Issuu on Google+

06 . 11 Por-

tugal é hoje um país sonâmbulo. 600 000 desempregados, 2 milhões de pobres, outros tantos em risco de o ficarem se os apoios do Estado se esvaírem, 4 milhões de analfabetos funcionais, 85 % de pequenas empresas instáveis com menos de 10 trabalhadores, uma escala etária em acelerado processo de inversão e uma taxa demográfica de regeneração a rasar o nulo, uma oligarquia político-económica constituída por 50 000 burocratas impiedosos (a maioria ligada ao Partido Socialista e ao Partido Social Democrata) que se apoderou ferreamente da totalidade das estruturas administrativas do Poder e cujo nível cultural sobre a história de Portugal e comoção sentimental face à pobreza são praticamente inexistentes, um sector imobiliário envelhecido de casas apertadíssimas de duas e três assoalhadas, uma política que se apoderou de todos os espaços públicos patrimoniais, exigindo subidos pagamentos para a sua frequência, esperas de 4 horas em serviços médicos de urgência e de meses e por vezes anos para uma simples operação às cataratas, 3 a 4 meses para uma operação de urgência a um cancro. Subúrbios miseráveis próprios do terceiro-mundo, um relativismo ético entre os cidadãos que imita a corrupção nos negócios do Estado e a total falta de ética presente na vida de políticos conhecidos, cujo exemplo (i)moral reside no oportunismo partidário, na ocupação desenfreada e terrorista de funções públicas sacando do Estado o máximo possível em honorários e regalias sob a complacência e o aproveitamento do Presidente da República, que ao país dá um fervoroso exemplo de como se deve ser um cidadão oportunista recebendo duas chorudas pensões de reforma: uma autêntica mancha podre que infecta a totalidade da vida nacional e corrói a dignidade de qualquer cidadão eticamente nobre, que só deseja afastar-se de tal gente. Com tal gentalha imoral que se assenhoreou dos postos governativos e dos lugares do Parlamento, meras cabeças de rebanho, totalmente desprovidos de cultura, Portugal não tem outro destino que seguir as soluções formatadas que fizeram da França, da Itália e da Inglaterra países hoje historicamente decadentes. E o português nada faz, reverencia santamente um presidente da república que se encontra no poder há 25 anos, responsável por erradas opções políticas desenvolvimentistas e de apoio ao consumo que tornaram Portugal um dos países socialmente mais desequilibrados da Europa, um ex- e um actual

primeiro ministro de boca cheia de Europa, envergonhado do atraso tecnológico e da pobreza dos seus concidadãos… e Portugal nada faz para contrariar esta situação a não ser as clássicas e esgotadíssimas manifestações trimestrais da CGTP. Um classe média instável e uma classe alta constituídas por menos de 500 0000 de portugueses fazem a economia portuguesa girar, trocam de carro de três em três anos, viajam em auto-estrada, enchem as lojas dos centros comerciais, fazem férias no estrangeiro, vivem no litoral, consomem (poucos) jornais, livros, revistas e espectáculos, inundam as lojas “gourmet” e não frequentam os hipermercados, abarrotados com os dois milhões de pequeno-burgueses que habitam os bairros suburbanos do Cacém, do Seixal e do Valongo, consumindo barato e de fraca qualidade. Meio milhão de portugueses (classe média alta e classe alta) constitui o rosto do nosso subdesenvolvimento, proporcionalmente semelhante ao Brasil (10 milhões de muito ricos para uma população de 240 milhões), Argentina (um milhão de ricos para cerca de 10 milhões de habitantes) e da Índia (menos de 100 milhões de ricos para um bilião e 200 milhões de habitantes). Este, também, o resultado das políticas portuguesas cavaquistas tomadas ao longo de 30 anos, assente mais na construção e no consumo e menos na formação e produção, Contrária à nossa, que não ultrapassa os 15 % (contando a totalidade da classe média) a classe média de um país atinge, na Europa, a proporção de 60 % da população, permitindo, sob o descalabro e o decadentismo político, uma vida socialmente normal e um cidadão ilustrado e activo. A progressiva e aceleradíssima informatização electrónica da sociedade por via de uma ideologia sem rosto nem personalidade, assente exclusivamente no controle e na segurança; a funda queda demográfica anunciada para meados deste século, provam a existência de uma profundíssima descristianização de Portugal, de efeitos absolutamente imprevisíveis na criação de uma sociedade futura desprovida de éticas espirituais assentes em valores humanistas, porventura obediente a um totalitarismo tecnocrático e informático, pelo qual os portugueses vindouros abdicarão da liberdade em nome da segurança e da abastança. Desde a década de 1990, o aparelho de Estado, privilegiando exclusivamente um sector da sociedade – a economia –, desprezando fundo os valores morais e espirituais próprios da cultura portuguesa, tem gerado na mente dos portugueses uma representação parcial de si próprios, que, incapaz de se elevar à unidade de uma ideologia estruturada e consolidada, se caracteriza pela passividade cívica, compensada por uma hipervalorização do individualismo, assente na fórmula amoral do “salve-se quem puder”. Mistura de complexo pombalino com um arreigado individualismo americano, o projecto político português caracteriza-se hoje, no princípio do século XXI, pela exaltação unidimensional do homem técnico, o homem-eficiente, o homem-contabilista, o homem-robóti-

