". Tourus Ediciones., Madrid, 1965.


BERGSON E AS IMAGENS DO CINEMA MODERNO

Jorge L. R. de Vasconcellos Para Bergson tudo e imagem. Percebemos imagens, agimos em torno de imagens e nos afetamos par imagens. A materialidade do mundo real e imagetica e, simultaneamente, Iuminosa. Assim tudo 0 que perce­ bemos, 0 outro, 0 mundo e 0 nosso prOprio ser sao imagens para 0 fil6s0­ fo frances; tambem, nossas ~ gravitam em tomo do objetos e coisas que se apresentam como imagens, alem dos corpos que nos afetam: 0 mundo acaba por 1110 ser mais uma imagem degenerada de IdCias Trans­ cendentes, ele e"imagJml-imanente" de f~, pura materia. Materia que apresenta 80S olhos do espirito pelo "principio da luz"( a materia somen­ te pode ser percebida se i1uminada) e destacada, por ser movimentar no mar de imagens que e 0 mundo. A ~ do mundo aos o1hos do bomem seria idCntica a um "Beran", au tela cinematogrcifica. As imagens apareceriam e seriam n:cortadas pela consciCncia possl"bilitando a visibi­ lidade: a vida ecinema. Bergson DOS ensina que toda que toda imagem est! em movimento, au Iilelhor, IMAGEM-MOVlMENfO. Esta multiplicidade de imagens produziriam linhagens de acordo com suas re~·para com as eategorias de ~movimento. Existiri­ am pianos de iman&1cia, sustentados por blocos de esp89O-teJDpO, media­ dos e percebidos pele aparelho sens6rio-motor. Perceberlamos imagens­ movimento distintas: petcqXivas, ativas e afetivas. Essas imagem­ percep;io, imagens~e imagens-af~ sao as imagens predominan­


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tes do Cinema Classico Narrativo (1) para Deleuze, leitor de Bergson (2). As grandes percepw6es dos filmes de Fritz Lang: as multidOes de Metr0­ polis: a ~ intensiva dos Westerns de Ford e Hawks; e 0 cinema­ ~ de Joana 0 Arc de Dreyer, sao exemplos do cinema das imagens­ movimento. Um cinema brilhante, mas ainda preso ao "esquema se'" rio-motor" da ~ e ~ frente ao dado, subordinando 0 tempo ao movimento. A verdadeira revol~ estaria por vir: 0 cinema modemo. Bazin di.ria em urn de seus brilbantes ensaios acerca do NED­ REALISMO (3) que 0 cinema moderno, propriamente dito, nasceria com o ~ de duas obras: "Cidadio Kane", de Orson Welles e "Roma Cidade Aberta", de Roberto Rosselini. Estas duas obras inaugurariam uma estetica "anti-representacional"(4), fundada em urn novo realismo­ urn. novo cinema, urn cinema-verdade- uma nova imagem, uma "imagem-fato". A montagem seria substituida pelo pIano-sequCnci.a e peIa profundidade ~ campo: 0 Todo nIo seria mais percebido intelectu­ a1mente como nas montagens cIassicas de Hollywood, de Grift\h on Eisenstein, mas apreendida peIo olbar do espec;tador que distiDguiria, atraves da dialetica entre figura e fundo, todas as nuances da imagem, do cinema, da vida. .. do Todo. 0 cinema modemo para Bazin e 0 cinema do fluxo narrativo, urn. cinema da ~, em soma, urn cinema bergsoma­ no. o cinema modemo e urn. cinema de "~ "bergsoniana, para alem de Henri Berpon. que nio percebetl todo o seu potencial. nem coobeceusuas grandes obras. 0 cinema modemo nasceu de uma.ense, da crise das cJuunadas imagens-movimento. esta cnsetena cinco caracterls­ ticas au fatores, que nJo somente apontaram a derrocada do Cinema Classico Narrativo, mas 0 surgimento de urn. novo cinema e de novas imagens para 0 cinemat6grafo. Em primeiro lugar, a imagem nio remeteria mais a uma si~ globaJizante ou sintetica, mas dispersiva. Os persona.gens sao mUltiplos; com interfer6ncia enfraquecidas- tomam-se principais e retomam a ser secundlirios. Outra ml1da~ foi 0 rompimento da 1inha au fibra do uni­ verso que propagava os acontecimentos uns nos outros, ou garantia a j~ das ~ de espI9): a realidade passa a ser lacunar e dispersi­ va. Os personagens nIo mais aJmejam as alturas, eles caminbam peJa superficie. Em urn terceiro momenta a atualidade da imagem~ e a virtualidade da imagem~ cairiam na indif~ sendo que 0 passeio, a ~, 0 continuo ir e vir substituem a ~ e a situa­ ~ sens6rio-motora. Os cliches passam a ocupar 0 Ingar da novidade, funde urn corgunto: a vida repete-se diferentemente e os homens ocupam­ se da banalidade; 0 cinema modemo torna-se espelho da vida, au melhor, a prOpria vida. A fragmen~ das si~ e aconteeimentos lacuna­ res e dispersivos provocam infinitas fissurasno -Todo: 0 cinema absorve

e


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as modemas teenicas do romance de Dos Passes, Joycee Faulkner. E. por Ultimo, 0 cinema ganha 0 estatuto da reprodutibilidade e se intluencia pelas midias, 0 jomal, a TV, as imagens-eletrenicas e cibemeticas dos computadores. a modernidade acaba por instalar-se definitivamente na "Beran" Cfuematogr3fica. Estas cinco caracteristicas ou fatores combinados simultaneamen­ te apontaram para uma crise edespontaram uma linha de fuga. J3 com Hitehcook e com 0 cinema minimalista de Yasujiro Om tomar-se-ia aparente. 0 autor de "Vertigio" e mestre do suspense tomou 0 espectador particiapante do espetaeulo, mas ainda assim 0 espet3culo persistiu. A modemidade cinematogrtiica tomou os prOprios personagens espectado­ res. 0 estranhamento produzido por Hichcook quanto aimagem foi radi­ calizado: os personagens do os espectadores do prOprio espet3culo. do filme, da vida, do mundo; registram e observam, ao inves de agir e rea­ giro Om. por suavez, foi inventor. antes do Neo-realismo e de Orson Welles, de imagens 6ticas e sonoras puras. Seus pianos fixes, camara baixa e 0 fiel retrato do banaI cotidiano da vida do "'homem co­ mum"japones trariam toda a essencia do cinema modemo. Negligenci­ ando por completo as fusOes. tao caras ao cinema americano para as ~ ~temporais por simples cortes. instaurou uma montagem "cult". Esta montagem cut. 0 plano fixo e as imagens 6ticas e sonoras puras implicari.am 0 desvelar de novas imagens para 0 cinema, imagens para 0 alem do movimento: as imagens-tempo. PIatOO taIvez tenha criado uma de suas mais belas imagens ao referir-se ao tempo. Esta seria a imagem mlwel da Etemidade. Dai por diante fundou-se uma ~ na hist6ria do pensamento ocidentaI: 0 tempo estaria subordinadoao movimento. porque aquele euma represen­ taIWIo da eternidade, e. esta e im6ve1. Bergson se aproveitaria da idCia de tempo como imagem para expIica-lo de outra maneira e reverter a ~ representacional que PlatJo esculpiu para 0 tempo. De princlpio, ele retomou 0 senso comum e seus !res momentos para 0 tempo: 0 passado que passa, 0 presente que e e 0 futuro em devir. Mas caminhou diferentemente em re~ ao senso comum e a esta tra­ dicional imagem do tempo. 0 presente euma atualidade. ou seja, 0 que ~ atual e sempre urn presente. 0 presente sente torna-se passado quando urn novo presente 0 substitui. As imagens necessitam desta passagem do presente para 0 passado a fim de que novas imagens se apresentem. Acontece que estas imagens que passaram nIo desapareceram, nem es­ conderam-se nas "gavetas da mem6ria" do senso eomum: elas se conser­ Yam, difusamente. e em estado latente DO presente QUe se apresenta. Este presente guarda em si este passado que escapa. Presente e passado estari­ am combmados e simuItaneamente Hgados: coexistentes. As imagens


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passadas do contempodneas da imagem presente. Destacando-se, para

ser mais rigoroso, que a imagem presente estaria numa atualidade, en­ quaDto as imagens passadas , em estado virtual. Ao passado .nio sucede 0 presente, elas coexistem. Bergson criou uma ponte ao inves de uma linba do tempo. 0 passado seria 0 inicio da ponte; «> presente o meio, ondenos encontramos; e 0 futuro ou devenir para onde noS dirigimos. Os tres momentosfazem parte desta ponte, eles sao a ponte. SO estamos DO meio da ponte porque a iniciamos. Esta ponte om presente que se desdobra em duas pontas: uma que se l~ para tris, 0 passado; e outra que s estica para frente, 0 futuro- 0 ser devir para Bergson. 0 tempo, entJo, se cinde em dois momentos: om faz todo 0 presente tomar-se passado e 0 outro conservaria este passado no presente. Assim podemos destacar tres grandes teses bergsonianas sobre 0 tempo: 0 passado coexistiria com 0 presente que ele foi; 0 passado se conservaria em si, como passado em gem ( nio obedecendo cronologias) ; eo tempo se desdobraria a cada instante em presente e passado, presente que passa e passado que se con­ serva, Uma imagem do tempo para alem da represen~. uma nova imagem do tempo. Uma nova imagem do tempo para 0 cinema. Estas novas imagens para 0 cinema sao as imagens-tempo que possuiriam, a partir da leitura deleuziana, tres divis6es basicas ou princi­ pais: as imagen~leJDbran¥l, as imagens-sonbo e as imagens-crista1. As imagens-l~ partem da ~ bergsoniana de reconbecimento. Haveriam dois tipos de reconhecimento: 0 reeonhecimentoautomatico ou habitual e 0 reconhecimento atento. No h8bito a ~ se prolongaria em movimento de costumes sens6rio-motor. Por exemplo, bastarlamos o1harom determinado objeto para que mecanismos motores se constitui· rem e acumuIarem-se. 13 DO reeonhecimento atento nio prolongariamos nossa per~, a ~ colocar-se-ia descritiva. No primeiro reco­ nhecimento ( habitual ou automiltico) ainda estava sendo produzida uma imagem sens6rio-motora, enquanto no reconhecimento atento, ja estari­

e

e

amos As voltas com uma imagem 6tica (e sonora) pur3. A imagem­ ~ e fiIha deste reoonhecimento atento, far-se-ia a partir de uma virtualidade ( do passado conservado) para atnaJizar-se no presente. As imagens-sonho sao as imagens cia ftagmen~ e dos circui­ tos interligados. Quando dormimos nJo estamos fechados. ~ exteriores e interiores. Mas nos deparamos com imagens-l~ difosas, que se misturam, tomado-se verdadeiros "l~is de passado fiuidos e maleaveis", que juntam-se numa determinada or~ crian­ do om circuito. Pur isso, as perc::ewies onfricas sao difusas, mas ainda sic perc::ewies. Assim como temos impress5es, em geral, de ambientes nebulosose sinestesias ( amontoadosperceptivosdesordenados) . As imagens-<:ristal taIvez as mais belas imagens-tempo. 0 que e om cristal? Verdadeira preciosidade mineral, advinda do opaco ,~

seJam


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duro quartzo, que transforma-se na bela transparCncia e insustent3ve1 leveza do cristal. As imagens-cristal do as imagens da tIansparCncia e da leveza,cujo exemplo mais popuIarizado pelo cinema e 0 espelho. Uma imagem que se instaura por uma espCcie de duplo entre uma imagem atual e "sua "imagem virtual. A imagem-crista1 e a mais instigante das imagens-tempo; a partir deJa e de seu jogo de duplos e espelhos, podemos pensar uma das caracteristicas mais contundentes do cinema modemo: 0 fiIme dentro do fiJme ou 0 cinema no espe1ho. o cinema modemo COIDO uma de suas vertentes e problemas trouxe a tona a questIo da ~ e da auto-referencia: urn. cinema que fala do prOprio cinema, que busca a todo momento pensar a ~ e a inv~ cinematogr3fica. Dentre desta vertente, .res cineastas do exemplares: Frederico Fellini, Jean-Luc Godard e Wim Wenders. Fellini foi urn dos maiores cineastas itaIianos; roteirista e ator no inicio do Neo­ realismo, trabalbando com Roberto Rosselini. Sen filme "Oito e Mezzo" (Oito e Meio) foi 0 criador do que cbamamos cinema no espelhoou ,filme dentro do filme. Suas questOes fbndamentais do 0 insOlito e 0 grotesco na vida-espet3culo, onde urn humor, quase circense contrasta-se com uma profunda reflexJo soble a memOria e a vida. Godard eurn. dos gran­ des nomes de Nouvelle vague, 0 ex-entice de cinema. dizia fazer critica­ cinematografica e filmes-crlticos. Subverteu a maneira de filmar; seu fiJme"A Bout de Souflle"( Acossado) de 1959 e om marco. Wenders e, talvez, 0 mais instigante cineasta do cbamado Novo Cinema AIemao. Todosseus filmes praticamente referem-se de alguma forma ao cinema, a passagem do tempo, a solidlo da vida modema. Os tres tern alga em comum. Ao fazerem do cinema a possibilidade para opensamento dar conta do mundo, aumentando-o, produzindo-o, fazendo 0 cinema refletir­ se, tomaram-se cineastas-pensadores ou pensadores-eineastas. ' o cinema no espelho, ou 0 fi1me dentro do filme, possui 0 sentido de modemidade na arte. aquele que reflete-se e prob1eoJatiza 0 prOprio fazer artistico: a obra c:pJe tala da ~ da otn. Este cinema est3 ioundado de imagens-tempo e particulannente de' imagens-cristal e 0 cinema das imagen~sta1. Urn grande espelhp que duplica-se e ~ bra-se, apre&entando a bela transparencia e a verdade da ane: as re~ entre ~. ~ e ~ artfstica. O:fiJme a ser gestado e suas dificuldades, a soIidio da ~, a necessidade do reconhecimento, e a morae da obra de arte- 0 cinema euma m3quinade pensar. Para Bergson pensar einverter 0 caminho habitual da vida, reno­ var a existencia e realizar BOSSa natureza. Estes cineastas-pensadores produziram jmagens que nos possibilitaIam olbar 0 mundo de outra for­ ma. produziram imagens que nos mostraram novos angulos e per~ para 0 mundo. produziram imagens novas para 0 mundo e om Mundo de novasimagens.


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Notas: 1 0 Cinema C13ssico Narrativo e assim cbamado par tel inventado a linguagem do cinemat6grafo como a .conhecemos .Seu nascimento pode ser datado para alem das primeiras experieucias dos irIn40s Lu­ mien: (1864-1984) e de Georges Melies ( 1861-1938) nos grandes fil­ mes de David W. Griffith (1875-1948) como 0 "Nascimento de uma N8l;Io"(1913) e "Intolenincia"(1916). Nestes filmes, 0 diretor ameri­ cano criaria a montagem paralela, desvincu1aria 0 cinema de uma es­ tetica teatral ainda dominante att aquele momento, alem de fundar a United Artists com Charles Chaplin, M Pickford e outros. Todo 0 ci­ nema que viria depois nos Estados Unidos acabou por softer sua influ­ encia criando uma Iinguagem pr6pria que viria a ser reconhecida pelos crlticos mais tarde como cinema hol1ywoodiano ou Cinema C13ssico Narrativo. 2 Gilles Deleuze escreveu dois tomos onde procura desenvolver uma especie de taxionomia das imagens cinematogr3ficas, abordando 0 Ci­ nema C13ssico Narrativo e 0 Cinema Modemo e suas mUltipias varia­ ~ imageticas, partindo basicamente de duas grandes vertentes: as imagens-movimento e as imagens-tempo. Deleuze utiliza nesses textos, fundamentalment, as obras de Henri Bergson. especialmente 0 pri­ meiro capitulo de."Materia e Mem6ria". AIem do fil6sofo frances, ha uma clara in1lublcia da semiologia da lingua inglesa de Charles San­

ders Peirce nas anatises cinematognUicasdeleuzianas.

3 0 Neo-reaIismo, ja se disse, foi conceitualmente obra de Andre Bazin, importante critico cinematografico dos p6s-guerra frances. Este movi­ menlo teria, segundo esta ja chissica leitura, mudado complemente a maneira de se fazer cinema no Mundo e juntamente com"CidadloKa­ ne", de Orson Welles oonstruido aquilo que se convencionou chamar de cinema moderno. 0 Neo-realismo se caracterizou pelo abandono das trueagens de estUdio, pela nio utiJjza~ de atores profissionais e pela incisiva cri'tica adura realidade social das ~ empobreci­ . das e exploradas: () real acabou por tomar-se nu com 0 Neo-realismo e a arte deixou de imitar a vida. 4 Tanto na piDtura e na mUsica como na literatura. a arte modema rom­ pe com 0 pressuposto basico do pensamento da represen~: a arte que imita a vida ( 0 principio Jllimetico platOnico). Nesta 110\'3 postma


57 frente ao Real, a arte nao mais imita a vida, ela produz vida, ensejando uma realidade diferenciada a partir da sensibilidade, da intui~ e da s ~ do artista. Tanto nas obras de Braque, Picasso. Klee, Stravinski, Schoenberg, MaJJarme au Joyce, este novo principio est8 colocado. tanto nos movimentos esteticos como 0 cubismo, 0 expressi­ onismo, 0 futurismo, 0 dadaismo e 0 surrealismo podemos notar com contundencia a crise deste pensamento da represe~o. A arte re­ nuncia a todo e qualquer canUer ilus6rio do real, busca uma autentici­ dade que acabou por perder-se entre os sonhos romanticos. Assume a defo~o dos objetos naturais como natureza. faz do falso verdadei­ ro, potencializa 0 que foi enfraquecido pela filosofia metafisica classi­ ca: 0 mundo da vida. A Modernidade na arte enterra de vez deuses e homens, p6e 0 acaso e a provisoriedade na ordem do dia, alem de afir­ mar e preencher 0 simulacro de positividade. 0 cinema surge oeste contexto e se consolida enquanto linguagem, mas somente com os til­ mes de Welles e os italianos Neo-realistas a arte do cinem at6grafo che­ ga a modernidade e visita a crise da represe~.

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"."."

~,

A DIALtTICA DA NATUREZA: UM NOVO PARADIGMA

FILOSOnCO PARA A ECOLOGIA

Jose Ramos Coelho Desde bj alguns milhares de anos., sedimentou-se nos mais profundos estratos cu1tmais do pensamento humano 0 ponto de vista se­ gundo 0 cpal 0 homem e 0 soberano da ~. Todas as formas de vida estariam predestinadas a servi-Io e satisfazer-lhe as necessidades. Para romper com estas falsas fonnas fenomenais de apreensio da reaIidade ­ as quais permanecem no nivel superficial da aparencia e do senso-comum - toma-se indispensavel expor 0 aprimoramento lento e gradual da cultu­ ra humana a fim de mostrar que as ideias que temos acerca do mundo vivo e que nos parecem. naturais e etemas nio passam de reflexos ideo­ 16gicos resultantes da ~ de detenninadas condi~ de existb1cia e de ~ especfficas de domi~ e controle ambiental. E certo que 0 fen6meno pode ser apreendi.do pelo senso comum au pe1a consciCncia de urn forma imediata~ mas 56 a media~ permite a oompreenslo do que se oculta par tr8s deles. Ai reside. justamente, a im­ portjncia do metoda dialetico: fteqUentemente os fatos que se apresentam aconsciencia de uma formaimediata, dada au acabada - e as representa­ ~ que eia produz au reproduzcom base nesses fatos - sao precisamente a ~ completa da verdade e da ess6ncia. Os fatos, tornados de uma


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forma isolada, sao relativose abstratos; e as representacoes que a consci­ encia toma como sendo expressio fiel e legitima da realidade, tomam-se falsas na medida em que adquirem um car3ter fixo e se mostram inde­ pendentes de todo 0 processo que as engendrou. Ao captar 0 movimento interno do real, a dialetica liquida com a pretensa iJldependblcia dos fa­ tos. Aqueles fatos que, ingenuamente, a consciencia tomava por absolu­ tos e cram dados de uma forma imediata eram, na verdade, mediatizados por outros fatos; longe de serem independentese absolutos, eram na ver­ dade relativose dependentesde um processo que os determinava. Portan­ to, para que 0 saber seja efetivo e nio apenas abstrato, faz-se mister 0 emprego da dialetica, a qual revela 0 caminho para a consciencia elevar­ se do imediato (do mundo dado e de suas representafW&s) aessencia (80 conhecimento interior do processo). A dialetica da Natureza exige, para ser compreendida nos seus fundamentos, que se tenha em mente a identidade entre a prOpria Natu­ reza e 0 Absoluto. Por Absoluto entendemos 0 que e por si mesmo e se manifesta atraves de sua prOpria ~~; par Natun':t.a entendemos, num sentido estrito, a matriz das coisas, a realidade que ~az a nossa experiCncia, a Tel/us Mater, correspondendo 80 sentido do tenno Physis para os gregos antigos. Causa de si, ea fonte originaria das coisas, prin­ cipio de tudo 0 que vern a ser. Num sentido lato, significa 0 mundo que e dado a nosSa experiencia senslvel, quer dizer, 0 mundo derivado, gerado. E tao somente a 110 sentido estrito que deve ser entendida a identidade entre ambos os conceitos. Entretanto, a ~ desta identidade nio exclui a ~ e a dif~: ha, realmente, uma ideDtidade aa dife­ ~ e am. dife~ aa idadidade da Natureza consigo mesma. A. positividade da Naturezacontrapi5e-se a neptividade transformadora do traba1ho humano. Esta oposi~ sempre desaguou em duas correntes principais: uma. salvaguardanGJ os privilegios bumanos e sua posi~ predominante sabre 0 ambiente, sustentava existir ~ essenciais entre os homens e os demais seres. salientaDdo a especificidade prOpria da natureza bumana como algo de autbnomo, sujeito a uma diversa or­ dem de realidade daque1a das demais esp6cies naturais. eualtecendo as­ sim a cultura e jUstificando a domjn~ do homem sabre 0 meie>; em contrapartida, uma oum corrente observava que as dif~ entre os homense os animais era apenas de gnu e nIo de essencia, aproximando, desta forma, 0 homem do Dnmdo vivo, e, ainda, demmciando a ci\Iiliza­ ~ e a cultura COJD() penrerslo e causa da infelicidade e degeneresceDcia do prOprio homem e do Tais ~ por serem exclusivistas e unilaterais. se anulam 1ilUtuamente.S6· uma perspectiva dialetica das re~ homemlNatureza permite que·tem de parcial, conservar o que elas tem de 1egitimo e SUprassunili' 0 impasse, estabelecendo a oposi~ em nows bases. Se a hist6ria humana e um prolongamento da

ambieme.

.0


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hist6ria natural,

e preciso compreellder a positividade do negativo em

gent (0 homem, agente negativo.e tan,1bem animal, Natureza) e a nega­ tividade do.poIitivo.(a Natl.m:Za traz·.em si.esgermes de sua prOpria auto-ne~).

Isto impfu:a eD1 concebera ~ natural 0110 movimen­ to da Natureza como sendo.a prOpria manif~ do Absoluto, 0 qual e identico a si mesmo; contudo,como essa identidade mo e estatica, mas sim uma igualdade--consigo.em movimento, ela contem nela mesma a dife~ e a ~. Comoveremos a segnir, 0 movimento do Absoluto 011 suareftexJlo em si mesmose desdobrar.iem tICs momentos: 1) a Na­ tureza em Ii, onde 0 Absolulo se manifesta e se autodetermina de forma imediata e espontAnea; 2) a Natureza fora de Ii, onde a Natureza se aliena de si mesma e se p5e na forma de seu ser-outro, 011 seja, se mostra transformada pela cultura; e, finalmente, (3) a Natureza em Ii e para Ii, onde. ap6s afastar-se ao maximo de si mesma, tenta reconciliar-se consi­

go. A NATIJREZA EM 81 For Natureza em Ii entendemos a Natureza em seu estado puro imediato, i. e., em sua livre autodetermi~. Esta se manifesta e apresenta sob a fonna do equilibrio harmonioso da eoosfera, auto regu­ lando-se pdo concurso de uma infinidade de seres que se inter relacio­ nam de forma muI1i complementar, formando, em sua exuberante diver­ sidade, uma unidade org3ni.ca. A dinamicidade deste equilibrio sujeitao<> a cataclismos, a eat3strofes, a altera~, em soma: a si~ tempon\­ rias de desequillbrio, as quais do ~ au ~ do todo, de ondesurgem novas fonnas de equilibrio. Omundo natural eurn sistema homeostatico cujos componentes se mantem em ~ de sua diversidade,a sobrevi.vencia de cada espCci.e dependendo diretamente do ftmcionamento harmonioso da ecosferacomo urn todo. Se ea ~dade dos seres vivos no ambiente QlW 0 lorna eco­ logicamente sustent3ve1, pode-se mer que a unidack da vida se conserva em virtude de sua diversidade e vice-versa. A interdependencia entre os seres vivos edo profunda que podemos afirmar, baseados nas descober­ tas de DARWIN, que 0 ler vivo e UIII produto de reI~ naturais. ".., A conformtlflio de cada ser organizado est" em relafilo, nos pontos mais importantes e algumas vezes mais ocultos, com a de todos os seres orgamzados com os quais se acha em concorrencia para a sua alimenta­ fiio e habitat;ilo, e com a de todos aqueles que lhe servem de presa ou contra os quais tem de defender-se. A conformtIfllo dos dentes e das gar­ ras do tigre, a das patas e dos ganchos do parasita que se prende aos 011


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pelos do tigre, oferece umaprova evidente desta lei" ([ ]: p.79-80). Esta in~ se fumou como paradigma para a ecologia. "0 grau de desen­ volvimento do conhecimento, observa DAJOZ, impOs aos sabios 0 estu­ do dos fen6menos naturois como se estes fossem destacados uns dos ou­ tros, isolados e independentes. Ate Urn periodo recente este modo de pensar ajudou a ciencia a fazer 0 inventario do mundo, a sistematizar suas aquisifOes e foi condifilo muito importante dos enormes progressos realizados. Em certos campos da biologia, ainda pouco estudados ou demasiado vastos para terem sido completamente estudados, este modo de pensar e ainda util atualmente. Mas trata-se de um modo de pensar que se pode qualificar de metofisico. tendo-se tornado para muitos es­ tudiosos um habito que leva a considerar os objetos e os fen6menos fora de suas ligafOes, quando a Qfiio reclproca e 0 primeiro carater que se impiJe a nos ao examinarmos as coisascientijicamente" ( 1978: p.21-22). Semelhante e 0 parecer de ODUM: "... para entender uma arvore, e ne­ cessario estudar tanto a floresta na qual ela e uma parte. como as cetu­ las e tecidos que silo parte da arvore" (1977: p. 25).

Sendo 0 ser essencialmente pnx:esso e a Natureza movimento, sua realidade esta no outro ou no deixar de ser 0 que e. A Natureza se pOe e se realiza atraves de sua auto-exposi~. a qual se da por meio de nega­ ~ mesmo nas suas mais simples Inanif~. 0 autbtrofo, por exemplo, sob 0 influxo da energia solar, assimila elementos inorginicos e, a partir deles, sintetiza ou produz compostosorg3nicos. Na fotossintese a ~ vira consumo e 0 consume, ~. E eIa que fomece a base alimentar para toda a vida animal na terra. Com a divisio natural do trabalho entre os que produzem materia viva. os autOtrofos. e 05 que se apropriam do produto de seu trabalho, os beter6ttofos. produzindo materia viva se:cund3ria, tern inicio 0 grande enigma de toda a hist6ria natural: a apropri~ e a esplo~ do indMduo peIo individuo. Se, para 0 autOtrofo. a vida e a ~ ou assimiJa~ dos elementos iDor­ gAnicos, para 0 beterOtrofo a vida e a ne~o da pr6pria vida. ne~ do outro de que depende e por meio do qual se alimenta. Esta divisOO do trabalbo conduz a fo~ de estruturas ecossistemicas e de cadeias tr6fu::as. Instaura-se, a partir dai, a ltlta das espeeies, que passa a ser 0 motor da histOria natural e a chave para a compreensio da evo~ dos organismos viventes. Porem, entre a paz e a guerra na Natureza. h3 0 pacto - a cooperacao, a integr~~ a ajudanultua e a simbiose. 0 autOtro­ fo, por exemplo, embora se nutra pot si prOprio gracas a fotossintese e a quimiossmtese. nio e auto-suficiente em rel~ aos demais seres beter6­ trofos. A pr6pria fotossintese dos vegetais c1orofilados pressup6e a respi­ ~. que e 0 processo inverso realizado pelos animais. Com efeito, en­ quanto pela fotossintese 0 vegetal armazena energia, peIa r~ 0 animal libera calor e energia. A fotossintese e, pois, uma ~ pelo


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avesso: enquanto na pnmeira 0 vegetal assimila gas carbOnico e libera oxigenio, na segunda 0 animal inspira 0 exigenio e expele gas carb6nico. H3, portanto, entre os aut6trofos e os beterOtrofos, uma rel~ contradi­ tOria e interdependente. Se e certo que sem os vegetais tornar-se-ia im­ possivel a existencia dos animais na terra, IS igualmente certo que sem os animais os vegetais ver-se-iam privados do waxido de caibono que os alimenta e lbes possibilita a realizaeao da fotossintese. Mas para que baja a p~ orginica. faz-se indispensavel a ocorrencia da reprodu~io dOl &gentes da produ~lo, a r~ dos seres vivos. AD copular ou multiplicar-se 0 individuo segue inexoravel­ mente 0 seu prOprio instinto; mas este ato singular, reprodutivo, e ao mesmo tempo um ato universal pelo qual a prOpria especie se serve do individuo para perpetuar-se. Em nome da sobrevivencia da espeeie, mui­ tos animais arriscam ou sacrificam suas vidas em defesa da prole ou da sociedade a que pertencem. Embora para 0 anima1 nio haja valor mais elevado do que a vida, eles, mesmo assim, a arriscampois, na sabedoria basica do seu instinto, sabem que a espeeie enquanto universal tem mais import!ncia que a vida singular. E. com a morte do individuo, entram em ~ as bacterias e os microorganismos que decompOem e retiram as subst8ncias minerais contidas no organismo morto e as reintroduzem nos cielos. sao muitas e surpreendentes as formas pelas quais a vida se entre­ ~ com a morte. 0 prOprio ato de estar vivo e, a cada momento, um morrer parcial e relativo. A interdependencia dos seres vivos na Natureza. a collCOl'lincia dos vegetais em busca de agua e luz, 0 esforeo dos anilnais em ~ as fontes de alimento, a defesa do territOrio, 0 duelo e combate dos machos pela posse das remeas, a sel~ das sementes au avos que conseguem sobreviver - todos estes eventos podem ser compreendidos sob a expres­ sao Iota pela IObrevivfm::ia ou luta daI especies. Se a hist6ria natural pode ser descrita sob a forma de uma luta das especies, podemos dizer que na prOpria objetivac;40.da Natureza estJo postos os elementos confli­ tantes que sOO a sua mola propulsora. Considerada em si mesma, em sua positividade, a NaturezaconteIn e encerra os germes negativos que a le­ vam a uma continua a~, Com efeito, a histOria humana e urn prolongamentoda histOria natural. Com 0 surgimento da espCcie humana a Natureza se encaminba para um momenta de ruptura e de significativas modifi~, resuItantes do . . . .nw quantitativo da influ!ncia e do poder humano sabre 0 ambiente graeas ao usa e descoberta de teenologias cada vez mais complexas. . Pode-se dizer que os hominideos comecaram a seguir um cami­ nho prOprio quando passaram a andar sobre os prOprlos pes, deixando


