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organização Benita Prieto

1ª edição Rio de Janeiro Prieto Produções Artísticas 2011


© 2011 Organizadora Benita Prieto © Direitos de publicação

prieto produções artísticas www.benitaprieto.com.br Coordenação editorial: Benita Prieto Assistente editorial: Priscila da Cruz Vieira Revisão: Ana Letícia Leal Design de capa e projeto gráfico: Marcos Corrêa

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE BIBLIOTECÁRIA RESPONSÁVEL-LÚCIA FIDALGO-CRB7/4439 C759 Contadores de Histórias: um exercício para muitas vozes/ Organização Benita Prieto. - Rio de Janeiro: s. ed, 2011. 240p.

ISBN 978-85-65126-00-7

1. A arte de Contar Histórias. 2. Contadores de Histórias. I. Prieto, Benita, org. II. Título CDD: 808.068543 22. ed.


Assim definido, o narrador figura entre os mestres e os sábios. Ele sabe dar conselhos: não para alguns casos, como o provérbio, mas para muitos casos, como o sábio. Pois pode recorrer ao acervo de toda uma vida (uma vida que não inclui apenas a própria experiência, mas em grande parte a experiência alheia. O narrador assimila à sua substância mais íntima aquilo que sabe por ouvir dizer). Seu dom é poder contar sua vida; sua dignidade é contá-la inteira. O narrador é o homem que poderia deixar a luz tênue de sua narração consumir completamente a mecha de sua vida.

O Narrador. Walter Benjamin.


prosas

13

....................................................................prosa de abertura Contação de estória: vida e realidade

Affonso Romano de Sant’Anna

............................................................................................) 19

Contar histórias é alimentar a humanidade da humanidade

Carlos Aldemir Farias

25

Contos indígenas: uma experiência com narrativas dos primeiros povos brasileiros

Daniele Ramalho

31

Negras histórias (a valorização da cultura oral afro-brasileira)

Rogério Andrade Barbosa

37

DeusNumDé: dom da visão

Edmilson Santini

............................................................................................( 45

Vozes, corpos e textos nos vãos da cidade

Júlio Diniz

49

Muitas vidas, muitas vozes, muitas histórias

Júlio Diniz & Morandubetá

59

Impressões de uma contadora de histórias – meu encontro com a arte narrativa

Bia Bedran

67

A terceira margem da cena

José Mauro Brant

73

A voz quente do coração do rádio

Gilka Girardello

79

Contando na telinha

Augusto Pessôa


85

Cinema: um griot cuja argila é o tempo e a estátua são os atores na fogueira da sala escura

Paulo Siqueira

95

Blog, uma janela para o mundo

Marcio Allemand

101

Paiquerê Piquiri Fiietó, um experimento com as linguagens

Cléo Busatto

105

Duas histórias contadas nos múltiplos caminhos dos Role-Playing Games (RPG)

Carlos Eduardo Klimick Pereira & Eliane Bettocchi Godinho

115

Como as histórias foram entrando na minha vida...

Ana Luísa Lacombe

121

Da boca da noite para a acolhida na escola

Almir Mota

127

Bibliotecas: vozes silenciadas?

Nanci Gonçalves da Nóbrega

137

A contação de histórias vivenciada no chão da universidade: um quase relato de experiência

Edvânia Braz Teixeira Rodrigues

143

Por onde passo, levo comigo os contadores de histórias

Maria Helena Ribeiro

151

Narrativas na empresa

Fernando Goldman

157

Fagulhas habitam multidões

Célia Linhares


163

Nos caminhos da Maré

Lene Nunes

169

Entre hospitais gerais e psiquiátricos: histórias humanas e literárias como um rio de caudaloso fio, tecendo redes de encontros na diversidade de afluências do viver saudável

Kika Freyre

177

Contos na prisão: um espaço chamado liberdade

Rosana Mont’Alverne

185

Histórias em sinais

Lodenir Karnopp

191

Palavras táteis

AnaLu Palma

............................................................................................* 196

E eles foram felizes para sempre.

Regina Machado

203

O ofício de viver contando histórias

Cristiano Mota Mendes

209

O paciente como contador de sua própria história: o olhar de um médico homeopata

Conrado Mariano

...............................................................................prosa final

215

As águas da memória e os guardadores da corrente de histórias

Maria de Lourdes Soares

............................................................................................& 225

De quem são essas vozes


:prosa de abertura


Contação de estória: vida e realidade

o


[Affonso Romano de Sant’Anna]

oV

ou arriscar uma definição.

VMais uma.

Já tentaram de várias maneiras dizer o que é que define essencialmente o ser humano. Uns dizem, “homo faber”, porque ele sabe produzir instrumentos industriais de trabalho ou de guerra; outros dizem – “homo economicus”, porque conseguimos estabelecer uma sociedade baseada na economia, na qual viramos objeto de consumo; outros dizem – “homo ludens”, como Huizinga, e assim estudam o “jogo” presente na guerra, na poesia, no direito, etc. E assim continuam as intermináveis classificações que vêm desde o “homo sapiens” até aquilo que levou Cassirer a dizer que o homem é “animal simbólico” (“homo simbolicus”), ou seja, nossa habilidade em forjar símbolos exprime nossas perplexidades e faz nossa história. Outro dia li um texto que falava do “homo academicus”, referindo-se a esses indivíduos com a cabeça ilhada dentro das universidades, falando um “trobar clus” moderno. Todas essas características são verdadeiras. E cada uma é uma maneira de entrar no mistério da natureza humana. Penso se nessa sequência se poderia introduzir um outro traço que nos caracteriza e que não é desprezível. Não vou mais usar a seródia palavra “homo”, isto já prescreveu depois que o feminismo botou por terra muitos preconceitos. Não dá para repetir aquela frase que, dizem, é de Monteiro Lobato: “um país se faz com homens e livros”. Bota mulher nisto.

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Contadores de Histórias: um exercício para muitas vozes

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Portanto, falemos de pessoas e de indivíduos incluindo aí necessariamente as mulheres. Então, digo: somos seres que contam e ouvem histórias. E nisto as mulheres, até mais que os homens, são as grandes contadoras de história: mães, babás, tias, avós, madrinhas... Podemos avançar um pouco mais e dizer: o ser humano é não apenas um ser que conta histórias e ouve histórias, mas sobretudo é um ser que faz história. Fazer história é a suprema audácia dos humanos. Os romancistas, os cineastas e os líderes sociais, por exemplo, operam isto mais claramente. Não se contentam em ser atores, querem também ser autores, protagonistas de seu tempo. Portanto, somos seres irremediavelmente históricos. Digo isto e penso: eis uma observação banal. Qualquer pessoa sabe disto, não é necessário ser um erudito para chegar a essa conclusão. Aliás, até os analfabetos, que alimentam seu imaginário de contações de estórias, sabem disto. Então, por que fazer essa observação? Primeiro por uma razão, digamos pleonasticamente, “histórica”. Ou seja, a contação de estórias passou a ser revalorizada de maneira notável nas últimas décadas, sobretudo a partir dos anos 1980. Uma diversificada bibliografia que permeia diversos ramos do conhecimento nos dá conta de uma verdadeira redescoberta da arte de contar histórias. Isto está até mesmo nos consultórios psicanalíticos, que utilizam a “narratividade” dos clientes como estratégia de tratamento, aperfeiçoando o que Freud há uns cem anos já praticara quando adotou “a cura pela palavra”, revalorizando assim a palavra falada capaz de destravar neuroses e traumas. E isto se tornou tão visível e notável que as universidades se voltaram para este fenômeno estudando o renascimento da contação de estórias em nossa cultura. Cursos de contadores de história se espalham por todas as partes, ao mesmo tempo em que, paralelamente, cursos sobre leitura, casas de leitura, secretarias de leitura e até mesmo Cátedras de Leitura (a exemplo da PUC–Rio) começam a ser criados nas universidades. Quer dizer, a leitura e a contação de estórias não apenas estão na moda, mas estão irremediavelmente geminadas. E isto, surpreendentemente, ocorre dentro de uma sociedade televisiva altamente


Affonso Romano de Sant’Anna

tecnológica, em que o cinema, a TV, a internet e os novos suportes ocupam espaços imensos no nosso cotidiano. Isto sucede numa sociedade que, segundo alguns, rejubilando-se de cultuar a imagem, desprezaria a oralidade como se ela fosse um suporte primitivo e ultrapassado. Nesse sentido, assim como nos últimos cem anos alardearam tantas mortes em nossa cultura – morte do autor, morte da arte, morte do homem, etc. – seria de se esperar que tivesse ocorrido a “morte” da arte de contar estórias. Não ocorreu. Ocorreu o contrário. Anotemos que uma das falácias de nosso tempo, seduzido pela visualidade, foi dizer que uma imagem vale mais que mil palavras. Será? Ou se poderia dizer o contrário: uma metáfora, um hai-kai, uma estória valem mais que mil imagens? De qualquer forma, são afirmativas radicais que não ajudam muito a entender a riqueza do nosso contexto cultural. Penso, para efeito de raciocínio, nuns exemplos concretos, dentro da própria arte da visualidade: o cinema, por exemplo. Poderia citar o caso de um filme nacional, Narradores de Javé, de Eliane Caffé: aí toda uma comunidade recorre à narração para salvar-se do naufrágio no tempo e espaço, quando uma projetada represa expandisse suas águas sobre as casas da comunidade. A estória, a narratividade e a memória passaram a ser a barragem imaginária contra a destruição, a ilha de salvação do imaginário humano. A filmografia sobre o valor das estórias orais tornou-se mais rica nos últimos tempos. E isto é sintomático do que estou dizendo. Penso num outro filme: Balzac e a costureirinha chinesa, tirado do romance homônimo de Dai Sigie. De novo estão o cinema e o romance nos dizendo da importância da narrativa oral. Mais do que isto, dentro deste filme/romance há algo fascinante: uma personagem confessa gostar mais da narrativa de um determinado filme do que do filme propriamente dito. Eis o cinema prestando homenagem à contação de estórias como uma predecessora da arte de narrar. E assim poderíamos lembrar mais um filme, A camareira do Titanic, película que repousa sobre a inventiva capacidade de um personagem de ir incrementando sua estória falsa & verdadeira e assim aumentando cada vez mais sua plateia até transformar a sua estória num espetáculo à parte.

