Page 1


2


Cara leitora, prezado leitor, A revista que você tem em mãos se propõe a aprofundar o debate sobre dois temas capitais para instituições e pessoas: responsabilidade social das empresas e desenvolvimento sustentável. O Brasil é nosso foco, em sintonia com o contexto mundial. Problemas de dimensão continental demandam respostas articuladas, gestão transparente e participação ativa das comunidades. Nessa equação não cabe mágica, mas acreditamos que é possível, sim, legar aos nossos descendentes um mundo mais justo.

APRESENTAÇÃO

A meta aqui é ser fonte de informações qualificadas, respeitando a sua inteligência, e contribuir para a tomada de decisões – sejam elas no plano pessoal, como o consumo consciente, ou de alcance coletivo, como a gestão de empresas ou de políticas públicas. Esta primeira edição destaca as necessidades de energia para o futuro do país e as alternativas em gestação. Outro tema que ganha atenção crescente e polariza opiniões é o retorno dos investimentos socialmente responsáveis. Estivemos na Conferência da Biodiversidade para verificar o que o setor privado, governos e a sociedade podem fazer pela vida no planeta. O papel da tecnologia social para a inclusão também faz parte da pauta. E o ensaio fotográfico traz três olhares sobre “ócio e negócio”. Respeito à pluralidade de idéias e a busca de soluções é nosso compromisso editorial. A atuação em rede também. Pesquisadores, organizações da sociedade civil, entidades empresariais e de caráter público são nossas parceiras na execução deste projeto. É uma honra submeter estes primeiros passos à sua apreciação. Boa leitura!

3


SUMÁRIO

EXPEDIENTE Diretor: Odilon Luís Faccio Editores: Dauro Veras e Emerson Gasperin Editoras de Arte: Maria José H. Coelho e Sandra Werle Arte: Fábio Abreu e Frank Maia Editor de Fotografia: Sérgio Vignes Fotografia: Cláudio Silva, Cristina Gallo, Marcello Vitorino Colaboradores: Daniele do Nascimento Madureira, Laís Abramo, Larissa Barros, Márcio Pochmann, Maurício Oliveira, Michelle Lopes, Paulo Itacarambi, Pieter Sijbrandij, Rhodrigo Deda, Ronaldo Baltar, Yan Boechat Impressão: Gráfica Agnus Tiragem: 10 mil exemplares

4

Contato

Rua Visconde de Ouro Preto, 308 Térreo - Centro – Florianópolis (SC) 88020-040 Tel: + 55 (48) 3025-3949 www.primeiroplano.org.br E-mail: contato@primeiroplano.org.br Parceiros Institucionais Banco do Estado de Santa Catarina (BESC) Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) Eletrosul Centrais Elétricas S.A. Fundação Vale do Rio Doce (FVRD) Instituto Observatório Social Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social Os artigos e reportagens assinadas não representam, necessariamente, o ponto de vista das organizações parceiras e do Primeiro Plano.

4 ENERGIA Plano do governo quer acabar com a ameaça do apagão e aumentar participação de fontes renováveis na matriz nacional

6 RESPONSABILIDADE SOCIAL Gestores e executivos discutem o retorno - financeiro e institucional de investimentos na área

8

BIODIVERSIDADE Uso sustentável dos recursos naturais abre oportunidades de negócios para a iniciativa privada


SEÇÕES 8 POR EXEMPLO

22

MUNDO DO TRABALHO

34 ENSAIO

46

INCLUIR

56 AMBIENTE

60 AGENDA MUNDIAL

62 SOLUÇÕES

64 MONITOR

5


por exemplo

O planeta em movimento

Atendimento personalizado Rede bancária boliviana usa caixa automático que fala línguas nativas para servir à clientela das áreas rurais

2,17 PESQUISA MUNDIAL

8

Como o próprio nome indica, World Values Survey é uma investigação em nível mundial sobre as mudanças sociais, culturais e políticas. O estudo, coordenado por uma rede de especialistas em ciências sociais, baseia-se em entrevistas com representantes de 80 sociedades de todos os continentes. Os dados obtidos compõem uma base que permite a análise de relações cruzadas, como entre os valores públicos e crescimento econômico, a contaminação ambiental e as providências para preservação, ou entre cultura política e instituições democráticas.

milhõesderesultados aparecem no Google quando se pesquisa pela expressão“desenvolvimentosustentável”.

4,17 milhõesdemenções a “responsabilidade social”aparecemno mesmo mecanismo debusca.

O cliente posta-se em frente ao terminal bancário, insere seu cartão, escolhe uma opção na tela e realiza a operação desejada. Seria uma cena comum em qualquer cidade mediana, não fosse pelos seguintes detalhes: o terminal está em uma área rural boliviana, o cliente é indígena, o acesso ao serviço dá-se por impressão digital e, em vez de lidas, as orientações são ouvidas – na língua nativa. São os caixas automáticos falantes da Prodem, que orientam o usuário em quéchua, aymara ou espanhol sobre serviços como saques, transferências e pagamentos.

Para muitos bolivianos – sobretudo os residentes em áreas rurais, onde predominam os idiomas indígenas – os caixas automáticos falantes representam seu primeiro contato com um banco. Trata-se de um público significativo: 40% de toda a população vivem fora das cidades, dos quais 29% (sendo 2/3 mulheres) não sabem ler nem escrever. Dona da maior rede daquele país, a Prodem tem 40% de seus terminais intalados em zonas rurais. Mais de 70% de suas 190 mil cadernetas de poupança são de pessoas que jamais haviam feito qualquer aplicação. Metade de seus US$ 110 milhões destinados a empréstimos financia empreendimentos de mais de 10 mil bolivianos na área rural.

www.

www.

worldvaluessurvey.org (em inglês)

prodemffp.com (em inglês e espanhol)


10

FATORES ECONÔMICOS, SOCIAIS E AMBIENTAIS E DESENVOLVIMENTO INDUSTRIAL, TECNOLÓGICO E EMPRESARIAL IRÃO MOLDAR O CENÁRIO

1

Centros de atividade e conômica passarão por profundas mudanças, não apenas globalmente, mas também regionalmente, como conseqüência da liberalização econômica, de avanços tecnológicos e do desenvolvimento dos mercados de capital. Atualmente, a Ásia (exceto Japão) gera 13% do PIB mundial, enquanto a Europa ocidental responde por mais de 30%. Nos próximos 20 anos, esses dois números vão ficar cada vez mais próximos.

2 3

O envelhecimento da população nos países desenvolvidos vai exigir novos parâmetros de eficiência e criatividade dos serviços oferecidos pelo governo. Sem ganhos de produtividade, os benefícios pagos pela previdência elevarão os impostos a níveis alarmantes. O perfil do consumidor mudará e se expandirá significantemente. Impulsionados pelo crescimento econômico em países emergentes, que elevará os US$ 5 mil anuais de renda doméstica, quase 1 bilhão de novos consumidores entrarão no mercado global na próxima década. Até 2015, o poder de consumo em economias emergentes crescerá de US$ 4 trilhões para mais de US$ 9 trilhões – praticamente o mesmo valor da Europa ocidental.

4

A conectividade transformará o jeito de as pessoas viverem e interagirem. Indivíduos, setores públicos e empresários estão aprendendo como fazer o melhor uso da tecnologia da informação para desenvolver e compartilhar processos e conhecimento. Conquistas em campos como biotecnologia, tecnologia laser e nanotecnologia estão avançando bem além dos domínios de produtos e serviços. Mais de 2 bilhões de pessoas usam celulares.

tendências para ficar de olho Enviamos mais de 9 trilhões de emails por ano. São feitas mais de 1 bilhão de pesquisas por dia no Google, sendo mais da metade em outros idiomas que o inglês.

5 6

Para muitos governos e empresas, as práticas de recrutamento de profissionais altamente qualificados vão se tornar tão importantes quanto as estratégias de compras e de produção. A crescente integração do mercado de trabalho global, contudo, facilitará o acesso a novos talentos de paises emergentes. Com a expansão global dos negócios e a intensificação do debate ambiental, as grandes corporações serão rigorosamente fiscalizadas. Princípios como retorno aos acionistas, livre comércio, direitos de propriedade intelectual e remessas de lucros não são compreendidos nem aceitos em várias partes do mundo. Escândalos e contratempos ambientais parecem tão inevitáveis quanto a probabilidade de atingirem grandes proporções, gerando ressentimentos e despertando reações políticas e regulatórias.

7

Inovação em tecnologia e regulamentação do uso de recursos naturais serão essenciais para forjar um mundo em que crescimento econômico e sustentabilidade caminhem juntos. Projeções apontam que a necessidade de petróleo vai aumentar em 50% nas próximas duas décadas. O uso de commodities como ferro, cobre e alumínio, por exemplo, praticamente triplicou na China nos últimos dez anos. A

CORPORATIVO NOS PRÓXIMOS ANOS. A PREVISÃO É DA RENOMADA CONSULTORIA MCKINSEY, QUE DESTACA OS PONTOS A SEGUIR: falta de água será o obstáculo principal para o crescimento de muitos países. E a atmosfera precisará de uma mudança drástica no comportamento humano para estancar suas perdas.

8

Em resposta às mudanças nas regras de mercado e ao advento das novas tecnologias, modelos não tradicionais de negócios estão florescendo. Em muitas indústrias, está surgindo uma estrutura com poucos gigantes no topo, um nível intermediário estreito e uma base repleta de atores pequenos e dinâmicos. Em pararelo, as fronteiras corporativas estão se tornando menos definidas, resultando em “ecossistemas” interligados de fornecedores, produtores e consumidores.

9

Companhias maiores e mais complexas exigirão novas ferramentas de gestão. Inovações tecnológicas e soluções de controle estatístico tem possibilitado novas abordagens em gerenciamento. A gestão intuitiva é passado: os líderes empresariais de hoje aplicam sofisticados modelos matemáticos para a tomada de decisões, utilizando softwares de ponta como suporte.

10

O acesso irrestrito à informação, cada vez mais disponível e especializada, modificará a economia do conhecimento. Novos modelos de produção, acesso, distribuição e propriedade de conteúdo estão surgindo. Comunidades, e não indivíduos, estão se tornando responsáveis pelas inovações, freqüentemente desenvolvidas em código aberto. De 1990 a 2004, os pedidos de patenteamento cresceram 20% por ano em todo o mundo. Companhias precisarão aprender a lidar enxurrada de informações.

9


Refletindo em números Estimativas sobre a população mundial em 2050 Œ A India será o país mais populoso, com 1,61 bilhão de habitantes, superando a China em 180 milhões. Œ O Brasil cairá de quinto para o oitavo lugar na lista dos países mais populosos, com 228 milhões de habitantes.

Copa além das quatro linhas Uma partida de futebol pode tocar em questões que ultrapassam o âmbito esportivo. Saiba que confrontos já confirmados na Copa do Mundo da Alemanha envolvem muito mais do que 22 atletas correndo atrás de uma bola

X

ALEMANHA POLÔNIA

Œ Nigéria, Paquistão e Bangladesh terão mais habitantes do que o Brasil.

10

Œ Entre os dez países mais populosos, as nações africanas chamam a atenção por sua vertiginosa escalada. A Nigéria passará do 15° para o quarto lugar e o Congo, da 35ª para a nona posição. Œ Mesmo com a diminuição de 30 milhões de habitantes em sua população, a Rússia será o único país europeu entre os 20 mais populosos. Há um século, eram oito países. Œ A população alemã terá 9 milhões de pessoas a menos do que hoje. Œ Madagascar terá mais habitantes do que o Reino Unido. Œ Iêmen terá mais habitantes do que a França, Vietnã mais do que o Japão, Nepal mais do que a Argentina. Fonte: Governo dos Estados Unidos e McKinsey Quarterly

O ingresso da Polônia na União Européia foi a deixa para que milhares de poloneses procurassem por empregos mais bem remunerados no mercado alemão. Na via inversa, várias companhias germânicas estão transferindo sua produção para a Polônia devido aos salários, em torno de quatro vezes menores do que em seu país de origem. Mas, acima dessa integração econômica e social, paira o trauma da Segunda Guerra Mundial.

X

ESPANHA ARÁBIA SAUDITA A despeito da herança árabe na península ibérica, o embate entre os dois países exige medidas especiais de segurança desde 11 de março de 2004. Naquele dia, bombas explodiram em três estações de Madri, matando mais de 190 pessoas e ferindo mais de 1200. A multinacional terrorista Al-Qaeda, capitaneada pelo saudita Osama bin Laden, assumiu a responsabilidade pelos atentados. O banho de sangue definiu as eleições espanholas: o primeiro-ministro José Maria Aznar, que enviou tropas ao Iraque, foi derrotado pelo socialista José Luiz Zapatero, favorável à retirada dos soldados do Oriente Médio.

X X

HOLANDA SÉRVIA

HOLANDA ARGENTINA

No chamado “grupo da morte” por causa do equilíbrio entre as seleções, é a Holanda quem está marcada para morrer. Primeiro, contra sérvios e montenegrinos, dos quais boa parte ainda não acredita que seu ex-presidente, Slobodan Milosevic, morreu de causas naturais enquanto aguardava seu julgamento na Corte Internacional em Haia. Diante dos argentinos, a polêmica é mais “palaciana”: Maxima Zorreguieta, nascida em Buenos Aires, é casada com o príncipe WillemAlexander, herdeiro do trono holandês. Ou seja, a futura rainha dos Países Baixos será uma portenha.

X

PORTUGAL ANGOLA O país africano faz sua estréia em Copas do Mundo justamente com seu excolonizador. Dominada pelos portugueses desde o século 16, Angola viu o movimento pela sua libertação intensificar-se no começo dos anos 1960. A independência, conquistada em 1975, desencadeou uma guerra civil entre os três grupos nacionalistas que haviam combatido o colonialismo lusitano. Apesar da rivalidade, ambos os times são patrocinados pela mesma companhia, a Sociedade Central de Cervejas.


O Plano Decenal do governo promete afastar de vez o risco de racionamento, por meio da ampliação do número de usinas hidrelétricas e, ao mesmo tempo, da adoção de outras fontes. Se as metas forem cumpridas, o abastecimento estará garantido pelo menos até 2015 por Maurício Oliveira

12

ENE BRASIL BUSCA


A

ameaça de apagão em 2001 deixou péssimas recordações entre os brasileiros, como a obrigação de reduzir em 20% o consumo de energia e a possibilidade de corte no abastecimento de quem não cumprisse a meta. Causada pela combinação entre a falta de investimentos em infra-estrutura e o esvaziamento drástico dos reservatórios das hidrelétricas (decorrente da escassez de chuvas), a crise energética manteve a população à beira de um ataque de nervos durante seis meses. Ficou o trauma e, como em todo trauma, o fantasma de que a situação possa se repetir.

Mas quais são os riscos de que o Brasil sofra novo racionamento de energia elétrica? Se as metas do Plano Decenal divulgado pelo Ministério das Minas e Energia (MME) em março forem cumpridas, o país estará livre dessa ameaça pelo menos até 2015. Para isso, serão necessários investimentos de R$ 125 bilhões nos próximos dez anos. “O problema é que o governo está contando com uma participação da iniciativa privada que provavelmente não virá na proporção esperada”, diz o professor Célio Bermann, do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (USP), considerado um dos maiores especialistas brasileiros na área.

Um indício que reforça a afirmação do professor é a ausência dos grandes grupos privados no primeiro leilão de novos empreendimentos de geração realizado pelo governo Lula, em dezembro do ano passado, por discordarem do preço-teto estabelecido para os projetos. Diante da situação, a Eletrobrás e suas empresas controladas – que detêm 42% da capacidade geradora instalada no país – viram-se obrigadas a arrematar mais obras do que pretendiam, para que os cronogramas não sofressem atraso. Alguns analistas interpretaram esse movimento como um sinal de que o Estado ameaça retornar ao comando do setor elétrico brasileiro, dez

RGIA ALTERNATIVAS

13


ENERGIA

Osório de Brito, diretor do INEE ção, considerada improvável, de uma série de fatores, como restrições na importação de gás e resultados abaixo do esperado no Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfra). A maior preocupação do governo é assegurar que haverá energia elétrica de 2011 em diante. DIVERSIFICAÇÃO DA MATRIZ Uma das estratégias do Plano Decenal é diversificar a composição da matriz elétrica nacional. A decisão de reduzir a participação da energia hidrelétrica é motivada em grande parte pela expectativa de que a construção de hidrelétricas será um processo cada vez mais oneroso, uma vez que os melhores lugares terão sido utilizados e as novas usinas ficarão distantes dos principais centros consumidores. Além disso, há uma série de complicadores já conhecidos, como os complexos processos de licenciamento ambiental, a delicada remoção das famílias que vivem nas áreas a serem alagadas e o baixo interesse da iniciativa privada em participar das obras. As principais apostas do governo no sentido de di-

versificar o leque de opções da matriz elétrica nacional são o gás natural, que pularia da atual participação de 4,5% para 13% em 2023, e o carvão, de 1,8% para 5,4%. Alguns empreendimentos dessas modalidades aparecem com destaque no Plano Decenal, como a Usina Termelétrica a Gás de Araucária, na região metropolitana de Curitiba (PR), com 484 megawatts de potência, tida como emergencial para a região Sul. Em função da seca que deixou os reservatórios de suas hidrelétricas com 50% da capacidade, o Sul está recebendo energia do Sudeste desde o final do ano passado . Para colocar a usina em funcionamento até o final deste ano, a Companhia Paranaense de Energia (Copel) decidir antecipar investimentos de R$ 50 milhões. Já os projetos de usinas a carvão, como as de Jacuí e Candiota 3 (RS), cada uma com capacidade prevista de 350 megawatts, terão de superar obstáculos como a desconfiança de que representam uma ameaça ao ecossistema. De todas as diretrizes estabelecidas pelo Plano Decenal, contudo, a mais polêmica é a previsão de aumento da par-

Eletrobrás Termonuclear SA

14

Com o crescimento médio anual de 5,2% por ano, o consumo passaria dos atuais 346 gigawatts para 566,8 gigawatts em 2015, acréscimo de 64%. O ponto-chave da estratégia governamental para suprir essa demanda continua sendo a construção de hidrelétricas, apesar da intenção de reduzir gradualmente o peso da energia hidrelétrica na matriz elétrica nacional – dos atuais 83,9% para 71% em 2023. A primeira versão do Plano Decenal incluiu, entre os projetos a serem realizados na próxima década, a entrada em operação ou ampliação da capacidade de 82 hidrelétricas, das quais 18 estão em construção. A soma da produção dessas 82 hidrelétricas não passará, no entanto, de 23% dos 135 gigawatts de incremento previsto para a modalidade até 2015. De acordo com o Ministério das Minas e Energia, os projetos correspondentes aos demais 77% serão definidos ao longo dos próximos anos. Em função das obras já em andamento – não apenas hidrelétricas, mas também em outras modalidades –, o risco de desabastecimento nos próximos cinco anos é baixo. De acordo com estimativa da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia, seria de apenas 3%. Tal quadro só ocorreria mediante a combina-

A cana-de-açúcar poderia cobrir até 15% da demanda do país, com custos competitivos”

Qualquer um que conhece de verdade o assunto sabe que a energia nuclear é o melhor caminho para o Brasil” Odair Dias Gonçalves, presidente da CNEN


PRÓS: não produz nenhum poluente; é muito barata após a construção da usina. CONTRAS: impactos ambientais e sociais com a construção de barragens.