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libertos, para a exec1JIitio ileoutras atividades, os membres: superiores. A sO tem paralelo com a ~ da linguagem, que emancipou' 0 pensamemo.do mundo feDomenal. penni­ tindo assim a ~ de mitos. religiaese formas definidas de cuJtura. Dos antmp6ides aoshominideos - e destesaos'bomo:teis.alinha evoluti­ va que descreve 0 itinerario que desembocou··no aparecimento final da humanidade. Mas afina1, 0 que eo homem? Definimo40'oomo um ani­ mal cultural - pois e precisamente a capacidade-de produzir artefatos, idCias e ideologias que fez com que 0 homemsediferenciaae e se afas­ tasse do mundo natural. Procurando ·diferenciar'0 que hi de. natural e cultural no homem., LEVI-SlRAUSS afirmaque e natural·tudo aquilo que e universal, quer dizer. aquilo que nIo e aprendido. oem dependente de uma detenninada sociedade OQ ~. E adturaI. por outro lado, tudo 0 que se lip as normas, 80S costumI:ls; em:soma, a ~ de um grupo humano determinado, apresentando os atributos do relativo e do particular (1982: p.47). Enquantogrande parte do comportamento ani­ mal determina-se pela ~ biolOgic;a, no homem a aprendizagem co~ a partir do nascimento. quando pela socializ~ 0 individuo vai assimilando a tradi~ extema dogrupo em que vive. A cultura e a via que a bllmanidade eocontrou para adaptar-se ao ambiente - ou para adapta-lo a si pr6pria. 0 que caracteriza a natureza bumana e a sua ca­ pacidade inedita de produzir cultura. E pelo seu trabalho e pelo seu estilo de vida que 0 homem vem a ser 0 que e: um ser biocultural. Pelo seu tra­ balho, 0 homem da forma a Natureza e se transforma por fOI\2 do seu prOprio .agir. Enquanto os animais usam como instrumento 0 prOprio corpo - .oumesmo, emcarater esponidico e eventual, certos objetos en­ contradosnoambiente. como os primatas e alguns p;issaros que apanham com 0 bico um graveto e 0 lItiJizam para retirar insetos escondidos na casca das 'arvores -. os homens criaram artefatos exuaeorp6reos para mediatizar'c·complementar a sua ~ sabre 0 meio. De uma maneira geral, a cultura e' uma realidade extrabiol6gica. transferivel e que pode ser adaptada a um nUmero infindave1.de.situatw&s. 0 que :reptesenta uma notavelvantagem sabre os outros animais. Com efeito. por ser tIansferi­ vel, 0 homem e 0 herdeiro da~. 'reoebendo a experiCncia aeumula­ da por todos os seus anteeessores. E sendoextracorp6reos os instrumen­ tos e cqetos utiliiados peto homem, podem ser postos de lado, substituidos e recriados para atender as novas exig&tcias OQ desafiosque se apresentem. &ta. flexibilidade da culturaface as circunsthcias cia ao bomem um grande trunfo naluta pela sobrevivencia, uma vez que. diante de al~ dnlsticasno· -ambieilte, como as' que ocorreram na pre­ hist6ria. em que por- v3rias vezes 0 clima de quente se tornou extraordi­ nariamente frio, muitas criaturas se extinguiram , enquanto 0 homem pode fazer ajustamentos culturais - como abrigar-se em cavemas, utilizar emanci~ dos membros'SUpeRORS


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o fogo para aqeeeer-se, vestir-se com peles quentes, etc. Complementan­ do a biologia, a tecmca pode supIantar ou contomar as deficiencias cor­ porais do homem. 0 que 0 punbo cerrado nio pode quebrar, fa-lo 0 mar­ telo; 0 que a mio em posi~ cOncava nJo apanha com perfei~, a cother o executa; quando a mem6ria falha, recorre-se ao livro, etc. Talvez a ca­ racterlstica mais importante da teenica seja a sua complexifi~ cres­ cente. 0 homem produz ferramentas que the pennitem criar novas e di­ versas fenamentas. Cada aperfei~to tecnico pennite e possibilita 0 surgimento de estruturas mec3nicas cada vez mais aperf~ e com­ plexas. Esta acum~ aditiva de tecnologia, esta sobreposi~ de in­ ventos exerce cada vez mais uma influencia determinante sobre 0 proces­ so de homjnj~, abrindo-lhe urn borizonte sem precedentes de possibilidades inexploradas. ao tempo em que os seus controles inatos, geneticamentedeterminados, se debilitam, sendo substituidospor contro­ les extrabiolOgicos au culturais. Urn primeiro passo decisivo no caminho da homjnjz~ foi dado quando, diante de dois blocos brutos de pedra, urn inventivo gCnio primitivo arremessou urn contra 0 outro, obtendo a partir dai diversos instrumentos. Urn segundo passo crucial ocorreu com 0 uso e 0 controle do fogo, possibilitando ao homo ereetns bbertar-se das limi~ que lhes eram impostas pelo ambiente e domina-Io. Adorado e temido, 0 fogo foi a primeira fonte de energia a ser dominada por nossos ancestrais pre­ histbricos. Fonte de luz e calor, 0 fogo fomeceu uma defesa contra 0 frio e os animais notumos, bern como uma arma poderosfssima, com a qual podiam investir contra qualquer fera. Pouco sabemos a respeito da cultura espiritual do bomem pre.. histbrico,a nJo ser que sepultavam ritualmente os seus mortos. Deixaram ta.Inbem diversos produtos artfsticos, dentre os quais ocupa lugar de des­ taque uma magnifica arte parietal, que sugere, pela abundAncia de ani­ mais em ~ com homens, nIo a ~, mas uma continuida­ de entre 0 mundo humano e 0 animal. Contudo, recorrendo a docuJnenta9Io antropolOgica disponfvel sabre sociedadesque viveram em est3giosconespondentes ao paIeoJjtico superior e fazendo, com a devida prudencia. uso da analogia, podemos conjecturara respeito do que pensavam os homens paleoliticos. Vivendo em contato intima, constante e direto com 0 ambiente selvagem. a ideologiadestas sociedadesdo revela a linha de ~ que ~ entre a humanidade e os animais, Ha, de uma maneira ge­ ral, uma grande igualdade axio16gica entre todos os seres vivos. tiE muito dificil para nos compreender corretamente esta ideia da tdenttdade jim­ damentaJ e completa do homem e dos outros animais, salvo no que con­


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ceme afOmJQ 410 corpo; e e nuBs,diflcil entender que a idlia dos indios e todavia ainda nuBs ampla; porquanto nlJo faz nenhumo diferenfa ­ excetuando a forma do corpo - entre os objetos ammados e os inani~ dos" (...) "A rnentalidaJ:/e primitiva pensa e sente ao memw tempo todos os seres e os objeto« como homOglneos, quer dizer, participante de uma mesma essencia ou de um' conjunio de' qualidades"" (LEVY­ BRum.., 1974:p. 10). MAX SCHFLER"baseando-se em GROETIlUSEN, " afirma: "NlJo apenas os chamodos primitivos se sentiam totalmente afins . e unidos ao muRdo animal e vegetal de seu grupo e 'de seu dmbito, mas inclusive uma CIIltura too elevada como ada india se baseia no indubi­ tave! sentimento da unidade entre 0 homed. e TOoo 0 VIVENTE. Os seres - planta, "'imal. homem - dando-se aqui em reJafllo ativa e de igua! para igual essencialmente enlafados numa grande democracia do existente" (1974: p.12). Esta:forma de pensar se retletena linguagem, ja que muitas socicdades desoonhecem urn nome generico para "animal". "Nomeiam aos t1IIinuBS em parliClllar. da mesma forma que muitos no­ meiom, por exemplo, as iuvores em particular, sem ter, nl10 obstante. um conceito comum de ARVORE. Aqui se inclui tambem evidentemente 0 homem - ao menos linguisticamente, mas 0 linguistico e sempre um pre­ cipitado do pensado - niio como oposto a principio aos animais, mas como um ser ordenado paralehmlente a elegit (LANDMANN, 1961: p.12). A ideologia destas sociecIiIdes reflete adequadamente a ausCncia de dominio material sabre 0 ambiente ao aeeotuar as semelhaneas entre todos os seresvivos. Os povos nOmades creem que os animals sao dota­ dos de inte1igencia e sentimentos iguais aos buma~ e que, da mesma forma que os humanos, possuem almas que sobrevivem morte fisica, sejaerrando ao mdor como espirifos c.1esenciIimdos au voltando a nascer em formas animais (FRAZER. 1944: p.618), 0 respeito que os se1vagens tributam Natureza nio se n:sttinge apenas 80S animais - os vegetais sio igualmente tratadoscom a devida consi~. A razao deste com­ portamento reside oa ~ de que 0 mundo em geral esta aoimado e as plantas e-as 8nrores do do ~ regra, Acreditam que todos os ve­ getais do dotados de 'U1D8 energia tem uma alma semelhante sua e os tIatam de acordocom tal pindpio. Daremos aqui primeiramente al­ guns exemplos de CORmnes e creor;as de algumas tribos em re~ ao reino vegetal para, a seguir, ilus&rar como eles se portam diante dos ani­ mais. "Os iroqueses",diz FRAZER" "acreditavam que coda especie de tit'vore, arbusto;planta e erva tmr seu proprio espinto e costumavam agradece.../Ds;por todos as beMjlcios recebidos. Na Africa Oriental, os womka imag;nam que coda QrvOTe e especialmente cada coqueiro tem seu espirito; "0 destruifiio de It1IJ coqueiro e equivalente a um matnci­ dio, pois a arvore lhes do vida e afjmento tal qual uma miie a sua criatu­

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67 ra". Os mongessiamesescreem que existemal1lJOS por todas as partes e que destruir algo. seja 0 que for, fOrfosamente expulsa uma alma; pelo que nlJo quebrara um sO galho da IIrvore. "como ndo quebrarla 0 brDfO de lima pessoa inocente".Estes monges silo budistas e, como se ve. 0 animismo. embora nlJo seja uma teona jilosOjica 1IJOS 11m dogma' selva: ge'" e comum. Joi tncorporado ao sistema de uma reJigiiJo historlca" (1944: p.142). (...) "Ha determinatios casos em que sO em certas Ilrvores 011 classesde lIrvores habitam os espiritos. Em Grbalj. DalnrOcia. dize", que entre as grandesfaias. carvolhos e outras tirvores. ha algullJOS que estllo dotadas de a/1IJOS 011 "sombras" e semprequefosse derrubada uma destas IIrvores. deVia morrer 0 talodor 011 ao menosftcar inva/ido pelo resto de seIlS dias. Se um lenhador teme que alguma luvore demibado par ele sejapertencente a esta classe especial. deve corlar a cabeca de . uma galinha sabre 0 toco que cai», com 0 meS1l'lO 11IQChado com que conou a Iuvore.lsto 0 protegera de 11m dono niesmoque.a arvDre corta­ da fosse uma das de "classe ammada". (...) "Se as Ilrvores "eStliOanima­ das, necesmamente siJo sens/veis e 0 aorta-las convei1e~se "iunaiJpe­ rDfllO que divera ser executadacom 0 maior cuidadoe deli~adezfi.' 8'1;", de que 0 seu safrimento seja minorado. Pots 0 talador estiipido e gros­ seiro poderia ser punido pela Itrvore que. ao cair, revolver-se-ta contra ele e 0 destrrJfarla com 0 sell peso. Quandoesta camdo 11m carvalho "dIJ tais gemidos e gritos que podem ser ouvidos a mais de II11Ia milha. como se esuvesse se lamentando 0 genio da Iuvore". (...) "Os indios ojebways raramente corlam luvores verdes 011 viventesporquepensam em suador e alguns dos Clll'andeiros asseguram ter owido os ge~idos dasarvores sob 0 mochado. Arvores que sangrame emitemgrltos dedor ou indigna« flJo quando estlJo sendo cortados 011 queimadOs se enco"tram com fre­ quencia nos livros chineses e ainc/a em historlas correntes" (1944: p.143). (...) "(Jutras vezes sao as al1lJOS dos defimtos aquelas que. se­ gundo se ere, animam as Ilrvores. Na Australia Central. os membros do tribo Dierl consideram altamente sagradas certas IIrvores nos quais su­ pilem tere", se trans/ormado seus pais; par esta raziJo. falam delas com reverencia e diIo mostrasde cuidados earemados para que niio as cor­ te", 011 queimem. Se os colonos os solicitom para cortor as tlrvoreS com machado. protestam energicamente assegurando que se 0 jizessem nlJo terlom sorte e seriam castigadospor nilo protegerem os seus progenito­ res. Alguns jilipinos creem que as al1lJOS de seus avOs estiJo em cmas IIrvores e par isso as respeitam. Se se veem obrigados a cortar alguma, desculpam-se diante do Ilrvore dizendo ter aida 0 sacerdote quem os abrlgou a tanto. Os esplrltosmorampreferencialmente nos Ilrvores altas e majestoSQS com grandes ramos estendidos. Quando sussurramas fo­

')

.


68 /hasao vento, os nativos imagmam que e a voz do espirito e nunca pas­ sam proximo de uma destas arvores sem inclinar-se respeitosamente e pedir perdlJo Of) espirito por perturbar seu repouso e qutetude" (1944: p.I46).

"Namaioriaou na totalidade destes casospredominaa ideta de estar 0 espiritocomo que incorporado a iuvore: a anima e perecera com ela. Mas segundo outra opinilJo, provavelmenteposterior, a Qrvore nlJo e o corpo, mas a morada do espirito arboreo, que pode emror e sair como Ihe convter" (1944: p.I46). Afirma FRAZER: "Quando se chega a con­ siderar a iuvore niJo tomo como 0 corpo do espirito orboreo, mas sim­ plesmeme como sua morada do qual pode prescindir se 0 quiser. fez-se um DVaTlfO importanle no pensamento religiosa: 0 animismo esta cami­ nhando para 0 politeismo. Em outras palavras, em lugar de olhar cada Qrvore como um ser conscientee vivo, 0 homem somente a V~ como uma massainerte e sem vida na qual reside por pouco ou muilo lempo um ser sobrenotural que pode passar livremente de uma tirvore a oiara, gozan­ do de certos direilos de possessilo ou dominio sobre todo 0 bosque e, cessando de ser uma alma do arvore, chega a ser um deus do selva. TlJo logo 0 espinto arMreo Be libertou em certa medido do tirvore em parti­ cular, comeca a mudar a sua figura e a lomar a humana, em virlJlde do lendenciageral do pensamento humano de revestir de forma humana os seres espirilJlais abstratos" (1944: p.I48). sao inc::ontaveis OS exemplos que FRAZER oferece, no Ramo de Ouro, comprovando a profunda v~ dos povos antigos em re~ aosvegetais. Mas 0 que transcrevemos e suficiente para dar alguma idCia das alitudes e cre~ deles a esse respeito. Cumpre-DOS agora descrever, para completar este quadro, algumas observincias e costumes dos povos arcaicos para com 0 reino animal. "Considerando a todos os animais vivos pralicamenle no mesmoplano de igualdode que 0 homem, 0 ato de malar e comer 11m animal deve assumir um aspecto muilo diftrenle do que representa para nOs. que consideramos a inlelighrcia destes seres lilo dislante e inftrior a nossa e lhes negamos a posse de uma alma imortal. Por isso, dentro dos pnncipios de sua nislica filosofia, 0 caca­ dor primilivo que mala um animal se acha exposto a uma vinganfa, seja do seu esplrilo desencamado seja de lotios os animllis do mesma espe­ cie, aos quais 0 considera unido - do mesmaforma que os humanos- por IDfos de porentesco e obrigtlfiJes do "divido de sangue", e, por esta ra­ ziJo, obrigadosa ofender-se pela injUria cometida a um dos seus" (1944: p.618). "NormaJmenle 0 selvagem concebe os animais como dolados de almas e inleligencias semelhanles as suas e, par isso, nalJlralmente os trata com andIogo respeito. Do mesmo modo que procura apaziguaros espiritos dos homens que malou, assim procura propiciar os espiritos dos animais a que deu CDfa. "(...) "Embora preze e respeite mais ou


69 menos as almas de todos os animais, trata com particular. deferencia os espiritos dos que silo uteis ou formidtiveis.em re/afiJo.a seu tomanho, forca e ferocidade. " Para estes aaimais, as cerimlmias e as regras do mais complicadas do que aquelas devidas aos anirnais que, do ponto de vista humano, do ."imiteis" OU "insignijicantes". (1944: p.265) "Congruente com este principio, 0 selvagem faz regra respeitar a vida dos animais ferozes e perigosos que podem praticar uma vinganfa san­ grenta pela matanca de um dos seus. Os crocodilos slio animais desta classe. SOsllo encontrados em paises quentes onde, via de regra, 0 fl/i­ mento e. ahundante e 0 homem primitivo em consequencia tem poucas razlJes para mata-los, pois sua came e seca e de mau gosto. Par isso e um C0stu~ entre alguns selvagens respeitar os crocodilos, ou melhor, mata-los somente obedecendo a lei da divida de sangue, isto e, em re­ presaLiapela mOtQnfa de homens feita pelos crocodilos." (1944: p.618) Os indigenas de Madagascar, da mesma forma que os dayakos de Bor­ neo, sO matam crocodilos em vinganya pela morte de om de seus amigos. "Creem que a inconsiderada mone de um desses repteis sera seguida pela perda de vida humana, de acordo com 0 principio da Lex Talionis. As pessoas que vivem nos proximidades do lago Itasy, em Madagascar, fazem uma proclamDfilo anual DOS crocodilos, adverttndo-lhes que vin­ garllo a morte de seus amigos matando em troca 0 mesmo numero de crocodilos e aconselhando a todos os crocodilos prevenidos para que se mantenham ofastados. pois niJo desejam lutar com eles mas somente com seus parentes de mO indole que arrebatoram vidas humanas" (1944: p.619). "Quando os cacadores cafres estavam lancando uma chuva de dardos sobre um elefante, gritavam-lhe: "niJo nos mate, grande senhor; niJo nos incomode nem nos pise, poderoso chefe", Quando ja Q haviam mono Ihe pediam desculpas, sob a alegafilo de que 0 ato tivesse sido um puro acidente. Como demonstrafiio de respeito, enterravam sua tromba com muita solenidade. pois diziam que "0 elefante e um grande senhor; sua tromba e a sua milo" (1944: p.623). Mas os nativos nJo podem poupar a todos os animais. Ve-se for­ ~, pela sua nea:ssidade deobter alimento, a mata-los, ')to mesmo tempo, faz tudo 0 que pode para apaziguar sua vitima e seus parentes. No proprio ato de mota-to da testemunho de seu respeito, tratando de desculpar-se ou ocultar sua particiPllf.{Jo na marie dele e prometendo­ lhe que seus restos serso tratados com honra; assim, espera apaziguar a vittma e induzir a seus companheiros a se confonnarem a jim de mata­ los tambem. Por exemplo, era uma regra entre os kamchatkos nilo matar nunca um animal marinho ou terresire sem dar pnmeiro desculpas e rogar aoanimal para que niloii levasse a mal. Tambem ofereciam nozes


70

de cedro (PiIuIs Cembra) e outras coisas para que eles acreditassem que nao·iam ser vitimas mas sim hospedes de uma festa. Pensavam que isto impediria aos outros animais da mesma especie que se tornassem esqui­ vos" (1944: p.620-621). Por vezes oertas tribos dispensam urn tratamente­ desigual aos animais, dando maior conside~ aos que se sobressaet\\ pela sua fo~ e ferocidade. Era 0 que ocorria com os stiens do Camboja em re~o ao elefante. Temendo a ~ da alma do animal que, uma vez motto, ficava errando por at. eles 1he dedicavam sacrificios com uma pompa toda especial, os quais duravam sete dias. Os indios norte­ americanos tambem adotavam urn. padrlIo diferenciado. "0 urso, 0 bufalo eo castor silo manitus (divtndades) que proveem alimentQfilo. 0 urso e fomudavel e bom de comer. Rendem-lhe cerimonias, rogando-lhe que /hes permitam come-to. embora saibam que isso nllo seja do agrado dele (... ) 'j4 cobeca e as gorras serao objeto de homenagem Outros animais sao tratados igualmente por razoes semelhantes... Muitos dos animais mani/Us. niJo sendo terriveis, slio tratados freqiientemente comdesprezo: a tartaruga, a doninha e a roposa, etc. " A distinfiJo e instrutiva: os ani­ mais terriveis au comestiveis, au ambas as coisas, saotratados com res­ peito cerimonioso. Os que nilo silo nem formidllveis nem comestiveis sao desprezados" (1944: p.625). Muitos outros anirnais, embora nao sendo terriveis ou perigosos, eram <qeto de respeito por seremvaliososou comestiveis. "Os cacadores do Alaska conservavam os ossos das martas ecastores fora do alconce dos caes durante um ana e depots os enterravam com cuidado, temendo que os espiritos que cuidavam das martas e castores se indignassem com 0 tratamento recebido e por isso esses animais nllo serlam mais apanhados nem monos" (1944: p.625). Os exemplos poderiam se suceder ascentenas.

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que mais chama aten~ na co~ da mentaJidade areaica, e-a grande igualdade axiolOgica entre OS seres vivos. A Natureza vista como uma grande biocracia, onde todos os seres tem 0 sen lugar e o seu direito· p6prio existencia. A· C891 80S animais sempre uma aventura incerta e problema.tica., pois tanto 0 ~r pode voltar de mIos vazias como pede simplesmente nao mais vohar, on seja, transformar-se em ~. Contudo, vimos que,mesmo no interior desta biocracia, urn ~ incipiente de estratifi~ ou bierarquia de valores: os vegetais mais imponentes e frondosos eram tratados com mais respeito do que os arbustos e outros vegetais que tivessem uma "sombra" de menor porte; da mesma forma, os animais que sobressaiam pela sua ferocidade, for~ tamanho ou utilidade eram <qeto de particular c:Iefermcia, ao contr3rio daqueles que, na perspectiva dos selvagens, eram tidos por inUteis au insignificantes. Ora, 0 crnerio valorativo que estJo se estabelece provem

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a

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evidentemente das re~ materiais e concretas entre os homens e estes


71

seres vivos. A repeti~ regular e constante da caca de certos animais conduz a ideia de que eles existem para serem ~, 0 controle mate­ rial conduzindo a uma co~ ideologica de dominio. Constatamos portanto a ~ j3 nas sociedades selvagens, dos primeiros indicios de uma ideologia ambiental de poder, conquanto ainda fnigil e inconsis­ tente. Podemos presumir, por analogia, que a mentalidade paleolitica, adotando urn estilo de vida semelhante, devia ter uma co~ similar. Afigura-se--nos p1ausivel sopor que certos traeos culturais que se apresentam de forma universal ou ampla entre os selvagens estudados pelos antr0p6logos deviam tambCm fazer parte da vida das antigas socie­ dades paIeoliticas. Sendo coneta esta hip6tese, seguramente a magia, 0 totemismoe 0 xamanismo ja estariam presentes desde os temos mais re­ matos. Dentro da co~ magica da Natureza, nada ocorre par aca­ so, Dada acontecepor efeito de leis independentes da histOria dos homens (LENOBLE, 1969: p.43). E peculiar ao pensamento magico a crenca numa unidade simp3tica entre 0 homem e 0 mundo, entre 0 microcosmo eo macrocosmo (MAUSS & HUBERT: 1974: p.l02-103). Esta concep­ ~ acba-se expressa na cetebre T~ de Esmeralda., onde se Ie: "0 que esta embaixo e como 0 que esta em cima e 0 que esta em cima e igual ao que esta embaixo, para realizor os milagres de uma unica coisa" (TRISMEGISTOS, 1978: p.127). Recorre-se Ii magia tanto para suple­ mentar ou completar a teenica como taJnb6m para atingir-se resultados para os quais nJo existemtecnicas conhecidas ou disponiveis (COEUIO, 1985: p.8). Como 0 controle sobre a Natureza era bastante prec8rio, a crenca na magia transmitia ~ 3queles que realizavam empreen­ dimentos incertos, arriscados ou perigosos, servindo de lenitivo para 0 medo e a iaseguranca que sentiam diante de urn ambiente hostil. Inter­ pretando 0 pensamento dos trobriandeses acerca cia magia, MALINOWSKI afirma que eJa e concebida como algo essencialmente humano. "Nllo e uma forfO da Natureza. capturada pelo homem, de al­ gum modo. e colocada a seu servico; e, essencialmente, a ajinntlfllo do poder intrinseco do homem sobre a natureza" (1973: p.293). A magia representa, portanto, 0 desejo de poder do Romero, poder que nIo havia alca~ ainda a nivel material, mas que anteeipava a Dive! siInbOlico. Da mesma forma que a magia, 0 totemismo tambem devia fazer parte da cultura das sociedadespaleolfticas. Trata-se de urn sistema social e, ao mesmo tempo, religioso, que postula uma continuidade ou intima ~ entre urn elemento da Natureza (animal, vegetal ou mais 13­ ramente urn fenOmenometeorolOgicoou coisa inanimada) e um grupo social. Assim, certo ell afinna que todos os seus membros do parentes


72

OIl desc:endentes da jib6ia, seu totem. (0 termo "totemismo n. denva de "ototeman", expressIo que na lingua Algonkin significa "ele e meu pa­ rente" ~ referindo-se 10 totem ao qual 0 di e aparentado). Vejamos um exemplo para ilustrar esta ~ . Certa vez om explorador estava a COD.VeJS8I' com um indigena que tinha par totem a lontra. "Uma lontra cruZpu em linha reta 11m rio proximo. Ao ve-la; exclomou: "Veja como ell cruzo moravilhosamente 0 rio!" Contra todas as observQfoes acerca de quese somente queria dizer que esse animal era seu genio tutelar, se 0 uma a ele lima peculiar corrente de forca e outras coisas do genera. 0 aborigine manteve intransigentememe que ele mesmo era realmente essa lontra" (LANDMANN, 1961: p. 14). Como se va, para eles OS limites da esfera do.eu do mais ampIos OIl pelo menos diferente do que nOs 0 concebemos. Percebe-secIaramente, a partir daf, que 0 totemismo postu1a

umaprofunda continuidade entre 0 homem e a Natureza, cuja vin~ intima

e a prOpriarazio <le .ser da existencia social primitiva. Contudo,

alem de identificar o.homem com a Natureza, LEVI-STRAUSS demons­ trou que 0 sistema de c~ tot&nico serve para diferenciar os grupos bumanos no interior da prOpria socicdade. Em soma: 0 totemismo e uma prova cabal tanto do respeito tributado aos animais e vegetais como do entJ'eJat?mento OIltolOgico existente os homens e os demais se­

res vivos. Um ~ ponto a considerar, alem da magia e do totemismo, mas a eles diretamcnte ligado, do os desenhos ou gravuras .,re-hist6ricos de figuras com ~ bumanos e animais encoDtrados em algumas ca­ vemas como a dos.. Trois Frere au a de Lascaux. Os homens mascarados

at enamtrados do.interpretados como sendo

feiticeiros ou, mais propri­

amente, xamIs. Ora, sabemos que os indios, os siberianos e os austraIia­ nos acreditam que a mom e as doen~ resultam da atuaIWIo de espiritos maIeficos que, aose apossarem do corpo, as provocam. 0 xamii ejusta­ mente 0 especialista naarte de curar os doentes, sua tecnica consistindo na possessio e controle de espiritos. A origem do poder ()I.! do conheci­ mento de que 0 xamI e dotado vem-lbe quase sempre atraves de um ani­ mal mensageiro OIl intennedWio dos espiritos. Entre os bororo do Brasil, P. ex., 0 candidatoa xami e eleitopelos espiritos, que se apresentam sob a forma de aves. 0 xami, para incorpora-lo, veste um traje zoomorfo que lbe seja representativo e 0 invoca no inicio da sessIo, imitando-lbe os movimentos e a VOZ. A preseIl\3 do animal emissario faz surgir uma ponte entre 0 D1UDdo sensivel e 0 supra-sensivel. E a ceri.m6nia comeca A experi&Icia xamanica outra ~ eloqiiente da estreita pro­

e

ximidade entre 0 homem e a Natuteza nas sociedades selvagens. A concluslo que se pode extrair de todo 0 exposto e que para a consciCncia primitiva a Natureza e essential - e 0 homem 0 polo ines­ sendal da rel~. Impera aqui 0 discurso da identidade (totemismo,


73 .~;:

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xamanismo, 0 homem como .''jilho da terra",.a igualdade axiologica de todos os seres vrves, etc}.~ e5$eIlcialidade da Natureza manifesta-se claramente peIa dependencja. ~mic:a das sociedades ~ras e cole­ toras em reIarwio as fontes natur.ris de meres. Nio sabendo como contro­ Jar ainda 0 ambiente, 0 ~~ recorre a magia em busca de poder e se­ ~ embora tendo ~ se submeter aos caprichos e t1~ do

meio. ConsideranckHe como inessencial, como nao-ser, 0 selvagem pro­ cora identificar-se e aproximar-se da Natureza, que para ele e 0 ser de quem depende para alimentar-se e viver. Oaf a profunda continuidade cultural que constatamos entre 0 humano e 0 nao-humano nestas socie­ dades. '" A NATUREZA FORADE SI

o homem paleolitico intervinha do somente na d~ dos outros seres vivos ou dos produtos or~cos apropriAveis do ambiente. Quando passou a inteIvir diretamente na produ~, atraves da agricultu­ ra e da ~, 0 homem reaIiza om saitoquaJitativo. Antes, como cole­ tor, ~r ou pescador, vivia exclusivamente dos dons. da Natureza. Doravante, como pastor au agricultor, organizara ele prOprio a ~ e convertera a expl~ itinerante noma agricultura e noma ~ ordenadae sistematica. Tendo vivido mais de 99010 de sua histOria em harmonia com a Natureza, por que 0 homem, nos Ultimos milhares de anos, se posicionou contra ela? au, noma outIa perspectiva: Por que a ~ da Nature­ za conduz a sua a1i~? A passagem da economia paleolitica para a neolitica ocorreu de forma espondnea e indepeodente pelo menos no Cresc:ente Fertil, na Asia e no Novo Mundo com ca.racteristicas eteeu­ liaridades pr6prias - 0 que indica que esta ruptura nio resuIta de·t;{~ circuDstanciais OIl acidentais, mas sim do aumento progressivo do contro­ Ie humano sabre 0 meio. Isto sugere uma t:endenci.a geral e inevit8ve1 inerente ao processo dialetico global da terra. Um primeiro motivo para esta ~ e 0 incremento crescente da teenologia. que aumenta com cada nova inv~. Um instrumento mais aperfei~ reaIiza 0 mesmo trabalhoque aqueJe que 0 antecedeu com mais rapidez e menor disp&ldio de energia e trabalho. Na luta pela sobreviv~ e pela conquista de territ6rios, as culturas mais desenvolvidas mostram a propensIo para assimiIar au destruir as menos tecmcas. As sociedades arcaicas que so­ breviveram ao genocidio e A extin~ sO 0 conseguiram fUgindo para re- . gi6es <:ada vez mais inOspitas e desabitadas. Alem disso, as sociedades . coletoras e ~as padecem de uma ~ fundamental: vivem na


74 dependencia direta dos vegetais e animais disponiveis. Se eles escassei­ am, eIas ou se mlldam em busca de paragens mais fartas 011 morrem de inani<:lo. Em segundo lugar, podemos observar na escaJa evolutiva dos seres vivos uma tendencia no sentido da suijetividade: urn ser em si, a pedra, por exemplo, carece de autoeonsciencia. Ji 0 tropismo dos vegetais indica wna certa sensibilidade aos elementos do ambiente, a qual, nos animais, apresenta-se sob a forma de per~ do ·meio, se~ de prazer e desprazer, etc. No homem. a aquisi~ da Iinguagem desvenda­ lhe 0 mundo de sua subjetividade, e ele percebe que percebe as coisas ao seu redor - urn ser para Ii. Nesta conformidade, podemos dizer que a Natureza em Ii revela na sua objeti~ nJo· apenas uma v ~ de explicitar 0 que nela bAde implfcito, mas tambem de compreender-se asi mesma, de romper com a pr6pria opacidade e se fazer translUcida para si

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mesma. Muitos mitos falam de urn estlgio original de inte~ com a Natureza e a sua disso~ posterior. A mitologia grega fala-nos da lda­ de do Quo, epoca paradisiaca de eterna primavera, onde os homens des­ conheciam a dor e 0 sofrimento, 0 trabalbo e a infelicidade. Os campos eram ferteis e 0 alimento abundante. A vida era uma festa continua. Os homens eram bons e puros, cultuando os deuses com fervor e obediencia. Porem, quando tomados pelo orgulho e prepotCncia deixaram de propici­ ar aos deuses, estes 0 puniram. restringindo a primavera a urn curto peri­ 000, fazendo-os padecerem, na ldade de Prata, de dores terriveis por sua insensatez. A Natureza se lorna seca e estenl, e, para sobreviver, 0 ho­ mem tern de trabaIhar, trilhando a partir dai urn caminho de continua decadencia. No simbolismo da Mae-Terra, nascer significa sair do ventre, e morrer retomar terra. "A miJe e a seguranca do abrigo, do calor. da temura e da alimentOfiio; tambem. em contraipamda, 0 risco do opressao pela estreiteza do meio e pelo sufocomento atraves de um pro­ longamento excessivo do funfiJo de alimentadora e gIIia: a genitora de­ vorando 0 futuro genitor. a generosidade transformando-se em captodo­ ra e castradora." (Chevalier & Gheerbrant, 1988: p. 580). Implfcito no mito esti a n~ de que, para viver, 0 homem tern de cortar 0 cordIo umbilical e afastar-se da mae para seguir 0 seu camjnbo. Mas sempre continua a ela lig,ado; mais: procura volta e m.eia retornar ao ponto de partida e recompor-se, tentativa que encontra expressio nas mUltiplas formas iniciat6rias de regressus ad uterum. Geaesis alude igualmente a urn tempo em que 0 homemvivia no Jardim do Eden. de hem com os animais e num estado de inocCneia.. Eram felizes e podiam dispor de tudo, exceto da more da ciCncia do bem e do mal. Mas a cobi~e a vontade de igualar-sea Deas-e fez provar da arvore do conhecimento. Tao logo provou do fruto proibido, percebeu que

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75

estava nu e sentiu vergonha do seu pr6prio corpo. E, como puni~ pela sua des6bediCncia, Deus expulsou-o do paraiso, condenando-o a trabalhos penosose a comer 0 piIo com 0 suor do prOprio rosto. Este fruto proibido simboliza 0 poder obtido atraves do conhecimento e da teenica, justa­ mente 0 que levou 0 homem a romper com 0 equillbrio ecologico. A retirada dos Ultimos glaciares provocou na Europa 0 surgi­ mento de estepes e pradarias. A medida em que 0 ambiente se tomava mais quente e Umido, as graminias selvagens, anteeessoras do trigo e da cevada, disseminaram-se espalhando-se pelas estepes. Os ~­ coletores devem tel aproveitado esta alte~ passando a incluir as grandes sementes <las graminias em sua coleta de viveres. 0 habito de coletar e guardar seJbentes aprofundou0 conhecimentohumano a respei­ to do cicio vital dos cereais. A apanha de frutos e a constitui~ de de­ p6sitos de sementesfizeram com que diversas e¢ies vegetais se fixas­ sem nas proximidades do habitat humano. A observ~ de sementes abandonadas ao solo on guardadas em celeiros que germinaram em con­ taW com 0 solo pode tel suscitado a ideia fundamental cIa ~ dos vegetais. Ao mves de colher 0 que a Natureza plantou, plantar volun­ tariamente para, ap6s algum. tempo, colher os frutos do prOprio trabalho. No que concerne a domesti~ dos animais, ela cleve tel ocor­ rido na maioria dos casos a partir cIa caea especializada. Quando ela surgiu nos Ultimos est8giosdo paleolftico superior, algumas comunidades conseguiram ate uma certa estabilidade eoon6mica. Com efeito, a caca a rena, ao bisonte, ao cavalo, etc. constituia a atividade preferida dos gru­ pos humanos que viviam nas tegiOes onde abundavam estes animais. 0 fato de viverem em manadas e bandos permitia uma ~ estavel e continua. possibilitando aos seus ~ a ~ acurada e a aprendizagemacerca dos h3bitos destes animais. Um grupo humano, ao escolher detenninada espeeie para ~, procura aproveitar ao nWrimo tudo 0 que ela pode oferecer. Nio busca apenas alimento, mas tambem peles para vestu3rlo e co~ de tendas e abrigos. hem como materia prima para as suas indUstrias. Esta ~ cria uma dependencia total do grupo humano em re~ a espeeie objeto de e~, fazen­ do com que 0 sell ·nomadismo seja condicionado pelos movimentos das diferentesmanns. Com 0 tempo os homens aprenderam a controlar os deslocamentoS das manadas, e, desta couvivencia cada vez mais intima, surgiu a domestiCBlWlo. E dese sopor que 0 pasroreio e a agricultura te. nham ocorridode forma independentee separada, e a a agricultwa mista, onde se combina a ~ de animais com 0 cultivo dos vegetais, seja uma in~ e fusio posterior.