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Contadores de Histórias: um exercício para muitas vozes

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Anteriormente à modernidade, foram os românticos os responsáveis pela revalorização da memória oral das comunidades. Os romances foram uma recriação das narrativas orais. Por outro lado, os irmãos Grimm na Alemanha, o dinamarquês Hans Christian Andersen e os romancistas, como Alexandre Dumas, Walter Scott e José de Alencar, foram buscar nas lendas, na história, no folclore, o imaginário coletivo. E, na modernidade, ocorrem insólitas revalorizações da palavra. A arte contemporânea, depois de ter chegado ao abstracionismo, deu uma meia-volta em direção à palavra e institucionalizou a “arte conceitual” como uma das mais nítidas tendências do século XX. E isto se deu de tal forma que o “discurso” sobre os quadros ou obras passou a ser mais relevante que as próprias obras e a terem em relação a elas certa independência. (Tratei disto no livro O enigma vazio, editado pela Rocco). A indústria das novelas de televisão, o cinema, o teatro, as estórias em quadrinho e os romances continuam mais fortes que nunca. A publicidade tornou-se uma forma de narrar e de seduzir. Uma cidade é um livro, cheia de letras, como para o índio é a floresta. Disto tudo sobressai a palavra – narratividade. Narramos sem saber que narramos e somos lidos até sem nos darmos conta de que nos estão lendo. Mais do que nunca torna-se urgente que as pessoas tenham consciência de que ler o mundo é uma tarefa contínua, desafiadora e propiciadora do sucesso pessoal e social. Somos estórias em movimento. Parábolas vivas. E quem conta estórias vive várias vidas numa só.


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Contar hist贸rias 茅 alimentar a humanidade da humanidade

o


[Carlos Aldemir Farias]

oS

e o ato de sonhar não é uma exclusividade dos humanos, contar histórias é

Suma arte milenar exclusiva das sociedades humanas. Foi graças à tradição oral que muitas histórias se perpetuaram, sendo transmitidas de uma geração para outra. Tudo começou em uma caverna, quando os primeiros caçadores e coletores se reuniram em volta das chamas da fogueira para contar histórias uns aos outros, sobre suas aventuras na luta pela sobrevivência, para dar voz à percepção fenomenológica dos eventos naturais e sobrenaturais, e, assim, entrar em conformidade com a ordem social e cósmica. Algumas dessas histórias ficaram registradas nas paredes das cavernas e ainda resistem às intempéries acontecidas durante os milhares de anos. As conquistas de uns povos por outros, a passagem da caça à agricultura, as migrações e as guerras foram difundindo e transformando as histórias das diferentes tradições culturais em elementos reconhecidos pelo corpo social, no qual o contador de histórias exercia o papel de guardião da memória e as narrativas formavam a enciclopédia do saber coletivo das sociedades. Até hoje, em diferentes grupos sociais espalhados pelo planeta, por exemplo, indígenas, comunidades rurais, ribeirinhas e remanescentes de quilombos, predominam as formas orais de comunicação; a cultura é transmitida por meio da oralidade. Essas sociedades têm um conhecimento espetacular, pois desenvolveram um tipo de discurso argumentativo por meio das narrativas. No decurso do processo histórico, as histórias ancestrais, somadas a tantas outras, foram recriadas em função das circunstâncias e passaram a ser contadas pelas amas,

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pelos avôs e pais, no calor da família. Séculos depois, a invenção da imprensa salvou do esquecimento muitas dessas histórias tradicionais que continuam sendo recontadas em diferentes espaços sociais, como escolas, universidades, teatros e encontros de contadores. Outras se perderam, talvez para sempre ou, quem sabe, as carreguemos adormecidas dentro de nós sem saber. Narrar uma história é um modo de estruturar o mundo em função das nossas ações individuais. Implica um trabalho de organização da memória individual, feito a partir da acumulação e organização de dados de uma experiência não necessariamente vivida, visto que a memória é uma reorganização de ideias, impressões, subjetividades, afetos e conhecimentos adquiridos no vivido, na leitura, no imaginado. O ato de narrar requer um domínio do tempo narrativo, que corresponde a uma enunciação verbal do passado. Todos os contadores mantêm, por meio de suas histórias, um elo entre passado e presente, real e sobrenatural, possível e impossível, razão e imaginação. Por que é importante contar e ouvir histórias? Porque quando fazemos isso alimentamos duas das mais importantes características dos seres humanos: a imaginação criativa e a oratória. Somente os humanos dizem era uma vez... Somente nós fazemos isso: contamos a nossa história, a dos outros, escrevemos histórias, acrescentamos detalhes, criamos situações que não aconteceram de fato, imaginamos outros mundos, outros seres, outras paisagens, outras formas de ver e viver neste e em outros mundos imaginados. Os outros animais vivem e experimentam alegrias e dores, mas não sabem contar o que sentem. Não criam nem imaginam situações, não contam para os outros o seu passado. O mais fascinante é que usamos o recurso do antropomorfismo, ou seja, atribuímos formas e características humanas aos entes naturais e sobrenaturais. Nesse mundo mágico, as plantas, os animais e os humanos dialogam; as fábulas são bons exemplos disso. Mas há, também, outras razões para ouvir e contar histórias. A primeira é que, quando as ouvimos, despertamos para situações que não tínhamos pensado antes. Dessa forma, ampliamos nossos conhecimentos, o que nos permite rever e reelaborar


1.  2.

O dom da história: uma fábula sobre o que é suficiente. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 38-39. O poder do mito. Palas Athena, 1998 

Carlos Aldemir Farias

alguns valores. A segunda é que as histórias mantêm sempre aceso o farol da imaginação, da criatividade, da curiosidade, da ludicidade. Elas despertam o espírito juvenil que existe em qualquer pessoa, seja criança ou adulto. Quem sabe muitas histórias, certamente é porque ouviu, leu ou contou. Assim, dispõe de mais conhecimentos para enfrentar situações novas durante o seu percurso de vida, uma vez que, ao contrário da maioria das formulações científicas, as histórias rejeitam verdades unívocas e permitem soluções múltiplas. É bom lembrar que, embora nenhum de nós vá viver para sempre, as histórias conseguem, pois enquanto restar uma única pessoa que saiba contá-las, elas não morrerão. Na condição de animais gregários, atualizamos dia após dia o ato de narrar. Talvez para entender quem somos ou para tomar consciência de que existimos. Para Clarissa Pinkola Estés, “as histórias que as pessoas contam entre si criam um tecido forte que pode aquecer as noites espirituais e emocionais mais frias”1. Somente elas revelam a aptidão peculiar e preciosa que os humanos possuem em obter êxito nas tarefas mais árduas. Fornecem, também, as instruções essenciais que precisamos para ter uma vida útil, necessária, irrestrita, significativa. Segundo Joseph Campbell, contamos histórias para entrar em acordo com o mundo, para harmonizar nossas vidas com a realidade2. Sempre que me perguntam porque gosto tanto de histórias, costumo afirmar que o meu interesse por essas narrativas ancestrais nasceu na infância, pois cresci à sombra dessa tradição dos meus antepassados no litoral sul do estado do Rio Grande do Norte, nordeste do Brasil. Desde cedo fui marcado na alma por uma heráldica narrativa que permanece até hoje. As histórias sempre estiveram presentes na minha vida, seja por meio dos contos narrados pelos contadores tradicionais do lugar onde nasci ou pelos vários livros de literatura lidos e relidos por mim ao longo dos anos. Hoje, nos momentos em que olho para trás, relembro o quanto as histórias permaneceram na minha memória, alimentaram a minha imaginação de emoções extraordinárias e tiveram uma ressonância na minha formação pessoal e profissional. Na minha tenra idade nunca achei necessário dizer obrigado por aquelas porções de

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afetos literários emanados dos sábios contadores, que dedicaram parte de seu precioso tempo às crianças. Considero um privilégio ouvir histórias, essa sensação de maravilhamento diante do espetáculo da imaginação humana. Para mim não existe um afeto poético maior. Se pudesse voltar no tempo não teria palavras para agradecer por aqueles momentos mágicos. Sou grato a todos os contadores que, com suas legiões de personagens, iluminaram a minha vida.


Contos indĂ­genas: uma experiĂŞncia com narrativas dos primeiros povos brasileiros

o


[Daniele Ramalho] Ninguém respeita aquilo que não conhece.1 Wabuá Xavante

oN

o ano de 1500 os europeus chegaram ao território que hoje chamamos de Brasil. Havia aqui cerca de mil povos indígenas cuja população foi drasticamente reduzida e que hoje se concentra em cerca de 280 etnias, que falam 160 línguas – um Brasil que certamente precisamos conhecer. No ano de 2000 comecei a contar histórias indígenas. Havia alguns anos da primeira visita ao Museu do Índio do Rio de Janeiro. Ficava admirada com a riqueza da cultura daqueles que foram os primeiros habitantes de nossa terra e perplexa com nosso desconhecimento sobre sua realidade – apesar de terem se passado mais de quinhentos anos do primeiro contato. Yawanawá, Xavante, Enawenê-Nawê, Fulni-ô, Apurinã, Kuikuro, Mehinaku. Pesquisei diversas histórias e escolhi para estarem em “Contos indígenas” – aquele que seria meu primeiro espetáculo com este tema – narrativas das etnias bororo (“Subida para o céu”), kaxinawá (“A lenda da lua cheia”) e nambikwara (“O menino e a flauta”). A primeira conta a origem dos animais e das estrelas, a segunda mostra a origem da lua e da menstruação das mulheres e a terceira narra a origem dos alimentos e da flauta sagrada Wairu, que só pode ser vista pelos homens. As perguntas eram muitas: – Por que contar histórias indígenas em nossa sociedade? Como colaborar para difundir a tradição destes povos? Como utilizar versões dos mitos tradicionais e fazer com que alguns de seus símbolos possam ser apreendidos por pessoas de outra formação cultural? Como abordar temas como sexualidade e morte, que para nossa sociedade são tabus, e que nas histórias indígenas são tratadas com naturalidade? De que modo eu deveria contá-las?