Steve Ford Elliottt

S.Shepeert

Brett Arnett

Hidrelétrica

Gás/Óleo

Biomassa

Nuclear

Carvão

Eólica

PRÓS: bom sistema de distribuição; fácil de obter; melhor fonte para aquecimento de espaços. CONTRAS: contribui para o aquecimento global; caro para gerar energia; grande oscilação de preços.

PRÓS: as fontes são renováveis e não causam efeito estufa; pode gerar muitos empregos. CONTRAS: monoculturas de cana para produção de álcool agridem o meio ambiente; é ineficiente se forem usadas plantas pequenas.

PRÓS: combustível barato; é a fonte mais concentrada de geração de energia; o resíduo é mais o compacto. CONTRAS: sistemas de emergência muito caros; riscos de vazamentos; resíduos radioativos por centenas de anos.

PRÓS: barato e, em alguns países (EUA e Rússia), fácil de recuperar. CONTRAS: polui o ar, contribui para a chuva ácida e o aquecimento global.

PRÓS: são as fontes mais limpas de energia; a luz do sol e os ventos são grátis. CONTRAS: o aproveitamento em larga escala é caro e depende de condições naturais especiais.

ticipação da energia nuclear, dos atuais 2,4% para 3,7% em 2023. “Teríamos de colocar mais cinco usinas em operação para alcançar essa meta. Se inaugurarmos mais sete usinas, como prevê o projeto original de Angra, conseguiríamos chegar ao percentual de 5% da produção nacional de energia”, diz Odair Dias Gonçalves, presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), autarquia vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia que planeja e regula a atividade nuclear no Brasil. EXPECTATIVA POR ANGRA III A perspectiva de colocar em funcionamento cinco novas usinas de energia nuclear em menos de duas décadas parece inviável quando se leva em conta que a construção de Angra II levou 25 anos, do início das obras em 1976 ao funcionamento comercial a partir de 2000, e que se passaram 15 anos entre o começo das operações de Angra I, em 1985, e de Angra II. A expectativa gerada a partir da divulgação do Plano Decenal é, no entanto, que o projeto de Angra III receba uma boa dotação orçamentária em 2007, para que a obra deslanche a tempo de ser inaugurada em dezembro de 2012, como previsto pelo MME. “O empreendimento está 30% realizado, com grande parte do material importado já à nossa disposição e o processo de licenciamento ambiental bem encaminhado, por ser apenas uma adaptação dos projetos anteriores”, diz o engenheiro eletricista José Manuel Diaz Francisco, superintendente de seguran-

ça da Eletronuclear, empresa do governo federal que detém a capacitação técnica para projeto, construção e operação de usinas nucleoelétricas. Apesar do investimento já realizado de US$ 750 milhões, Angra III depende de mais US$ 1,8 bilhão para ser concluída. Quando entrar em operação, a usina terá capacidade de 1.350 megawatts, equivalente a 70% da produção conjunta de Angra I e Angra II. Com isso, a Central Nuclear de Angra responderá pelo abastecimento de 50% da energia consumida no Estado do Rio de Janeiro. Uma dor de cabeça certa para o governo no que diz respeito à energia nuclear é a histórica oposição de movimentos ambientalistas. “Ninguém discorda que o Brasil precisa crescer, mas isso tem de ocorrer com base em uma matriz energética sustentável. A energia nuclear traz muitos riscos ao meio ambiente e à vida humana, sem falar em um custo por megawatt absurdamente alto”, critica o diretor de campanhas do Greenpeace, Marcelo Furtado. Para ele, a alternativa seria investir nas vocações do país. “Desfrutamos de condições naturais privilegiadas, com vento, sol e mar à vontade para gerar energia. É insensatez não aproveitar isso”, diz.

15

MATRIZ ELÉTRICA ELÉTRICA MATRIZ NACIONAL NACIONAL (em %) TIPO ATUAL 2023 (EST.) Hidráulica 83,9 71,0 Gás natural 4,5 13,0 Biomassa 4,3 4,9 Nuclear 2,4 3,7 Carvão 1,8 5,4 Eólica 1,6 Outros derivados 3,1 0,4 Fonte: Ministério de Minas e Energia


ENERGIA Virou lugar-comum descartar a energia eólica alegando que é muito cara, mas trata-se de uma questão de escala.” Ivo Pugnaloni, diretor da consultoria Enercons O presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear considera os argumentos dos ecologistas apenas emocionais, e não técnicos. “Qualquer um que conhece de verdade o assunto sabe que a energia nuclear é o melhor caminho para o Brasil”, afirma. Gonçalves ressalta que outras formas de obtenção de eletricidade em larga escala – como o carvão, o óleo e o gás natural, os chamados combustíveis fósseis – são recursos que tendem a se exaurir ou então a trazer sérios prejuízos ao meio ambiente. A expansão das hidrelétricas também tem limite: estima-se que o Brasil tenha potencial para produzir mais 250 gigawatts dessa forma.

16

BIOMASSA NA PAUTA Na proposta de diversificação da matriz elétrica, o MME não demonstrou entusiasmo pelas modalidades ecologicamente corretas. A participação da biomassa passaria dos atuais 4,3% para apenas 4,9% em 2015, apesar do interesse mundial na experiência brasileira com o álcool, elogiada até pelo presidente norte-americano, George W. Bush. Especialistas como o diretor do Instituto Nacional de Eficiência Energética (INEE), Osório de Brito, criticam o mau aproveitamento da biomassa no país. “É um desperdício injustificável. A cana-deaçúcar poderia cobrir até 15% da demanda do país, com custos competitivos”, afirma. Brito credita o “desprezo” pela biomassa à tradição brasileira de priorizar hidrelétricas e à expectativa de que o programa de álcool tivesse vida curta. “A difusão dos motores bicombustíveis está aí para demonstrar que essa história ainda vai longe”, diz. O Plano Decenal prevê que a participação da energia eólica, produzida pela força dos ventos, passaria da insignificante produção atual para 1,6% da matriz elétrica nacional. É uma alternativa que conta com a simpatia dos ecologistas e já foi adotada por países como a Alemanha, maior produtora mundial. “Virou lugar-comum descartar a energia eólica alegando que é muito cara, mas

trata-se de uma questão de escala. Quando o Brasil tiver tecnologia própria para construir os equipamentos que hoje são importados, o negócio será bastante competitivo”, prevê o engenheiro Ivo Pugnaloni, diretor da consultoria Enercons, especializada em energia renovável. RIOS DE VENTO Assim como qualquer outra nova tecnologia do setor elétrico, a energia eólica depende de investimentos prévios até ser produzida em larga escala. É nesse ponto que a expansão pode ser prejudicada, acredita Pugnaloni. Uma providência obrigatória é mapear a capacidade eólica do país, estado por estado, para encontrar os melhores “rios de vento” e aumentar a viabilidade dos empreendimentos. “É o tipo de investimento que precisa ser feito pelo governo, porque uma empresa privada sozinha não mandaria fazer um estudo desse porte”, afirma. Pugnaloni conhece bem as dificuldades enfrentadas por investidores que se aventuram pelo setor da energia no Brasil. Um projeto de energia eólica bancado por capital alemão que seria colocado em operação pela Enercons em Tramandaí (RS) – composto por 35 “pirulitos” de dois megawatts, cada um com 102 metros de altura – sofreu um grande revés. Primeiro houve a necessidade de deslocar o projeto em dois quilômetros para escapar da rota de passos migratórios. Isso fez com que a planta acabasse sendo transferida do território do município de Cidreira (RS), que o sediaria originalmente, para o de Tramandaí (RS). Em função da mudança de município, o Ministério Público Estadual considerou que o processo de licenciamento teria que recomeçar do zero e proibiu a continuação das obras. O caso foi para a justiça e não há prazo para uma solução. Enquanto isso, o investidor, assustado com os contratempos, estuda a transferência do projeto para o Uruguai. “Estamos perdendo um contrato de R$ 1 bilhão por 15 anos”, lamenta .

Das 41 hidrelétricas incluídas no relatório de fiscalização da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) sobre projetos em andamento, datado de 15 de março, nada menos que 26 enfrentam problemas para entrar em operação no prazo previsto. São entraves como atrasos no cronograma causados por vários fatores, suspensão do processo de licenciamento ambiental e demandas judiciais. É quase certo que as mesmas dificuldades ocorrerão em várias das usinas que ainda serão leiloadas. Problemas relacionados ao licenciamento ambiental levaram à exclusão de quatro projetos do leilão realizado no final do ano passado: Mauá (PR), Dardanelos (MT), Cambuci (RJ), Barra do Pomba (RJ). Um dos projetos que promete ser repleto de percalços é o da construção das usinas de Jirau e Santo Antônio (RO), ambas no Rio Madeira, principal afluente do Amazonas. Com capacidades previstas de 3.300 megawatts e 3.150 megawatts, respectivamente, as duas usinas deveriam ser as vedetes do próximo lei-


FOTOS - ITAIPU BINACIONAL

O impasse das hidrelétricas lão de energia nova, previsto para junho, mas o governo ainda não sabe se vai poder incluí-las no lote. O novo modelo do setor elétrico exige que apenas projetos já com licenciamento ambiental sejam colocados em leilão e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) está analisando o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) elaborado pelas

Furnas Centrais Elétricas e pela construtora Odebrecht para as duas usinas, sem previsão para concluir o trabalho. Além das questões ambientais, uma das preocupações das organizações não-governamentais (ongs) que atuam na região do Rio Madeira são os mais de 2 mil ribeirinhos que terão as casas alagadas sem direito a indenização, por não

possuírem documentos de posse da terra. Além disso, perderão a principal fonte de sustento, a pesca. Autoridades do setor elétrico temem que o Ibama possa vir a constatar que os projetos do Rio Madeira sejam inviáveis do ponto de vista ambiental, como fez no começo deste ano com a usina hidrelétrica de Ipueiras (TO) – que alagaria uma área de 1.066 quilômetros quadra-

dos, 80% dela coberta por vegetação original de cerrado. O projeto foi definitivamente engavetado. Outra usina hidrelétrica que enfrenta muitos contratempos é a de Barra Grande (SC). Uma coalizão de ongs havia entrado com ações civis públicas na Justiça Federal contra o prosseguimento do projeto, baseada na constatação de supostas irregularidades no processo de licenciamento ambiental. Os estudos teriam ignorado a existência, na área a ser inundada, de espécies da fauna e da flora ameaçadas de extinção.

17


ENERGIA EXPANSÃO HIDRELÉTRICA (2006-2010) USINA

RIO

Tucuruí

Tocantins

Itaipu Binacional

Itaipu

Capim Branco I

Araguari

Picada

Peixe

Corumbá IV

Corumbá

USINA

RIO

1.500

JAN/06

Dardanelos

Aripuanã

1.400

ABR/06

Mauá

Tibagi

FEV/06

Jirau

Madeira

50

MAR/06

São Salvador

127

MAR/06

240

POTÊNCIA (MW)

INÍCIO OPERAÇÕES

261

DEZ/10

388

JAN/11

3.300

JAN/11

Tocantins

243

MAR/11

Itaguçu

Claro

130

JUL/11

Parnaíba

93

DEZ/11

Irapé

Jequitinhonha

360

ABR/06

Cachoeira

Barra Grande

Pelotas

460

MAI/06

Sto Antônio do Jari

Jari

100

DEZ/11

Tibagi

120

DEZ/11

Fundão

Jordão

120

MAI/06

Telêmaco Borba

Peixe Angical

Tocantins

452

MAI/06

São Miguel

Grande Madeira

Espora

Correntes

32

JUN/06

Santo Antônio

Mascarenhas

Doce

50

JUL/06

Mirador

Tocantizinho

880

JUL/06

Maranhão Baixo

Maranhão

65

SET/06

Buriti Queimado

210

DEZ/06

Ribeiro Gonçalves

Campos Novos

Canoas

Monte Claro

das Antas

Capim Claro II

Araguari

61

DEZ/11

3.150

JAN/12

80

FEV/12

125

MAR/12

Das Almas

142

MAR/12

Parnaíba

173

MAR/12

Castro Alves

das Antas

130

DEZ/07

Uruçui

Parnaíba

164

MAR/12

14 de Julho

das Antas

100

JUL/08

Murta

Jequitinhonha

120

MAR/12

São Francisco

240

ABR/12

320

MAI/12

60

MAI/12

Verde

108

JAN/09

Riacho Seco

Salto do R. Verdinho Verde

93

JAN/09

Água Limpa

Das Mortes Suaçuí Grande

Salto

18

INÍCIO OPERAÇÕES

POTÊNCIA (MW)

Barra do Braúna

Pomba

39

FEV/09

Traíra II

São José

Ijuí

51

ABR/09

Baixo Iguaçu

Iguaçu

340

SET/12

Pelotas

292

NOV/12

Barra dos Coqueiros Claro

90

ABR/09

Pai Querê

Retiro Baixo

82

ABR/09

Porto Galeano

Sucuruí

139

NOV/12

Canoas

214

NOV/12

Paraopeba

Caçu

Claro

65

ABR/09

São Roque

Paulistas

São Marcos

54

JUN/09

São Domingos

Verde

48

DEZ/12

33

JUN/09

Serra Quebrada

Tocantins

1.328

DEZ/12

140

SET/09

Tocantins

Tocantins

480

DEZ/12

77

SET/09

Estreito

Parnaíba

86

MAR/13

67

JAN/10

Itapiranga

Uruguai

580

MAR/13

110

FEV/10

Pedra Branca

São Francisco

320

ABR/13

67

JUN/10

Tucano

Verde

157

MAI/13

334

SET/10

Novo Acordo

SonoTocantins

160

MAI/13

Juruena

64

MAI/13

Olho d’Água

Correntes

Baguari

Doce

Passo de São João

Ijuí

Monjolinho

Passo Fundo

Baú I

Doce

Foz do Rio Claro

Claro

Simplício

Paraíba do Sul

Cambuci

Paraíba do Sul

50

DEZ/10

Cachoeirão

Barra do Pomba

Paraíba do Sul

80

DEZ/10

Torixoréu

Araguaia

408

MAI/13

60

DEZ/10

Tupiratins

Tocantins

620

NOV/13

1.087

DEZ/10

Volta Grande

Chopin

55

DEZ/13

213

DEZ/10

Cebolão

Tibagi

152

DEZ/13

45

DEZ/10

Belo Monte

Xingu

5.500

DEZ/13

182

DEZ/10

Toricoejo

Das Mortes

76

JAN/14

São João

Chopim

Estreito

Tocantins

Serra do Facão

São Marcos

Cachoeirinha

Chopim

Salto Pilão

Itajaí

Corumbá III

Corumbá

94

DEZ/10

Castelhano

Parnaíba

96

MAR/14

Salto Grande

Chopim

53

DEZ/10

Juruena

Juruena

46

MAI/14

Foz do Chapecó

Uruguai

855

DEZ/10

Jataizinho

Tibagi

155

AGO/15

Fonte: Plano Decenal/Ministério de Minas e Energia


Uma idéia que vem do mar Em busca de uma alternativa ecologicamente correta para a geração de energia no país, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) colocarão em funcionamento até o final deste ano uma usina experimental de produção de energia a partir das ondas do mar, projeto pioneiro nas Américas. O local escolhido foi o porto do Pecém, no Ceará, a 60 quilômetros de Fortaleza. O volume inicial de produção será irrisório, suficiente para abastecer apenas 20 residências, mas o potencial do Brasil, com seus 8,5 mil quilômetros de litoral, é alto. “Já estamos convencidos da viabilidade técnica dessa tecnologia. O desafio agora é alcançar um custo que seja competitivo com os outros métodos de produção de energia”, diz o coordenador do projeto, Segen Estefen, professor do Laboratório de Tecnologia Submarina da UFRJ. Desenvolvido com o apoio da Eletrobrás e do governo do Ceará, o projeto se baseia na produção de jatos de água que simulem quedas com 500 metros de altura, acima dos padrões usados nas usinas hidrelétricas convencionais. Esses jatos, responsáveis pelo acionamento da turbina, são produzidos em um câmara hiperbárica (ambiente com pressão superior à encontrada na atmosfera) que recebe a água injetada por bombas hidráulicas, tudo isso em uma estrutura com 22 metros de comprimento sustentada por flutuadores. Para os pesquisadores da UFRJ que lideram o projeto, a pertinência da chamada “energia das ondas” é ainda maior no Brasil pelo fato de que 70% da população do país está concentrada em áreas próximas ao litoral, o que reduziria custos com transmissão. O levantamento da capacidade de geração desse tipo de energia no litoral brasileiro ainda está por ser produzido, mas projeções preliminares indicam que as ondas poderiam suprir 15% de toda a energia elétrica consumida no país, levando-se em conta os padrões atuais.

