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SÉRGIO VIGNES

Sonhos de hoje e do futuro Beatriz ilustrou e o fotógrafo Sérgio Vignes dirigiu a montagem da maquete que ilustra a capa desta edição.

EXPEDIENTE Diretor: Odilon Luís Faccio Direção de Redação: Maria José H. Coelho (Mte/PR 930- JP) Editora chefe Alessandra Mathyas (MTe/SC 755-JP) Redação: Alessandra Mathyas Edição de Arte: Maria José H. Coelho Cristiane Cardoso (Mte/SC 634-JP) Fotografia: Sérgio Vignes Hermínio Nunes Colaboradores: Clemente Ganz Lúcio, Michelle Lopes, Vinícius Carvalho, Paula Scheidt, Paulo Itacarambi, Ronaldo Baltar, Vanessa Campos, Marcelo Bertini Aversa Secretaria e Distribuição: Lilian Franz

Parceiros Institucionais Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) Œ Fundação Vale do Rio Doce (FVRD) Œ Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) Œ Instituto Observatório Social Œ Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social Œ Rede de Tecnologia Social (RTS) • BSD Consulting Julho de 2009

R. João Pinto, 30, Ed. Joana de Gusmão, s 803 Florianópolis - SC - Brasil - 88010-420 F: (48) 3025-3949 / Fax:3028-4615 contato@primeiroplano.org.br

Os artigos e reportagens assinados não representam, necessariamente, o ponto de vista das organizações parceiras e da revista Primeiro Plano. A divulgação do material publicado é permitida (e incentivada), desde que citada a fonte.

Uma casa bem integrada com a natureza é um dos primeiros registros que as crianças fazem em seus desenhos. É de se duvidar que alguém, em algum momento da vida, não tenha feito essa pintura. A segurança e o conforto de um lar digno, junto à família e cercada de verde, é um sonho de muitos cidadãos. Foi isso que a menina Beatriz Cardoso Santos, de 12 anos, expressou ao fazer o desenho que se tornou a capa desta edição. A imagem nos faz repensar o modo de vida do século XXI. O que devemos fazer para que possamos oferecer um mundo habitável para as futuras gerações também terem a oportunidade de deixar sua marca na história da humanidade? Uma das ações é avaliar as formas de construção. Na tentativa de reduzir emissões de gases do efeito estufa, racionalizando o consumo de energia elétrica, aproveitando a água da chuva e aumentando o contato das pessoas com o verde, o que há de mais moderno em tecnologia vem sendo aplicado. Tudo para que a vida, a partir de agora, volte a ser, ou ao menos nos relembre do quanto eram interessantes, os tempos da casa no campo, os passeios de bicicleta, os canteiros e pomares próximos às nossas janelas. A vida nas cidades é um fato irreversível, mas ela pode ser sustentável e é isso que mostra a reportagem de capa assinada pela jornalista Vanessa Campos. Outra decisão importante para assegurar a qualidade de vida deve vir do setor produtivo. Esta foi a temática da Conferência do Instituto Ethos de Responsabilidade Social e do Pacto Wal-Mart pela Sustentabilidade, eventos realizados em junho na cidade de São Paulo. Nesses encontros, que reuniram as maiores empresas nacionais, percebeu-se o compromisso com a preservação do meio ambiente e com a sociedade, através de manifestações públicas em defesa da Amazônia e contra o trabalho infantil e análogo à escravidão. O aumento de tecnologias sociais também é outro ingrediente que revela como idéias simples podem fazer a diferença diante dos grandes desafios do nosso século. Este tema também é abordado em duas entrevistas: do economista francopolonês Ignacy Sachs e do presidente da Fundação Banco do Brasil, Jacques de Oliveira Pena. A edição traz ainda uma matéria sobre a energia dos oceanos, apresenta exemplos de como a indústria da moda está incluindo a temática ambiental na sua produção e também mostra o quanto o país precisa avançar quando o assunto é sistema carcerário. Mesmo depois de meio século da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a recuperação social, que deveria ser o papel dos presídios, não passa de uma utopia. A realidade desses “depósitos de gente” é o tema do ENSAIO registrado pelas lentes premiadas do fotógrafo Hermínio Nunes. E para finalizar, temos uma aula de otimismo com a cantora e compositora Leci Brandão. Ela nos mostra que é possível vencer na adversidade e ser feliz seguindo o coração. E não é isso que todos sonhamos? Boa leitura!


REVISTA quatorze CONSTRUÇÕES SUSTENTÁVEIS Consciência ambiental pode alavancar negócios 21 | ARTIGO Clemente Ganz Lúcio | DIEESE 22 | A EVOLUÇÃO DOS RELATÓRIOS DE SUSTENTABILIDADE 26 | ARTIGO Marcelo Bertini Aversa | BSD CONSULTING 28 | O CORAÇÃO DOS NEGÓCIOS 32 | ARTIGO Paula Scheidt | CARBONO BRASIL

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ENERGIA DOS OCEANOS

ENTREVISTA

Há um imenso potencial com fins energéticos no mar

JACQUES PENA Fundação Banco do Brasil

34 | PLANETA MODA

50 | ENSAIO: FERIDA SOCIAL

41 | HIPER SUSTENTÁVEIS

54 | AGENDA GLOBAL

46 | TECNOLOGIAS SOCIAIS

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60 | MEU MUNDO: LECI BRANDÃO 62 | SOLUÇÕES

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Aliar qualidade de vida a moradias sustentáveis e ambientalmente corretas pode parecer algo distante da realidade para a maioria das pessoas. Principalmente para as que moram em países em desenvolvimento e pertencem a uma classe social desfavorecida. Outra vertente também polêmica é convencer o poder público e a sociedade de que as construções civis com recursos sustentáveis são mais rentáveis economicamente e que, realmente, são necessárias para mantermos a saúde do planeta. Mas o fato é que o conceito de cidades sustentáveis está entre as principais discussões de especialistas nacionais e internacionais preocupados não somente com o contexto ambiental, mas com o social, cultural e econômico.

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É preciso construir


a sustentabilidade

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s impactos ambientais que as construções civis causam no planeta transformaram o setor, considerado economicamente como macro-complexo, no que mais consome individualmente os recursos naturais da Terra. Christer Sjöström, presidente do Conselho Internacional de Estudos, Pesquisas e Documentações de Construção (CIB), e também professor associado à Divisão de Materiais Tecnológicos, ao Centro de Construções Ambientais e ao Instituto Royal de Tecnologia, já afirmava em 1996, em seu livro Durability of building Materials and Components 7: a construção civil consumia algo entre 20% a 50% do total de recursos naturais utilizados

pela sociedade. Hoje, novos estudos indicam que essa porcentagem já subiu para 75%, sendo 50% de energia e 12% de água, além de gerar cerca de 60% de resíduos sólidos e 35% de carbono. Por aí, já percebemos a relevância de se pensar em sustentabilidade nas moradias e nos empreendimentos comerciais. Aperfeiçoar o setor de construção civil quanto ao reaproveitamento de resíduos (reciclagem) e viabilizar as construções sustentáveis devem ser medidas emergenciais, tanto por incentivo de políticas públicas, quanto privadas. Afinal, já está mais que estampado nas páginas de jornais, na televisão, rádio, revistas e estudos, o agravamento das consequências que as al-

teações climáticas causam no mundo inteiro. A mudança de paradigma é, então, o grande desafio quando o tema é “ser sustentável”. A palavra “construir” deve emergir, realmente, de dentro para fora. Vanderley Moacyr John, engenheiro civil, pós-doutor em Engenharia na Suécia, professor do Departamento de Engenharia de Construção Civil, Universidade de São Paulo (USP) e também conselheiro do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS), atenta em sua pesquisa Desenvolvimento sustentável, construção civil, reciclagem e trabalho multidisciplinar, que as reservas mundiais de cobre, por exemplo, têm vida útil estimada de pouco mais de 60 anos.

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Por Vanessa Campos


Cita também o exemplo da cidade de São Paulo quanto ao esgotamento das reservas próximas da capital, que já fez com que a areia natural fosse transportada a distâncias superiores a 100 km, implicando em enormes consumos de energia e geração de poluição. De acordo com o estudo Construction and the environment: fact and figures (Industry and Environment), cerca de 80% da energia utilizada na produção de um edifício é consumida na própria produção e no transporte de materiais Tomando como exemplo a Alemanha, que segue hoje práticas ecologicamente corretas, devido ao grande impacto que já causou com sua elevada produção de gases de efeito estufa, outros países também já investem em ideias sustentáveis e movimentam a economia. O que é verdadeiramente atraente, quando o assunto em pauta é a crise, pois a construção civil é responsável por 40% da formação bruta de capital e enorme massa de emprego, o que representa 10% do PIB Mundial vindo do mercado imobiliário. Época extremamente propícia para se rever conceitos quanto aos gastos. Economia, então, é a palavra-chave. E dessa vez, ela está ao lado direito do meio ambiente.

Urbanismo sustentável

Duas são as vertentes na construção civil: o urbanismo e a construção, propriamente dita, do prédio ou casa, segundo Dilnei Silva Bittencourt, diretor de engenharia da Cidade Universitária Pedra Branca, sediada na região da Grande Florianópolis, em Santa Catarina. A cidade-bairro é uma aposta da ideia

de um novo urbanismo e foi construída com o desafio de ser totalmente sustentável em até 15 anos. Atualmente, moram quatro mil pessoas no local e a cidade gera quatro mil empregos diretos, sendo que no futuro a expectativa é que esses números subam para 30 mil moradores e 15 mil postos de trabalho.

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SEIS PRINCÍPIOS PARA REDUZIR O IMPACTO GERADO PELA CONSTRUÇÃO CIVIL 1 - Minimizar o consumo de recursos (Conservar) 2 - Maximizar a reutilização de recursos (Reuso) 3 - Usar recursos renováveis ou recicláveis (Renovar / Reciclar) 4 - Proteger o meio ambiente (Proteção da Natureza) 5 - Criar um ambiente saudável e não tóxico (Não tóxicos) 6 - Buscar a qualidade na criação do ambiente construído (Qualidade)..

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Pedestres Priorizar a caminhada e deixar os veículos em casa. Esse o carro chefe da proposta do novo urbanis-

“NÃO ADIANTA FAZER UM PRÉDIO VERDE NUMA CIDADE IMPACTANTE, QUE POLUI MAIS”. Dilnei Bittencourt

Princípios do Urbanismo Sustentável na Cidade Universitária Pedra Branca - Prioridade ao pedestre - Uso misto e complementariedade - Senso de comunidade - Diversidade de moradores - Densidade equilibrada - Sustentabilidade e alta performance do ambiente construído - Espaços públicos atraentes e seguros - Harmonia entre natureza e amenidades urbanas - Conectividade e integração regional

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VANESSA CAMPOS

Dentre os conceitos de sustentabilidade apontados pelo engenheiro, a cidade, em primeiro lugar, deve interagir com as pessoas. “Existe uma forte corrente no mundo para que as cidades sejam sustentáveis”, afirma Dilnei. O lema da Pedra Branca é: morar, trabalhar, estudar e se divertir num mesmo lugar. Numa área de 250 hectares, a cidade é uma proposta de um conjunto de ideias formatadas nos Estados Unidos na década de 80. Segundo Dilnei, a intenção é zerar o gás, a energia e a água. “Não adianta fazer um prédio verde numa cidade impactante, que polui mais”, diz. Para ele, a prática do prédio verde sozinho é paliativa.

mo sustentável, movimento que já existe há 30 anos. “As cidades perderam sua identidade, suas características próprias. Em Santa Catarina, temos quatro milhões de carros nas ruas. Em Florianópolis, já estamos beirando os 500 mil automóveis, o que interfere diretamente para a detonação das cidades, já que estão inchadas. Os veículos contribuem com 70% das emissões de gases de efeito estufa. O automóvel é um transporte coletivo burro”, relata o engenheiro civil. Dilnei Bittencourt conta ainda que de 100% da energia contida na gasolina, apenas 5% é usada para mover o passageiro. O restante vai para o lixo, melhor dizendo, para a atmosfera. Além de privilegiar os pedestres, outros oito princípios completam o novo urbanismo. O uso misto propõe uma mistura de atividades num mesmo local, como moradia, comércio, escritórios, lazer e educação. Dessa forma, o movimento torna-se constante e o “espírito da cidade” vivo. O que evita criar lugares isolados, fato comum nos centros das cidades após o horário comercial. Segundo Dilnei, em Boston, o centro histórico da cidade foi resgatado dessa forma. Ele cita também a Dinamarca, onde as pessoas trabalham de bicicleta, e a Finlândia, como exemplos de grandes economias e modelos de construções sustentáveis.


Construções, qualidade e cultura

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arcelo Takaoka, presidente do Conselho Brasileiro de Construções Sustentáveis (CBCS), aponta a qualidade da habitação e o conforto térmico, por exemplo, como aspectos importantes na construção de casas e edifícios. Iniciativas que fazem a diferença quando o assunto é qualidade de vida. E foi pensando assim que o CBCS tornou-se membro do Sustainable Buildings and Construction Initiative (SCBI), coordenado pelo Programa Ambiental das Nações Unidas (UNEP). A proposta do programa consiste no impulso do governo e das indústrias da construção civil no desenvolvimento de políticas, estratégias e práticas mais limpas quanto ao uso consciente e eficiente dos recursos nat u -

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rais. Uma das iniciativas a ser implementada é o desenvolvimento de projetos que focam a eficiência energética e as emissões de gás carbônico nos edifícios. Takaoka também acredita na construção de comunidades sustentáveis e não a prática isolada de sustentabilidade. O consumo consciente da água, da energia e de materiais de construção que prolonguem a vida útil das casas são pontos estratégicos. “Não tem planeta para todo mundo que está aí”, diz Roberto Lamberts, engenheiro civil e conselheiro do CBCS. Lamberts conta que as construções sustentáveis precisam ter qualidade, caso contrário não serão sustentáveis. Há atitudes que qualquer um pode tomar e contribuir na mudança de hábitos, como trocar as lâmpadas comuns por florescentes e a geladeira velha por uma nova energeticamente eficiente. Mas, segundo o engenheiro, o governo deveria fazer um plano mais ousado para edifícios e investir forte em fontes de energia renovável. “São de-

zenas de atitudes que devemos tomar, mas acho que falta desejo político no Brasil”, conclui. Em Manaus, norte do país, os conjuntos habitacionais existentes possuem telhas do tipo Brasilit, que deixam o ambiente quente e sem circulação de ar. De acordo com Carlos Gabriel Koury, engenheiro florestal e coordenador do Programa Unidades de Conservação do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas (IDESAM), o Brasil possui linhas de desenvolvimento para a promoção de energias alternativas, mas não existem programas habitacionais governamentais (conjuntos habitacionais ou linhas de financiamento) que promovam o uso dessas tecnologias. “Da mesma forma, no consumo de madeira, pesquisas mostram que o governo é o grande comprador do país, mas poucas cidades, Estados ou secretarias públicas possuem processos de verificação da procedência da madeira”, afirma. “Não conhecemos, aqui no Amazonas, construções que re-


Ventilação cruzada e outras estratégias Carlos Koury conta que usar os recursos de ventilação cruzada, o pé direito alto e a cobertura independente dos ambientes fechados, são boas saídas e que contribuem para a boa circulação de vento. “Os grandes beirais, além de protegerem da radiação solar e das chuvas, ajudam a direcionar o ar para dentro da edificação. Sem dúvida, pode-se dizer que houve uma preocupação com o conforto térmico natural”, diz. A adequação climática na hora de construir um prédio ou uma casa é estratégia relevante. Segundo o especialista, o crescimento do número de usuários levou a inapropriadas formas de uso, o que não garante o conforto ambiental previsto no projeto. Por isso, enfatiza a necessidade de se reforçar a conscientização das pessoas que vão morar ou frequentar diariamente essas es-

truturas. Outro recente exemplo citado pelo engenheiro é o Instituto de Permacultura do Amazonas (IPA), que apresenta um conceito mais ecológico e integrador com o meio, envolvendo habitação sustentável, paisagismo, cultivo agroflorestal e criação de animais. A integração do sistema faz com que todo o gás utilizado na cozinha do Instituto seja proveniente do sistema biodigestor que se abastece com os resíduos de compostagem, banheiro-seco e da criação de porcos e galinhas. O desconforto térmico na região do Amazonas, causado pelo clima quente e úmido, fez com que um trabalho de pesquisa fosse realizado para levantar as diferentes soluções e minimizar o

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únam todos os conceitos de sustentabilidade que estamos propondo. Apesar disso, a preocupação com as questões ambientais para moradia são levantadas já há algum tempo. Por exemplo, nos prédios da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), percebese que o fragmento florestal da área foi totalmente preservado: desmatou-se apenas a área necessária para infraestrutura (prédios e ruas de acesso). No caso do prédio da UFAM, existiu uma forte preocupação em adequá-lo ao clima da região. Além da arborização, que diminui a temperatura, a implantação do edifício no terreno favoreceu a circulação interna de ar. As fachadas menores estão voltadas para a direção leste-oeste, o que reduz significativamente a exposição à radiação solar e expõe as fachadas maiores aos ventos dominantes da região”, explica o engenheiro florestal.

Tijolo ecológico faz parte do projeto sustentável.