N

1.

Frase que norteia o trabalho do Instituto das Tradições Indígenas, para o qual trabalhei no projeto Rito de Passagem.

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Divido com você “que me escuta” algumas reflexões após 11 anos de trabalho com a cultura indígena brasileira. Meu primeiro passo foi perceber que não há uma cultura indígena no Brasil, mas muitas, já que há grandes diferenças entre o modo de vida das etnias encontradas em nosso território. Como sugeriu Lévi-Strauss, para que haja uma compreensão dos mitos indígenas o melhor é entendê-los em seus próprios termos, ou seja, compreendendo o pensamento de quem os produz2. Fui buscar então maiores informações sobre as etnias e mitos que escolhi. Procurei referências que indicassem a que rituais se referiam, a que se destinavam e com que finalidade. Dois deles preparavam os jovens para a iniciação ritual que marcava sua passagem para a vida adulta. Esta pesquisa foi fundamental para guiar algumas escolhas na construção do trabalho. Citarei um exemplo. No mito kaxinawá “O menino e a flauta” conto a origem da flauta wairu, que apenas aos homens é permitido ver. Como na historia o menino e seu pai escutam o som da flauta, poderia ter sido o meu primeiro impulso usar uma flauta durante a narração. Com a pesquisa compreendi que, se a história trata exatamente da flauta wairu como um tabu para as mulheres, nada mais coerente do que eu, como mulher, não usar o instrumento na contação. Resolvi a questão reproduzindo o som da música ritual com minha voz. Mais que preciosismo, para mim este é um exemplo claro de como a pesquisa é importante no respeito às tradições do povo cuja história desejamos apresentar. Durante o longo período em que coletei versões dos mitos, encontrei muitas diferenças nas adaptações. Achei preciosidades como a coleção Morená, da escritora e ilustradora Ciça Fittipaldi, cujas versões uso no espetáculo. As narrativas dos mitos nos chegam normalmente em livros de antropólogos, escritores e pesquisadores que conviveram com povos indígenas. Há casos em que são narradas em português pelos indígenas – onde costumam se perder detalhes importantes em função das histórias não serem recolhidas na língua de origem do narrador. Há casos também em que os mitos são gravados ou escritos na língua indígena, e, posteri2.

Claude Lévi-Strauss revolucionou a antropologia através do estruturalismo, com importantes estudos sobre a análise de ritos e mitos


Daniele Ramalho

ormente, traduzidos – o que costuma apresentar melhores resultados. A importância de encontrar várias versões de uma mesma história é a possibilidade de perceber o quanto foi preservado da essência daquela narrativa e o quanto há de adaptação do autor, que muitas vezes “adultera” ou “corrige” o conteúdo do mito para que o seu teor “primitivo” não entre em atrito com as normas sociais de conduta de nossa cultura. Após o contato de nossa sociedade com os povos indígenas, foram criados projetos que visam registrar sua história mítica como, por exemplo, nas publicações utilizadas nas escolas indígenas ou em livros publicados por escritores indígenas – que, em diversos estilos literários, revelam a tradição ancestral. É a palavra dos antigos – que fala do tempo em que o mundo foi criado – apresentada pela nova geração, que mesmo após incorporar à sua cultura inovações como o uso da internet, luta para manter vivo o pensamento e o modo de vida harmônico de seu povo. Assim, apesar de terem sofrido mudanças significativas em seu imaginário, eles encontram meios de manter a sua identidade e reverenciar a sabedoria ancestral. Voltando a “Contos indígenas”: optei por trabalhar no espetáculo com a corporalidade como um meio de contar as histórias. Sempre me saltava aos olhos a maneira como os indígenas narram seus mitos. Um exemplo: na época em que trabalhei no projeto Rito de Passagem, do Instituto das Tradições Indígenas /IDETI, durante uma conversa com “Seu” Joaquim Yawanawá, ouvi-o narrando em pano (sua língua de origem) o trecho de uma história. Eu não entendia o significado do que ele dizia, mas era impressionante o vigor e intensidade com que me contava os fatos; os gestos que fazia. Era como se revivesse na frente de sua ouvinte cada personagem e acontecimento. Sei que há outras possibilidades, mas neste trabalho optei por uma forte presença da corporalidade para, de algum modo, trazer ao imaginário do público um encantamento e uma espécie de sentido ritual que considero bastante adequados para uma narração mítica. Como abordava três etnias diferentes, acabei optando por uma pesquisa mais genérica sobre referências corporais dos povos, encontrando uma corporalidade

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única, que permeasse todo o espetáculo. No começo da construção do espetáculo “Contos indígenas”, eu e André Masseno, diretor do trabalho, utilizamos fotografias de pessoas dos povos abordados em ações físicas cotidianas. Reproduzimos estas ações num treinamento corporal, codificadas em partituras físicas, que depois foram devidamente esquecidas. Posteriormente, na composição das narrativas propriamente ditas, os gestos e movimentos foram reaparecendo. E o corpo encontrado se refletiu também na sonoridade. Aprendi palavras e cantos das etnias cujas histórias escolhi em sua língua original, aprendi sons que os indígenas fazem em seu cotidiano – e, aos poucos, codifiquei um modo diferenciado de abordar o som nas narrativas. E qual é a importância de contar mitos indígenas hoje? Sabemos que as narrativas míticas ajudam a compreender uma sociedade, trazendo sua visão sobre a ordem do mundo, suas regras de convívio – o que não só fortalece seu sentido de grupo, como carrega a sua memória. As histórias também preparam os indígenas para rituais de passagem. Trazem a conexão entre mundo material e espiritual e falam de um encantamento que pode nos conectar novamente com a magia da vida gerando uma nova compreensão de nossa existência através de uma ancestralidade viva. Gosto muito de Joseph Campbell quando ele diz que os mitos “...ensinam a se voltar para dentro...” e “...nos permitem uma leitura das mensagens que o mundo nos emite”. As narrativas indígenas podem, portanto, nos conectar para “além da internet” e gerar uma real ligação com o outro e com a sociedade. Sabemos que os mitos se referem a questões arquetípicas, tratando de símbolos que acessam emoções e imagens simbólicas que constituem a condição humana – o que nos leva a pensar que somos todos iguais! O africano Amadou Hampátê Bâ disse – referindo-se à tradição dos mitos de iniciação peuls – que “Um conto é um espelho onde qualquer um pode descobrir a sua própria imagem.”3 Por outro lado, o mito traz um caráter específico da cultura a que pertence – ou seja, trata da identidade de um povo; aquilo que o faz único – o que sugere que somos todos diferentes! Acredito que esta dicotomia presente nas narrativas míticas é que pode gerar reflexões que nos levem a ter maior tolerância com a diversidade cultural e 3.

Amadou Hampátê Ba foi escritor, historiador, poeta e contador de histórias nascido no Mali; um grande defensor da tradição oral africana.


Leituras Inspiradoras u O poder do mito. Joseph Campbell. Pallas Athena, 1990. u Subida pro céu. Ciça Fittipaldi. Melhoramentos, 1986. u O menino e a flauta. Ciça Fittipaldi. Melhoramentos, 1986. u Memória e construção de identidades. Maria Teresa Toríbio Brittes Lemos e Nilson Alves de Moraes (Orgs.). 7 Letras, 2000. u Mito e significado. Lévi-Strauss. Edições 70, 1985.

Daniele Ramalho

fazer com que encontremos modos de convívio mais harmônicos com outras pessoas e culturas na grande aldeia global em que nos encontramos. É preciso, então, ver a oralidade como uma atitude diante da realidade, ligada a uma visão de mundo e à vontade de comunicação com o outro. Espero, de verdade, que possamos dar voz à tradição indígena de nosso país; que as histórias destes povos possam gerar respeito à riqueza da diversidade cultural brasileira e que elas sejam, cada vez mais, contadas e escutadas por todos e para todos, gerando mais compreensão e interação entre os povos.

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Negras histórias (a valorização da cultura oral afro-brasileira)

o


[Rogério Andrade Barbosa]

oE

u me lembro muito bem... Tanto o meu pai quanto a minha mãe me contavam

Ehistórias antes de eu dormir. As narrativas de meu pai, que era escritor, tinham

um sabor especial, pois eram em capítulos inventados por ele mesmo, recheados de aventuras mirabolantes, que se sucediam a cada noite. Foi assim que iniciei meus primeiros passos pelo fantástico mundo da contação de histórias. Depois vieram os livros que despertaram em mim, desde cedo, a vontade de viajar. Mais tarde, trabalhei durante dois anos como professor-voluntário a serviço das Nações Unidas na Guiné-Bissau, África. Ali, me encantei com as apresentações dos griots e com a diversidade dos contos tradicionais africanos, tema de inspiração para muitos de meus livros. Essa experiência foi também importante para minha atuação como contador de histórias e pesquisador da cultura oral afro-brasileira e africana. Nos últimos anos, graças aos movimentos organizados e, sobretudo, depois da lei 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino da história e cultura africanas e afro-brasileiras nas escolas de ensino fundamental e médio, público e particular, a literatura de raízes negras, nem sempre valorizada anteriormente, tem sido destaque em nosso panorama editorial. Também, pudera! Nós, brasileiros, somos frutos da união entre diversos povos e crescemos convivendo com uma rica pluralidade de culturas. Os versos da canção de um violeiro das barrancas do Rio São Francisco, em Minas Gerais, resumem a questão:

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Contadores de Histórias: um exercício para muitas vozes

Sou índio, sou branco, sou negro.