Indústrias deverão reduzir o consumo

O Plano Decenal do Ministério de Minas e Energia conta com a redução proporcional do consumo justamente entre a classe que costuma ser vista como a consumidora mais voraz de energia: as indústrias. O setor passaria dos atuais 47% do total de energia gasta no país para 43% em 2015. Em números absolutos, isso representaria um crescimento ligeiramente superior a 50% no período, passando de 161,1 gigawatts para 244,4 gigawatts. No mesmo período, o consumo do setor comercial subiria mais que 90% (dos atuais 52,9 gigawatts para 101,9 gigawatts) e o doméstico acima de 70% (de 82,3 gigawatts para 142,5 gigawatts). “São perspectivas descoladas da realidade. Se não houver um redirecionamento do perfil industrial brasileiro, esse menor crescimento do consumo pelo setor industrial não vai se efetivar”, alerta o professor da Universidade de São Paulo (USP) Célio Bermann. Ele lembra que, diante da ameaça de apagão em 2001, os setores industriais que mais consomem energia – cimento, siderurgia, papel e celulose, alumínio, química e metalurgia – se comprometeram a trabalhar pela auto-suficiência no abastecimento, o que liberaria 30% do volume total consumido no país. “Mas ficou só no discurso”, critica o professor da USP. Com relação ao consumo residencial, a perspectiva de que praticamente dobrará em dez anos se baseia no fato de que o patamar médio atual, de 141 quilowatts-hora por mês em cada domicílio, está muito abaixo do pico de 180 quilowatts-hora registrado em 1998. A previsão do Plano Decenal é de que o consumo médio suba gradualmente nos próximos anos até voltar, em 2012, ao patamar de 1998.

19


Opinião Como alcançar a positividade da educação com rendimento

20

MÁRCIO POCHMANN Professor do Instituto de Economia (IE) e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (CESIT) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). São Paulo, Brasil. pochmann@eco.unicamp.br ).

Uma das questões-chave do desenvolvimento sustentável encontra-se associada à justa divisão entre ganhos do crescimento econômico e elevação do padrão de bem estar social. Inegavelmente, a relação entre educação, remuneração e produtividade pode contribuir para avaliar a sustentabilidade do desenvolvimento de um país. Desde que o Brasil alcançou a estabilidade monetária (julho de 1994), observa-se que a produtividade do trabalho, a educação e o salário real seguiram comportamentos distintos. Entre 1995 e 2004, por exemplo, a produtividade acumulou ganho de 37,1%, enquanto o número médio de anos de estudos da população com 10 anos e mais de idade subiu 29,4% (de 5,1 para 6,6 anos) e a remuneração média dos ocupados com rendimento decaiu 16,6% (de R$879, em 1995, para R$733, em 2004). Ademais, a derrocada da remuneração foi mais grave para quem alcançou justamente os maiores anos de escolaridade. No caso dos ocupados com curso superior completo, por exemplo, a redução do rendimento do trabalho foi de 21,1%, enquanto o rendimento dos ocupados com somente o primeiro grau houve elevação de 2,6%. Algo estranho parece ocorrer no Brasil. Como entender o avanço educacional e da produtividade sem o acompanhado da elevação do salário real? Acontece que educação, embora fundamental para a disputa no interior do mercado de trabalho, não é suficiente – por si só - para garantir emprego decente e salário digno. Outras variáveis encontramse em jogo, como o próprio cresci-

mento econômico e a divisão da produtividade.

Certamente, o crescimento econômico exerce uma função estratégica num país

como o Brasil que possui anualmente o ingresso de 2,3 milhões de pessoas no mercado de trabalho. Sem o aumento da produção num ritmo superior ao 5% a ano, ocorre o aprofundamento da competição no interior do mercado de trabalho que gera tanto a diminuição do rendimento. Da mesma forma, devese considerar o tipo de crescimento econômico, uma vez que a opção de produzir bens e serviços de baixo valor unitário e pequeno conteúdo tecnológico pode levar à expansão de postos de trabalho de baixo custo de mão-de-obra. Se houver crescimento econômico associado à produção de bens e serviços de maior valor agregado e crescente conteúdo tecnológico, as possibilidades de geração de empregos com maior remuneração são muito maiores. Por fim, a questão distributiva, especialmente para o caso do processo de repartição dos ganhos de produtividade. Sem instituições de representação de interesses fortes e dinâmicas (empregadores e trabalhadores), capazes de pressionar e cooperar no processo de divisão mais eqüitativo possível do excedente econômico, tende a prevalecer a concentração de renda. Não pode haver dúvidas, nesse sentido, sobre o papel da política de políticas públicas na repartição da renda, por conta do salário mínimo e da garantia de renda para a população de baixa renda. Sem isso, a sustentabilidade do desenvolvimento assenta-se em bases frágeis e ousa repetir a receita do passado, quando o bolo crescia sem repartição digna.


21


MUNDO DO TRABALHO MUNDO

Qualidade na vida

Em busca da inclusão

21 22

BENEFÍCIO SOCIAL O Ministério da Previdência Social paga mensalmente benefícios no valor de um salário mínimo (R$ 350,00 a partir de abril) para pessoas portadoras de deficiência que comprovam renda familiar inferior a 25% do salário mínimo. Em janeiro de 2006 foram pagos 1.221.427 benefícios. O portador de deficiência que for registrado em um trabalho perde o benefício.

desetembroéoDia NacionaldeLutada Pessoa Portadora deDeficiência,de acordo com a Lei 11.133,de14dejulhode2005.Adata foiinstituídapelo movimentosocial, em 1982, com todas as entidades nacionais.Tramita ainda,noCongresso Nacional, um projetoqueinstitui oEstatutodoPortadordeDeficiência.ODiaInternacionaldoPortador deDeficiênciaé3de dezembro.

Governos, empresários, trabalhadores e até a igreja estão debatendo a inclusão das pessoas portadoras de deficiências. A Campanha da fraternidade, lançada anulamente pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), em 2006 tem como tema “Fraternidade e Pessoas com Deficiência”. Existem no Brasil, de acordo com o Censo Demográfico de 2000, cerca de 27 milhões de pessoas com deficiência, o que corresponde a 14,4% da população. Nas regiões do Nordeste elas passam de 18% enquanto em São Paulo, com a menor incidência do país, são 11,4%. A lei brasileira trata da inclusão das Pessoas Portadores de Deficiência (PPDs) no mercado de trabalho, determinando que as empresas as empreguem cumprindo cotas proporcionais ao número total de empregados contratados. Para ver cumprida esta lei, órgãos públicos como o Ministério Público e as delegacias Regionais do Trabalho (DRTs) têm agido não apenas na fiscalização, mas também pelo estímulo ao cumprimento das cotas.

MILHÕES DE PESSOAS PORTADORAS DE DEFICIÊNCIA ESTÃO À MARGEM DA SOCIEDADE, SEM TRABALHO E SEM EDUCAÇÃO, E CONSISTEM NUMA FORÇA DE TRABALHO PRODUTIVA E EFICIENTE, QUE PRECISA SER INCLUÍDA Um exemplo é o programa de Ação Interinstitucional da DRT de São Paulo, que discute com as empresas dificuldades como localizar pessoas aptas e capacitadas ao trabalho; treinar PPDs para ocuparem cargos; a criação de Banco de dados com o cadastro destas pessoas; além de estabelecer prazos para que as empresas cumpram a lei de cotas.

Portadores de Deficiências no mundo do trabalho A Convenção 159 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), de 1983, define pessoa com deficiência como aquela “cuja possibilidade de conseguir, permanecer e progredir no emprego é substancialmente limitada em decorrência de uma reconhecida desvantagem física ou mental”. A partir desta referência, a OIT estima que as pessoas portadoras de deficiência representam 8% da população economicamente ativa do planeta. Em 1991 o Brasil ratificou essa Convenção.


O Projeto Espaço Cidadania desenvolve há cinco anos um trabalho de educação, conscientização e inclusão das Pessoas Portadoras de Deficiência no mercado de trabalho. São vários os exemplos de sucesso da iniciativa. As fotos acima, cedidas pelo projeto, mostram pessoas com deficiência em áreas de administração e de produção nas indústrias. Para conhecer mais, veja na internet a página www.ecidadania.org.br.

A primeira Convenção Coletiva de Trabalho que institui um Programa para Inclusão de Pessoas com Deficiência, assinada no dia 7 de março, é um resultado deste trabalho. Negociada por nove meses entre o Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos no Estado de São Paulo (Sindusfarma), Central Única dos Trabalhadores (CUT), Força Sindical e DRT de SP, a Convenção determina que as empresas deverão adequar o ambiente de trabalho para a acessibilidade dos PPDs e estabelece um cronograma das ações e contratações, prevendo o cumprimento de 100% das cotas até o início de 2008. De acordo com o Gerente de relações Sindicais Trabalhaistas do Sindusfarma, Arnaldo Pedace, isso significa a contratação de aproximadamente 2000 PPDs nas indústrias farmacêuticas de São Paulo. A tabela prevê a contratação de 30% da cota ainda em 2006, de 31 a 60% em 2007 e 100% em 2008. FORMAÇÃO “Temos que vencer um problema cultural no país: as pessoas com deficiência muitas vezes são afastadas do meio social. Nossa principal dificuldade é a falta de qualificação destas pessoas”, explica Arnaldo Pedace. “Tratase não apenas de cumprir a lei de cotas, mas de um trabalho social; temos que procurar estas pessoas, qualificar, oferecer treinamento específico para a fun-

O que diz a lei O artigo 93 da Lei 8213/91 estabelece que todas as empresas privadas com 100 ou mais empregados têm de reservar vagas para pessoas com deficiência ou acidentes reabilitados, na seguinte proporção: 100 a 200 empregados: 2% 201 a 500 empregados: 3% 501 a 1000 empregados: 4% 1001 ou mais empregados: 5%

As empresas públicas devem reservar 5% das vagas para as pessoas com deficiência em todo concurso realizado, em igualdade de condições com os demais candidatos, conforme prevê o artigo 37 do Decreto 3298/99. Para enquadrar o trabalhador em vaga reservada à Lei de Cotas, a empresa deve informá-lo e o trabalhador deve autorizar o enquadramento.

ção”, completa. Para viabilizar o treinamento, as indústrias estão buscando instituições como o Senai e as Apaes, entre outras, para firmar convênios para o treinamento. “Internamente, também, elaboramos programas para conscientizar as pessoas que trabalham nas em-

presas sobre a convivência com as PPDs”, acrescenta Pedace. Financeiramente, o que mais exige investimento das empresas é a readaptação de suas plantas, para permitir a deficientes visuais e físicos o acesso às suas dependências.

23


Deficiência entra na pauta sindical

24

“O tema até agora não encantou trabalhadores e empresas”. A conclusão é do dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, Carlos Aparício Clemente. Ele ajuda a desenvolver, há cinco anos, o Projeto Espaço Cidadania, sediado no prédio do Sindicato, que trata da inclusão das PPDs no mercado de trabalho. Sua conclusão está baseada no estudo realizado pelo Dieese sobre as garantias à participação dos trabalhadores com deficiência nas negociações coletivas. A pesquisa apontou que, de 204 categorias profissionais, 42,7% das negociações nas indústrias, 32,9% do setor de serviços, 15,8% do comércio e 11,1% do setor rural tiveram alguma cláusula tratando do assunto. De acordo com o Dieese, mais de 65% das cláusulas tratam exclusivamente da contratação e garantia de emprego de trabalhadores com deficiência. O coordenador de estudos e desenvolvimento do Dieese, Ademir Figueiredo, observa que, nas 204 categorias pesquisadas, 35% das conquistas se referem à inclusão da questão na negociação, 17% atingem diretamente o trabalhador e 26% tratam dos dependentes com deficiência. “O movimento sindical pode ajudar muito exercendo seu papel de luta em defesa dos trabalhadores”, enfatiza. Para Carlos Aparício Clemente, isso significa aumentar a sensibilidade e o conhecimento dos trabalhadores e sindicatos sobre Acidentes de trabalho a questão. Se não geram deficiência totalmente ausente, o tema ainda é insíNo Brasil, só no ano de 2003, a pido na agenda sinPrevidência Social registrou 390.180 acidentes de trabalho, isso entre dical, na avaliação trabalhadores com carteira assinada. do dirigente. “As Destes: empresas têm difi2.582 morreram; culdade de manter 12.649 tiveram incapacidade no posto de trabapermanentepara o trabalho 21.208 sofreram doenças lho seus próprios profissionais. acidentados”, acentua Clemente. Baseado no censo de 2000 e na estimativa populacional do IBGE para 2004, ele calcula um universo de 16 milhões e 400 mil PPDs em idade de trabalhar “E hoje o movimento sindical começa a perceber que pode ser eficaz para a inclusão”, afirma. O sindicalista alerta que, se a lei de cotas fosse cumprida pelo setor público e privado, isso significaria emprego para 685 mil pessoas, ficando, portando, mais de 15 milhões fora da cota. “O positivo são as muitas empresas sem o número exigido para contratar que estão contratando, como postos de gasolina, pequenos supermercados e centros de telemarketing”, lembra Clemente. Por outro lado, ele denuncia as grandes empresas que fazem o marketing da inclusão e não contratam: “Para essas, como grandes bancos, é preciso a caneta da fiscalização para forçar”.

Meu Salário

Wage Indicator no mundo

Você acha que deveria ganhar mais? Quer saber se sua remuneração está ƒ Holanda na média do mercado? ƒ Bélgica O web site MeuSalário ƒ Finlândia (www.meusalario.com.br) ƒ Hungria se propõe a responder esƒ Dinamarca tas questões. Lançado em ƒ Itália 5 de abril durante a comeƒ Polônia moração pelos 50 anos do ƒ Espanha Dieese (Departamento Inƒ Inglaterra tersindical de Estatística e ƒ Alemanha Estudos Sócio-Econômiƒ Estados Unidos cos), ele faz parte de um ƒ Coréia do Sul projeto de pesquisa que ƒ África do Sul envolve organizações de ƒ Índia 17 países. ƒ Brasil O objetivo é fornecer ƒ Argentina informações sobre saláriƒ México os, emprego e condições de trabalho por setores da economia, regiões e países, para aumentar a transparência do mercado. É possível, por exemplo, obter dicas sobre vagas de emprego, prevenção de doenças profissionais e direitos do trabalhador. Questionários respondidos pelos usuários – trabalhadores, sindicalistas, negociadores, comunidade científica e organizações internacionais – permitem fazer comparações cada vez mais precisas à medida que a base de dados se amplia. A idéia e a metodologia são da Wage Indicator Foundation (Fundação Indicador Salarial), entidade sem fins lucrativos constituída pela Universidade de Amsterdã, pela central sindical holandesa FNV e pelo portal internacional de empregos Monster. O projeto tem apoio do Instituto de Estudos Avançados sobre o Trabalho de Roterdã e da Universidade Erasmus/Escola de Administração de Roterdã.


O trabalho decente na agenda nacional O trabalho decente é uma condição fundamental para a superação da pobreza, a redução das desigualdades sociais, a garantia da governabilidade democrática e o desenvolvimento sustentável. Entende-se por trabalho decente um trabalho adequadamente remunerado, exercido em condições de liberdade, equidade e segurança, e capaz de garantir uma vida digna. Em resumo, trabalho decente significa empregos de qualidade para homens e mulheres, com proteção social, diálogo social e respeito aos princípios e direitos fundamentais. Neste momento, o Escritório da OIT no Brasil está empenhado na formulação de uma Agenda Nacional do Trabalho Decente, a qual apóia-se na adoção de políticas e ações destinadas a atender os requisitos de gerar mais e melhores empregos, com igualdade de oportunidades e de tratamento; intensificar os esforços de erradicação do trabalho infantil e escravo; fortalecer os atores tripartites e o diálogo social efetivo. Este é o resultado de um compromisso assumido entre o governo brasileiro e a OIT desde junho de 2003, quando o presidente da República e o diretor geral da OIT assinaram um memorando de entendimento com esse objetivo. E também deverá ser o tema principal e base das discussões da XVI Reunião Regional Americana da OIT que será realizada em Brasília, durante o mês de maio, e que reunirá as delegações tripartites de 35 países, formadas por ministros do Trabalho, re-

LAIS ABRAMO

presentantes de organizações sindicais e empresariais. Nessa ocasião, será apresentada pelo diretor geral da OIT, embaixador Juan Somavía, a proposta de uma Agenda Hemisférica de Trabalho Decente. O Escritório da OIT no Brasil apóia firmemente as ações nesse sentido. Um trabalho decente e produtivo é a principal ferramenta para superar a pobreza e reduzir as desigualdades sociais que afetam as populações das Américas.