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grande incômodo que afeta a todos que vivem lá. Manaus possui temperaturas altas constantes e chuvas frequentes, o que impulsiona o desenvolvimento de uma arquitetura diferenciada, explica o engenheiro florestal. No projeto do IDESAM foram criadas estratégias como: criação de amplos beirais e varandas, protegendo as aberturas contra a incidência direta da radiação solar e das chuvas, aproveitamento da ventilação natural, trabalhando com ventilação cruzada aliada ao efeito chaminé e a criação de uma estrutura de cobertura independente dos ambientes fechados, para que o ar possa circular livremente entre as telhas e o forro. Em algumas áreas optou-se por não utilizar forro, trabalhando com pé-direito alto, facilitando assim o fluxo de ar, aproveitamento da iluminação natural, captação de água de chuva, reuso da água e redução do consumo, painéis de energia fotovoltaica, utilização de materiais renováreis e certificados, além das áreas verdes para regular o clima e abastecimento de lençol freático.

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Faltam parcerias O mestre em Arquitetura pela Facultad de Arquitectura División de Estudios de Posgrado - Universidad Nacional Autonoma de México, doutor em Urbanismo e professor da Universida-

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de Federal de Santa Catarina, Lino Peres Fernandes Bragança, aborda a importância da questão social nas moradias como ponto crucial no desenvolvimento de projetos de habitação. Afirma ainda que não existem parcerias entre universidades e governo. “Ainda vivemos num período autoritário. Falta uma política de médio a longo prazo para áreas habitacionais, mobilidade urbana, transporte de massa, ciclovia e transporte marítimo. Há amadorismo demais”, conta Lino. Ele enfatiza também que quando há estudos considerados relevantes para o governo, estes não são aplicado. A formalização de políticas públicas é essencial em áreas ambientais, habitacionais e em planos diretores, segundo o arquiteto. “Tem que ter um órgão de pesquisa sério e permanente, além de parcerias com as comunidades. A população precisa participar”, afirma. O especialista aborda ainda a burocratização do sistema como um entrave na construção de uma cultura realmente sustentável, e que mecanismos financeiros podem e devem ser priorizados para incentivar a construção de novas ideias no setor. “É importante o governo apoiar com a baixa de imposto no setor de construção”, diz Lino. Outra pedra no caminho citada pelo arquiteto é a “bandeira verde de marketing” quanto ao discurso do uso de energia solar em moradias populares. “As políticas públicas devem ser concretas e não contraditórias. Painel solar é caro, muito caro! Essa onda da arquitetura verde não está clara e amarrada”, conclui.

SUSTENTABILIDADE DEVE ABORDAR OS SEGUINTES ASPECTOS, SEGUNDO O ARQUITETO LINO PERES: 1º) econômica (geração de renda) 2º) social (integração e inclusão social) 3º) urbana (integração de áreas de assentamento às cidades, sem isolação - transporte) 4º) ambiental 5º) arquitetônica (deve ser verde, bioclimática e com reciclagem de material) 6º) política (direito de participar da população/controle social em acompanhar a qualidade das construções) 7º) sustentabilidade cultural (deve haver o instinto de pertencimento, de identidade com a cidade)


Certificações sustentáveis tes critérios levam em consideração todo o ciclo de vida do empreendimento, desde a sua concepção, construção, operação e descarte de resíduos após sua vida útil. Caso atinja no mínimo 40 pontos e atenda os sete pré-requisitos, o prédio estará de acordo com as preocupações de sustentabilidade e recebe a certificação LEED bá-

sica. A partir de 50 pontos, recebe o certificado prata. Quando chega a 60, recebe o ouro. A partir de 80 pontos atinge-se a certificação máxima, que é de platina”, afirma o engenheiro. Três empreendimentos já certificados no Brasil estão na categoria prata e o outro na categoria verde (básica), conta Marcos Casado.

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O que está acontecendo no Brasil no âmbito de certificação nas construções sustentáveis? Esta foi a pergunta que a Primeiro Plano fez ao engenheiro Marcos Casado, gerente técnico LEED (Leadership in Energy & Environmental Design) do Green Building Council Brasil, um dos 13 membros oficiais, desde o ano passado, do World Green Building Council. Em resposta, Casado diz que o movimento vem crescendo após o início da operação GBC Brasil, que ocorreu em junho de 2007. “Nossa missão é justamente disseminar o conceito da construção civil no país e ajudar o mercado nesta transformação rumo à sustentabilidade”, pontua. A certificação sustentável é desenvolvida numa parceria entre o GBC Brasil e o USGBC nos Estados Unidos. Para receber a certificação LEED de prédio verde, uma construção deve seguir alguns quesitos. Hoje, segundo Casado, são 69 recomendações que valem pontos, e de acordo com o impacto daquela recomendação, valerá mais ou menos pontos. “Es-

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(Commercial Interiors) (Core and Shell) (Existing Buildings) (New Constructions)

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Viabilidade Indagado também sobre a viabilidade econômica nesse setor e a atual crise financeira, Marcos Casado afirma: “Sim a construção sustentável é totalmente viável. Números atualizados mostram que o custo maior, em torno de 5% a 10% da construção sustentável, vem caindo ano após ano, devido à maior aplicação destes conceitos e tecnologias, além de reduzirem significativamente os custos operacionais em torno de 25%. O que em épocas de crise é muito b o m , pois

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são despesas fixas que pagamos mensalmente.” O engenheiro florestal, Carlos Koury, do IDESAM, afirma que grande parte das soluções de temas como conforto térmico, iluminação natural, circulação de ar e adequação ao meio, como vegetação e terreno, são viáveis economicamente e se resolvem na concepção de um projeto. "Na execução da obra, o planejamento e a redução do desperdício também diminuem seu custo. Somente algumas das novas tecnologias apresentadas para os conceitos sustentáveis demandam um investimento inicial maior, como para energias alternativas e economia e reuso de água, mas grande parte deles são pagos com o tempo na redução dos custos de água e luz", afirma.

Materiais sustentáveis Além das construções, os equipamentos usados no processo de edificação também contribuem para o desenvolvimento sustentável. Foi pensando assim que surgiu a Eco Máquinas, empresa sediada em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, responsável pela produção de máquinas e equipamentos hidráulicos para fabricação de blocos, tijolos e pisos ecológicos. Há seis anos no mercado, entre 2007 e 2008, a empresa cresceu 50% na demanda graças à valorização das construções sustentáveis. Além de fornecer equipamentos no Brasil, a empresa também exporta para o Mercosul, África e Grécia. Os produtos ecologicamente corretos, além de não prejudicarem o ecossistema, ajudam na re-


Prêmios O reconhecimento da inovação em produtos sustentáveis veio com prêmios como: o Marketing Empreendedores, concedido pela revista Top of Business de São Paulo, em 2008; o Prêmio Brasileiro da Qualidade, em janeiro deste ano; em fevereiro, a Associação dos Profissionais de Imprensa em São Paulo concedeu o prêmio Oscar de Ouro Internacional dos Vencedores na 10ª edição do evento. A Eco Máquinas foi a única indústria do segmento a ser premiada, devido às suas propostas ecológicas contra o aquecimento global e em defesa ao meio ambiente.

Minha Casa, Minha Vida com energia solar Kit completo de aquecimento solar em um milhão de casas populares para quem ganha até 10 salários mínimos. Essa é uma das especificações contidas no programa habitacional do governo federal, Minha Casa, Minha Vida (PMCMV), lançado no dia 13 de abril pelo presidente Lula. O valor previsto de investimento gira em torno de R$ 34 bilhões, que virão do Orçamento Geral da União e do Fundo de Garantia do Tempo

de Serviço (FGTS). A redução do consumo de energia elétrica e da emissão de CO2 está entre os objetivos apontados pelo programa. Inês Magalhães, socióloga e secretária Nacional de Habitação do Ministério das Cidades, enfatiza que esse investimento sustentável fará com que os moradores utilizem uma fonte limpa e gratuita de energia, que é o sol. “A tecnologia vai se transformar em economia para os moradores, que gastarão menos em contas de luz. Por outro lado, as concessionárias de energia elétrica também serão beneficiadas, pois poderão planejar melhor a oferta de energia”, explica a socióloga. A construção do programa foi baseada nos estudos produzidos para a elaboração do Plano Nacional de Habitação (Planhab), que foca o déficit habitacional no Brasil e os assentamentos precários e capacidades administrativas no Brasil urbano. Segundo Inês, a elaboração e implementação do PMCMV trata das dimensões econômicas e ambientais de maneira integrada. “O estímulo à utilização de fontes de energia renováveis nas futuras moradias é uma preocupação do governo federal em apresentar soluções aos efeitos nocivos das mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que busca reduzir o impacto da crise econômica”, diz. “No Brasil ainda há um foco muito grande em edifícios certificados, pouca visão na cadeia produtiva como um todo. Por um lado, temos uma demanda de muitas ações focadas em tecnologias alternativas com a participação da comunidade e, por outro, a importação do conceito de green building, ou mesmo, a adaptação da

agenda de outros países por algumas organizações”, afirma Inês. Projetos que visam à padronização e algumas soluções como aquecimento solar, aproveitamento da água da chuva e reciclagem já estão em prática no Brasil. Porém, ainda dispersas e sem política capaz de integrá-las, segundo Inês. “No governo federal podemos destacar o PROCEL EDIFICA, a obrigatoriedade da madeira certificada, o Programa Nacional de Combate ao Desperdício de Água (PNCDA), a medição individual da água e compras públicas sustentáveis”, conta. No Ministério das Cidades, programas setoriais de qualidades são usados para monitorar padrões de qualidade e cumprimento das normas técnicas de produção dos materiais de construção, da redução de desperdícios de matéria prima, redução dos resíduos e melhor aproveitamento dos insumos de reciclagem. “É importante destacar que já contamos com uma legislação, ainda em fase inicial de implementação, tais como resolução do CONAMA para resíduos da construção, a lei de eficiência energética e leis de medição individual da água, que contribuem para a implementação de algumas políticas setoriais que podem resolver muitos problemas sem impactos no custo. A construção sustentável deve ser adaptável às diferentes regiões e realidades de ne-

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dução da emissão de poluentes, na economia de energia e de recursos naturais. O tijolo ecológico é constituído por uma mistura de água, solo e um pouco de cimento. Ele possui o dobro de resistência do tijolo convencional e na sua fabricação deixa de derrubar de oito a 12 árvores de médio porte. As proporções usadas nos tijolos são estabelecidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).


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“1/3 DO CONSUMO DA ENERGIA NUMA CASA ESTÁ NA GELADEIRA E OUTRO 1/4 NO CHUVEIRO ELÉTRICO. SÃO DOIS PONTOS QUE PODEMOS REDUZIR BASTANTE COM A TROCA DA GELADEIRA E O USO DE COLETOR SOLAR”. Lamberts

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Melhor aproveitamento da radiação solar.

gócio. Deve conter tarefas para todos os segmentos da cadeia e que incentive a inovação: precisamos de soluções mais radicais”, ressalta a Secretária Nacional de Habitação do Ministério das Cidades.

Críticas O programa Minha Casa, Minha Vida é visto como inovação para alguns especialistas na construção civil. Porém corre o risco de cometer o mesmo erro de outros programas de habitação como as Companhias Metropolitanas de Habitação (COHAB). Para o arquiteto Lino Peres, ainda não está clara a política fundiária da localização em que as moradias serão construídas. "Há o perigo das construtoras colocarem as casas em qualquer lugar, em áreas precárias, e assim criar mais periferias isoladas", diz. Caso isso aconteça, a exclusão e o isolamento dessas comunidades vão contribuir para cenários que estimulam a violência, o consumo de drogas, a falta de emprego, e não a sustentabilidade, como deveria ser. Segundo Lino, outro ponto a ser criticado é a área reservada para as casas e/

ou apartamentos do programa, que é de 35m2. "Dessa forma, serão reproduzidos os mesmos vícios das COHAB´s", afirma Lino. Para ele uma área ideal, que proporcione qualidade de vida a uma família de até seis pessoas, deveria ser de 50m2 a 60m2. O engenheiro civil, Dilnei Bittencourt, diz que para não se cometer o mesmo erro, o princípio de diversidade de moradores deverá ser usado. "As moradias devem proporcionar a interligação das diferentes classes sociais e assim não criar guetos. Em vez de duas mil casas juntas, construir 50 espalhadas nas zonas urbanas, onde tenha lazer e saúde, outras 50 em outro lugar, e por aí vai", completa. Em contraponto, elogia o programa por ser “a primeira vez na história do país” que se ataca o problema de frente. Roberto Lamberts, engenheiro civil e conselheiro do CBCS, afirma que o grande problema de construções sustentáveis é o custo inicial, e que por isso será complicado o governo colocar aquecimento solar em um milhão de casas. "Vai ser difícil, pois cada coletor solar custa em média R$


FOTOS: DIVULGAÇÃO FORMAPLAS

Ecologia também no mobiliário A empresa catarinense Formaplas é a única até o momento que utiliza compensado de madeira de reflorestamento em seus móveis planejados. Seus diferenciais ecológicos vão desde a matéria-prima até a vida útil dos móveis. A empresa consegue agregar valor ao seu produto com modernas técnicas de corte: 97% do material é aproveitado, reduzindo drasticamente o desperdício e as colas utilizadas nos processos produtivos são livres de solvente tóxico. Além disso, os produtos saem da fábrica em embalagens totalmente recicláveis e biodegradáveis. As sobras do material de corte, compensado, laminados e outros tipos de madeira são doadas para o curso de marcenaria do Projeto Aroeira-Consórcio Social da Juventude Grande Florianópolis, que trabalha com jovens de comunidades carentes da Região Metropolitana. O que seria descartado ganha vida nas mãos dos aprendizes de marceneiros, transformandose em brinquedos pedagógicos e móveis. PRIMEIRO PLANO . ANO 4 . NO 14 . JULHO 2009

2 mil", conta. Para Lamberts, uma casa popular deveria ser projetada, primeiramente, com os requisitos bioclimáticos locais. Todas deveriam ter obrigatoriamente venezianas nas janelas, coletor solar para fazer um pré-aquecimento da água, um chuveiro elétrico na ponta para complementar quando o sol não for suficiente, geladeira de alta eficiência, pois geralmente as pessoas com menos poder aquisitivo usam geladeiras velhas com grande potencial de energia, lâmpadas fluorescentes compactas e coletores de água da chuva, para ser usada, no mínimo, no vasos sanitários. Marcos Casado, do GBC Brasil, diz que o programa é excelente, pois busca atender um déficit muito grande de habitações que o Brasil tem hoje. "Porém o governo não deve esquecer estes novos conceitos nas construções para não agredir tanto o meio ambiente. Deve aproveitar os recursos naturais disponíveis e baratear os custos operacionais destas construções. Estamos elaborando um guia para construção popular sustentável, o qual pretendemos apresentar ao governo", diz Casado.

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Casa Eficiente – proposta que funciona como ambiente para a demonstração e desenvolvimento de atividades de ensino e pesquisa no ramo da construção civil. A casa foi projetada para ser vitrine de tecnologias de ponta de conforto ambiental, eficiência energética e sustentabilidade. Nela, são usadas estratégias para o uso racional da água como o aproveitamento da água de chuva, reuso de águas e a utilização de equipamentos que proporcionam o baixo consumo. Para uma família de quatro pessoas eficientes, com hábitos sustentáveis, vivendo nessa casa, estima-se que a energia usada seria igual a zero. “Toda a energia gerada no telhado

PROJETOS E IDEIAS

é suficiente para abastecer a demanda da casa durante um ano. Durante o dia ela gera e a noite consome e, assim, o balanço total é igual a zero, afirma Roberto Lamberts, coordenador dos estudos realizados na casa. O projeto arquitetônico é resultado de uma parceria entre a Eletrosul – Centrais Elétricas S.A. e a Eletrobrás – Centrais Elétricas S.A., através do PROCEL – Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica e do Laboratório de Eficiência Energética em Edificações (LABEEE) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que juntos desenvolvem soluções para o uso racional de energia.

FOTOS : SÉRGIO VIGNES

aproveitamento das condições climáticas loO que tem na casa: •Melhor cais (radiação solar, temperatura e umidade relativa do ar e ventos predominantes) para definição das soluções de projeto. •Emprego de sistemas alternativos de resfriamento e aquecimento ambiental. •Prioridade no uso de materiais locais (renováveis ou de menor impacto ambiental). •Projeto paisagístico privilegiando o uso de espécies nativas da Mata Atlântica em vias de extinção e o uso de espécies frutíferas. Aproveitamento da vegetação para criação de um microclima local agradável. •Uso racional de água. Instalações hidráulicas utilizando peças e linhas econômicas. PRIMEIRO PLANO . ANO 4 . NO 14 . JULHO 2009

•Uso de equipamentos que promovem um baixo consumo de água (ou equipamentos economizadores de água), aproveitamento de água pluvial, tratamento de efluentes por zona de raízes e aproveitamento dos efluentes de águas cinza (de banho, tanque, máquina de lavar roupa e lavatório) após tratamento biológico. •Integração do partido arquitetônico com sistemas complementares, tais como aquecimento solar e geração de energia fotovoltaica. •Acessibilidade a todos os ambientes, facilitando a visitação pública.