76

Sabemos que no ambiente natural reina um equillbrio auto­ regulado. 0 meio impl5e uma resist!ncia prolif~ dos individuos.,. impedindo a sua muItiplieat;;lo deseDfreada. De cada cOnjunto de semen­ tes. ovosou cnas, 56um certo nUmero cresce ou sobrevive, mce as limira-.· ~ do ambiente. CODCOITCncia e ~ natural. As CODJ1mjdades,·

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paleoliticas estavam tamb6m sujei.tas a este c::ontrole. uma vez que os­ ~ na tecnica ou a intensifieat;;lo da cada e da recol~ a um Dive! excessivo dariam como resultado 0 progressivo exterminio das esp6cies animaise a diminui~ das subsistencias. No entanto. a partir da domesti~ dos vegetais e animajs ocorre uma IDnda'9 oeste equilibrio: 0 comrole nIo e mais realizado exchJsivameDte peJo ambiente. mas tambCm pelo homem.. Este. criando certos 3nimais. deixavivos UJil nUmero detenninado deles (para que a sua criawIo nIo tenba fun e continue a renovar-se e a reproduzir os meios de ~. fornecendo c:ame. leite, eouro, esc.) e abate e se apropria da parte restante. 0 mesmo ocone com os vegetais. Cada esp6cie produz um exoedente de sementes ou frutos que sera apropriado. Replantando oma parte e apropriando-se de outra. 0 bomem faz retomar a Natureza 0 mi­ nimo necessirio para que possa sempre apropriar-se desses trabaJIuuI&. rei venia. &sa apropria\;io privada por parte de uma espCcie sobre 00­ tra e a mail-valia, a foote de riqucza <las comunidades lnllnanm;: ne.oIiticas. A partir dai. a sderwlo natural sera gradIJa1mente substitufda pela sel~ artificial. Quando 0 homen't evita abater os anirnais mais novosou mansos. rnatanclo os mais esquivos e ind6mitos. inicia a ~ seletiva ao eliminaros animais mais rebeJdes. e. conseqik:Dtemen. favo­ recendo os mais d6ceis. Com 0 passar 0 tempo pessaa existir um· rebanho ou mann que. alCm de manso. depende efetivamente do homem. uma vez que os iDdividuos perderam as defesas natwais que os mantjnbam vivos no ambiente seIvagem. Da mesma forma, 0 cultivo das gnurrineas leva a uma sel~ daquelas que apiesentam grios mai~. aumentando­ lhes a ~. mas. ao mesmo tempo. dimimJindo-lhes competiti.. vidade e as caracteristic:aque as permitiam sobnMver espontaneameDte

nas estepes e DOS campos. Sendo assim, e importante notar que as ~ dos homeDs 0010 as esp6cies das quais depende para viver nIo sao mais de simples ~. quer dizer. uma ~ na qual termos sep8rados e indepen­ dentes casua1mente se encontram e um nega 0 outro - como no caso do ~ que mala a ~ 00 da muIherque coleta 0 vegetal. 0 que came­ teriza a domesti~ 0 fato deJa constituir UIba ~ C8IItrIdit6ria, onde 0 domesticador existe em ~ do domesticado - e este em ~ daquele. Os dois termos nIo do mais extrlnsecos um ao outro, Muito pelo oontr3rio. eles sO existent na re~ e sobrevivem tOO somente atra­

e

ves dela.


77 A agricuJtula conduz • ~. Contudo a ~ num local de forma est3vel1!i6 pode se dar quando 05 primeiros agricultores de enxada 00DSCgUiram apnmder as tecnicas de me1horamento e recuperatWIo <los SOl05 esgotados - um primeiro problema que tiveram de resolver. Isto poupou-Ihes a neCessidade e mi~ continua e destnvamento e dcrru­ bada 4elecanlos de t1oresaa. . No perlodo neolitK:o houve um enonne avanc;o t6cnico, surgiDdo om gr.mde nUmelO de DOV05 utensilios, bem como de novos processos tecnicos, entre os quais os mais importantes Coram a pecka polida. a ce­ rtmic::a e a tecelagem. . o polimento da pedra consiste na friqtlo do instnunento gros­ seiramente obtido a partir <las pancadas de om percutor aplicadas per­ peadicularmente • sua superficie. Este novo metoda permitiu a diferen· ~ entre a idade da pedra lascada OIl paleolitico da nova idade da pedra ou ueolitico. A partir dele surgiram ferramentas mais precisas e oortantes, permitindo ao homem abater as mores e trabalhar a madeira, abrindo 0 caminbo para 0 surgimento da carpintaria. Permitiu ainda que o homem construisse a roda, 0 arado, barcos, casasde madeira, etc. Uma ouua grande inv~ do ncolitioo, a certmica, resultou provave1mente da uec:::essiclade de se fer dep6sitos para a conserv~ de cereais. a armazenagem de agua e que suportassem 0 fogQ. A cerimica liga a lite do fogo modeJaF"' da u p e foi uma descoberta das DIU­ lheres. pais cram eIas que lidavam coma terra. A ~ do barro

a

informe eUmido aum beIo vaso oom contomos definidos ~

a~

do fogoimplic::a iIa ~ amsciente de uma transfo~ qufmi­ ca, invento grandioso que serviu de motivo para muitos mitos que falam da~do

mUDdo.

Uma

outIa grande inv~ das mulheres, presente desde as mais remotas aldeias neoliticas, a teceJagem, talvez inspiIada na magnific::a capacidade de fixar Iedes de seda demoostrada peJas anmhas. A re~ entre a teceJagem e a teia das araohas atestada DO mito grego de AracDe, habillssima tecell, transformada pda deusa AleDa numa ara­ Dba. (As aranbas pertencem cJasse dos Ql"achnida). Mas para tecer era preciso que se criasse 0 tear, uma maquina engenhosa e oomplicada. po­ va cab8l da criatividade sem limites da mente bumana Podc-se mensurar a import4ncia desses avaDIt05 t6cnicos peJo brutal aumeDto popuJacioDal que se oonstata entre as aldeias neoltticas e 05 pequenos grupos paleoJiticos.Contudo, mais genie significa impIic::a a necessidade da ocupar;Io de mais ~. As a1deias neolttic::as foram genmdo novas aIdeias. E a consequ&lcia desta expansIo a guerra e a esaavidlo. Com efeito, a agricuJtura exige um apego terra que se culti­

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78 va e a necessidade de defende-la, atitude que nIio'se observa DOS caeado­ res-coletores, essencialmente oomades. 0 abandono da terra trabalbada em virtude de uma atitude hostil de outto grupo acarreta urn prejufzo econOmico enorme, de meses ou aDOS de trabalho. Por isso os babitantes nooliticos logo trataram de cercar e proteger as suas aldeias visaDdo, dentre oatras coisas, adefesacontra as agressOes extemas, A expansio no ~ levou os agricultores, em busca de novas terras para 0 plantio, a enfrentarem e expulsarem os recoletores de ali­ mentos; par outro iado, os pastores, mdos de novas pastagens para os seus rebanhos, Wo topar com os camponeses, apegados a sen solo limita­ do. E tem inicio a guerra. Muitos combates levaram ao massacre dos vencidos ou a fuga de dos sobreviventes. Contudo, quando se atinou para a possibilidade de se fazer uso dos prisioneiros de guerra para a realiza­ ~ de trabalhos rodes e pesados, tal como se fazia com os animais, teve inicio a escravidllo. A maioria das guerras tinha par finalidade a pilha­ gem e 0 recrutamento de escravos. Vemos assim que a base da economia neolitica reside na apro­ pri~ e na expl~ da esp6cie peIa especie - 0 homem que abate 0 animal, a mulher que realiza a colheita. Com a agricoltura e a criacrio, animais e vegetais passaro a ser servos e escravos do homem. Nascendo em eurrais, cercados ou eativeiros, 0 animal vive em estado de escravi­ dIo. Nio se ~..suindo e sendo-lhe confiscado 0 direito a liberdade, vive apenas para a satisf~ de urn outto que 0 possui e explora de todas as formas. sao criados para a sa~ dos criadores. Sua vida nio est! em si, mas fora de si; sO lhe e permitido afirmar-se como ser vivo porque sera negado e espoliado. Com a domesti~, a desigualdade entre os animais, ja pre­ nunciada a nivel de eficiencia tecnica e organiz~ coletiva na luta pela sobrevivencia, consolida-se e consagra-se na pr3tica. Agora ha urn ani­ mal que e 0 senhor, 0 dono que estabelece as regras; e outro, 0 domesti­ cado, que e saqugado e f~ a seguir os seus desejos e caprichos. A opressio do homem sabre a Natureza condiciona a opressIo do homem pelo homem. Em consequencia do controle consciente do ho­ mem sabre a Naturezaatraves da ~, surgemos excedentes, a divi­ sAo social do trabalho, e, em decorrencia, classes que se apropriam do traba1ho dascamadas subalternas. A expl~ entre as espc!:cies se retle­ te na opresslodas classes sociais entre os homens. E sobre esse sistema de relac;6es, sabre essa estrutura econOmica de ~ que se ergue toda a superestrutura ideolOgica da sociedade. Nesta conformidade, 0 desenvolvimento da civiJjz~ e, em primeiro lugar, resultante da luta das esp6cies, e, em segundo lugar, fruto da luta de classes.


79

Com a tendencia a civilidade e ~ ~, os homens via pouco a pouoo afastando-se do contato estreito e regular com 0 ambiente natural. Nio vivem mais imersos na Natureza, em contato comas outras especies selvagens, mas numa cidade, onde 0 mato e podado, queimado au "limpo" e os anjrnais silvestres assassmados, banidos e afugentados. A sociedade humana, erguendo-se implMda sabre 0 cemiterio silencioso e esquecido da Natureza, passa a adquirir fei~ nitidamente antinaturais. A cidade, onde vivem os homens, e 0 ~ bumanjzado. Para alen. de seas limites e dominios, exilados, acbam-se os bicbos. A oposi~ bo­ mem/animal se ampIia e solidifica, 0 Mundo dos bomens (a sociedade) passando a mostrar-se a per~ imediata dos bomens, como contra­ posto ao Mundo dos bicbos (a Natureza). Captando a realidade tal como elase apresenta diretamente aosseus sentidos, abstratamente, quer dizer, isoJando.a de 1000 0 processo ecossocial que a fo1'IllOU, os bomens habitu­ ar-se-ao a encarar como inevitavel, natural e etema a contraposi~ entre a sociedade e a Natureza, entre os bomens e os bicbos. bomem urbano incama e realiza em si 0 segundo momento do processo dia1etico da Natureza. 0 bomem agora a expresslo biocultural de uma Natureza que Ie pk para fora de Ii mesma. Com efei1o, 0 ho­ mem nao eurn animal apenas bio16gico, mas urn animal cultural. E 0 que a cultura sen1lo uma forma extrabiol6gica de comportamen1o? Na cultu­ ra bumana a Natureza se transfonna a si mesma, se toma estranba a si

o

e

e

prOpria. Nio se reconhece no trabalbo bumano, na ~ bumana, a Natureza em Ii, mas sim a Natureza fora de Ii, a Natureza mediatinda pela atividade humana. Destacando-se e diferenciando-se dos animais pela sua atividade produtiva e pelo seu trabalho, 0 bomem supera a Natu­ reza e a Nature7a se supera no bomem. Na medida em que 0 homem se contrapOe Natureza, ete se de­ fine em re~ a si mesmo; Da medida em que aumenta a ~ ecol6gica, aumenta a agre~ bumana nas cidades e centres wbanos; na medida em que destr6i a Natureza, ete constr6i cultura. 0 des­ envoIvimento, a ne~ do envot~ com a Natureza, fomece a

a

existenc:ia bumana urn novo carater, 0 bomem. enquan10

ne~,

ea

e sua realidade esta na ne~ deste a1go quee 0 outro. Assim sendo, como espCcie exploradora e transformadora do ambiente, 0 bomem eomeca a definir-se como urn ser a parte. Os seres vivos, alienados de si meslDO$, nio mais se pertencem; 0 bomem, alie­ nando a Natureza, passa a possuir, em contmpartida, uma consci&lcia alienada. Dizemos que esta consetencia e alienada porque e nela que a Natureza lorna conscieneia de si Contudo, ao fuze-Io, sO se per­ cebe na fonna do seu ser-outro ou COm9 oposta a si mesma, cindida no ne~ dealgo,

mesma.


80

seu,p:Oprio interior. Nistoconsiste a

aIieD~1o

IIIbjetiva, 8 qual decorre

cIa~" objetiv.ou ecol6gica da Natureza.

. A humaniz 89io: da Natureza, 8 ~ econOmica e gee­ gnUicado esp&9O em ~ do· homem conduz fatalmente ao antropo­ centrismo. A domestiC8lj;lo dos vegetais e animais foi 0 primeiro passo DO sentido de uma ideologia de superioridade bumana e de poder sabre 0 ambiente-.Mas ainda nIo estavam dadas todas as coDdi~ para 0 apt­ recimeDto desta ideologia. SO com 0 surgimento e crescimento das cida­ des e a ~ cada vez mais ampla e impIacavel das paisagens natu­ rais e das florestas e que novas ideias virio para refletir e justificar este estado de·coisas. lima simples ~ ao mundo resu1taDte da atividade dos homens permite-nos compreender 0 equivoco e a ~ JRSCIlfes na vido antr~ica. A cama onde dol'lQi.mos foi leita para acomodar nosso corpo; a roupa que usamos foi fabricada para ajustar-se 80S DOSSOS movimentos, forma e. tarnanbo; os .sapatos adecp1arn-se auatomia de nossos pes. Tudo 0 que fazemos ou produzimos destina-se sati~o de nossas neoessietades. Ao trabalhar, porem, 0 homem age sobre 0 ambiente circundante e 0 traDsforma. 0 ~r eo pastor, para comer, capturam e abatem 0 animal, etc. Em todos esses casos, 0 homem converte 00 utiliza os materiais ou seres da Natureza para 8 ~ dos seus oqetivos ou para 8 sati~ de suas nec:essidades. E pot agir sobre 0 mundo que 0 homem acha-se predisposto 8 crer que 8 madeira existe para ser trans­ formada em camas, 0 algodlo e a Ii para serem tecidos, 0 couro para ser convertido em sapatos, os animais para fomecerem ao homem alimento, etc. InterpretaDdo 0 ambiente em ~ de si mesmo, 0 homem toma 0 resultado do sen trabalho (8 cama, 8 roupa, 0 SllPIfO,etc.) como sendo a causa final do material de que SiC serviu (da·madeira. da Ii, do couro, etc.), conftmdindo assim a finalidade de. sua,atrIo com a finalidade·da Natureza. Desta forma, projetando a teleologia do seu trabalho na Natu­ reza, 0 homem ~ a acreditar que os seres e materiais do mundo sobre 0 qual eles atuam existem unicamentepara 0 seu desfrute, ou seja, converte 0 que e histOrico e cultural em algo natural e demo, dando-lhe uma dimensllo metafisica. Ora. 0 pensameuto antropoceotrico de consi­ derar 0 mundo em ~ de si mesmo, ou, aiDda. de julgar que 0 homem e superior 80S animais e wgetais sio.apenas ~ ou expres­ sacs idealizadas <las ~ materiais dominantes concebidas sob 8 for­ ma..de ideias, 00 seja, a ~, em termos te6ricos, de uma si~ de domiDio. A CODCIUSl1o que se imp(Se que para 0 homem urbano 8 Nature­ za e inetIeIlCiaI - e 0 homem 0 polo esseadal da r~. Howe wna completa inversilo nas suas reJa¢es com a Natureza. Sua essencialidade se manifesta no plano material pela humaniz~ e disposi~ do ambi­

a a

e


81 ~ de suas prOprias necessidades, e, no plano ideal, peIa cren~ de que todos os &ere!5 viVos nasceram para servir 80, homem, seu

ente em

senhor-.~detaock,>-se como essencial, como 0 ser, 0 homem procura agora. a todo 0 custo, diferenciar-se da Natureza, que para ele sO adquire valo~,. medida em que 6 negada ou tnmsformada. Oat 0 discurso da dife~ ou a descontinuidade que constatamos entre 0 humano eon» humano a partir do surgimento das cidades.

A NATUREZAEM SI E PARA SI

Procuramos ~ os lineamentos do processo de a~ da Natureza, do surgimento do homem ao advento das cidades. esfo~­ do-nos no sentido de afastar os preconceitos humanistas ou antropocm­ tricos quetem dominado, quer 0 saibamos quer 010, a nossa visIo de mundo. Isto nos CODduziu a urn novo questionamento aeerca do que e 0 bomem edo seu respec1ivo lugar entre os demais seresvivos. Caberia acrescentar ~ em breves pinceladas, os elementos maij ,marcantes que acompanhanun a ~ e consoIi~ da visIo antropocmtrica de mundo, hem como a luta travada pelos grandes lumi­ nares da ciaDcia contra tais preconceitos. Com 0 advento das cidades, a 6tica antropocCntrica foi se con­ solidando e adquirindo um car.iter. sistematico. lnterpretaDdo e descre­ venda 0 mundo a partir de si prOprio, 0 homem nIo tardou a colocar a Terra no centro do Universo. 0 geocentrismo, sustentado pela astronomia eieatae pol' Empedocles, convertido em dogma por PlatIo e AristOteles e defendido por Ptolomeu e outros e uma de suas primeiras e mais aut&t.ti­ cas expressOOs. 0 observador olha tudo em ~ de si e 0 lugar onde esta se lhe afigura im6ve1. o primeim a insurgir-se contra esta tese foi Nicolau de Cusa. Em sua obra »-fa Ignoriada. nega a exist!ncia de ~ e de luga­ res privilegiados no Universo. CoDtra Filoiau (fim do se,.;.V a.e.), 0 qual distinguira no conjunto do Universo duas regilies distintas, a que esta embaixo da Lua, 0 mundo sublunar (onde impera a ~ e a corrup­ ~), e a que esta acima dela, 0 mundo superior (incorruptivel), mostrou quJo re1atiws e 8Jbitrarios eram os conceitos de "a/to" e "baixo". Depen­ dendo da ~ do ob!lervador, a Terra pode tanto estar no mundo su­ perior como no JDUDdo sublunar. Aim. do mais, onde quer que este ob­ servador se eDCOIdJ'aSse, julgar-se-ia locaJjZ3do no centro do mundo e pensaria erroneamente que este girava ao seu redor. 0 centro do mundo esta. portanto, em toda parte e em parte alguma. Esta destrui~ radical da antiga concep;Jo de mundo, no entanto, nIo teve nenhuma ressonan­


82 cia entre os grandes astronomos da epoca. A reviravolta decisiva come­ cou com a obra genial de Copennco, que p&s fun ao mundo fechado e bierarquizado da antigiiidade dando lugar ao Universo bomogOOeo e in­ finito dos modemos. A ~ que 0 abandono do geocentrismo operou em prol da nova teona heliocentrica abalou profimdament.e as ideias do bomem a respeito de si mesmo. "Foram necessanos", diz-nos E. Cassirer, "os esforcos combinodos de todos os metcfisicos e cientistas do sec. XVII para superar a crise intelectual provocada pe/o descobri­ mento do sistema copemiciano" (1912: p.36). A ~ do geocentrismo configura a primeira derrota fla­ grante das idCias e preconceitos arcaicos que queriam fazer da Terra, minUsculo gdo de poeira na imensidIo dos "injinitos mundos", 0 centro em redor do quaI tudo gravitaria. Perdida esta primeira bata1ba, bouve om reeuo tatico e os preconceitosentrincheiraram-se na natureza hnma­ na, continuando, apesar do temmo perdido, a recobrar a f~ e 0 inimo. bomem continuou a atribuir-se uma posi~ parte em ~ au­ t:ras e¢ies. Criado separadamente dos demais seres vivos e • imagem e . semeJba~ de Deus, 0 homem acreditava ser dotado de uma natureza

o

a

as

especial.

o grande naturalista Charles Darwin, no entanto, comprova ci­ entificamente a grande unidade da vida, ahalando em seus alicerces as teorias da ~ em separado e da imutabilidade das espeaes. Todo ser vivo traz em si a marca e a he~ dos seus antepassados. ~ cone/usDo principal a que chegamos", escreve ele, "(...) e a de que 0 homem des­ cendeu de alguma forma menos organizada (...) 0 homem, juntamente com os outros mamlferos, descende de um antepassado comum" ( 1974: p.698-699). Se e certo que os seres humanos originaram-se atraves de muta­ ~ em individuos pertencentes a ordem dos primatas, 0 que dizer da alma burnana , da razio, enfim. da vida espiritual? Seriam os nossos an­ cestrais dotados de almas, pelo menos em om graD nJdimentar? OIl ape­ nas descendemos deles pelo lado material, a DUtra parte tendo sido gerada ~ ao soprocriador de Deus? Qualquer que seja a resposta que se de para estas perguntas. 0 fato eque 0 transformismo biolOgico representou o segundo grande golpe bistOric:o nas idiias e co~ antI'opcX'&tri­ cas, que se viram derrotadas no seu pr6prio quartel-general: a natureza humana. 86 restou aos antropocentrislas refugiar-se na cultura, j3 que do ponto de vista biol6gico sempre foram notOrias as imeDsas seme~ entre 0 bomem e seus parentes anirnais mais prOxUnos, embora se supu­ sesse ter ele uma origem divina e especial. EstetIabalbo pretende contri­ buir de alguma formaparaa critica do antropocentrismo Beste seD Ultimo

reduto.


83

o discurso s8dico cia superioridade que prega 0 direito de explo­ dos seres ditos inferiores e no fonda om masoquismo que se desco­ nhece a si mesmo - 0 que,lwm certo sentido, recorda a tragedia do rico Erisieton que, por haver derrubado a golpes de machado 0 sagrado lho, foi punido com om apetite. tio voraz e destruidor, a ponto de, I'iIo saciado em comer tudo 0 que encontrava pela frente, devorar-se a si mesmo. Com efei1o, 0 mesmo argumento pode ser usado contra os seres humanos. Suponhamos que os "seres superiores" possuem 0 direito de expJorarem seu proveito os "seres inferiores". Suponhamos, ainda, que 0 nosso minUsculo planeta fosse invadido por habitantes de IIlUDdos distan­ tes, dotados de uma inteligencia e teenologias incomparavelmente mais desenvolvidas que as nossas. Bsses seres alienigenas, sendo superiores, teriam 0 direito legitimo de utilizar os seres humanos para satisfazer as suaS necessidades, seja comendo a nossa carne, caso a apreciassem e fos­ scm antropOfagos, seja usando-nos como cobaias para experiencias em seus Iaboratencs, etc. Em primeiro lugar, nJo ecorreto afirmar que 0 homem e urn ser racional - e os animais irracionais. "0 homem", escreveu Alcmeio de Croton, "disnngue-se dos deTnQis (seres) por ser 0 unico que compreen­ de, pois todos os outros percebem, mas nao compreendem". Esta enfase na racionalidade consagrada pelos sistemas filosOficos de Plado e Arist6­ teles sofreu, a partir do secuIo XIX, duras criticas. 0 filOsofo alemlo Shopenhauer concebe a vontade nJo em ~ do intelecto, mas este em ~ daquela. 0 intelecto e 110 somente om instrumento,. uma "anna" de que os homens se servem para satisfazer sua vontade de viver. "A consciencia a mera superfide de nossas mentes, das quais, como do terra, niJo conhecemos 0 interior mas apenas a crosta". "Tudo 0 que hd de original e, portanto, de autenneo no homem, atua; como as fOrfas natunus, tnconscientemente" (BARm, 1951: p.179). E Freud, ao desco­ brir a influCncia do inconsciente na atividade e na vida consciente, mos­ tra a consciCncia como a ponta de um iceberg: 0 que a sust6m e 0 in­ consciente. Por outro !ado, a ~ de que os animais do irracionais entra em choque com a comprovada inteligCncia de muitos deles, especi­ almente dos mamiferos, como e 0 caso dos primatas. As experiCncias de KOhler com os chimpanzes, desde 0 ~ do secwo, demonstraram que eles do apenas possuem· a ~ de meioe de fim ao planejarem as suas ~, mas ainda sao capazes de criar instrumentos, ao acoplar om bastiio numa pequena vara a fim de apanbar uma banana que se encon­ trava fora do alcance do brace estendido au alem da capacidade de uma das varas. As experiCncias mais recentes demonstraram que os cbimpan­ zes sao capazes de aprender e dominar a linguagem dos surdo-mudos 011 ~

cin'a­

e


84 ~

de exprimir-se por computadores, dominando centenas de signos

abstratos, sendo, ate, capazes de criar novos signos pela ~ e combin~ daqueles que aprendeu. Os animais 510, portaDto, tambem eles, inteligentes e dotados cia capacidade de compreensio das coisas. Em segundo lugar, mesmo que 0 homem seja racional e OS ani­ mais irracionais, dai nio se segue que ele seja superior. Cbamar de "i"acionais" 80S animais significa dizer que eles sfio privados de razIo, e, portanto, imperfeitos. 0 bomem, ao contrario, sendo "racional", e p1e­ no e~. Por tnis de om mero r6tu1o se ocolta todo om sistema con­ ceptual elaborado a pu1ir de uma perspectiva que julga os demais seres vivos em ~ das caracteristicas bnmanas erigidas a eategoria de mo­ delo ouarquCtipo ideais. Seria mais OIl Dlenos 0 mesmo que, em se reali­ zando UBI CODCU1'5O entre v8rias figuras geoIII6tricas, 0 quadrado, 0 triAD­ gulo,·o circu1o, etc, este Ultimo - tomando para si as fiJnc6es de concorrente e 6Ibitro ao mesmo tempo - estabelecesse como cmerio de perfei~ a circularidade. Em tereeiro Jugar, mesmo que 0 homem seja racional e superior, da1 nib se segue que ela tenha 0 direito de explorar os outros seresvivos emsen proveito exclusivo. Na natureza todos os seres sao, em re~ a si mesmos, autOnomos: a todDs edada a faculdade de agirem ou de serem a sua maneira. A todos e dada a vontade de viver e osmcios para tanto. Mas essa prOp:ia vontade cria inevitavehDente, pela pr6pria. 9i'dem natu­ ral, uma graduaQ10 em re1ali;io ao poderde agir e UBI cont1ito antitetico entre as vontades. Um ser pode, porexemr;to, lutaf,e;.dcvOriir um outro .. ser. Istosucede-se tanto ~ os animais Como e~ os harDenS: ;ntre os animais,· 6 regra o.sO.maiar em casode .fieC:eSSidad.e. SAo atos nccasari­ 01. EritreOs bomens; a lei '<18 ~dade cede lugar a liberdade e ao arbi­ trio - 0 homem pode matai o animal nJo pode necessidade exclusiva, mas por esportee, notadamente, Par prazer. SIo atos arbitrUios. Quando 6 absol1ltameDte necessario que se suceda um ato de certa formadeterminada, nIo se pode atribuir responsabilidad algoma sabre 0 seu agente. A responsabilidade surge do 8Ibltrio e cia liberdade, da capacidade de agir cu nIo agir, de escolher entre uma coisa e cutra. Assim sCndo. olio se pode avaliar mora1mente 0 comportamento dos ani­ mais, por duas raz6es: primeiro, eles nIo possuem a consciCncia moral; segundo, suas atitudes 510 nccessUias e nIo arbitrarias. Por outro lado, no caso do bomem (0 qual foge a regra natural de matar sO por estrita DeCeSSidade). podemos e devemos avalia-lo moralmente por possuir uma consci&lcia moral e em virtude de os seus atos serem dotados cia faculda­ de a.que denominamos de liberdade, a qual possibilita esse mesmo com­ portamento moral. Darwin percebeu isto melbor do que ningaem, ao afirmar que 0 que diferencia 0 homem dos animais e a consciencia moral. "Suhscrevo plenamente, diz ele, a opiniiJo daqueles escritores que sus­


.'.... .. '