25

Diretora do Escritório da Organização Internacional do Trabalho no Brasil. Socióloga, entre 1995 e 2005 foi a especialista principal da OIT para América Latina em temas de gênero e trabalho.


Ferramentas nossas de cada dia

FOTOS - SÉRGIO VIGNES

MESA DE TRABALHO

Célio Salles, 38, franqueado de uma rede de fast food

Fernando Menezes, 19 , engenheiro de som

Item mais usado: Caixa de e-mail. Item menos usado: Arquivo. O que você jogaria fora? Interrupção inútil.

Item mais usado: Caixas de som. Item menos usado: Lápis-borracha. O que você jogaria fora? A bagunça.

26 Elisa Pimenta, 50, advogada

Roberto Fujimoto, 43 , técnico de equipamento fotográfico

Item mais usado: Papel. Item menos usado: Caneta. O que você jogaria fora? Papel.

Item mais usado: Chave philips. Item menos usado: Martelo. O que você jogaria fora? Ferro de solda.

Mauro Hiroyuki Tanaka, 50 anos, sushiman

Paulo Estevão de Araújo, 47 anos, shaper

Item mais usado: Faca. Item menos usado: Mandolin (ralador). O que você jogaria fora? O cheiro do peixe.

Item mais usado: Plaina elétrica. Item menos usado: Lixadeira. O que você jogaria fora? Gases da resina.


27


28


Geraldo Soares Debate sobre a ainda se lembra da prirelação entre meira vez que foi questidesempenho onado sobre a atuação social do banco em que trabasocialmente lha, o Itaú. Durante uma apreresponsável e sentação para 150 investidores há sete anos, alguém perguntou valorização das sobre os recursos que a instituição empresas ganha destinava a programas sociais e amcorpo com a criação bientais. Soares – sociólogo com especialização em economia e administrade índices de ção – estava inteirado do assunto e ressustentabilidade pondeu as dúvidas que pareciam inusitadas para o restante da platéia. Naquenas bolsas

por Daniele do Nascimento Madureira

le ano de 1999, a maior preocupação de bancos, empresas e investidores era se adaptar à nova realidade do mercado, depois da forte desvalorização do Real em janeiro. Falar em balanço social no Brasil àquela época era algo quase esdrúxulo. “O administrador que me questionou já estava sintonizado com a preocupação de investidores em todo o mundo na busca de empresas com uma atuação social sólida para depositar o seu capital”, diz Soares, que hoje ocupa a superintendência de relações com investidores da Itaú Holding Financeira e

preside o Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (IBRI). O interesse só cresceu desde então: na última década, o investimento relacionado à responsabilidade social empresarial (RSE) nos Estados Unidos aumentou 258%, saltando de US$ 639 bilhões para US$ 2,29 trilhões entre 1995 e 2005, segundo a associação norte-americana Social Investment Forum. No mundo, US$ 5,9 trilhões são investidos com algum critério sócio-ambiental. O investimento socialmente responsável (SRI, na sigla em inglês) surgiu nos anos 80 e consiste no uso de critérios sociais, ambientais e éticas na composição dos portfólios. Na visão dos gestores, estes tendem a ser mais sustentáveis no longo prazo e, portanto, mais lucrativos. No Brasil o conceito só tomou força nesta década. O primeiro fundo de ações brasileiro com preocupações sociais, o ABN Amro Ethical FIA, foi lançado em novembro de 2001. O Ethical, por exemplo, exclui da sua carteira ações de setores como bebidas, fumo, armas e jogos. Em 2004 os fundos de pensão – maiores investidores institucionais do País – decidiram orientar sua atuação dentro

RSE DÁ RETORNO?

29


30

dessas diretrizes. Levantamento feito pelas empresas Management & Excellence e SR Rating aponta que os fundos estão considerando condutas éticas, sociais e ambientais na hora de decidir sobre as compras de ações. A Petros (dos funcionários da Petrobrás) e a Previ (dos funcionários do Banco do Brasil) lideram o ranking dos fundos que têm níveis mais avançados de políticas de ISR, seguidos pela Funcef (Caixa Econômica Federal), pela Valia (Vale do Rio Doce) e pela Sistel (da antiga Telebrás). Juntos, eles administram um patrimônio de R$ 330 bilhões. A preocupação com RSE se justifica. Um estudo do Fórum Econômico Mundial aponta que grandes empresas têm sofrido no curto prazo as conseqüências das suas atitudes em relação à sociedade. É o caso do Wal-Mart, que viu suas ações caírem devido a denúncias de discriminação no trabalho. Já o McDonald’s, depois de enfrentar críticas envolvendo o consumo dos seus produtos e o aumento mundial dos índices de obesidade – inclusive infantil –, resolveu mudar seu cardápio. Nos anos 90, a Shell foi afetada pela repercussão negativa das suas operações na Nigéria – onde foi acusada de apoiar a execução dos ambientalistas Ken SaroWiva e John Kpuinen, que comandavam os protestos contra a extração de petróleo. Em 1997, a Nike foi acusada de ter fornecedores de calçados na Ásia que empregavam mão-de-obra infantil. CARTÃO DE VISITA O primeiro índice de sustentabilidade foi o Dow Jones Sustainability Index (DJSI), lançado em 1999 nos Estados Unidos. Para participar do índice, composto hoje por 317 empresas de 24 países que somam 10% do que existe de melhor em cada setor econômico, é preciso em primeiro lugar receber um questionário enviado pela Dow Jones e pela Sustainable Asset Management, entidade suíça de pesquisa. A condição indispensável é ter alta rentabilidade, explica Soares, do Ibri: no Brasil, por exemplo, só 20 empresas recebem o questionário. No momento, Itaú, Cemig e Aracruz são as únicas empresas latino-americanas que compõem o índice, revisto a cada ano. O DJSI é considerado um dos

NOS ESTADOS UNIDOS, O INVESTIMENTO EM RESPONSABILIDADE SOCIAL EMPRESARIAL AUMENTOU 258% NA ÚLTIMA DÉCADA – UM SALTO DE US$ 639 BILHÕES PARA US$ 2,29 TRILHÕES DE 1995 A 2005

melhores cartões de visita do mundo, concedendo à empresa acesso a novos mercados. Depois do DJSI, foi a vez de a Bolsa de Londres lançar, em 2001, o FTSE4Good, que tem entre suas particularidades excluir ações de empresas ligadas à indústria bélica, nuclear e tabagista. Entre os países emergentes, a África do Sul foi o primeiro a aderir: em 2003, a Bolsa de Valores de Johanesburgo criou o SRI, que não exclui empresas de nenhum setor, mas pune segmentos cujos produtos apresentem risco à população ou ao meio ambiente. Em dezembro, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) lançou o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), inspirado no Índice de Sustentabilidade Dow Jones e composto por ações que estão entre as mais negociadas. As empresas são selecionadas de acordo com uma série de variáveis, que consideram aspectos econômico-financeiros, de governança corporativa, sociais e ambientais de forma integrada. O índice pode englobar até 40 empresas que se aproximem da excelência na gestão de sustentabilidade. “Quem tem bons índices de sustentabilidade dificilmente irá apresentar notícias ruins aos investidores, como escândalos com produtos, problemas no Ministério do Trabalho ou ações na Justiça por desrespeito a minoritários”, diz Ricardo Pinto Nogueira, supervisor de operações da Bovespa. Entre as 28 empresas que compõem o ISE estão re-

presentantes de diferentes setores, que vão do alimentício (Perdigão), passando pelo de transportes (Gol Linhas Aéreas), higiene e beleza (Natura) até o de saúde (Dasa Diagnósticos da América). Alguns gestores observam que há alta concentração nos setores financeiro (Bradesco, Banco do Brasil, Itaú e Unibanco) e no de energia, com oito empresas – entre elas, Celesc, Eletropaulo e Cemig. E que o prazo de três meses de avaliação do ISE ainda é curto para chegar a conclusões sobre um possível melhor – ou pior – desempenho em comparação ao Ibovespa. Fica no ar a pergunta: RSE dá retorno? “Até o momento, não existe uma pesquisa que comprove de maneira definitiva que RSE pode agregar valor ao


preço de uma ação”, diz Soares, do Ibri. O professor Thomaz Wood Jr., da Escola de Administração de Empresas da FGV, em São Paulo (EAESP-FGV), diz o mesmo. “Não conheço nenhum estudo científico que estabeleça a relação entre desempenho socialmente responsável e retorno sobre o investimento, embora haja muita gente defendendo essa idéia e, principalmente, torcendo por ela”, afirma o acadêmico. SEM CONCLUSÕES Tentativas não faltaram: entre 1972 e 2002, foram publicados 127 estudos que analisavam essa relação, segundo levantamento realizado pelos professores Joshua Margolis, da Universidade de Harvard, e James Walsh, da Universidade de Michigan, ambas nos Estados Unidos. Nenhum se mostrou conclusivo. Até agora, a maior parte das pesquisas neste campo tem procurado por diferenças entre o desempenho de carteiras socialmente responsáveis e os fundos convencionais. Para alguns analistas, a longo prazo essa diferença deve creser a favor dos socialmente responsáveis, por se tratarem de empresas que tendem a ter menos problemas judiciais por questões ambientais e trabalhistas, mais transparência e a preferência dos consumidores. Em janeiro de 2005, a revista inglesa The Economist publicou um polêmico artigo afirmando que todas as práticas de proteção do meio ambiente custam dinheiro e, assim, tendem a reduzir os lucros, o que prejudicaria os interesses dos acionistas. Para a revista, a RSE se mostrou eficiente ao vencer a “batalha da comunicação”, esmerando-se em prover a sociedade de informações sobre os cuidados sociais e ambientais tomados pelas empresas. Mas, na verdade, defende The Economist, o mais adequado seria se as companhias contribuíssem para o bem-estar social gerando lucros para distribuir entre os seus proprietários e acionistas. A publicação ecoa a tese defendida por economistas renomados como o norte-americano Milton Friedman – principal teólogo do livre mercado e membro da Escola de Economia de Chicago. Para ele, a única responsabilidade da empresa é otimizar a utilização dos lu-

cros em benefício dos acionistas, mantendo-se fiel ao que chamou de “as regras do jogo” – o cumprimento das leis estabelecidas. Na visão de Friedman, há poucas coisas capazes de minar tão profundamente as bases da sociedade livre quanto a aceitação, por parte dos dirigentes das empresas, de uma responsabilidade social que não seja a de fazer tanto dinheiro quanto possível para seus acionistas. Deborah Doane, presidente da Corporate Responsibility (Core) – respeitada plataforma nacional que reúne na Inglaterra sindicatos, indivíduos e organizações não-governamentais em torno do tema responsabilidade social – argumenta que é um mito pensar que o retorno a curto prazo para acionistas seja compatível com benefícios sociais no longo prazo. No artigo “O mito da responsabilidade social empresarial”, Doane desafia a crença de que empresas, mercados e instituições de grande porte sejam os meios mais eficazes para promover o desenvolvimento. A discussão leva a dois modelos distintos de gestão – um voltado para aos acionistas (shareholders) e outro dirigido a todas as partes relacionadas (stakeholders), que engloba não só acionistas, como credores, empregados, fornecedores, clientes, governo e comunidade. E também conduz a um impasse: qual é o papel da empresa? No ano passado, duas pesquisas publicadas pela revista Exame identificaram a contradição existente no ambi-

ente de negócios nacional, ao fazer a pergunta: qual é a missão de uma companhia privada? Para 93% dos brasileiros, é gerar empregos, conforme levantamento feito pelo Vox Populi. Os presidentes de empresas, por sua vez, citaram o lucro em primeiro lugar, com 82% das menções, em pesquisa conduzida pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). O item menos citado entre a população foi o lucro, com 10% de participação. JUSTIÇA NO TRABALHO O resultado está em sintonia com o que já foi apurado em pesquisa mundial pela canadense GlobalScan: tratar os empregados de forma justa é a principal maneira de uma empresa cumprir seu papel social. O levantamento, realizado ano passado, englobou entrevistas com cerca de 20 mil pessoas, de diferentes classes sociais, de 18 a 69 anos, em 20 países, incluindo o Brasil – neste caso, em parceria com a Market Analysis. O estudo vai ao encontro de outro divulgado em 15 de março de 2005, em comemoração ao Dia do Consumidor. A pedido do Instituto Akatu, a pesquisa realizada pela Ipsos Opinion ouviu 600 consumidores em São Paulo,

31


ALGUNS ANALISTAS ACREDITAM QUE O DESEMPENHO DOS FUNDOS SOCIALMENTE RESPONSÁVEIS TENDE A SER MELHOR QUE O DOS CONVENCIONAIS, POR SEREM DE EMPRESAS COM MENOS PROBLEMAS AMBIENTAIS E TRABALHISTAS, MAIS TRANSPARENTES E APRECIADAS PELOS CONSUMIDORES

32

Recife e Porto Alegre, altamente conscientes em relação ao consumo. A melhor forma de a empresa cumprir seu papel social é gerar empregos, opinaram os entrevistados. O presidente do conselho do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, Oded Grajew, afirma que é muito difícil para o empresário diferenciar RSE da filantropia. E também muito mais cômodo não fazer essa distinção. “É mais fácil destinar 1% do seu faturamento à caridade que se interessar pela aplicação equilibrada dos outros 99%”, diz. “Dentro dessa concepção, encontramos companhias que ajudam uma creche, mas não se preocupam com a educação dos filhos dos seus funcionários”, diz. Mas ele explica que RSE não está inserida dentro dessa visão fragmentada e imediatista da realidade. O desafio proposto pelas práticas de responsabilidade social é justamente o de pensar o todo, no longo prazo. É nisto que os investidores acreditam quando aplicam recursos em empresas comprometidas com a RSE: de que elas estarão funcionando de maneira saudável no futuro,

sem os riscos de colher frutos de estratégias equivocadas que visaram o lucro no curto prazo. AÇÃO E REAÇÃO A base deste raciocínio é simples: vivemos numa sociedade globalizada, com rápido e fácil acesso à informação. Toda ação gera uma reação que se repercute em cadeia, chegando inexoravelmente aos indicadores do mercado financeiro. Esta lógica é negligenciada ao buscar o lucro pelo lucro. Pensar em uma sistemática que envolve terceiros, aparentemente alheios ao negócio, é muito mais difícil do que, por exemplo, fazer uma gorda doação anual a uma creche, algo bastante distante de ser referencial em RSE. “O tráfico também faz filantropia nas favelas”, lembra Grajew. Quando a questão do aquecimento global foi levantada, nos anos 80, os mais céticos a consideraram uma preocupação extravagante. Hoje o fenômeno é pouco questionado e está no topo da agenda mundial. É inevitável o paralelo com o debate sobre o papel das empresas e sobre seus lucros. Mesmo sem provas conclusivas de que responsabilidade social dá retorno aos investidores, os quase US$ 6 trilhões aplicados com critérios sociais e ambientais indicam que é prudente ficar atento aos sinais.


Filantropia às avessas Ações sociais são muitas vezes utilizadas como peças de marketing pelas corporações

T

homaz Wood Jr., professor da Escola da Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (EAESP-FGV), acredita que o objetivo mais urgente na prática da responsabilidade social empresarial (RSE) está em atrelar o discurso ao negócio da empresa: “É preciso reorientar os programas sociais e fazê-los gerar resultados. Certo ou errado, todas as grandes companhias têm iniciativas nesta área, tornou-se um padrão”, afirma. Wood Jr. considera que a primeira responsabilidade social da empresa é para com seus acionistas, funcionários, consumidores e comunidades próximas. “Não faz sentido um fabricante de caminhões, por exemplo, investir em um projeto educativo para crianças, se não pensou na melhoria das condições de trabalho dos caminhoneiros, seu público final.” Marcos Kisil, presidente do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), acredita que apenas três situações levam uma empresa a se voltar para a ação social. “Há aquelas que o fazem por convicção pessoal, seja do dono ou principal executivo; existem os casos de pressão dos concorrentes, quando a adoção da RSE se dá por conveniência; enquanto um terceiro grupo opta por esta política de gestão quando coagido. O último caso é o mais difícil de ser tratado”, afirma. O uso explícito do balanço social como peça de marketing incomoda profundamente o economista Ciro Torres, coordenador de Res-

ponsabilidade Social e Ética nas Organizações do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase). “Muitas vezes os modestos investimentos na comunidade destoam do luxo das publicações, que costumam exibir altas tiragens”, diz o coordenador, que no ano passado chegou a receber um relatório encadernado em alumínio. Para a professora da EAESP-FGV Maria Cecília Coutinho de Arruda, antes de defender a prática da RSE da porta para fora, é necessário atender os clientes internos. “Não pode ser discriminada a empresa que elege investir socialmente para dentro, ou seja, batalha para oferecer salários justos, boas condições de trabalho, formação técnica e humana e tecnologia moderna para apoiar a produtividade”, diz ela, que coordena o Centro de Estudos de Ética nas Organizações (CENE). “Sem informação, não há cidadania”, lembra o professor Ladislau Dowbor, titular da pós-graduação em Economia e Administração da PUC-SP. Segundo ele, se mais empresas, assim como o poder público – principal responsável pela educação – se preocupassem em levar informação relevante para as escolas, centros de estudo comunitário e associações de bairro, poderia ser formada uma geração muito mais participativa, consciente do seu poder e dos seus direitos. “É preciso encontrar formas mais articuladas e inteligentes de política social, cooptando as empresas a participar dentro do seu core business”, diz Dowbor.