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A NOVA CULTURA DE SUSTENTABILIDADE JÁ SURTE EFEITO PELO MUNDO INTEIRO. O RESULTADO PODE SER COMPROVADO NAS VÁRIAS CONSTRUÇÕES ADVINDAS DE IDEIAS INOVADORAS E QUE, AOS POUCOS, SE ESPALHAM PELAS CASAS E EDIFÍCIOS DO PLANETA. CONFIRA ALGUMAS PROPOSTAS E PROJETOS PRONTOS E EM ANDAMENTO


veitamento de água da chuva, células fotovoltaicas, aquecimento solar, vidros especiais (permitem que a luz penetre em todos os andares, bloqueando até 70% da entrada de calor e mais de 50% de ruído externo), além de estrutura para portadores de necessidades especiais. “Aqui, 100% das águas das descargas provêm da água da chuva. Temos uma reserva de 60 mil litros”, conta Luiz. Outro fator destacado pelo administrador é que não houve sequer um acidente durante a obra e que o respeito e a segurança aos prestadores de serviço foram priorizados. “O que fizemos hoje por opção, tenho cer-

teza que daqui a poucos anos será feito por lei. O desperdício de recursos naturais em construções é um absurdo. É muito importante que o Brasil mude seu conceito de construção, aumentando a fiscalização por meio das leis”, diz Luiz.

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DIVULGAÇÃO

Prédio sustentável – A empresa Dígitro Tecnologia, desenvolvedora de soluções de inteligência, tecnologia da informação e telecomunicações, inaugurou em março deste ano um prédio totalmente sustentável. A matriz da empresa fica em Florianópolis, Santa Catarina. A economia de água e energia com a reforma já gira em torno de 20% em apenas dois meses de uso. Segundo o diretor administrativo, Luiz Aurélio Baptista, todo o material usado na construção foi reutilizado e a água da chuva foi aproveitada na construção. O novo prédio de 11.400m2 possui estação de tratamento de efluentes, apro-

DIVULGAÇÃO

ECOLÓGICAS

Parque Viva Ciência – projeto da Universidade Federal de Santa Catarina em construir um parque no aterro da Baía Sul, em Florianópolis. Nesse parque, um planetário será levantado com critérios de sustentabilidade, propostos pela arquiteta Maria Lúcia Mendes Gobbi, responsável pelo projeto. A proposta da construção visa minimizar os impactos ambientais decorrente da obra, além de privilegiar conforto térmico com áreas verdes.

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DIVULGAÇÃO UFSC

Fique por dentro

Casa solar – parceria entre seis universidades brasileiras num projeto que vai representar o Brasil no concurso Solar Decathlon Europe 2010, em Madri, Espanha. O evento foi criado pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos na intenção de sensibilizar estudantes, autoridades e sociedade quanto ao uso de energias renováveis e de construções energicamente eficientes. O fomento de tecnologias limpas de construção e a luta para reduzir os custos de casas ecologicamente eficientes

são prioridades no projeto. Placas fotovoltaicas, painéis térmicos, sistema de refrigeração e aquecimento foram o conjunto de estratégias para que o consumo de energia seja o mais equilibrado possível. O consórcio de universidades para o Solar Decathlon 2010 é formado pelas Universidades Federais de Santa Catarina (UFSC), de Minas Gerais (UFMG), do Rio de Janeiro (UFRJ), do Rio Grande do Sul (UFRGS), além da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

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Telhados verdes – As ideias não param de surgir quando o assunto é sustentabilidade. Uma casa com o telhado coberto de grama foi o que criou o arquiteto americano Mickey Muennig, em Big Sur, na Califórnia. A grama torna a casa mais fresca e a protege dos ventos. Além do verde no telhado, placas de energia solar também foram colocadas na casa ecológica. Em Chicago, o edifício da prefeitura foi coberto pelos jardins. A onda dos telhados verdes está em alta.

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Global Holcim Awards: anunciados os vencedores do segundo concurso de visões de construções sustentáveis. O primeiro lugar foi para o River remediation and urban development scheme em Fez, em Marrrocos. O projeto foi elaborado para a restauração de um rio poluído, no sentido de recuperar a vida do centro histórico da cidade. Foram criados espaços públicos, zonas para pedestres e restauração de áreas úmidas. O segundo lugar foi para Low-impact greenfield university campus na Cidade de Ho Chi Minh, no Vietnã. O projeto consiste num campus verde da Universidade de Arquitetura da Cidade Ho Chi Minh, que evita obras maciças de aterro e visa harmonia entre arrozais inundados, mangues, ventos e variações sazonais. O consumo de energia elétrico foi reduzido com iluminação solar e células fotovoltaicas. A ventilação natural contribui para a redução do uso de ar condicionado, e a água da chuva é reutilizada. E o terceiro lugar, para Sustainable planning for a rural community em Beijing, na China. O projeto combinou preservação do patrimônio, conhecimentos tradicionais, materiais locais, tecnologia moderna e gestão de projeto profissional num planejamento urbano integrado, que tem um elevado potencial de se tornar um modelo para o desenvolvimento sustentável de comunidades rurais e bairros urbanos em economias emergentes, e obteve o Holcim Awards Gold Ásia Pacífico em 2008.


Diretor Técnico do DIEESE e membro do CDES - Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social

1 Dados do IBGE, PNAD 2007.

Dados da CBIC (disponível em www.cbicdados.com.br/ files/textos boletim_ano5n06.pdf)

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O

setor da construção civil tem sido historicamente um dos mais importantes da economia nacional. Caracteriza-se por ser um grande empregador de mão de obra, abriga 6,1 milhões de pessoas, o equivalente a 6,7% do total de trabalhadores1. Possui elevada participação na formação bruta de capital fixo, em torno de 38% do total e equivale a 5,1% do Produto Interno Bruto por valor adicionado2. O desempenho econômico e dos empregos gerados pelo setor está intimamente relacionado ao dinamismo da atividade econômica. Nos anos 1990, período marcado por baixo crescimento da economia, por elevadas taxas de juros, estagnação das taxas de investimento e reestruturação empresarial, houve redução do número de postos de trabalho no setor. A melhora do cenário externo e a aceleração do crescimento econômico a partir de 2004 contribuíram para a recuperação e o aumento do emprego no setor nos últimos anos. Em um futuro próximo, à medida que se efetivem os investimentos, públicos e privados, previstos para o quadriênio 2007-2010, no âmbito do Programa de Aceleração do Crescimento – PAC, somados aos projetos envolvendo a Copa do Mundo, o programa habitacional do governo federal “Minha Casa, Minha Vida” e investimentos de estatais como Eletrobras e Petrobras, a tendência é que a Construção Civil amplie e consolide a sua importância como grande empregador de mão de obra. No presente, diante do desaquecimento econômico em função da crise econômico-financeira mundial, o investimento no setor, devido ao impacto que gera no emprego em toda a cadeia produtiva, é estratégico para garantir a geração de renda, impulsionando o mercado interno do país. Entretanto, o setor enfrenta vários desafios para que as ocupações se transformem em oportunidades de trabalho decente. Em primeiro lugar, os trabalhadores do setor convivem com formas variadas de inserção ocupacional, que vão desde o trabalho assalariado com carteira assinada até o exercício da profissão de forma independente (trabalhador autônomo), passando pelo assalariamento sem carteira e pelo trabalho terceirizado. Apesar do movimento de formalização do mercado de trabalho desde 2004 ter se refletido no setor, menos da metade dos ocupados não possui carteira assinada. Os rendimentos são baixos e diminuem para aqueles que não têm vinculo formal de contratação. Também é grande a parcela de trabalhadores que não contribuem para a previdência pública e, nesta condição, estão socialmente desprotegidos. O setor também se caracteriza pela alta rotatividade da mão de obra, uma das maiores, na comparação com os demais setores. A força de trabalho é predominantemente masculina e apresenta baixa escolaridade. Recentemente, começou a ser uma opção ocupacional para mulheres. Diante da expansão dos investimentos no setor, com o aumento na ocupação, passa a ser estratégico desenvolver ações e a negociação de oportunidades de trabalho decente e de investimento na qualificação da mão de obra e da redução da rotatividade.

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CLEMENTE GANZ LÚCIO

OPINIÃO

Os desafios do setor da Construção Civil


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Para atender demandas de informações de diferentes stakeholders, muitas empresas têm divulgado anualmente seus relatórios de sustentabilidade. Essa necessidade surgiu, especialmente, em decorrência de escândalos envolvendo empresas em acidentes ambientais, constatações de trabalho forçado ou infantil, corrupção, falta de precisão quanto a informações sobre os produtos, entre outros.

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O

s primeiros relatórios com características socioambientais foram publicados na década de 1960 no EUA em resposta das empresas a inciativas de grupos da sociedade civil. Na década de 1970, em países europeus, particularmente na França, Alemanha e Inglaterra, a sociedade passou a exercer uma cobrança por responsabilidade social nas empresas, consolidando a necessidade de divulgação de relatórios sociais. No Brasil existiram iniciativas isoladas desde 1965, mas a partir da década de 1990 é que as

empresas passaram a publicar relatos de seu desempenho socioambiental de forma sistemática. A partir de 1997 o tema ganha força entre as empresas brasileiras, com a campanha defendida pelo Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas) pela divulgação voluntária de balanço social. O Ibase é um demonstrativo que traz principalmente indicadores quantitativos sobre investimentos financeiros, sociais e ambientais. Em consonância com o Ibase, o Instituto Ethos publica, desde 2001, o Guia de Elaboração do Balanço Social, com sugestões de informações a serem divulgadas

ZSUZSANNA KILIAN

Evolução dos Relatórios de Sustentabilidade


O QUE DEVE CONTER UM RELATÓRIO DE SUSTENTABILIDADE Princípios para a Definição do Princípios para Assegurar a Conteúdo do Relatório: Qualidade das Informações: • Inclusão Os stakeholders-chave devem ser adequadamente identificados e ouvidos para garantir que suas demandas sejam respondidas. • Materialidade As informações contidas no relatório devem ser relevantes tanto para a empresa como para seus stakeholders. A correta identificação dos stakeholders é essencial para que as informações divulgadas sejam efetivamente de interesse dos públicos. • Transparência A empresa relatora deve estabelecer uma relação clara entre a estratégia da empresa e o contexto da sustentabilidade. • Abrangência Quando o relatório compreender informações de um grupo de empresas nacional ou internacional (subsidiárias, joint ventures, entre outros.), o relatório deve deixar claro qual o alcance das informações.

• Equilíbrio O relatório deve conter informações positivas e negativas, para possibilitar uma análise crítica dos resultados pelo leitor. • Comparabilidade Deve possibilitar ao leitor a análise dos resultados ao longo dos períodos. • Exatidão Para indicadores quantitativos, o relatório deve descrever as bases de cálculo. Para indicadores qualitativos, deve mencionar em que processos internos baseou-se para obtê-los. • Periodicidade Apresentar a freqüência definida para a publicação (ex.: anual, bianual, etc.). • Clareza A empresa deve facilitar o entendimento e localização de informações no relatório. Além do índice, siglas devem ser explicadas e termos técnicos devem ser acompanhados de glossário. • Confiabilidade Este princípio determina que as partes interessadas devem confiar nas informações divulgadas. Isso pode ocorrer por meio da verificação independente do relatório por empresa especializada, ou pelo estabelecimento de um diálogo constante com as partes.

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pelas empresas em seus balanços sociais. O modelo para elaboração de relatório de sustentabilidade mais utilizado atualmente é o GRI (Global Reporting Initiative), que traz diretrizes mundiais para elaboração de relatórios de sustentabilidade. Lançadas originalmente em 2000, as Diretrizes para Elaboração de Relatórios de Sustentabilidade da GRI passaram por dois processos de revisão: a primeira em 2002 e a segunda em 2006, quando foi lançada a versão G3 das diretrizes. O último processo de revisão contou com sugestões de stakeholders, como empresas, entidades da sociedade civil e instituições de ensino e em processos estruturados de consultas realizados em diversos países. A GRI-G3 estabelece que o conteúdo do relatório deve assegurar uma apresentação equilibrada e razoável do desempenho da organização. Para tanto, considera essencial o engajamento de stakeholders no processo de relato. O G3 estabelece princípios que descrevem os resultados que um relatório deverá atingir orientando as decisões ao longo do processo de elaboração do relatório, tais como quais questões e indicadores relatar e como apresentá-los. Os princípios são divididos em dois grupos: o primeiro define o conteúdo do relatório e segundo assegura a qualidade das informações relatadas (veja quadro ao lado). A GRI- G3 recomenda fortemente que as empresas utilizem uma forma de verificação externa para aumentar a credibilidade do relato. Este processo, denominado assurance busca con-


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tribuir para a melhoria da qualidade das informações dos relatórios de sustentabilidade, por meio de uma opinião independente. Trata-se de uma peça importante para a gestão da sustentabilidade, proporcionando confiança aos stakeholders sobre a qualidade das informações não-financeiras publicadas pelas empresas. Para incentivar a adoção gradual dos indicadores G3, as diretrizes apresentam uma abordagem evolutiva. São atribuídas as classificações C, B e A, sendo que um relatório com classificação C atende a um menor número de indicadores, o de classificação B representa o atendimento a um número intermediário de indicadores e o de a classificação A significa o pleno atendimento aos indicadores propostos. Relatórios submetidos à verificação externa recebem as classificações C+, B+ ou A+. Os princípios, no entanto, devem ser observados independente da classificação atribuída ao relatório. O modelo GRI tem sido a referência para elaboração de relatórios de sustentabilidade no mundo, sendo reconhecido por sua proposta de desenvolver um padrão internacional comparável. Em 2007, a GRI também iniciou um processo de certificação de entidades para ministrarem cursos sobre as diretrizes. Em parceria, BSD Consulting, FGV-CES e Uniethos foram os primeiros certificados no mundo para esses treinamentos. Desde então, no Brasil, já foram treinadas mais dez turmas (cerca de 250 pessoas) nas diretrizes G3 da GRI.

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Avaliação de Relatórios de Sustentabilidade Com o aumento da importância dos relatórios de sustentabilidade como ferramenta de comunicação das empresas sobre o desempenho da sustentabilidade, cresce o número de pesquisas, prêmios e estudos técnicos que avaliam a qualidade e os processos envolvidos na elaboração dos relatórios, como engajamento com stakeholders, materialidade, explicação da sustentabilidade, acesso e canais de divulgação.

A avaliação e o feedback do relatório é importante para as empresas identificarem oportunidades de melhoria no processo e na forma de relato. É igualmente importante, para o movimento da sustentabilidade, a existência de critérios claros e relevantes para a avaliação dos relatórios de

sustentabilidade, pois contribuem para a evolução da qualidade e da credibilidade dos mesmos. Neste sentido, duas iniciativas realizadas por consultorias em sustentabilidade se destacam. Embora com focos distintos, as consultorias SustainAbility e BSD Consulting estabeleceram

“ROAD TO CREDIBILITY” SUSTAINABILITY Em 2008, como parte do programa Global Reporters da SustainAbility, em parceria com a Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS) e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) foi realizada no Brasil a pesquisa “Road to Credibility” (Rumo à credibilidade: Uma pesquisa de relatórios de sustentabilidade no Brasil). A pesquisa ocorre desde 1983 e a cada dois anos avalia a situação dos relatórios de sustentabilidade em diferentes países. “Rumo à Credibilidade” tem como objetivo fazer

um levantamento das melhores práticas de relato e transparência, considerando para isso 29 critérios dentro dos temas Governança e Estratégia, Gestão, Apresentação de Desempenho, Acessibilidade e Verificação. Os principais destaques entre os dez relatórios brasileiros selecionados apontam que a maioria possui alguma ferramenta de verificação externa, como Assurance, além do fato de todas as empresas adotarem as Diretrizes G3 da GRI. Dentre as oportunidades de melhoria apresentadas pela pesquisa estão a criação das


estruturas de governança para a integração da sustentabilidade, os processos de engajamento e definição da materialidade, a apresentação de metas de sustentabilidade (mensuráveis e comparáveis), a adequação ao princípio do equilíbrio e a utilização de canais alternativos de comunicação das informações. As dez empresas selecionadas pela pesquisa como melhores práticas foram: Ampla, Banco Itaú, Banco Real, Bunge, Celulose Irani, Coelce, Energias do Brasil, Natura, Suzano Petroquímica. Em uma escala de 0 a 100, a primeira classificada, Natura, obteve uma pontuação de 54% do total.

bas as iniciativas e pelo contexto dos relatórios no Brasil, a evolução constante, e também a necessidade de aperfeiçoamento de princípios como Materialidade, Equilíbrio, Contexto da Sustentabilidade e Inclusão de Stakeholders. Embora o esforço das empresas no aprimoramento e a evolução dos relatórios seja atualmente perceptível, iniciativas como as realizadas pela BSD e SustainAbility demonstram que existem oportunidades de melhoria nas práticas de relato. Mais do que assegurar a qualidade do conteúdo dos relatórios, a avaliação dos princípios permite observar também a necessidade de qualificação da gestão da sustentabilidade destas empresas.

• Grupo de Benchmark: formado pela melhor nota das dez empresas em cada princípio avaliado.

• Média BSD: composto pela média das dez empresas avaliadas em cada princípio.

“RELATAG3©” BSD CONSULTING A RelataG3© é uma ferramenta criada pela BSD com o objetivo de confrontar o conteúdo dos relatórios com aquele estabelecido pelas Diretrizes G3 da GRI. Para possibilitar uma avaliação completa, a ferramenta contempla, além do atendimento aos indicadores de desempenho, uma avaliação qualitativa e quantitativa em relação aos princípios para a definição do conteúdo e a qualidade do relatório. Os resultados das avaliações contribuem para identificar oportunidades de melhoria no relatório e no sistema de gestão, e incluem processos como conferência de nível de aplicação e teste de materialidade. Uma avaliação consolidada de dez empresas avaliadas pela consultoria demonstra que existem oportunidades de melhoria, assim como boas práticas no mercado. As empresas avaliadas estão entre as cinco maiores dos setores de alimentos, petróleo e gás, papel e celulose, financeiro, mineração, siderurgia, cimentos e sucroalcooleiro. A avaliação dos princípios GRI pela ferramenta RelataG3©, observada no gráfico radar abaixo, mostra que há sinergia entre os resultados da pesquisa “Road to Credibility” e da RelataG3© em relação ao processo de relato nas empresas brasileiras. Ambas destacam pontos de melhoria em aspectos como contexto da sustentabilidade (governança e metas), e engajamento e definição da materialidade. Mesmo dentro do Grupo de Benchmark da RelataG3©, não foram identificadas práticas de desempenho máximo na ferramenta. Similar ao que foi apontado pela pesquisa “Rumo à Credibilidade”, entre as dez empresas avaliadas na RelataG3© (Média BSD), observa-se um desempenho geral de cerca de 50% na pontuação máxima em todos os princípios.

