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Priscila Fernandes

Ă GUA E TERRA Os contrastes culturais entre o litoral e meio-oeste catarinense


Priscila Fernandes

Ă GUA E TERRA Os contrastes culturais entre o litoral e meio-oeste catarinense


ÁGUA E TERRA: Os contrastes culturais entre o litoral e meio-oeste catarinense Livro-reportagem fotográfico Produção: Priscila Fernandes Tratamento de Imagem: Priscila Fernandes Orientação: Robson Souza dos Santos Projeto Gráfico e Diagramação: Bruna Perosa Ano: 2010/2

Universidade do Vale do Itajaí – Univali Centro de Ciências Sociais Aplicadas (Ceciesa) – Comunicação, Turismo e Lazer Curso de Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo Disciplina: Projetos Experimentais Trabalho de Conclusão de Curso

Imagens: As informações utilizadas nos textos foram obtidas a partir de depoimentos e entrevistas realizadas com moradores das cidades visitadas, bem como da percepção da autora diante de cada fato vivido.

Dedicado à memória de

Carlos Antônio de Siqueira e Izabel Cristina de Matos Siqueira


Meio-Oeste

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Treze Tílias

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Videira

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Balneário Camboriú

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Itajaí


Introdução Localizada no sul do país, Santa Catarina é destaque no território nacional e internacional pela diversidade cultural. Os que passam pelas rodovias catarinenses encontram, cidade a cidade, características singulares e diferentes uma das outras. Viaje pelo litoral e aproveite o aconchego das mais belas praias do país, ou passe pelo meio-oeste e se encante com as paisagens naturais do interior. Centenas de quilômetros separam contrastes que juntos fazem das terras catarinenses um espaço rico em multiplicidade de culturas. Em Santa Catarina, as transformações urbanas chegaram de carona com a tecnologia, porém basta

conhecer um pouco da história de cada localidade para perceber que as características trazidas pelos imigrantes estão vivas na rotina de cada local. É possível notar as diferenças regionais pelos traços da colonização açoriana e das altas temperaturas do verão no litoral, que se opõem às tradições dos imigrantes italianos e alemães que convivem com o intenso frio do inverno no meio-oeste. Divulgar os contrastes destes cenários é poder mostrar o intercâmbio cultural que pode acontecer dentro de um único Estado, tão rico em história. A imagem documenta a existência das histórias, das raízes. Registrar a memória destes lugares através da fotografia

pode revelar identidades que as transformações sociais não alteraram com o tempo. Para expor os contrastes, essa grande-reportagem fotográfica mostra fotos que representam as diferenças culturais entre o meiooeste e o litoral catarinense, seja no clima, relevo, economia, cultura ou colonização. Em virtude de ambas as regiões abrangerem vários municípios, este livro trabalha com as cidades de Treze Tílias e Videira no meio-oeste e Balneário Camboriú e Itajaí no litoral.

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Meio-Oeste No centro do Estado está localizada uma das regiões mais geladas durante o inverno. Ao passar pelas estradas do meiooeste você vai se deparar com um visual único. Entre o verde da vegetação e os morros que completam a geografia do local, estão cidades onde a economia tem como base a agroindústria. O trabalho rural é valorizado entre os moradores e os próprios municípios, pois é ele que alimenta as indústrias da região e faz a economia das cidades crescerem.

Na chegada dos primeiros imigrantes à região se destacaram os italianos, alemães, japoneses e austríacos. Cada cidade mantém vivos os costumes deixados pelos seus antepassados, principalmente no interior aonde a tecnologia ainda não chegou.

Principais cidades: Caçador, Fraiburgo, Joaçaba, Treze Tílias e Videira.

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Treze Tílias

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Localizada a 495 quilômetros de Florianópolis, Treze Tílias respira a cultura tirolesa em todos os cantos da cidade. Com aproximadamente 5.000 habitantes, praticamente não existem analfabetos e desempregados no município. A história começou em 1933, com a chegada do ministro da agricultura da Áustria na época, Andreas Thaler.

