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Claudia Bakker

Limites do objeto

curadoria Guilherme Bueno


Com uma década de atuação o Centro Cultural Banco do Nordeste – Fortaleza se legitima como um espaço de experimentação, fomento e articulação nos processos culturais da cidade e região Nordeste. Promovendo uma programação variada que abrange diversas linguagens, o espaço propícia ao público, através dos seus eventos gratuitos, a formação de um expectador crítico, participador, integrado a uma ambiência cultural viva e dinâmica. São nessas articulações de um pensamento continuo voltado para as políticas culturais, que o Centro Cultural Banco do Nordeste – Fortaleza possibilita a inserção do público local a um circuito de arte. A programação de artes visuais nos CCBNBs é desenvolvida mediante edital anual que seleciona proposições artísticas, programas de debates, oficinas e cursos, com o objetivo de criar um terreno propício à emergência das produções ainda não conhecidas e garantir instancias pedagógicas de acesso à arte. Centro Cultural Banco do Nordeste


Tempo, sega e desejo – Claudia Bakker

O objeto – maçãs. Uma escolha intuída ou propositada? Talvez, as duas motivações tenham se dado juntas. Pois não se trata de algo qualquer; ele, apesar de deflagrado por uma apropriação é o anti ready-made. Nele está a metáfora do limite entre desejo e risco. Incorpora também, por uma relação indireta, a consciência dolorosa da fugacidade (de Adão e Eva fadados à mortalidade até as naturezas-mortas de Cézanne). Um fruto cuja seiva, visto o simbolismo que carrega consigo, seria a cultura – em outras palavras, um objeto que deixou de pertencer apenas à natureza. O fato é que para Claudia Bakker, a maçã repertoria uma memória da arte, a frágil porém incisiva delicadeza da existência, a marca corpórea do ser volitivo, a quase invisível (porém supravisível) passagem entre presença corpórea x ausência fantasmagórica, intrínseca a toda obra de arte. É também uma poética que se faz por coletas. Assim ocorre com seu compêndio de frases, coleção de pensamentos das mais diferentes origens que ela reúne, como se ali reescrevesse o seu livro, a sua prosa do mundo. A ideia mesma de colecionar traduz outra instância pela qual a artista defronta o desafio da temporalidade. Afinal, o gesto do “corte” de uma frase ou de uma fruta de seu livro ou de seu galho equilibra-se entre o destruir e o prolongar-se mediante a transformação (assim também fizeram os museus outrora com os tesouros que buscavam alhures). Haveria nessa precisa indefinição temporal um sentimento heraclitiano diante do mundo? Em seus trabalhos o tempo ganha uma maleabilidade decorrente da releitura de um mesmo problema/objeto com diferentes linguagens. O objeto (a maçã) por vezes é presencial, expõe sua mudança de estado à nossa frente. Em outros casos, tangencia a perenidade em filmes que o conservam a fundo perdido por meio da imagem. Inverte-se a suposta correspondência entre desejo e presença, pois se a imagem projetada (como, aliás, é característico da própria natureza das imagens) evoca um desejo que não se pode consumar, uma vez que o objeto se constata distante – temos uma prova disso sempre que pegamos a foto de alguém que nos faz falta – o objeto presente, com

seu apodrecimento, pode sugerir uma repulsão, naquilo em que nos assustaria com a constatação de efemeridade que nos cala e espelha. Sentimo-nos no fio da linha que separa e urde simultaneamente o ciclo da vida e o horror vacui do desaparecimento, um tributário ao outro (e, digno de nota, é observar o quanto, por outro lado, a artista materializa o vazio nos espaços que ocupa). Nisso consiste o gesto conscientemente paradoxal da colheita, das coletas de Claudia Bakker, ao costurarem os liames de uma poesia de renascimento e de melancolia. Em seu trabalho se dá a conjugação de objetos simples com os meandros do sensível que cavam no espaço expositivo, com seus textos, instalações e filmes uma seara de sentidos ora complexos, ora dispersos, ora infinitos. Eles podem ser vistos como um processo de deflagração contínua, em que um trabalho testa e reinterpreta o sentido do outro, como se existissem apenas sob condição de revolver a própria memória. Isso permite com que uma fotografia se transforme em um filme e a seguir em uma videoinstalação. Que um conjunto de frases vire texto, um livro no espaço (o que, inclusive, agrega um novo sentido àquilo ao qual nos referimos antes como sua prosa do mundo, sua capacidade de instaurar sentido por coisas à primeira vista comuns). Abre-se desse modo uma temporalidade cuja poética da artista é único fluxo capaz de organizá-la; só é admissível e autêntico um sistema sensível, que incute em si mesmo o seu enigmático ciclo em espiral... Não é à toa, portanto, que algo tão corriqueiro e banal como uma maçã consiga cristalizar referências tão amplas. Nesse sentido, a mostra aqui apresentada no Centro Cultural Banco do Nordeste funciona como uma “antiantologia”. Isso porque assim como ela apresenta e reapresenta obras exemplares da trajetória da artista, não o faz como mera repetição isolada e sequencial de trabalhos novos e antigos, mas, uma vez que eles passam por releituras, reinterpretações, podemos falar de uma mostra que é antiantológica por se basear no sentido de reencenação, isto é, o trabalho que, tal como o tempo que continuamente discute, precisa ter consciência de suas passagens, paisagens, sobreposições e reinvenções. Um tempo para além do tempo. E que nunca se perde. Guilherme Bueno