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critérios e desenvolveram ferramentas de avaliação de relatórios relacionadas às Diretrizes e aos Princípios da Global Reporting Initiative (GRI), versão G3. A iniciativa da SustainAbility é realizada em diversos países, e tem como foco avaliação e publicação das melhores práticas de relatórios de sustentabilidade. Em 2008 realizou a pesquisa no Brasil, tendo como resultado dez empresas selecionadas com melhores práticas no relato da sustentabilidade, além de destacar os principais desafios e oportunidades de melhoria, observados entre as empresas pesquisadas. Já a BSD Consulting possui ferramenta específica para a avaliação técnica de relatórios para empresas clientes, tendo como objetivo apontar os principais gaps e os pontos fortes no processo de relato, baseando-se nos Princípios e Diretrizes GRI G3. É possível perceber, em am-


Materialidade dos Relatórios

OPINIÃO

Engajamento ou gestão da sustentabilidade?

MARCELO BERTINI AVERSA Sócio BSD Consulting

N

os últimos anos, sobretudo pela exigência dos níveis de aplicação A e B das diretrizes da Global Reporting Initiative (GRI), muitas empresas vem estruturando o processo de engajamento com stakeholders em encontros conhecidos como “painéis de stakeholders”. Este processo formal de engajamento é realizado para construção da matriz de materialidade, ou seja, para a definição dos assuntos relevantes que devem ser tratados no relatório GRI, levando em conta a visão das principais partes interessadas, além da visão interna da organização. A materialidade colabora para que o relatório trate de forma objetiva e direta os assuntos relevantes de sustentabilidade da organização, estabelecida de acordo com os impactos e o desempenho destes assuntos em suas operação e atividades. O desafio das empresas não deve se limitar à realização de um painel de stakeholders ou a publicação do relatório com a matriz de materialidade. A grande oportunidade, a partir do estabelecimento da materialidade, está em incorporar as expectativas legítimas dos stakeholders nas estratégias de negócio. O engajamento permite à empresa se aproximar dos stakeholders, exercitar o diálogo, a capacidade de ouvir e principalmente em se antecipar às demandas futuras. Realizar o processo de engajamento sistemático permite a aproximação da empresa com seus grupos estratégicos. O engajamento deve ter como objetivo, a identificação de riscos e oportunidades nos assuntos de alta materialidade. A relação da materialidade com a gestão da sustentabilidade deve ser direta e não apenas para a elaboração do relatório. Dessa forma, o relatório torna-se parte de um processo de gestão e relacionamento estratégico com stakeholders. Esta é a lógica da norma AA1000. Tendo como aspecto central o engajamento, prevê a estruturação de um sistema que permite à empresa incorporar aspectos sociais, ambientais e éticos à gestão estratégica e suas operações, tendo a materialidade como um dos primeiros e principais passos deste processo. A sinergia existente entre o GRI e a AA1000 fornece ferramentas adequadas para as empresas estabelecerem a base de sua gestão sustentável. A AA1000ES apresenta um excelente caminho e o início deste processo onde os stakeholders fazem parte da pauta estratégica das organizações. O engajamento voltado para a gestão da sustentabilidade e não só para o relato, representa um exercício cíclico e contínuo. É no processo de engajamento onde a empresa terá a oportunidade de inserir as expectativas existentes em seu jeito de fazer negócio.

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ENGAJAMENTO E ASSURANCE A participação dos stakeholders em processos de engajamento é essencial para o assurance, pois proporciona o entendimento sobre os assuntos mais relevantes para as partes interessadas. O auditor avalia e emite opinião sobre a capacidade da empresa de aprimorar sua estratégia e processos em função das preocupações de stakeholders. O padrão AA1000AS, metodologia para verificação de relatórios de sustentabilidade, abrange todo o processo de elaboração. Ao longo dos trabalhos, o auditor acompanha reuniões, entrevista pessoas-chave, avalia processos e políticas. Para a AA1000, os procedimentos de auditoria devem incluir uma avaliação criteriosa sobre a relevância das informações monitoradas pelas empresas e divulgadas nos relatórios de sustentabilidade. O auditor considerar o resultado da opinião de stakeholders, de acordo com seus processos de engajamento. É importante, ainda, que o auditor opine sobre a forma de identificação e priorização de stakeholders para garantir que os públicos mais representativos tenham sido considerados.

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A CONFERÊNCIA INTERNACIONAL EMPRESAS E RESPONSABILIDADE SOCIAL PAUTOU OS EFEITOS DA CRISE GLOBAL COMO OPORTUNIDADE E TRANSFORMAÇÃO PESSOAL, EMPRESARIAL E DE SOCIEDADE E TROUXE A CARTA DA TERRA COMO REFERENCIAL DE CONDUTA ÉTICA.

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U

ma visão de esperança e um chamado à ação. Assim podese resumir a Carta da Terra, um documento que vem sendo elaborado há mais de uma década por governos e sociedades por todo o mundo. Esta declaração de princípios éticos fundamentais para a construção de uma sociedade global justa, sustentável e pacífica, foi o pano de fundo da Conferência Internacional do Instituto Ethos, realizada em São Paulo de 15 a 18 de junho. Reunindo mais de mil pessoas, o encontro marcou os dez anos do instituto, deixou explícita a posição política da instituição com relação às ações ambientais em curso no Brasil e anunciou mudanças na atuação da entidade para a próxima década. Também marcou

FOTOS NELSON AGUILAR

O CORAÇÃO DOS NEGÓCIOS


Um novo padrão civilizatório A plenária de abertura da Conferência 2009 evidenciou a preocupação do Instituto Ethos com os padrões de vida futuros. A escolha dos palestrantes, que buscaram argumentos do sentido da existência humana, deu a deixa do que seria discutido em todo o encontro. Míriam Vilela, Diretora-Executiva Mundial da Carta da Terra, brasileira residente na Costa Rica, falou da necessidade de se adotar “uma ética do respeito e cuidado” com as pessoas e “com toda a comunidade da vida no planeta (veja princípios da Carta da Terra na página 31). Já o educador e filósofo colombiano Bernardo Toro destacou que a sobrevivência humana dependerá do cuidado do corpo, da natureza e também, mas não menos importante, do espírito. “Esse cuidado começa com o indivíduo, com as suas relações pessoais, com suas redes sociais e com o seu intelecto. O conceito atual de inteligên-

cia não serve para o futuro. É preciso desenvolver a capacidade de ser solidário, de pedir ajuda, de reconhecer a legitimidade do outro”. Ao entender isso, completa Toro, cuidaremos e fortaleceremos os bens públicos, teremos ações sustentáveis de cuidado com o nosso planeta, com reuso, reciclagem e redução de consumo. Outro conceito proposto que deveria ser levado em conta como indicador da situação dos países foi apresentado por Susan Andrews, coordenadora do Instituto Visão do Futuro. É a FIB – Felicidade Interna Bruta. Para ela, a sociedade deveria adotar a FIB em vez do PIB: “O PIB vem medindo a velha economia; ele mede tudo, menos o que faz a vida valer a pena”. Segundo Andrews, é preciso equilibrar o material e o não-material, o objetivo e o subjetivo. Essa opção da superação do SER sobre o TER foi ainda enfatizada pelo presidente do Instituto Ethos, Ricardo Young. E isso, na sua opinião, está evidente com a crise que obriga a uma mudança no modelo e nas ações das empresas. “Agora podemos ver o que a humanidade tem de melhor. Estamos sendo obrigados a visualizar o século com 50

Bernardo Toro: É preciso desenvolver a capacidade de ser solidário, de pedir ajuda, de reconhecer a legitimidade do outro.

anos de antecedência e isso é absolutamente extraordinário.”

Das idéias à prática A conferência ratificou na Mostra de Tecnologias Sustentáveis (ver página 46) e nos debates em plenário a aposta do Instituto Ethos na mudança para uma sociedade mais simples, sustentável e humanitária. A questão ambiental permeou praticamente toda a Conferência. Tanto que no último dia do evento, 18 de junho, foi realizado um ato público em protesto à Medida Provisória 458, que visa regularizar a situação fundiária em terras amazônicas. Com a exibição dos depoimentos do Ministro de Meio Ambiente, Carlos Minc e da Senadora Marina Silva, os presentes foram unânimes na crítica à agenda desenvolvimentista em detrimento da ambiental. A MP acabou sendo sancionada em 25 de junho. Antes, porém, o tema já havia sido debatido, inclusive com a participação da Secretária de Relações Institucionais do MMA, Samira Crespo. O Ministério, disse a secretária, é contra a MP, mas “Brasília é a capital dos lobbies e nós estamos medindo forças com gigantes”. Ainda assim, conforme Samira Crespo, são inúmeras as boas iniciativas do Governo para preservação ambiental que não se restringem apenas ao MMA. “O Plano Nacional contra Mudanças Climáticas vem sendo desenvolvido com 14 ministérios, capitaneados pela Casa Civil”. Ela citou os programas em andamento para as unidades de conservação com manejo responsável, de zoneamento econômico e ecológico em municípios onde ocorrem os desmatamentos, o Fundo Amazônia, gerenciado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES), entre outros. “Nós não estamos dormindo no ponto. O MMA monitora mais de 34 acordos internacionais. Mas volto a lembrar que a agenda política quem determina é a sociedade organizada”.

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o evento a primeira reunião do Global Report Iniciative (GRI) fora de Amsterdam e a criação do Programa Latino Americano de Responsabilidade Social – Plarse.


CLAUDIA PERRONI

Críticas à agenda desenvolvimentista em detrimento da ambiental permearam o debate do último dia do evento.

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Por uma economia inclusiva, verde e responsável Diante disso, o Instituto Ethos, cujas empresas associadas têm capital equivalente a 34% do PIB do país, decidiu agir mais fortemente na pressão política sobre o setor empresarial e também junto ao Governo no compromisso com o meio ambiente. Na conferência, uma mesa discutiu as possibilidades de as empresas serem indutoras de transformação pela mitigação do aquecimento global. Em outro momento, lembrou-se do Protocolo Verde assinado entre o Governo Federal e a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) em abril deste ano. Com este acordo o setor bancário se compromete a conceder financiamento apenas a setores que se pautarem pela sustentabilidade ambiental e também a adotar medidas de consumo sustentável em suas atividades rotineiras, como gasto de papel, energia e insumos. Essa necessidade de ações práticas do setor produtivo com vistas à sustentabilidade levou o Ethos a repensar sua atuação para a próxima década. Conforme o documento elaborado para a discussão no encontro em São Paulo, o movimento de responsabilidade social e ambiental avançou mas ainda é pequeno. “As mudanças nas empresas

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ainda não entraram no coração dos negócios. Têm pouca relevância nos principais processos decisórios e baixa materialidade nos processos centrais de produção e gestão”. Segundo levantamento feito em 2008 pelo Ethos, Akatu e Ibope intitulado Pesquisa Nacional de RSE, o comportamento das empresas diante à crise mostra essa realidade. Das 56 práticas consideradas básicas, 35 foram implantadas por 20% das empresas pesquisadas, enquanto 50% das empresas implementaram 22 e 70%, apenas 13 práticas. “Poucas empresas compreenderam e se comprometeram de forma mais significativa. A maior parte apenas ‘entrou no ônibus’ ”, conclui o documento. Detectou-se que uma das dificuldades para o avanço do movimento de RSE e sustentabilidade, além da ainda baixa cultura para esta nova necessidade mundial, é a inexistência de padrões de referência de premiação ou punição pelo mercado. “Falta autorregulação que estabeleça padrões nos setores e nas cadeias de produção e comércio que possam ser disseminados globalmente e valorizem a diferenciação das empresas. Ainda são poucos os casos de referência empresarial que funcionem como benchmark (pontos de referência)”, completa

o documento do instituto Ethos. Outra constatação foi a de que a crise financeira colocou o foco da sociedade mundial e seus atores – empresas, governos, opinião pública – na dimensão econômico-financeira dos negócios. No caso do Brasil, continua a análise, não se observa um esforço para redirecionar os investimentos para atividades econômicas voltadas à sustentabilidade. Isso num momento em que a expectativa é do agravamento das condições climáticas e com ele, a necessidade de mudança no foco econômico. Neste contexto, o Instituto Ethos acredita que a construção de uma economia inclusiva, verde e responsável terá que ser o objetivo central da agenda nacional para a próxima década. E para isso, determinou, nesta conferência, que seu papel será o de provocar a articulação de um grupo de organizações e líderes para elaborar e desenvolver uma agenda de mobilização social para esta nova economia necessária. “Nos últimos dez anos, o Ethos colocou seu foco na mudança da cultura e dos processos de gestão dos negócios e priorizou a promoção da ação voluntária das empresas”, comenta o Vice-Presidente Executivo, Paulo Itacarambi. “Acreditamos que a tendência de crescimento da economia verde pode ser uma carona oportuna para embarcar as dimensões sociais e éticas das mudanças que queremos”, completa. Para isso a entidade quer nacionalizar sua atuação, buscando a orientação das empresas em uma mudança de cultura das pessoas (conforme preconiza a Carta da Terra), a massificicação do conhecimento de RSE e sustentabilidade e o fortalecimento do compromisso das empresas de promover o diálogo e engajamento. Outra ação proposta é a ampliação do espaço de diferenciação das empresas no mercado. Isso poderá ser feito através da criação de um índice que possa medir o grau de aderência das práticas das empresas ao objetivo de construção desta nova economia a que se pretende chegar.


Princípios da Carta da Terra

BILLY ALEXANDER

I. Respeitar e cuidar da comunidade e da vida 1. Respeitar a Terra e a vida em toda sua diversidade. 2. Cuidar da comunidade da vida com compreensão, compaixão e amor. 3. Construir sociedades democráticas que sejam justas, participativas, sustentáveis e pacíficas. 4. Garantir as dádivas e a beleza da Terra para as atuais e as futuras gerações. II. Integridade ecológica 5. Proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos da Terra, com especial preocupação pela diversidade biológica e pelos processos naturais que sustentam a vida. 6. Prevenir o dano ao ambiente como o melhor método de proteção ambiental e, quando o conhecimento for limitado, assumir uma postura de precaução. 7. Adotar padrões de produção, consumo e reprodução que protejam as capacidades regenerativas da Terra, os direitos humanos e o bem-estar comunitário. 8. Avançar o estudo da sustentabilidade ecológica e promover a troca aberta e a ampla aplicação do conhecimento adquirido. III. Justiça social e econômica 9. Erradicar a pobreza como um imperativo ético, social e ambiental. 10. Garantir que as atividades e instituições econômicas em todos os níveis promovam o desenvolvimento humano de forma eqüitativa e sustentável. 11. Afirmar a igualdade e a eqüidade de gênero como pré-requisitos para o desenvolvimento sustentável e assegurar o acesso universal à educação, assistência de saúde e às oportunidades econômicas. 12. Defender, sem discriminação, os direitos de todas as pessoas a um ambiente natural e social, capaz de assegurar a dignidade humana, a saúde corporal e o bem-estar espiritual, concedendo especial atenção aos direitos dos povos indígenas e minorias.

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Combate à corrupção Soma-se a esta postura mais próativa do Ethos sua parceria com a Controladoria Geral da União – CGU e o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes – UNIDC - na formulação do manual “A Responsabilidade Social das Empresas no Combate à Corrupção. Segundo o ministro-chefe da CGU, Jorge Hage, a iniciativa tem a pretensão de ser um referencial de sistema de integridade empresarial. “A corrupção afeta a economia global, incluindo a empresa que corrompe. A corrupção distorce a competitividade, estabelece formas de concorrência desleal, deteriora os mecanismos de livre mercado e gera insegurança no meio empresarial. Com este manual oferecemos um instrumento adicional de informações, que mostram como competir num jogo limpo”, afirmou o ministro Hage. O ministro, assim como os diretores do Instituto Ethos, afirmaram que a organização e a pressão da sociedade têm o poder de eficácia maior que qualquer lei. Um exemplo é comprometimento, já formalizado em 2005 pelo Instituto e outras entidades da sociedade através do Pacto Empresarial pela Integridade Contra a Corrupção, do qual 560 empresas já são signatárias. A parceria entre o Ethos, a CGU e a Unodc foi formalizada, além da publicação do manual, por uma CartaAcordo, assinada durante a Conferência. Pelo documento, está prevista a realização de seminários, elaboração e distribuição de manuais para difundir conceitos e práticas relacionadas ao combate à corrupção na sociedade, voltados para a capacitação de pequenas e médias empresas. A Conferência Internacional 2009 foi promovida pelo Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social e realizada pelo UniEthos - Educação para a Responsabilidade Social e o Desenvolvimento Sustentável, em parceria com o Instituto Akatu pelo Consumo Consciente, do Movimento Nossa São Paulo, da Rede Brasileira do Pacto Global e da São Paulo Turismo.