Portugal hoje

NR 17

ano: 2011 . nr 17 . mês: junho . director: António Serzedelo . preço: 0,01 €

co, desprovido de consciência histórica global, funcionando exclusivamente segundo o duplo horizonte de raciocínios técnicos quantitativos e consequentes objectivos. Não são políticos os nossos governantes de hoje, mas economistas (os novos falsos profetas do século XXI), técnicos, robots substituíveis uns pelos outros, possuindo o mesmo vocabulário, aplicando invariavelmente o argumentário da eficiência de custos e proveitos, totalmente desacompanhados de uma dimensão cultural e espiritual para a sociedade. Bom governo seria hoje aquele que, por múltiplos meios, apostasse em fazer de cada português, não um robot técnico de fato cinzento, camisa azul e gravata verde ou amarela (actual fato-macaco do cidadão técnico), que é sempre um cidadão inconscientemente instrumento de cruéis estruturas económicas, mas um homem culto, consciente do seu lugar na sociedade e na história. Portugal precisa menos de um choque tecnológico (experimentado pelo pombalismo, pelo fontismo e pelo cavaquismo, cujas consequências em nada mudaram o nosso ser, limitando-se a uma mera actualização de instrumentos técnicos ao serviço da sociedade civil e do aparelho de Estado) e mais de um choque cultural, elevando cada cidadão a um exigente patamar de conhecimento humanista e cívico que, por arrasto, geraria inevitavelmente o desejado choque tecnológico. Primeiro, a cultura, o espírito, o sentido da transcendência histórica; depois, por inevitável arrasto de exigência cívica, o progresso tecnológico. A brutal inversão destes valores pelos actuais governantes evidencia tanto a sua pobreza de espírito quanto o projecto pombalino desumanamente tecnocrático em que se encontram empenhado, expresso na actualização informática e metodológica da escola, desacompanhada do reforço de uma visão humanista e cultural da escola, tendente a complementar tecnicamente a consolidação de um universo ético na escola fundado nos valores da dignidade, da partilha, da solidariedade, da honestidade, da lealdade, da honradez. Miguel real

um país sonâmbulo


2011 JUN

NR 17

02 boreal

Editorial No passado dia 5 de Junho o país votou na mudança, com um voto absoluto de protesto, numa importante viragem à direita, deixando o PSD no limiar da maioria absoluta que vai conseguir com o CDS-PP, em coligação. A abstenção foi enorme, e 5. 949.432 eleitores não votaram nos partidos da AR, e os 57 mil votos no PAN, partido dos animais, tem um significado concreto, que se traduz em descontentamento e desilusão. O PS foi largamente castigado nas urnas, o que é natural, depois de 6 anos de Governo muito difíceis. Sobretudo depois da crise global capitaneada pelo capital financeiro chegar em força ao país, e da Europa não ter tido respostas credíveis para dar. Deixou instaurar uma política de medo e pânico entre os cidadãos, e isolando sucessivamente países fragilizados como a Grécia, Irlanda, Portugal , Espanha, para os fazer cair na dependência dos capitais financeiros, sendo que há outros países com dívidas publicas superiores a 50% do PIB, Inglaterra, Áustria, Holanda, França e até

Alemanha, 75%, menos afectados. Sócrates, um líder corajoso, experimentado, e um político de raça, como lhe chamou o “El País”, deixou-se enredar em contradições que não o ajudaram nada, não convenceu com as empresas públicoprivadas, prejudicou -se com imagem de um estado partidarizado, e ficou muito desgastado. Demitiu-se de todos os seus lugares, na sequência dos resultados eleitorais. Fez bem, dando possibilidades ao PS de se rever, autocriticar, repensar, renovar e de eleger um novo líder. O PS tem de perceber que não se consegue convencer e envolver um eleitorado que enfrenta problemas do séc. XXI, com métodos e fórmulas do século passado. Entretanto estas eleições serviram para mostrar até onde os partidos da esquerda são impotentes para apresentarem propostas aceitáveis aos portugueses. Lembremos que se juntaram à direita para deitar abaixo o governo, aproveitando a sua oportunidade única de usar o veto de protesto, fingindo não pensar nas

que ambiciona o poder. consequências, mas sabendo que De facto, na campanha o BE isso levaria inevitavelmente a uma e o PCP foram os partidos que intervenção estrangeira, que eles avisaram mais os cidadãos para os subsequentemente atacariam. Deproblemas que se avizinham, mas pois, quando os mandatários de nem a proposta do PCP de sair da fora chegaram a Portugal, recusazona do euro, nem do Bloco ao ram o diálogo com eles, demitindofazer finca-pé na renegociação da se do seu poder de representação. dívida passaram, mesmo acenanPensaram que o voto útil do do com o cenário da bancarrota. PS passaria para a sua esquerda, Os partidos do Poder fugiram e enganaram-se. O PCP, mesmo sempre às questões fundamentais, elegendo um deputado no Algarve, discutiram ministérios (parabéns!) região de e secretários de Estagrande desemprego, O desemprego do, aumento drástico perdeu 1% dos votantes, ou não do IVA, e cone o BE 48%, o dobro do não se vê como sequente abaixameneleitorado do PS, 24%. possa baixar Este resultado do significativamente, to da contribuição das empresas para a seguBE foi muito mau pelo se não houver rança social. que vai ter de se rever alterações no Agora, o que nos de alto a baixo, para saespera é um ajuste ber se quer ser só um sistema produtivo dramático nos ordenados, na fórmula partido de protesto, dirigido a uma dos despedimentos, nos resultados esquerda bem pensante, e a alguns anuais de todas as famílias, nas depoucos jovens revoltados, dado que duções nas prestações sociais, no muitos já se passaram para o CDS, aumento do IMI, das rendas de casa, depois de verem as questões fracna subida dos impostos, da gasolina, turantes resolvidas, ou quer ser um dos transportes, da electricidade e partido que posso ajudar a esquerda até certos produtos básicos. a modificar-se, com credenciais de

O desemprego não se vê como possa baixar significativamente, se não houver alterações no sistema produtivo, e era importante que baixasse, pelo que a crise económica e social pode continuar a minar profundamente a sociedade nos próximos anos. E agora? Agora é preciso começar a pensar numa plataforma de esquerda, aberta, inovadora, capaz de métodos e comportamentos novos, que escute muito das demandas dos jovens indignados, já internacionalizados, para saber dar respostas às necessidades de uma sociedade democrática em rápida mutação. E os partidos têm de vir a reorganizar-se de forma muito diferente, o que não é exactamente a mesma coisa do que dizer de forma nova. Termino dizendo que há muitos milhões de eleitores à espera destas respostas novas justas e credíveis, que podem ser mobilizados se elas aparecerem, e cada partido ceder um pouco da sua forma de estar e pensar. António Serzedelo anser@gmail.com