Os detalhes da cultura austríaca estão presentes nos florais que enfeitam as janelas das casas e também nos telhados pontiagudos de madeira. Já os ateliês espalhados pela cidade fazem das esculturas, também em madeira, a principal arte no município. Vários escultores carregam em seus sobrenomes a herança das 83 famílias que Andreas trouxe da Áustria.

Entre colinas e o verde da natureza, Treze Tílias tem como principal fonte econômica a agropecuária. Basta sair do centro do município e visitar as propriedades do interior onde as típicas famílias cuidam e criam os animais com o carinho e atenção necessário para refletir na produtividade.

O único consulado austríaco localizado em uma cidade do interior está em Treze Tílias. Além de preservar a memória de seus colonizadores, a cidade conta com mais de 60% dos moradores com ascendência européia e mantém através do consulado um intercâmbio cultural com a Áustria.

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Museu Municipal Andreas Thaler - Castelinho

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Werner Thaler - Escultor 26

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Nilson Calza fez sua primeira viagem internacional depois dos 30 anos. Ele deixou sua fazenda durante quatro anos para ir trabalhar na Áustria e só voltou após juntar dinheiro para expandir seus negócios no Vale das Tílias. Uma casa em que os vizinhos são seus próprios animais, quatro cachorros, sete vacas, um cabrito, dois perus, várias galinhas, galos e patos. A vida simples é motivo de orgulho, com a pele queimada do sol, ele acorda todo dia às 5 horas da manhã para ordenhar as vacas, sem feriados nem finais de semana. A atividade se repete no fim de tarde e, ao longo do dia, o tempo é dedicado aos outros animais. O campo é o principal cenário dos seus 46 anos. “Não posso viajar e deixar tudo o que tenho na mão de algum estranho, preciso vender o leite e a carne para tirar o meu sustento e pagar as contas da fazenda que não são poucas. Esse é meu estilo de vida”.

Consulado Honorário da Áustria 29


Videira

Conhecida como a Capital Catarinense da Uva, Videira recebeu seus primeiros imigrantes italianos em 1918 e já naquela época ficou conhecida pelas atividades relacionadas à fruta que ainda hoje movimenta as vinícolas da cidade. Localizada a 450 km da capital do Estado, o município convive entre subidas e decidas que compõem a geografia local. Videira sente o calor do verão com a ausência de ventos e a intensidade do inverno nas geadas que castigam os colonos da região.

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Com aproximadamente 50 mil habitantes, a economia tem base nas atividades rurais que alimentam o setor industrial da região. Sem esquecer os parreirais que embelezam as

plantações durante o ano todo, desde a colheita da uva até a aparição dos primeiros cachos. As vinícolas são comuns na região e produzem sucos e vinhos que são comercializados no país inteiro. A antiga Estação Ferroviária está localizada no centro da cidade e ainda preserva características de quando era ponto de encontro dos moradores. Construída em 1940, a estação movimentou o comércio de cargas, servindo também como meio de transporte para as pessoas que viajavam pela região. Já no alto de um dos principais morros da cidade está localizada a Igreja Matriz Imaculada Conceição, o Museu Mário de Pellegrin e também o Coreto. Construído em 1931, o museu ainda preserva as características da arquitetura italiana. Ainda na década de 30 foi construído o Coreto, onde aconteciam os principais eventos culturais da cidade.

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Estação Ferroviária 32

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Igreja Matriz Imaculada Conceição 36

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Museu do Vinho Mรกrio de Pellegrin 38

Coreto 39


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As propriedades italianas ainda podem ser encontradas no interior da cidade. As casas, na grande maioria em tom de amarelo queimado, preservam suas características sem sofrer com reformas. O porão reforçado por pedras ou tijolos é comum em todas as residências. Após voltarem de seus trabalhos no campo, os colonos costumavam armazenar os alimentos nestes espaços que muitas vezes serviam também como comércio para a venda de leite, ovos, salames e conservas.