IV.Democracia, não violência e paz 13. Fortalecer as instituições democráticas em todos os níveis e proporcionar-lhes transparência e prestação de contas no exercício do governo, participação inclusiva na tomada de decisões, e acesso à justiça. 14. Integrar, na educação formal e na aprendizagem ao longo da vida, os conhecimentos, valores e habilidades necessárias para um modo de vida sustentável. 15. Tratar todos os seres vivos com respeito e consideração. 16. Promover uma cultura de tolerância, não violência e paz.

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O novo acordo climático e os serviços ambientais

OPINIÃO

U

PAULA SCHEIDT

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Jornalista e editora do portal Carbono Brasil

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m dos pontos mais polêmicos que estará em pauta na Conferência do Clima de Copenhague, em dezembro, será a inclusão de créditos florestais em um tratado pós-Quioto. Depois da difícil experiência com tais projetos no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), a esperança para quem defende o uso do mercado de carbono para proteger as florestas está em quatro letras – REDD (Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação). A sigla, que se tornou bastante popular nos últimos meses, se refere aos projetos de promoção da conservação florestal em áreas que correm o risco de serem desmatadas. Para fazê-lo funcionar na prática, existem os que defendem mecanismos de mercado por permitirem o investimento do setor privado aliado a agilidade na obtenção de fundos e a redução de problemas de governança. Outros são a favor de fundos voluntários, como o Fundo Amazônia, que promovem o fortalecimento de políticas. Há ainda alguns que dizem que o melhor seria integrar políticas de governo com esquemas de mercado. No debate, contudo, há ainda os que são contra a inclusão de créditos florestais, grupo este liderado pela União Européia. O bloco, que possui o esquema de comércio de emissões mais bem desenvolvido do mundo, teme que o mercado seja inundado por estes créditos, que funcionariam como uma carta branca para empresas dos países industrializados continuarem emitindo e não promoverem reduções domésticas. A colocação é bastante pertinente, pois para alcançar os cortes de dióxido de carbono (CO2) necessários para impedir as conseqüências climáticas mais perigosas, é preciso reduzi-las tanto do lado de lá quanto do lado de cá (nos países em desenvolvimento, liderados por Brasil, China e Índia). Contudo, um grande player está prestes a entrar no mercado - os Estados Unidos – e a postura ativa do país nas discussões sobre um novo acordo climático internacional trará força para a estruturação de um mercado de créditos florestais no período pós2012. “O país tem grande afinidade com a questão, então quando existe um parceiro como este entrando nas negociações, você tem que falar de florestas”, comenta o diretor da Associação Internacional de Comércio de Emissões (IETA), Edwin Aalders. Sem esquecermos também da presença nas discussões de países com grandes extensões de matas tropicais, como o Brasil, que não tem metas, porém pedem financiamentos para impedir a degradação ambiental. Como mais de 70% das emissões brasileiras vêm do desmatamento, nada mais justo que atacar este mal para reduzir nossa pegada de CO2. Contudo, mais do que pensar apenas no carbono, precisamos criar meios de valorização financeira para outros serviços ambientais prestados pelas florestas, como o fornecimento de água, a biodiversidade e a regulação do ciclo hidrológico. A CEO do TZ1 Registry, Helen Robinson, empresa de registro de créditos do mercado voluntário, ressalta que cresce o interesse por projetos que tragam outros benefícios ambientais além do carbono. “Esta é a nova onda do mercado e vamos ver mais disso no futuro”. Por isso, os projetos florestais acabam tendo um maior apelo para os norteamericanos e, na opinião de Helen, o Brasil tem sorte por ser muito atrativo para tais projetos. O gerente-sênior da Aliança Clima, Comunidade e Biodiversidade (CCB), Steven Panfil, lembra que 40% dos projetos florestais estão na América Latina, sendo a maioria relacionados ao desmatamento evitado. Para quem lida com tais projetos, o REDD tem sido visto como a abordagem mais avançada com relação a valoração das florestas, por ter uma métrica mais fácil. “Você consegue quantificar o carbono: ver quanto emitiu e quanto havia naquela área. É difícil você quantificar isso em biodiversidade, tanto em termos métricos quanto em termos econômicos”, afirma Mariana Nogueira Pavan, do Programa Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas (IDESAM). Uma coisa é certa: a criação de mecanismos de valoração das florestas é urgente, pois somente criando um valor para as árvores em pé, é que será possível competir contra o desmatamento.


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PLANETA

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Chique é ser simples A onda ecológica não chegou apenas na indústria, mas no consumo. Ainda que o capitalismo continue impondo padrões, é cada vez maior o número de pessoas que adotam um guarda-roupa mais enxuto. “A visão antiga de que para cada festa você tem que ter uma roupa nova faz parte de uma cultura insustentável, diz Maluh Barciotte, consultora do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente”. Uma dica é evitar, ainda que para muitos seja difícil, a compra por impulso. Conforme Marco Sabino, autor do Dicionário da Moda, é preciso cautela, olhar a etiqueta, verificar a matéria-prima e conversar com o vendedor sobre a origem do produto. A própria referência em moda, Coco Chanel chegou a afirmar em certa ocasião: mulheres que dispensam um guarda-roupa inteiro a cada estação mostram que têm muito dinheiro, mas pouco estilo.

ZSUZSANNA KILIAN

A

indústria da moda movimenta milhões em todo o mundo. Mas também nesse exigente mercado, é cada vez maior a tendência pela conservação dos recursos naturais, com uso de tecidos ecológicos e mesmo a reciclagem de materiais para composição de novos e modernos “looks”. O Brasil já é um reconhecido mercado produtor e consumidor de moda. Não à toa acontecem importantes e internacionais eventos, como as “Semanas da Moda” em São Paulo e Rio de Janeiro, além de edições estaduais. Mas moda no século XXI não é ditada somente pelos grandes estilistas mundiais em suas Fashions Weeks pelo mundo afora, onde apresentam suas propostas de tendências para as estações seguintes. Moda está cada vez mais se tornando uma opção pessoal. Ela identifica o indivíduo num grupo e os grupos na sociedade. Esse conceito pode explicar a moda verde, que agora não tem nada a ver com a onda dos anos 80, capitaneada pelo estilo hippie. Já é possível desenvolver peças únicas, bem elaboradas e com design que agrada a qualquer estilo, usando materiais reciclados, reaproveitando peças antigas e com matérias primas ecologicamente corretas. Essas iniciativas, no entanto, ainda esbarram nos preços, que são mais caros que a moda tida convencional. Bons exemplos são verificados em algumas coleções como do estilista Oscar Metsavaht, da marca Osklen, que usou algodão orgânico sem agrotóxicos. O próprio Giorgio Armani já apresentou sua coleção de jeans com fibras orgânicas. Essa constatação mostra uma mudança considerável do ponto de vista da inovação. Há quatro anos atrás, uma pesquisa do IBGE intitulada Relatório Pesquisa de Inovação Tecnológica, mostrava que menos de um terço dos empresários investiam em novidades: 33% na indústria têxtil e 28% no vestuário e acessórios. Ao quase findarmos a primeira década do século XXI, e depois dos freqüentes alarmes de que a sociedade precisa mudar seus hábitos de consumo para garantirmos as vidas futuras, todos os setores econômicos, inclusive a Moda, está aderindo à nova tendência ambiental. A moda verde de agora não tem nada a ver com a onda dos anos 80, capitaneada pelo estilo hippie. Já é possível desenvolver peças únicas, bem elaboradas e com design que agrada a qualquer estilo, usando materiais reciclados, reaproveitando peças antigas e com matérias primas ecologicamente corretas. Essas iniciativas, no entanto, ainda esbarram nos preços, que são mais caros que a moda tida convencional.


Quando envelhecem, as peças se tornam anda mais bonitas. Outra boa novidade são os tecidos feitos com garrafas PET recicladas. Usadas em bolsas retornáveis, agora também viraram vedete em camisetas. A Tehoha, uma organização que comercializa produtos artesanais, conectando comunidades e consumidores país afora, oferece esse produto, juntamente com diversos assessórios, para venda pela internet. Já no Rio de Janeiro, a empresa Ciclo Ambiental dedica-se exclusivamente à fabricação de camisetas com 50% de PET e 50% algodão natural. Mas apesar deste tipo de produto ter uma comercialização importante pela internet, é possível comprar também no varejo.

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Além das roupas, os acessórios vêm conquistando cada vez mais adeptos. As jóias sempre estarão em alta, mas as peças feitas a partir de artesanato ganharam seu espaço. São colares, pulseiras, pingentes, bolsas, cintos, sapatos, brincos, lenços e demais adereços que têm valor agregado ao estarem vinculados a imagens ambientais, de norte a sul do país. Um exemplo é a paulistana 1001 Retalhos, de Evani Ribeiro. Usando temáticas das florestas, da arte e cultura, do folclore e do povo brasileiro, a empresa aposta na confecção de bolsas (patchwork). Desde a escolha dos colaboradores, que são artesãos que passam por treinamento de meio ano, até a opção pelos tecidos, a cadeia produtiva leva em conta o uso.

AFONSO LIMA

Manutenção Acessórios

Além de novos materiais, outra questão que vem aumentando é o cuidado com as roupas, seja na lavação, seja na conservação. Atenta a essa necessidade, a Restaura Jeans, que há 18 anos construiu uma rede com mais de 200 lojas franqueadas no país, está inaugurando a primeira loja-conceito no Sul do Brasil, na cidade catarinense de Tubarão. Além dos atendimentos tradicionais, a nova loja terá um sistema moderno de lavagem, o Wet Cleaning, que substitui com vantagens a lavagem a seco. É menos agressivo à saúde de quem opera os equipamentos e menos prejudicial ao meio ambiente, por usar apenas produtos biodegradáveis. A loja-conceito de Santa Catarina também será a sede de treinamento de novos franqueados da rede. Segundo o empresário Flávio Conrad, essa loja servirá de modelo para atrair investidores para o novo formato. “Será um verdadeiro Centro de Tratamento do Vestuário, com foco diferente de uma lavanderia tradicional. Além de lavar roupas, a loja está preparada para tingir, costurar, customizar e renovar peças de couro, tudo isso num único local e com muita qualidade. Entendemos que, nos cuidados com suas roupas, os clientes têm muito mais necessidade do que somente lavá-las”.


JAVIER GONZALEZ

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A matriz energética brasileira é predominantemente hídrica. Mas esta fonte é baseada nos rios, na água doce. Há ainda um imenso potencial que pode ser usado com fins energéticos também no mar. Se associarmos as novas tecnologias já em funcionamento em algumas partes do mundo à imensa costa do país, cuja extensão ultrapassa os nove mil quilômetros, não seria exagero afirmar que pode estar no mar mais uma importante forma de se obter energia elétrica renovável.

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A energia dos

H

á quatro formas de se transformar a força do mar em eletricidade: pelas marés, pelas ondas, pelas correntes marítimas ou pela diferença de temperatura nos oceanos. No primeiro caso, para aproveitar a energia pelo deslocamento das águas do mar, são construídos diques numa praia que tenha marés e correntes fortes – algo como uma diferença no nível de água de mais de cinco metros entre as marés alta e baixa, que acontecem duas vezes por dia. Esse tipo de energia é obtido de modo semelhante ao da energia hidrelétrica convencional: constrói-se uma barragem, formando-se um reservatório junto ao mar. Quando a maré é alta, a água enche o reservatório, passando através da turbina e produzindo energia elétrica. Na maré baixa o reservatório é esvaziado e água que sai dele, passando novamente através da turbina, em sentido contrário, também produz eletricidade.


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Mesmo assim, por conta da necessidade de mudanças elevadas das marés, existem poucos locais no mundo para o aproveitamento deste potencial. Basicamente seria em golfos. Daí a explicação dessa tecnologia ainda ser pouco utilizada. Soma-se a isso o fato de o fornecimento não ser contínuo, em função das altas e baixas, apresentando um rendimento energético abaixo de outras fontes. Ainda assim é uma fonte secular. Portugal, por exemplo, usa esse tipo de energia há pelo menos dois séculos. Lá existem os “moinhos de maré”, utilizados para moagem de cereais, na foz dos rios e estuários. Em escala um pouco maior, este tipo de fonte já é usada no Japão, Inglaterra e Noruega. No Brasil há uma grande amplitude de marés, mas somente em determinadas regiões. Um exemplo é a Baia de São Marcos, no Maranhão, onde se tem o registro de marés que alcançam 6,8 metros. No entanto, a topografia do litoral inviabiliza economicamente a construção de reservatórios.

Outra forma de obtenção energética do mar é pelo movimento das ondas do oceano. Na teoria, se fosse possível equipar todos os litorais do planeta com conversores energéticos, como os poucos já em operação em algumas partes do mundo, poderíamos desativar todas as centrais elétricas existentes atualmente. No entanto, entre a teoria e a prática há um longo caminho. De acordo com os estudos já realizados, a exemplo de alguns disponibilizados pela Agência Internacional de Energia (IEA, sigla em inglês), uma onda de três metros de altura pode conter pelo menos 25 kW de energia por metro de frente. O problema ainda não resolvido tecnologicamente é como transformar toda essa energia em eletricidade de maneira eficiente, sem perdas e garantindo alto rendimento. Isso já vem sendo pensado há pelo menos cem anos e só na Inglaterra já foram concedidas mais de 350 patentes, que, ainda que com suas diferenças técnicas, mantêm o mesmo princípio: a onda pressiona um corpo oco, comprimindo o ar ou um líquido que move uma turbina ligada a um gerador. Alguns sistemas

são flutuantes (tecnologia offshore, em águas profundas), outros encravados em terrenos íngremes, próximos às costas. Apesar dos primeiros experimentos ingleses, é Portugal quem vem despontando neste setor. Até o momento, segundo o Relatório de Gestão do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa, as zonas costeiras do país, especialmente o lado ocidental e as ilhas dos Açores, são os locais com condições naturais mais favoráveis no mundo para o aproveitamento da energia das ondas: recurso abundante (cerca de 25-30 kW/m média anual), águas profundas perto da costa e consumo e rede elétrica próximos. Desde a década de 1970 os portugueses dedicam-se a esses estudos, com grande número de publicações científicas e coordenação de projetos em todo o continente. Entre as realizações está a liderança no Atlas Europeu de Energia das Ondas, um estudo que serve não apenas para avaliação de projetos e empreendimentos na área energética, mas para a navegação, geologia marítima e engenharias costeira e naval. Mesmo com o grande potencial energético, o avanço das usinas de geração nos oceanos esbarra em dois fatores importantes: o custo e o dano ambiental com armazenamento e transporte. Ainda assim, as iniciativas continuam, também com a busca de energia pela diferença de


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temperatura nos oceanos. Em função da irradiação solar, a água do mar é mais quente nos 50 a 100 metros superficiais e vai esfriando conforme a profundidade. Essa situação pode ser convertida em energia térmica (a energia solar armazenada na água), desde que a diferença entre a superfície a o fundo do oceano seja de 38 graus Fahrenheit (ou 3,33 ° Celsius). A tecnologia para isso é chamada Conversão de Energia Térmica do Oceano (OTEC, Ocean Thermal Energy Convertion). Segundo Emmanuel Gama de Almeida, engenheiro hidrógrafo e oceanógrafo, “o gradiente térmico

FONTE : OREGON STATE UNIVERSITY

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do mar é, de longe, o principal recurso energético utilizável dos oceanos: cerca de 40 bilhões de Megawatts”. Não há ainda nenhuma usina comercial em operação no mundo, mas no Japão e no Hawai já existem protótipos para demonstração e experiências. Novamente os problemas são os custos e a eficiência. O mesmo sol que aquece a superfície, junto com o vento e a rotação da Terra, são ainda responsáveis pelas correntes marítimas, outra possibilidade de obtenção energética. Sabe-se que o movimento de grandes massas de água dentro dos oceanos e mares, além

de influenciar o clima nas regiões e o equilíbrio da vida marinha, possuem direções e constâncias definidas. Aproveitar a quantidade de energia cinética para produzir eletricidade também vem sendo estudado, sobretudo na Europa.

Novos projetos, novos mercados Mesmo tendo custos ainda elevados, importantes setores não desistem da energia do mar. Um exemplo recente foi o acordo de cooperação de licenciamento assinado pela Alstom Hydro do Canadá (que atua no Brasil há 50


aposta num novo nicho de mercado. O acordo entre as duas empresas prevê a continuidade da cooperação para o desenvolvimento de tecnologia, implantação de unidades de demonstração e posteriormente, o posicionamento da Alstom Hydro tanto como fornecedora de equipamento como de projetos para parques de energia das marés. A empresa pretende comercializar os seus primeiros produtos nessa área já em 2012. Aqui no Brasil os estudos também avançam. O Laboratório de Tecnologia Submarina da Coordenação de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio de Ja-

neiro (COPPE/UFRJ) vem sendo a referência nacional nas pesquisas sobre energia do mar desde 2001. Os pesquisadores da COPPE acreditam que a tecnologia das ondas pode proporcionar custos de geração próximos aos das hidrelétricas, sem impactos ambientais tão volumosos. Também explicam que o Brasil já domina a tecnologia (pela similaridade do sistema hidrelétrico), podendo fabricar os componentes para essas usinas marinhas. Desde março deste ano, uma parceria firmada com a Tractebel Energia irá viabilizar o projeto no Porto de Pecém, no Ceará. A meta é colocar em funcionamento até 2011 o primeiro protótipo de Conversor On-Shore de Energia Elétrica a partir das ondas do mar. Similar a uma usina hidrelétrica, o conversor será construído nos molhes do porto. “A Tractebel avalia e negocia o projeto desde abril de 2008, e espera que o prazo estimado seja suficiente para ter a operacionalidade deste primeiro conversor de energia elétrica a partir das ondas do mar. Por ser um projeto pioneiro, não é surpresa se alguma alteração for necessária”, diz o gerente de P&D da Tractebel Energia, Sergio Roberto Maes. Conforme estudos da COPPE, o Brasil tem potencial para suprir até 15% de sua demanda energética usando ondas do mar convertidas em energia elétrica. O projeto em Pecém, orçado em R$ 15 milhões, prevê a instalação de dois módulos de bombeamento com capacidade de geração de até 100 mil watts, suficientes para acender 1.667 lâmpadas comuns de 60 watts.