COMENTÁRIOS DE CONTEMPORÂNEOS ILUSTRES SOBRE MAHATMA GANDHI “Este é o homem que estimulou trezentos milhões de pessoas para a revolta, que abanou as fundações do Império Britânico, que introduziu na política humana o mais forte ímpeto religioso dos nd la últimos 200 anos .” Rol . Ro s,

) ê n a i 9 4 4 anc a m 1 r R o 66- sta f ram od oN a ( 1 8 anci f o , i ur a r m g Prém erat ó o. t i i b g L r tu l da 5. 1 e 9 b 1 em

“Desde Buda, não mais existiu na Índia W il li a m Jamme Du­­­­­­­rant homem tão venerado. (1885-19 s 81) F ilósofo Pelos séculos vindouros america . no, historia dor de será lembrado, mesmo que elevada dos seus contemporâneos seu reputação. Os s livros dificilmente um único são “a H famosos istória d a Filosofia” nome sobreviva.” e “A História da Civil ização”.

“As gerações futuras mal poderão acreditar que um homem assim, de carne e osso, andou por este mundo.”

Físico -1955). in (1879 te m c os e b in E é t Alber r u nome e s O . a o s, po sta as pess e pacifi s a a d d la to de rmu nhecido do. E=mc2 é a fó rémio n P . u e todo o m da Relatividad ria 21. 19 sua Teo m e a Física Nobel d

“Seja cuidadoso ao lidar com um homem que não se preocupa nada com o conforto ou a promoção, mas está apenas e simplesmente determinado em fazer o que acredita estar certo. Ele é um inimigo perigoso e desconfortável, porque o seu corpo, que poderá sempre ser conquistado, darvos-á pouco domínio sobre a sua alma.” Professo r Gilbert Mur­­­­­­­­­ray (1 8 6 6 - 9 5 7 ). A c a d é m ic o britânico . Traduzi u muitos textos gre gos antig os Inglês. “R égio Profe para ssor de Grego” n aU de Oxford niversidade .

“E foi provado que grandes grupos de homens e mulheres podiam ser treinados para responder ao mais brutal tratamento com uma tranquila coragem e serenidade que impressionou , ro 3) ico. 6 profundamente a opinião 9 -1 itân pública de todo o mun- 1894 a br ( y íst do civilizado.” xle sa u en sH a e u t do is Al anc m

Gandhi, bronze, Bob Clyatt

Selecção de Anil Samarth

FICHA TÉCNICA: Propriedade e Editor: Prima Folia - Cooperativa Cultural, CRL . Morada: Rua Fran Paxeco nr 178, 2900 Setúbal . Telefone: 96 388 31 43 . NIF: 508254418 . Director: António Serzedelo . Subdirector: José Luís Neto Consultores Especiais: Fernando Dacosta e Raul Tavares . Conselho Editorial: Catarina Marcelino, Daniela Silva, Hugo Silva, Leonardo da Silva, Maria Madalena Fialho, Paulo Cardoso . Directora de Arte: Rita Oliveira Martins . Consultor Artístico: João Raminhos . Morada da redacção: Rua Fran Pacheco n.º 176 1.º andar 2900-374 Setúbal . E-mail: jornalosul@gmail.com . Registo ERC: 125830 . Depósito Legal: 305788/10 . Periodicidade: Mensal . Tiragem: 45.000 exemplares . Impressão: Empresa Gráfica Funchalense, SA – Rua Capela Nossa Senhora Conceição, 50 – Moralena 2715-029 – Pêro Pinheiro


2011

A histeria economicista O Wall Street Journal constata que os portugueses continuam com taxas de escolaridade muito baixas (75% não têm mais do que o 3º ciclo, antigo 5º ano) e questiona a nossa capacidade para tomar decisões democráticas e para trabalhar numa sociedade avançada. Os nossos (ainda) parceiros da União Europeia apelidam-nos de porcos (PIGS) enquanto justificam esse epíteto com a corrupção das classes dirigentes e a calanzice popular (só querem é feriados!). A partir de agora só há dinheiro se se pagar bem (e obedecer) aos agiotas irresponsáveis pelo colapso do sistema financeiro – a culpa é atirada aos povos que usaram o crédito “acima das suas possibilidades” (curiosamente os novos empréstimos são entregues sem que haja condições de retorno dos altos juros reclamados?!?). A abstenção eleitoral, discutem os cientistas políticos, é devida ao descontentamento com o funcionamento da política ou decorre da saudável normalidade em que as populações vivem distantes da política, por se entenderem bem entregues nas mãos dos especialistas? Isso explica que sucessivos ataques provocatórios da polícia a manifestações

de pequenos grupos anarquistas sejam ignorados pela opinião pública? Como forma de repressão do descontentamento que possa alastrar ou como forma de manter a normalidade da passividade social? A recente compra pelo ministério da administração interna de carros de combate com a finalidade de entrar em bairros problemáticos levantou um coro de interrogações sobre

episódio foi suficientemente com que dinheiro o Estado os repugnante para muitos dos coiria pagar e sobre o respeito pementadores políticos los prazos de entrehabituais declararem ga. Mas não se quis Os nossos o seu apoio ao direcdiscutir a legitimidator geral, mandante de de o Estado estar (ainda) parceiros a preparar-se para da União Europeia envergonhado de tal cobardia, dispensanuma guerra urbana. apelidam-nos de do-se corajosamente Aquando do epiporcos (PIGS) de acompanhar o misódio de um preso nistro da justiça na cerimónia da atacado a taser, o cheiro fétido lava-mãos (para já não falar de imaginado pela descrição do