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Eu sou brasileiro.

Portanto, as diferenças culturais devem ser reconhecidas e, não, ignoradas, ou alvo de discriminação. O negro brasileiro, cujos ancestrais foram trazidos a ferro e fogo do continente africano, amontoados nos porões dos navios tumbeiros, trouxeram com eles um de seus bens mais preciosos, que ninguém lhes tiraria: as suas histórias. E nesse “baú fabuloso” vieram os contos, lendas e fábulas transmitidas de pais para filhos, há várias gerações. Um dos aspectos mais relevantes da cultura oral africana talvez seja a maneira como os contadores interpretam as histórias usando apenas o corpo, os gestos e a voz para cativar os ouvintes. Esses mestres da palavra, verdadeiras “bibliotecas vivas”, que mantêm um elo entre o presente e o passado, persistem até hoje. A presença de personagens negras contadoras de histórias é marcante na obra de vários escritores brasileiros. José Lins do Rego em Menino de engenho, descreve em detalhes uma delas, que nunca se apagou de sua memória: A velha Totonha de quando em vez batia no engenho. E era um acontecimento para a meninada. Ela vivia de contar histórias... Que talento ela possuía para contar suas histórias, com um jeito admirável de falar em nome de todos os personagens! Sem nem um dente na boca, e com uma voz que dava todos os tons às palavras.... A velha Totonha era uma grande artista para dramatizar.... Tinha uma memória de prodígio”

Já Viriato Corrêa, em Cazuza, evoca outra dessas contadoras geniais: Vovó Candinha é outra figura que nunca se apagou de minha recordação.... É que ninguém no mundo contava melhor histórias de fadas do que ela. Devia ter seus setenta anos: rija, gorda, preta, bem preta e a cabeça branca como algodão em pasta... Não sei se é impressão de meninice, mas a verdade é que, até hoje, não encontrei ninguém que tivesse mais jeito para contar histórias infantis...

Monteiro Lobato, em Histórias de Tia Nastácia, emprega a voz de Pedrinho para exaltar uma de suas personagens mais conhecidas e que tem sido alvo de tantas polêmicas e releituras:


... Tia Nastácia é o povo. Tudo que o povo sabe e vai contando de um para outro, ela deve saber.... – As negras velhas – disse Pedrinho – são sempre muito sabidas. Mamãe conta de uma que era um verdadeiro dicionário de histórias folclóricas... Todas as noites ela sentavase na varanda e desfiava histórias e mais histórias. Quem sabe se Tia Nastácia não é uma

Já em O Saci, Tio Barnabé, outra das inúmeras criações de Monteiro Lobato, é o típico Pai João: “Negro de mais de 80 anos, descalço...” Embora estereotipado, ele é o grande conhecedor dos segredos da mata que envolve o sítio do Picapau Amarelo. A sua longevidade, no melhor estilo africano, é a fonte de sua sabedoria. É a ele que Pedrinho vai recorrer quando quer saber se Saci existe mesmo: “– Como não hei de saber tudo, menino, se já tenho mais de 80 anos? Quem muito veve, muito sabe...”

Contadores e contadoras de histórias tradicionais ainda são encontrados, principalmente em comunidades afastadas dos grandes centros urbanos. Em 2008, em minhas andanças pelo Brasil, tive a oportunidade de entrevistar uma senhora negra de 93 anos na ilha de Itaparica, Bahia, dona de memória invejável, que me contou histórias do seu tempo de criança, cantando e imitando as vozes de diferentes personagens de uma forma emocionante. Nossas histórias, danças, canções e saberes tradicionais têm uma grande influência da Mãe-África. Nesse aspecto, os livros destinados aos mais jovens têm um papel fundamental: o de contribuir para que a criança sinta-se orgulhosa de pertencer a uma cultura, seja ela qual for, e de aprender a respeitar às diferenças, contribuições e valores de sua própria comunidade e também de outros povos. A valorização passa pelo reconhecimento. As palavras e as ilustrações de um livro são como um espelho. E se a pessoa não vê a sua imagem refletida, pode se sentir desinteressada e desmotivada. A sua autoestima é afetada. Aos autores de livros para crianças e jovens, aos contadores de histórias e aos educadores cabe preservar, valorizar e divulgar as tradições orais. As histórias são importante fator de enriquecimento e afirmação de identidade social, especialmente em um país plural como o nosso.

Rogério Andrade Barbosa

segunda tia Esmeréria?

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E não se esqueçam: as histórias foram feitas para serem contadas e recontadas.

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Leituras Inspiradoras u Cazuza. Viriato Corrêa. Companhia Editora Nacional, 1976. u Histórias de Tia Nastácia. Monteiro Lobato. Brasiliense, 1947. u Viagem ao céu e O Saci. Monteiro Lobato. Brasiliense, 1960. u Menino de engenho. José Lins do Rego. José Olympio, 1960.


DeusNumDé: dom da visão

o


[Edmilson Santini]

oE

is que a cadência da roda, no compasso da ciranda, dava o tom de todas as vozes,

Eque em coro cantavam: “Até pro ano, se eu vivo for”. Era o encerramento do Circui-

to Estadual das Artes, realizado numa das praças da cidade de Caxias-RJ. Fazendo jus à tradição que, desde séculos aos dias atuais, acompanha a trajetória de artistas populares, em praças, ruas... o chapéu logo é mostrado... Feito pedra de anel, de mão em mão é passado, quando vê, está enriquecido em notas e moedas. O que não significa que ali está a paga pela função apresentada ao respeitável público. No andar das contações de histórias – vozes das praças – rodar o chapéu, no desfecho de cada função, é hábito que se mantém mais como um complemento brincante, eu diria. Dito isso, a presença de espírito, em carne, osso e voz, do contador de história, perante a sociedade atual (loucamente urbanizada, até certo ponto) se dá como proposta de lazer, educação, cultura... aos ouvidos de um público volante (sempre passando), personagem carente de um pouco de poesia nos fins-de-tarde-cair-da-noite de seus dias, em grande parte estressantes. Caía de vez a noite sobre o viaduto, quando os participantes do recém-encerrado espetáculo foram deixando a Praça, cada qual pegando seus adereços de cena e rumando em destino ao Lar, Doce Lar. Eu, apesar de já ter tomado parte em inúmeras apresentações de rua, com semelhante dimensão humana povoando a roda, vi ali um dos mais iluminados Pontos de Encontro Marcado com a Poética do Circo, por meio dos Pernas-de-Pau, que encenavam Ditos Populares, do Homem que fazia fogo jorrar por sua Boca de Palhaço... Enfim, tantas foram as provas do Poder Poético nas Vozes e Voos daquela Praça que, ao sair de lá, no intento de ir também pra casa, no meio

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do caminho dei com Outra Praça, e dá-lhe gente em volta de uma figura que cantava, ao meu ver, de forma encantadora. Eu poderia muito bem fazer “ouvidos-de-tô-compressa”, passar, literalmente, ao largo da dita praça, mas, em vez disso, me vi atraído de tal maneira pelo entoo da Cantiga (era uma Cantiga de Roda em tom de peditório, acreditem), que pra lá fui levado a correr. Quando me dei conta, estava de cabeça, juízo e tudo, enfiado no meio daquela plateia que, mesmo compacta, me parecia uma imensidão humana, tamanha a simbologia do acontecido no meio daquele círculo de expressões atentas: Um Cego-Trovador. No impulso de quem tem a vivência de “rodar o chapéu, a cada função, perante o respeitável público (no meu caso, rodo sempre o Folheto de Literatura de Cordel), fiz zunir uma moeda no ar, que tilintou no miolo de um chapéu, que figurava no Centro da Roda. No boca a boca de todos ali presentes, ouvi um “Viva! Viva a moeda da sorte, que de longe acertou a boca do ganha-pão...”. Num gesto-meio-passe-de-mágica, o cego fez calar o vozerio e suspendeu a cantoria. Cada um ali em volta fazia vez de quem tinha uma história pra contar. Vendo no Cego uma História Viva em Pessoa, não hesitei em dimensionar a importância do que ali chamei – lá entre meus botões e pensamento – Teatro de Circunstância: aconteceu, virou diálogo. E um diálogo comecei – meio prosa, meio verso –, perguntando como o Cego se chamava: “Deusnumdé”! Respondeu ele. “Deus num quê”!? Saiu a exclamação, num coro de muitas vozes. “Deus num deu olhos pra ver, mas deu o dom da visão”. O Cego assim respondeu, em tom de improvisação. Em torno ouviu-se o estalar de mãos, como se a praça inteira o aplaudisse de pé. No Centro da Roda – boca para o céu virada – o chapéu num instante havia multiplicado os valores. Levado por certo encantamento, no Cego quase me encostei. Olhando em seus olhos, vi que o Cego “me via por dentro”. Situação de um sonho enriquecedor, da qual eu dou testemunho: ele era eu, eu era ele e a Roda já era Outra. Um Mar de Encantaria fez vulto em meu pensamento. E na Cadência do Verso de DeusNumDé tive a prova: o danado do Cego em seu Universo Popular, nos abre os olhos para o lugar que ocupa, muitas vezes invisível, nesta Ciranda de Histórias, no dia a dia a rodar...