85

tentam que de todas as diferenfas extstentes entre 0 homem e os animais inferiores. 0 sensa moral au consciencia e inigualavelmente 0 mais im­ portante (...j Um so moral e aquele que esta em condiflJes de comparar as suas a¢es e os motivos passados e futuros e de aprova-los au desa­ prova-Ios. NDo temos motivo para supor que qualquer animal inferior (sic) tenha esta capacidade; par isso quando um cDo terranova salva uma crianfa das aguas, au quando um simlo orrosta 0 pengo para sal­ vor uma companheira, au se toma de cuidados por simio orfllo, niJo chamamos de moral a sua conduta. Mas no coso do homem, que e 0 Uni­ co que pode ser cJassificado com certeza como ser moral, tJfiJes de um certo tipo chamam-se morais; se realizadas deltberodamente, depois de uma luta com motivos conflitantes au impulsivamente atrave« do instlnto au por efeito de um hObitoadquIrido ientameme." (1974, p.120-137). NIo vamos deter-nos aqui numa analise dos atos puramente arbitrlirios do homem, 00010 a ~ e a pesca par esporte; mas sim. naque­ las atitudes que parecem justificadas por certo conteUdo racional - como eo caso da croofagia. au seja, 0 babito de alimentar-se de came (que pennite. taJnbem, que 0 homem cace e pesque). -0 homem. 00010 ser racional e agente moral, sabe que e urn ser autODODlO. igualmente oomo todos os outros animais, os quais. em rela­ IWIo a si mesmo, do heterOnomos (possuem outras regras e tipos de con­ data). Mas. como ser aut6nomo que e. quer matar 0 animal para comer­ lhe a came. Como homem. porem, oompreeode que assim 00010 ele quer e anseia pela vida. 0 animal tamb6m a deseja e possui. Consegue abstrair­ se de si mesmo enquanto pensa no animal, percebendo-lhe a Ansia de mer. Como animal, porem, sente 0 desejovoraz cia came; quer entregar­ se aos prazeresciamesa. quer saciar os apetites. o oonflito antitetioo esta expresso no dilema entre oomerau oJo comer a animal. Este oontlito e vivido dideticamente nas re~ reais que se clio entre eles na realidade ooncreta. mas e compreendido na oonsciencia humana. que oontrola a Natureza e os anjmais. E, pois, na ooDSCiCncia humana que a processo e decidido e solucianado. Conside­

JeII1()-lo ai, na sua origem.. De um lado sabe que 0 animal quer viver (heteronomia) e. de outro. qucr mata-lo (autonomia). Ou deixa-Io viver au mata-lo, portanto. A primeira hip6tese traz uma so~ homon6mica para a sua conduta, ao passo que a segunda cria uma antinomia. Na primeira hip6tese a ho­ mem nega-se a si mesmocomo um animal que deseja comer e afirma-se como homem (animal racional que sabe que 0 animal quer viver); na segunda, nega-se a si mesmo como homem. negando 0 que lhe diz a 18­ zOO, e afirma-se como animal que deseja, que mata. que deslr6i. Esta


86 si~ do homem como animal carnivoro e eticamente insustentavel, porquanto, como homem que e, e enquanto homem, a razIo rejeita a ideia de comer came como contraria aautonomia animal; mas na medida em que come carne e nega-se como homem, afirmando-se como animal, em numa si~ equivoca: quer ser animal como os outros - 0 que do e. Ora, a razIo, a inteligCncia, permite-lhe compreender este processo dialetico, enquanto os outros animais apenas 0 vivem, sem compreende­ 10. Isso pennite-Ibe situar-se DUm Divel acima dos animais; quando, po­ rem, nega-se como homem e afirma-se como animal, mostra-se indigno de figwar como ser superior aos animais poI negar-se a si mesmo na condi~ de sec superior, facultada pela inteli~ncia. Por outro Jado, afinnando-se como animal, nlIo se pode igualar a eles, porquanto e urn homem. Assim, nJo e por ser superior 80S animais que e dado 80S ho­ mens explora-Ios, mas 0 homem mostra-se superior na medida em que nega-se a explo~. 0 homem como animal carnivoro mostIa-se, por­ tanto, urn ser descataet.erizado (por negar a sua pr6pria racionalidade), contraditOrio (par negar a sua consciCncia) e imoral (por negar-se a uma sol~ hODlOoomica). "Se tiras proveito como ser racional", obselVa Marco Aurelio, "adota-o; se como ser animal, confessa-o e guarda hu­ mildemente 0 feu juizo. Apenas cuidado para niJo te enganares no exa­ me". A destrui~ do antrapocentrismo passa necessariamente pelo esclarecimento de sua origem histbrica. Mas isto, por si 50, nlIo basta: pois ea base material que da f~ e vigor as ideias. 0 desmantelamento das ideologias sO se viabiliza efetivamente atraves de ~ e am~s reais is estruturas de poder estabelecidas. Nio e por acaso que com a desagre~ ambiental, 0 desnumteJamento da ecosfera, a polm­ ~ insalubre e mortifera, 0 extenDinio irreversivel das espCcies, a fome, a miseria, as crises energCticas, etc, swja urn questionamento acerca da fun~ ecolOgica.de determinados valores, ideias e teorias acerca do ho­ mem ede seu posta no mundo. As epoeas de crise pl5em, de forma pre­ mente, a necessidade de uma compIeendo adequada da si~ existen­ te e a exigCncia de novas fonnas de pensar e agir que apontem caminhos para superar os impasses que se apresentam. o antropocentrismo foi urn reflexo das condi~ e contradi~ dccorrentes do controle ambienta1 e do crescimento e expansio das cida­ des. Atendeu eficazmeate, em seu tempo. a necessidade de justificar a centraliz~ econamica e geogn1fica que 0 homem mais e mais passou a impor ao meio. Os homens precisavam acreditar que 0 seu dominio sabre as outras formas de vida nIo ·resultava apenas da vioIencia das tecnicas ou da fo~ das armas. Uma vez humanizada a Natureza, fez-se necessa­ rio consolidar este estado, seja apresentando-o como adeqUado as exi­ gencias da razio, seja comojusto e legitimo, ja que 0 homem nasceu para


87

sero senhor da cnacso. Era a necessidade de sobrevivencia que ditava e impunha a

acei~

e ~ de tais ideias.

Nao obstante, a partir de um certo limiar de desenvolvimento das for~ produtivas, a ideologia se torna contraproducente, desestabili­ zante e desagregadora. Surge um periodo de instabilidade que deixa o1ito a ~·da antiga superestrutura em·re~ as novas bases lti8fu.. riais em fo~. Em nossos dias a ideologia bumanocentrista e a grande respon­ savel pela crise que a passos de gigante solapa os aliceroes da vida na Terra. A fe no progresso ilimitado e no pretense direito de usufiuir de tudo quanto possa ser subjugado, submetido e explorado pela t6cnica co­ loea em risco 0 equilibrio da ecosfera, comprometendo 0 fUturo do 110­ mem e de todas as demais formas de vida. Estamos em meio ao embate de duas tendencias opostas. De um lado, 0 processo de objetiv~ da Natureza apresentou-se a partir de um certo momento como ali~. Homem e Natureza tornaram-se estnt­ nhos urn ao outro, alienados e justapostos. 0 homem cristalizou-se numa posi~ de distanciamento e oposi~ em relal;io ao nnmdo vivo, coagu­ lando 0 tluxo da vida noma negatividade que se arrisca a abortar a posi­ tividade latente naquela ne~. De outro lado, distendendo-se ao ponto maximo de si mesma, por fo~ de suas prOprias leis, a Natureza tenta retornara si e afumar-se de uma forma mais completa e acabada. 0 sen­ tido oculto desta dialetica reside no fato de que oprogresso da humani­ dade a partir de suas origens incertas e indeterminadas e, ao mesmo tem­ po, um retrogresso; 0 afastamento gradativoda Natureza C, ao mesmo tempo, urnretorno cada vez mais pleno. Com efeito. justamentenaqueles setores onde a tecnosfera eliminou e substituiu da forma mais virulenta a biosfera e que se obseJva os apelos mais veementes em defesa do equili­ brio ecologico. Os movimentos ambientalistas mais fortes e combativos situam-se nas megalc>poles. nos grandes centros urbanos, onde as m8qui­ nas substituiramos animais, os vegetais e os pr6prios homeDs, os edifici­ os impedem a conteJ.nplaQ.io do ceo e 0 asfaltocria uma barreira intrans­ ponivel entre 0 citadino e a terra. Quando pode, 0 homem UIbano foge do seu apartamento e afasta-se da cidade, como urn. animal que, vendo aberta a porta de suajaula, de pronto a abandona.. Mas. se a conv~ e 0 cbamamentoda vida desponta atraves do sentimento de sua auaN ou priv~io, da mesma forma uma edu­ ~ ambiental pode e deve comecarpelo contato e pela prae~. de urn animal de estima¢lo ou de urn. vegetal cultivado no jardim OIl num sim­ ples vasa. Comeca-se gostando de urn. ser singular, do cao, por exemplo. A seguir, passa-se a gostar de todos os caes, indistintamente. Indo mais


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alem, este sentimento estende-se a todos os animais, domesti~ au

set­

vagens. Finalmente, 0 que antes se sentia diante de um ser siJJ.gular, sen­ te-se agora em ~ avida tomada em tOda a sua universalidade, pre­ sente nas mais diversas manif~ singulares. Percebe-se enlJo. que 0 habitante e indissocim:i do sen habitat, a bioeeDOSe do.bi6topQ, forman­ do ambos om sistema integrado, urn ecossistema, uma totaIidade orgAni­ ca. A Natureza, inicialmente indeterminada e inconsciente de si, para oijetivar-se, precisa alienar-se de si mesma. E~do apenas en­ quanto ser em Ii. ela busca 0 ser para Ii proprio a consciancia. Contudo, em deconbcia da alie~ ecologica, a coosciencia humana e taJ:nbCm uma consciencia alienada, uma consciencia para iii 1iDguIar, ignorando que eta mesma e Natureza e que eatraves deIa lJIC a Natureza a1can~ a consciencia de si, au seja,. ignorando a ventade do sea para si (ignora 0 seu em iii). Porem. aUstando« de si mesma e suportando as agruras e in~ decouentes de sua tragica cislo, podera a Natureza re­ tomar para si suprassllmida, pois atingir8 a sua auto compIeendo e 0 seu auto conhecimento. Isto ocone quando 0 homem reconhece que 0 seu outro, a Natureza, e. ele mesmo; e que ele prOprio e este outro. Ao perce­ bel a unidade na .difer~ e a difere~ na unidade, cessa a ali~ ~ da conscienaa. 0 ecotogismo representa e assume este movi­ mento de IeCO~ da Natureza consigo prOpria. 0 homem ecologico e aquele que, intuindo a grande unidade da vida, sente na came, em seu prOprio corpouma agressio cometida contra a Natureza. E, alem de agir em defesa domeio e contra a ~ ambiental, luta com 0 pro­ pOsito de oferecer as proximas ~ urn futuro de esperaaca, beleza e dignidade. No passado, 0 homem, para afirmar-se, sO encontrou urn imico caminho: negar a Naturela e transforma-la. Tentou a todo 0 custo preser­ WI a sua independencia e h"berdade em detrimento do meioambiente. No entanto, ao entender que a experiencia fei.ta no outro voltava-se contra si mesmo, descobre a necessidade de negar a sua ne~, de controlar 0 seu contrele, porquanto, enquanto ne~, e tanto ne~ do outro quanta de si prOprio, vida desnaturada, ser desenraizado. Comeea agoraa ter tanto interesse na permaneneia da vida quanto antes tinba na sua de­ ~, por vcr no ambienteuma ~ e subsistencia suas, estando certo de fazer nele uma experi&1cia em si prOprio. Nio nos depa:ramos na atuaJidade, como afirmavam os existen­ cialistas, com uma crise da razJo universal. "A Natureza gosta de ocul­ tar-se", dizia Her8clito. 0 ~ est3 estruturado como uma linguagem E preciso deci.b'ar toda w.:na cadeia de significantes para desvenda-Io. Para 0 fragmento isolado, para 0 individuo que 010 se conhece a si mes­ mo au que sO se percebe de fonna abstrata, as coisas estio "soltas",


89

e

"vazias"... 0 "absurdo". Trata-se, na verdade, de uma crise da razIo humana e do hllmanismo contemporineo. 0 homem parece ter perdido a capacidade de entender 0 Logos, 0 discurso divino; por isso nao consegue mais dialogar com a Natureza. Palar ser. E 0 signo mais representativo deste poder ontofinico e a Dis Dlundi, a arvore que e a sfntese de toda a estrutura universal. Plantar pois, conversar com Deus. 0 crescimento de om ser vivo e wna bierofania, uma manifestactao sagrada. 0 bomem consciente que se une a Natureza tern a responsabilidade e a missio mai足 or de Set 0 zelador e guardiJo da vida. No alvorecer deste novo milenio, caminhamos em dir~ a uma consciencia cOsmica - acima de todos os partidos, de todos os credos, de

e

e,

toclos os poYOS. Superada a ali~ objetiva da Natureza. Dio seremos mais nem escravos nem senhores da Natureza. Sem renunciar a nossa independencia, poderemos viver em harmonia com 0 Universo. Perce足 bendo como iBes8eDcial a pluralidade fenomenica das fonnas, esta cons足 ciencia estaI3 pronta para compreender-se a si mesma e ao mundo, ao dar-se conta de que, no fundo e eueDdalmente, "tudo If um".


DO PROBLEMA DO ENSAIO - DO ENSAIO COMO

PROBLEMA

Juan Adolfo Bonaccini

Poucas palavras parecem tao 6bYias e designam conceitos tao problematicos como 0 voc8hJ1o "ensaio". Na Teoria da Literatura tem sioo recorrente, dentre outras coisas, exclui-lodo gCnero literc1rio por ser demasiadamente "fil0s6fico". Fil0s6fico quer dizer af tee a pretensio de emitir urn conjunto de opini6es e ideias sobre urn assunto determinado acompanbando-as de suas l3Zaes. Tern. sioo tambem freqiiente, no entan­ to, principalmente no ammto fil0s6fico, considerar "mera literatura" todos aqueles escritos que n30 se podem. encaixar nos padraes lidos por filosOficos dentro de uma detenninada conexao de tradi~ e eveD1OS. Assim, denomina-se"ensaistas" todos aqueles autores artifices de idCias au questionadores natos que parecem fugir aos par!metros da filosofia academica. tradicional ou da literatura ern. vigor. Todavia, nIo intcressa ao presente disauso mencionar os crlticos que menos- ~ 0 ensaio; sejaa partir da literatura, da filosofia ou da teoria msntucional que estu­ daambas, Tampouco eo caso de citar ou apologizar autores conhecidos caracteriZados ou tachados de· ensaistas, mas de examinar 0 conceito de ensaio a fim de poder mais ou menos delimiti~lo e dizer se diz respeito a Filosofia em algum sentido. 0 meu intuito se resume nesta problem8tica.


92 I tradi~. Dentro desta, 0 ensaio I) como um genero litenlrio a mais, i. e, como um tipo de narrativa; 2) como um genero a parte e totalmente auronomo; 3) como perteneente afilosofia Nao pretendo entrar no merito de cada uma destas posieoos, mas apenas dizer que se a questio do ensaio n30 configurasse em si mesma um problema para 0 pensar nac baveria tantas dificuldades para a de­ te~o do seu lugar. E uma vez que a delimi~ do locus em que 0 ensaio pode existir esta intrinsecamente relacionada com 0 problema do estatuto do ensaio, nada parece mais sensato do que examinar mais de perto 0 significado da paIavra "ensaio", a fun de vislumbrar a especifici­ dade do seu conceitoe veeem que medida diz respeito a Filosofiaou nac. o termo "ensaio" veio a lingua portuguesa do termo frances es­ sai; do mesmo modo, "ensaiar" vem de essayer. Os vocabulos franceses traduzem 0 termo latino exagiu e 0 seu respectivo verba exagiare. No latim tardio ~ verbo significava exereer, provar, experimental, tentar, treinar. Felizmente, quase todas as ~ se conservam hoje em porta­ goes, e isso nos auxilia na anaJ.iseY> Segundo alguns, 0 ensaio e um estudo definido sobre um assun­ to, mas menos profundo do que um tratado. Para outros, e uma exposi~o de ideias pessoais sobre um tema determinado. Acredito que essas defini­ ~ nao sejam de todo falsas, mas creio estarem longe de satisfazer a nossa investig3lWio. Se compammos as vanas ~ da palavra "ensaiar" com que se entende em geral por "ensaio", constataremos uma disparidade. Uma disparidade tal que n30 se deve sO a parcialidade das defini~, mas tambem a singularidade do proprio ensaio. Um estudo (00 uma exposi~ de ideias) sobre om tema nac diz necessariamente uma prow, urn experimento, urn exercicio, uma tentati­ va ou urn treino. Seja mais 00 menos aprofundado, diz mais do que isso. De modoque 0 termo "ensaio" ganha urn conteUdo especifico que nJo se esgota na co~ do ato de ensaiar. Urn conteUdo que indica que nao se trata de qualquer modo de ensaiar, mas que 0 ensaiar consiste aqui em ensaiar urn estudo; uma exposi~ de urn problema, uma explo~ de urn assunto. Algo que nio diz apenas "prova", "experimento", ''tentativa'', exerclcio" ou "tremo", mas que diz respeito a uma exposi~ e exibe urn assunto, i. e, que desdobra urn problema. Melhor: que, em exibindo 0 estudo, 0 meditar desse problema, constitui-secomo prova e como experimento, como tentativa e como treino. Como exeroicio;oorno puro exerclcio do discurso. Como algo que duvida de antemao das solu­ «rOes para 0 problema queexibe; a tal ponto que a sua sol~ consiste apenas na exposi~ do problema: No desdobramento da quest40 e de

Sobre a questio existe uma certa

e considerado de tres modos:


93

suas dificuldades ~tes. Pm isso' e prova, mas' muito, mutte mais enquanto tentativa do que enquanto "demo~"_ Por isso taInbem "treino, exercicio.Exercicio como ato de exercer 0 discurso na j~ de problemase exerciciocomoexperimento. Comose fosse uma tentativa de experimentar sucessi.vas aproxima¢es em ~ a um p>uto que jamais se pretende fer alcanctado - por isso 0 ensaio nio e "Tratado". Porque 0 tratado tem urn inicio, urn meio, e urn ~ um Jim que instaura o fim da discussIo; enquanto qUe 0 ensaio e tlo somente a tentativa de exame e 0 experimento como exercicio de medi~ e de estudo. Mas taJnbem nIo e urn experimento no sentido das ciCncias naturais, senJo urn experimento vital no tratamento discursivo de uma quest4o. Mesmo assim, 0 ensaio e uma forma de cbepr algures; pois antes de apressar-se em dar "sol~ definitivas" que sempre sucumbem nIo pretende senIo investigare expor. E. nisso, 0 pensar se ~ posiciona-se; e diz. Neste sentido, 0 ensaio e 0 exame por exeelencia: pesquisa, anali­ sa e observa com ate~. com minUcia; pensa e discute questaes, ques­ t&s que sao problemas. '. o Ensaio e,antes de tudo, problematiz~.

If' Ora hem. tomar 0 ensaio por urn problema, problematiz8-lo filo­ soficamente, implica necessariamente om outre problema que amea~ conduzir 0 pensar a senas vicissitudes: pressupi5e a ~ de alga cbamado "ensaie", e ainda 0 presume urn problema - um problema filo­ safico. Colocar 0 problema do ensaio iria pDr em questio 0 ensaio como problema. Partir de urn problema nos levaria a outro: sera que existe 0

ensaio? Sera que se existe , ele e urn problema ? Tudo parece indicar que per bavermos partido de urn certo."'Caton nos enredamos numa questio de direito (quid juris), i. e , na questio de saber se temos direito a principiar por ai. Entretanto, pensar assim nIo nos levaria muito longe , pois a questio de direito poderia faci1mente ser re-enviada a si prOpria com a mesma justi~ que eIa nos quer impor. Antes de aceitannos 0 "fato"de sec um pseudo-problema problematizar 0 ensaio au dele precisar entIo, peIo menos. de uma ~ suficiente, bern podemos pensar que ism j8 traz em si urn outro problema: A quest40 de direito tambem pressupi5e que existe alga cbamado precisamente de "questio de direito". Dito de outro modo, aqueIe que leva em conta a questIo da justifi~ para questionar a problematiz~ do ensaio j3 supi5e que BOSSO empenho requer uma justifi~. Mais ainda: j3 sup6e que todo ponto de partida exige, de algum modo, uma justifi~ sofici­ ente, urn ~ por assim dizer. Assim, eIa mesma leva ao problema de justificar-se. A pr6pria ~, enquanto pedido de justifi~, t.ambem


94

precisa ser justificada: Ha que se perguntar desde que lugar exige uma isso levara 0 interlocutor, e a pnlpria questIo de direito a urn Regresso Infinito: quem pede uma justifi~ e que deve justificar-se. Todavia, para tanto seria preciso contar com urn criterio. E para determinar urn. criterio precisariamos de um DUtro, e para legitimar este Ultimo de urn outro, e assim por diante (2). Alem do mais, a questiio do criterio ja e mais urn problema: como poderemos justificar que.exis­ tern. critenos, que existem criterios mais v3lidos que outros, e que estes silo necessaries, se isso j3 envolve o problema que esta sendo posto em ~ de contas. Mas

questio - a Justifi~?

Se problematizar 0 ensaio parece urn problema que exige justifi­ nio parece ser menos problematica a pr6pria atitude que exige uma justifi~. Pois, por urn. !ado, sugere ter admitido que existe algo tal que e uma justifi~, e, alem disso, ainda supOe que ela e necessa­ ~,

ria. Portanto, se considerar 0 ensaio como urn problema digno de refle­

xao filos6fica ealgo problematico e pode ser posto em questao, nJo 0 e menos a pr6pria atitude que pOe em questao a problematiz~ filosafica

doensaio. Ora hem. tomar 0 ensaio por om problema filosOfico poderia ser uma peti~ de principios. Justamente par isso vem a tona a questao da justi:fi~. Mas se a quesdo da justifi~ - pelo menos no que con­ cerne ao presente problema- tambCm pode ser considerada uma peti~ de principios, uma vez que se pode questionar com base em que princi­ pios se exige que justifiquemos as razOes de considerannos que existe 0 ensaio e que este constitui urn problema filos6fico, e se aIem disso a ten­ tativa de resposta levaria 0 critico interlocutor a urn regresso infinito, entia isso tudo nao nos conduz a Dada. E contudo, isto nIo resolve 0 nosso problema. Pois parece que nlo podemos apresentar argumentos diante de n6s mesmos contra a ~ de partinnos de uma peti~ de principios: 0 fato de a justifica~ precisar ser justificada mediante algum criterio que requer urn outro para justi1ica-Io, e este, por sua vez, de DUtro, e assim por diante, indefinidamente, livra-nos apenas de urn argumento na discussio porque coloca 0 nosso interlocutor no mesmo patamar de precariedade que ele quer combater, mas nio elimina a apa­ rente arbitrariedade da questlo proposta. o que fazer, entia? Parece que tomar 0 ensaio por urn problema e tematizar 0 problema do ensaio nos conduz a urn labirinto ou a urn beco sem safda. Felizmente, apesar de tudo, coutamos com outro eaminho. E urn fato que existem certos escritos que sao chamados de "ensaios". E e urn fato ~ ha e houve pensadores que escreveram textos que sao ou foram considerados ensaios. Entretanto, n30 seria pressupor 0


95

que se devia provar dizer que M "ensaio' e "ensaistas"? Nio estaremos postulando a realidade do ensaio ao dizer que ele existe de rato? Como se ve, cada problema remete a outro, am~do pOr urn fun a nossas i~. No entanto, cada problema, ~-DOS de ime­ diato na busca de sua solu~o. E muito embora seja dificil afirmar-se uma sol~ definitiva passivel de ser atingida, nao seria arbitrario encontrar urn sol~ "modesta", incapaz de ser definitiva, mas suficiente para pennitir a COD~ racional ~ nossa jndaga~. Nesse sentido, diria que nao se trata de pressupor 0 que se devia provar nero de postular uma certa realidade quando se diz que e urn fato existirem ensaios e ensaistas, Seria uma postul~ que pre-supOe 0 que deve provar apenas se se tra­ tasse de uma prova. Mas nao eDada disso. Em neDburn momento preten­ demos provar que existem ensaios; muito menos, que existem ensaios dizendo que eles existem de fato. Se tivessemos feito isso, do estariamos dentro da inda~ filosOfica. Pois 0 que DOS preocupa mesmo e a "exisrenciafilos6fica" do ensaio: quando dizemos que "existem" ensaios eporque 0 ensaioja epara nOs urn. problema. Dito de outra maneira: n30 se trata aqui de uma simples con~ ~ sensocomum nem cientffica, mas do trat.amento e jnda~ de uma qu.estao proJiriamente dita por­ que se configuroucomo urn problema . Semprefalamos, de algum modo, do lugar de uma certa tradi~ e dentro de uma determinada problematica, Pretender fazer 0 contrario seria tao absurdo quanto querer construir qualquer coisa scm os materi.ais essenciais a eIa. Por isso, deve-se dizer que h3 uma tradi~ naqual se inscreve 0 problema que tratamos; e com isto quero expressar que outros pensadoresja se defrontaram com a questao. Seja no ambito acad&nico, seja no ambito extra-academico; sejam filosOfos, escritores OIl professo­ res, alguem ja experimentou a pr~ quanto ao lugal' do ensaio. Isto equivale a dizer, em termos de ar~,.que a questIo do en­ saio do existiria se nao existisse, de a1gum modo, 0 ensaio; que epreciso considerar a existencia problematica do ensaio como uma oondi~ da prOpria questao a respeito do problema do ensaio, Posto que sem a pro­ blematicidade do ensaio sequel se levantaria a questio; e uma vez que a questiio ja foi colocadae ja se oonfigurou como umproblema para diver­ 50S pensadores, faz-se mister que n30 seja 0 caso nestecontexto provar au postular a existencia do ensaio. A questao do e a de saber se 0 ensaio existe tal como existem cadeiras, mesas ou leopardos. A questio e que existe entre alguns pensadores urn. problema instigante; constata-se urn problema a respeito do estatuto e do lugar do ensaio. Caso nao houvesse problema a questao sequer viria a tona. Nio se discutiria se 0 ensaio e fil0s6fico ou liter3rio ( au nenhum dos dois). Portanto, sem c:airmos no regresso infinito dajustifi~o (ou do enteric) do ponto de partida, scm partirmos de urn. fato "tnvial" nem


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postuIannos indevidamente uma existeneia contigente qualquer, temos raz6es para admitir indiretamente a exist!ncia do ensaio. E a sua exis­ tencia surgecomoum problema. ,Urn problema para pensa.r, que e digno da reftexlo filosbfiea. .

m··,· Do ponto de vista filosOfico, detenninar 0 lugar do ensaio atraves da analise do sen conceito e dos-problemas que sua problematizatwI envolve, coincide com 0 as..4:Cmtamentode sen estatuto . A problematiza­ ~ do pensar, neste discwso, quer sugerir precisamente om status para 0 ensaio. Desde que a questio impOO problemas ao pensare impOs a alguns pensadores ao mesmo tempo um meio de expressIo e uma in<:6gnita, e vista que 0 problema se mostrou aberto ao exame fil0s6fico, toma-se nec:ess3rio delimita-Io. Ora. pelas caracteristicas do ensaio; por ser um estudo que se quer exame, tentativa. treino, exercicio~ por ser um experimento que rejeita defini~ e -dogmas, preocupando-se com a co~ de um juizo "ensaiando" an81ises e expondo as peculiaridades que 0 pensar entreve nos problemas que encara, por tudo isso que 0 ensaio se mostra escorregadio, fugidio .. e parece escapar a toda a tentacao de limita-lo dentro de quaisquer eategorias: Entretanto, queriamos delimita-Io para saber se em algum sentido diz respeito' a atividade que constitui 0 fiIosofar e que corriqueiramente deoominamos "Filosofia".Mas, uma vez que 0 problema se apresenta re1utante as tentativas de delimitacao OIl defini~ esquem3tica,bastaria fazer com que a nossa inda~ pudesse relacionar prOpria filosofia 0 resultado da nossa analise das dificuldades do exame e 0 prOprio des­ membramento do conceito de ensaio para que mostr3ssemos sua perti­ nCncia oeste campo. Inclusive bastaria fracassar nesta tarefa para de­ monstrar 0 contrano, Todavia, isla nos traz novos problemas. Pois, 0 que entenderemos por "Filosofia"? Como caracterizar a Filosofia, se jamais houve urn consensoa sen respeito desde h3 mais de dois mil anos? Assuma-se 0 lupr do pensador, do filOsofo ( oem todo pensador filasofo, embora todo filOsofo seja pensador), a do critico, do cetieo OIl do estudioso: a mea &aida mais OIl menos passive! de suportar ~ consiste em partir daquilo que a histOria nos legou como "exemplos" de Filosofia. Porque 0 que chamamos de "Filosofia" e urn conceito que en­ contra iniciahnente sua determinacao e sua base nas filosofias OIl nos filOsofos tradicionalmente reconhecidos por tais em virtude dos feitos e dos textos que deixaram. Isto nio poupa novas dificuldades: nem todos consideram filasofos os mesmos fi16s0fos ~ oem os mesmos textos como

e

a

e


91 sendo genuinamente filosOficos. Mesmo concordando em que a Filosofia tem a sua histOria, a HistOria. da Filosofia , nem WOOs a ~ do mesm.o ,modo. Nem reconhecem nela urn. mesmo conceito: a Filosofia tambem e

um problema.

"'

Contudo, se isla aconteee e poIqUe 0 conceito de "Filosofia" e tanto au mais rdatante a linii~ e fugidio defini~ do que, o.pr0­ prio ensaio. Caso nao fosse assim, nJo haveria tanto dissenso a seu res­ peito. Esta seme~fomentaa nossa suspeita de que. independente­ mente de saber se 0 ensaio e urn genero liter3rio, jomalistico, autanomo ou filosOfico (visto quese trata de om meio de expressio onde 0 pensar se tI3duz por si saaodiscurso, i. e, de urn. meio tal que tem 0 seu fun nele mesmo, e dado queo.seuc::onceito urn problema), 0 ensaio diz res,peito Filosofia. E nio apenu,de,·modo acidental, mas como uma caracterlstica constitutiva e essencial.da mesma. Ambos sao urn problema: ambos 510

as

e

a

probIema~.