Avaliações distintas A inclusão ou exclusão de empresas nos índices de RSE das bolsas não implica que todos concordem com essa avaliação. Em 2001, por exemplo, a Nestlé foi eleita no Brasil como a melhor empresa do ano pela publicação Maiores e Melhores, da revista Exame. No mesmo ano, foi expulsa da FTSE4Good, na Inglaterra. O motivo foi a freqüente quebra do Código de Marketing de Substitutos do Leite Materno da Organização Mundial da Saúde (OMS). A Aracruz Celulose – líder mundial do setor, presente na lista do ISE/Bovespa e no Índice Dow Jones de Sustentabilidade – também passou por um constrangimento envolvendo a sua postura em RSE. Recentemente, o reino da Suécia anunciou a venda das suas ações na Aracruz, por conta da pressão de uma ong que acusou a empresa de maustratos em índios numa ação de desocupação de terras, no sul da Bahia. A companhia argumenta que está “empenhada na busca de uma solução estável” com as comunidades indígenas.

33


Ócio & Negócio ensaio

TRÊS FOTÓGRAFOS – DE BRASÍLIA, SÃO PAULO E FLORIANÓPOLIS INTERPRETAM AS CONTRADIÇÕES E AS RELAÇÕES ENTRE O SER PRODUTIVO E O SIMPLESMENTE SER

34

CRISTINA GALLO (Brasília) - Gaúcha de Porto Alegre, estreou no jornalismo publicando textos na imprensa de Florianópolis, mas sempre perseguiu as imagens. Clicou moda e turismo. Há um ano, desde que se instalou na capital federal, dedica-se ao fotojornalismo. Cobre o Congresso Nacional para uma agência local e uma internacional, sendo a única mulher de fora da casa na atividade diária. Ganhou o prêmio Mulheres fotografando Mulheres.


35


36

ensaio


37

MARCELLO VITORINO (São Paulo) - Sua pesquisa fotográfica está focada nas questões urbanas, em especial na relação conflituosa entre homem e paisagem, a partir de vestígios no ambiente industrial. Passou pelo jornalismo diário e colabora com revistas e ongs. Teve trabalhos selecionados em salões e prêmios como o de Arte Contemporânea de Santo André, Porto Seguro de Fotografia, Salão de Arte do Grande ABC, Leica Brasil e Casa Fuji de Fotografia.


38

ENSAI ensaiOo


39

CLÁUDIO SILVA (Florianópolis) - “Sarará”, como prefere ser chamado pelos amigos, nasceu no Rio Grande do Sul e vive desde 1986 na capital de Santa Catarina. Em sua carreira de 23 anos no fotojornalismo social, recebeu 22 prêmios por sua cobertura sobre direitos humanos, infância e adolescência.


RESPONSABILIDADE SOCIAL

O novo jeito de fazer negócios

Três cenários para Especialista vislumbra as oportunidades e riscos que as corporações terão de enfrentar se não quiserem perder competitividade Depois de uma década de evolução, a Responsabilidade Social Empresarial (RSE) está em uma encruzilhada. Em uma realidade no qual capital, tecnologia, informação e comércio aboliram fronteiras, praticamente todas as companhias estão buscando formas de otimizar seus recursos humanos e financeiros. Nesse mundo interconectado, companhias atuam não como entidades discretas e fechadas em si mesmas, mas de preferência como integran-

FLORESTA CERTIFICADA

42

O Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) lançou um guia para orientar trabalhadores e sindicatos do setor sobre como funciona a Certificação FSC – sigla em inglês para Conselho de Manejo Florestal. A certificação foi criada na Alemanha para identificar iniciativas que não apenas sigam as leis de proteção e preservação do meio ambiente, como também promovam melhorias sociais e econômicas. As empresas ou comunidades aferidas sob esses critérios passam a usar um selo que determina a origem socioambiental adequada em seus produtos. O manual do Imaflora explica tudo sobre o processo de obtenção da certificação, que compromissos devem ser assumidos para mantê-la e quais os certificadores credenciados no Brasil, entre outros tópicos.

www.

imaflora.org

tes de um sistema global caracterizado por sua complexidade e mudanças rápidas. São as oportunidades e riscos desse novo panorama que movem especialistas como Allan White, fundador da Corporation 2020, uma iniciativa focada em planejar o futuro das corporações levando em consideração seus propósitos sociais. Com 30 anos de experiência na área, White vislumbra três cenários para a RSE até o ano 2015.

123

empresas sediadas no Brasil estão entre as 2638 companhias que assinaram os dez princípios do Global Compact das Nações Unidas. Dessas, 41 são micro e pequenas. Das 82 de grande porte que subscreveram o pacto, 35 não informaram no prazo o progresso obtido.

Ascensão e queda

CENÁRIO 1

Choques de energia, queda na capacidade produtiva de muitos setores extrativistas e industriais, debandada dos credores estrangeiros do mercado de títulos do governo norteamericano, crises prolongadas de segurança e falência de diversas instituições financeiras e de fundos de investimento provocam um declínio da economia global. Uma onda de redução e consolidação das multinacionais está em andamento, afetando centenas de fornecedores e trabalhadores em todo o mundo. A RSE, que já foi vista como irreversivelmente destinada a integrar as estratégias, gerenciamento e governança empresariais, mostrou-se frágil e transitória. A atenção das empresas e dos governos volta-se para a sobrevivência econômica e recuperação da crise. Enquanto isso, a RSE encaminha-se silenciosamente para a hibernação até um futuro incerto, caracterizado por práticas associadas aos seus primórdios: condescendência e filantropia.


2015

Transição e transformação

Consolidação e integração

CENÁRIO 2 A RSE deixou de ser algo extraordinário para fazer parte das estratégias e operações de qualquer companhia. Diretores, CEOs e dirigentes não perguntam mais por cases de RSE; isso tem sido demonstrado claramente através de um amplo espectro de setores e companhias. A intensificação contínua das práticas de RSE é geralmente aceita, estendendo-se da adesão a princípios como Global Compact, Global Reporting Initiative (GRI) e direitos fundamentais da OIT a padrões internos de gerenciamento, como as novas diretrizes da ISO 26000.

Para companhias grandes ou pequenas, públicas ou privadas, RSE é a regra; a pequena fração de empresas que falham em compreender isso se encontra em desvantagem competitiva. Esse cenário constitui-se no aprofundamento e expansão da integração da RSE. Mundialmente milhares de empresas juntaram-se aos líderes iniciais em fundir valores empresariais com um forte comprometimento moral e ético à RSE, indo da periferia até o núcleo das unidades de negócio e departamentos. P&D, design de produtos e serviços, fabricação, marketing, finanças e contabilidade abraçam integralmente a RSE para sua execução e sucesso. Diretores corporativos entendem que a prática de RSE – balanço social, engajamento ambiental, salários justos, consistência entre as políticas da companhia e práticas lobistas – não é apenas um negócio inteligente, como também uma obrigação uma fiduciary duty. Esse cenário materializou-se porque a RSE enraizou-se na tomada de decisões e na cultura das empresas. Isso tem se provado que faz bem para vale a pena para acionistas, reputação e marca, e agora desfruta da cumplicidade de múltiplos campeões por toda as classes de executivos, gerentes e empregados. Esse cenário se caracteriza por uma contínua dinâmica de aprendizado, experimentação e implementação de novas idéias, construídas em uma plataforma de padrões geralmente aceitos de boa governança, práticas trabalhistas, balanços e engajamentos ambiental.

43

CENÁRIO 3 Enquanto avanços consideráveis foram obtidos em direitos humanos, trabalho e desempenho ambiental das corporações, a intensificação da tensão ambiental e da desigualdade social exigiu que os propósitos das corporações fossem repensados. Frustração e desilusão disseminam-se por um amplo grupo de “partes interessadas” (stakeholders), motivando a formação de uma improvável coalizão da sociedade civil, trabalho e empresas em um movimento de apoio ao “redesenho” (redesign) empresarial”. A noção de “retorno ao acionista”, desacreditada devido à sua vi-


são de curto prazo e à sua falta de compromisso social, tem sido substituída pela “geração de riqueza” e “gestão das relações” com as partes interessadas. Esses conceitos estão baseados na idéia de que todas as partes interessadas das empresas – empregados, comunidade, fornecedores, acionistas – são “investidores” da companhia e merecem participar de suas decisões e ser beneficiados pelo seu excedente. Critérios estabelecidos, como a primazia dos acionistas, o tradicional dever fiduciário e a responsabilidade limitada, permanecem como assuntos de acirrados debates, instigando esforços para alterar a natureza e o propósito da empresas, a fim de refletir uma função social mais ampla. A confiança pública na comunidade empresarial continua a cair, cercada pelas diferenças entre vencedores e perdedores no processo de globalização. Uma onda de fusões e aquisições que beneficiam poucos alimenta um contra-ataque da sociedade civil contra a “agitação” dos mercados de capital. Um número de lideranças empresariais aposentadas vai em frente, unida numa coalizão pelo trabalho e grupos da sociedade civil, para desafiar os credos estabelecidos sobre os direitos e obrigações das corporações.

Vem aí a ISO 26000

44

Depois de quase um ano e meio de debates, finalmente a ISO 26000 começa a tomar forma. Entre 15 e 19 de maio, a International Organization for Standardization (ISO) vai realizar em Lisboa a terceira plenária internacional do Grupo de Trabalho que está elaborando a norma de Responsabilidade Social. A plenária tem como tarefa principal discutir e aprovar a primeira minuta dos capítulos centrais da norma. Mais de 400 especialistas de 60 países tomarão parte da reunião na capital portuguesa. Cada organismo de normalização pode indicar até seis especialistas, representando empresários, trabalhadores, consumidores, ONGs, governos e organizações de pesquisa, ensino e consultoria. A Plenária tomará por base documentos produzidos por grupos-tarefa que, pela internet, fizeram uma síntese de quatro capítulos da futura norma. A ISO é uma organização nãogovernamental que congrega organismos de normalização de 156 países. Ela estabelece normas técnicas de caráter voluntário para compatibilizar os requisitos, critérios e definições das normas nacionais. Sua principal finalidade é definir padrões equivalentes para uma série de produtos e serviços, de modo a facilitar as transações comerciais e atividades governamentais em diferentes partes do mundo.

www. Desenvolvimento de padrões ISO http://isotc.iso.org/ (em inglês e francês) Informações sobre o evento http://www.apee.pt/isomeeting/ (em inglês)

Estimulado pela proliferação de iniciativas em âmbito estatal, um movimento para redefinir os propósitos das empresas ganha impulso entre grupos de empregados e organizações da sociedade civil, e é fortalecido por um bem organizado grupo de especialistas legais e empresariais. Em 2010, o foco sobre os propósitos empresariais tem mudado dentro da política e a arena política, desafiando o “acionismo” como incongruente com as necessidades e expectativas de negócios no século 21. Mas, diferentemente dos primeiros esforços para reformar as corporações, esse movimento está atraindo um amplo apoio entre membros progressistas da própria comunidade empresarial. Desilusão com a motivação em curto prazo é ampla e profunda, e o conceito das companhias como entidades de “produção de times” dependentes da junção de investimentos de empregados, comunidades, consumidores, acionistas e outras partes interessadas dominou o imaginário popular. O marco deste movimento é fundamentado em um novo conjunto de princípios que se empenha em encorajar os instintos competitivos e de inovação das companhias enquanto eleva o propósito social como a meta final da corporação. Seus seis princípios são:

1 2 3

O propósito da empresa é alinhar os interesses privados a serviço do interesse público.

4 5 6

Corporações devem distribuir sua riqueza igualente entre aqueles que contribuíram para a sua criação

Empresas devem prover lucros justos aos acionistas, mas não às custas dos interesses legítimos de outras partes interessadas Corporações devem por a sustentabilidade em ação, encontrando as necessidades da geração atual sem comprometer a habilidade das futuras gerações em encontrar as suas necessidades

Corporações devem ser governadas de um jeito que seja participativo, transparente, ético e responsável Os direitos das corporações não devem infringir o direito natural das pessoas em governarem a si mesmas, nem infringir os direitos humanos.


S

Transformação ou manutenção

São muitas as evidências do crescimento do movimento brasileiro pela responsabilidade social empresarial (RSE). Cada vez mais esse tema se desloca da periferia para o núcleo das estratégias empresariais. Inicialmente tratada pela maioria das empresas como “apoio às comunidades” feito por meio de doações filantrópicas para a realização de projetos sociais, a RSE ganhou importância para o posicionamento das empresas no mercado à medida que aumentaram as evidências de que o comportamento ético, transparente e solidário agrega valor à marca das empresas e cria diferencial de competitividade para seus produtos e serviços. Hoje, já é possível observar o desenvolvimento de quatro processos simultâneos e sinérgicos no mercado:

PAULO ITACARAMBI

Diretor-executivo do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social

1. Evolução da atitude inicial de “apoio filantrópico” para “investimento social privado” que requer planejamento, foco nos resultados, compromisso de continuidade, expertises específicas (desenvolvidas pelas organizações da sociedade civil) e a busca de ganhos de escala. Essa abordagem e seus desdobramentos colocam em pauta a necessidade de articulações e construções de parcerias entre o projeto e outras iniciativas semelhantes, bem como com as políticas públicas correspondentes. Entre as evidências destacam-se a crescente organização e profissionalização da ação empresarial, seja através da criação de estruturas específicas para gerir este novo tipo de investimento, seja pela contratação de serviços profissionais ou realização de parcerias com organizações da sociedade civil; 2. Cresce o esforço de marketing das empresas para promover o reconhecimento de seu comportamento socialmente responsável e utilizá-lo como diferencial para o posicionamento de sua marca no mercado. São evidências desse esforço o crescente uso de selos e o aumento das propagandas baseados em RSE. As empresas se movimentam para obterem o benefício econômico da nova tendência de comportamento do consumidor, do investidor e do executivo em suas decisões de compra e consumo, estimuladas: pelas notícias, debates, ranqueamentos e prêmios baseados em RSE e Sustentabilidade; evidenciadas pelas pesquisas sobre o comportamento dos consumidores; e potencializadas pela visibilidade e desempenho das empresas mais destacadas em RSE; 3. Verifica-se dentro das empresas um nítido movimento de internalização de valores e conhecimentos voltados à construção de atitudes e comportamentos socialmente responsáveis e de desenvolvimento de processos de produção e de consumo sustentáveis. A crescente produção e divulgação de relatórios de sustentabilidade e balanço social, bem como o aumento do interesse pelos cursos de capacitação e especialização em RSE e Sustentabilidade, são algumas das evidências do movimento das empresas para se beneficiarem do novo comportamento emergente no mercado, sinalizado pela criação do ISE – Índice de Sustentabilidade Empresarial e do “novo mercado” pela Bovespa – Bolsa de Valores de

São Paulo; pela instituição dos fundos “éticos” e de “sustentabilidade” e pela disseminação dos “princípios do Equador” no mercado financeiro; 4. Algumas empresas já estão indo além de suas fronteiras e se movimentam para promover a internalização do comportamento socialmente responsável em suas respectivas cadeias de valor, seja por meio da incorporação de critérios de responsabilidade social empresarial em processos de seleção e contratação de fornecedores, seja através da implementação de programas com o claro propósito de promover o desenvolvimento do comportamento socialmente responsável dos fornecedores, a exemplo do que ocorreu com o processo de disseminação da qualidade de produtos e serviços. Hoje, no movimento da RSE, está em pauta a qualidade do relacionamento das empresas (e de suas cadeias de valor) com os públicos afetados pelas suas atividades e produtos. Este movimento resulta em grande parte da expectativa de crescente adoção de medidas “não tarifárias” nas relações de mercado interno e externo, viabilizadas pelo desenvolvimento de ferramentas de gestão tais como: indicadores Ethos de RSE, relatórios de sustentabilidade padronizados internacionalmente – GRI e a ISO 26000 de responsabilidade social, cuja produção está sob a co-presidência do Brasil. Os movimentos resultam de ações da sociedade civil, de órgãos públicos e das empresas. Destacamos aqui as ações do próprio mercado que nos mostra como a Responsabilidade Social Empresarial caminha para se estabelecer como um forte atributo da competitividade e sustentabilidade das empresas. Caminha para a construção de uma nova razão social para as empresas que poderão obter ganhos de competitividade com base na habilidade em compartilhar com a sociedade os resultados de suas atividades e o esforço de desenvolvimento social, reduzindo as vantagens daquelas empresas que são hábeis em transferir para a sociedade os custos de suas externalidades.