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Time, reaping and desire – Claudia Bakker

The subject – apples. An intuitive or intentional choice? Perhaps both motivations came together. Because this is not just anything; this, despite being triggered by an appropriation, is an anti-ready-made. It carries a metaphor for the threshold between desire and risk. And, by an indirect link, it also incorporates the painful awareness of ephemerality (from Adam and Eve doomed to mortality to Cézanne’s still-lifes). A fruit whose sap, with all the symbolism it bears, is culture – in other words, an object that has ceased to belong merely to nature. The fact is that for Claudia Bakker, the apple conjures up a memory of art, the tenuous yet certain delicacy of existence, the bodily brand of the volitional being, the almost invisible (yet supravisible) bridge between bodily presence and phantasmagorical absence that is intrinsic to every artwork. It is also a poetic that is made by collecting. Such is the case of her compendium of sentences, a collection she makes of thoughts from the most diverse of sources, as if with them she were to rewrite her book, her prose of the world. The actual idea of collecting expresses another angle by which the artist addresses the challenge of time. After all, the act of “cutting” a sentence or a fruit from its book or its branch lies somewhere between destroying and prolonging it through transformation (much like the museums of yesteryear with the treasures they gathered from abroad). Does this temporal indetermination not reveal a Heraclitian sense of the world? In her works time becomes malleable, when a given problem/object is reinterpreted using different languages. The object (apple) is sometimes present, showing its change of state right in front of us. At other times it touches on the perennial in films that conserve it eternally in an image. The supposed correlation between desire and presence is inverted, because if the projected image (as, indeed, is characteristic of the very nature of images) stirs a desire that cannot be consummated because the object is far away (we have proof of this whenever we pick up a picture

of someone we miss), the present object, as it decays, may make us shudder as we are shocked into awareness of an ephemerality that mutes and mirrors us. We feel as if we were on the very thread that both separates and binds the cycle of life and the horror vacui of ebbing away, one a tributary of the other (and it is also worth noting how much the artist also materializes emptiness in the spaces she occupies). This is the essence of the intentionally paradoxical gesture of gathering, of Claudia Bakker’s collections, as they interweave the threads of a poetry of rebirth and melancholy. In her work, simple objects are juxtaposed with an insinuating sensitivity that sows the exhibition space – its texts, installations and films – with seeds of meanings – complex, disperse or infinite. They can be seen like a continuous domino effect, where one work tests and reinterprets the meaning of another, as if they only existed when they instigated memory itself. In this way, a photograph can become a film and then a video installation. A set of sentences can become a text, a book in space (which also adds a new meaning to what we called before her prose of the world, her capacity to invest apparently commonplace things with meaning). And so a temporality is conjured up whose artistic poetic is the only flow capable of organizing it; the only authentic, permissible system is one based on the senses, one which suggests in itself its enigmatic spiraling cycle... It is no coincidence, then, that something as banal and commonplace as an apple should crystalize such broad references. In this sense, the exhibition here at Centro Cultural Banco do Nordeste operates like an “anti-anthology”. Because much as it presents and represents seminal works from the artist’s career, it does not merely repeat new and old works individually and in sequence, but rereads and reinterprets them in such a way that we can talk about them as an anti-anthology, because this exhibition is based on the meaning of reenacting, i.e. the works, like the time they are always discussing, need to be aware of their landscapes, superimpositions and reinventions. Time beyond time. And which is never lost. Guilherme Bueno