Dentro da prOpria questAo acerca do que e e em que consiste 0 filosofar ja esta implicita a ~ milenar das opini6es, ideias, conceitos ou sistemas que a histOria legou ao "ocidente" e que se denomina em gem "HistOria da Filosofia". Esta nos ensina que todo pensador, antes de se tornar especificamente urn. filOsofo (au antes de ser consagrado como tal) deparou com um grande problema. Este grande problemasem­ pre foi. de urn modo ou de outro, 0 do estatuto prOprio filosofar e da Filo­ sofiacomo uma ciencia no sentido de epist¢me: cada filOsofo propl)s uma filosofia como sendo A Filosofia. Cada om pretendeu que a sua atividade fosse 0 ideal do filosofar. Assim foi com Arist6teles, com Descartes, com Kant., com Hegele com WOOs. Alem do mais, 0 fato de que a filosofia nJo se tenha constituido num ~ numa ciencia no sentido da MatemAtica, da Fisica"da.Qui­ mica ou de qualquer outra; de que esteja sempre. em coD$lDte auto­ questionamento e ~ tudo isso tem despertado ha bastante tempo suspeitas capciosas do seu propOsito e de sua seriedade. Semelhante ati­ tude tem esquecido amitide, porem, que mesmo nestas ciencias existem e existiram disputas intemas a respeito da sua especificidade e de sua fina­ lidade; que nelasos "especialistas" tiveram sempre, e ~ largas dissen­ s(ies: e que a Matematica do sec. V a.c., por exemplo,.nio e a mesma que a do XIV nero do E se bem que nelas se conservem ques­ t&s que sID amsenso e DIo provocam problemas, 0 mesmo aconteee na Filosofia. De modo que as suspeitas dirigidas contra os filOsofos devem resuhar muito mais do desconforto que provocam seusconstantes questi­ 0IJaI!Imt0S. seu "revisionismo cr6nico", au bem daincompreenslo dos seus pensamentos, do que de uma falta de prop6sito e de seriedade da prOpria F i l o s o f i a . , •

sec.

sec.XX


98

Assim, surge mais umasemelhanea entre a Filosofia e

0

ensaio­

alem de os seus conoeitos fugirem as defini~-, uma vel que 0 ensaio tambCm e alvo de suspeitas dentro do Ambito douto: se 0 considera "suqetivo" ou "objetivo" demais. Os estudiosos da literatura nIo v!em no ensaioum genero genuilUlJJlellte "literario"; os estudiosos cia filosofia nJo tern. 0 ensaio por algo rigorosamente '1ilos6fico". Todavia, filOsofos e literatos recorrem ao ensaio para exprimir seus pensamentos de modo bastante freqUente. Mas, como BOSSO interesse tern. a ver mais com a re~ entre 0 ensaio e a Filosofia, caberia indagar se 0 fato de a Filosa­ fia ate boje, ap6s centenas de tentativas, nio ter conseguido encetar "0 curso seguro da ciencia"- para usar a expresslo de Kant-, nio a de$tinaa ser eternamente um "ensaiar". Com isto quem sugerir que 0 ensaio, na minha suspeita, por excelencia 0 modode ser do filosofar. Tomemos os textos de Platlo, por exempJ.o, ja que ninguem dis­ que se trata de um fil6s0fo. Por acaso Platio pretende com seus di8logos, em particular nos Ultimos, outra coisa que nIo seja ensaiar problemas, i. experimentar a tentativa de expor as questlies que com­ portam problemas, dificuldades, para examin3-las, para tentar dar-1hes respostas e ~ destes todos os 3ngulos? Mesmo que nIo deixe de exporsua posi~, como faz no ~ ou no Parmenides (quando discu­ te problemas da "Teoria das Formas"), pretende por acaso ter esgotado a questio?, ou nIo que, como SOcrates, considera mais frutifero deixar o problema desdobrado e a sua resposta em aberto? Nio sera que a "bela harmonia" de Filosofia sO se da pela "discordia"? Ora hem, dirio alguns, esse nIo 0 caso de Leibniz, de Kant, de Descartes ou de Hegel Nem mesmo de Arist6teles. Tais autores preten­ deram solUQl5es definitivas para os problemas que investigaram. E nIo sio os {micos. Todavia, nio poderiamos lhes responder, caImamente, que mesmo nestes casos a Filosofia nio passa de um ~ Parece que sim, ja que a Hist6ria da Filosofia, suas aporias, problemas e dialeticas; i, e, a palencia cia si~ de constante precariedade do filOsofo, da necessida­ de de revisio, de dc:strui~ e ~ que semple impOs cada empresa filos6fica, onde cada uma uma parte que pretende sem direito ser mais do que isso;tal circunstincia nos obriga a desconsiderar a Ultima obj~ supramencionada antes de fomecer qualquer argumento.. Se bastasse pretender uma sol~ definitiva para fomeee-la, entia sequer baveria tantas "so~ definitivas" na HistOria da Filosofia. Alem disso, qualquer discurso filos6fico; seja 0 de P1ldo, 0 de Arist6teles, e de Kant, ou qualquer outro, 010 consiste sempre muna analise que aponta todas as dificuldades de uma questio iDstigante e avanca mediante perguntas e respostas? Nao e 0 filosofar a realjza~ do "di310g0 silencioso de alma consigo mesma" que constitui para PlatIo 0

e

cuwa

e,

sera

e

e


99 pensar? Nao e porventura urn mon61ogo aparente, que esconde sua es足 senoia de dialogo constante e controverso com todos os interlocutores possiveis, e aparece enquanto discurso? Nio e a Filosofia, afinal de con足 tas, 0 reiterado ensaio de uma orquestra cuja sinfonia permanece sempre inconclusa? Se 0 filosofar for assim, e se a Filosofia tiver a ver com nosso exame, entao e certo que de algum modo sera a exposi~ cetica de uma dUvida que repousa em varias outras, e a posi~ <las possiveis certezas a que esta dUvida pode conduzir 0 pensar. E enquanto experimento e ten足 tativa que se constitui em Ensaio, seu afazer tera muito mais a ver com a questio do que com a resposta; muito mais com 0 problema mesmo do que com sua sol~: muito mais a fazer com os caminhos do que com os lugares, embora esses caminbos sempre conduzem a algum lugar. Dai perguntar-se 0 seguinte: dado 0 carater do Filosofar, do seria 0 Ensaio 0 modo discursivo que mais se presta e que mais convem ao fil6s0fo? Rio de Janeiro, 27/10/1992.

Notas: 1 Devo algumas destas inf~s filo16gicas ao colega e amigo Celso

Martins A:zM Filho.

2 Este argumento e mais au menos 0 mesmo que Sexto Empirico utiliza para negar a possibilidade de definir qualquer coisa.(cf. Hypotyposes Pirronidhas, II, 207)


SABEDORIA E JARDIM

Markus Figueira

"Portanto, sendo tal caminho Uti! a todos os que se familiarizam com a investi~ da natureza e desse modo de viver, tiro principalmente a minha calma, preparei para teu uso uma especie de epitome e urn SUJll3ri.o dos elementos fundamentais de minha filoso­ fia em sua totalidade. (D.L., )(,37)". I ..Assim, se esta exposi~ for memorizada cuidadosa­ mente e produzir efeito, creio que qualquer pessoa, seja

eta quemfor, embora do penetre em todos os detalhes minimos conquistani uma se~ incomparavel­ mente forte em co~ com 0 resto da humanida­ de (...). E t8I a natureza deste resumo que aqueles que em medida suficiente ou completa jA possuem conhe­ cimentos eSpecJais, analisando-os A luz dessas ~ elementaJ'es,poderio realizar 0 maior nUmero passivel de investi~ sabre a natureza, por outro lado, aqueles que ainda nao tenham atingido a condi~ de estudiosos.maduros, com base nesses elementos e sem a palavra viva do mestre, podedo recapituIar com a


102 rapidez do pensamento as doutrinas mais importantes para a sercnidade da alma (D.L., X, 83)".2 "Em primeiro lugar, lembra-te de que. como tudo mais, o conhecimento dos fen6menos celestes, quer os consi­ deramos em suas re~s reciprocas, quer isoladamen­ te, nio rem outra finalidade alem de assegurar a paz de espirito e a convi~ fume, a semelhanca das outras inv~. (D.L., X(85)".3

As duas passagens da Carta a HerOdoto, bern como esta Ultima da Carta a Pytocles, urn sentido comurn expresso com a cJareza peculiar a linguagem epicurea, qual seja 0 de mostrar que a compreensao acerca da natureza das coisas (peri playseos), ou dos fenomenos, quer sejam terrestres, goer sejam celestes, tem por finalidade a attI1'axia, ou a tran­ qUilidade da alma. Esta ideia e capiqd no pensamento de Epicure, pois entendemos que 0 saber acerca dephym tern 0 sen telos projetado no exercicioda vida priltica, ou no modo da vida filosOfico. Com efeito, a realidade do pensamento epiClireo reside na associ­ ~ do pensamento contemplativo ao exercicio pratico do existir. 0 sentido e posto na realiza~llo constante da sabedoria de vida, pois a filo­ sofia para Epicuro, consiste no exercicio woo da sabedoria adquirida na compreensllo da natureza das coisas. Neste sentido, nio se ocupou das questOes que brotam nos dOrniniosda politica e da teologia por entender que 0 pensamento deve questionar em primeiro lugar 0 modo de ser do homem, e nesta medida, ser critico em re~ ao que se apresenta como 111086 viw!1Idis, recusando 0 estagio em que se encontrava como natural, buscando lhe opor urn sentido filosOfico de existir, a partir da cri~ de novos valores eucos, que possam proporcionar seguranca, equilibrio e tranqiiilidade aalma. Dito de maneira mais simples, a filosofia e para Epicuro uma es­ peeie de saber para a vida ( tec/me tis perl t6ft bUm). Isto significa que sen caminho e 0 da realiz~ de urn "modo de set" impulsionado pelo saber acerca de todos as coisas qUe interessam a ~ da vida A busca da sabedoria e por si urn exercicio de vida, esta busca tern urn sen­ lido que se exp(Se no modo como eIa se efetua. Busca-se sobretudo 0 saber acerca da physis, ou da coDipreenslo "acerca da nalureza"( perl pitY6eos). A ef~ da vida e a realizac;ao dessa busca mediante urn modo prOprio de ser sabio e prudente. A sabedoria tal e qual nos e apresentada por Epicuro resulta da vigencia de determinadas ~ que explicitam 0 modo de ser do sabio, Tais no¢es se articulam no sentido de expor uma posstbilidade de equi­

rem


103

librio na relacao homem-mundo, apreendido a partir da compreensao de physis. A n~o de phr8Jtesis aparece articuIada ~ de IIIdtlrIceia de maneira que se toma impossivel, neste contexto, compreende-Ia isolada­ mente. Simplesmente porque p/lysis traz em si a compreensio de uma medida-equilibrio- que assume na natureza humana as caracteristicas de phronesis e autarkeia. A aIItiII'keia do $Op/ltis expressio de urn dominio de si, ou de um equilibrio natural por ele alcancado quando sua alma, livre de pertur­ ~, harmoniza-se com 0 corpo. 0 que leva a esta harmonia a com­ preensOO do que natural e necess3rio reaJiza~o plena de sua physis. Aquilo que Epicuro cbamou de "elemento sem nome" e que compi5e junto com "calor" e 0 "sopro vital" a alma humana, pode ser 0 elo de li~ entre a alma (psyche) e 0 corpo (sarkOs) na realizacao de sua natureza, atuando como uma especie de energia que conduz 0 homem a urn equilibrio, ou mesma medida, tanto no pcnsar como no agir, A phronesU corresponde a este equilibrio, pois possibiJita a acao voltada para a realiz~o dos desejos naturais e necessaries a ~ de uma harmonia entre 0 homem e as coisas do mundo, e uma serenidade em re~ aos seus sentimentos. sabio epicUreo nessa medida (equilibrio) 0 sentido cia exis­ tencia humana, direcionando seu pensamento para 0 exerdcio de uma vida que valorize 0 conhecimento de si pr6prio, como equilibrio entre desejo e necessidade. A alma da ao sabio 0 sentido do equilibrio, doIan­ do-o de phr6nesis. Entretanto, a "vida autarquica" projeta 0 sentido de sua realiza­ ~: ser feliz. Ser feliz eestar tomando de prazer e serenidade. Trata-se, portanto, de "urn estado de ser" resultante de urn "modo de ser" OIl de

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uma sabia prudencia (pIuOnesi&) vivenciados. De modo sutil e, infelizmente, sucinto, Epicuro nos sugere como autenticos problemas de sua :filosofia, a compreensio de p/lysis e 0 sen desdobramento enco: a efetiv~ de uma conduta sAbia. Ha neste pen­ samento a tentativa de 1100 dissociar em nenhum momento, pensar e agir. Esta conceprio de :filosofia 56 poderia emergir do sentido de tIIIttIrlceia, ja que 0 exercicio proposto por Epicuro e 0 da rea]jza~o de urn hla06, isto e, de uma conduta reflexiva e investigadora. Isto significa que 0 exercicio desta filosofia ecritico, na medida em que estabelece uma rup­ tura com urn conjunto de valores que ret1etem 0 itJIoa de uma sociedade, onde 0 sentido de tllltal'keitJ ha muitose perdeu. Permanecer sustentan­ do-se em "valores comuns", isto e. emvalores derivados das creneas populares, sobretudo as religiosas e politicas, significa manter-se nos limites de uma existencia intranqiiila e, portanto, infeliz. Epicuro conce­ bia um Unico caminho (hOdDs) para 0 exercicio autarquico cia filosofia,


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au da vida sabia, que 0 levou a afastar-se das Jriticas comuns da pOlis. Para 0 sabio epicUreo, 0 pensamento deve se ocupar em realizar uma existCncia feliz e, nIo sendo possfvd realiz8-la em confronto com opini­ aes vazias (kelltht dOxtIJ), precisa abandonar 0 ethos mantenedor da p6Iis e buscar rea1izar urn "modo de SCI" queexpresse 0 equiUbrio como sentido de sabedo'ria. Trata-se portanto de migrar, de mudar, de transpor os limites da p6lis. 0 desfazer-se do "ideal politico" representa a Unica condi~ de se tel a tIIIttrieitI. Aldill'keUI sigoifica, endo, penta de valores, pro~ de um sentido para a Vida. urn sentido que constrOi novos valores a partir de uma couipreensIo autCntica (filosOfica) da physis. Nio obstante as enor­ IDeS dificuldades de desprender-se dos dominios politicos, Epieum 00II­ cebeu como finalidade do pensamento, a reali~ de uma vida sabia, de uma simplicidade sem igual, buscando 0 que the e estritamente natural e

neeessario.

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jardim ( /rep6&) 0 resultado de urn ato de libe~ do julgo moral e politico 80S quais se submetiam todos aqueles a quem faltava 0 poder de discemimento entre a opiniJo reflexiva e a opiniJo comum. 0 jardim sigoifica 0 distanciamento e 0 rompimento da vida sabia em rela­ ~ a vida comwn. 0 sentido sabio de distanciamento ta.mbem e uma consequencia da compreensio epic6rea detIIItIIriceia. caminho da "~", isto da proj~ de urn sentido da vida nio algo que ocona com frequencia. pois resulta de urn posicio­ namento no mundo. das incompatibilidades politicas e etico­ religiosas que existeDi entre Epicuro e a socicdade ateniense, 0 pensa­ mento acerca de phpis impuIsionou 'a realjz~ do jardim. Se a com­ preendo de ph,. significa tambem a compreenslo do que natural e a autonomia do sabio em rela­ necess3rio ao homem. dela que ~ apOIU, em iazIo de satisfazer-se no mundo natural. Edo "retorno" a este mundo muuraI. ollde se ~ a plu­ ralidade das manif~ de physi&, fluirlo novos agregados soei­ ais", novas composi~ nas quais a IIIIbIfkeitl e a op"eleiA (conviWncia mUtua), produziIio a amizade (pIIw.). Tanto quanta a conviv&.cia, 0 conhecimento (dianoia) tambem depende da conduta sabia e prudente do pensador, uma vez que a p/lr6Jresis molda a ~ do em re~ as pessoas do seuconvivio e tamb6m em rel~ as coisas da natureza. isto phr6Jresis quer dizer ~ no sentido dado ao c0­ nhecimento, tanto dos fenOmenos macrofisicos, quanto nos cbamados fen6menos fisioos. Neste sentido, quando 0 conhecimento de physi& buscado obedecendo 0 criterio da convivencia, sabio e prudente, porque reflete a compreensao, e Dio a interferencia. do p"ysitJIogo; quando in­ vestiga a natureza <las coi.sas, corroborando 0 sentido de equilibrio que configura 0 itluJs por ele concebido.

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105 A reve~ dos fenOmenos fisicos pela linguagem atende a sa­ bedoria naquilo que ela necessita para nJo se deixar tomar por crencas e opini6es vazias.:N1Io ha na investi~ fisiolOgica 0 interesse em apro­ priar-se, JW8 assim domiDar a pllysis, isto nio ha uma in~ "cientifica", na elabo~ do saber acerca da pltysis. Epicuro cia. com efeito, QDl tratamento etico quesdo da compte­ enslio de pltysis, mostrando a finali~ desta compreensllo para a tUdiI­ ,keUJ do $Oplt6s. 0 sabio autarquico na medida em que se desprende <las crencas da opiniio comUJD; e isso eleconsegue JIIC'1tiante 0 exercicio da pIIyaiologia. A p1IrOnesis d3 tambem. ao sabio 0 sentido de reali7a~ .de .sua pr6pria existencia. Ele p5e em obra um "modo de ser' que se ~ das escolhas e recusas que faz, tendo em vista as possi­ bilidades de vida que se lhe apresentam, au como praticas, au como p0s­ sibilidades de ~. A esta atividade - pOr em ohm - chamamosethos do aop1I6/1 epicUreo; um 1th0$ que resulta do logism6/1, moduladores da conduta, au do "modo de set" do sabio. Epicuro moveu-se para 0 cumprimento desta atividade e buscou experimentar recompor suas r~ mediante a esoolha de om lugar (locllS), no qual diferentes pessoas tivessem 0 mesmo principio de convi­ vencia: a pltilUl. A tentativa de redimensionar as re~ entre os ho­ mensa partir de um principio de harmonia e busca de sabedoria, faz dele um pensador que liga a compreenslo de pllysis ao exercicio de vida, como se 0 homem buscasse no conhecimento, 0 equilibrio em re~ ao mundo. A comeear pelas re~ humanas. Acreditamos ter sido este 0 Unico e verdadeiro sentido do jardim (Upos): posSlbilitar 0 exereicio de uma vida voltada para a sabedoria, na qual 0 equilibrio entre os homens amigos (philo/l) expresse 0 equilibrio fisico das coisas da natureza, .0 jardim proporcionaria ao homem a abdi~ de certos valores irremc;:diavelmente presentes nas sociedades politicas, oferecendo a pas­ sibilidade de ~ de um ethos, no qual as diferen~ se harmoniza­ riam, porque haveria uma Unica finalidade: a experreocia do prazer. 0 hem de todos surgiria do exerci~ coletivo de um modo de ser sabio, au pru4ente, Ao sabio bastaria compreender 0 real sentido do tetraplltimul­

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atraves

co,,: Nio h3 nada a crer nos deuses; Nit> hi Dada a crer na motte; Podemos atingir a felicidade; podemos suportar ador. (ApudJeanSalem: 1982,p.17)


106 e tambem que :

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"0 sabio f,/) compreendido pelo sabio, por isso, trata­ ra de viver longe da multidao."(D.L., X, 143).

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pensamento aparece jli como possibilidade de se realizar como pr3ticas de conduta e convivCncia. Sua atividade pode ser apresentada como 0 conjunto das reflexl5es tecidas no fluxo da vida de urn grupo de pessoas que se agregam numa comunidade, pondo em obra os designios de tais reflexOOs. Este sentido pratico tomar-se-ia 0 sentido do percurso de rea]j7a~ do homem, ou da vida do homem Epicuro. A ausencia de misticismo conduziu seu pensamento no sentido da vida e nio no sentido

contrano: "Enfim, nio f,/) 0 sabio procura viver escondido, nio 'f,/)

se ri de todo 0 destino e de toda a eseatologia, mas vive no instante e nio se preocupa com 0 amanhft, porque uma vida feita em fun~ do futuro

e uma vida inquie­

ta."( Us., 491) Importa sobretudo ao sabio epic6reo a compreensao do cicio da vida, enquantophysis. Dessa co~ no sentido natural de cada coisa existente, emergeria a tJIItfD'1ceUl no homem. Epicuro IeseIVOU a si pr6­ prio apenas 0 cumprimento de seu pensamento. Nada 0 entusiasmava mais do que compor, junto aos amigos., a sabedoria que oorteou a vida de cada um daqueles que entendiam que a felicidade parecia possivel, na­ quele momento, ali no jardim. Entretanto. a maior obj~ que se pode fazer ao sentido comedi­ do do conhecimento epiciireo a. seguinte: pode 0 bomem viver e se reconhecer enquanto homem scm 0 "instinto ioventivo" que 0 remete constante ~, independentemente do valor utilitario que ela possa ter? Este problema teima em permanecer atual. Hoje, mais do que nunca, refletimos sobre os av~ da ciencia a da tecnologia. quase sempre apoiados num "ideal de modemidade" cuja histOria vem de longa data. Contudo, vivemos o declinio desteimperio da "razao" e da "subj(:(jvidade", no qual nos·debaternos com im'imeros problemas causa­ dos pelo uso desmedido do "poder fazer" em claro contraste com 0 "fazer coerente" com os designios da natureza humana que , no entender de Epicuro, busca naturalmente 0 equilibrio com as coisas da natureza. Problema insolUvel para quem aprendeu a viver na dependencia da pOlis (hoje chamada metropolis) e das ciencias ( cbamadas agora de especiaJizadas) e escravos do tempo, que misticamente incute em todos 0

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107 dever e a preocu~ com 0 futuro. No entanto, para om grego do seculo Ill, antes de Cristo, a natureza bastava ser compreendida, para que a vida no momento presente pudesse ser vivida intensa e serenamente. Epicuro ja trilhava om caminbo prudente, caminho este que seria perdido por todos os pensadores que de certa maneira se deixaram seduzir pela "ybtis da modemidade cientifica, ja que a ele bastava 0 prazer de viver no jar足 dim, longe da multidio insensata, onde chegavam sequer as criticas daqueles que projetaram, ja naqueJa epoca, a "vontade de poder" do cara contemporaneidade.

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BffiLIOGRAFIA: BOLLACK, 1. et alii. La Lettre d Epicure. Paris: PUL, S.d COUCHE, M Epicure: lettres et maximes. Paris: 00.. de Megare, 19n. ISNARD PARENTE, M. Opere di Epicure, Un. Torino: Tipognifico Editrice Tonnese, ]983. LAERTIOS, D. Vidas e Doutrinas dos Fil6sofos llustres. Brasilia: UNB, 1988.


A HISTORIA EM JOAQUIM DE FIORE

Oscar Federico Bauchwitz

A primeira observ~ a ser feita sabre 0 pensamento da historia de Joaquim de Fiore e a que diz da supe~ da perspectiva agostiniana. E de fato uma super~. Contudo, esta nao significa urn abandono ou urn esquecimento do que pensou Agostinho. Trata-se de urn movimento que ultrapassa os ensinamentos do "Mestre" levando-os a Ultimas conse足 quencias e que apresenta novos elementos para pensar urn aspecto da bistOria que Agostinho nio tratou de resolver, ou ao menos, na situaeao em que vivia nJo era oportuno pensar. Joaquim recebe da tradic;ao agos足 tiniana 0 conceito de exemplarismo e esabre ele que fonda a sua compre足 ensao. Mas, enquanto toda a tradi~ colocava em Cristo 0 centro da histOria, Joaquim rompendocom esta tradic;ao, coloca a propria Trindade comocentro e modele exemplat de toda a bist6ria. Nio apenas 0 Filho se apresenta na hist6ria mas todas as Pessoas da Trindade mantem uma re~ de semelhanea que determina todas as criaturas. Como vimos ao expor a sua teologia, para Joaquim, todas as Pessoas re1acionam-se com a criatura, a qual trazemsi essa semelhanea. Mesmo Agostinho reconhece uma trina semelhanca na c~ e, principalmente,. no interior daalma de cada homem, fato este que Joaquim lembra no Psa1lerill", Decem Cllor"""'",). Agora, 0 que Joaquim estabe1ece a partir de uma interpre足 ~ das Escrituras - e de uma revela\:OO - eqae a histOria e 0 homem, bern como Deus que tudo gerou, e trina e, enquanto tal, divide-se em tres


lIO Eras au Estados, aos quais corresponde cada Pessoa da Trindade. Assim, a hist6ria a Era do Pai, a Era do Filho e a Era do Espirito Santo. A divisao trina da hist6ria notadamente a mais caracterfstica das elaboradas par Joaquim. Entretanto, a hist6ria pode ser dividida em quatro, cinco, sere, nove e em quinze empas2 Estas v~ est&> dis­ persas por toda a sua obra, mas tem como base a disposi~ das Tres Eras au Estados, expostas no sen primeiro livro, "Concordia Novi ~ Veteris Testamenti". e que suposta por Joaquim nas suas obras posteriores. Portanto, necess3rio que apresentemos esta divisOO da histOria conforme Joaquim a descreve nessa obra. Ele diz:

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"Os misterios das divinas paginas mostram-nos, entim, os Tres Estados do mundo. 0 primeiro e aquele no qual estivemos sob a lei;

0 segundo no qual estamos sob a ~; 0 terceiro, que esperamos iminente, sob uma graea ampJiada... Por isso 0 primeiro Estado foi na ciencia; 0 segundo na posse da sabedoria; 0 terceiro na plenitude do sentido. 0 primeiro na servidio servil; o segundo na servidio filial; 0 terceiro na liberdade. 0 primeiro nos flagelos; 0 segundo na ~; 0 terceiro na conte~. 0 primeiro no temor, 0 segundo na fe; o terceiro na caridade. 0 primeiro dos servos; 0 se­ gundo e dos filhos; 0 terceiro e dos amigos. 0 pnmei­ ro dos velhos; 0 segundo dos jovens; 0 terceiro das cnancas. 0 primeiro na luz da estrela; 0 segundo na aurora; 0 terceiro ao meio-dia. 0 primeiro no inverno; o segundo na primeira; 0 terceiro no verllo. 0 primeiro produz urtigas; 0 segundo rosas; 0 terceiro lirios. 0 primeiro ervas; 0 segundo espigas, 0 terceiro 0 trigo. 0 primeiro a agua; 0 segundo 0 vinbo; 0 terceiro 0 6100. primeiro pertence SetuagCsima; 0 segundo Qua­ resma; 0 terceiro festa pascal. 0 primeiro Estado pertence ao Pai, que e criador de todas as coisas; 0 se­ gundo ao Filho, que se dignou assumir nosso limite; 0 terceiro ao £spirito Santo do qual diz 0 apOstolo; 'Onde se acbar 0 Espirito do Senhor ai est3 a Uberda­ de'''.3 ,

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Esta passagem encerra os principais elementos do pensamento de Joaquim Embora muitas das caracterlsticas de cada Estado possuam um forte simbolismo, etas trazem, explicitamente ou nao, 0 que h3 de fun­ damental na novidade joaquimita. A defini~ dos tres Estados diz res­ peito ao movimento de manif~ da Trindade e articula-se com os


III atributos de cada Pessoa. Assim, a Era do Pai e 0 periodo no qual os homens vivem sob.o rigor da lei, no Temor e, portanto, sao como servos ou escravos. Historicamente e a epoca do Antigo Testamento, 0 tempo que vai ate 0 aparecimento de Cristo. Na Era do Filho os bomens pre­ senciam a graea e a generosidade do Filho que se fez bomem; os homens deste perlodo vivem a Sabedotia e relacionam-se com Deus como seus filhos. E a epoca do Novo Testamento, que se inicia com Cristo e que teria tim no ano de 1260. A Era do Espirito, que e a novidade, e 0 tempo no qual os homens viverio e conhecedo uma graea ainda maior e, atra­ yes da Caridade, serio como amigos de Deus. Este e 0 tempo, segundo a interpr~ espiritual das Escrituras, que se inicia ap6s 0 periodo do Fiho. Notamos uma clara di~ entre Joaquim e a tradicional con­ ~ da histOria. que e a ~ de uma ~ ampliada. J8 vimos como edificil para 0 cristianismo aceitar que algum outro evento hist6ri­ co pudesse superar 0 fato wco e irrepetivel da morte e ressurrei~ de Cristo. NJo obstante esta dificuldade, Joaquim afinna uma Era do Espiri­ to, que expressa a supe~ da Era Crista, e a supera de tal forma que aqueles que viverem na Era do Espirito, por que poderIo compreender 0 misterio de Deus e 0 da hist6ria, por que estario de posse da plenitude do sentido, prescindirao da pr6pria fe e serlo livres. A consequCncia imediata de tal distin~ e 0 tim da EJa do Filho. Somente e possivel se pensar e aguardar 0 inicio da Era do Espirito em razoo de ter a Era do Filho uma ~ determinada. Esta ~, no entanto, de modo algum faz de Joaquim um milenarista ou um pensador escatolOgico, como alguns chegam a afirmar". Estamos longe de aceitar­ mos tal ideia. NJo e milenarista pois a data que pressupOe como sendo 0 inicio da Era do Espirito nIo marca 0 final des tempos ou a parousia; nIo eescato16gico pois nIo ba um tim; e se aceitarmos que Joaquim reconhe­ ce um tim, deve-se dizer que e um fim que e urn. principio. E certo que ele atesta uma ~ tanto pam a Era prt-cristJ quanto pam a Era CristA, mas isenta-se de estabelecer urn. termino para a Era do Espirito. 0 final dos tempos em Joaquim, berncomo para a pr6pria tradi~, identifi­ ca-se com 0 Jufzo Final. A ideia de urn. millennium (Apo. 20) que fomentou diversos mo­ vimentos do encontra amparo em Joaquim. No Expositio in Apocalyp­ sim, obra que juntamente com a Concordia e 0 Psalterium, comp6e a sua trilogia, Joaquim deixa claro que "nos mil anos designam-se todos os tem~ que decorrem desde a ressurreifi;Jo do Senhor ate 0 tim do mun­ do" . Mas, entio, como devemos entender a frase de Crocco que <liz ser Joaquim 0 "mais famoso hermeneuta do Apocalipse de toda idade me­ dia"'f. E verdade que a analise que ele apresenta no Expositio obteve


112 profunda influencia e formou escola, principalmente entre os "espirituais"franciscanos, cuja ressonancia maior reside no episOdio do Introductorius de Gerardo? E ejustamente no Expositio que estlopre· sentes os elementos que, sem dUvida, trouxeram decep;Oes aos seus se­ guidores, como e 0 caso do magnus tyrannu~ e do Praedicatur veritali?, pontos fundamentais de sua analise sobre 0 Apocalipse. Muitos jqaqu,imi­ las que aguardavam ardentemente pelo inicio da Era do Espirito, SegUndo Joaquim precedida por tri~ e ~s ate a chegada do lider (novus dux), viram as suas esperaneas morrerem junto com 0 imperador Frederico IT, em 1250, dez anos antes da data marcada e quando, final­ mente, 1260 chegou e Dada, do que a profecia joaquimita afirmava, \aconteceu. Contudo, estas "falhas"da interp~ joaquimita 1110 inva­ lidam a sua compree11Slo da hisrorla. A ideia do anticristo pertence ao cristianismo e tao antiga quanto 0 prOprio Cristo. Naquele foram iden­ tificados os respons3veis peJas persegui~ e, em muitos casos, aqueles que hesitavam em se deixar tutelar pela 19reja. Que esteja presente numa obrajoaquimita nio surpreendente e muito menosfundamental. Portan­ to, se aceitarmos como Iegitima a ~ de Crocco, endo precise que se di~ quena sua anaJise do Apocalipse, nIo obstante as impreci­ sOes profeticas. "eStao presentes as caracteristicas mais importantes do pensamento de Joaquim: a divisiD trina da hist6ria, as tres ordens de homens e a liberdade no Espirito. 0 que se esclarece na seguinte passa­ gem: 0"

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"0 primeiro des tres Estados foi sob 0 tempo da lei, quando 0 povo do Senhor, ainda crianca e sujeito 80S elementos mundanos, era incapaz de considerar a li­ berdade do Espirito ate que viesse aquele que diz: "Se 0 filho vos libertar, sereis realmente livres" (10. 8,36).0 segundo "Estado foi sob 0 Evangelho e permanece ate agora, na h1Jerdade certamente, se comparado ao Esta­

do precedente, mas nIo na hberdade se comparado ao futuro. 0 tereeiro Estado tera inicio por volta do fun do seeulo, ja nIo sob 0 veu da letra mas na plena hberdade do Espirito"lO.