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Quando Helena casou, saiu da área para morar no centro da cidade. Deixou as atividades do campo para cuidar da família que começava a construir. Hoje, com 80 anos, ela mantém em seu olhar a simplicidade que trouxe do interior. Filha de italianos, Helena perdeu a conta de quantas vezes participou da colheita da uva nas terras que eram propriedade de seus pais. A fruta dava origem a geléias e vinhos, comercializados na própria cidade. “Os costumes italianos são evidentes por aqui, seja na hora do almoço quando preparamos polenta ou nas ruas da cidade decoradas com enfeites que lembram a uva”. Mãe de cinco filhas, sempre se dedicou as atividades rurais, sem carteira assinada, enquanto seu marido trabalhava fora.

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Litoral Conhecido pelas praias e atividades ligadas ao turismo e ao mar, o litoral mantém o espírito de férias desejado por brasileiros e estrangeiros. No currículo, cidades que dobram sua população no verão e muitas vezes faturam o suficiente para se manterem durante o resto do ano. Essa região se destaca também pela biodiversidade marinha nas mais de quinhentas praias que embelezam a costa do Estado. Colonizada principalmente por açorianos, o litoral guarda

sua cultura na vida simples das pessoas que tiram do mar o seu sustento. Diferente do meiooeste onde a terra provém o sustento das famílias tradicionais, a região litorânea busca nas águas salgadas a fonte de renda... seja na pesca, nos portos ou no turismo.

Principais cidades: Balneário Camboriú, Florianópolis, Itajaí, Itapema e São Francisco do Sul.

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do Estado, Balneário Camboriú é famosa pelas praias, pelos prédios de luxo à beira mar, pelas baladas, pelos ótimos restaurantes e também pelo comércio. Os altos edifícios da orla da cidade são famosos por esconder mais cedo o sol que ilumina a praia durante o dia. Lado a lado, do mais simples, mais baixo, ao mais luxuoso, mais alto. Inúmeros apartamentos tornam o município paraíso dos empreendimentos imobiliários.

Balneário Camboriú Conhecida internacionalmente por suas belas praias que fazem do turismo sua principal atividade econômica, Balneário Camboriú oferece atrativos naturais para os visitantes que recebe durante todo o ano. Embora o turismo tenha transformado a cidade, a hotelaria tem sido desde o início do povoamento do município o principal motivo de sua urbanização. Essa realidade reflete no aumento expressivo de moradores durante o verão. Com aproximadamente 120 mil habitantes fixos durante o ano, na alta temporada o número pode alcançar um milhão de moradores.

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Localizada a 81 km de Florianópolis no centro norte

Balneário Camboriú também é famosa pela estação mais quente do ano. As altas temperaturas do verão atraem famílias de todos os lugares do país e estrangeiros que encontram nas areias da cidade a tranquilidade do descanso almejado durante o ano todo. A praia movimenta o turismo de todas as idades, agrada as crianças nas brincadeiras na areia e os adultos no bem estar proporcionado pelo sol. Já as águas salgadas do município, além de refrescar, recebem os adeptos de esportes aquáticos.

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Tedesco Marina Garden Plaza

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A casa de Lourdes Terezinha dos Santos, 58 anos, se esconde dos imensos prédios que o tempo trouxe. Natural de Balneário Camboriú, ela acompanhou a chegada dos empreendimentos que aproveitaram o turismo da cidade para crescer. “Ainda me recordo de quando eram apenas os hotéis que lotavam. Hoje não temos fuga dos congestionamentos e ter uma vida tranquila na temporada é realmente difícil”. Terê, como é conhecida pelos amigos, vive do dinheiro que recebe na venda dos seus trabalhos com patchwork e também da aposentadoria do marido que trabalhava em uma indústria pesqueira da região. Casada há 33 anos, ela revela que a paz da praia e a beleza de Balneário Camboriú fazem tudo valer à pena. “Nunca imaginei que entre tantas praias, Balneário ficaria desse tamanho”.

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Itajaí

Antes mesmo de Itajaí ser reconhecida oficialmente em 1860, a principal atividade econômica da cidade já era resultado dos navios que atracavam no porto. Hoje, a cidade que comemora em 2010 seu 150° aniversário, é sede do maior porto pesqueiro do país e conta também com a estrutura do único píer exclusivamente turístico, que atrai, na alta temporada, navios nacionais e internacionais. Com quase 150.000 habitantes, Itajaí convive com descendentes de alemães, portugueses e açorianos que encontram na pesca e nas atividades ligadas ao porto o sustento de cada dia.