Edmilson Santini

Por meio do inconsciente – ciente do encanto ali vivido – me vi inteiro tomado pelo zumbir sem fronteira da Tradição Oral. Logo, em vez de servir de guia, me vi guiado pela voz de DeusNumDé, numa Viagem, eu diria, de Retorno ao Mundo do Maravilhoso. Bem, na real, mesmo, àquela hora, encerrado o espetáculo acima citado, eu me encaminhei foi direto pra casa, como o mais comum dos mortais. Foi assim que me vi na Concreta Travessia da Avenida Brasil, à mercê de um trânsito emperrado, repleto de arruídos, que meu pensamento voou, ligando o itinerário da Via Expressa ao imaginário poético-viajante do Cego DeusNumDé. Estou ciente de que meu testemunho, a essa altura, vai tomando ares de metáfora errante, mas foi por meio dessa errância que eu pude ver, em tempo real, por irreal que pareça, a entrada de DeusNumDé, agora, na Praça do Reino Encantado: Lugar dos Contos Populares. Lá vi DeusNumDé ser recebido ao som do Canto e Dança do Pastoril, Boi da Ressurreição, Maracatu do Baque Virado, com baque solto na festa. Isso me abriu uma Terceira Visão nos Sentidos, pois logo vi Meu Avô; que era ali um Velho Guardião de Muitas Vozes, mantendo em constante renovação (narrador de bom guardado), entre outras, as Histórias de Exemplos e Trancoso. Com DeusNumDé bem à vista, vi Meu Avô trancando e abrindo as feições, lá de seu rosto – sorrindo ou enfezado – conforme pedia o clima da história que estava contando, à beira do fogo, na Praça do Reino. Velho narrador de ontem, como hoje, desempenhando seu papel sagrado. A essa altura da viagem (concreta e imaginária) me ocorre dizer que, nos dias de hoje, o contador de histórias, seja sua atuação por meio do verso ou da prosa, é um ser essencial a uma sociedade que se vê necessitada em “dar um tempo ao tempo da poesia”. Cruzando, enfim, um Terceiro Sinal Verde, antes de chegar em casa, vi DeusNumDé já transitando entre a Praça do Reino e a Praça da Pedra Medieval. Assim que entrei em casa, liguei a televisão, direto no programa Narradores do Tempo – Canal da Voz do Futuro. Quem eu vejo aparecer? DeusNumDé, lá desafiando Homero. Não estando eu maluco – assim espero –, juro que isso eu vi suceder. Coisa do mundo da tevê. Partindo de um plano que se fechava nos dois, a tevê foi revelando uma grande

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arena, onde se viam de gente antiga a modernosa... Ambiente de Encontro Celebrativo. De repente, em plano médio, eu vi e reconheci: um Médium, ao seu lado uma Alma Viva do Teatro. Se não me falha a imagem, o Espírito Dionísius também vi. Vi um Poeta mais atrás, só pela rima do olhar. Olha quantos entes da Criação Humana... Logo ao lado vi um senhor que tinha pinta de palhaço. Era uma Praça povoada de Porta-Vozes dos Saberes Populares. Vi a tevê fechar o plano de novo em Homero e DeusNumDé. A peleja entre ambos alcançava seu clímax. Desenrolando o desfecho, Homero desfiava lá um fuminho de rolo. A figura de seu rosto agora, do meu ponto de vista, era, escrito, a de meu Avô. Tevê voltou ao plano médio, e o poeta – reconhecido por mim – emendou contando um Conto dos Dias de Hoje. Aí eu tive a certeza: espaço de contador de história é espaço de precisão: vai onde é preciso ir. Nesse preciso momento, o cansaço se insinuando, me dominou as pestanas, meus olhos foram deixando os Narradores no Ar... Dia seguinte, as tantas vozes de um homem davam vez ao Teatro De Bonecos: Era o início do Festival Nacional de Teatro, nas Ruas de Angra dos Reis, onde a Cia. Chegança, do Maranhão foi chegando, já cantou pra guarnicê; e em pé sobre seu Banquinho, entre ruas e sinais, vestido só de jornais, Dalmo Saraiva fazia vez de “O Homem De Papel: Coberto de Notícia, sem Ler um Terço da Missa”. Num rito de itinerância, prossegui ouvindo e vendo, entre tantas semelhanças de fala, as diferenças na prosódia, nos sotaques... Seguindo minha abordagem, dei com a performance da “Mulher Que Roda e Cai”. Entre a Mulher e o Cais, outras histórias ouvi. À Beira do Mar de Angra, portanto a Praça do Porto, foi bonito de se ver: a Poética de Cordel (Teatro de Precisão, Indo Onde é Preciso Ir, como eu já disse) fez a Ponte entre o Narrado, o Vivido e o Cantado. No rastro desse convívio da arte de contar-encenar com outras artes afins, dei uma espichada de pernas, fui a becos e recantos, – que pareciam invisíveis aos olhos programação oficial –, até me achar num picadeiro, bem na frente da igreja. Pensei: Profano e Sagrado, numa alegre interação: Circo inteiro e ativo, compartilhando acrobacias com as preces do sacristão. Mal pensei, fui avistando, lá noutra esquina


Lá Não vi foi DeusNumDé, mas ele segue no ar, contando, pra quem quiser em seu mundo navegar e contar, como puder, a história que imaginar.

Edmilson Santini

um caboclo. Vi logo que era cria do lugar: um pescador de palavras. Sua voz estava na praça, mas apenas sussurrava uma história-para-dois. “Quem cochicha, o rabo espicha”. Pensando assim, espichei o meu pescoço, meti o nariz entre os três (narrador e seu público de dois): “Sou Seu Cochicha-Língua-Espicha!“ Ele a mim se apresentou. E continuou contando sua história agora pra três. Pensei nessa modalidade: Públicomicro em meio à macro-visão de gente. Ideia só dele ou não, foi um jeito encontrado de ser ouvido com atenção, valorizando, de verdade, cada palavra então falada. É nessas pequenas grandes nuances, por entre ouvidos e praças, que se percebe: espaço do contador de histórias nos dias atuais não se mede apenas pelo volume de público à sua volta, mas também pelo conteúdo e boa qualidade que se imprime em seu contar. Já em pleno pôr do sol, um céu de plasticidade: Azul, vermelho, amarelo, suavemente mandou a estrela-guia alumiar a cidade, pro Cortejo das Linguagens. Assim sendo: Do Homem de Papel ao Mímico, passando pelo Narrador-Para-Três, Mamulengos, Cirandeiros... Até Mestre Vitalino, com Bonecos de Lampião e Maria Bonita, acrescentaram pontos diversos na interação de contadores com outras artes. Desse ponto de partida, ao som de tambores, cantos, danças, contos, etc. – por ruas, praças e beira-mar o Cortejo circulou. Sendo o Ponto-de-Chegança o mesmo de onde partira: Frente à igreja: lugar do Circo Armado. Cortejo chegou, fez-se a Roda, rodou-se, então, o chapéu. Era o mesmo chapéu do começo dessa Jornada de Palavras. Sem mais o que dizer, peço licença a Guimarães Rosa pra indagar: “Aqui, a história acabada?”. Acaba é nada! A história é dada a se verter, virar outras, conforme muda de voz ou de lugar. Toda história que se preza ser contada, guarda em si outras versões. Falando nisso...

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Meu Avô também não vi. Não quis ele aparecer em Angra, mas eu ouvi,

– caro leitor pode ver, – suas palavras, dizendo: “Estou escutando, estou vendo, em Angra a Ema Gemer”. Este artigo foi pedido, pra ser em prosa, eu sei, mas me vi tão dividido, que um jeito no fim eu dei. Assim, versejado eu deixo, registrado este desfecho da história que contei.

42 Leituras Inspiradoras u Grande sertão: veredas. João Guimarães Rosa. Nova Fronteira. u Cantadores. Leonardo Mota. Itatiaia. u Zé Limeira, poeta  do absurdo. Orlando Tejo. A União. u Patativa do Assaré, a trajetória  de um canto. Luiz Tadeu Feitosa. Escrituras.


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Vozes, corpos e textos nos v達os da cidade

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[Júlio Diniz]

o A

liberdade, segundo o senso comum, é um direito inalienável de todo ser

Ahumano. Mas a luta para que ela seja valor imprescindível nas relações sociais,

políticas e econômicas é um exercício que se perpetua na contemporaneidade. É impossível para o (e)leitor de nosso momento histórico conceber a arte submetida a regimes estéticos, mercadológicos e ideológicos autoritários. A liberdade, além de ser um segredo, como diz Clarice Lispector, tem uma densidade uma oitava acima de qualquer tom. Contar uma história, para mim, é sempre um exercício em liberdade. Não consigo entender como, diante dos impasses do presente, as narrativas individuais e coletivas possam ser controladas e/ou orientadas por forças externas a sua fundação como discurso. Estar diante do outro e falar para o outro do outro que habita em si é o grande gesto político, artístico e ético que um contador de histórias pode fazer num mundo de descasos e banalizações. Há quem ainda acredite e perpetue a ideia de que o autor morreu. Parece que alguns proto-pós-modernos de plantão não leram bem ou passaram apressadamente os olhos pelos textos de Foucault e Barthes que discutem essa questão. Como falar de morte do autor num momento de histeria coletiva diante do conceito de intimidade e da proliferação das narrativas do eu, das autobiografias e das autoficções? As narrativas urbanas que moldam o corpo textual e sonoro do contador formam um contínuo e caudaloso rio que contempla margens e penetra territórios que vão da família à rua, da solidão ao encantamento, da loucura à memória. Infância, paixões, pre-