E de se notar urn movimento de dupla li~. Os homens do primeiro Estado, "Sujeito aos elementos mundanos", estIo presos a lei e encontram em Jesus a primeira h1:le~. Mas esta nIo eplena. E preci­ so de que mesmoa liberdade que 0 filho proporciona seja superada para que no futuro, os homens evangelizados sejam rea1mente livres. Esta liberdade provem do Espirito. A hist6ria e, portanto, um caminho em


Tl3 ~ a liberdade que, voltamos a lembrar, se dar3 na hist6ria ("por volta do tim do seeulo") e nIo fora dela. Ate aqui aludimos a data que Joaquim preconiza como sendo 0 co~ da terceira Era. E preciso agora que apresentemos qual 0 argu­ memo que leva Joaquim a afirmar 0 ano de 1260 como tal data. Segundo o Evangelho de Mateus, as ~ que antecederam 0 Cristo 510: "De A1:xaio ate Davi, quatone ger~~ de Davi ate 0 Exilio na Babilonia, quatone ge~; e do Exilio na Babilonia ate Cristo, quatone gera­ ~". Ao todo sao quarenta e duas ~. 0 nUmero 42 multiplicado pelos 30 anos de cada ~ fomecem 0 nlimero 1260. sabe-se, entre­ tanto, que a idade de cada ge~ ntio foi sempre de trinta anos, mas 0 que Joaquim procun1 nIo e propriamente a idade mas a base mistica do niunero trinta, que se refere a Trindade e tambem ao fato de que Jesus tinha trinta anos quando iniclou a sua vida pUblica, com~ndo a ter os seus primeirosfilli spirituales. A outra expla~ soble esta data esta no Expositio e parte da fuga para 0 deserto da "mulher vestida com 0 sol" onde 13 permaneceu 1260 dias. Esta muIher, como diz Joaquim, "designa a Igreja Universal dos CatOliCOS"ll . Logo, a prOpria Igreja deve preparar­ se para a sua ~, quando da Era do Espirito. JA dissemos que ao pensar a histOria Joaquim parte da idCia de urnexemplarismo mas que, de aIguma forma, opera Ulna ~ de tal ideia ao apresentar novos elementos que servem a consi~ da hist6­ ria. E preciso demonstrar 0 que estamos a dizer. A histOria ate aqui apresentada possui certos marcos divisOrios: A Era do Pai vigora ate a cbepda do Cristo; a Era do Filho permanece ate o ano de 1260 e, final mente, a Era do Espfrito que tem ~ para sell inicio mas nIo para sen fun. Bern, estas Eras marcam a bistOria pontual­ mente, transformam 0 exemplarismo, radiealizando-o DUma setne~ trina, mas nIo e somente isto a novidade que Joaquim apresenta. 0 que realmente leva Joaquim a ~ da Era do Espirito, alem dos argu­ mentosexegCticos que veremosadiante, e 0 movimento da prOpria Jrist6. ria e mais que da histOria, e prOprio da vida. An dizer que a bist6ria pas­ sui aetates au status, Joaquim ntio deixa de ter em mente que 0 mundo tem uma certa idade. E e justamente esta ~ de idade, de ~ de vida, de permanencia, de aparecimento e desaparecimento, de nascimen­ to e motte. que fomecem a Joaquim a sua compreensio da histOria. Certamente 0 primeiro, mas nlo decisivo, argumento que conduz a conviawJo da Era do Espirito e0 teo16gico. Como vimos, e em razIo de terqma defiDi~ sabre as propriedades e atividades <las Pessoas Divinas e que Joaquim pode encontrar urn nexo entre a TriDdade e a Histbria, a re~ ad extra. No entanto, este argumento nIo e decisivo pois, man­ tendo-se na omta do exemplarismo, nIo fornece uma expli~


114 "orgamca" do desenvolvimento histbricol 2 de como uma epoca possibilita a sua posterior; de que forma historicamente uma Era nasce, floresce e declina e uma outra superando este declinio, nasce emseu lugar. A eJabo~ de uma expli~ orginica do desenvolvimento histOrico oJo implica, em BOSSO entendimento, na busca de urn. principio meta-histOrico. Se, como diz Joaquim, a histOria e "cognosefvel para ser amada e reconhecida,,13 entao e necessano que exista um principio real­ mente histOrico que se ~ presente a cada momenta. Este principio, como colocamos em BOSSa Intr~, e urn. principio derivado, urn. principio numa segunda acepwio, que fornece a histOria urn. sentido P'6­ prio. A Divindade parece perder urn. pouco de sua fo~ e providencia mas, se considerarmos que a histOria e sempre a histOria des homens e que estes espclham os atributo Pessoais de Deus, entJo veremos que Deus e reafumado oJo como om principio inerte e exterior a histOria mas como urn. principio quevivea hist6ria e que a possibilita concedendo-lbe o movimento constante de ge~ e co~. 0 Deus Trino demarca tres etapas da histOria e engendra nesta urn. outro principio que a realiza enquanto hist6ria Tal principio, repetimos, e Declinio e S~. Do exposto acima, talvez, pudessemos colocar 0 seguinte proble­ ma: Se Deus manifesta-se na hist6ria, alraves das Tres Pessoas em tees 6pocas distintas, embora todas juntas ao mesmo tempo, podetia-se entao perguntar se oJo esta 0 mesmo Deus sujeito a este segundo principio, que, a rigor e prOprio somente das criaturas, na medida em que dele depende para 0 transitar de sua graea. Como Deus pode realmente cum­ prir a promessa de ~ senIo por que eda hi.st6ria tal principio? Um tal questionamento acabaria por trazer a atividade ad extra urn. DlOYi­ mento que e inexistente nas rel¢s ab intra e mais que isso, comprome­ teria a eternidade divina, sujeitando-a a urn principio temporal. Ora, a dificuldade enot6ria pois em se aceitando tal suposi~ aceitaria-se que Deus precisa da hist6ria tanto quanta 0 homem que, em termos eristaos, nelaencontra a possibilidade de ~. Este problema, no entanto, nio se coloca para Joaquim. Deus n§o tern necessidade da histOria mas, ao contnirio, a bistOria existe em ~ do homem. Que exista urn principio propriamente histOrico e que somen­ te na hist6ria esteja presente se deduz da prOpria ideia de Deus, no qual nio hA transm~ ou vicissitudes l 4 de e "um principia sem ~o, o que nao co~ ¢guma vez a ser, mas sempre era aquilo que e"' . E principio incondicionado e co~ de todo existente. NIo· precisa cia histOria senIo em razao de sua bondosa disposi~ salvacioniSta, e isto nio 0 condiciona a outro principio senIo que este e por Ele impasto as criaturas a histOria. Est3 presente na histOria nJo par necessidade mas par sua vontade. Nessa se manifesta e em se manifestando, como num ac6mulo de graca, possibilita ao homem a sua ~ e entOO, "nesse


115

momentover as extraordinarios misterios"16. A Era do Espirito e a mani­ Espfrito Santo. Nio, decerto, como um acontecimen­ to histOrico semelhante ao que marcou 0 inicio da Era do Filho, mas como uma efusio maior do "espirito de verdade". Dos argumentos exe­ geticos que Joaquim apresenta ao longo de sua obra sterno-nos ao que e fundamental ao terceiro Estado: A vinda do Parsclito. Expresso no dis­ corso dedespedida de Jesus, 0 Paraclito e uma promessa e, enquanto tal, o seu cumprimeDto e uma questJo de tempo. Claro esta que este tempo e a Era do Espfrito. Mas, este tempo e 0 quinto e 0 Ultimo segundo a divi­ sao hist6rica que Joaquim apresenta no Pu1terlIun, onde ele analisa a promessa do Par8clito, afirmando uma manif~ bistOrica do Espiri­ to, alem daqueJa que ooorreu no Penteeostes, quando 0 Espirito desceu sabre os ap6stolos. Nio deixa de ser opDrtuDo notar que 0 PItIIteriIt", e dedicado ao Espirito Santo e que foi durante as festividades pentecostais que Joaquim recebeu a eluci~ do misterio triDitario.1? A clivislo apresentada no PMJteriIIm e talvez a mais importante do ponto de vista da ~ entrea Trindade e a HistOria. Ela e colocada logo em seguida que Joaquim disserta sabre as cina> relaQlies18 pessoais e, portanto, esta divislo tem como tim 010 apenas uma ~ his­ tOrica, mas, principalmente, uma divislo pela qual cada tempo detenni­ nado expressa uma das ~ interpessoais. Assim. no primeiro tempo AbraIo recebe 0 significado da primeim ~ , Deus manda-lhe urn filho como enviara 0 sell prOprio Filho. No segundo tempo, 0 Filho alude a re~ com 0 Pai atraves do Anjo do Senhor que orienta 0 pavo de Israel na travessia do deserto introduzindo-o na terra prometida. No tereeiro tempo, semelhante a tereeira ~, 0 Espirito Santo se apre­ senta atraves dos· reis e profetas. como ~ Samuel unge Davi; e a imagem, ainda que velada, da Trindade1 . De forma reduzida, Joaquim assim descreveos tres primeirostempos: f~ histOrica do

"Porque, entio, no primeiro tempo Deus se revelou como Pai, entre os pais que estiveram antes da lei; no

e

0 Filho demonstrado no Anjo do Se­ qual e chamado de Deus e Senhor; 0 tereeiro sucede a exibi~ do Espirito Santo que se expressa pelos reis e profetas; aparece no terceiro, ainda que sob um abscuro enigma, toda a Trindade, que e um Deus, ao mesmo tempo operante, e 0 qual nIo somente um Deus, mas Pai e Filho e Espfrito Sauto"20

segundo tempo nhor,

0

e

o quarto tempo,

entre

segundo Joaquim e confonne a quarta

~

as Pessoas (peJa qual dois sao enviados de um), e a epoca ioaugura­


116

da pelo Filho e pelo Espirito Santo; 0 batismo de Jesus, que tem sobre ele a "pomhil descida do ceo", isto e. 0 ,Espirito Santo, significa que "ambos foram enviados pelo Pai para a ~ do' genera humano?". Final­ mente, 0 quinto tempo ecomodesereve JoaquiiD:

"Mas vejamos agora este quinto tempo, no cO~ do qual nOs estamos, no qual 0 ESPirito SantO eBviado pelo Filho ainda deve agir e agira muito m3is'podero­ samente do que fez ate aqui para que Wdos aprend3m a homar 0 Espirito Santo como honram 0 Pai e 0 Filho. Em que? Sem dUvida, no seu evangelho. Pois do 0 holll'3li como convem quem do recebe com submissio

e dev~ 0 seu Evangelho. E qual e este Evangelbo? Aquele do qual Joao diz no Apocalipse: ("Vi urn anjo voando pelo meio do ceu e The foi dado urn evangelbo etemo"). E 0 que e aquele Evangelbo? 0 que procede do Evangelho de Cristo, pois a letra mata e 0 Esplrito vivifica. Epot isso que aquele que e a prOpria verdade, disse: 'Quando vier 0 Espirito de verdade, vos ensinar3 toda a verdade'. E para mostrar que este Evangelbo tomara oEvangelho de Cristo e da Escritura, e 001110, mijdando a 3gua em vinho, inebriar3 os eleitos, acres­

ceDtou dizendo: 'Nfto faJara por si prOprio, mas falar.i , "tUdo aquilo que ouvira e a v6so aDlIDCiar3. Ele me glOrificara por que recebeni do que e meu e 0 anuncia­ .ra'. E necess3rio, portanto, que ele mode as nossa , mentes, 0 que ele pode fazer quando e ooma quer, como Deus, e que transfira os nossos oo~ dos dese­ jos carnais para 0 amor das coisas celestes, para que, de algum modo, do se~os mais 0 que fomos, mas comecemosa ser outros.

Ede se notar que a hist6ria, atraves dos cinco tempos, e sempre a histbria na qual se mauifesta 0 m.isterio da Trindade. Isto significa que Deus, ainda que de modos diversos e, por vezes, enigoWioos, presencia­ se na histOria e faz dcsta 0 lugar mesmo para sen conhecimento. Neste sentido, a divisio da hist6ria em cinco tempos e mais apropriada pois ela indica a manif~ de cada Pessoa, do isoladas uma da outra, mas segundo as r~ pessoais e epor essa razao que no Ultimo dos tempos torna-se manifesto, de fonna clara, que Deus e tres Pessoas e as tres Pessoas &10 Deus. Eis aqui outra vez a re~ intima entre Deus e a histOria. Conhecer 0 primeiro representa para 0 homem estar na histOria a espera do Espirito qlle "ensmaratoda a verdade". Decifrar na segunda 0


117 sentido mais oculto de sua e,qstenciae; na verdade, alcancar 0 conheci­ mento de Deus, meta que somentese atin$e ~ da Era do Espirito. Deve-se considerar tambem Q\IC Q "Evangelhodo" Espirito", 0 "evangelho etemo que 0 anjo do ApoCaJ.ipse cariega," viria aP6s a morte.de Joaquim a ser considerado como urn Terceiro Testamento. No entanto, nIo parece acertado tal consj~. 0 evangelho do Esphito, como diZ Joaquim, "procede do Evangelho de Cristo e da Escritura", isto dos dois testamentos, da mesma forma que a prOpria pessoa do Espfrito cede de ambos (Pai e Filho)que se referem, respectivamente, ao Antigo e ao Novo Testamentos. Mas, entio, qual a boa nova, a noticia feliz que anwiciar3 0 Espirito? Que fani 0 Espirito para que "comecemos a ser outros"? Que transfo~ e esta que, como mudando a agua em vinho, inebriara co~ e mentes e os conduzira ao conhecimento da verdade? Certamente responder tais questOes fundamental para que se compreenda 0 pensamento de Joaquim. Contudo, elas exigem urn lugar apropriado para serem respondidas. Deixaremos para mais adiante esta tarefa e nos fixaremos agora na novidade que loaquim apresenta no que diz respeito ao movimento histOrico, que foruece-lhe, como dissemos anteriormente, urn principio numa segunda acepeac. A Figura XI do Liber l'iguranua23 e uma das que expressam com maior cIareza 0 pensamento de loaquim. "Se na figura do Salterio (XID) esta representado 0 misterio trinitario, a figura dos Circulos Divi­ nos ilustra a re~ entre a Trindade e a histOria, expondo de que manei­ ra os Estados relativos Pcssoas Divinas formam uma unidade, quer no prOprio Deus, quer na hist6ria. 800, de fato, tres circulos que se justa­ pOem, simbolizando, respectivamente, Pai, Filho e Espirito Santo e tern como fundo, perpassando todos os tres circulos 0 nome IEUE 24 a seme­ lban~ de cada Pessoa, cada circulo indica 0 Primeiro, 0 Segundo e 0 TerceiroEstado. Duas ~ devem ser feitas. A primeira que por estarem justapostos cada circulo mantem uma ~ de contato com os outros circulos. Assim, 0 circulo do Pai, do Velho Testamento e do Pri­ meiro Estado, encontra-secom 0 circulo do Filho, do Novo Testamento e do Segunm Estado e ainda, com 0 circulo do Espirito Santo e do Terceiro Estado. Disto se segue que 0 centro da bist6ria encontras-se no ponto de ~ dos tres circulos, quando as tres Pessoas ao mesmo tempo silo urn Deus e, historicamente, sic> desta forma reconhecidas. A segunda observaI;io que os circulos, tornados agora como 0 pr6prio movimento histOrico, representam passack>, presente e futuro. E, neste sentido, por que cada cfrculo "invade" os outros, deve-se entender que, segundo loa­ quim, 0 presente assume 0 seu passado em fun¢lo do futuro. Cada aeon­ teeimento histOrico sempre 0 ewnprimento de seu passado e a expecta­ tiva de seu futuro. "

e,

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as

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e

pro­


118 A partir cia sugestiva figura do circulos divinos podemos dar urn passo decisivo na com.preenSao de Joaquim. Vimos que as divisOes pro­ pastas por ele determinam litnites para cada perlodo hist6rico: que os tres Estados tern inicio e fim (se bern. que na Era do Espirito 0 fun nIo seja determinado); que noscinco tempos ja se encontra uma certa justaposi~ da ~ histonca das Pessoas. pautada nas re~ pessoais; e. finaJmente, que tais divis&s nJo explieam. propriamente. a hist6ria em seu desenrolar. Ou seja. e preciso demonstrar que a hist6ria, possuidora de tais limites, nIo ac:onteee como eventos isolados, de uma forma que se entenda que sO 0 presente existe. mas ao contrano, a hist6ria como apa­ recimento e desaparecimento de cada momenta presente "c" em virtude de seD passado, que se faz vigente possibilitando-o e do seD futuro ao qual edestinado. Estas consi~ tornam-se claras entendeDdo a bistOria a partir de urn desenvolvimento vital. que leva em conta uma re~ in­ trinseca entre os momentos da bistOria,pelo qual passado. presente e futuro CODStituem 0 modo de ser da hist6ria. Vejamos como Joaquim apresenta esta re~: "0 primeiro Estado iniciou-se com Adio. frutificou em Abraio e terminou em Cristo: 0 segundo Estado inicou em zacarias. Pai de Jolo Batista. estimado para acabar nestes tempos. 0 tereeiro Estado. tendo wcio com SiD Bento, comecara a mostrar seu fruto a partir da vige.. sima segunda ~ deste mesmo santo homem, de­ vera acabar no final dostempos".25

Comesta passagem toma-se claro que os Estados da histOria nao se sucedem. simplesmente no tempo mas que estIo reIacionados de tal forma que 0 futuro esteja ja no passado recolhidos ambos pelo presente. Vemos que 0 tempo queJoaquimvive (i" temporibus istis) e 0 decUnio, 0 tim (consumano) da Era dO FiIho; seu wcio (initiatio. initiflm) deu-se com <mas. quer dizer, durante a Era do psi. e al~ a sua maior ex­ pressIo (fnlctijicano) atIaves de zacarias. psi de Jolo Batista, 0 tipo do homem cristIo. Agora. a :frutifi~ da Era do Filho, que e 0 prOprio Jolo Batista e nao Cristo. c tambem 0 decUnio da Era do Pai, isto C. a figura histOrica de Jolo traz 0 modeloda pratica crist!; nesta se encontra a ~ do homem do primeiro Estado. de forma anMoga a Cristo, que nIo c 0 iniciador do tempo cris&Io mas que ao frutificar determina 0 decUnio da segunda Era. Mas qual 6 0 fruto que advCm de Cristo e que. segwtdo Joaquim estaria pr6xiniO de· aparecer? 0 prOprio Espirito. His­ toricamente poderia-se pensar num Unico homem que encerrasse Dele mesmo as caracteristicas espirituais da verdade (como um Predicador da

verdade), mas a ~ do tempo e da ordem crist40s e 0 prOprio agir


119 do Filho. Neste sentido e que Jesus, como escreve Joaquim, "e a prOpria verdade". Portanto, 0 homem espiritua1., a semelhanea do Espirito Santo, e a pr6pria manif~ da verdade, da bern ~ que ensinou Jesus. E agui, bem aventuranca oao implica numa dimensio meta­ historica mas numa "praxis de vida". 26 Devemos observar que 0 iniciador da Era do Pai e AdIo e 0 da Era do Filho e Ozias. Estes inicios sio, na verdade, uma co~, por parte de Joaquim. de que ambos os Estados devem terminar e deixar que verdade seja manifesta. Sem dUvida 0 pecado de AdIo e mais grave que 0 do rei Ozias, mas ambos significam urn comeeo faltoso. No caso de Ozias e, talvez, a condena~o que Joaquim faz do seu prOprio tempo, DO qeal assiste uma vio~ do poder espiritual por pane do poder tempo­ ral. Nio podemos deixar de lembrar a postura renovadora que Joaquim almeja na Igreja, seja pela sua ~ cisterciense, seja, princjpaJmente, pela instaur~ da Ordo Florensis": Destarte a imperfei~ dos Estados precedentes necessario que estes declinem para 0 conhecimento pleno de Deus. Assim como a Era do Pai declinou e foi superada pela Era do Filho, agora, a Era do Filho deve declinar e ser superada pela Era do

e

Espirito.

o inicio do segundo Estado encontra-se no prOprio Estado anteri­ or: de igual modo, 0 inicio do terceiro Estado se da na vigancia do se­ gundo Estado. Tal inicio e apontado em sao Bento, fimdador do mona­ quismo ocidental, do qual surgiriam OS cistercienses e, portanto, 0 prOprio Joaquim. Disto se conclui que 0 inicio, a frutifi~ e 0 declinio de cada Estado est&> justapostos, bern como os circuIos divinos. Scbre isto escreve Joaquim: "... em todos este tempos, os limites que sio marcados

oao devem ser considerados absolutamente, mas cleve ser considerado 0 inicio do seguinte a partir da metade do temoo precente e sua fl1Jtifjca~ no fun do prece­ dente"211 Isto evidencia que ao pensar a histbria Joaquim a considera a partir de seu modo de ser, isto e, a partir de sua historicidade. Initatio, fructificauo e consumatio designam a rea1iz~ da bistOria. Inittatio inicio, naseimeato; fructificatio e tambem co~, no sentido de tra­ zer 1uz, de clarificatto; consumatio limite, fun, termino, declinio. AD compreender a hist6ria como nascimento, frutjfjca~ e declinio, Joa­ quim esta aludindo ao cicio vital, de nascimento e morte, que demarcam urn certo instante do percurso hist6rico, comourn intervalo temporal que frutifica e frutificando origina urn outro intervalo, este urn outro e assim

e

a

e


120

ate 0 final dos tempos. Mas aqui devemos fazer uma obse~. Disse­ mos que esta compreensJo da hist6riaesta plIut3da num princlpio de segunda aceprIo e que tal principio t DedhUoe ~ . Bern, a ideia do declinio provem de limes. de terminus, deconsumatio. Contudo, o quenlo deixa de provocar uma certa inqui~ e 0 fato de Joaquim utilizar 0 termo ronsumatio 29 e nIo consummatio, 0 cpJe seria correto gramaticaJrnente, pois consummatio provemdo veIbo consummare e do de consumere, cujo participio e consumptus. Alguns autores acreditam que 0 termo correto que Joaquim teria querido utilizar e comsummatio. 30 No entanto, e de se notar que se ha um erro, ele se repete em varias pas­ sagens de sua obra. E de se pensar que 0 verba utilizado e consummare ("ronsumavit"). No entanto, entre estes dois verbos ha uma sutil diferen­ ca: consummore sigJJifica coDduzir ao summus, isto e, a perfei~, ao mais elevado; enquanto consumere designa um enftaquecimento, uma destrui~ ou um declinio. Percebe-se quanto e inquietante esta di~ para se pensar a hist6ria segundo Joaquim. A ideia de um declinio, como enfraquecimento, parece mais apropriada do que a de uma perfei~ alcan¥lda Isto toma-se claro quando levamos em conta, primeiro a Figura XX do Liber Figuranun3! na qual se Ie "delectus primus status", "defectus secundi status", "delectus tercii status"; e segundo, tendo vista que a perfei~ designada pelo termo consummatio e colocada par Joaquim. para um alem da bist6­ ria, como escreve no Psalterium Decem Chonlarum: "Aquilo que e dito no tempo medio, isto e, no tempo dos reis e profetas, e dito mais paril eXJX>r os aconteci­ mentos futuros in patria post finem mundi, do que para se crer que tanto misterios terminariam naquele tempo. Portanto, no futuro seculo se alcaneara a perfei~ (Consu"..mandum est)32 Vemos que a ideia de uma perfei~ e afastada pois como <liz Jo­ aquim, "in vita ista non est in veritate regnum sed exilium R33• Portanto, uma CODsum~ em termos de perfei~ ealgo que Joaquim nio impOe a hist6ria. Mas, se tal perfei~ e ~, de que forma deve-seentender a "plenitude do sentido" que Joaquim anuncia se realizar com a Era do Espirito? Nisto, veremos adiante, reside 0 significado que Joaquim con­ cede 80S homens espirituais e a sua ~, a salmOdia. Do que foi exposto entende-se que 0 declinio 0 limite de todo existente. Nio decerto como um fim que simplesmente acaba, como um passado que passou, mas como urn. passado que dispik sempre, e a cada momento, determina a possibilidade de super~, uma supremacia do porvir. Declinio e Su~o se articulam, da mesma forma que 0 decli­

e


121

mo da Em do Pai "Coincide" com a ~ da Era do Filho, da forma que 0 declinio da Era do Filho "coincide" com a frutifica­ ~ da Em do Espbito. Neste sentido, 0 passado se faz vigente no presen­ te e este, par que declina, tem como destino a sua ~. 0 exemplo histOrico de Jesus eesclarecedor pois ele e0 cumprimento de promessa (0 passado)e 0 anUncio do Paraclito (0 porvir); ele e 0 "meio" da histOria pais se manifesta entre os outtos dois Estados, par que ele junto com 0 Pai enviam 0 Espirito, bem como no presente, passado e futuro se articu­ ~

lam,

Considerando que 0 declinio de uma Era coincide com a frutifi­ ~ da Era seguinte,tem-se que 0 declfnio 1110 e somente: om·:fim mas a ~ que a pr6pria Era presente passibilita. Frutifiear sUperar uma ~ presente; vale dizer, portaDto, que declinio urn fim que urn

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e

e

comeear de novo. E e neste sentido que a histOria e sempre recomeeo, e uma repeti~ do cicio de vida,. uma~, um rejuvenescimento do homem, uma ~ da ~ perdida: e 0 que significa a Era do Espirito, simboImlda pela ~34 Passemos agora a exposi~ da histOria a partir das ordens bu­ manas nas quais Joaquim encontra.a semelha.n9l <las Pessoas e de seus atributos. que determinam-se historicamente, como num transitus

gratiae3S A existencia de certas ordens de homens, que expressam uma semeJbanya divina e a conseqnencia imediata de compreender que a histQria se divide em tres Estados. Reconha:endo na histOria uma Era do Pai, uma Era do Filho e uma Era do Espirito Santo, deve-se reconheeer que cada Pessoa. par que e detenninante de sua respectiva epoca, impri­ me ao homem a sua semeJbaJl9l, a partir de seus prOprios atrieutos. Isto nIo implica numa divislo da natureza divina pais, como diz Joaquim. as tres Pessoas operam ao mesmo tempo, ainda que seja pr6prio de cada om atributo determinado. 0 fato de que em <:ada Era estejar presentes todas as Pessoas querdizer que e pelo homem que a hist6ria se raJiza, na me­ dida em que cada homem estaDdo e vivendo no sen prOprio tempo e na semeJbanya que exprime, recebe sen passado e dispOe sen futuro. Ist.o significa que 0 bem agir de cads homem de cada epoea e sempre uma v~ destinada par Deus. EstaDdo na histOria, 0 homem owe 0 eba­ mado e 0 misterio divino e respondendo-o faz a hist6ria. E como escreve Joaquim:

"Tres

instrumentos de virtudes silo a nOs ofertados, atribuidos par Deus aqueJes que do cbamados a res­ ponder... pais aqui, dada a ocasiao do misterio, deve-se . afirmar plenamente sabre esses, quer par que perten­


122

cern a eles as semelhancas para com aquela suprema Trindade, que opera toda em todas as coisas segunm 0 designio de sua vontade; quer pol' que estes mesmos tres instrumentos convem. isoJadamente as tres ordens do eleitos que sio criados a imagem de Deus. Oeste 0 primeiro e 0 trabalho das mJos, 0 segundo estudo das li¢es, 0 terceiro a dev~ da o~ e da salmOdia".36 Os instrumentos descritos por ]oaquim relacionam-se com certas ordens de homens. Todos os tres, 0 trabalho, a sabedoria (da Ietras) e a saIm6dia, sao caracteristicas pr6prias de cada Estado e espelham urn atributo Pessoal. Assim, DO primei,ro Estado, 0 trabalho dos homens mantem-se sob 0 Temor do Pai; no segundo Estado a Ieitura ea imagem da sabedoria do Filho; no terceiro Estado, peia salm6dia "nos fixamos no Espirito Santo"37. Estas virtudes as quaissilo designados todos os homens possuem urn sentido bern de6nido~ e pela ~ dos homens na hist6ria que se alcanca a Era do Espirito: "Pois nao esuficiente para a perfeicao somente 0 traba­ lho das mios, nem somente a leitura sem que seja

construida tambem a salm6dia".38 Nota-se que existe nas virtudes dos dois primeiros Estados um di­ recionamento para 0 futuro, para a ~ dos homens do Espirito. E aqui Joaquim nos diz de uma perfei~: nJo certamente, a perfeicao que ba na et:emidade de Deus, mas a perf~ do modo de ser do homem, que, por estar DO mundo, e sujeito ao declinio, ao desaparecer para, entia voltar a aparecer. Esta perfeicao e antes de tudo 0 estar se fazendo, e sempre por fazer, do homem que encontra numa detenninada ~, no despojar-se perante 0 mundo, 0 sentido mais oculto de sua existencia. E, neste senti­ do, 0 "estudo das Ii¢es" representa a ~ do "trabalho das mios", o homem do seguildo Estado a~ do homem do primeiro. Como escreve Joaquim, a perfei~ e algo construido pelos Estados anteriores, pois do seria passivel urn futuro espiritual se ja na Era do Pai e do Filho nao houvessemcomo os "germes" que a possibilitam. Tal perf~ euma transfo~ engendrada na hist6ria pelo pr6prio homem, que a seme­ lhanca de Deus, responde ao chamado "tocando" seus instrumentos e dizendo do sentido da existencia; ckcerto vir3 a tocar mais harmoniosa­ mente ~ estiver mais 'e mais calado, ouvindo. o silenclo do misterio divino", 9 Os tres instrumentos da virtude, prOprios de cada epoca determi­ nam tIes ordens de homens. Estas constituem 0 homem na hist6ria e 0


123 representam nao isoladamente mas como uma unidade que nominando estas tres ordens, escreve Joaquim:

e trina. De­

"0 genero humano e urn na sua natureza, mas distinto em uma trindade de ordens. A primeira e a dos oooju­ ges, criada a imagem do Pai; a segunda e a dos cleri­ gos, inStituida a imagem do Filho; a terceira e a dos monges, a semelhanca do Espirito Santo. E na verdade, a ordem dos co~es nio deriva de nenhuma ordem e e instituida para a pr~ dos filhos; a ordem dos clerigos Ilio provem de si mesma, mas somente da ge­ racao da ordem dos conjuges, tampouoo foi instituida para a pr~ de filhos, mas para divulgar a pala­ VIa de Deus, tal como Cristo do qual e a imagem. A ordem dos monges procede de ambas, pois na vida IOO­ nastica sao recebidos tanto os conjuges quanta os cleri­ goS".40 A ordo monachorum representa os homens da Era do Espirito e, enquanto tal, e a pr6pria supe~ do homem cristao, de seus atributos, da ordo clericorum. Certamente, a ideia do monacato, estabe1ecida por sao Bento, e 0 modelo que Joaquim persegue. A Ordo Florensis, oeste sentido, e uma tentativa de resgatar tal ideia e, considerando que e sao Bento iniciador da Era do Espirito, e a prOpria realjza~ hist6rica da ordem do Espirito. Segundo Mottu, a postura de Joaquim de restabelecer as prerrogativas de uma vida mon3stica representa urn "retorno anacrOni­ co para urn cenobitismo que sonha voltar ao eremitismo radical dos tem­ pos heroicos?". Esta ~o deve ser refletida pois, embora seja corre­ to pensar urn "retorno" no pensamentode Joaquim este nJio faz com que possamos considera-lo urn. pensador alheio ao seu tempo, alias, profun­ damente marcado por transfo~.42 E por que Joaquim vive uma epoca de nlUdan~ que seu pensa­ mento ganha for~. 0 "retorno" que podemos considerar em Joaquim., expressa na ideia de uma Ordo monachorum, e uma altemativa e uma disposi~ em ~ ao futuro. Longe de ser urn estranho em sua epoca, Joaquim representa uma possibilidade perante a pnitica escoIastica. Esta e, para Joaquim, a expressio nitida do decliniode um tempo. A escoIasti­ ca e comourn fruto tardio da Ordo clericorum. Ela surge atraves da ~ do bomem cristao que, a seme~ do Filho, deve construir uma cien­ cia, uma teologia para com.preender Deus. 0 homem das lectiones, por que vigora na Sabedoria do Filho, busca com os metodos sentencWios,


124

estabelecer a cognoscibilidade de Deus. Soble isto

escreve Joaquim: .

e esclarecedor 0

que

"Uma coisa e, certamente, olbar para aquilo que esta feito, outra coisa e observar 0 que fez 0 que esta feito, assim como uma coisa e conhecer algoma coisa para que seja conhecido, outra coisa econbecer para que seja amada: ai, e somente a ciencia que geraJmente iDfla, aqui, e a caridade qUe, com sabedoria, edifica".4l

AD dizer que uma coisa e a origem ou 0 principio de tudo que e e que outra coisa e 0 que e originado, Joaquim aponta para uma diferenca fundamental na ordemdo existente. Esta difer~ nIo e levada em conta pela ciencia que "infla", por que nao basta, segundo Joaquim, querer conhecer 0 que e em razJo deste querer. Conhecer significa que 0 homem de sua epoea, os primeiros escoJasticos, desconsideram a propriedade daquele que eles sao a semelhanca, Ora, 0 Filho e sabedoria por que possibilita ao bomem a graca de uma compreensio de Deus e da Hist6ria. Mas somente uma e nIo a compreensao que liberta, aquela quem provem do Espirito e que todo homem deveprocurar. Situando-se na dimensio do conhecimento da letra, a EscoIastica representa urn entrave para uma compreensfto mais onginaria e mermen­ te agracia. E, o"conhecer para amar", designa 0 conhecimento que liber­ ta, 0 que possibilita ao homemo sentido da origem; significa 0 abandono nao sO das lectiones mas da prOpria mundanidade. Oaf a razio do ceno­ bistismo de Joaquim. SO a partir de urn recolhimento e que 0 homem, salmodiando, pode chegar a origem.' A ideia de que 0 arnor liberta e de que a caridade edifica, e a possibilidade que Joaquim apresenta contra essa vontade de conhecimento. Deeerto que 0 conhecimento que se alcan­ ca na Era do Espirito nIo e algo que possa ser exposto nos termos da ciencia mas, isto sim, e a contemp~ e a compreensao do misterio da origem que, embora esteja sempre ai, nOO se torna totalmente evidente senJoa partir da salm6dia, a atividade prOpria da ordem mon3stica. Percebe-se que a postma de Joaquim perante a sua epoca e disto­ ante. Contudo, e urn virtude dessa dessa que Joaquim escreve, como que conclamando os seus contemporaneos a uma transfo~. Nio deixaria de fazer sentido considerar que Joaquim e estranho a sua epoca somente na medida em que seu pensamento diz respeito a urn outro homem, ao homem do futuro, urn homem que, de certa forma, "deixa de ser homem" (desinal homo esse homo)44. E, neste sentido, Joaquim e urn pensador do porvir e ahistOria naperspectiva de uma super~ do proprio homem e uma notitiapri;lcoce; e, ai;Sim,amicronica.