ouvir a versão da vítima de tais ataques). Do mesmo modo que no caso mais recente da prisão preventiva de jovens autores de graves actos de violência o Bastonário dos advogados voltou a ficar só (honra lhe seja feita), contra os que reclamam uma punição antes mesmo do julgamento, como preferiu também Obama no caso de Bin Laden. A política está a cair na rua – como anunciam as acampadas que reclamam “democracia verdadeira”, democracia com conteúdos reais e, portanto, decisões a valer – à medida que as instituições do poder se esvaziam, hipotecadas à usura e à perversidade de desconsiderar os direitos humanos como um luxo. @s acampad@s declaram também terem o tempo a seu favor (ao que tudo indica com razão, porque os agiotas compraram os políticos mas não podem comprar o funcionamento da economia). Ironicamente, o prato forte dos debates das “assembleias populares” ainda é os mútuos esclarecimentos sobre como funciona a economia tal como ela é – e não pode mais continuar a ser. António Pedro Dores Professor

"Estranha Justiça e Gratidão" O Presidente Obama disse que “foi feita justiça” com o assassinato de bin Laden. O conhecido terrorista (e antigo aliado dos EUA) não foi morto em batalha e não foi considerado culpado em nenhum tribunal americano ou internacional. De facto bin Laden foi especificamente caçado e assassinado desarmado e sem julgamento. Para quem prescinde do sistema judicial, não haverá problema na situação. Para quem acha que os julgamentos de Nuremberga foram inúteis, para quem acha que Karadzic devia ser assassinado em vez de julgado, para quem acha que Moreno Ocampo devia ter morto Omar al-Bashir em vez de o acusar perante o TPI, tudo está certo. A morte do desprezável terrorista não

o “terrorismo” que proclamam incomoda ninguém de bom senso, querer derrotar. A guerra no Afemas só quem dispensa a justiça é que ganistão começou com o desprezo acha que “foi feita justiça”. A Obama, ao aviso de que as campanhas de juntou-se Durão Barroso que saudou bombardeamento iniciais expuo “grande feito”, Angela Merkel que nham milhões de Afegãos ao pechamou ao assassinato “uma vitórigo de morrerem de fome. Desde ria para a paz”, David Cameron que então a tragédia prossegue. felicitou o “enorme sucesso”, e Tony A luta contra a Al Blair que expressou a Qaeda foi propositasua “profunda gratidão” só quem damente confundida e pelo assassinato. estendida. Bush, Blair, Julgue-se o que se dispensa a justiça Barroso e Aznar iniciaquiser sobre a morte é que acha que “foi ram a guerra no Irade bin Laden, aquilo feita justiça” que, sem autorização que é trágico é o coninternacional, contra texto maior em que o o seu antigo amigo Saddam, invaterrorista morre. As guerras que dindo o país e causando a morte e foram iniciadas ao abrigo da “luta destruição a números espantosos contra o terrorismo” massacrade civis inocentes. Os atentados ram muito mais inocentes do que

de 11 de Setembro forram terríveis que chegue, mas tenhamos presente que no Iraque, entre 2004 e 2009 morreram 66 000 civis. Bush juntamente com Blair, Barroso, e Aznar - eleitos por nós, com o nosso dinheiro, e em nosso nome - sujeitaram os Iraquianos ao equivalente de um 11/9 a cada 3 meses durante anos a fio. Se o 11/9 é um trauma nacional nos EUA, é fácil entender o que estes números e esta tragédia representam para os iraquianos. Para eles não haverá “justiça”. Para haver, de acordo com a lógica das congratulações dos nossos eleitos, seria porventura legítimo que iraquianos armados dispensassem os tribunais e entrassem nas residências de Bush,

PUBLICIDADE

TRAVESSA DOS GALEÕES, L. 5 C

Blair, Barroso e Aznar e “fizessem justiça”. Espero para ver quem expressaria “profunda gratidão” pelo assassinato de Tony Blair e o que acharíamos nós de tal comentário. O assassinato de bin Laden é um episódio pequeno e pouco importante na tragédia humana que atingiu os EUA a 11/9 e que atinge diariamente o Médio Oriente. Para quem rejeita o terrorismo (islâmico e ocidental) resta exigir que, sempre que possível (e no caso de B.B.B.&A. certamente é possível) os suspeitos de crimes sejam obrigados a responder perante a justiça. Filipe Grácio www.epilepsiasocial.net filipegracio@iol.pt

JUN

NR 17

na vazante 03


2011 JUN

NR 17

04 Activismos

A nossa (des)Educação Porque que é que as crianças são tão inteligentes e os homens tão estúpidos? Deve ser a educação que o faz... Alexandre Dumas

Vivemos numa sociedade em que se privilegia o ter em vez do Ser, o exterior em detrimento do Interior, onde reside o nosso potencial Criativo. A educação, cujo objectivo seria o de aflorar as Capacidades e Natureza de cada Ser, contribuíndo para o desenvolvimento de indivíduos motivados e independentes, é antes uma linha de formatação/ manipulação para a criação de gentis consumidores da fábrica capitalista: produzir/consumir/morrer. Os Seres assim desviados e castrados da sua própria natureza e caminho, sem saberem bem que lugar ocupar na sociedade, passam a estar dependentes de entidades superiores que os redistribuem como recursos humanos a seu belo prazer. Como explicar a necessidade de chegar ao 9º ano de escolaridade durante a puberdade e ainda ter que efectuar uns testes psicotécnicos para descobrir qual a vertente a seguir? Não deveria o ensino já nos ter guiado nessa descoberta desde pequenos?!!