45


INCLUIR

Novas Tecnologias Sociais

Quando o todo é Rede de Tecnologias Sociais completa um ano promovendo idéias criativas “A necessidade é a mãe da invenção”. Este ditado popular ilustra bem uma revolução na maneira como a sociedade brasileira ataca seus problemas crônicos: o uso crescente e a reaplicação das tecnologias sociais. Pobreza, desemprego, analfabetismo, desnutrição e outras mazelas estão sendo enfrentados com soluções engenhosas, de baixo custo e adaptáveis a diferentes contextos. A definição de tecnologia social vem sendo construída desde os anos

221 instituiçõesintegram a Rede de TecnologiaSocial (RTS)comopropósitodepromovero desenvolvimento sustentávelmediante a difusão e a reaplicaçãoemescaladetecnologias sociais.

www.

rts.org.br

CAJU NA EUROPA Do município de Serra do Mel (RN) para a União Européia. Essa é a trajetória de toneladas de castanhas-de-caju, beneficiadas e comercializadas anualmente por produtores rurais no Nordeste. Estimase que, somente em 2004, foram produzidas 183 mil toneladas, gerando exportações equivalentes a US$ 186 milhões. A fim de aproveitar esse potencial brasileiro, a Fundação Banco do Brasil, o Sebrae, a Embrapa e a Telemar estão investindo no processo agroindustrial do caju, com o beneficiamento de castanhas e polpas.

318 exemplosdetecnologias sociais de diversas áreas, como Renda, Educação e Meio Ambiente,estãodisponíveisnobancode informações da Fundação do BancodeBrasil.

www.

tecnologiasocial.org.br

FOTO - ARQUIVO PETROBRAS

46


maior que a soma das partes Larissa Barros e Michelle Lopes 1970, quando se falava em “tecnologia apropriada”. Ela compreende produtos, técnicas ou metodologias desenvolvidas na interação com a comunidade para a transformação social. Várias instituições de governos, empresas e terceiro setor apóiam projetos sociais, mas ainda é pouco diante da dimensão continental dos desafios. Articular e amplificar esse esforço criativo passou a ser uma necessidade imperativa. Daí nasceu, em abril de 2005, a Rede de Tecnologia Social (RTS). Sua mis-

são é integrar um conjunto de instituições para promover o desenvolvimento sustentável, mediante a difusão e a reaplicação em escala de tecnologias sociais. DUZENTAS PARTICIPANTES A RTS parte do entendimento de que a tecnologia é uma construção social que não é neutra e está sempre a serviço de um modelo de desenvolvimento que se busca estabelecer. Está implícito que, quando a solução for implementada em

locais diferentes daquele em que foi desenvolvida, necessariamente ela será recriada, com agregação de novos valores e significados. Reaplicar, portanto, é uma ação aberta ao novo. Construir sinergias entre atores sociais é a principal estratégia de atuação da RTS. Mais de 200 instituições já aderiram à Rede. Em 2005 e 2006 estão sendo apoiadas iniciativas que geram trabalho e renda, por meio de parcerias inéditas. As instituições mantenedoras vão investir R$ 14 milhões no Semi-Árido e Sertão do São Francisco, na Amazônia Legal e na periferia dos grandes centros urbanos – acima de 200 mil habitantes – e dos municípios de regiões metropolitanas. REAPLICAÇÃO A Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (Pais), é uma das tecnologias sociais que estão sendo reaplicadas. Ela é montada em torno de anéis complementares, cada um destinado a uma determinada cultura. Pequenos animais como galinhas caipiras e patos são criados no centro do sistema de agricultura familiar ecológica. O esterco produzido pelas aves é utilizado para adubar a horta. O sistema começou a ser pensado em 1999, em Petrópolis (RJ), com uma família de pequenos produtores. “Precisávamos garantir a autonomia financeira e alimentar dessas pessoas, que moravam na roça e compravam alimentos no mercado”, explica o engenheiro agrônomo Aly Ndiaye, que coordenou o processo e construiu a metodologia. O Pais possui baixo custo e tem como premissa o manejo orgânico da produção - aquele que emprega de forma sustentável o recursos naturais e sócio-econômicos, respeita a cultura das comunidades rurais e visa a sustentabilidade. Maximização dos benefícios sociais e minimização da dependência de energia não-renovável também são objetivos do projeto. Fruto de parceria entre a FBB (Fundação Banco do Brasil), o Sebrae e o Minis-

47


Alguns exemplos de tecnologias sociais que estão sendo reaplicadas pelos integrantes da RTS Œ Financiamento de 19 projetos de incubação e apoio a empreendimentos solidários, por meio da chamada pública MCT/Finep/MDS/ Caixa – Rede de Tecnologia Social – Incubação de Empreendimentos Solidários. Œ Instalação de 65 minifábricas e centrais para beneficiamento e comercialização de castanha-de-caju na Região Nordeste. Œ Ações de empreendimentos solidários na comunidade Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, por meio da Agência de Desenvolvimento Local. Œ Reaplicação da meliponicultura - criação de abelhas sem ferrão – em cinco municípios do Amazonas - e a criação de um entreposto de mel em Manaus, em parceria da Petrobras com o Sebrae/AM e o Instituto Iraquara. Œ Desenvolvimento do Programa P1+2, “Uma Terra e Duas Águas”, numa parceria da Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA), Fundação Banco do Brasil e Petrobras, em dez estados do Semi-Árido. Tecnologias de retenção da água de chuva e de produção de alimentos buscam gerar trabalho e renda. Œ Incubação de cooperativas de catadores de resíduos sólidos em Pernambuco, na zona metropolitana de Recife.

GERAÇÃO DE RENDA “As famílias estão garan-tindo sua sustentabilidade alimentar e comercializando o excedente da produção nas comunidades locais”, explica Maria Maurício, técnica do Sebrae Nacional. Em Cristalina (GO) e Pai Pedro (MG), por exemplo, a renda mensal das famílias varia de R$ 300 a R$ 400. O analista pleno da Diretoria de Tecnologia Social e Cultura da FBB, Hamilton Silva, explica que as instituições parceiras pretendem conjugar esforços para gerar trabalho e renda, sobretudo em assentamentos rurais: “A intenção é fortalecer empreendimentos, provocar o desenvolvimento local e colaborar no fortalecimento dos capitais natural, humano, social e empresarial”. O produtor rural Denizon dos Santos teve uma unidade piloto do Pais implantada em sua chácara, no município de Pai Pedro (MG): “Com as orientações, eu aprendi a lidar com os insetos sem usar agrotóxicos”, comenta. “Agora eu só vou ao mercado para comprar café, açúcar e arroz porque, hoje, nós temos batata, mandioca, alface, cenoura, beterraba e milho verde em nossa própria chácara. E eu já estou ampliando a horta”. Nos primeiros meses da Rede, o Comitê Coordenador da RTS priorizou a reaplicação de Tecnologias Sociais. Atualmente, uma outra ação estratégica ganhou semelhante relevância: a difusão das ações. A troca de informações e articulações ocorre principalmente por meio do Portal – www.rts.org.br – e do informativo eletrônico Notícias da Rede.

Œ Apoio a processos de produção e certificação agroextrativistas na Amazônia Legal, em construção com vários parceiros, dentre eles o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA). Œ Reaplicação de algumas das experiências finalistas do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologias Sociais 2005.

Comitê Coordenador da Rede de Tecnologias Sociais: Œ Instituto Ethos de Responsabilidade Social; Œ Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong); Œ Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA); Œ Grupo de Trabalho Amazônico (GTA); Œ Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas Brasileiras; Œ Serviço Brasileiro de Apoio à

Micro e Pequena Empresa (Sebrae); Œ Fundação Banco do Brasil (FBB); Œ Petrobras; Œ Caixa Econômica Federal; Œ Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT); Œ Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS); e Œ Secretaria-Geral da Presidência da República.

FOTO - ARQUIVO PETROBRAS

48

tério da Integração Nacional, a tecnologia é empregada no projeto “Unidades Familiares de Produção Agrícola Sustentável UFPAS” em 12 estados – nove no Semi-Árido, mais Mato Grosso do Sul, Goiás e Espírito Santo. A expectativa é implantar 30 hortas orgânicas por município, totalizando 1.090 unidades. Serão investidos R$ 6,7 milhões.


GUIA PARA EM 50


O SETOR PRIVADO PODE DAR CONTRIBUIÇÕES IMPORTANTES E INOVADORAS PARA PRESERVAR O PLANETA – E AINDA GANHAR COM ISSO por Rhodrigo Deda

PRESAS

D

esde a extinção dos dinossauros, há 65 milhões de anos, os seres humanos vem sendo os responsáveis pelo fim do maior número de espécies do planeta. Não são poucos os motivos que levam isso a acontecer. Com uma população de 6,5 bilhões de habitantes (e se expandindo), a humanidade consome recursos em suas atividades econômicas a uma taxa de 20% acima da capacidade de reposição da natureza, derruba 60 mil quilômetros quadrados de florestas primárias a cada ano desde 2000 e contribui drasticamente para o aquecimento global. Os dados são do relatório 2º Panorama da Biodiversidade Global, realizado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e divulgado na 8ª Conferência das Partes da Convenção de Biodiversidade (COP8), no final de março em Curitiba. Num tom pessimista, o relatório afirma que serão necessários esforços inéditos para atingir a meta da Convenção de Biodiversidade para 2010. Aliado ao quadro de perda de biodiversidade, o mundo observa uma tendência de privatização da natureza, seja nas estratégias de conservação ou de exploração de recursos naturais, seja no patenteamento de materiais genéticos por grandes indústrias. É nesse contexto de mercantilização da vida que as discussões atuais para a preservação da biodiversidade buscam apoio nas idéias de desenvolvimento sustentável e de repartição de benefícios – entre detentores e usuários – de novos produtos provenientes de materiais genéticos retirados de ambientes megabiodiversos. As experiências no setor privado vêm buscando apoio no desenvolvimento sustentável. O gerente do Departamento de Desenvolvimento Social e Ambiental da International Finance Corporation (IFC), Richard Caines, explica que, como há dificuldades de isolar áreas para a preservação, a saída encontrada pela entidade foi a de fomentar a geração de oportunidades rentáveis a partir da biodiversidade, a fim de reduzir a pobreza. A IFC é o braço do Banco Mundial para o setor privado e realiza investimentos em mercados emergentes por todo o mundo, tendo como clientes multinacionais, grandes empresas e instituições financeiras.

51


PAULL KELLER

Ecossistemas intactos como florestas, corais e savanas têm grande valor para o turismo e podem representar ótimos negócios para quem fornece produtos e serviços de maneira sustentável

52

Para condensar o conhecimento de 50 anos de práticas da IFC, Caines elaborou o Guia de Biodiversidade para o Setor Privado, publicado em março. No material, Caines mostra que, se a iniciativa privada é parte do problema ao afetar a biodiversidade, pode também ser parte da solução. “Os recursos e a influência do setor oferecem importantes oportunidades para inovação e efetivas contribuições para conservação da biodiversidade”, afirma. Segundo Caines, é evidente que há uma enorme lacuna entre a teoria contida no guia e a prática, mas o desafio de desenvolver oportunidades viáveis para gerar valor com biodiversidade é algo muito excitante. Porém, segundo o documento, o sucesso no gerenciamento da biodiversidade vai depender das pessoas que vão implementá-lo, o que envolve tanto o público interno de empresas quanto parceiros e fornecedores. Isso porque a biodiversidade raramente é gerenciada por uma única parte. Parcerias com organizações de conservação, agências governamentais, comunidades locais e universidades são vitais para o sucesso de qualquer estratégia de gerenciamento de biodiversidade. OPORTUNIDADES DE MERCADO No mundo dos negócios, explica, três tipos de mercados podem capitalizar oportunidades, promovendo proteção e manutenção de biodiversidade: mercado de bens produzidos de modo sustentável, indústria do turismo e novos mercados para serviços favoráveis a ecossistemas. O primeiro deles envolve, por exemplo, cultivo de alimentos orgânicos e de

produtos extraídos de florestas, desde que de modo sustentável. Dirigido ao consumidor, é um mercado que pretende agregar qualidade e segurança aos produtos. “O mercado de alimentos orgânicos tem crescido numa razão de dois dígitos anualmente e é estimado que continue a crescer num futuro próximo”, afirma. O turismo – “a indústria mais ampla do mundo”, conforme Caines – coloca um valor intrínseco na biodiversidade. “Depende significativamente da riqueza de ecossistemas”, completa o gerente. Ele diz ainda que o ecoturismo é o segmento que cresce mais rápido dentro do setor e representa, para muitos mercados emergentes, a maior fonte de receita vinda do exterior. No Caribe, o turismo de mergulho movimenta mais de U$ 2 bilhões para a economia local. Ecossistemas intactos, tais como corais de recife, florestas e savanas, atraem consumidores e a viabilidade de negócios depende diretamente da conservação da biodiversidade e uso sustentável. Caines afirma que tem se observado um crescimento do valor financeiro de ecossistemas, aumentando a oportunidade de negócios de alguns setores. Indústrias, instituições financeiras, de pesquisa e de conservação podem se dedicar a promover serviços que favoreçam ecossistemas, protegendo mananciais, biodiversidade de habitat e captação de carbono da atmosfera. Estima-se, por exemplo, que o mercado de captação carbono possa alcançar cifras acima de US$ 40 bilhões até 2010. Grandes mananciais de água também deverão ter alto valor de mercado daqui a 50 anos. Mas há eles, encontra-se a manutenção de diversidade genética. O Guia de Biodiversidade indica que há um mercado crescente para componentes de biodiversidade, tais como espécies de plantas ou de animais, que podem ser utilizados, entre outras finalidades, no desenvolvimento de produtos farmacêuticos. Outro setor beneficiadoé o agrícola, que tem na diversidade genética recurso de vital importância para manter a


Regras sobre recursos genéticos saem até 2010 Repartição de benefícios é motivo de disputa entre países ricos e pobres A 8ª Conferência das Partes da Convenção sobre Biodiversidade Biológica (COP8) encerrou no 31 de março em Curitiba com uma meta ambiciosa: a definição de uma data limite para a criação de regras internacionais sobre o uso e repartição dos lucros obtidos com recursos genéticos e conhecimentos de populações tradicionais. Esse “teto” é 2010. A definição de um regime é necessária, por exemplo, para que os conhecimentos de uma tribo indígena sobre o uso de determinada planta não sejam usados livremente para a elaboração de produtos industriais sem qualquer tipo de compensação. Um importante debate internacional sobre a privatização e de patenteamento de materiais genéticos está em curso.

TARTARUGA E LEBRE De um lado as nações desenvolvidas, geralmente com baixa biodiversidade, pretendem debater “a passos de tartaruga” a criação do Regime Internacional de Acesso aos Recursos Genéticos e Repartição de Benefícios. De outro, os países em desenvolvimento, ricos em biodiversidade, querem discussões em “ritmo de lebre”, compara o ministro-chefe da divisão de Meio Ambiente do Ministério de Relações Exteriores, Hadil da Rocha Viana. Nas negociações, a delegação brasileira buscou manter o texto do projeto oficial em discussão, elaborado no início do ano em uma reunião preparatória realizada em Granada, na Espanha. “Acreditamos que o refinamento do acordo possa começar a ocorrer após o COP8 e, quem sabe, daqui a dois anos, na COP9, consigamos a criação do Regime de Acesso e Repartição”, diz Viana. O texto do acordo tem muitos colchetes, o que em linguagem diplomática indica os pontos em que ainda não houve consenso.

Entre as “lebres” estão o Grupo de Países Megabiodiversos, o Grupo Africano e o Grupo América Latina e Caribe (Grulac). No grupo das “tartarugas”, que adotam uma postura de adiar as decisões, estão Japão, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e países da União Européia, à exceção da Espanha. “Esses estão em uma situação confortável, pois ficam com todos os benefícios atualmente”, afirma Vianna. Segundo o ministro, a intenção do acordo é promover a distribuição justa dos recursos, que podem vir em forma de transferência de dinheiro ou de tecnologia, capacitação e cooperação científica. Irá também definir a repartição dos benefícios para as comunidades que tiverem seus conhecimentos tradicionais utilizados por empresas e para os países que estiverem cedendo seus recursos genéticos.

US$ 1 BILHÃO As delegações concordaram em manter como referência para os debates sobre o regime um texto elaborado na reunião de Granada, no início do ano. Esse ponto era defendido pela maioria dos países em desenvolvimento. O secretário-executivo da CDB, Ahmed Djoghlaf, informou que US$ 1 bilhão estarão disponíveis para a implementação das decisões da COP8 nos próximos dois anos. Os polêmicos experimentos com as chamadas sementes Terminator por enquanto permanecem restritos aos laboratórios. A tecnologia das árvores geneticamente modificadas será avaliada pelo comitê científico da CDB até a COP9, a ser realizada na Alemanha em 2008. O texto aprovado reconhece que ainda existem muitas dúvidas quanto aos possíveis impactos ambientais e socioeconômicos dessas árvores.