125

Uma Ultima ~ deve ser feita sobre as tresordens. Se a histOria em sua rea1izaQJo ~ sempre trina., constituindo-se no passado, presente e futuro auaves das tres Eras e ~, ainda assim, uma histOria; se Deus ~ trino e um, segue-se que 0 homem, disposlQ. numa divido Irina, constitui tambCm uma UDica uni~. Os. atributol; de cada ordem por que espeIbam os atributos divinos, nio dizem respeito a um sO homem ou a uma Unica Pessoa, mas dizem do modo de ser hQmem. Como escreve Joaquim, as tres ordens sIonecessarias pois assim se faz·obomem. "Posto que percebe-se nestas tres ordens uma certa unidade,Da qual se encontram~procamente, a fim de que seja vista que no ttabalbo nIo ba sO poder, mas que WJer e querer do m:cessUios, . na leitura do hli somente saber, mas t.amb6m po4ere querer e na saI­ m6dia nio somente querer mas saber e poder estio preseDtes,,4S . .. .. Assim, as tres ordens designam a prOpria

e

condi~

humana. Em­

bora deva-se dizer que na salm6dia superada esta condi~, as tres ordeas, atrav~ des instrumentos que lhe sIo conferidos, formam a uni­

°

dade das possibilidades do homem. Umaunidade que e caminho do ser humano. Certamente um caminho que, segundo Joaquim, conduz a su­ ~ homem espiritual - mas no qual estJo presentes todas as pos­ sibilidades. E aqui do ha nenhuma teoria de progresso. A bist6ria,. ao contt3rio, 6 urn caminho mas e urn certo regresso, na medida em que a

°

Ordo monacho",,,,reconhece na Trindade principio de todas as coisas. De existirem tres ordens de homens, compreende-se que homem, atra­ ves das tres Eras da hist6ria, IIUlJltem semple uma determinada re~ com este principia. Como escreve Joaquim, homem vive no primeiro EstadO, sob Temor do Pai, e beija sen pe; no segundo Estado, atraves da leitura, homem beija a e, na Era do Espirito, pela salmOdia, bomem beija a boca de Deus. 46

°

°

°

°

mao

°

"Na ~, certamente, ~ 0 pe, por que com essa demonstramos pia e fieJmente sermos OS servos de Deus: na leitura ~ a mao, por que com essa iotuimos a obra divina feita na sabedoria; na comtem­ ~ ~

° TOSto, por que com essa DOS uni­

mos a Deus onipotente num beijo de paz, cuja boca nos . destila a ~ do Espirito". 41


126 Torna-se claro que a rela~ do homem e sempre com a sua ori­ gem e que ena Era do Espirito que ele a esta se une, percebendo-a, como num beijo amistoso e nio mais como escravo au estando sujeito a letra. Esta uniJo, presente em boa parte do pensamento mistico, nio e uma compreensio absurda. Tal uniao e, como dissemos, a plenitude do senti­ do, a compreens30, por um lado, de uma dife~ fundamental entre Trindade e histOria e, por outro lado, a compreensio de que, embora distintas, eternidade e temporalidade mantem uma seme~ e se rela­ cionam enquanto origem e originado. Naquela a pura possibilidade de tudo que existe, nesta um principio, por aquela engrendrado, que realiza a histeria como histOria. Unir-se, deste modo, significa recolher, a partir da bist6ria, 0 sentido da exist!ncia; significa que na co~o 0 homem ausculta 0 principio sem principio que, embora n30 se expresse de forma explicita pois 0 discurso 0 limite do homem, manifesta-se em toda a histOria. Decerto esta manif~nao evisivel enquanto tal, mas se mostra como um principio derivado, como declinio e super~, que, oeste.sentido, e ta.mbem 0 principio hermeneutico da compreensio de Deus.

e

Notas:

Psalt, p. 151: "Si autem secundum quod Augustinus docet, in typo memoriae, rationis et amoris, unusquisque est potentia, sapientia et arnor, restat ut nibil minus sit singulus quam simul tres". 2 A divislo em quatro tempos pertenee unicamente ao Tractatus super quatuor Evangelia; a divisIo em cinco tempos ao Psalterium: a de sete tempos mormente ao Tractatus, embora esteja presente no Psal­ terium. As demais pertencem ao Liber Figvrarum e Concordia. 3 Concordi Novi et Veteris Testamenti V; 84: "Tres denique mundi status divinae nobis paginae sacramenta commendat. Primo in quo fuimus sub lege; secundus in quo sumus sub gratia; tertius, quem e vicino expectamus, sub ampliori gratia... Primus ergo status in seien­ tia fuit; secundus in potestate sapientiae; tertius in plenitudine inte­ llectus. Primus in servitude servili; secundus in servitude filiali; ter­ tius in libertate. Primus in flagellis; secundus in actions; tertius in contemplatione. Primus in timore; secundus in fide; tertius in charita­ teo Primus status servorum este; secundus liberorum; tertius arnica­ rum. Primus senum; secundus iuvenum; tertius puerorum. Primo in luce siderum; secundus in aurora; tertius in perfecto die. Primus in hi­ eme; secundus in exordio veris; tertius in aestate. Primus protulit urti­ cas; secundus rosas; tertius lilia. Primus herbas; secundus spicas; ter­ 1

a


127 tius triticum. Primus aquam. secundusvinum, tertius oleum. Primus pertinet ad septuagesimam; secundus ad quadragesimam; tertius ad festa paschalia Primus itaque status pertinet ad Patrem, qui est auctor omnium; secundus ad Filium, qui assumere dignatus est Iimum nos­ trum; tertius ad Spiritum Sanctum de quo dicit Apostolus: "Ubi Spiri­ tus Domini ibi libertas". (Cf. ci~ de Crocco op. cit. p.78) 4 Jacques Le Gofl: 'A Civ:iliza~ do Ocidente Medieval' Vol II, p. 300 e ABBAGNANO, Nicola "Dicionano de Filosofia". Ambos incluem Joaquim nos verbetes sobre 0 Milenarismo. Curioso e que AH'wIgnaM o coloca junto com Kant em tal verbete. 5 Expositio V, f. 211 r': "In mille annis designatur omne tempus quod decurrit a resurrectione Domini usque in finem mundi". (Cf. ci~ de Crocco po. cit.p. 51) 6 Crocco op. cit. p.44 7 Gerardo de San Donino, francisc:ano de Paris, publica em 1254 uma sfntese das ideias de Joaquim. Isso desencadeou uma crise dentro da ordcm, sendo Join de Panna substituido por Boaventura no cargo geral.Gerardo foi condenado aprisio perpetua pelas ideias subversi­ vas que expressava 0 seu Introductorius _ S Historicamente 0 Magnus tyrannus costuma ser identificado com 0 Imperador Henrique IV, da dinastiaHohenstaufen, na epoca de Joa­ quim e mais tarde, com 0 seu filho Frederico II. 9 A ideia de om Predicador da verdade seria tomada pelos espirituais, que viram em Francisco tal atribui~. Em Joaquim esta ideia designa o inicio da Era do Espirito. 10 Expositio Lib. Introductorius V, f.5 r: "Primus trium statuum foit sub tempore legis, quando populus Domini adhuc pro tempore parvulus serviens erat sub elementis huius mundi, non valens adipisci liberta­ tern spiritus, quousque veniret ille qui ait: 'Si Filius vos liberaverit, vere liberi eritis'. Seamdus status OOt sub Evangelio et manet usque nunc, in h'bertate quidem. respectu paeteriti, sed non in libertate res­ pectu futuri. Tertius ergo status erit circa finem saeculi, iam non sub velamine litterae, sed in plena spiritus libertate." (Cf. Crocco, op. cit.

sao

p.SO) 11 Ibid IV, f. 154 v': "lgitur haec Mulier amicta sole generaliter de­ signal universam cathol1corum Ecclesiam" (Crocco, op. cit p.50). 12 Dos comentadores da obra .Joaquim, somente H. Mottu aventa a hip6­ lese de urn principio noma segunda ~, tal como sustentamos aqui. (op. cit p. 219). 13 Psalt p_ 180. Ver nota 15 de nossa Intr~. 14 Psalt. p. 177: "apud Deum autem non est transmutatio nee vicissitu­ dims obumbratio".


128 15 Ibid.p. 173 principium sine principio, quia DOn a1iquando coepit esse, sed semper erat quod est".

"QUi sic orat et psallit laudMs et invocans deum suum...excedit bominem, supergreditur angelum, requiescit in 000. Ibi

16 Ibid p.217:

IeSpicit mira misteria". 17 ibid. p. 89:'''... et conterritus nehementer compalses nem invocare Spiritus Sanctum. coins sacra solemitas erat". e p. 91. 18 Vee capitulo anterior . 19 Sobre a dife~ entre os cinco tempos, ver Psalterium 343 55. 20 Psalt. p. 349: "Quia igitur in primo tempore revelavit se Deus pater, sicut voluit et quibus patribUsqui fuerunt ante legem, secondo adiuuc­ ta est demonstratio filii in angelo domini.. qui et dominus vocatus est, tertio subst:cuta est eXhibitio spiritus sancti loquentis in regibus et prophetis, apparel quod in tertio tempore, licet sub obscuro aenigma­ te, totas trinitas, quae onus deus est, simul se ostenderit operari, et quod DOn una tantum persona esset deus, sed pater et filius et spiritus

sanctus". 21 Ibid p. 349: "...ad rec:IimCoduni genus hominum ambos missos esse a patte". 22 Ibid. p. 351: "Sed iam nunc agendum est de tempore quinto in cuius initio sumus DOS, in quo oportet adbuc spiritum sanctum missum a fi­ lio operari opera sua multo altius quam hactenus operatus est, ut om­ DeS discant bonorificare spiritum sanctum, sicut patrem et filium. In quo? baud dubiuem quod in evangelio eius. Non enim sicut honorifi­ eat ilium, qui non subiectus et devotus recipit evangelium eius. Et qu­ od est evangelium eius? ilIud de quo dicit Joannes en Apocalypsi: ·Vidi angelum dei colantem per medium coelum,et da1;U111 est illi evangelium aetemum". Quod est evangelium eius? ilIud quod procedit de evangelio Chirsti: litera enim occidit, Spiritus autem vivifieat: propter hoc enim veritas ipsa dicit: "Cum v~t ille spiritus veritatis docebit vos omnem veritatem"; et ut ostenderet quod de evangelio christi et de scriptura eias acciperet. et commutans quasi acquam in vinum inebriaret electos, adiecit et ait: "Non enim loquetur a semetip­ so sed quaecumque audiet loquetur et quae ventura sunt annuntiabit vobis. IDe me clarificabit quia de meo accipiet et annunciabit vobis"_ Oportet enim. ilium immutare mentes t1O$U3S, quod potest facere quando volt et prout vult, sieut deus. et tranSrene corda nostra a car­ naliOOs desideriis ad amorem coelestium, ut quodammodo non simus quod fuimus, sed alii esse incipiamus". 23Veeil~.

e a transericlo de IAHWEH. Originalmente, antes da refOIma massoreta, este termo eapenas urn. tetragrama (YHVH) com­ posto pelas letras iod, he, vav, que sao como 0 espirito da lingua, na

24 0 nome IEUE


129

medida em que sem eIas e impossivel se pronunciar qualqueroutra 1etras. Tambem tern como base 0 verba hmo, que e0 verbo ser no be­ braico. Cf. N. Falbe1 "A critica de AristOte1es em Yehuda Halevi", in: Leopoldiaml11J. vol xm, nO 389186. 25 . Concordia 4, pt. 2.1 p. 405: "Primus status seculi initiatus est ab Adam, fructificavit ab Abraham. consumavit in Christo. Seamdus initiatus ab Ozia, fructificavit a Zacharia patre Iobannis Baptiste, ac­ cepturus consumationem in temponbus istis. Tertius, sumens initium " ~ beato Benedicta, cepit profene fructum generatione vicesima secun­ da ab e adem sancto viro; consumandus et ipse en consumatione se­ culi." e tambeni (2, pt. 1,4) p.66, onde aparece initiaiio e fructifica­ tio.

26 Este sentido expres5a. Nietzsche quando escreve: "La bienaventuranza noes sOlo una promesa: existe desde el momento en que se vive y se obra confonne a tales m3ximas e El Cristianismo es una praxis no una doctrina de fc"Lo Voluntad de Poderio EDAF, Madrid, 1981. 27 A Ordem fimdada per Joaquim foi aprovada por Celestino ill, em 1196. 28 De Saptem Sigilis p. 243: "... in omnibus temporibus istis non sunt iidem termini qui videntur notati in hac simpliciter attendendi, sed a medietate precedentiS temporis intiatio sequentis attendenda est, cla­ ri:ficatiovero in limiubus suis"Cf. Mottu op. cit 219 29 Ver nota 39 30 Tanto Mottu quanta Crocco utjlizam consummatio, embora no texto nioapa1'e9l. 31 Veril~. 32 Psalt, p. 351: .....illud quod de tempore medio dictum est, hoc est, de tempore Regum et Prophetarum, ad ostentionem magis factus est eo­ rum quae futura sum in patria post finem muridi, quam ut tunc causa tanti mysterii consumata fore credatur. Igitur in futuro saecuIo con­ snmmandum est". 33 Ibid. 34 Concordiaconformea divisiIo ja apresentada (nota 11) 35 Conformea inte~ de Motto, op. cit. p.217 ss 36 Psalt p. 203: "Tria certe data sunt nobis instIumenta virtutum, quo­ tquot iubente deo ad vocationem vocamur... sed tamen in loco data occasione misterii, plenius est docendum de cis; sive quia illorum similitudines pertinet ad summam illam trinitatem quae operatur omnia in omniblls secundum CODSilium w1untatis suae; sive quia ipsa tria instrumenta conveniunt singiJJatim "tnbus·ordimbuselectorum qui ad imaginem dei creati sunt. Horum primumest opus manuum, se­ cundum studium lectionis, tertium psal1endi orandique devotio".


130 37lbid: "... per devotam psalmodiam spiritui sancto". 38 Ibid p. 205: "Sieut ergo non suffiet ad perfectionem solum opus na­ nuum, ita nee sola leetio nisi addatur et psalmndja". . 39 A ideia de uma harmonia proposta por Deus fundamental em loa­ quim. Psalt. p. 89: "Haec dieens coepi psaUere, ut ad propositmn nu­ merom pervenirem. Nee mora, ocurrit animo modo forma Psalterii

e

decacbordi". 40 Exp. Lib. Introd. cap. 19, { 18 v 02: "Est autem genus bumanum unum quidem in natura, sed propriis ordinibus velut in trinitate dis­ tinctum. Est enim primus ordo coDiugatorum, creatus ad imaginem Patris; secundus clericorum, institutus ad imaginem Filli; tertius mo­ nachorum ad similitudinem spiritus sancti. Etenim coniugatorum or­ do a nullo ordine est, et ad hoc inslitutus ut filios debeat procreare; c1ericorum ordo non a se ipso, sed a solo ordine coDiugatorum propa­ gatus est origine camis; qui tamen non est institutus ad procreandos filios, sed ad evangelizandum verbum Dei, sieut et ipse Cbristus ad cuius imagjnem institutus est. Monachorum ordo procedit ex utroque, quia et de coniugatis recipiuntur ad monasticham et de clericis". Cf. Crocco op. cit. p. 85. 41 Op. cit. p. 19. 42 A literatura IlObre a epoca de loaquim e vasta; por vezes e denomina­ da de Renascimento do seculoXII, tais foram as mudan~. Ver Marc

Bloch. A Sociedade Feudal e Edouard Jeaaneau. A Filosofia Medie­

val. 0­ 43 Psalt. p. 205: "Aliud est, nimirum, respicere quod factum est, aliud speculari eum qui fecit quod factum est: sieut aliud est sciri aliquid ut sciatur, aliud sciri ut diligatur: ibi est scientia sola quae saepe int1at, hie cum sapientia charitas quae edifieat". 44 Iibid p. 303 45 Ibid p. 207: "Quamvis unitas quaNIam, qua se ad invicem capiaDt, his tribus inesse videatur, quia et in opere non solum posse, sed et sci­ re et velie necessaria sunt; et in lectione non solum scire, sed et posse et velie: et in psalmodia non solum velie, sed et scire et posse". 46 Ibid p. 203: "... in timor,e denique osculamur pedem, in leetione rnanun. in psalmodia os". E interessante notar que na ~ feudal entre 0 Senhor e 0 Vassalo, a homenagem que marca 0 inicio desta re~, de um lado 0 que quer servir de outro 0 que aceita ser 0 cite­ fe, parte de uma genuflexlo para selar, com um beijo na boca, a alian­ ~ entre ambos. Cf. M Bloch op. cit. p. 170. 47 Ibid: "In actione et, nimirum. nostra amplectimur pedes, quia per bane nos esse dei servos pie 3(; fideliter demonstramus; in leetione manum, quia per eam dei facta in sapientia intuemur. in COliteJDpJati­ one os, quia per cam omnipotenti deo jungimur, in osculo pacis, ex cuius nobis ore spiritus dulcedodistillat".


LUX IN

PRAxIs

. Prospeccao de elementos potenciadores da praxis marxiana na exposiflio diderotiona

Ruben G. Nunes

AGUISADE INIRODU<;AO Dlderote Marx: ilurniniSJIKl e marxismo: lux et praxis - que relaQOes b3? E certo que 0 Mouro Mo1dechai num jogo de "00Ilfissiies" em familia decIara oomo sell escritor favorito nada mais, nada menos, que - Diderot E certo tambem que Hegel. de ineg3vel inftuCocia em Marx, cqReDde na sua analise da Aujldanmg1 a not3ve1 emergencia bist6rica da amsciCncia dialttiQl, manifestada no Neveu de Rameau de Diderot, traduzido pol' Goethe alguns anos antes do aparecimento da FenomenoiOgia. Uma emergCncia, .~ que surge do a partir de elocutr.IQ(5es filos6ficas abstratas, "but that it glows naturallyfrom the actual moral problems of the day", nas.paJavras de Luk3c.i . Com efeito, 0 dmJ.ogo de Diderot mosIIa a diaIetica do sO (X)IIlO

1 IIqjoI. 1939-1941: VI, B. b, pg 93 e ... 2 Lu\oica,1975: N,3- pg 495.


132

um pam poduto de ~ da consciCncia suijetiva, mas taJnbem como um produto do desenvolvimento da oomr;ii:ncia social. Teoria e )ritica articu1adas, poItaDto. E certo, ainda, que 0 pqmo Marx acorda oom Engels quando este coosidera que 0 pensamento fi3OO!s, supenmdo as estreitas f6mmJas metaftsicas domiJ'Wlfa; no xvm, coosegue "criar obras mestras de dialetica como, pol' exemplo, 0 Sobrinho de Romeau, de Diderot, e 0 esludo deRousseau sobreA origem do desigualdode dos homens.,,3 . Mas que ~ substantivas hi na interface ontolOgica Diderot­ MaIx? Que elementosconceituais marxianos ja Be antecipam emDiderot? AD freqiiemar 0 QIlSO p6s-graduarrIo de Filosofia PoJitica do prof ROOerto Romano, duIante 0 pimeiro semestre de 91, na Unicmrp, pemti que: a partir de uma aboJdagem sui generis sobre detenninados aspectos da tematica diderotiana estas re1aI;fJes se tomaram mais evidentes. Em outIas pa1avIas: das quest6es de fuJJm Jevantadas pol' Romano, a partir do texto diderotiano, efluiam poutos nIo sO altameote instig;Idores, mas tambem potenciaImente oompativeis rom elementos oonceituais constitutivos da tem3tica marxiana - tais como, a ~ e a pUis. Resumo tais qlJeSIiSes: • A rdaI;Io: ra:l1io ~ pml- queDOS remete apnbIematica a'naJissima decomooolher 0 simultQneo. • SimulliJneo ou sucessivo? Ou simultaneidade, momento infini­ tesimal da suc.taio, dependendo do ponto devista ~ ? • RazIo pur&, ra:l1io p3tica? DifeJ:enfwa fonnaJizada, ~ D!io­ formaJizada? Proa:sso eJimioadnr de di:fereDwas (010 ~ identidade, 3° excluido) - verdades depilados? • Ou processo conjuntor-de-diferenras-em-j/uxo? Verdades velozes, ~ dia-Jeticas? • Mas, entIo, como manter simu/ttineo-sucessivo a tenslIo uno­ milltip/o? • Como artiaJJar sucessivamente raziJo pura-prtdica - numa razao instrumentamra de ~ <Jbjetivu de sujeitDs sociais? Ecce puncta. Des!ia massa de pontos acima resumidos 0 cpJe Be tin? Noma primei­ ra visada, tira-se a possibitidade frutuosa dos textos de Diderot, a partir de um t!abdhodjJdrnioo me des. Mais especificamente: tira« a possibiJidade de fazer reftuir id6ias canepdas de ~ pecu1iaR:s cpJe DOS lewm a questlles e c;aminbos peDUIICiadores de certas eategmias nwxianas- como a

da prtais, entre outIas. ·Cito, oom eurase, a prima por dois motiws: oj ser uma das cateJp'ias centtais do pensamento de MaIx, tal como conceituada nos MOlIJISCrltos EconIJmjcos Pilosoficos de 1844 e nas Teses sobre Feuerbach de 1845~ b) seruma das eategmias marxianas ~ ~ ~ tern. sido dasmais controversas entreos ~ marxistas.


133 CoosrqfJCncia instigante e imediaIa. <las constataQi5es e ~ acima: a importancia da ~ de etementos potenciadores 00 amoeito dep3xis em Marx, det&:ctaveis DB ~ diderotiana. E ejustamente esse o tema que proponho, a niYcl introcb6rio. Masqual 0 ak:aDce dessa ~? Em JXimeiro lupr, a Iulca em si. das poDIas radiaJIares hist6ricas 00 p:nsamento maIXiaDo, para um mais amplo e claro conhecimento 00 "marxismo de Marx". Em segmxk> lugar, porque tal estudo mesmo a nivd introdut6rio anno esse, pennite surpt'leDder - se desenvolvendo DO mesmo tempo - DO interior do prOpio desenvolvimento do pensamento burgues do as femunentas conceituais que no s6culo seguinte ida paradoxaJ~negar tal pensamento. Como desenvolvef, em nfvd intr<dJtOrio, 0 tema? A ideia e- a partir do ~ marxiano do conceito de p3xis expOsto sinteticamente D3S Teses, pospectar elementos anteeipadores em Diderot anaJisando os seguintes texIOs: a met3fora da MQquina de fazer meta (verbete "bas" do Encicwpidia), oomo texto-base~ trechos <las ~ Le Neveu de Romeau, Suplemento a Viagent de lJougainvilJe au DiIJ/ogo entre A e B, e ainda 0 ensaio Diderot. Penelope do Revolu¢o4, como texIOsde apoio. Tal desenwlvimento do felDa e, como j3 foi dito, iIdrodutOrio, pdi­ minar, avol d'oiseau. Urn aprofimdamento maior, assaz necessano, eareeena de omconhecimento maisfundo e iDtegral daotn de Diderot; privilegio que nIotemos. Desenvolvo 0 tema emduas partes:

xvm.

• A 1RINDADE MARXIANA - nessa pute inicia1. a partir cia Jeitu. V, vm e XI), extraio e apesento, sucintamente, 0 que se pode chamar de - as tripIices coordenadas marxianas do conceitode praxis.

radas Tese.\(pricipaJmente as teses I, II,

m.

• A 1RINDADE DIDEROTIANA - nessa parte final, e tlIJJDMt de forma resumida, extraio da dinirnica cia MfJquina de fazer meia dideroIiana om tripIiceconjunto de elementos que antecipam a trindade marxiana.

E ceno quepode-se eDCODfi'ar nos text.os de Diderot acima citaOOs e ensaio de Roberto Romano, indicaQOes entre1ir.badas de v3rios ouaros elementos amedpaOOres dapraxis marxiana, vistas de perspectivas dUereotes. a ed!~ a mmaI, o conlv:cimento, a religiio. E, espx:ialmente, no Le Neveu de Rameilll,.· a . pr8xis como ptdhos - ~ :riquissima esaa: ampIiadom cia paIxJo.do seOtimento, da afeUvidade, como articuJabes cia inspirafilo, da inven¢o, do trabalho, DB construl;io da arte - epipn6ia, DO


134

techne, poiesis. Con~ articuJada de. ingenium artis passion;: plix30 articuIaIKkJ pr3tica: praxis. EsPrito te6rico e espfrdo pr3Iico automoYidos articnladamente por bumano-impuJsos: razilo e paixiIc. razilo e vontade. ruOJo e trabalho, raziJo e vida - par isso, impJlsos nero inacionais, DelD simptevnente racionais, mas marcados par uma transcendblcia objetiva transjormadora. Espirito te6rioo e espirito Jritioo entretecendo~ a Realidade bum, humonizando-a. Por aaISO essa paixlIo articulante nIo do "espiritote6ricocomowntade de energia pr3tica", que saba do tex:to abaixo do Marx-fiIOsofo?

l.emIxaria.

"Constitui uma lei psicologica 0 fato de que 0 espirito leOrioo que se toma livre em si mesmo se transformar em energia pr3tica, sair como vomade do reino das sombras do Amenti e voltar-se contra a realidade mun­ dana que existe scm cle."5

Nesse tIabalho, entretanto, restriIgo-me part.icuJarmeDt so referen­ cial metafOrico cia MOquina de fazer meia. Texto do qual etlui uma tripIice din;1mica que estDu cbamanOO de trindode dideroliana, fundada na hJsca­ reco1hiJneoto.a do verdadeiro, do bom e do belo; e, na qual pode-se \'erificarelementos~daprlJris morxuma. Eis ai, IDlia prop:iSta de trabaIho. Aqui, wn esclarecimento nea:ss3rio: a coostatarwao de que em deter­ minadostextos de Diderot podem SCI detectac:b: e1ementos antcripadores de eategorias conceituais marxianas, niio pode ser entendida como wn argnmenlo v3Jido de que0 marxismo seria uma conseqii&Icia do iJuminiqoo diderotiano, mesmo pelo vies de Hegel. Isso seria hiposIasiar absurda e superficiaImeut 0 processo conceitual do marxismo. ContIa essa possfvel ~ esdrUxula lembro que os principais mananciais influeociadores do marxismD - as id6ias de Heg;:l e Feuem.ch - s6 Be ooncretizaram como intluencias frutuosas, ap6s urn notawl esfot9J crltico de Marx. ~ critioo crivado tanto no campo te6rico daqueles autores, qwmto no oanfronto deste campo coma pr3licas6cio-eoon6mita-bistOrica. PMticuIarmente, com reJal;io aD conceito de pr3xis Be pode esquerer a priJpria contn1:luiQ1o de jovens hege1ianos. Entre estes cito 0 Conde August Von Cieskows1ri oom sen livro Proleg6menos a Filosoja da HistlJria(de 1838). onde }RCODizava uma filosofia comoprdris, ie, como Rum pensamento concebido, como Fichte desejava, sob a forma de uma vontade aetuante, nasua oposi~ permanente com a realidade viva.116 • Cito ainda, Moses Hess oom suas

*

5 Max, Ed <l<lbII: p& 30 6 Dnn, 1971:.u. 2, p& SSl


135

permanente com a realidade viva."6. Cito ainda, Moses Hess com suas obras A triarquia europeia(de 1841), e Filosofia do A~ilo(de 1843/ , onde defende que a taJefa da filosofia .(i). ~ etomar-se uma fikJsofia da ~. Diga-se, a ptup6lsito, que essa exigCncia de uma filosafia now, sintetizadora da teoria e dapr3tica, essa "prQlica teonca", j3 epressentida por Marx desde a sua tese de doutoIado(1839-1841), embora ainda dentro de uma pe1spectiva ideamta - "a prattca da filosofiae em si mesmo teorica. E a critica que mede a exist!ncia individual com aessCncia, a realidade particular com a ideia. Mas essa realiz~1io imediata da filosofia e, na sua essencia mais intima, fomentada pol contradi~; eessa sua essencia lorna forma na apadncia e lhe imprime sua marca.,,8. Oeste modo, a iInp>rthtcia de possiveis nUzes marxianas em Diderot e, sinqiesmente> a ~ de urn entreoutros fios elementares que do compor a complexa trama (i) marxismo, emergindo da tessitura mental ihuninista-burguesa e a contraditando. Que - Praxis - a deusa da ~, da ~ crucial e (i) orgasmo, oontinui iluminanOO a Filosofia. Lux in Praxis. Natal, julho de 94

A 1RINDADE MARXIANA

Para Marx 0 Homem e urn ser do prQxis. 0 que significaisso? Nos Manuscritos de Paris (1844) ha, entre outras, ~ passagens nas quais Marx caracteriza comvigor esse homem-prOxis: "Non seulement dans la pensee mais avec taus Ies sens, I'homme s'affirme donedans Ie monde objectif.,,9 "... Ie subjetivisme et l'objetivisme, le spiritualisme et Ie materialisme, l'aetivite et la passivite De perdent leur opposition, et par suite leur existence en tant que con­ traires de ce genre, que dans l'etat de societe... la solu­ tion des oppositions theonques eUes-memes n'est pos­ sible que d'une manierepratique, p;ir l'energie pratique des hommes, et que leur solution n'est done aucune­ 6 Dm7. I CJ17: wi. 2, pg S80 1 idrm, idom;_ Binda naltiooIogiaAIana; _ miriocils a Mae u... ccnIidoo na criica. BrooD, a~. a 0riI0,

n. m. N)

oocioIiIIIo ¥IlIdo<b'o~ 1914: 8

Marx. gIotsI odiImI: IV, I'S 30; 0 Hobo'-wn,

1981: vol I, pg 118

9 Marx. 1912:Traisilmo Maucrt (pqrilte ~ .. CIOIIEUJi,me). pg93

0

ao


136

ment Ia tache de Ia seule connaissance, mais une tache vitale reelle"JO

e.

Aprtais pais, uma "tache vitaIeree!le" cpe~ teona e prlJ­ tica; pensatnento e senlidos. E mais:e wm'~'~ especifica 00 Homem. (pie 0 toma dibent.e dJs lmimais. all de' rdXJt. Aatividade nao­ Jmmana(a de um animal, par c:xemP,Io) selia,,e;otao, uma atividade fechada em si, circular, imfdata .0 ato bumano oomo pr3xis, aoOOIdI3rio, se abe ao mundo; ao mesmo tempo. ato particular e ato universaIizador fIui da COlISCitDja e da indivimaJidade: para a autoe:onscienci e para a socialidade, e deslas para aqneJa<, arriodando ioIemamente 0 gCnero bumano, e articuJando este oom os 0UImS gCneros - numa atividade articuJadora vital, genMca e universal, JW6pria da vida 00 regimo humano. Escutemos Marx:

urn

e.

"L'universalire de l'homme apparait en pratique preci­ sement dans l'universalite qui fait de la nature ennere son corps non-organique, aussi bien dans Ia mesure oti, premierement, eUe est urn moyen de subsistance im­ m6diat que dans celle aU, [deuxiementl, ele est matiere, l'objet et l'outil de son aetivite vitale. La nature, c'est-a­ dire la nature qui n'est pas elle-m&ne le corps humain. est le corps non-organique de l'bomme. Vhomme vit de la nature signifie: la nature est son corps avec Iequel il doit maintenir un processus constant pour De pas mourir."(Manuscntos de 1844, Primeiro. XXlV) Esse ~ da atividade humana com 0 meio, com os seme­ lhantes, essa $iJ!1biose entre Homem e Natureza, entre interior e exterior, entremorfose e metomorfose, enfim, esse processo multioonector 00 Homem nas suas v8rias dimensiSes. com 0 oikos nas suas v3rias dimensties - e que torna a:auv.te 00 gCnero munano uma prtais, uma atividade livre. universal, autocrialiva, sOdo-individua/, intelectuaJ-sensiliva, objeliva, vital,

i.e.

onto/lJgica: - "tache vitale reelle". Serom so daprtrOs - 0 (pie significa eotiIo? Significa existir nom processo sOcio-ontolOgiCQ vital - homemIna­ tureza - ~ dinimica e, ao mesmo tempo, universal e particular, te6rica e p3tica; processo quepode ser a&W1 sintetizaOO:

J0 idem, idom, pg.94.


137 • 0 Homem com todo ~ ser(intelc:divo, psiquico, sensitivo: ("Non seulement daDs la pens6e mai$'avee tous Ies seDS...") recolhe os elementos

mJlJIJId);

• e. oom 0

material ooIbido, seja per necessidade }Ximaria, seja par coisas, va1oJes(materiais e imate­

~ ~ ,proma ~

rials)"

,.