W W W. PORTALSAOFRANCISCO. COM . BR/ ALFA / M E I O- AMBIENTE- ENERGIA- DAS-MARES /

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anos, detendo 35% dos equipamentos utilizados no setor hidrelétrico nacional) com a Clean Current Power Systems Incorporated, empresa também canadense especializada na concepção e ensaio de tecnologia da energia das marés. Segundo o comunicado da Alstom, “a tecnologia de energia das marés apresenta inúmeras vantagens para o ambiente. É limpa, natural, invisível, e não emite qualquer gás com efeito de estufa. Além disso, sendo uma fonte de energia 100% previsível e inesgotável, representa uma nova fonte de energia duradoura para responder à crescente procura de eletricidade”. É uma


DIVULGAÇÃO W A L-MART

Hiper sustentáveis

H

á pouco mais de uma década, era comum as famílias irem às feiras de rua com suas sacolas e carrinhos. Com o advento das grandes redes supermercadistas, que oferecem num único lugar tudo o que é necessário para uma casa – da verdura ao eletrodoméstico, da roupa aos materiais de limpeza, dos serviços bancários às lanchonetes – essa tradição foi substituída pela praticidade das sacolas plásticas. No entanto, isso está gerando um dano ambiental com consequências ainda imprevisíveis, pois tais embalagens vão parar, via de regra, nos aterros sanitários, jogadas pelas ruas das cidades e nos rios mundo à fora. Já circulou pela internet, inclusive, imagens de satélite que mostram o acúmulo de materiais plásticos nos oceanos. Só no Brasil, segundo estudo da Associação Brasileira de Supermercados – Abras, são consumidas por dia 1,5 milhão de sacolas plásticas – 12 bilhões por ano, sendo que cada pessoa utiliza em média 66 sacos por mês. Cientes que a responsabilidade deve ser com-

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AGORA É PARA VALER. AS PRINCIPAIS REDES VAREJISTAS MUNDIAIS DEFINIRAM A SUSTENTABILIDADE COMO ESTRATÉGIA DE NEGÓCIOS. PARA ELAS, A CRISE ECONÔMICA MOSTRA-SE COMO OPORTUNIDADE DE SE DIFERENCIAR NO MERCADO E CONQUISTAR PRECIOSOS PÚBLICOS COM CONSCIÊNCIA ECOLÓGICA CADA VEZ MAIS PRESENTE.


82% DOS CONSUMIDORES DIZEM QUE É RESPONSABILIDADE TOTAL DAS EMPRESAS OFERECEREM PRODUTOS SEGUROS E SAUDÁVEIS 78% DIZEM QUE A EMPRESA É TOTALMENTE RESPONSÁVEL PELOS PRODUTOS DOS SEUS FORNECEDORES 4 EM CADA DEZ BRASILEIROS PAGARIAM MAIS POR PRODUTOS QUE NÃO AGRIDAM O MEIO AMBIENTE

partilhada pelo consumidor, que precisadar um uso adequado a esse tipo de material, e pelas empresas que no país ainda distribuem sacolas plásticas gratuitamente (nos mercados, farmácias, padarias, lojas etc), muitos já estão fazendo sua parte para reduzir a quantidade de sacos em circulação. Pequenas iniciativas pipocam em todos os cantos do país. Mas o assunto toma grande dimensão quando grandes redes e governos tomam para si a ação. O Grupo Carrefour, por exemplo, em um ano, vendeu mais de 400 mil sacolas retornáveis em suas 154 unidades no Brasil. E segundo Paulo Pianez, Diretor de Sustentabilidade, somando esta à iniciativa de oferecer sacolas plásticas reforçadas, o que diminui a necessidade da sobreposição, o grupo já reduziu em 12% o volume de utilização deste item. “Entendemos que para alcançarmos uma redução significativa no consumo das tradicionais sacolas, é necessário haver mobilização por parte de clientes, colaboradores, fornecedores e parceiros neste projeto. Neste contexto, as lojas

O que uma loja com consciência ecológica pode oferecer aos clientes

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Sacolas retornáveis são as vedetes

Sanitários com economia de água

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Coletores de lixo reciclável , como vidros , plásticos e papéis


Trecho do documento “A Farra do Boi na Amazônia” “No Brasil, três gigantes da indústria de supermercados – Carrefour, Wal-Mart e Grupo Pão de Aç úcar (afiliada ao Grupo Casino, da França) – controlam quase 40% do setor. A Bertin, JBS e Marfrig fornecem diversos produtos frescos e processados para o Brasil e outros mercados emergentes. A Unilever é a maior empresa de ‘produtos de bens de consumo’ nos mercados em desenvolvimento e emergentes, incluindo o Brasil, onde as vendas de produtos de higiene e cuidados pessoais e produtos de limpeza estão em ascensão. Muitos deles contêm subprodutos bovinos processados, como a glicerina. De acordo com a Bertin, o mercado global de higiene pessoal está estimado em US$ 269 bilhões (R$ 554,1 bilhões) e o Brasil possui a terceira maior fatia. A Unilever Colgate Palmolive e a Johnson & Johnson são grandes clientes dos produtos de higiene e beleza da Bertin no Brasil. Veja o documento completo em www.greenpeace.org/ brasil/amazonia/gado

Coletores de material tóxico, como pilhas e baterias

Quem vai de bicicleta tem estacionamento garantido

Estacionamento com vagas exclusivas para carros flex, idosos e gestantes e também para quem oferece carona

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formativa 29, de 15/06/2009, o MMA enfatiza seu posicionamento frente ao assunto, ratificando a adesão do Brasil ao Processo de Marrakech (Programa do Pnuma que visa incentivar os países a elaborarem planos nacionais na busca de mudanças de comportamentos nas instâncias de produção e consumo), ocorrida em 2003. Na ocasião, o país se comprometeu em promover o consumo responsável como uma das diretrizes do Ministério de Meio Ambiente. Apesar do tempo determinado desta campanha, para o Wal-Mart, parceiro do MMA na iniciativa, a redução de sacolas e de embalagens já é uma definição do planejamento estratégico da empresa não só no Brasil, mas em todas as 7.600 lojas nas Américas, Ásia e Europa. A meta da organização é diminuir em 50% até 2013 o uso de embalagens plásticas. Além das sacolas retornáveis oferecidas aos clientes pelo preço de custo, a rede adotou no Brasil uma ação inédita: dar ao cliente que não utiliza a sacola o crédito em dinheiro correspondente ao preço pago pela em-

FOTOS DIVULGAÇÃO W A L-MART

Carrefour têm um importante papel em ações que promovam a conscientização, e a reutilizável é uma das frentes em que estamos atuando”, declara Pianez. Outro gigante do setor varejista uniu-se ao Governo Federal na luta contra as sacolas plásticas. Com a campanha Saco é um Saco, anunciada no dia 23 de junho em São Paulo, o Wal-Mart Brasil e o Ministério do Meio Ambiente querem alertar para a importância de reduzir o consumo de sacolas plásticas. As peças publicitárias de cunho popular, que têm como garoto propaganda o líder comunitário Júnior, do Rio de Janeiro, do Grupo Cultural AfroReggae, mostram a responsabilidade de cada um na tentativa de se evitar tragédias urbanas, como enchentes e alagamentos nos grandes centros, e também trazem importantes informações de redução, reuso e reciclagem. A previsão de duração da campanha é de seis meses. No lançamento da campanha, o Ministro Carlos Minc ressaltou: “Você é vítima da sua própria irresponsabilidade”. Na Nota In-


CLAUDIA TORRES

Marcelo Furtado, diretor-executivo do Greenpeace Brasil.

balagem (três centavos). Segundo o presidente da Wal-Mart Brasil, Héctor Núñez, este programa já tirou do meio ambiente mais de três milhões de sacolas e concedeu mais de R$ 100 mil em desconto para os clientes.

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Pacto pela Sustentabilidade No início de junho, o relatório do Greenpeace intitulado A Farra do Boi na Amazônia acendeu a luz vermelha nos governos e nas empresas que utilizam derivados da atividade pecuária em todo o mundo. O estudo, que teve a duração de três anos, mapeou a cadeia produtiva da pecuária na região amazônica e constatou que a carne e o couro de regiões provenientes de desmatamento ilegal abastecem os mais diversos mercados: da rede varejista às fábricas de automóveis e vestuário. No documento, o Greenpeace disse que estas marcas globais são “parceiras silenciosas do crime” do desmatamento e que o Governo, pelo fato de financiar

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frigoríficos abastecidos por fazendas irregulares, também tem culpa pela destruição da floresta. A reação ao estudo foi imediata. A Rede Brasileira de Supermercados – Abras, anunciou a moratória da pecuária e as três maiores redes varejistas do país – Wal-Mart, Carrefour e Pão de Açúcar, assinaram um compromisso de só comprar carne de fazendas de origem certificada, que não estejam em áreas irregulares e não adotem posturas análogas ao trabalho escravo. As redes estão exigindo inclusive as guias de trânsito animal anexadas às notas fiscais. Tal determinação forçou os maiores frigoríficos a tomarem uma atitude, assinando, uma semana depois, um compromisso de somente comercializar carne e couro certificadas por auditorias independentes. Este fato recente vem comprovar o quanto a sustentabilidade precisa fazer parte dos negócios. A sociedade organizada exige de

governos e empresas posturas ambiental e socialmente corretas. E a adoção de ações que venham ao encontro dessas expectativas, agrega considerável valor aos produtos. Segundo Heitor Mattar, presidente do Instituto Akatu de Consumo Consciente, “as empresas que não se conectarem às questões sociais e ambientais podem não ser escolhidas pelos consumidores”. Para justificar essa afirmativa, ele apresenta alguns números de recente pesquisa do Instituto: 82% dos consumidores dizem que é responsabilidade total das empresas oferecer produtos seguros e saudáveis; 78% dizem que a empresa é totalmente responsável pelos produtos dos seus fornecedores; quatro em cada dez brasileiros pagariam mais por produtos que não agridem o meio ambiente. Não à toa que a Wal-Mart saiu na frente firmando o Pacto pela Sustentabilidade. Com a adesão dos principais fornecedores para suas lojas varejistas, a iniciativa consistiu numa parceria pública na busca da oferta de “produtos o mais sustentáveis possíveis” (veja relação dos signatários na p. 45). Na ocasião a Wal-Mart apresentou ainda seu projeto de ecoeficiência que já vem sendo desenvolvido. “Queremos a liderança em sustentabilidade no Brasil e estamos cada vez mais empenhados em buscar soluções que contribuam para o futuro do planeta”, afirmou o presidente Héctor Núñez. Para alcançar esta liderança a empresa propõe-se a realizar compras sustentáveis, oferecendo produtos de limpeza para lavanderia e cozinha, no mínimo, duas vezes mais concentrados até 2012 (com


estruturais, a formação para a sustentabilidade dos colaboradores, com cursos realizados em conjunto com o Instituto Akatu e a parceria com comunidades e cooperativas na ampliação do Clube dos Produtores. Esta iniciativa que atualmente está em vigor em seis estados e fornece produtos cuja cadeia de abastecimento esteja alinhada às metas de sustentabilidade da rede. Como o Wal-Mart, outras empresas no mundo inseriram a sustentabilidade no seu plano de negócios e estão enfrentando melhor a crise econômica. Segundo Andrew Winston, diretor do Corporate Environmental Strategy Project em Yale, Estados Unidos, e autor do livro O verde que vale ouro (Elsevier; Campus, 2008), os problemas ambientais são reais e urgentes e as empresas têm responsabilidades sobre isso. Adotando posturas sustentáveis, as or-

Signatários do Pacto pela Sustentabilidade Wal-Mart Brasil 3M do Brasil Ambev Brinquedos Estrela Bunge Alimentos Coca-Cola Brasil Diageo Brasil Grupo JBS/Friboi Johnson&Jhonson Kimberly-clark Brasil Marfrig Nat Cereais Pepsico Petit Sable Procter & Gamble do Brasil Sara Lee Colgate Palmolive Grupo Bertin Cargill Unilever do Brasil Nestlé Brasil

ganizações conquistam ecovantagens: vantagens competitivas no mercado. “O mundo empresarial está acordando para uma verdade inevitável: economia e meio ambiente estão profundamente interligados”, afirma Winston.

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EUGENIO GOULART

vistas à economia de água pelos consumidores), e também com nível de fosfato reduzido em 70%. O Wal-Mart também quer oferecer ao menos um produto orgânico por categoria de alimentos em todas as suas lojas até 2012, estimular as vendas de produtos com diferencial em sustentabilidade e apoiar o desenvolvimento de produtos de ciclo fechado (reciclados, produtos de origem de cooperativas e alimentos orgânicos). Um exemplo de produto fechado é o cobertor de marca própria feito com fibras 100% de origem PET. Além da oferta de produtos, a rede tem como horizonte o abastecimento em 100% com energia renovável, a redução na emissão de gases de efeito estufa em 20% nas lojas já existentes e a construção de novas unidades ECO, que buscam a economia de 40% de água e 25% de energia. Outra meta é o programa Impacto Zero, através da redução no tamanho das embalagens de produtos de marca própria em 5% em toda a cadeia de abastecimento (sem a diminuição no volume), a implantação de um programa inédito de indicador de embalagem (packaging scorecard) e a redução em 50% no consumo de sacolas plásticas . Atualmente o Wal-Mart conta com duas lojas ECO: uma em São Paulo e outra no Rio de Janeiro. Mas, segundo o presidente Núñez, “todas as novas lojas que abriremos no país seguirão esse conceito”. Estão previstas mais 90 unidades, 30 delas na Região Nordeste. Os investimentos estimados para esta expansão estão na ordem de R$ 1,6 bilhão, incluindo, além das questões

Representantes de 20 das maiores empresas nacionais assinaram o pacto

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Tecnologias Sustentáveis

INCLUIR

Impactos positivos no meio ambiente e na sociedade

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POVOS INDÍGENAS CONECTADOS À INTERNET, TROCANDO CONHECIMENTOS E DENUNCIANDO DESRESPEITO AOS DIREITOS HUMANOS. ESSE É O PRINCIPAL OBJETIVO DA TECNOLOGIA SUSTENTÁVEL ÍNDIOS ON LINE

Por Michelle Lopes, assessora de comunicação da RTS, com informações do Instituto Ethos

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A idéia foi concebida pela organização Thydewas. Por meio de um portal, ocorre a comunicação entre a sociedade em geral e nações indígenas: Kiriri, Tupinambá, Pataxó-Hãhãhãe e Tumbalalá, da Bahia; Xucuru-Kariri, em Alagoas; Kariri-Xocó, em Sergipe; e Pankararu, em Pernambuco. “Através da internet, os índios assumem o papel de antropólogos, historiadores, etnojornalistas e fazem seus relatos”, explica Potyra Té Tupinambá, diretora executiva

da Thydewas. A tecnologia permite que os índios se conectem na rede mundial sem sair de suas aldeias. O projeto possibilita a formação de uma aliança de estudos e trabalhos. Com ele, indígenas de diferentes etnias podem trocar experiências. O portal também pode ser usado para denúncias, comercialização e articulações. Potyra lembra que a cultura indígena é caracterizada por uma forte comunicação oral que, hoje, pode ser ampliada com a internet:


que está acontecendo em nosso país, quanto ao desenvolvimento de processos, sustentabilidade e qualidade de vida. Há muitas iniciativas”. Samonek é responsável pelo desenvolvimento da tecnologia social Encauchados de Vegetais da Amazônia, em parceria com o Polo de Proteção da Biodiversidade e Uso Sustentável dos Recursos Naturais (Poloprobio). A atividade consiste em recuperar a extração da borracha amazônica, combinando o conhecimento indígena tradicional da manipulação do látex nativo com as tecnologias usadas atualmente pelas indústrias de artefatos de borracha. Atualmente, a tecnologia é aplicada em 28 unidades produtivas, coletivas ou familiares, como aldeias indígenas e comunidades extrativistas do Acre, Amazonas, Pará e Rondônia. O projeto promove a inclusão social das populações indígenas e das comunidades de se-

ringueiros, possibilitando uma atividade de acordo com os costumes da região e em harmonia com a natureza. Essa harmonia também é um dos grandes objetivos do Sítio Sustentável, apresentado pelo Instituto de Permacultura do Cerrado (Ipec), localizado em Pirenópolis/ GO. A proposta é mostrar que uma família de cinco pessoas pode viver com qualidade e de forma sustentável, num espaço de terra de um hectare. Para provar que a idéia da certo, o Ipec está construindo um sítio que funciona como um laboratório de integração de tecnologias sustentáveis. Nele, haverá um sistema de captação e armazenamento de água, um sistema de coleta, distribuição e tratamento de efluentes, um sistema de biofertirrigação, um sistema habitacional e sistemas produtivos com enfoque na suinocultura. O projeto também tem como objetivo pesquisar e gerar oportu-

RODRIGO FARHAT

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“Nas aldeias, costumamos fazer rodas de conversa, sentar à beira da fogueira e escutar os idosos. As informações são transmitidas pelo boca-a-boca. Com o Índios On Line, aproveitamos nossa facilidade para contar histórias, colocamos na internet e divulgamos para o mundo”. Esse Portal esteve entre as 39 experiências apresentadas na Mostra de Tecnologias Sustentáveis, realizada em São Paulo, no mês de junho, simultaneamente à Conferência Internacional – Empresas e Responsabilidade Social 2009, do Instituto Ethos. Sem a pretensão de ser uma feira de produtos, de empresas ou de ciências, a exposição proporcionou ao visitante, um ambiente inspirador, onde foi possível ver, interagir e conhecer o funcionamento de tecnologias sustentáveis, assim como suas limitações e os requisitos para o seu adequado desempenho. Para João Gilberto Azevedo, gerente executivo do Instituto Ethos, os objetivos da Mostra foram alcançados: “Criarmos uma relação muito democrática entre todas as iniciativas. Empresas multinacionais e milionárias tiveram exatamente as mesmas condições de participação de outras iniciativas. Além disso, as experiências foram muito complementares, desde tecnologias sociais até equipamentos e máquinas tradicionais”. O professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), Francisco Samonek, também aprovou a realização da Mostra: “Conseguimos conversar sobre algumas parcerias. Alguns projetos poderão surgir em função de pessoas que participaram da exposição. Além disso, foi possível ter uma idéia do

Participante do Projeto Encauchados, que promove a inclusão social das populações indígenas e das comunidades de seringueiros.