liberdade de expressão, toma de deternativos”. Os mais frequentados cisões sobre a escola e o ensino feitas incluem as escolas Waldorf (ou juntamente com os alunos, desenvolSteiner), Montessori e Freinet. Em vimento harmonioso do espírito de Portugal já existem várias destas síntese e análise, entre outros. escolas em actividade, e, também, Ora, se já existem investigações certas escolas privadas em que o que comprovam a eficácia de um programa é mais flexível, incluíndo método em vez de um outro, o que conceitos do ensino alternativo. estamos à espera? Que a nova geRecentes estudos cognitivoração continue a sofrer sociais apontam para a as consequências de eficácia e competência Como um sistema em que da educação alternatio insucesso escolar va em comparação com explicar a é crescente? De uma o obsoleto e inflexível necessidade de sociedade em que sistema convencional, chegar ao 9º ano ninguém sabe quem concluindo que este de escolaridade É, com tendência para último deveria ser re- durante a a depressão e frusavaliado e remodelado puberdade e ainda tração? Em definitià luz dos conceitos alternativos como: ensino ter que efectuar uns vo, continua actual a individualizado direc- testes psicotécnicos Alegoria da Caverna de Platão, descrevendo a cionado às potenciali- para descobrir dificuldade que temos dades e capacidades do qual a vertente a em nos libertar da esaluno, método de ensi- seguir? curidão da ignorância no e material pedagógique nos aprisiona, pela co distinto conforme as luz do Conhecimento e da Verdade. diferentes etapas de desenvolvimenMas os ventos de mudança estão aí to da criança, trabalho interactivo e ninguém os poderá parar! com o professor que tem o papel Maktub de guia e orientador não impondo uma forma restrita de aprendizagem, auto-gestão do estudo, projectos fora Sofia Loureiro da escola, capacidade de questionar, Investigadora

Jeremy Uglow, Allegory of the cave, óleo sobre tela (122x86 cm)

Devido ao seu insucesso, o sistema de ensino convencional tem sido questionado por pais, alunos

e professores desde o século XIX, altura em que começaram a emergir sistemas de educação ditos “al-

PRIMA FOLIA . Educação e Cultura radical . Os low cost Tours O património, cimento da identidade e do conhecimento sobre nós mesmos, deve ser praticado. Por isso, a Prima Folia desenvol-

ve, ao longo dos próximos meses, várias visitas numa verdadeira revolução face às políticas e práticas museológicas tíbias

“Férias de Verão na extinta Biarritz portuguesa”, bem que poderia ser o título do último livro saído da pena de Inês Gato de Pinho. A autora, arquitecta com sólida formação em reabilitação urbana, mas que apresenta capacidade e fôlego para ambicionar a outros voos, apresenta-nos um fascinante estudo acerca das escolhas feitas pelas elites sadinas há cerca de 100 anos atrás. Dessa Setúbal cosmopolita e elegante, vocacionada para o turismo balnear, para o usufruto da natureza e para o consumo da criação cultural, quase nada sobre-

viveu após o surto industrializador massivo das conservas. Assim, as vastas praias, a avenida, os jardins, os teatros e a elegante etiqueta vitoriana foram substituídas por outras realidades. O passeio, guiado pela própria, sai no dia 22 de Junho, às 19h, em frente à Biblioteca Pública Municipal de Setúbal. Note-se que é preciso marcação prévia, pois temos de saber anteriormente o número de comensais. Inscrevam-se.

PUBLICIDADE

primafolia@gmail.com 96 388 31 43

que têm sido apanágio. Acreditamos que o turismo cultural não deve ser um entretenimento pobre apenas destinado às

crianças e à terceira idade, mas pode e deve ser um exercício de aventura, fascínio e descoberta extensível a tod@s, filiado ao en-

Uma festa para os sentidos é a nossa proposta. Vamos percorrer as ruas em busca dos sons perdidos. Trata-se de um percurso pela história da música de Setúbal, com os seus estilos, com os seus compositores e intérpretes, uns lembrados, outros esquecidos. Do Instituto de Etnomusicologia da Universidade Nova de Lisboa vem o mestre Hugo Silva, para fazer os percursos musicais numa viagem, no mínimo, diferente. O passeio sai no dia 1 de Julho, às 19h, em frente à Biblioteca Pública Municipal de Setúbal. Note-se que é preciso marcação prévia, pois temos de saber anteriormente o número de comensais. Inscrevam-se. primafolia@gmail.com 96 388 31 43

riquecimento pessoal através da discussão e tertúlia, do risco e da fronteira, marcos genéticos desta cooperativa.

Arqueologia, identidade e cultura periférica? Estas são alguns dos conceitos à volta dos quais se procurará interpretar a identidade setubalense. Far-se-á uma viagem às teorias genésicas do aparecimento da cidade, às relações entre poderes institucionais e doutrinas históricas, procurará desvelar-se o porquê do aparecimento dos heróis identitários e dos monumentos-símbolo. Este percurso replete de signos e símbolos será realizado por José Luís Neto, doutorado em Arqueologia pela Universidad de Salamanca. O passeio sai no dia 15 de Julho, às 19h, em frente à Biblioteca Pública Municipal de Setúbal. Note-se que é preciso marcação prévia, pois temos de saber anteriormente o número de comensais. Inscrevam-se. primafolia@gmail.com 96 388 31 43