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as formas da sensibilidade mudam constantemente

quanto tempo dura

900 Limite as formas de um jardim com linhas abstratas

o tempo de todos nĂłs

750

entre a pintura e o encontro com poetas

para ela pensei em alguma coisa entre um jardim e o circo –

um encontro entre poetas e pintores

colheitas de vermelhos

o colecionador de pensamentos

100 peixes

JoĂŁo

cometas

gavetas de madeira e mĂĄrmore

1050

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Claudia Bakker Biografia

Claudia Bakker, trabalha com instalações, filmes, pintura e fotografia, além de desenvolver uma série de desenhos. Frequentou o Parque Lage no início dos anos 90 e grupos como o Visorama. É mestre em Comunicação e Tecnologia da Imagem pela ECO/UFRJ, 2001. Sua pesquisa foi resultado das sensíveis experiências realizadas pela artista na natureza. Seus trabalhos tratam, em geral, da dicotomia entre efemeridade e permanência. Com frequência vem mostrando seu trabalho em exposições individuais e coletivas em diversas instituições, para citar algumas, como o Museu do Açude, “O Jardim do Éden e o Sangue da Górgona” em “As Potências do Orgânico” e “Via Láctea” (1994/1996); Casa França-Brasil, “Desejo Limite” em “Teoria dos Valores” (1998); Paço Imperial, “Tempo Danificado” (1999); Fundação Eva Klabin, “Primavera Noturna” em “Estados de Metáforas” (2007); Winzavod Center of Contemporary Art/Moscou, “Apontamentos Destino” em “Projeções” (2008); Galeria Graça Brandão, “Primavera Nocturna”, Porto, Portugal (2008); Carpe Diem, “Personal DJ”, Lisboa (2010); Museu Nacional Soares dos Reis, “O tempo de todos nós”, Porto, Portugal (2012); Fábrica ASA, “Filmes – O tempo de todos nós”, Guimarães, Portugal (2012); MAM/Museu de Arte Moderna, “De João Cabral de Melo Neto para João Cabral de Melo Neto” em “A Lição de Pintura” em “Novas Aquisições”, Rio de Janeiro (2012), entre outras. Tem trabalhos em diversas coleções, como as de Gilberto Chateaubriand, Joaquim Paiva e Sylvia e João Sattamini.

Claudia Bakker Biography

Claudia Bakker, works with installations, films, painting and photography, as well as developing a series of drawings. She attended the School of Visual Arts of Parque Lage in the early 90s and took part of groups like Visorama. She has a Master degree in Communication and Technology Image by ECO/ UFRJ, 2001. Her research was the result of experiments carried out by the artist in nature. Her work generally deals with the dichotomy between the ephemeral and the permanent. She has often shown her work in solo and group exhibitions at various institutions, to name a few, such as the Museu do Açude, “The Garden of Eden and the Gorgon’s Blood” in “The Powers of Organic”(1994) and “Milky Way” (1996); Casa França Brasil, “Desire Limit” in “Theory of Values​​“ (1998), Paço Imperial, “Time Damaged” (1999); Eva’s Klabin Foundation, “Nocturnal Spring” on “states of Metaphors” (2007); Winzavod Center of Contemporary Art/Moscow, “Fate notes” on “Projections” (2008); Galeria Graça Brandão, “Nocturnal Spring”, Porto, Portugal (2008); Carpe Diem, “Personal DJ”, Lisbon (2010); National Museum Soares dos Reis, “The time of all of us”, Porto, Portugal (2012), Fabrica ASA, “Films – The time of all of us”, Guimarães, Portugal (2012); MAM / Museum of Modern Art, “De João Cabral de Melo Neto to João Cabral de Melo Neto “in The Painting lesson”/New Acquisitions, Rio de Janeiro (2012), among others. She has works in several collections, such as Gilberto Chateaubriand, Joaquim Paiva and Sylvia and João Sattamini.

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Créditos

Credits

p. 7

O Colecionador de pensamentos, 2013 [detalhe]

p. 7

p. 8

O tempo de todos nós [750 maçãs + 2 cardumes de peixes vermelhos cometas], 2012

p. 8

Fotografia Claudia Bakker

Filme em 16mm – Instalação no Jardim do Museu Nacional Soares dos Reis, Porto, Portugal, 2012 | Curadoria Maria de Fátima Lambert Fotografia e filme Claudia Bakker Edição Daniel Sakê p. 9

A malabarista 1/4 de tempo [malabarista + 100 maçãs], 2011/2012

Filme em 16 mm – Performance, Exposição coletiva Jogos de Guerra, Centro Cultural da Caixa Econômica, Rio de Janerio, 2011 | Curadoria Daniela Name Fotografia e filme Claudia Bakker Edição Daniel Sakê p. 10 | 11

De João Cabral de Melo Neto para João Cabral de Melo Neto em “a lição de pintura” [armário em madeira de 3 x 3m + caixa de mármore 0,33 x 0,33cm + 1.050 maçãs], 2010/2012