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conceitos, violência, espanto, desejo e dor são tratados em liberdade por vozes que narram vozes em trânsito, corpos em suspensão, discursos entortados pela potência da vida. Toda essa discussão nos remete a uma luta contra a liberdade aprisionante do espaço branco do papel, da imobilidade do corpo como máquina desejante, do silêncio imposto à voz. Potentes em suas articulações e no diálogo com o contemporâneo, os contadores de história, diluídos na polifonia urbana, irmanam forças que resultam num delicado jogo de tensões. Se o contador se dispuser a embaralhar a ordem de performatização dos textos e construir a sua própria escolha, encontrará no vão do sentido a possibilidade de exercitar seus dons de bricoleur. Esse convite à trapaça, à invenção de um outro, tem um forte aliado nos cenários imagéticos da cidade de nosso tempo. Imagens, textos e vozes em dialogia e em rotação contínua. A liberdade, antes de tudo, é um jogo de seduções. Acredito muito na potência da figura e da ação dos contadores diante da amnésia imposta pelo capitalismo cognitivo para vender a memória como mercadoria. Há nos contadores que erram pelas cidades um desejo de trazer do subsolo das reminiscências das ruas, bairros e espaços públicos a força erótica da invenção. São griots e griotes que resistem na contemporaneidade ao descaso com a história dos afetos e das narrativas que a liberdade nos provoca. Como tentar revelar as múltiplas faces da liberdade até agora? Como a contação de histórias pode se transformar no lugar da resistência e de afirmação da precariedade humana? Como os (e)leitores de nosso tempo lidam com a vontade que potencializa o sim diante do controle e da vigia que os tempos pós-utópícos nos reservam? Muito mais que certezas, estas questões estão impregnadas de desejos e dúvidas. Ler em liberdade é o dispositivo possível de sua apreensão e entendimento.


c

Muitas vidas, muitas vozes, muitas hist贸rias

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[Júlio Diniz & Morandubetá]

o

Júlio Diniz – A palavra Morandubetá, o que significa? Morandubetá – É uma palavra Tupi que significa “muitas histórias”. Júlio Diniz – Como o grupo surgiu? Qual é a formação original? Houve pessoas que entraram, ficaram um tempo e saíram? Morandubetá – Em 1989 aconteceu no Rio de Janeiro um curso de contadores de histórias com o grupo da Venezuela “En Cuentos y Encantos”, formado pela venezuelana Isabel de los Ríos e o brasileiro Luiz Carlos Neves. Foram convidados por Eliana Yunes que era Diretora da FNLIJ – Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, onde trabalhavam também Lúcia Fidalgo, Maraney Freire e Inês Rocha. As quatro fizeram o curso e foram a semente do futuro grupo, mas ainda não era o Morandubetá. Nesse meio tempo o Celso Sisto entrou para a FNLIJ, como especialista da área de literatura, e se juntou ao grupo. Começamos a nos reunir e contar histórias no Instituto Nazareth, um colégio dirigido por Regina Yolanda que ficava na Rua Pereira da Silva, em Laranjeiras. Eliana participava da equipe pedagógica e nos levou para lá. Ali nasceu o Morandubetá. Pouco depois a Inês foi viver na França. E o grupo ficou composto por Eliana Yunes, Celso Sisto, Maraney Freire e Lúcia Fidalgo. Então a Maraney saiu e chegou a Benita. A formação que existe até hoje – Benita Prieto, Celso Sisto, Eliana Yunes e Lúcia Fidalgo – começou em 1991. E o nome do grupo foi escolhido por causa do livro Morandubetá, de Heitor Luiz Murat, da Editora Lê, uma colheita de diversas fábulas indígenas. Quando vimos o nome, falamos quase que ao mesmo tempo: mas

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que nome interessante, Morandubetá! Uma palavra diferente. Que remete ao que a gente quer... Homenagear os povos indígenas. Júlio Diniz – Iluminar o Brasil pouco iluminado, deixá-lo vazar e brilhar, não é? Morandubetá – Isso! É, tudo nasceu daí e assim! Foi muito... Bonito e mágico! Júlio Diniz – E aí vocês começaram a fazer o quê em 91/92? Morandubetá – Contávamos no projeto “Meu livro, meu companheiro”, da FNLIJ, que acontecia no INCA – Instituto Nacional de Câncer, onde foi montada uma sala com uma biblioteca chamada Bibliolândia, nome escolhido pelos frequentadores. Nesse momento começamos também a viajar pelo Brasil para formar contadores pelo Proler. Júlio Diniz – Qual era o repertório? Era só para pacientes, para adultos e crianças? Morandubetá – A sala e o repertório eram voltados para a literatura infantil e juvenil, mas acabou virando um espaço de convivência de todos, porque nesse momento também nascia no INCA um grupo de voluntários que estava sendo formado para trabalhar com as crianças. Daí surgiu a ideia de que, além de contar, poderíamos ministrar um curso de contador de histórias para esse grupo que teria a possibilidade de difundir essa ação nas suas atividades. Nós também íamos às enfermarias para contar, quando o paciente não podia se deslocar. Júlio Diniz – Podemos dizer que antes dos doutores da alegria chegarem ao Rio de Janeiro vocês já estavam lá e faziam esse trabalho? Morandubetá – Sim! Com certeza! Nessa época inclusive começamos a pensar em fazer essa ação num trabalho voluntário, a ideia de contar histórias para os enfermos. Em 1995 fomos convidados para participar do projeto da Secretaria Municipal de Cultura Teatro é Vida, que era só com atores. Quando eles perceberam que já havíamos feito isso no INCA, resolveram nos chamar. Então tivemos a ideia de criar o projeto voluntário Cesta de Histórias que foi feito com o nosso dinheiro em seis hospitais da rede pública. Compramos as cestas de vime, doamos os livros, demos formação de contadores de histórias. Acabamos ganhando uma Moção de apoio da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro por essa ação. Foi uma bela surpresa!


Júlio Diniz & Morandubetá

Júlio Diniz – Como era ser um contador de histórias no início dos anos 90? Havia já essa importância? Esse lugar? Esse reconhecimento? Vocês tiveram que respirar fundo e desbravar essa floresta selvagem? Morandubetá – A narração de histórias é algo milenar, ninguém inaugurou nada. O que aconteceu refere-se ao surgimento e crescimento da narração urbana, que efetivamente se reintroduziu na prática social do brasileiro. Começamos muito timidamente, com muitos cuidados. Nós não saíamos dando oficina por aí, não. Assumimos que contar histórias fazia parte de um programa de formação de leitores, que ouvir narrativas organizava a cabeça das pessoas. Então quando surgiu o Proler – Programa Nacional de Incentivo à Leitura, da Fundação Biblioteca Nacional, fomos pelo Brasil. O Proler é que disseminou o nosso trabalho, mas nós somos os pioneiros na contação de histórias numa perspectiva contemporânea. Fomos também os precursores nessa história de grupos de contadores de histórias e de uma série de outras coisas: começamos as oficinas de contadores de histórias, começamos a organizar as sessões de contos como se fosse um espetáculo, demos os primeiros passos para o aparecimento de encontros de contadores de histórias, transferimos nossas experiências da prática para livros. E tudo isso começou numa época em que as pessoas não sabiam direito o que faziam os contadores de histórias. Em muitos lugares as pessoas achavam que os contadores de histórias liam histórias para crianças. Também creditamos ao Morandubetá essa ampliação de público, uma vez que também fomos nós que começamos a gestar apresentações para um público adulto, exatamente para fugirmos dessa ideia de que contar história é só para crianças. E podemos dizer, seguramente, que a experiência com o teatro do Celso e da Benita também abriu as portas para que outros atores descobrissem a “contação de histórias” como caminho. Abrimos, inclusive, a possibilidade dos contadores de histórias trabalharem em feiras de livros (via Bienal do Rio), que depois se espalhou para todo o país. Outra coisa: o Morandubetá sempre investiu em apresentações de histórias literárias, sendo precursor dessa prática de levar para a oralidade os textos escritos de vários autores, quando o comum era as pessoas contarem contos populares!

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Júlio Diniz – De onde vem essa palavra, “contação”? Morandubetá – Essa palavra é do grande contador Gregório Filho. Primeiro ficávamos cheios de receios de usar, pois a palavra não existia. Mas Gregório nos convenceu. É melhor falar de um jeito que todo mundo entenda. A língua portuguesa aguenta tudo isso. Ele define assim contação, ação de contar. Júlio Diniz – Quando é que vocês deram um salto, ou seja, modificaram um pouco o trajeto, se profissionalizaram e foram para o teatro? Já tive oportunidade de ver o trabalho de vocês em vários esquemas diferentes. Até no palco do CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil – aqui no Rio Morandubetá – Fomos evoluindo sem perceber. A gente não tinha um plano. Ocupávamos os espaços. Houve um fato importante que marcou o início de nossa trajetória – o trabalho no Museu Histórico Nacional. A revista Veja fez uma matéria e aí despertamos o interesse do público, da imprensa e dos gestores de cultura. Passamos a ser chamados para projetos em várias instituições, nós fazíamos tudo ao mesmo tempo. Júlio Diniz – A partir daí, o que aconteceu? Morandubetá – Naquele momento veio uma vontade de profissionalização. Decidimos ter um logotipo, assessoria de imprensa, pensar em ter produtos, virar uma microempresa. E decidimos sair da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, para não parecer que pertencíamos à FNLIJ. Despedimo-nos com uma linda carta que está lá nos arquivos da Fundação. Júlio Diniz – A partir das vivências no Proler e no Leia Brasil, vocês formaram contadores de história, é isso? Eu queria que vocês falassem um pouco sobre esse assunto. Morandubetá – Percebemos que não daríamos conta de tudo, já que o Proler e o Leia Brasil estavam crescendo por todos os cantos do país. Nessa época também surge a Casa da Leitura em Laranjeiras que abre espaço para os contadores. A Casa começa com a gente contando histórias porque ainda não havia a formação continuada de grupos. Ministramos também cursos na PUC-Rio, Ler UERJ, universidades, SESC, SESI. Era tanto lugar, uma loucura saudável. Júlio Diniz – Vou adaptar a frase do Millôr Fernandes que é muito boa para falar