4 de Junho de 2011 - 22º Aniversário do massacre de Tiananmen À espera dos protestos internacionais sobre a repressão dos activistas de Tiananmen Dois dias antes do 22º Aniversário do massacre da Praça de Tiananmen, o Governo Chinês tentou oferecer, de forma discreta, a uma família de uma das vítimas desse massacre, uma eventual indemnização. Esta notícia é insólita porque diz respeito a uma de entre milhares de vítimas, porque os responsáveis chineses nunca assumiram a sua responsabilidade por esses sangrentos acontecimentos e muito menos admitiram discutir o assunto com os familiares das vítimas, cuja associação – Mães de Tiananmen – tem sido alvo de perseguições por lutarem pela reabilitação do nome dos seus entes queridos e pela divulgação oficial do número de mortos dos dias 3 e 4 de Junho de 1989. Esta notícia pode ser um sinal que a China quererá mudar de atitude em relação à apreciação desse terrível evento que anualmente ensombra a sua imagem perante o mundo em que tem vindo a desempenhar um papel relevante. Uma vontade sincera de assumir as suas responsabilidades implicaria a divulgação do número e nome das vítimas e a sua reabilitação, o diálogo sincero com todos os seus familiares e um inquérito e julgamento dos responsáveis pelos acontecimentos. Ao invés, vários activistas defensores dos direitos humanos continuam a ser condenados por terem participado nos acontecimentos da Praça de Tiananmen ou por terem pedido publicamente justiça para as vítimas. Estão presos e condenados a prisão com base em acusações de terem participado nos acontecimentos de Tiananmen ou de terem divulgado textos pedindo reavaliações dos acontecimentos, entre outros, os seguintes activistas de direitos humanos: Liu Xiaobo, académico e poeta, co-autor da Carta 08, Prémio Nobel da Paz de 2010, condenado a 11 anos de prisão em 25 de

PUBLICIDADE

Yue Minjun (1962-), Execution, 1995, óleo sobre tela (150x300 cm), colecção privada

Dezembro de 2009. Liu Xiaobo dedicou o Prémio Nobel às vítimas de Tiananmen. Tan Zuoren, escritor, ambientalista e defensor das famílias das crianças mortas no terramoto de Sichuan, condenado a 11 anos de prisão em 9 de Fevereiro de 2010. Hu Jia, defensor dos portadores de HIV, prémio Sakharov para a liberdade de expressão atribuído pelo Parlamento Europeu em Outubro de 2008, condenado a 3 anos e meio de prisão em 3 de Abril de 2008. Shi Tao, jornalista, condenado a 10 anos de prisão em 2005 por ter divulgado um comunicado do Departamento Central de Propaganda da China com directivas sobre o modo como os jornalistas deveriam abordar o 15º aniversário da repressão na praça de Tiananmen. Historial do massacre da Praça de Tiananmen: Nos primeiros meses de 1989 os estudantes universitários de Pequim começaram a mostrar a sua insatisfação perante a corrupção dos responsáveis chineses,

Num relatório oficial divulgado exigindo reformas políticas e econo fim de Junho de 1989, as autonómicas. As suas revindicações ridades chinesas reconheciam que suscitaram um apoio público mais de 3.000 civis tinham sido fericrescente e, a pouco e pouco, dos e que mais de 200, incluindo 36 começaram a ter lugar manifesestudantes, tinham morrido. Embora tações por toda a China. Depressa os números exactos sejam descoo movimento alastrou a todo o nhecidos, há inúmeros indícios de País. As autoridades não conseque os dados oficiais guiram deter este mosão demasiado baixos. vimento e as tensões pode ser um Imediatamenforam aumentando, te após a repressão principalmente em sinal que a China militar começou uma Pequim, até que em quererá mudar de caça a todos aqueles 20 de Maio foi imposatitude em relação que pudessem ter ta a lei marcial. estado envolvidos Na noite de 3 de à apreciação desse nas manifestações. Junho tropas for- terrível evento Muitos civis foram temente armadas e que anualmente detidos, torturados centenas de tanques ensombra a sua e enviados para pride guerra puseram- imagem perante o sões após julgamense em movimento em mundo tos injustos, sob a Pequim, para “limpar” acusação de delitos os manifestantes pró“contra-revolucionários”. As fademocracia. Muitos civis desarmamílias foram perseguidas, oculdos, incluíndo crianças e idosos, tando que familiares seus tinham foram mortos por disparos das sido mortos ou estavam presos, tropas. Alguns eram meros curiona sequência das manifestações sos que se encontravam nas ruas pró-democracia. Embora já sejam de acesso à Praça de Tiananmen, toleradas as expressões de luto onde se concentravam os manifespor parte das Mães de Tianantantes. No dia 4 de Junho as tropas men, dezenas de pessoas contiacabaram por controlar Pequim.

nuam detidas desde essa ocasião e muitos estão exilados. Todos os anos várias pessoas são detidas ou enviadas para Campos de Reeducação pelo Trabalho (detenção administrativa, sem julgamento) por tentarem assinalar publicamente o acontecimento. Acção on-line na semana de 4 a 11 de Junho de 2011 O Governo Chinês tem-se recusado a levar a cabo um inquérito aberto, independente e imparcial aos acontecimentos dos dias 3 - 4 de Junho, apesar dos apelos dos governos estrangeiros. Mas é necessário que a justiça acabe por prevalecer e que as vítimas e suas famílias não sejam esquecidas. Nesse sentido a Amnistia Internacional – Secção Portuguesa pede a todos os seus activistas e simpatizantes que assinem o apelo junto que será enviado para o Primeiro-ministro da República Popular da China, com cópia para o Embaixador da China em Portugal. Maria Teresa Nogueira www.amnistia-internacional.pt

2011 JUN

NR 17

activismos 05


2011 JUN

NR 17

06 CULTURA

Dos novos Descobrimentos Do rectângulo da Europa passámos para algo totalmente diferente. Agora, Portugal é todo o território de língua portuguesa. Os brasileiros pode rão chamar-lhe Brasil e os moçambicanos poderão chamar-lhe Moçambique. É uma Pátria estendida a todos os homens, aquilo que Fernando Pessoa julgou ser a sua Pátria: a língua portuguesa. Agora, é essa a Pátria de todos nós. Agostinho da Silva

Todos os países precisam de projectos mobilizadores, que envolvam e motivem a população. No passado, os Descobrimentos foram um desses projectos mobilizadores. Envolveram grande parte da população e deixaram uma marca indelével na História. Decerto, não foi um empreendimento isento de páginas menos gloriosas. Houve até páginas particularmente sangrentas, mas a