53


PAULL KELLER

54

AGRICULTURA FAMILIAR

adianta as espécies estarem nas matas, é preciso que elas gerem valor, seja ele fitoterápico, alimentar, ornaCom base em dados do INCRA mental ou de matéria-prima, como no coletados pelo MDA, a agricultura caso das fibras, para confecção de familiar responde, em média, por artesanato”, explica. Uma segunda 60% de todos os alimentos que iniciativa do MDA é agregar valor vão à mesa dos brasileiros. aos produtos desenvolvidos na agricultura familiar, lançando mão de Em porcentagens, estima-se que um programa de agroindustrializa84% da mandioca, ção e de produção de artesanato. 67% do feijão, Por fim, uma terceira linha de 52% do leite, RENDA PARA PEQUENOS ação do MDA está relacionada com 49% do milho, Recuperar a biodiversidade a fim o turismo. Medaets entende que a 40% das aves e ovos e de que possa gerar renda para pediversidade não é somente encon58% dos suínos quenos agricultores é um objetivo trada nos produtos, pois eles estão do Brasil tenham sua origem no da Secretaria de Agricultura Famililigados muitas vezes a valores e tratrabalho de pequenos agricultores. ar (SAF) do Ministério do Desendições. “Temos identificado a carga volvimento Agrário (MDA). Seguncultural que adere aos produtos proEles representam 84% dos do o doutor em desenvolvimento duzidos pelos pequenos agricultoimóveis rurais do país e estão sustentável e assessor técnico do res, o que auxilia no desenvolvimenpresentes em mais de 4,1 milhões MDA, Jean Medaets, programas to das feiras. Elas resgatam manifesde propriedades no meio rural, dessa natureza têm fundamental imtações culturais valiosas”, diz. sendo responsáveis por empregar portância, uma vez que, para ele, os Na sua opinião, agregar valor às sete a cada dez trabalhadores pequenos agricultores são os guaratividades das famílias de agricultono campo. diões da biodiversidade. “As fares é uma forma de barrar monoculmílias de agricultores cultivam alituras e estimular a manutenção de mentos dos mais diversos materiambientes com alto grau de biodiais genéticos. Sem a agricultura familiar, muitos alimentos po- versidade. “Como a floresta e o cerrado poderão concorrer dem sumir da mesa dos brasileiros”, afirma. com a invasão de soja?”, pergunta. Para o assessor, não será Um dos papéis da SAF, conta Medaets, é o de resgatar a somente com o valor de estoque ambiental que áreas ricas em biodiversidade genética e cultural vinculada à agricultura fa- espécies de fauna e poderão sobreviver. “O estoque tem de miliar, para gerar utilidade e, conseqüentemente valor econô- virar fluxo sustentável, com utilidade para a sociedade”, ensimico. Para tanto, diz o assessor, o MDA incentiva os peque- na. Em outras palavras, em ambientes como a floresta e o nos agricultores, por meio de financiamentos do Programa cerrado é preciso que se fomente atividades que não agridam Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), a diversidade genética local, mas que gerem renda para a a exercerem atividades agroecológicas e biodiversas, o que população. inclui incentivo à produção de alimentos orgânicos e crédito www. para projetos de silvicultura e sistemas agroflorestais. “Não segurança alimentar. De acordo com a publicação, apenas 12 produtos agrícolas fornecem aproximadamente 75% dos alimentos para a humanidade em todo o mundo, o que aumenta a vulnerabilidade para doenças e pestes. Os agronegócios contam com a diversidade de genes de parentes selvagens dos produtos domesticados para assegurar a saúde dos alimentos.

ifc.org/biodiversityguide (em inglês)


Reservas particulares conservam Mata Atlântica A solução para proteger parte da Mata Atlântica no Paraná encontrada pela Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem (SPVS) foi a de transformá-las em Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN). Sob a forma de uma organização social da sociedade civil de interesse público (oscip), a SPVS iniciou em 1999 três projetos com duração de 40 anos, com o objetivo de conservar parte do que resta da Floresta Atlântica brasileira e a implementação de projetos de captação de carbono. Para tal, a entidade adquiriu 19 mil hectares de áreas degradas da Área de Preservação Ambiental (APA) de Guaraqueçaba, por meio de uma parceria com a The Nature Conservancy (TNC), que buscou apoio financeiro com a American Electric Power, a General Motor e a Chevron Texaco. Embora a captação de recursos tenha sido realizada pela TNC, as áreas pertencem à SPVS, afirma a

assessora jurídica da SPVS, Cassiana Aben-Athar Pires Gomes. Segundo ela, se em algum momento no futuro a SPVS for desconstituída, as áreas deverão passar para outra organização social brasileira que tenha a mesma finalidade estatutária, de conservação ambiental. A importância de se conservar o que resta da Floresta Atlântica se deve ao fato de abrigar 15% de todas as formas de vida do planeta, pois conta com 1,6 milhões de espécies de animais, o que inclui insetos, além de 20 mil vegetais. Porém, há o risco de extinção de cerca de três mil espécies de plantas, 35 espécies de mamíferos e de mais de 100 espécies de aves. Segundo a SPVS, a parte mais conservada da Floresta Atlântica é a região da APA de Guaraqueçaba, que se estende pelos municípios paranaenses de Guaraqueçaba e parte de Antonina, Paranaguá e Campina Grande do Sul, numa área de 35 mil hectares.

Ongs avaliam resultados Organizações não-governamentais e representantes da sociedade avaliam que a COP8 teve avanços, mas está longe de atender as expectativas dos interessados em proteção da biodiversidade. Pressões comerciais são apontadas como uma das causas para o retardamento de decisões importantes. Veja alguma opiniões: Temístocles Marcelos, secretário executivo do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento: “Temos motivos a comemorar na questão do Terminator, uma vez que caiu todo o texto que estava em negociação em Granada”. Ricarda Steinbrecher, da Federação de Cientistas Alemães, reconhece avanços, mas acha que o modelo de consenso utilizado nos de-

bates foi contraditório e improdutivo: “É um modelo democrático, que pretende considerar as posições de todos os envolvidos, mas no caso da Conferência ele não é a melhor solução”. Mario Cesar Mantovani, da organização brasileira SOS Mata Atlântica, destaca a ampla participação da sociedade civil: “Acredito que as entidades têm que se aprimorar nos elementos de pressão e o grande desafio é traduzir para o público o que acontece na convenção”. Henry de Novion, do Instituto Socioambiental (ISA), é cético: “Em 14 anos de CDB, os parques estão no papel, o uso sustentável não está acontecendo e a repartição de benefícios não vai existir, porque implica que os países ricos paguem pelo que já estão usufruindo”.

55


ECOLOGIA

Cuidando da vida

De quantos planetas Pegada Ecológica compara o consumo com a capacidade da natureza em fornecer recursos

Pneu verde

56

A francesa Michelin apresenta no Salão de Genebra 2006 o Michelin Energy, mais conhecido como pneu “verde”. O produto tem menor resistência à rodagem (na ordem de 9 quilômetros por tonelada), reduzindo o consumo de combustível do veículo e, por tabela, a emissão de poluentes. Os pneus têm um papel essencial no consumo de combustível de um veículo, sendo responsáveis por aproximadamente 20% do consumo em um carro de passeio e por mais de 30% em um caminhão. Em outras palavras, um a cada cinco tanques de um carro é utilizado em razão da resistência à rodagem. Se todos os veículos na Europa fossem equipados com pneus verdes, 4,5 bilhões de litros de diesel e 1,5 bilhão de litros de gasolina seriam economizados a cada ano. Haveria também uma diminuição de 15 milhões de toneladas na emissão de CO2, o que corresponde à quantidade absorvida por 600 milhões de árvores em um ano.

29

bilhõesdedólares são oferecidos mensalmentepelos paísesdesenvolvidos em subsídios aatividadesambientalmente “perversas”–transporte,agriculturaeextrativismoinvasivos. Fonte:Greenpeace

Pegada Ecológica é um indicador que compara a quantidade de recursos naturais necessários para atender às necessidades de um cidadão, comunidade ou nação com a capacidade do planeta em produzi-los. O cálculo, criado pelos ecologistas William Rees e Mathias Wackernagel na década de 1990, combina quatro categorias: alimentação, transporte, habitação e bens de consumo e serviços. Considerando o mundo inteiro, seria preciso de quase meio planeta a mais para atingir a sustentabilidade. Confira abaixo a Pegada Ecológica de alguns países:

Os dados mostram que, de Japão a México, a Pegada Ecológica é maior do que a capacidade desses países de garantir o consumo sustentável de sua população. Nesse sentido, seria necessário apenas um quinto do território brasileiro para dar conta da atual demanda de seus habitantes. O indicador comprova que nações como Suécia, Canadá ou Brasil ainda têm grandes reservas para atender as pessoas que vivem neles. O índice revela ainda que, ao contrário do pensamento comum, a crise de sustentabilidade reside igualmente no uso de recursos renováveis, tanto quanto dos não-renováveis. Descubra você também sua Pegada Ecológica em www.myfootprint.org (em português).


precisamos?

País

Japão Itália Reino Unido Colômbia Rússia Alemanha Estados Unidos China França Índia México Suécia Canadá Chile Paraguai Argentina Uruguai Peru Brasil Bolívia

População (em milhões de pessoas)

127,5 57,5 59,3 43,5 144,1 82,4 291,0 1302,3 59,9 1049,5 102,0 8,9 31,3 15,6 5,7 38,0 3,4 26,8 176,3 8,6

Pegada Ecológica (hectares por pessoa) 4,3 4,0 5,6 1,2 4,4 4,4 9,7 1,6 5,6 0,7 2,4 5,5 7,5 2,2 1,9 2,2 2,1 0,9 2,1 2,0

Biocapacidade total (hectares por pessoa)

Quantos países similares seriam necessários para suprir o consumo de sua população

0,8 1,1 1,6 3,6 1,4 1,8 4,7 0,8 3,2 0,4 1,7 9,8 15,1 5,4 5,4 6,7 7,5 4,2 10,1 15,4

5,37 3,63 3,50 3,33 3,14 2,44 2,06 2,00 1,75 1,75 1,41 0,56 0,49 0,40 0,35 0,33 0,28 0,21 0,20 0,13

Fonte: Agência Européia de Meio Ambiente 2005 (dados de 2002)

Um ano após a entrada em vigor do Protocolo de Quioto, o WWF-Brasil faz um alerta à sociedade sobre a urgência do tema mudanças climáticas e sua relação direta com o desmatamento. As emissões de carbono resultantes dessa prática no país evidenciam a urgência de uma postura mais firme do governo brasileiro para manter de pé a floresta. No país, o desmatamento é responsável por cerca de 80% das emissões de carbono porque depois de derrubada, a floresta é queimada. “O Protocolo de Quioto é até hoje a única ferramenta internacional na luta contra um dos maiores desafios para a humanidade, o aquecimento global. Por isso, é essencial o cumprimento de suas metas", diz a secretária-geral do WWF-Brasil, Denise Hamú. "Infelizmente, ainda estamos longe de implementar reduções significativas e duradouras que reduzam as emissões causadas pelo desmatamento”, complementa. O ano de 2006 é crucial para a luta contra as mudanças climáticas no Brasil. “Tanto a construção de centrais termelétricas no Sul quanto o desmatamento na Amazônia devem ser combatidos urgentemente para proteger a população brasileira e a biodiversidade dos possíveis efeitos catastróficos do aquecimento global”, alerta o coordenador do Programa de Mudanças Climáticas para a América Latina da Rede WWF, Giulio Volpi. A partir de agora, uma nova oportunidade se apresenta ao governo brasileiro para combater o desmatamento respeitando os acordos internacionais sobre mudanças climáticas. O plano de ação estabelecido na conferência da ONU sobre mudanças climáticas em Montreal, em dezembro, prevê a criação de mecanismos de compensação financeira aos países em desenvolvimento que diminuírem suas emissões por meio da redução de suas taxas de desmatamento. Para o WWF-Brasil, existe um leque variado de opções para os tipos de compromissos que poderiam ser adotados. Uma delas seria o país se comprometer a adotar uma meta nacional para reduzir as emissões provenientes do desmatamento, acompanhada de verbas específicas para sua implementação. Se for estabelecido um compromisso internacional, ele poderia ser financiado por intermédio do mercado de carbono ou de outros mecanismos financeiros como empréstimos ou doações dos fundos multilaterais e bilaterais.

57


Propostas para um mundo O jornal britânico The Independent conclamou seus leitores a mandar suas sugestões para salvar o planeta. Veja as propostas mais populares:

PRÓ

58

Construir casas com painéis solares ou turbinas de vento

Reduziria a dependência de combustíveis fósseis e forneceria uma fonte renovável de energia.

Classificar os produtos de acordo com seus efeitos no clima

Conscientizaria os consumidores a respeito dos impactos ambientais dos produtos. Poderia levar os fabricantes a competir em termos de serem ambientalmente amigáveis.

Obrigar passageiros de avião a pagarem pelo “custo ambiental” de voarem

Afetaria uma das maiores fontes de emissão de dióxido de carbono

Cobrar mais barato pelo transporte público

Reduziria a poluição em áreas urbanas

Tornar obrigatórias as lâmpadas que poupam energia

Lâmpadas fluorescentes gastam 67% menos energia que as incandescentes e duram pelo menos 10 vezes mais.

Estimular as pessoas a trabalharem em casa

Reduziria o tráfego urbano – e, por conseqüência, a emissão de gases – e incentivaria o surgimento de comunidades rurais.

Usar leis para encorajar a reciclagem

Reutilização de grande parte do lixo doméstico e industrial

Banir das cidades os carros com tração nas quatro rodas Diminuir a embalagem dos produtos

Reduziria a emissão de poluentes e deixaria as ruas mais seguras para os outros motoristas e pedestres. Reduziria drasticamente a quantidade de lixo produzido


melhor CONTRA Turbinas de vento poderiam trazer problemas de saúde e segurança. Turbinas maiores já foram banidas dos campos devido à sua feiúra e interferência no vôo dos pássaros. Dificuldade de julgar o impacto real dos produtos sobre o meio ambiente.

Os danos ambientais causados pelos aviões são difíceis de mensurar, impossibilitando o consenso.

Freqüência cada vez mais rara em bairros pobres e/ou afastados Lâmpadas fluorescentes custam mais caro que as incandescentes.

Empresas teriam de montar escritórios domésticos nas casas de seus empregados. Padrões de saúde e segurança seriam menos observados. Coleta, separação e reciclagem tornam três vezes mais caro o recolhimento de lixo.

As pessoas adoram jipões.

O custo mais alto das embalagens recicláveis seria repassado aos consumidores.

Brasil terá US$ 60 milhões para ambiente Brasil vai receber US$ 60 milhões nos próximos quatro anos para o desenvolvimento de ações de conservação e uso sustentável dos recursos naturais. A verba será repassada pelo Global Environment Facility (GEF), ou Fundo Global para o Meio Ambiente, um mecanismo de cooperação internacional com a finalidade de viabilizar projetos que beneficiem o meio ambiente global. “Este recurso, que é repassado a fundo perdido, deverá ser destinado para a preservação da biodiversidade brasileira. Agora, cabe ao governo brasileiro orientar a aplicação do dinheiro”, afirma o gerente da equipe de biodiversidade do GEF, o peruano Gonzalo Castro. Ele anunciou ainda a aprovação de um projeto da Rede de Fundos Ambientais da América Latina e do Caribe (RedLAC) no valor de US$ 1 milhão. O projeto prevê a criação de um banco de dados das ações de conservação e uso sustentável dos recursos naturais dos 21 fundos ambientais de 14 países (Belize, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, Jamaica, México, Panamá, Peru e Suriname) ligados à RedLAC. Também está previsto o intercâmbio de experiências bem-sucedidas. No total, esses fundos movimentam US$ 700 milhões em mais de 3 mil projetos ambientais. Somente dois fundos brasileiros, o Fundo Nacional de Biodiversidade (FunBio) e Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA), são filiados à RedLAC.

59


Agenda global

Por um mundo melhor

Compromisso compartilhado Há quase seis anos uma agenda da sustentabilidade global tem servido de baliza para a ação responsável de governos e sociedade. Aprovada pelas Nações Unidas em setembro de 2000, a Declaração do Milênio marcou o compromisso compartilhado de 191 países – incluindo o Brasil – com ações concretas para melhorar o mundo. Esse compromisso se traduz em oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, cada um com metas específicas, a serem atingidas pelos países até 2015 (veja quadro). A iniciativa foi recebida com aplauso por muitos e

til” falar de reduzir o número de pessoas que morrem de malária. Ele sugere alterações nas metas para que possam ser medidas com mais qualidade. Três diretores do Projeto Milênio – órgão encarregado pela ONU de sugerir medidas práticas para realização dos ODMs – respondem que Attaran levanta pontos importantes, mas tira conclusões equivocadas. John McCarthur, Jeffrey Sachs e Guido SchmidtTraub asseguram que já há informação suficiente para começar a investir em educação, saúde, infra-estrutura básica e gerenciamento ambiental.

tem rendido inúmeros resultados positivos, mas sua aplicabilidade também é vista com ceticismo. Um relatório da Rede de Monitoramento Amiga da Criança, por exemplo, afirma que cinco das oito metas mensuráveis para garantir às crianças um futuro melhor estão longe de ser cumpridas pelo Brasil, em especial na educação. Em janeiro a Rede, integrada por 35 entidades, cobrou mais empenho do governo no acompanhamento das metas. O debate tem ganhado espaço na mídia internacional. Em artigo publicado no site Public Library of Science – Medicine em setembro, o especialista em desenvolvimento global Amir Attaran diz que os esforços para combater os problemas do mundo são pouco efetivos porque não podem ser cientificamente mensurados. Ele cita a malária. Quando os ODM foram criados, os cientistas sabiam pouco sobre quantos são infectados e morrem da doença. Sem dados para se basear, argumenta, é “fú-

Bunker Roy, presidente da Rain Water Harvesting Collective – organização que lida com projetos comunitários para água potável e esgoto – acredita que qualquer meta conduzida de cima para baixo e sem transparência está destinada a fracassar: “Esse modelo encoraja uma colossal falsificação de dados, o uso excessivo de consultores e fornecedores privados, conflitos de interesse e clientelismo”, disse em em setembro ao International Herald Tribune. O administrador do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Kemal Dervis, tem uma visão bem mais positiva: “Esta é uma guerra que podemos vencer – nunca antes tivemos os recursos, a tecnologia e o apoio público para evitar que centenas de milhões de pessoas sejam condenadas a vidas de privação abjeta”, afirma. “Já dispomos de um plano de batalha prático e amplamente aceito. Temos até 2015 para fazer isso, mas precisamos começar imediatamente.”