'"

, ' . que transjormam 0 ~'em llJlJIKb bumano,a vida em vida hu­ mana, 0 tempo em bisliJria Inunana- e. a sf mesmo em corpo organico antoOQlIsciente. Recolher, produzir, transformar - triadic:a ,veJbIl significaOOra cia dintnrica radk:al e ~ m trabdho prcxbivo bumam, tIabaIhovital. Recolher, produzir. "transjormar - ~,afirmar: vabos "~ 0Dt0l6gia)s", que ~ :fases inaJoc:msas oi;iJes vitais da prOxis humona, fIuindo nea:ss8riammte Homem diaDte ,~,;Natureza; ~ que pflem, ~ que rep&m e ~ que recomp6em a vida, DOS seus mUltiplos nM:is. Recolher, produzir, transjormat': 3 moniem~ bisic:os que artiaJJam e sintetizam 0 vir+ser do Homem aiando seu IIIUDOO oijetivamente. l:wJscando vida. Momentos que. a meu jufzo, amstitnem J'3dicabnente as tripIices coordenadas marxiaDas oonreito de p3xis - ma ki"etike dinamis. Todas essas amclusl5es sabre a pr3xis podem ser extraidas de uma an3Iise aaDada de treebos densos dOs Manuscritos de 1844; refiro-me, particuJarmente aoPrimeiro Manuscrito, XXIV, e ao Terceiro Manuscrito. V a Xl. Corroboraodo essa Iatura cD; Manuscrltos, possfvel extrapolar das Teses sobre Feuerbach, de 1845 urn ~ "scheme-way" que tolna ainda maispIausivel essa minha tese da triadica verbal marxiaoa. Tri8dica que leplesrnIa verbdmente a dinAnrica radicular da pnixis. Comefeito, de uma leitma atenta das Teses ( e com!nfilse as de n°I, II, m, V, vm e Xl), dais jX)DtOS saham significativament do texto: aj que a ideia central dotexto e: 0 papel,decisivo daprlms na vida da socifdack:; b) a JROC'~ p>Dtual de Marx em dc1inear sinteti'aunente 0 coua:ito de prtixis oomo "pdtica social" exteriorizada a partir de "~ reJarrIo"· Esse amceito, aJi6s, pode ser ~" lotJ) de inicio na Tese I, onde Marxronfigma aprtais oomo:

m

m:

m

e

• "A TIVIDADE HUMANA SENSlvEL"; • "ATIVIDADE OBJEl1VA"; • "A 11VIDADE REVOLUCIONAR1A", "PJUTlCO-eRiTICA"

e

A "ativiJode humana sensivel", segundo 0 texto, um ato bnmaoo objetivo de apreensiIo existente, cia reafidade, do seosivcl. Mas aqui ~ para os termos dessa apreenslo, que assestl uma critica ao

m


138

materialismo vulgar, inclusive 0 materiaIismo de Feuetbach. A apeensijo do mundo como "atividade humana sensivel", como "praxis", significa apreende-Io: · nIo como oijeto ou iIJtuiQIo abt.uatos, materiaIidade em si, simples dado est3tico separado da vida, "empirismo vulgar"; - .nio ("nJo subjetivamente") - acentua Marx ­

i.e niIosO objetivamente; · mascomo objetos poslOS par sujeitos-em-reIafrio, concre­ tos em-si e para-si, algo oomoum eqXrismo ampliado e crftico ("prtitico-critico" que engIoba a experiCncia inte­ rior, a reflexio, e a experi.encia exterior, a ~, ie, tanto a rons:iaDcia ~nrdIo), cpmIO a cons:ibria oqetiva (processo s6cio-histOrioo), sintetizadas na auto­ amsciCocia; au seja: objetos enlIanbadosIextranbadns na e da realidade peIa atividode4Jjetiva-de-sujeitos~m­ rela¢o.

Assim. DeSiC regisIro de ato de apeeosfto atraves do Si!nsus bnmano ­ "atividade humana sensivel" - a praxis e uma atividade de recolhimento ampIi&9ma que abrange tanto 0 sujeito-individuo, lpIIJto 0 sujeito«lcial, e 0 intricamento de SIlaS re1aI;lies nosprocessos sociais. Segue-se a "atividade objetiva" - a objetivQfiJo - que e0 produzir navos oqetos, novas reIa;Oes, desde uma "prtmca social" e oom uma meta, wna finalidade, uma ~, uma necessidade, urn. inte.ri!sse, eotim, com mn objetivo - a partir do ~ do que foi m:olbW peIa "atividade humana sensivel". Esse, pois, 0 desOO1:nmento da praxis oomo atW<1o social de produzir, ie, oomo "atividade produtiva", delineado por Marx.

E, por fun, a ~ dessa produrwio social na modifi~ das cir­ cunsl8ncias e de si mesmo e uma atividode de transfonnDflJo; processo crucial cuja si~ "sO pode ser apreendida e compreendida racionalmente como praxis revolucionarta."(TeselII). Temos ai, pais, a trindade marxiaDa hIljzadora do cona:ito de praxis. o quadro abJixoresume essaanalise: .. praxis como ~11VlDADE llUMANA SENsivEL" · atividade suijetiva e oijetiva de sujeitos-em~; · ~ de recolher-processando objetos e ~ (materiais elm imateriais) ·praxis oomo ~11VIDADE OBJEI1VA"


139

·atividade detertninada segundo necessidadeslinteresses vitais; · ~ de produzir-processando oijetos e reIar;Oes determi­ nados (materiais elw imaIeriais - a~) ·praxis oomo "A11VIDADE REVOLUClONARlA" · atividade sinlese efetivadora das anteriores; · ~ de transfonnor-processondo 0 USQ'aplica;30 des ~ e re1aI,;Oes prodwidos, com a finalidade de desen­ volvera "debe vitale reelle".

Ea partir, pois, destIs 1riDdades oonceituais extIaidas 00 texto marxi­ que puponho detectar elementosantecipaOOres em Diderot. Note«, cmno ji foi dUo acima, que a atividade ~ recolher­ produzir-trans/ormar c:tinamiu 0 desenvolvimento da "debe vitale reelle" 00 Homem. Sua:de que tal dinomis se d{t num pocesso 110 qual a reIatwIo "mzIopua-razlo p3bca" se n:solve - nio pmunente num momento esa3tioo, acabaOO, furmaliVMb - mas mun desenvo1l'imento que se ativa numa tenslio sincrOnica, num oootIaponto de cimbios, rcdirnJ'io;, ultrapassar'S e re­ 00 simples ao ooJDPexo e destes a DOVClS niveis de simpIi­ cidade e oomp1exidade; enfim, numa teosio maletica. Assimeque. recolnendo eJemento; c:henninOOns da n:alidade em-si e pua-si, attaves da "atividade humana sensivel", 0 Homem os JWOOeSSll ~ produzi"do ("atividade objetivaj oqems menlais elw ~elwin.ctitoc;jomris que Iep:~ artiwJaOOs e.apIica&s }XOdu­ zeDl,pJI' sua vez, uma nova ~ de elementos; ie, transformam a reaIi<Jade em-si e pam-si ("atividade revolucio,,6rlaj, adapando-a a sua "homirraJidade" e. possibiJitando assim a efetivaQio daoontinuidade vital. aDO,

pooescamc:nros.

A TRINDADE DIDEROIlANA

Ourramos. agora, as maromtes paJavtas de Diderot, atraves m !dJri­ nhode Rameu:

"0 Verdadeiro, 0 bom e 0 belo tern seus direitos. Pede­ mos contesta-Ios, mas, por fun, passamos a admini-Ios. o que nao estiver cunhado nesses metais pode ser ad­ mirado durante certo tempo, mas depois acabamos bo­ cejando. Bocejai meus caros senhores! Bocejai sem ce­ .rimOnia! Avontade! 0 imperio da natureza e de minha .trindade, contra a qual as portas do inferno nao preva'­ lece.rIo jamais, firma-se suavemente - o verdadeiro, 0 Pai que engendta 0 bom, 0 Filho, doode procede 0 belo, Espirito Santo. 0 deus estrangeiro coloca-se humil­


140

demente ao lado do idolo do pais. Fortifica-se pouco a

pouco. Um bela dia, eta uma cotovelada em sen compa­ nheiro e, catapum.! Javai 0 idolo abaixo. Parece que foi assim que os jesuitas implantaram 0 cristianismo na

China e nas indias. E os jansenistas podem esbravejar a vontade: em minha opiniio, esse metodo, que atinge 0 alvo sem aJarde, scm derramamento de sangue, sem m3rtires e scm arrancar um flo de cabelo, 0 melhorRl 1

e

ABRO pAREN1EsE. Penso ser importante, de inicio, esclarecer como interpreto 0 conceito de Verdadeiro em Diderot. Isto porque, na perspectiva de Rameau, e a partir de RO verdadeiro, 0 Pai" que tudo 0 mais egerado. E edesse ponto que se aJavanca nossa pr~. Parece-me que, longe de ser uma contraposi~ formal ao Falso, rigidamente engessado pelo absolutismo da nIo-contradi~; longe, ainda, de ser uma simples jun~ Rverdadeiro-faIso R, dialetica pobre e t.an:Ibem formal - 0 conceito de Verdade em Diderot nos tJaDsmite urn alargamento riquissimo desta categoria do pensamento diante da realidade. A verdade parece emergir de uma luta sui generis, entre mores. "Geralmente a grandeza de caniter resulta do equilibrio natural de vanas quaIidades opostas. R12, afinna Rameau. Uma hna, pois, subrep­ ticia, suave, uma esp6cie de jogo, um equilibri, um feixe de entreleca­ mcntos culturais, onde se registra "harmomas nos dissondncias" e vice­ versa. Nas palavras iniciais de Diderot, apostas acima, 0 caso do crislia­ nismo e emblematico: a HistOria tem registrado invariavelmente a in~ das creneas postas em confronto, a pauJati na f~ de urn. sincretismo religioso, a ~ cultural. A RcotoveIada" do e urn simples nocaute, emais uma arti~, um amplexo met6dico do mais forte sabre 0 mais fraco, uma domjna~ tolerante. Nessa perspectiva, dogma. etica e estetica - PaiIverdade, FilhoIbom, Espirito SantoIbelo - se auto-engendram., troeam "flgurinhas cultwais R • E, nessa reciprocidade complexa configuram uma dialetica do engendramento vital, a prOpria praxis.

A meu jufzo, a Verdade diderotiana se configura, fundamen­ talmente, num processo de trocas e tens&:s entre a ordem natural e a ordem social (e destas entre si). Processo esse "objetivado-subjeti­ vamente" ao bom e ao belo; e no qual conseqtiencia, transparencia e metamorfose do permanentes caracteristicas b8sicas. au seja, "0 verdadeiro" do uma dec~ de estado de uma realidade estltica ­ mas uma re~ processiva dessa realidade, articulada por sujeitos e

e

II 0 Sobrirr1tD -&r-. PC- 370 ,o..p~

12 OSobritlJrD_~pg. 3M

,o..~)


141 articuladora de sujeitos que durante

0

processo se tomam cientes e

conscientes dessa permanente reciproci.dltde, motilidade e tensio ordenada. Em 0 Sobrinho de Rameau (e no Did/ogo entre A e B, como veremos mais adiante), ha varias col~ que parecem confirmar nossa

inte~.

Cito uma:

"Oh! nao temais. 0 ponto importante e dificil que deve preocupar realmente 0 pai do e dar ao seu fiJho vicios que 0 enriquecam, ridiculos que 0 tomem precioso para , os grandes. Isto todos fazem, se nao sistematicamente como eo, pelo menos pelo e&tudo e pelo exemplo. 0 ponto fundamental e ensinar-lhe a justa medida, a ~ de esquivar-se da vergonha, da desonra e das leis. E preciso saber situar, preparar e salvar as dissonancias na harmonia social. Nada mais sem ~ do que uma seqUencia de acordes perfeitos. E precise algo espica足 cante que separe 0 feixe e disperse os raios. ,,13 FECHOpARENrEsE.

o verdadeiro, 0 hom, 0 bela - analjsemos essa trindade didcrotiana que ~ acima. Que DOS diz as ~ iniciais de Diderot? Transpira do texto ~ 0 Homem semple ac:aba par admirar aquela trindade que vai se esrabehxendo "suavemente" DO espirito burnam, na sua vida social. Em suma: 0 Homem tende para 0 \Udadeiro, para 0 born. para 0 bela. AIem disso, hi um engendrantemo hierarquizadD: a venIade engendra 0 born. este engendra 0 bela. o quesignificaesse engendramento? Om, a metafoIa da "vmIade" romo um "Pai", romo um aiador, como 1DI1 engendrador, significa a emesgCncia de uma entidade e inst8ncia u;ial - "0 ser Poi" - onde se recolhe, ~ntetiza e processa os eJemeotos da Vida que via eogendrar a "vmIade"; e, rom esm, produzir 0 "born"; c, rom este, transformor 0 mundo: burnanizaJKk>.o, oonstruinOO 0 "belo". Ecce punctus.

1ie:D1OS ai, entio, uma", con"'''''&'' !.I......... articuJada de ".,.~n" ~ , de "IaZio pml/I3ZJo pr3tica", de ~" - QO mesmo tempo. ~ dinAmica ,que" se. manifesta numa atividade mWtipIa de engendramentos de sujdfos-an-relarwlo: recolhendo-produzndo-transfor足 mandoa lblidlKle. E ~ pais, caracterizado pela mu1tifacetavm que, em UIbma anilise, pot{JtipoespectJal da JU3 praris.

eo

130 SobriIIIto.~pg. 374 (Os1'enmdtsra)


142

o Homem, entlo, e urn a

cuja natureza mais profunda

e exte­

riorizada peIa suapraxis. Assim, Homem e Natmeza se autqxoressam oomo instincias engendradas e eugendiadoJasde uma onto/og;a social, campo do trabalho pmdutiw vital. " ' Nil> e por acaso que, DO DiD/ogo entre A e B. (ouSuplemento Q Jlio­ gem de BougainvilJe), Diderot oo1oca na boca ck Oro, 0 nativo, urn espaoto crltiooao ouvir do capeIio a ~ ck sea Deus. Om, entlo, chama a esse Deus reveJado ck grande obreiro "quefez tudo scm 1Mos, scm ~ e scm instnunentos". Ora, pam 0 nalivo eiJJooncdXvel, urn Deus cpJe olD SIeja urn Deus natural; a natureza na sua extemaJidade jmedjata, que cria 0 Homem NatwaJ. que PJf sua vez, seme1bante a esse Deus, t:rabJ1ha com a ~ com as mIos, aJID iDstrumentos, para criar sua vida na c:omunidade tribd. Pm:ebe-fle aiDda . . em Diderot, a ~ com a trindade ~ exposIa antes pclo "solxinho ck Rameau": 0 pili, a verdade, oomo Natureza criadDIa; 0 :fiJho, 0 born, am10 0 Homem trabalbador 00DlIIIrit3ri0; 0 esPrito santo, 0 be1o, oomo a cuhura comunit3ria tribal. E oomo 0 tipo ck aIividade desse Deus e Homem Natural? Ambos trahaJbarn "com a ~ com as mios, com instrumentos, para criar sua vida na comunidade". Ou SIeja: praxis. Om, que articuJa intuitivamente sua ordem tribal com a ordem natu­ ral. hannonizando pdo trabalho social as contJadiQ6es 00 meio.uuma bJsca 00 bern comuniI3rio; Otu, naturalmente, mn ser da praxis, assim pescreve a

ie.

e

~entrebome~

"QuereS Saber, em todos os tempos e em todos os luga­ res, 0 que ebom e mau? Apega-re a natureza das coisas e das ~; a influencia de tua conduta sobre tua utili­ dade particular e 0 bern, gem!. Estas deliraDdo, se cres que baja algo que seja no alto, seja eJ;Dbaixo, no univer­ so, que possa acresoentar ou subtrair as l~ da ~e­ za. Sua vontade etema e que 0 bern 'seja preferido ao mal, eo bern. gelal3()bem particuJar."J4 .... ~.

Assim, 0 Homem na sua praxis. na sua art1cuIar;Io produtiva nature­

ZJH'OCiedadl>ad no sea

~, "verdadeiro-bo-belo", teode para esse Deus-Natun:za-lJomem: recolhedor, recolhido. criador. modo. produtor. produzido, transfiJrmador. transjonnado./ogos e ingenium. Ou SIeja: 0 homem-social recolhe-processao meio e 0 transforma em objetos humonizados: artefdtos, val~ ~ leis, ~ artes,

.,.,

.


143

c!:tiaJs, mftcprinas, 1tcnicas, enpbos, mit.os. visOes, enfim, culturas (011 "espirito", DO senti<b he3':JiaDO). E nao ejwaamente essa imagcm da pr3xis "omsiana", que se repete com mais pecisio metI10rica na "mtiquina de jazer meia", de Diderot? E nao parocem ambas as imagens antee:ipqles I3dicuJares da trindademarxiana? .' bomem-social recolhe-processa 0 meio e 0 transforma em meia. Tece, fia, concebe, interIiga - simpJicidades e oompIexidades. A prOpria m3quina, exteosio engenhosa 00 llonrm, acionada por este, DOS pareee, na sua dinamica, uma justa lqxewm~ da p3xis humana. praxis mechane, que nas paJavras de Pemmlt, citlKb por Diderot, DOS leva a "un profond ~nnement a la vue des ressortspresque infinis dont Ia machine a bas est composCe, et do grand nombre de ses divers et extraordinaires

o

mouvements. "IS

Mas o que ea machine a bas de Diderot? "Le metier a faire des bas est one des machi­ nes Ies plus compliques et Ies plus consequentes que nous ayons-r». ' on peut regarder comme un seul et unique raisonnement dont la fabrication de I'ouvrage et la conclusion... r6gne-t-il entre ses parties une Iii gQIDde dependence qu'en retraneher one seule, ou alterer la forme de ~es qu'on juges moins importantes, c'est nuire a tout le mkaniSll'e,' C)Il" se promettIait en vain quelque conaaissamce de la machine enti.ere.sans entrer daDs Ie detail et Ja description de ces parties... La liaison,. des parties demanderait qu'on dit et qu'on montrait tau a Ja fois~ c'est qpi. n'est posSIble, ni dans Ie discours, oil les chases se suivent ~\te­ ment, ni dans les Planches, aU Ies parties se couvrent Ies unes.Jes

EscutemOs Diderot:

autres.,,16

. :!

Apofundando nossa retlexio sabre a machine a bas diderotiana mechane parece oomportar, em tetlJ.X)S~, 3

notamos que a ~pr3xis

atividades basiIares: , ..

.

• "0 rec:olhimento" - processo de inseI\:OO da materia prima; , • "a prodldo" - processo de~, tecelagem,de artiaJlar;Jlo • "a metamorfDse" - proa:sso de pontifi~ 00 poduto. transfor­ ~ da natureza em meia; e transfonnarrao 00 mundo com um novo oijeto

cubuI3I-humano.

A imagem e semelba~ da Irixis burnanaa "maquina de fazer meia de Diderot", nas suas 3 insIA."1Cias seqUenciais de pr3xis mdnica, e 15inRobmD~

16 Remme, 1989; ~ V, 2lI


144 dentre caW uma delas, pareee espeJbar inequivocamente a trindade diderotiana, exposIa no Sobrinho:

• "a verdade" - no recolbimenlo,

DO abastecimento,

no ~,

de sua materiapima, <PIe e sen cooteUdo eficaz, sua verdade-jimdomento; • "0 bam" - no sen:funcionamento podutivo de "trabaJhar" a ma­ teria prima, pocessando-a ~..mente; • "~" - na ~ final da materia ~ empo­ dutoacabado, segundo sua ~ iDicial: produzir meia.

l.Ogjco que estas eategorias do eixos bisku da "trindade diderotia­ na", a partir des 'PIis Be pode pospettar comparativament as caracterislic.a da praxis. Estl claroqueseus signilkados ~s metafOricos, oomo aqui exposros. tomam no rotidiano da atividade fabril, outtas formas tenninolOgi­ cas t6cnicas que Beintrojdam DO tIabl1ho oomo <pJ3)ifica9'les especificas mais <XJDCJdas e mais di.versos, tais como: eficiCocia, rapidcz, produtividade, pecisiio, eoooomia, etc. A m3(pUna de:filzer meia deDidcrot e, pais, uma lepitSt"~ gaal e genial, Dio sO da atividade =dnl em homem, mas de toda sua atividade social l.Ogjco que me n:firo a descri~ acima da m;\quina, extraida do veIbete pr6prio da "F.ncyclopMie, ou Dictionnoire raisonne des arts et des metiers", editadapar Diderot e D'Alembert. de 1751 a 1766, com 20 volumes. Nesse sentido. pode-se falar da mochine a bas como uma met3fora da pr/ais humana exce1eotemente exp-essa par umapraxis mechane. A fenamenta, a trnicp.tina, .~ e born 1embrar, apmx.e na histOria hrmana como uma extensIo do pOp:io Homem. uma ingeote 3IJto.iUuda para sua ccmrinuada e extconada jnsaaJ~ no dkos. E 0 "instnJmeoto", que artiwJado com a "cabCJ;a" e comas "mIos", integraJiza a ~ de trabaIbo procbivo de CRU, o bomem-naImal, ima,m e semeJ~ deseu deus-natmal, como DOS DalIa Diderot. A tmquina "amiga" em homem A techne, uma artiaJI~ de logos e ingenium, que expmde as pv;sibitidades da vida bumana, desenvoM::odo

suaprlrris. ABRO PAR.EN1EsE. Aqui surge uma questio interessante que vale a pena pdo menos anotar, uma vez que seu desenvolvimento necessitaria urn estimulante estudo parte. A questao e: Qual entio a ~ dessa m3quina de Diderot, engenho cria­ dor, para a m3quina de Chaplin, em Tempos Modemos, engenho

a

aIienador? Com efeito, esta Ultima uma prms mechane que aliena, escravi­ za, perverte, aleija, entorpece, embrutece. Maquina tomada nIo sO extensAo do sujeito, mas "senhor" do sujeito.


145

Que faz, a maquina, esse genial instrumento.da prtkis humana tornar-seescravizadorado Homem, como em Chaplin? Que a faz "inimi­ ~"doHomem?

o modo de ~ na qual esta inserida? Esse mom de produ­ capitalista? No qual 0 Homem nao se encontta livre diante da Natureza livre para exeeutar livrementeseu trabalho produtivo vital? Com efeito, no padrao capitalistico, primacialmente, 0 Homem esta fragmentado em "homens-donos-da-natureza"(proprietarios) e ~

"homens-sem-natureza"{trabalhaOOres). Fragmen~ tragica e trauma­ tica para a vida social: desde 0 Divel ecoDOmico ate 0 Divel etico, ninguem e livre naturalmente, moos do livres artificialmente, alienadamente. Os "proprietirios", dependem dos "trabalhadores" para extrair produtos da "sua" Natureza, as mercadorias. Os "trabaJbadores" que nIo estfto diante simplesmente da Natureza de todos, mas diante da Natureza dos "proprietarios", produzem produtos que nIo lhes perten­ cern, pois sao dos "propietarios" antes mesmo de serem. produzidos: produtos estranhos, hostis ao traba1hador, que 0 domina, como a m8quina de Chaplin. Nessa media9io fragmentada entre Homem e Natureza, os "proprietarios" se destroem entre si disputando a Natureza, 0 que inclui a massa "trabaJbadora": no fundo tudo e mercadoria e luCTO. Os . "traba1badores", poe sua vez, se autodestr6em na sua "tdebe vitale reelle" de sobrevivancia em busca de om saIario minimo que os mautenba com energia suficiente para produzir nas "m3quinas de CbapIin". A "verdade",o "bom" eo "belo", adquin:m signifi~ 16gicas precisas: 0 "capital", a "mercadoria", 0 "lucro", sendo que 0 Pai, 0 engendrador, e 0 capitalista. Nio h8 ~ horlzontes fora disso. A nIo SCI' para os "pro­ prietarios" que estIo ganbando, no momenta, a "guerra do lucro". A estrategia dessa "guerra" tern 2·16gicas: a famosa "lei do mercado", e a astuciosa "lei da ~ do mercado". Do domiDio dessas duas 16gicas depende a "tdche vitale reelle" do capitalista e a ~ de seu mundo eticamente tragico - um modo de ..pr3xis pervertida, alieDadora, dyspraxia. FEaIO pARENrEsE. Dessa reftexio soIn a nRprina de Diderot reflui. sem dUvida, ele­ memos poteDciaOOres e anteeipadores da trindade marxiana, baliVJdDra de seu cooc:eito de paxis. Com efeito, a "alividode humana sensivel", a "alivit/ade objetiva", a "alividode revolucionQrio", esdo respectivamente insertas ab ovo na pnOOs mec8nica do recolhimento, do produflJo e do metamoifose, <b> fios que alimenlam a macpna de fazer meia de Diderot. E mais: todas essas insdncias Iep:esentativas da praxis exteriorizam a racionalidade e a sensibilidade inerentes ao Homem. Capacidades essas - raJio et sensus - que olio permanecem emsi, apartadas <k> ID11I1OO da vida, como 1Dll esped:ro; mas que, . se extema1izamhJs:andolarticulaIm.objetivando.entIesiepamsi.no


146

trabalho social, os fios eJementares genuinamente verdadeiros, bons e belos quev.1o t:ranrwar 0 teeiOO social da vida humanizada.. Dinamica'prOpria da na11In2a humana, como natureza universal - imitada na machine a bas de Diderot. FIui dotexto da Enciclopedia,acima exposto, 0 que cbamamos de diatetica do engendramento, vital: 0 recoJher, 0 produzir, 0 transfurmar: 0 verdadeiro, 0 born, 0 belo: a atividade: sensivcl-OOjetiva-revolucion8ria: prlrxis. Flui do texto da machine Ii bas COnhecimento e VIda: prtms. R0­ mano bem apreende essa coqjuntw:a e vale ouvir suas argutas palavras: "Raras dialeticas p6s-hegelianas poderiam fornecer daquele modo de filosofar, urn conceito mais rigoroso e completo, justo a partir deste comparativo cia maquiDa teeela, Cfrculo entre conhecimento e sua exposi~. Como dizer urn Todo discursivamente? Ou atraves de imagens discretas? Diderot apanha 0 arcaico ato comparativo entre escrita, no plano do significame, e significado, letra e espirito. Problema que atormenta a filosofia, enqUanto geBero literario, de Platio a Marx. ,,17 Enfim, ftui do teXtoqUe descreYC'a nWpna de mer meia, insdDcias inequivocas que remetem metaforicamente ao plano do Pensamento, da Sensibili.dade e da Realidade, ao mesmo tempo; oomo uma ~ fuf3sica; oomo uma mfJqrina de ..~-esprito", engeDdradQra'nao de fios de meia, mas de fios de'vida social humana, ~ . ~ as clivagens do verdadeiro, do born. e do belo. ' " ,. 01 seja: eftui do felda referenciaI:kl da machine a bas, de Diderot, uma oonfigural;:.lI iJMfl:rira do Homem como ser gentria>, oomo ser

que necec;:sariamente ativa uma ~ COm a Natureza atraves de !leU trabIlho pudutivo, ot:;etivando sua' "Niche' vitale reelle"; cnfim, uma ~ como set do' prfrxis, .segundo 0 '3porte universal; , oomo urn, ser

marxiano: "Mais 1a vie productive est 1a vie generique. C'est 1a vie

engendrant 1a vie...L 'homme fait de son activite vitale elle-tn&ne l'objet de sa volonte et de sa conscience. n a one activite vitale consciente... Par la production prati­ que d'un monde objectif; l'e/aboration de 1a nature non­ organique, l'bomme fait ses preuves en taDt qu'atre ge­ nen.que consciem, c'est-a-dire en tant qu'etre qui se comporte al'~ do genre comme al'egard de sa pro­ pre essence, au a l'egard de soi, comme eue generi­ que... l'homme sait produire a1a mesure de toute espeee et sait appliquer partout a l'objet sa nature inherence;


147 l'homme falronne done aussi d'apres les lois de la beau­ te." (Manuscrits de 1844, XJ.7V, pg. 62, 63. 64)

•••••••

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OBJE~()ES AO CARTESIANISMO

Charles Sanders Peirce

• Descartes e 0 pa.i da filosofia moderns, e 0 espfrito do cartesi­ anismo - aquilo que particularmente 0 distingue do escolasticismoque ele substitui - pode ser resumidamente enunciado como se segue: 1. Ele ensina que a filosofia deve comeear com a dilvida univer­ sal; enquanto 0 escolasticismo nunca questionou fundamentos. 2. Ele ensina que 0 Ultimo teste da certeza assenta na consciencta individual; ao passo que 0 esco1asticismo havia repousado no testemunho dos s3biose da igreja eat6lica. 3. A argunie~ multiforme da idade media e substituida por uma simples corrente iafereacial, que freqiientemente depende de pre­ missas inconspicuas.

4. 0 escolasticismo tern seus mistCrios de fe. mas intentou expli­ car todas as coisas criadas. Mas ha muitos fatos que 0 cartesianismo nJo 56n30 expliea, mas toma absolutamente inexplic3veis.a menos que dizer "Deus faz assim" dew ser considerado uma expli~. • Em muitos ou todos esses aspectos. a maioria dos filOsofos modernos tern sido. com efeito,· cartesiana. Mas. sem querer retornar ao escolasticismo. parece-me que a cimcia e a logica modenias requerem que nOs nos apoiemos em uma plataforma muito diferente dessa. I. Nlio podemos COIOO;ar com a dilvida completa. N6s precisa­ mos comeear com todos os preconceitos que possuimos no momento em


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que iniciamos 0 estudo da filosofia. Esses preconceitos nio podem ser baDidos por uma m3xima, poiseles sao coisas que nIo nos ocorre que possam ser quest:ioaadas. Por isso esse ceticismo inicial sera uma simples auto-sugestJo, e nIo a dUvida real; e oinguCm que sip 0 metodo cartesi­ ana jamais se darB por satisfeito antes que tenha forma}mente recobrado todas aquelas cre~ que na forma havia abandonado. E, pois, urn rodeio tao inUtil como ir ate 0 POlo Norte para chegar a Constantinopla, descen­ do regularmente ao longo do meridiana. Uma pessoa pode, e verdade, no curse de seus estudos, encontrar razJo para duvidar do que no inicio acreditava; mas nesse caso ela duvida porque tern uma razJo positiva para isso, e nio par ordem da maxima eartesiana. Nio faf,ramos de conta que duvidamos em filosofia daquilo que nio duvidamos em nossos cora­ ~.

2. 0 mesmo formalismo aparece no criterio eartesiano, equiva­ lendo a isso: "QuaIquer coisa da qual eo esteja claramente convencido e verdadeira". Se eu estivesse realmente convencido, ter-me-ia valido da razao e nIo precisaria requerernenhum teste de certeza. Mas tomar deste modo individuos singulares juizes absolutos da verdade e 0 mais pernici­ 050. Resulta que os metafiskos irio todos conrordar que a metafisica alcaneou urn pfncaro de certeza muito alem daquela das ciencias flsicas ­ sO que eles podedo nio concordar em mais nada. Nas ci&1cias em que homens chegam a acordo, quando uma teoria introduzida, ela consi­ detada em estado pobatOrio ate que 0 acordo seja al~. Depois que ele e ~, a questio da ceneza toma-se ociosa, porque nio resta mais ninguem que dela duvide. Jndivjdna1mente nOs nIo podemos razoa­ veJmeme ter a ~ de chegar Ultima filosofia que almejamos; nOs s6podemos busc6-la. portanto, para a comunidade dos fil6s0fos. Por isso, se mentes disciplinadas e cindidas cuidadosamente examinam uma teoria e recusam-sea aceiu-la, isso deve criar dUvidas na mente do prOprio autor da teoria. 3. A filosofia deve imitar as ci!ncias bern sucedidas em seus m~a ponto de continuar somente a partir de premissas tangiveis, que possam ser sujeitas a escrutinio cuidadoso, .e confiar mais na multi­ plicidade e variedade de sellS arg'lllnentos do que na COIIClusividade de qualquer urn isoladamente. Seu raciocinio nIo deve formar uma cadeia que nio seja mais forte que seu eIo ·mais fraoo, mas urn cabo cujas fibras podem ser mesmo muito frageis, com a condi~ de que elas sejam sufi­ cientemente numemsas e intimamente conectadas. 4. Toda filosofia nio-ide3lista supl5e algum Ultimo, inanalis8veI e absoIutamente inexplic3vel; em resumo, algo resuItante de media'Wio, por si mesmo nio susceptiveI de media~. Ora, que algo e assim inex­ plic8veI, pode ser somente conhecido pelo raciocinio baseado em signos. Mas a Unica justificacIo de uma inferencia com base em signos e que a conclusio explica 0 fato. Sopor 0 rata absolutamente iDexplicaveI nIo explica-lo, e portanto essa suposic&> nunca eadmissivel.

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Princípios, Volume 01, Número 01