PUBLICIDADE

Descobertas não se farão com as história humana nunca é em geral caravelas de outrora. Os tempos uma história de santidade. Imporsão outros e os caminhos do futa, porém, situar sempre os aconturo não se farão, decerto, com os tecimentos no seu devido enquainstrumentos do passado. Hoje, as dramento espácio-temporal, de caravelas não são já de madeira modo a evitar juízos anacrónicos e, nem navegam já nos mares, antes, por isso, desajustados. Certamendesde logo, no espaço internautico... te, ao longo dos Descobrimentos, Essas Novas Descobertas, para Portugal promoveu a escravatuPortugal, passam, a nosso ver, desra e lucrou com dela, mas não foi de logo, pela RedescoPortugal que inventou berta de si próprio, ou a escravatura. Mesmo seja, pela redescoberta em África, ela já exisHoje as da nossa Cultura, da tia em larga escala, Novas Descobertas nossa História. Isso por mais que isso hoje não se farão com levará, naturalmente, seja escamoteado, em as caravelas de à redescoberta dos particular por aqueles outros povos com que pretendem pro- outrora quem partilhamos mover a nossa “má essa Cultura e essa consciência”. Entre Historia, ou seja, os outros povos nós, isso foi uma vez mais visível lusófonos. Obviamente, agora, aquando de uma recente inicianuma base de liberdade e de frativa pública que visava escolher algumas “maravilhas portuguesas” ternidade, conforme foi prefigurado por Agostinho da Silva, desde, erigidas no mundo. Uma vez mais, pelo menos, os anos cinquenta do levantaram-se algumas vozes que passado século, a partir do Brasil, procuram reduzir a história dos onde então se encontrava, desde Descobrimentos a uma história 1944. Nas décadas seguintes, Agosde escravatura... tinho da Silva teorizou e tentou pôr Hoje, obviamente, as Novas

em prática esse seu sonho de uma Comunidade Luso-Brasileira, por extensão, de uma Comunidade Lusófona. De tal forma que ele foi unanimemente reconhecido como um dos principais inspiradores da CPLP, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, criada em 1996. Sabemos todos que a CPLP está ainda muito aquém do sonho de Agostinho da Silva, mas nem por isso o caminho entretanto empreendido deve ser abandonado. Ao invés, importa continuá-lo, com redobrado vigor. Para tal, importa agir desde logo no plano da sociedade civil. É isso o que nós, pessoalmente, temos procurado fazer. Daí o nosso empenhamento na NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI (www.novaaguia. blogspot.com), uma revista que tem como lema “para um novo Portugal, uma nova Comunidade Lusófona e um Novo Mundo” e que, fazendo jus a esse lema, tem sido lançada por esse mundo fora, e no movimento cultural e cívico que em torno da NOVA AGUIA

se gerou, o MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSOFONO (www.movimentolusofono.org), movimento recentemente criado mas que conta já com mais de cinco mil adesões, de todo o espaço da Lusofonia. Como já alguém escreveu, o que temos procurado fazer é “construir a CPLP por baixo, ao nível da sociedade civil”. Desde logo, promovendo o sentido de cidadania lusófona, ainda tão incipiente na maior parte de nós. Ainda e sempre, promovendo o reforço dos laços entre os países lusófonos – a todos os níveis: não só no mais imediato plano cultural, mas também no plano social, económico e político. Eis, a nosso ver, o novo Horizonte que se abre para Portugal, no reencontro com a sua História: a aposta na Convergência Lusófona, conforme defendemos num nosso livro, recentemente lançado (A Via Lusófona: um novo horizonte para Portugal, ed. Zéfiro). Renato Epifânio MIL e Nova Águia


É surpreendente verificar como o largo espectro de géneros literários não conheceu na sociedade de consumo, comparativamente ao período anterior, o da industrialização e da expansão dos lazeres, uma grande ampliação. O romance (heróico, histórico, lírico, de aventuras, de amor…), o teatro, a poesia, a literatura infantil, a trama policiária, o folhetim, etc., não são propriamente um património da história da literatura universal, mas são géneros e subgéneros com uma longa existência O que verdadeiramente floresceu em inovação, a partir da sociedade de consumo, foram as ramificações a um ritmo por vezes alucinante destes subgéneros. E hoje este vastíssimo espectro é amplamente explorado pelas indústrias de entretenimento e pelos mercados de produtos literários. Bem vistas as coisas, vivemos também a híper-escolha na ficção literária. Em qualquer livraria encontramos nos escaparates a literatura de viagens, de crónicas, a pornografia light, o romance histórico e a multiplicidade de subgéneros da literatura de aventuras, isto para já não falar no romance amoroso que não pára de se ramificar e desdobrar. Vem esta introdução a propósito do regresso em força de Clive Cussler, um autor que se tem notabilizado como contador de histórias aventureiras passadas predominantemente numa atmosfera subaquática, o chamado thriller marítimo. Chegou a Portugal nos anos 80, graças ao Círculo de Leitores (mediante títulos como ”Recuperem o Titanic!”,”A Chantagem do Vixen03”e “ Explo-

ração Nocturna”). Depois apareceu esporadicamente, o que não deixa de perplexidade, já que os seus livros entusiasmam o público de mais cem países, são por vezes autênticos bestsellers. Além de escritor de ficção, Cussler dedica-se à investigação da história marítima e naval, fundou a NUMA (NationalUnderwater& Marine Agency) uma organização não lucrativa com resultados na descoberta de navios afundados, o fruto deste trabalho é oferecido a universidades um pouco por todo o mundo. É ainda membro da Real Sociedade Geográfica de Londres. Por definição, a literatura de aventuras é uma mescla de acção, intriga, emoções em torno de uma trama envolvente, há sufoco, quando tudo parece à beira da perdição, o herói, sempre talentoso ou façanhudo, encontra uma saída que leva à expiação ou ao castigo dos praticantes do mal. O que muda neste subgénero é a capacidade de absorver o leitor, de se deter um “estilo” com um chamariz singular e inconfundível: herói versátil e verosímil para aquele cabal desempenho, uma história galvanizante (se possível, mais de que uma, tudo bem entrançado, e com umas pitadas de cultura, bem doseadas),um desfecho reparador da justiça, mas emocionante Bem vistas as coisas, a chave da literatura de aventuras. O livro que acaba de sair chamase “Pacífico” (por Clive Cussler, Saída de Emergência, 2011). Tudo começa com o desaparecimento do submarino nuclear Starbuck no coração do oceano Pacífico… desapareceu totalmente armado e com toda a tripulação a bordo, não foram encon-