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O Porto de Itajaí movimenta a economia da cidade desde

a chegada dos primeiros imigrantes. As margens do rio Itajaí-Açú, o porto é considerado o segundo maior porto em movimentação de containers. O comércio de importação e exportação é destaque na cidade, além da ótima localização no Estado, o porto oferece ao município empregos em diversas áreas. Entre os principais produtos que movimentam o Porto de Itajaí na exportação estão os congelados, pisos cerâmicos, madeira e derivados. Já na importação as cargas, na sua maioria, são produtos químicos, têxteis, trigo e papel. Um dos pontos de encontro mais antigo da cidade ainda preserva sua identidade. Construído em 1917, o Mercado Público Municipal serve para a comercialização de produtos ligados à pesca e ao artesanato.

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Porto de ItajaĂ­ 72

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Mercado PĂşblico 78

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Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento

Museu Histórico - Palácio Marcos Konder 80

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A pele queimada do sol é reflexo das pescarias que Paulo da Fonseca fez antes de completar 48 anos. Acordar cedo não foi problema, difíceis foram os dias em que o mar não estava para peixe. Casado há 20 anos, pai de três filhos, ele pensou em mudar de profissão para oferecer mais conforto para sua família, mas era nas águas salgadas que recebia a força de lutar dia após dia. “Minha família se acostumou com os dias difíceis. Nossos passeios, nosso trabalho, tudo esta ligado ao mar. Durante a semana trabalho com pesca e nos fins de semana vamos a praia. Só não estou perto do mar quando chove porque ainda não tive a felicidade de morar perto da praia”. 87


Agradecimentos Agradeço aos que me ofereceram sorrisos, abraços e palavras sinceras. Aos meus pais por estarem sempre ao meu lado. Quatro anos e meio se passaram e ainda lembro a noite em que sentados no sofá conversamos sobre minha vontade de estudar jornalismo. Vocês são a razão da minha existência, minha essência, meu tudo. Ao meu irmão Fernando, pela amizade e companheirismo. As minhas avós, tios, tias, primos e primas, por fazerem parte da minha vida. Ao meu padrinho, amigo e tio Victor que me acompanhou pelo interior catarinense, por permanecer sempre ao meu lado. A minha prima Bruna por elaborar o projeto gráfico desde trabalho. Bru, você é uma das melhores designers que conheço.

Ao Bezzi por ter permanecido durante estes nove semestres sentado na carteira ao lado, pela amizade e companheirismo que jamais pensei em encontrar na faculdade. Aos demais colegas que trocaram felicidades e angústias ao longo da vida acadêmica. Vocês são os melhores, ever! Aos mestres que ao longo do curso compartilharam comigo seus conhecimentos e me ajudaram a vencer barreiras profissionais e pessoais. Em especial a professora Valquiria e a professora Vera que compartilharam minhas angústias e através de suas palavras me deram segurança para enfrentar o desafio deste trabalho de conclusão de curso, e também ao meu orientador Robson, que me ajudou a transformar o impossível em possível.

A todos os meus amigos que fazem tudo valer a pena, principalmente a melhor amiga do mundo, Aninha, pela confiança e carinho incondicional. Em especial ao Thiago Jacon, que entrou na minha vida por acaso, no momento certo e com suas palavras me fez ter certeza que diante de qual caminho seguir a fotografia era a opção certa. Obrigada por estarem ao meu lado!

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Fotografia é memória e com ela se confunde. Fonte inesgotável de informação e emoção. Memória visual do mundo físico e natural, da vida individual e social – escolhida e refletida – de uma ínfima porção de espaço do mundo exterior. É também a paralisação subida do incontestável avanço dos ponteiros do relógio: é pois o documento que retém a imagem fugida de um instante da vida que flui ininterruptamente. - Boris Kossoy

ÁGUA E TERRA: Os contrastes culturais entre o litoral e meio-oeste catarinense  

Produção: Priscila Fernandes ll Tratamento de Imagem: Priscila Fernandes ll Orientação: Robson Souza dos Santos ll Projeto Gráfico e Diagram...

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