Júlio Diniz & Morandubetá

desse aspecto. O Rio de Janeiro estava irreconhecivelmente inteligente naquele momento. É isso? Morandubetá – É isso mesmo! No início não havia muito público. Tudo acontecia numa salinha. Levávamos nossos parentes e amigos para encher a sala. Depois o público foi crescendo, tinha disputa... Tinha senha. Às vezes fazíamos duas sessões no mesmo espaço. Todo o processo foi muito lindo. Tanto no CCBB quanto na Casa da Leitura. Júlio Diniz – Vocês se tornaram multiplicadores e formadores de novos contadores de história e de grupos, não é mesmo? Morandubetá – Há vários grupos e contadores que são importantes no Brasil hoje que foram formados por nós. Praticamente deixamos um grupo em cada cidade por onde passamos. O Morandubetá possibilitou, junto com essas andanças, junto a esses projetos de que estamos falando, não só formar contadores como descobrir contadores, porque essa é a nossa missão também. Júlio Diniz – Agora falem um pouco do repertório. Morandubetá – A história de repertório é a seguinte. Como as nossas sessões tinham sempre um tema, precisávamos pesquisar muito. Começamos com literatura infantil, depois passamos para literatura adulta, dentro da Biblioteca Nacional. A ideia foi sumamente rejeitada. As críticas eram pesadas. Alguns achavam um absurdo funcionários ouvindo histórias, fazendo círculo de leitura. Achavam que era loucura contar histórias para gente que não sabia ler. Júlio Diniz – O pessoal da limpeza? Morandubetá – É, porque só sobrou o pessoal da limpeza, porque ninguém, funcionário nenhum queria efetivamente participar. Quando passamos a fazer para o público em geral, escolhíamos histórias de acordo com a época, segundo o calendário. Tivemos que literalmente caçar nossas leituras, consultar outras pessoas e mergulhávamos na biblioteca para ver os acervos. Foi aí que a Lúcia e o Celso viraram escritores. Na medida em que não encontrávamos um repertório do que queríamos, tínhamos que criar. Chegamos a ter um repertório de cem contos cada um de nós. E também nos encontrávamos para estudar. Fazíamos reuniões

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semanais para ensaiar. Toda essa pesquisa nos deu segurança para trabalhar com a literatura oral e a autoral. Júlio Diniz – Vocês começaram localmente, depois ganharam uma importância regional, projeção nacional e agora o desafio é dialogar com grupos no exterior. Eu gostaria que vocês falassem sobre isso. Morandubetá – Na verdade já temos um ótimo diálogo com os contadores dos países de fala hispânica e portuguesa principalmente. Através dos encontros que participamos desde 1996 com a viagem da Benita para fora do Brasil e dos que produzimos por aqui desde 1999 construímos uma rede poderosa de ação. Júlio Diniz – Como é que vocês explicam o fato de estarem há mais de vinte anos juntos, sem se separarem, sem rachas, discordâncias maiores, essas coisas? O que une essas quatro pessoas de uma forma tão forte, além da amizade? Morandubetá – O compromisso que temos com a promoção da leitura. Isso é um compromisso de vida. Não contamos por contar. Júlio Diniz – E o plano de vocês daqui pra frente? Tem alguma coisa mais imediata? Fazer um livro, fazer outro espetáculo? Morandubetá – O grupo teve que aprender a trabalhar de forma dividida. Os projetos individuais foram ganhando espaço também, junto com as atividades do grupo. E fomos investir na nossa formação profissional, qualificando-nos mais ainda. Mas o nome do Morandubetá sempre acompanha nossos trabalhos, mesmo os individuais. Temos muitas coisas a fazer, como divulgar a coleção Histórias das terras daqui e de lá, da Editora Zeus. A Lúcia fez a coordenação editorial e cada um de nós escreveu um livro em parceria com um contador estrangeiro. Tentar que o grupo se reúna duas vezes por ano para contar junto, porque a gente está muito disperso. Ter o nosso repertório registrado em CDs, pois gravávamos todas as nossas sessões de histórias, na Casa da Leitura, no início desse trajeto. Temos um livro pronto com contos indígenas, mas ainda sem editora. E também o No coração da palavra, que é um livro todo teórico e sobre nossas experiências. Queremos fazer um livro de contos autorais. Depois de tantos anos na estrada temos importantes contribuições a dar.


Júlio Diniz & Morandubetá

Júlio Diniz – A última pergunta para cada um de vocês. Quais são as expectativas da contação de histórias? Benita Prieto – Estamos construindo uma bela história. Mas precisamos mapear o Brasil para ampliar as nossas bases nacionais. E solidificar as relações que mantemos com outros contadores no mundo construindo uma rede de cooperação que possibilite cada vez mais a troca de experiências e os intercâmbios. E algo que me aflige é a renovação. Há extrema necessidade de jovens contadores de histórias, para que todo esse trabalho não desapareça. Afinal e infelizmente eternas são somente as histórias. Celso Sisto – A contação de histórias no Brasil de hoje está bem difundida. Mas falta mais, falta muito mais. Primeiro é preciso investir enormemente na formação de grupos. Eu acredito nisso. Contar histórias coletivamente tem uma força incalculável, e o que a gente vê com mais frequência é o surgimento de contadores individuais (é mais fácil contar sozinho! ser dono de tudo!). Mas sou a favor dos grupos, dessa experiência coletiva e socializante, inclusive como maneira de “barrar” os estrelismos. O que importa é a literatura, o compromisso com as obras de qualidade. O que assistimos hoje é o que chamo de “pasteurização” da arte de contar histórias. Explico: o contador de histórias tem que se adequar à história que ele conta, e não o contrário. A história é quem deve determinar a forma, a maneira, o estilo requerido por ela, para ser contada, e não o contrário. O que se vê são contadores de histórias usando as histórias para ressaltarem suas qualidades artísticas e não “iluminarem” as histórias que contam. Toda e qualquer habilidade individual deve estar a serviço da história, para engrandecimento da história que se conta, e não do contador. Eliana Yunes – A contação de história sempre foi uma fórmula de abertura para ler o mundo. Pensando assim, como o mundo chega organizado às cabeças das pessoas, elas não sabem mais quais são as relações com as coisas. Que o mundo é o mundo da cultura, não é? As histórias fizeram esse papel. A oralidade sobrevive porque ela dá para organizar as sociedades, mesmo quando essas formas são muito sofisticadas como o caso das formas gregas. Elas prevalecem, permanecem

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porque a oralidade dá a possibilidade de ter um sentido para a compreensão do mundo e das coisas. Eu acho que a gente pode ter um caminho todo da escrita digital, da escrita eletrônica, mas ouvir uma história de viva voz, com a respiração do contador, com o olhar do contador, é algo imbatível porque aproxima as pessoas. E as pessoas estão na verdade carentes de aproximação, de trocas pessoais. Penso que precisamos investir não como uma forma de institucionalizar ou de criar certas cerquinhas, em aspectos como a performática do contador de história, a questão da voz, do corpo, que não tem que se confundir com o palco, com o teatro. Como é que a gente transborda, transpira uma história? Isso merece um estudo mais sistemático. Lúcia Fidalgo – Há um problema hoje com a questão do repertório. A escolha dos textos tem que ser ampliada porque os contadores infelizmente começaram nessa onda de cópia, cópia, cópia, usando sempre as mesmas histórias. Devemos nos preocupar bastante com isso. Estamos numa sociedade da informação. A gente não tem que ter somente competência informacional para trabalhar com ela. Eu acho que temos que ter competência informacional e emocional. Creio que o papel do contador nisso funciona muito bem. Me preocupo muito com essa questão do repertório, de formar repertórios novos pra gente não ficar repetidor, como um papagaio. Então, só sendo leitor, não é?


Esta conversa com os participantes do grupo Morandubetá ocorreu na Cátedra UNESCO de Leitura da PUC-Rio. Era uma segunda-feira ensolarada, e a vontade de compartilhar experiências, relatos, sentimentos e lembranças nos aproximou naquela manhã de céu azul e luz na alma. Eu desempenhei o difícil e ao mesmo tempo prazeroso papel de mediador da conversa que contou com a presença de Benita Prieto, Lúcia Fidalgo e Eliana Yunes. Como o Celso Sisto estava no sul do Brasil, enviei por e-mail as questões para ele comentar. Suas observações foram incorporadas a este bate-papo.


Impressþes de uma contadora de histórias – meu encontro com a arte narrativa

o


[Bia Bedran]

o “E

mbora nenhum de nós vá viver para sempre, as histórias conseguem...” Assim a autora Clarissa Pinkola Estés encerra seu livro escrito no início dos anos 1990, O dom da história. Nesta obra ela pretende desvelar a amplitude do alcance das narrativas orais através dos tempos e seu efeito de longa duração. Os componentes do mundo mítico associados ao “feitiço libertador dos contos de fadas”, que se destina a provocar uma sensação de felicidade, e ao acolhimento do conselho, têm a capacidade de perdurar e coexistir num mundo técnico que corre cada dia mais em busca do sentido para a vida. E do mesmo modo Walter Benjamin cita os elementos constitutivos dos contos de fadas: “E se não morreram, vivem até hoje...”. O estudo acerca do valor de longa duração dos contos oriundos das tradições orais é tema recorrente na obra de Câmara Cascudo (1898-1986) desde a década de 1930. Especialmente em Literatura oral no Brasil, escrito entre 1945 e 1949, o autor nos fornece dados relevantes sobre a atmosfera sagrada que envolve a prosa do narrador e suas situações simbólicas apresentadas. Segundo ele, alguns segredos constituem as técnicas da narrativa popular:

E

Os velhos irlandeses têm repugnância de contar estórias de dia porque traz infelicidade. Os Bassutos africanos crêem que lhes cairá uma cabaça ao nariz ou a mãe do narrador transformar-se-á numa zebra selvagem. Os Sulcas da Nova Guiné acreditam que seriam fulminados por um raio. Os Tenas, do Alasca, contam histórias de dia, mas o local deve estar na mais profunda obscuridade. Essa interdição é a mesma em Portugal e Espanha, decorrentemente para o continente americano. Quem conta estórias de dia cria rabo de cotia. (CASCUDO, 1984, p. 228).