Filme em 16mm – Instalação, Novas aquisições MAM | Rio de Janeiro, 2012 | Curadoria Luiz Camillo Osório e Marta Mestre Fotografia Claudia Bakker e Mário Grisolli Filme Claudia Bakker Edição Daniel Sakê p. 12 | 13

Desejo limite [filme, projetor, 35m de voil, 100 maçãs, caixas de vidro, tinta vermelha], 1998/2012

Filme 16mm – Instalação, Exposição coletiva Teoria dos Valores, Casa França Brasil, Rio de Janeiro,1998 | Curadoria Marcio Doctors e Paulo Herkenhoff Fotografia Claudia Bakker e Wilton Montenegro Filme Claudia Bakker Edição Daniel Sakê p. 14 | 15

O Jardim do Éden e o sangue da Górgona [900 maçãs + placa de acrílico], 1994/2012

Filme em 16mm – Instalação no Museu do Açude, Exposição Coletiva “As Potências do Orgânico”, Rio de Janeiro,1994 | Curadoria Marcio Doctors Fotografia e filme Claudia Bakker Edição Daniel Sakê

The collector of thoughts, 2013 [detail]

Claudia Bakker Photography

The time of all of us [750 apples + 120 goldfish comets], 2012

16mm film – Installation in the Garden of the National Museum Soares dos Reis. Porto, Portugal, 2012 | Curated by Maria de Fátima Lambert Photography and film Claudia Bakker Daniel Sakê Edition

The juggler 1/4 time [juggler + 100 apples], 2011/2012

p. 9

p. 10 | 11

16mm film – performance, Collective Exhibition War games. Centro Cultural Caixa Economica, Rio de Janeiro, 2011 | Curated by Daniela Name Photography and film Claudia Bakker Daniel Sakê Edition

By João Cabral de Melo Neto to João Cabral de Melo Neto in “the lesson of painting” [wooden cabinet 3 x 3m + box marble 0.33 x 0.33cm + 1050 apples], 2010/2012

16mm film – Installation, New Acquisitions MAM | Rio de Janeiro, 2012 | Curated by Luiz Camillo Osório and Marta Mestre Photography Claudia Bakker and Mário Grisolli Film Claudia Bakker Daniel Sakê Edition p. 12 | 13

Desire limit [film projector, 35m voile, 100 apples, boxes of glass, red ink], 1998/2012

16 mm film – Installation, Collective Exbition Theory of values​​, Casa França Brasil, Rio de Janeiro, 1998 | Curated by Marcio Doctors and Paulo Herkenhoff Photography Claudia Bakker and Wilton Montenegro Film Claudia Bakker Daniel Sakê Edition p. 14 | 15

The Garden of Eden and the gorgon’s blood [900 apples + acrylic plate], 1994/2012

16 mm film – Installation at the Museum of Açude, group exhibition “The powers of the organic”, Rio de Janeiro, 1994 | Curated by Marcio Doctors Photography and film Claudia Bakker Daniel Sakê Edition

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Exposição / Exhibition Limites do objeto | Claudia Bakker Curadoria / Curator Guilherme Bueno Projeto / Project Suzy Muniz Produções Coordenação geral / General Coordination Suzy Muniz Design Gráfico / Graphic Design Amanda Lianza Lygia Santiago Produtoras / Producers Iara Faccini Julliana Santos Revisão de texto / Proofreading Rosalina Gouveia [texto / text Guilherme Bueno] Rachel Valença [biografia / biography Claudia Bakker] Versão / English Translation Rebecca Atkinson Auxiliar administrativo e financeiro / Administrative and Financial Assistant Márcia de Souza da Silva

BANCO DO NORDESTE DO BRASIL Presidente Ary Joel de Abreu Lanzarin Diretores Fernando Passos Luiz Carlos Everton de Farias Manoel Lucena dos Santos Nelson Antonio de Souza Paulo Sérgio Rebouças Ferraro Stélio Gama Lyra Junior Superintendente da Área de Política do Desenvolvimento Rubens Dutra Mota Gerente do Ambiente de Gestão da Cultura Tibico Brasil Centro Cultural Banco do Nordeste Fortaleza Gerente Executiva Tessi Letícia Barbosa Coordenação de Artes Visuais Jacqueline Medeiros Assessor de Imprensa Luciano Sá Auxiliar de Eventos Culturais Kelviane de Lima Fernandes Mediadora Ingra Rabelo Técnica Clarisse Melo Francisco Ivanilton


Claudia Bakker CCBN Catalog  
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