rob greer

A inconfundível literatura das aventuras subaquáticas

Kanoli. DirkPitt é alvo de atentado, trados quaisquer destroços ou sinais escapa airosamente. E parte para a de naufrágio. Imprevistamente ou operação de resgate, descobre um não, DirkPitt, um famoso perito em canalha superinteligente que assalassuntos marítimos encontra numa ta navios, instalou um arremedo de praia do Havai um único e sinistro civilização no bojo profundo do mar. objecto: o diário de bordo do StarbuMuitas peripécias, há mesmo espiock. Há ali frases demenciais: “Não nos nagem russa que é preciso dissuadir, procurem; os vossos esforços só pohá actos de heroísmo, dem acabar em vão…”. A DirkPitt, por força da lei seguir começa a busca (...) uma do best-seller tem colado Starbuck, DirkPitt boradores masculinos e lança-se nesta opera- leitura de ção temerária. Como distensão, fantasia femininos, o final será feliz. Mais tarde ou mais é timbre da literatura associada a uma cedo, DirkPitt voltará a de aventuras, muitos possibilidade enfrentar o mal. Clive barcos têm vindo a de- histórica Cussler é inexcedível no saparecer nos últimos seu ramo, sabe arrebaanos no chamado “Vórtar o leitor desde as primeiras linhas. tice do Havai”. A investigação tem o Aqui e acolá, ultrapassa a métrica do seu alto mistério, surgem referências best-seller: “Aquele nevoeiro era um à ilha mítica de Kanoli, qualquer coigrosso manto branco que se erguia sa parecida com a Atlântida, décadas da água em redemoinhos causados antes um gigante com olhos dourapela brisa ligeira, um manto opaco dos andara à procura de pistas sobre

ACADEMIA PROBLEMÁTICA E OBSCURA 22 de jun

e sufocante, com a sua humidade pegajosa. Na ponte, os homens esforçavam os olhos, tentando, em vão, penetrar a neblina crescente. Uma mortalha húmida começava já a cobrir o navio e a luz do dia, ainda visível, transformou-se numa mistura sinistra de cor-de-laranja com cinzento, por causa da refracção da luz do sol poente”. Nada irá sobrar da civilização reinventada de Kanoli. Toneladas de rocha irão explodir, soterrando o mundo do diabólico Delphi, o submarino nuclear será resgatado, o Pacífico voltará a ter águas calmas e tranquilas. O perigo passou, o engenho termonuclear não foi capturado por gente tresloucada, cumpriram-se os trabalhos de Hércules. “Pacífico” empolga e cumpre o seu dever. Aliás, Clive Cussler explica porque criou DirkPitt: “Procurei construir um protagonista original, uma personagem que não fosse um agente secreto, um inspector da polícia ou um detective privado. Uma personagem algo indefinida mas com estilo”. Bem vistas as coisas, um herói culto, talentoso, algo sexy, destemido e com reflexos rápidos, trabalhando imperativamente naquilo que melhor sabe fazer, que é nas profundezas do mar. É o que se pede do entretenimento, uma leitura de distensão, fantasia associada a uma possibilidade histórica, sempre com a punição do mal, pois o bem tem que ficar disponível e apto para novas incursões dessa incurável maldade. Os adeptos do subgénero não ficarão defraudados, está garantido. Beja Santos

a questionar desde 1721

City break “A Biarritz portuguesa”

inscrição: 15€ com jantar incluido

01 de jul

City break “A música de Setúbal”

inscrição: 15€ com jantar incluido

08 de jul

Ciclo dedicado aos 140 anos da Comuna de Paris – palestra de Álvaro Arranja

QUa. às 19:00

SEX. às 19:00

sex às 20:00

15 de jul sex. às 19:00

21 de jul

qui. às 21:30

05 de ago

sex. às 21:30

entrada livre!

City break “Arqueologia, identidade e cultura periférica?”

inscrição: 15€ com jantar incluido

Ciclo dedicado aos 140 anos da Comuna de Paris – documentários

inscrição: 15€ com jantar incluido

4.º aniversário da Prima folia

RUA FRAN PAXECO NR 178

.

http://primafolia.blogspot.com

.

primafolia@gmail.com

.

TEL: 96 388 31 43

2011 JUN

NR 17

cultura 07


A Prima Folia - Cooperativa Cultural e a direcção de O SUL querem agradecer aos deputad@s de tod@s as forças partidárias que, na última sessão da Assembleia Municipal de Setúbal, votaram por unanimidade, que todos os órgãos de Comunicação Social devem circular livremente em espaços municipais, sem censura ideológica ou de qualquer tipo. Com esse voto favorável, a uma moção apresentada em conjunto por PS e BE, pode O SUL ver revertido o acto de censura a que foi sujeito pela Presidente da Câmara Municipal de Setúbal que, em Fevereiro, decidiu proibir a circulação deste jornal nas bibliotecas e museus, por razões nunca explicadas, apesar dos constantes pedidos de agendamento de uma reunião para ultrapassar a situação. Contra um acto de censura evidente, ao infelizmente único jornal cultural do distrito, fez-se prevalecer desta vez a força da razão, em detrimento da razão da força. A tod@s o nosso agradecimento.


NR 17_O SUL_JUN_2011