1,2 CONTRAPONTO

60

Brasil, África do Sul, Filipinas, Maldivas, Malásia e Tanzânia já integram às suas políticas de promoção dos Objetivos do Milênio as ações de proteção à biodiversidade. Os seis exemplos positivos foram apresentados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) na 8ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP 8), em Curitiba, como um contraponto ao alerta da organização: se o mundo não cumprir a meta de reduzir a perda de biodiversidade até 2010, prevista na Convenção, será muito difícil também atingir os ODM até 2015.

bilhão de pessoas sobrevivem com menos que o equivalentea1dólarpor dia.Masasituação começou a mudar em pelo menos 43 países,cujospovos somam 60% da populaçãomundial. Fonte: PNUD


Semi-árido Para combater a degradação ambiental em uma das regiões brasileiras mais ameaçadas de desertificação, os arredores do município paraibano de Seridó, o PNUD vai organizar cursos para mostrar aos pequenos produtores rurais as vantagens econômicas da preservação ambiental. Junto com as regiões de Gilbués (Piauí), Irauçuba (Ceará) e Cabrobó (Pernambuco), Seribó é considerado pelo Ibama um dos quatro “núcleos de desertificação” do país. São áreas em que o uso inadequado dos recursos naturais, aliado ao clima seco, tem comprometido a produtividade do solo. Cursos de capacitação serão oferecidos neste semestre a técnicos cuja missão irá além da educação ambiental. Eles devem conquistar o apoio dessas pessoas para ações concretas como a proteção de mananciais de água, corte adequado de madeira e criação de gado de modo a não destruir a pouca mata que resta. A desertificação ameaça 41% do território mundial e 2 bilhões de pessoas. Por causa da gravidade do problema, as Nações Unidas definirem 2006 como o Ano Internacional dos Desertos e da Desertificação.

Mapa gaúcho Até julho o Rio Grande do Sul deverá ter um mapa da situação social dos seus 496 municípios, com base nos indicadores dos Objetivos do Milênio. O projeto é uma iniciativa do Fórum Permanente de Responsabilidade do Rio Grande do Sul (Fórum RS), associação que busca promover ações de responsabilidade social, e da Fundação de Economia e Estatística (FEE), com o apoio do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). O documento vai reunir 17 dos 48 indicadores escolhidos pelas Nações Unidas para monitorar os ODM.

Conheça os ODM Até 2015, todos os 191 Estados-Membros das Nações Unidas assumiram o compromisso de: Objetivos

Metas

1. Erradicar a extrema pobreza e a fome

Reduzir pela metade, entre 1990 e 2015, a proporção da população com renda inferior a um dólar PPC por dia. Reduzir pela metade, entre 1990 e 2015, a proporção da população que sofre de fome.

2. Atingir o ensino básico universal 3. Promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres 4. Reduzir a mortalidade infantil 5. Melhorar a saúde materna 6. Combater o HIV/ Aids, a malária e outras doenças

Garantir que, até 2015, todas as crianças, de ambos os sexos, terminem um ciclo completo de ensino básico. Eliminar a disparidade entre os sexos no ensino primário e secundário, se possível até 2005, e em todos os níveis de ensino, a mais tardar até 2015.

7. Garantir a sustentabilidade ambiental

8. Estabelecer uma Parceria Mundial para o Desenvolvimento

Reduzir em dois terços, entre 1990 e 2015, a mortalidade de crianças menores de 5 anos. Reduzir em três quartos, entre 1990 e 2015, a taxa de mortalidade materna. Até 2015, ter detido a propagação do HIV/Aids e começado a inverter a tendência atual. Até 2015, ter detido a incidência da malária e de outras doenças importantes e começado a inverter a tendência atual. Integrar os princípios do desenvolvimento sustentável nas políticas e programas nacionais e reverter a perda de recursos ambientais. Reduzir pela metade, até 2015, a proporção da população sem acesso permanente e sustentável a água potável segura. Até 2020, ter alcançado uma melhora significativa nas vidas de pelo menos 100 milhões de habitantes de bairros degradados. Avançar no desenvolvimento de um sistema comercial e financeiro aberto, baseado em regras, previsível e não discriminatório. Atender as necessidades especiais dos países menos desenvolvidos. Atender às necessidades especiais dos países sem acesso ao mar e dos pequenos Estados insulares em desenvolvimento. Tratar globalmente o problema da dívida dos países em desenvolvimento, mediante medidas nacionais e internacionais de modo a tornar a sua dívida sustentável a longo prazo. Em cooperação com os países em desenvolvimento, formular e executar estratégias que permitam que os jovens obtenham um trabalho digno e produtivo. Em cooperação com as empresas farmacêuticas, proporcionar o acesso a medicamentos essenciais a preços acessíveis, nos países em vias de desenvolvimento; em cooperação com o setor privado, tornar acessíveis os benefícios das novas tecnologias, em especial das tecnologias de informação e de comunicações.

Fonte: PNUD Brasil Mais informações em http://www.pnud.org.br e em www.nospodemos.org.br

Planejamento de longo prazo O município de São Paulo vai implantar um plano de ação voltado ao cumprimento os ODM. Representantes do poder público municipal, da sociedade civil e de universidades estão discutindo como adequar às metas à realidade paulistana e como acompanhar o desempenho. Não será tarefa fácil. O município tem quase 11 milhões de pessoas – população se-

melhante à de Portugal, um Produto Interno Bruto de mais de US$ 38 bilhões – superior ao do Uruguai e 12% de sua população vive na pobreza. A Prefeitura de Santo André, na região metropolitana de São Paulo, também decidiu incluir os ODM no planejamento de longo prazo da administração da cidade. A iniciativa faz parte do projeto “Cidade Futuro —

Santo André 2020”, que está coletando informações sobre diversos aspectos do município. Para fazer o levantamento, a Prefeitura vai organizar reuniões com organizações da sociedade civil, empresas, acadêmicos, religiosos e até mesmo alunos das escolas locais. Dados preliminares devem estar prontos até a metade do ano.

61


SOLUÇÕES

Bons produtos do bem

Em sintonia com a necessidade do uso cada vez maior de materiais renováveis na indústria automotiva, a Poematec processa fibra de coco para assentos e encostos de caminhões. A empresa paraense, que fabrica produtos sustentáveis também para jardinagem e colchões, surgiu de um convênio entre a universidade federal daquele estado e a montadora DaimlerChrysler. Além de contribuir para a preservação do meio ambiente e gerar renda para os pequenos agricultores que fornecem matéria-prima, o artefato tem outras vantagens ante a tradicional espuma de poliuretano: mais confortável, maior durabilidade e totalmente reciclável e biodegradável.

www.

www.poematec.com.br

Uma barragem dobrável, usada para evitar enA Volvo lançou uma linha de caminhões e ônibus híbridos que chega a economizar

62

até 35% de combustível. O mecanismo elétrico desenvolvido pela montadora sueca acumula energia suficiente para acelerar veículos pesados sem recorrer ao motor a diesel, reduzindo também o nível de ruído emitido. Os novos modelos são recomendados para serviços que requeiram freadas e retomadas constantes, como o transporte coletivo, coleta de entulhos e construção civil.

www.

www.volvo.com

chentes principalmente em áreas urbanas, onde levantar diques ou obras de contenção permanentes é quase impossível. A invenção só poderia vir da Holanda, um país com histórica tradição na luta contra inundações. Conhecido como Dutchdam (barragem holandesa), o produto é feito de alumínio e instalado em uma canaleta à beira de leitos de rios e em diques em frente ao mar. Seu mecanismo permite que esteja sempre em stand by, o que agiliza a reação diante da ameaça de enchente. Na sua forma erguida, a Dutchdam enfrenta até dois metros de água e é mais forte do que toras de madeira ou sacos de areia. Quando dobrada, suporta o trânsito. Desenhado e patenteado pelo holandês Corné Rijlaarsdam, o modelo ganhou o prêmio de design para produtos industriais daquele país em 2004.

www. www.

http://www.dutchdam.nl/

Depois de a Nike desenhar uma espécie de “burka esportiva” para que muçulmanas somalis refugiadas no Quênia pudessem jogar vôlei sem mostrar o corpo, uma empresa italiana anunciou uma coleção de jeans específicos para o consumidor islâmico. Feitas no Paquistão, as calças são confeccionadas em tecido mais resistente e têm modelagem mais larga. Assim, os fiéis conseguem se agachar com maior comodidade para as cinco orações diárias que devem fazer voltados para Meca, como determina a religião. Os fabricantes pensaram em cada detalhe: as peças levam a marca Al Quds (Jerusalém, em árabe), são costuradas em verde (a cor sagrada do Islã) e possuem muitos bolsos para guardar os pertences do devoto durante o ritual. Com o slogan “uma nova expressão para uma velha tradição”, os jeans custam 19 euros (cerca de R$ 50) e já estão à venda em 40 supermercados da rede Carrefour na Itália.

www.

www.alqudsjeans.com


63


monitor

Por dentro dos números

Mercado de (boas) ações

0

EMPRESAS NO ISE

64

ŠALL - América Latina Logística ŠAracruz Celulose ŠBelgo Mineira ŠBradesco ŠBanco do Brasil ŠBraskem ŠCCR Rodovias ŠCelesc ŠCemig ŠCesp ŠCopel ŠCopesul ŠCPFL Energia ŠDASA Diagnósticos da América ŠEletrobrás ŠEletropaulo ŠEmbraer ŠGol Linhas Aéreas Inteligentes ŠIochpe-Maxion ŠItaubanco ŠItausa ŠNatura ŠPerdigão ŠSuzano Bahia Sul Papel e Celulose ŠTractebel Energia ŠUnibanco ŠVotorantim Celulose e Papel ŠWEG

É o número de árvores nativas salvas pela utilização de papel reciclado no Brasil. Apesar de todo o marketing que as empresas que o utilizam estar voltado para questões ambientais, 100% do papel produzido no País vêm de florestas plantadas exclusivamente para esse fim. “É como a soja, nós plantamos, adubamos e colhemos, a única diferença é que o ciclo e maior”, diz Lucas Godinez, diretor de embalagens da Klabin. “Só no imaginário das pessoas aquelas árvores frondosas, lindas, são salvas pelo uso do papel reciclado.”

ISE serve de referência sobre o desempenho sócio-ambiental de companhias brasileiras Antes restrito a meios não necessariamente amantes dos instrumentos mais agressivos do capitalismo, o tema responsabilidade social desembarcou de vez à meca dos seguidores de Adam Smith. Desde novembro a Bolsa de Valores de São Paulo mantém um índice composto por ações de empresas consideradas social e ambientalmente responsáveis. Batizado de Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), ele funciona como um indicador financeiro do desempenho de 28 companhias, de 12 setores diferentes, servindo como um referencial do desempenho no mercado de capitais dessas empresas unidas sob o guarda-chuva da responsabilidade social e ambiental. O ISE, como todo índice, é calculado pela média das valorizações das ações das empresas que o compõem. O Ibovespa, por exemplo, que serve como referencial do desempenho da Bolsa como um todo, é formado pela média das ações das 50 empresas mais

líquidas da Bovespa. Ou seja, daquelas que são mais negociadas. As companhias que fazem parte do Índice de Sustentabilidade Empresarial foram selecionadas a partir de um comitê formado por oito diferentes entidades, incluindo o Ministério do Meio Ambiente, o Instituto Ethos e o Instituo Brasileiro de Governança Corporativa. Essas entidades utilizaram diferentes critérios para selecioná-las, incluindo aí fatores financeiros que não estão apenas ligados à responsabilidade social. Apesar disso, e das polêmicas que surgiram em torno da seleção das empresas, o ISE pretende funcionar como ponto de referência para investidores que queiram aplicar em empresas que seguem os preceitos da responsabilidade social e ambiental. É cedo para avaliar se responsabilidade social dá retorno financeiro aos investidores. Por enquanto, o ISE tem mostrado, na média, desempenho superior ao Ibovespa.


PALAVRA do GESTOR Os investimentos responsáveis experimentaram um grande crescimento na oferta de novos fundos nos últimos seis meses. O principal indutor foi o lançamento do ISE – Índice de Sustentabilidade Empresarial, uma iniciativa da Bolsa de Valores de São Paulo, com o apoio do IFC, a participação de oito entidades no conselho deliberativo do índice e o suporte técnico do CES-Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV-SP.

Tendências do investimento responsável brasileiro em 2006 O pioneiro nesse mercado foi o Fundo Ethical do Banco ABN AMRO Real, lançado em novembro de 2001. O seu principal mérito foi introduzir o conceito no país e derrubar mitos que levavam os investidores a confundir tal estilo de fundos com o investimento social privado e filantropia. Os investidores perceberam que o investimento responsável não significa abrir mão de retorno financeiro esperado. E, além dos bons resultados financeiros, o investidor responsável consegue um retorno intangível ao exercer seu poder de influenciar o comportamento social e ambiental das empresas, o também chamado “retorno triplo”. É uma situação em que todos ganham e ninguém perde. Uma economia forte só se desenvolve dentro de uma sociedade também forte. Vale ressaltar o papel importante da Abrapp que em 2004, em conjunto com o Instituto Ethos, elaborou e divulgou os Princípios Básicos de Responsabilidade Social de Fundos de Pensão. Já observaremos o crescimento da penetração do produto no mercado como efeito da maior concorrência no setor. Ao mesmo tempo, outras iniciativas irão pavimentar o caminho dos fundos responsáveis, destacando-se o progresso na divulgação de relatórios de sutentabilidade, o lançamento da ISO 26000 de responsabilidade social, o desenvolvimento do mercado de certificados de carbono da BM&F, o crescimento da importância dos prêmios e selos de responsabilidade corporativa e do Novo Mercado da Bovespa, além do lançamento de serviços de pesquisa socioambiental, a exemplo do lançado pela Corretora ABN AMRO Real em 2005. É de se supor ainda um maior envolvimento por parte dos consultores de investimentos, das agências de ratings e das corretoras sellside no sentido de incluir em suas análises de investimentos, aspectos relacionados com governança e gestão socioambiental. Os conselheiros dos fundos de pensão e os profissionais que definem a política de investimentos desses grandes investidores institucionais deverão incluir a dimensão do investimento responsável em suas políticas de investimentos. O governo poderá criar mecanismos de estímulo ao investimento responsável por meio da aplicação de uma alíquota menor de imposto de renda, pois a renúncia fiscal seria muitas vezes devolvida à sociedade sob a forma de iniciativas sociais e ambientais desenvolvidas por empresas brasileiras, interessadas em serem incluídas nos fundos de investimento responsável. Pedro Angeli Villani Gestor de Renda Variável/ FIA ABN AMRO Ethical ABN AMRO Asset Management DTVM

TrêsPerguntas Gregorio Mancebo Rodriguez Presidente Interino da ANIMEC Associação Nacional de Investidores do Mercado de Capitais Como o senhor avalia a iniciativa da Bovespa de lançar um índice que permita ao mercado acompanhar o desempenho de companhias social e ambientalmente responsáveis? GREGORIO MANCEBO RODRIGUEZ - O ISE é mais um instrumento para ajudar o investidor na escolha de seu investimento em ações. Para o investidor é importante ter o maior conhecimento possível das empresas nas quais ele pretende investir. Como na prática ele não tem condições de analisar todas as empresas, os índices que asseguram que determinadas empresas seguem parametros definidos são instrumentos que facilitam a tomada de decisão por parte do investidor. O ISE já é um índice relevante na hora de decidir em que ações aplicar? RODRIGUEZ - O ISE ainda não é considerado relevante para a tomada de decisão pelo investidor, por ser um indicador recente e sobre o qual existe ainda um certo desconhecimento. Em termos de relevância, a análise e recomendação feita pelas instituições financeiras, ainda é o fator mais importante para a tomada de decisão. Qual a relação entre lucro e responsabilidade social/ambiental? RODRIGUEZ - É muito difícil relacionar o lucro com a responsabilidade social e ambiental. As empresas que possuem responsabilidade social e ambiental tendem a ser melhor precificadas pelos investidores. Em muitos casos, para atender as necessidades de uma boa politica ambiental e responsabilidade social, as empresas têm que fazer grandes investimentos, que não se traduzem em lucro no curto prazo e sim no decorrer de vários anos, quando esses investimentos maturam. Portanto, não seria correto fazer uma correlação entre lucro e responsabilidade social e ambiental.

65


HUMOR

Frank 66


67


Revista 1  

http://www.primeiroplano.org.br/MyFiles/Revista_1.pdf

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you