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INCLUIR PRIMEIRO PLANO . ANO 4 . NO 14 . JULHO 2009

nidades de negócios sustentáveis na zona rural. O Sítio Sustentável busca soluções que viabilizem o cotidiano de uma família rural por meio de práticas sustentáveis, ao mesmo tempo em que identifica oportunidades de novos negócios e soluções para os produtos do setor agrícola. A Mostra permitiu uma maior divulgação dessa iniciativa. Para o fundador e diretor do Ipec, André Jaeger Soares, “os resultados foram excelentes. O Ecocentro Ipec e o Sítio Sustentável tiveram grande visibilidade perante um público formador de opinião e a troca com os outros participantes foi muito frutífera”. As tecnologias expostas na Mostra buscavam oferecer soluções relacionadas a variáveis críticas para a sustentabilidade, tais como energia, gases de efeito estufa, consumo de materiais, resíduos, água, biodiversidade, equidade, diversidade, integridade e combate à corrupção, trabalho decente e inclusão social. As iniciativas estão aplicadas na gestão sustentável dos seguintes contextos: cidades, negócios rurais e conservação e manejo sustentável de ecossistemas. Dentre as tecnologias sustentáveis que podem ser implementadas no meio urbano, há o Aquecedor Solar de Baixo Custo (ASBC), desenvolvido para substituir a energia elétrica usada para o aquecimento de água em casas e apartamentos. Utilizando materiais termoplásticos da construção civil, como tubos de PVC, boia e caixa d’água, a tecnologia custa 10% do preço de um aquecedor solar comum. A idéia de desenvolver o produto nasceu em 1992, com o apoio

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do Sebrae, para ser apresentado durante a Eco 92, no Rio de Janeiro. A partir daí, a equipe continuou estudando formas para baratear o custo dos aquecedores solares. Em 2001, foi fundada a ONG Sociedade do Sol, sediada no Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec), no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), da Universidade de São Paulo (USP), com o objetivo de democratizar o uso da água quente. A tecnologia atinge uma parcela da população que dificilmente teria acesso a aquecedores a gás ou solares. Seu uso resulta numa economia de 25% a 50% do custo da energia. A Sociedade do Sol disponibiliza manuais de manufatura do ASBC em quatro línguas e assistência técnica gratuita oferecida por 60 monitores voluntários, que atendem por meio de carta, email ou pessoalmente. A tecnologia é hoje utilizada em países da América Latina e na África. O ASBC pode aquecer de 200 a 1.000 litros de água diariamente. Essa capacidade permite que o sistema seja aplicado também em hospitais e creches, além das residências. O engenheiro eletrônico Augustin Woelz, coordenador da ONG Sociedade do Sol e um dos criadores do Aquecedor Solar de Baixo Custo ou Aquecedor Popular afirmou que, durante a Mostra, foi possível realizar alguns contatos com companhias de eletricidade: “Foi muito interessante. As distribuidoras estão começando a entender que o aquecimento solar é uma ferramenta a favor delas. Há empresas que estão utilizando nossa tecnologia Brasil afora, como seus programas sociais”.

O Papel do Estado “Estamos mais uma vez confrontados com um desafio fundamental: responder à questão ‘qual Estado para qual desenvolvimento’? Precisamos de um Estado enxuto, porém proativo na economia, no social e consciente dos perigos que nos ameaçam caso não saibamos nos conduzir de uma maneira menos predatória com relação à natureza. Para avançar no sentido de propor soluções que aproveitem os recursos naturais existentes em cada lugar, para produzir o que é necessário para satisfazer as necessidades básicas das populações locais, precisamos de um feixe de políticas públicas convergentes e que se complementem: acesso à terra, capacitação, assistência técnica permanente, créditos preferenciais e acesso organizado ao mercado - a começar pelos mercados institucionais - e acesso às tecnologias apropriadas.”

As Tecnologias “Que tecnologias? Elas devem ser sempre, em todos os lugares e circunstâncias, intensivas em conhecimento. É do conhecimento que surge o progresso. Mas elas devem ser ao mesmo tempo intensivas em mãos de obra. Não podemos nos dar ao luxo de só avançar através de tecnologias de alta produtividade e alto conteúdo científico que deixam à margem da estrada milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, elas precisam ser poupadoras dos recursos potencialmente escassos, dos solos agricultáveis, da água e, evidentemente, dos recursos financeiros. Não temos de onde tirar os bilhões que seriam necessários para avançar apenas com tecnologias de alto conteúdo tecnológico criando ao mesmo tempo um número suficiente de oportunidades de trabalho decente. Essa tecnologias têm que ter ainda alguns atributos. Não podem descer abaixo de um certo nível de produtividade para que se assegure remuneração digna, têm que ser fáceis em sua aplicação e na medida do possível ser compatíveis com a pequena escala de produção, porque nosso público são os


Ignacy Sachs

CLÁUDIO REIS

Diretor do Centro de Pesquisas do Brasil Contemporâneo na Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais, em Paris, o economista francopolonês Ignacy Sachs é também um dos pais do conceito de desenvolvimento sustentável. Em depoimento à Rede de Tecnologia Social (RTS), Sachs reflete sobre desafios e destaca as oportunidades trazidas pelas Tecnologias Sociais no bojo da crise econômica mundial.

Por Vinícius Carvalho, do Portal da RTS

Desafios do século XXI “Nesse começo de século XXI, estamos enfrentando dois grandes desafios. O primeiro é o desafio das mudanças climáticas. Se não conseguirmos reduzir drasticamente a emissão de gases geradores de efeito estufa, corremos o risco de criar mudanças climáticas deletérias e em boa parte irreversíveis. O segundo desafio do século é social. Estamos vivendo numa economia mundial que se caracteriza por um déficit crônico de oportunidades de trabalho decente. Quando eu falo trabalho decente, utilizo a definição da OIT: é decente o trabalho razoavelmente remunerado, nas condições de cada economia, realizado em condições que não atentem contra a saúde do trabalhador e dando lugar a relações de trabalho que não ferem a sua dignidade. Como fazer com que a luta estrutural contra a pobreza se combine com as medidas

de caráter ambiental? Como fazer com que as soluções propostas sejam simultaneamente soluções para dois problemas? Este é o desafio de hoje e é nele que devemos inscrever a busca de novas tecnologias.”

Soluções que já existem “Acho que esta área das Tecnologias Sociais (TSs) é extremamente relevante. O que se faz necessário para se passar a uma velocidade maior para a geração, disseminação e aplicação destas novas tecnologias de alto impacto social, custo moderado e uso razoavelmente fácil? Acho que, antes de mais nada, devemos continuar na tarefa da identificação das tecnologias já existentes e cuja introdução em lugares onde não são conhecidas gera imediatamente um processo de inovação com impactos sociais importantes. Schumpeter fazia uma diferença fundamental entre o que é invenção e inovação. A inovação é uma combinação nova de fatores de produção num lugar dado, ou seja, se eu aplico uma tecnologia de produtividade superior a que estou usando, eu estou criando um caso de inovação tecnológica que se produz por efeitos econômicos, sociais e ambientais. A RTS tem aí um p apel fundamental: identificar, registrar, descrever e disseminar esses conhecimentos.”

Difundindo as TSs “Seria interessante haver unidades permanentes de demonstração das tecnologias da RTS nas grandes cidades, para que o público possa as ver.

É uma coisa falar em abstrato da energia eólica e outra ver uma eólica que funciona. O mesmo vale para o Pais (Produção Agroecológica Integrada e Sustentável). Ninguém sabe o que é. É melhor ver na prática uma mandala com um galinheiro no meio e uma irrigação simples e comprovar que em meio hectare é possível produzir muita comida para a família e para o mercado a um custo moderado. Uma vez que certas tecnologias demonstram na prática o seu valor, vem a questão dos zeros. Ou seja, como passar de uma escala pequena para uma grande escala? Evidentemente, esse impacto é diferencial deve ser adaptados à condição de cada bioma.”

O papel da invenção “Não devemos ficar unicamente na disseminação das tecnologias já existentes. Devemos ter a ambição de estimular a invenção de novas tecnologias que obedeçam a essa mesma equação. Daí a importância de intensificar colaborações entre a RTS, universidades e institutos de pesquisa. Precisamos de editais específicos para gerar propostas de novas tecnologias que obedecem aos critérios que nos interessam. É preciso parcerias mais sistemáticas com todos os programas que têm como objetivo a luta estrutural contra a pobreza através da inclusão social pelo trabalho.Precisamos propor soluções ousadas sem nos limitar aos percalços do caminho. Sempre haverá sucessos e fracassos”.

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agricultores familiares e os micro-empreendimentos. Portanto, não podemos unicamente ficar pensando em soluções que passem pela grande escala. É importante que essas tecnologias não fiquem unicamente no que é comercial e gera mercado, mas atuem diretamente sobre o nível de vida das populações por meio de tecnologias domésticas. Como reduzir o número de horas que as mulheres gastam para buscar lenha e água? Como melhorar as condições de habitação? São questões que requerem insumos tecnológicos de enorme impacto social, embora não se traduzam pela criação de mercados para produtos.”


Ferida social

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AO DETECTAR AS CONDIÇÕES DAS PENITENCIÁRIAS E DELEGACIAS DE SANTA CATARINA, UM DOS ESTADOS COM OS MENORES ÍNDICES DE CRIMINALIDADE DO PAÍS, HERMÍNIO NUNES EXPÕE UMA CHAGA DA NOSSA SOCIEDADE QUE SE TORNA CADA VEZ MAIS ABERTA

Pente Fino - Prêmio Herzog, em 2008

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Hermínio Nunes é fotojornalista há algumas décadas. Experiente na profissão, trabalhou para o Jornal do Brasil, o Washington Post e nos últimos anos, atua em veículos impressos de comunicação catarinenses. Foi diretor do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina por três gestões e atualmente compõe o Conselho Fiscal da Associação Brasileira da Propriedade Intelectual dos Jornalistas Profissionais. Registrando o dia-a-dia da Grande Florianópolis, deparou-se com situações que, num primeiro momento, poderiam ser confundidas com imagens típicas de grandes centros, com seus problemas estruturais e humanos. A situação do sistema carcerário é o exemplo mais concreto. Ao fazer o

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ENSAIO

de difícil cura


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Acorrentados, Prêmio Olívio Lamas de Fotografia 2008

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registro das condições do sistema prisional de Santa Catarina, um dos estados com os menores índices de criminalidade do país, o fotógrafo mostra que essa é uma ferida social de difícil cura. Nas imagens deste ensaio, estão alguns desses momentos. Duas fotos, inclusive, foram premiadas. A imagem in-

titulada Pente Fino tirada na Penitenciária de São Pedro de Alcântara (uma pequena comunidade na região metropolitana de Florianópolis, colonizada por alemães no início do século passado), foi menção honrosa nos prêmios Olívio Lamas e Vladmir Herzog 30 anos, na cerimônia que marcou os 60 anos


ENSAIO lidade de vida das pessoas, na oferta de mecanismos de requalificação e readaptação dos presos à sociedade. A denúncia da precariedade no sistema carcerário, num estado considerado de boa qualidade de vida, mostra que há um longo caminho a ser percorrido e uma chaga humana a ser curada.

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da Declaração dos Direitos Humanos. Já a foto Acorrentados, recebeu o Prêmio Olívio Lamas de Fotografia, promovido pelo Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, em 2008. Num momento em que se discute a sustentabilidade, não é possível pensar só em meio ambiente, mas na qua-

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AGENDA GLOBAL PRIMEIRO PLANO . ANO 4 . N O 14 . JULHO 2009

Accor tem Data Center Verde Através de um projeto implementado pela IBM Brasil, foi criada uma infraestrutura de tecnologia que alia redução de consumo de energia ao respeito à saúde e segurança nas unidades de negócio do Grupo Accor, que congrega as empresas Ticket, Ticket Seg, Accentiv’ e Buil Up. A medida é a unificação de seus três data centers, que contarão com um ambiente de trabalho integrado, com objetivo de simplificar a gestão de tecnologia da informação, otimizar custos operacionais e reduzir o consumo de energia, incorporando conceitos de TI Verde. O projeto é parte da política de ações adotada pela empresa para tornar a área de TI ambientalmente correta. Segundo Newton Tanaka, líder da área de Serviços Integrados de Tecnologia para a IBM Brasil, o novo Data Center Verde da Accor Services, na cidade de São Paulo, traduz as melhores práticas e conceitos dos projetos mais atuais de data centers como, por exemplo, a melhor utilização do ar condicionado com a implementação de corredor quente e frio, fluxo de ar direcionado para servidores, desobstrução do piso elevado, cabeamento e calhas desenhados para facilitar o direcionamento do fluxo de ar frio para onde há necessidade real de refrigeração. “Além de reduzir custos, a empresa passa a trabalhar de uma forma mais sustentável, contribuindo para a redução de CO2 no meio ambiente”, diz Tanaka.

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Brasil e Educação Ouvir as pessoas, dando a elas voz e autonomia na construção de um país mais justo. Com esse intuito o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD, realizou em 2008 a campanha Brasil Ponto a Ponto, estimulando o debate em todo o país sobre o que precisaria ser mudado para melhorar a vida dos brasileiros. Para isso, o Programa realizou audiências públicas em sete capitais brasileiras, visitou os dez municípios com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e questionou os estudantes dos 4009 cursos de pós-graduação no país, além das consultas a mais de 12 milhões de pessoas via SMS da TIM, pela rede de consultoras da Natura e aos estudantes de 20 estados através do Conselho Nacional de Secretários de Educação. O resultado deste esforço já está servindo como

Ações ambientais da Petrobras Contribuir na redução das desigualdades sociais e minimizar os impactos no meio ambiente. Essas são as principais características que marcam as iniciativas nacionais e internacionais da Petrobrás, verificadas no Balanço Anual 2008 e Relatório Social e Ambiental, apresentados no fim de junho. Pelos documentos, no ano passado a empresa destinou R$ 1,97 bilhão para ações de meio ambiente. Com isso, afirmou o presidente Sérgio Gabrielli, a empresa conseguiu evitar a emissão de 690 toneladas de gases de efeito estufa. Soma-se a essas iniciativas o Censo para a Diversidade Petrobras, realizado junto aos funcionários, clientes e fornecedores. No relatório estão descritos mais de 2.300 projetos que receberam o apoio da empresa em 2008, nas áreas de cultura, esporte, responsabilidade ambiental e meio ambiente. O relatório está disponível na web pelo link www2.petrobras.com.br/ responsabilidadesocial


base para o próximo Relatório de Desenvolvimento Humano do PNUD. EDUCAÇÃO foi a principal resposta à pergunta “o que você acha que precisa mudar no Brasil para sua vida melhorar de verdade?” A pesquisa constatou que existe grande preocupação com relação à qualidade da educação e à falta de formação de valores nas escolas. Esse processo de consulta inédito no mundo mostrou que as preocupações dos brasileiros são as mesmas, independente das condições sociais.

A ONG WWF da Espanha anunciou seu mais recente estudo sobre os empregos verdes. No informe Low carbon Jobs for Europe está a constatação do imenso mercado que uma economia sustentável está gerando, só na Europa, 400 mil pessoas estão empregadas em empresas de energia renovável, 2,1 milhões trabalham com transporte eficiente e 900 mil atuam em ações de eficiência energética, totalizando cerca de 3,4 milhões de trabalhadores. A entidade afirma: “as atividades econômicas verdes estão superando as indústrias contaminantes em termos de geração de empregos”. Estas são responsáveis atualmente no Velho Continente por 2,8 milhões de postos de trabalho. Tais informações são muito animadoras, levando-se em conta o imenso potencial de energias limpas na América Latina.

Prêmio para a sustentabilidade Estão abertas até o dia 15 de setembro as inscrições para a 10° edição do Prêmio von Martius de Sustentabilidade, promovido pelos departamentos de Meio Ambiente e Sustentabilidade e de Comunicação Social da Câmara Brasil-Alemanha de São Paulo. A iniciativa busca reconhecer o mérito de ações de empresas, do poder público, de indivíduos e da sociedade civil na promoção do desenvolvimento em padrões socioambientais sustentáveis. O tripé do prêmio está baseado na humanidade, na tecnologia e na natureza. O patrocínio desta edição é da Gráfica Bandeirantes, Henkel e Tetra Pak, e o apoio, do Ministério do Meio Ambiente, PNUMA,WWF-Brasil, CSR, CarbonFix, Sustentax e do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS). Informações, regulamento e inscrições: www.premiovonmartius.com.br

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Mais empregos verdes à vista


ENTREVISTA

entrevista ENTREVISTA 56

“O MÉRITO DA FUNDAÇÃO BANCO DO BRASIL É RECONHECER OS MÉRITOS ALHEIOS”

O Brasil como tema

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om a proposta de financiar projetos que buscassem soluções para problemas sociais, em 1988 começa a operar a Fundação Banco do Brasil, já com projetos em várias regiões do país. Em 1992 a instituição inicia um processo de reorganização interna com mudanças no seu estatuto. Nele foi introduzida a apresentação de planos anuais e plurianuais, que pautam a ação por meio de diretrizes e políticas previamente definidas para ampliar a função social do instituidor, o Banco do Brasil. A partir de 1996, com novo estatuto em vigor, a Fundação cria programas próprios. E desde então, a cada ano, novos temas vão sendo incorporados na atuação da entidade, pautados pelos grandes assuntos nacionais. Em 2000 a Educação norteou as ações. No ano seguinte entra em cena o Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social, com a mobilização de ONGs, universidades, governos estaduais, prefeituras, fundações e institutos de todo o país. Isso possibilitou a criação de um cadastro de soluções inovadoras para problemas sociais em áreas diversificadas: o Banco de Tecnologias Sociais. Com ele, a Fundação assumiu como diretriz a disseminação de conhecimento e experiências geradoras de

transformação social positiva. Somam-se a esta, várias outras iniciativas que integram educação, geração de trabalho e renda, desenvolvimento local e tecnologias sociais. Jacques de Oliveira Pena, acompanhou toda essa trajetória ao longo de seus 31 anos de trabalho no Banco do Brasil e atualmente, preside a Fundação. Mineiro de Caratinga, casado, pai de quatro filhos, com formação em História e Administração Pública e de Empresa, nesta entrevista, fala das ações da instituição, dos desafios e da satisfação com os resultados obtidos: “Nosso único mérito é reconhecer os méritos alheios”. Que princípios norteiam as ações da FBB? Jacques Pena - Nosso compromisso é com uma mudança positiva na situação do país. E a geração de trabalho e renda através da inclusão produtiva é fundamental para essa mudança. Buscamos integrar a geração de trabalho e renda à educação e às tecnologias sociais. Apesar de áreas distintas, em muitos casos elas se relacionam, de acordo com as especificidades de cada projeto e cada região do país. Há um número maior de iniciativas patrocinadas pela Fundação na Região


ENTREVISTA

DIVULGAÇÃO FUNDAÇÃO BANCO DO BRASIL

JACQUES DE OLIVEIRA PENA Presidente da Fundação Banco do Brasil

produtiva, constatamos que a perspectiva do empreendimento é maior. Exemplos concretos são os projetos com agricultura familiar em diversos setores, como apicultura, artesanato, cajucultura, mandiocultura, ovinocaprinocultura e até com materiais recicláveis (neste último caso, com comunidades carentes de Brasília e Belo Horizonte). Imagine que a instalação de

uma unidade familiar de produção agroecológica (PAIS) de uma dessas cadeias produtivas em um município com 10, 15, 20 mil habitantes, gera diretamente cerca de 20 empregos e alcança até 500 agricultores. Acompanhando a origem até o produto final, temos uma melhoria na qualidade de vida com a garantia da renda. Isso promove o desenvolvimento local.

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Nordeste. Por quê? JP - Apesar de termos ações em todo o Brasil, priorizamos iniciativas que envolvam cadeias produtivas e inclusão digital fortemente na Região Nordeste. Por serem cidades ou comunidades menores e com mais carência de investimento, os projetos acabam tendo uma ação bastante abrangente. Ao trabalharmos com os diversos elos da cadeia

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ENTREVISTA

entrevista ENTREVISTA

Na visão da FBB, o que são as tecnologias sociais e como elas podem transformar a realidade das pessoas e comunidades? JP - Para a Fundação, as tecnologias sociais e o banco de tecnologias que instituímos são uma ferramenta muita importante de articulação de parcerias e conhecimento de iniciativas. Desde que criamos o Prêmio de Tecnologias Sociais como forma de atrair projetos, conhecemos iniciativas excelentes e vimos trabalhando nelas. As iniciativas premiadas são certificadas e financiadas pela Fundação e isso tem dado muito certo há oito anos. Alguns temas que estão sendo trabalhados atualmente são saneamento básico rural, recursos hídricos, juventude, participação das mulheres. Fica difícil enumerar todas as ações num universo de cerca de 2000 projetos em andamento. Há iniciativas que terminam em um ano, outras que duram muito tempo, em parcerias com prefeituras, ONGs ou consultores por projeto. Só com o AABB Comunidade estamos com uns 400 municípios por todo o país. E outras ainda que, acreditamos, logo se sustentarão e serão permanentes, que são os PAIS. Esse programa é uma tecnologia social que usa uma metodologia de cultivo orgânico, baseada na otimização do uso sustentável de recursos naturais e socioeconômicos, sempre respeitando a integridade da cultura local. Em parceria com o Sebrae e com o Ministério da Integração Nacional, queremos instalar 1080 unidades em nove estados do semiárido nordestino.

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E como a transversalidade acontece nos programas da Fundação? JP - De muitas formas. No AABB Comunidade, por exemplo, con-

gregamos ações de educação, saúde, cultura, esporte e lazer e, mais recentemente, estamos desenvolvendo o Alimentação Sustentável, onde atuamos diretamente com mais de 50 mil crianças. Também desenvolvemos, desde 2005, o Projeto Olhos N´Água que se propôs a fazer um diagnóstico nacional Socioambiental de Educação Ambiental e a partir dele, realizamos cinco encontros regionais e uma mostra de Educação Ambiental do Programa Integração AABB Comunidade, que aconteceu em Brasília. Já com comunidades quilombolas, o foco vem sendo a geração de trabalho e renda e a educação. Temos ain-

Apostar nas tecnologias sociais,nas experiências das comunidades geradas pelo conhecimento popular é o nosso principal objetivo da o BB Educar, um programa de alfabetização de jovens e adultos que até 2008 já tinha formado mais de 35 mil alfabetizadores e permitido o acesso ao mundo da escrita a quase 370 mil pessoas em praticamente todos os estados do país. Isso nos dá muito orgulho. Outro exemplo de transversalidade: o Projeto Alfainclusão, que a Fundação desenvolveu em parceria com o Ministério da Educação e o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). Foram escolhidas para este projeto-piloto as comunidades de Arinos (MG) e Brazlândia (DF) pelo baixo índice de desenvolvimento humano e pela inexistência de

políticas públicas voltadas para a alfabetização de jovens e adultos. Foi uma experiência vivenciada tanto em uma comunidade com perfil rural (Arinos), como em uma urbana (Brazlândia). O resultado foi o nascimento de uma cooperativa, a UROCOOPER (Arinos/MG) e de uma associação, a Associação Artes & Atos (Brazlândia/DF), organizadas por alfabetizandos e alfabetizadores. Ali vimos que a alfabetização aliada a ações de geração de renda, nos moldes da economia solidária, contribuem de forma permanente na modificação da realidade social. E o Prêmio de Tecnologias sociais promete mais ações para os próximos anos... JP - Sim. Aumentamos o valor destinado aos projetos premiados e por isso, agora selecionamos menos projetos, mas mais articulados, de mais alcance social. Participar de 800 projetos por ano é um grande desafio. Para as inscrições do prêmio que se encerraram agora em junho, tínhamos a expectativa de ampliar para as regiões Norte e Centro-Oeste também, alcançando cerca de mil projetos. Apostar nas tecnologias sociais, nas experiências das comunidades geradas pelo conhecimento popular, é o nosso principal objetivo. Nosso único mérito é reconhecer os méritos alheios. Tem também o Projeto Memória... JP - Ah sim, para nós esta iniciativa que partiu da Fundação é muito importante. Através dele, a cada ano, resgatamos a biografia de uma importante pessoa da história do Brasil. Em 2008 foi o marinheiro João Cândido, o líder da Revolta da Chibata de 1910, no Rio de Janeiro. Para este ano a personalidade é o Marechal Cândido Rondon e em 2010, será Carlos


A Fundação está diretamente ligada ao Banco do Brasil, que é o seu financiador direto. Mesmo assim há relação das ações da FBB com a política de responsabilidade socioambiental do Banco? JP - Temos ações de compromissos de responsabilidade do Banco do Brasil com as metas do milênio. Desenvolvemos aqui na Fundação projetos que chegam através dos comitês criados no BB ou de origem de voluntariado dos próprios funcionários. Além

Como o senhor vê o tema “sustentabilidade” no seu cotidiano, na Fundação e nos locais que passa? JP - Eu viajo muito, praticamente metade do meu tempo estou viajando. Aestrutura da Fundação está centrada em Brasília. Aqui temos um compromisso ambiental que vai da reciclagem, da economia de papel, aos programas que desenvolvemos que, em última instância, visam fortalecer o conceito e a aplicação real da sustentabilidade. Mas no geral, o que percebo quando viajo, é que isso ainda não é uma prática comum. Há boas idéias em municípios, em hotéis, por exemplo, mas é tudo muito residual. Entendo que a sustentabilidade planetária dependerá das ações diretas na vida das pessoas e é um processo gradativo de consciência.

FOTOS DIVULGAÇÃO FBB

Ao trabalharmos com os diversos elos da cadeia produtiva, constatamos que a perspectiva do empreendimento é maior.

ENTREVISTA

disso temos várias formas de parceria com o BB, com diversos públicos de relacionamento. Por exemplo, parte dos recursos obtidos com o Seguro Mulher é destinada para a Fundação.

Manual e cartilhas sobre o Sistema Pais A Fundação Banco do Brasil lançou um kit de publicações com um Manual de Capacitação da Tecnologia Social PAIS e cinco cartilhas sobre os temas Prática Agroecológica, Gestão do Sistema Produtivo, Comercialização, Empreendedorismo Solidário e Associativismo. As publicações são voltadas aos produtores agroecológicos e aos multiplicadores da Tecnologia Social que foram ou serão capacitados nos diversos projetos em andamento no país. Com o apoio do material, os multiplicadores poderão efetuar a reaplicação, capacitando e treinando novos técnicos, o que poderá possibilitar a criação da futura Rede de Reaplicadores da Tecnologia Social PAIS. O PAIS é composto por canteiros circulares (para o cultivo de hortaliças), um galinheiro (com capacidade para dez aves) e o quintal agroecológico (voltado a culturas perenes). A irrigação é feita por sistema de gotejamento e a adubação, sem produtos químicos. Para uma família de cinco pessoas, é necessário um terreno com cerca de 5 mil metros quadrados para a implantação do sistema. Cada unidade tem o custo aproximado de R$ 8,8 mil, incluindo dois anos de assistência técnica. Outras Informações www.fundacaobancodobrasil.org.br

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Drumond deAndrade. Quem define os nomes é o Conselho de Curadores da Fundação, que é composto por onze representantes da sociedade civil. Em cada edição, o trabalho consiste em publicar um livro com tiragem de 16 a 18 mil exemplares, um almanaque do professor, um vídeo e uma exposição itinerante pelo país. A partir disso, promovemos um concurso nacional de redação, o que tem sido muito prazeroso pelo retorno de estudantes de todo o país.


MEU MUNDO

Trabalhar dá dignidade na vida

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E

is aqui uma autêntica “carioca da gema”. Nascida no ano de 1944 em Madureira, bairro famoso por ser o berço da escola de samba Portela, Leci Brandão da Silva foi criada em Vila Izabel, outro recanto do samba. Mas apesar disso, seu coração é da Mangueira. Tanto que foi a primeira mulher a fazer parte da ala de compositores da escola. De família carente, tem como lembrança inesquecível de sua infância, o dia que ganhou uma bicicleta “muito bonita comprada com sacrifício” pelos seus pais. Como a maioria dos jovens carentes de nosso país, começou a trabalhar muito jovem e para os estudos só sobravam as noites. Trabalhou em vários lugares e, na Faculdade Gama Filho, alcançou o posto de chefia. Mas a música estava nela desde o nascimento.

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“BUSQUEI ALTERNATIVAS DE SOBREVIVÊNCIA ARTÍSTICA. JAMAIS DEIXEI DE TRABALHAR, POIS SOU CHEFE DE FAMÍLIA”

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MEU MUNDO

nas social. Simplesmente é hipocrisia!”. É enfática ao defender a educação humana e ambiental. “Se medidas urgentes não forem tomadas, no sentido de haver conscientização para preservar a natureza e respeitar os seus semelhantes, caminharemos para o desequilíbrio global e novos conflitos entre povos.” Mesmo com essa permanente preocupação global, Leci Brandão segue apostando na vida. “Sonho em gravar o segundo DVD da minha carreira”. E no seu dia a dia, mantém essa consciência. “Trabalho sempre. Fora dos palcos tenho vida normal de cidadã. Vou ao supermercado, à feira livre, ao posto de gasolina abastecer meu carro nacional e administro os encargos familiares. Procuro orientar as pessoas que precisam e ajudo os necessitados sempre que posso. Sou altruísta, muito justa e tento mostrar às pessoas que trabalhar dá dignidade na vida.”

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FOTOS ANA OLIVEIRA

Em 1973 foi descoberta pelo o crítico musical e jornalista Sérgio Cabral. Daí veio o primeiro, dos 23 discos gravados ao longo de sua carreira de mais de três décadas. Suas canções retratam a vida do trabalhador, falam do cotidiano popular, das alegrias e tristezas amorosas, da diversidade brasileira e da defesa das minorias. Por essa opção pela música de cunho social, Leci foi impedida de gravar em 1980. Só conseguiu retornar às gravadoras cinco anos depois. Mas isso não foi obstáculo para continuar cantando. “Busquei alternativas de sobrevivência artística. Jamais deixei de trabalhar, pois sou chefe de família”. Atualmente a cantora integra o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial e o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. Para ela, “é lamentável e inadmissível que ainda haja preconceito no nosso país. Pior de tudo é a afirmação de que o preconceito é ape-


CELULAR AZUL

soluções

É da Samsung a última novidade em th, um telefone co celular: o Blue Ea rm tela tátil que fu nciona com ener lar. Além da recarg gia soa com energia reno vável, o equipamen feito com plástico to é reciclável (PMC) que é extraído de fas d’água. També garram não são utilizad os BFRs (retardan de chamas à base tes de bromo) e outro s compostos quím Outro destaque no icos. aparelho é o UI (u ser interface), qu ma a atenção do e chausuário para a pres er vação ambiental. este primeiro celu Mas lar ecológico aind a não está dispon venda no Brasil. ível para

E-BIKES É de Goiás a empresa brasileira que desenvolveu projeto de motorização para bicicletas a partir de eletricidade. As “e-bikes”, aproveitam as características originais das bicicletas e alcançam um público bastante variado - de crianças a idosos com mais de 80 anos, passando pelo uso no trabalho, como empresas de delivery. As ebikes já são realidade em grandes cidades mundiais e no Brasil, uma bicicleta elétrica pronta custa em torno de R$ 2.700. Mas é possível adaptar qualquer bicicleta a partir de um kit, que o próprio proprietário monta. Neste caso, o investimento não ultrapassa R$ 2.000. Este projeto permite um uso híbrido da bicicleta: ela pode ser 100% pedalada, 100% motorizada, ou alternar de acordo com a conveniência. Cada vez que o usuário pedala, a energia acumulada nas baterias será poupada e garantirá maior autonomia, chegando facilmente a 50km. Para carregar a bateria, basta conectar a bicicleta a uma tomada comum ( 110 ou 220 Volts). Contatos no site: www.brazilelectric.com.br

DESCARGA ECOLÓGICA

Há tempo se discute o deserdício de água nos modelos atuais de caixas d’água para sanitários. Mas já estão disponíveis para venda caixas de descarga altas, econômicas e bastante usadas ainda em habitações de baixa renda. Uma das novidades é a Amanco Eco Caixa, que utiliza seis litros de água e garante a limpeza total dos sanitários, em vez das tradicionais caixas de 9 litros. A empresa, inclusive, já retirou todos os modelos antigos do mercado. Além de reduzir em um terço o consumo de água, a Eco Caixa, com novo design, aproveita todo o espaço interno, sem abertura lateral para evitar vazamentos, tem dispositivo de controle de odores e um mecanismo que impede a entrada de água enquanto a corda é puxada. O preço é similar ao modelo antigo.

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CUIDADO AMIGO A PROBEM - Associação de Proteção e Bem Estar Animal, sediada em Curitiba, tem uma linha de produtos cuja renda é revertida para pagar a castração de animais abandonados para adoção, ou de propriedade de famílias carentes. No portfólio há pijamas, camisetas, adesivos, bolsas e guarda-chuvas. Encomendas podem ser feitas através do e-mail: vendas@probem.org.

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Revista 14  

http://www.primeiroplano.org.br/MyFiles/revista_pp14_site.pdf

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