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De fato, se recorrermos à memória de nossa infância, verificamos que talvez tenha sido dentro da noite, na penumbra de um quarto, na proximidade aconchegante da presença de um narrador primeiro, que grande parte das situações simbólicas em nossas vidas puderam se apresentar. Assim foi o meu encontro com a arte narrativa e o canto, entremeando o enredo dos contos. Aconteceu muito cedo, na infância ainda não alfabetizada, quando a forma de ler o mundo se apresentava através das histórias contadas e cantadas por minha mãe. A exemplo do que Câmara Cascudo mostra ser o que acontecia no Brasil-Colônia, com as amas contando histórias e acalentando as suas crianças e as das sinhás, o material que me era passado por minha mãe foi o meu primeiro “leite intelectual” recebido. O pesquisador trabalha com o conceito de literatura oral no Brasil e o estudo por ele realizado é uma eterna fonte de inspiração para meu próprio trabalho criativo. A partir do vasto material de sua pesquisa escrevi livros infantis com adaptações de temas de contos tradicionais, compus centenas de canções também para crianças e gravei boa parte desta obra em CDs, por acreditar que, na ausência de um narrador tradicional, seja possível reinstalar aqueles momentos mágicos e encantadores por intermédio de suportes contemporâneos. Penso o quanto aquele rico e descompromissado momento proporcionado por minha mãe, era recheado de uma memória cultural de sua infância nos anos 1920, e o quanto esta memória transferiu-se para o meu imaginário, contribuindo para a construção do potencial imaginativo e criador que tenho hoje comigo. Logo em 1960, eu então com cinco anos, tive a chance e o privilégio de escutar as maravilhosas narrativas da Coleção Disquinho criadas por Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha para os amigos, e o João de Barro, para o mundo artístico. Aquelas encantadoras narrações de contos populares do Brasil e também clássicos da literatura infantojuvenil do mundo, eram entremeadas por músicas igualmente belas que pontuavam os momentos das histórias e as traziam mais oníricas e lúdicas para dentro do coração. A partir daí, não somente minha infância se enriqueceu e se encantou com a arte de cantar e contar histórias, como também esta arte sinalizou o caminho profissional que eu seguiria posteriormente. Prossegui ouvindo e inventando histórias e canções


Bia Bedran

na minha meninice e, mesmo antes de aprender a escrever, lembro-me de meus pais registrando poemas e músicas que eu criava e não sabia ainda colocar no papel... Costumo dizer como se fosse um lema do meu trabalho artístico enquanto criadora musical e contadora de histórias para crianças, que o ato de ler e escrever histórias é fazer um bem; ouvi-las e contá-las, também. Assim como repito sempre: Era uma vez, era uma outra vez, era sempre uma vez. Ou quando canto: É bom cantar, é bom ouvir, é bom pensar, é bom sentir, procuro demonstrar o quão perto habitam a palavra que se canta e a palavra que se fala, pois elas desvelam sentidos múltiplos para cada pessoa que as recebe. Considero o contador de histórias o detentor de uma arte não exclusiva ao mundo dos artistas profissionais. As narrativas orais sempre estiveram ao lado do homem e de suas conquistas dentro da arte de viver, então concordaremos que a arte de narrar faz parte de sua própria história no mundo e traz imbricados os conceitos de ancestralidade e contemporaneidade. Portanto sempre haverá encantamento quando alguém conta ou canta uma história, seja esta pessoa letrada ou não. A arte narrativa se manifesta tanto no contador tradicional, cujas histórias foram criadas e recriadas ao longo do tempo através da narração de sua experiência e de sua memória, quanto no contador contemporâneo, que se instrumentaliza através da pesquisa, da leitura e a insere na prática pedagógica. O professor contador de histórias promove em seu cotidiano o fazer artístico das crianças, que passam a construir obras criativas a partir da repercussão que as imagens poéticas das narrativas promovem dentro delas. Um simples desenho ou uma pintura que transpõe através de formas, cores ou texturas o que foi percebido de um momento específico narrado do conto, pode tornar-se uma experiência significativa de aprendizagem, pois ali estão expressas a leitura particular de cada indivíduo do mesmo fato objetivo da narrativa. A forma plástica escolhida, pela criança ou pelo adulto, ao desenhar uma narrativa é uma apropriação sua do significado objetivo do conto e sua consequente tradução subjetiva. Esta leitura singular de cada um, expressa em desenhos tão diferentes entre si, nos comprova a existência daquele “cinema mental” proposto por Ítalo Calvino, que afirma ser impossível que os cenários imaginados pelos ouvintes de uma mesma

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história possam ser semelhantes... E seguimos na esteira do conceito de Bachelard acerca da relação íntima da imagem poética com o devaneio, pois o ouvinte de uma história entra no estado de devaneio ao escutá-la e engendra em sua imaginação criadora um mundo sonhado, que dialoga com a função do real, ao mesmo tempo que o liberta dela. A imaginação modifica certos aspectos da narrativa e é capaz de ampliá-los enquanto os assimila, portanto talvez possamos alçar que o conto ajuda a memória a lembrar e a imaginação a imaginar... Quando uma vez me perguntaram numa entrevista porque seria importante para as crianças entrarem em contato com qualquer forma de expressão da arte, respondi que preferia inverter a questão e dizer que é a arte que nos proporciona entradas no mundo. A arte nos dá um olhar diferenciado ao que se nos apresenta em bombardeio diário pelos meios de comunicação. Ela nos propicia um olhar crítico para esse mundo moderno impregnado das necessidades fabricadas pela sociedade de consumo e distantes das necessidades essenciais do indivíduo. Eu diria que a arte de contar histórias se faz hoje mais do que nunca necessária exatamente porque quando ela se dá, seja num contexto pedagógico, numa roda informal de contos ou mesmo no contexto do que chamamos de indústria do espetáculo, o maravilhoso se instala. O maravilhoso contém elementos e valores ancestrais que vêm caminhando ao lado da existência humana em suas mais diversas culturas e quando um conto é narrado, as imagens saltam diretamente para a imaginação criadora do ouvinte, seja ele criança ou adulto. É nesse momento que o indivíduo realiza sua mais importante operação: a de significar sua relação com o mundo. Diz Herbert Read que a arte é um contágio, e se transmite como fogo, de espírito para espírito. Permito-me apropriar de sua colocação e dizer que a arte de contar histórias é uma transmissão que contagia por ser imanente à capacidade do homem de intercambiar experiências e produzir sentido para a vida. Quando a criança percebe que a história contada pelo professor pode continuar nela habitando, repercutindo, produzindo sentidos, cores, formas, texturas, e até “recriando memória”, expressão cunhada por Clarissa Pinkola Esthés, ela adquire poder para enfrentar a


Uma história do antigo Egito ainda é capaz, depois de milênios, de suscitar espanto e reflexão. Ela se assemelha a essas sementes de trigo que durante milhares de anos ficaram fechadas hermeticamente nas câmaras das pirâmides e que conservam até hoje suas forças germinativas”. (BENJAMIN, 1994, p. 204).

Há meio século minha própria história está imbricada com a arte narrativa: num primeiro e definitivo momento, como ouvinte de uma contadora, cantadeira e encantadora mãe, e num período seguinte e até hoje, como uma amante das palavras contadas e cantadas propagadas pela estrada afora. Braguinha criou, na década de 1950, ao adaptar a história de Chapeuzinho Vermelho de Charles Perrault em música e versos: “Pela estrada afora eu vou bem sozinha levar esses doces para a vovozinha...”. E desde então eu sigo cantando e contando. Mas eu não estou sozinha nesta estrada, onde as histórias são vaga-lumes que sina-lizam com poesia, mistério e sabedoria os caminhos de todas as gentes e contam, desde sempre, a história de nossa história no mundo. Muitos escritores, poetas, filóso-

Bia Bedran

difícil tarefa de viver e conviver. A narrativa é dirigida ao olhar do outro, é frontal. O contador entrega, oferece um texto oral, uma ideia, uma imagem poética, e as pessoas a recebem como se fosse uma bola que é devolvida com reflexão, expressão e criação. Os contos da tradição oral vieram através dos tempos instigando os sonhos, colocando à prova seus personagens diante da vida e da morte, revelando e derrubando valores, descobrindo mistérios, sortilégios, desventuras, alegrias e esperanças, e nos falam desta grande experiência compartilhada por todos nós, que é a aventura de viver. É também compartilhada por Walter Benjamin e Ítalo Calvino a afirmação de que a característica principal das melhores narrativas é a de evitar explicações psicológicas para as situações contidas na história. A presença do maravilhoso e o elemento capaz de surpreender estão incrustados na natureza dos contos tradicionais e são eles que provocam encantamento e suscitam novas criações. O extraordinário e o miraculoso são narrados sem que o contexto psicológico seja imposto ao leitor ou ouvinte. A imagem mais contundente que traduz a força ancestral que têm as narrativas orais é cunhada por Benjamin:

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fos, teóricos e artistas populares me ajudam a pensar o valor desta antiga arte milenar, onde a palavra é indicadora de rumos passados, presentes e futuros, são unânimes em relacionar a arte narrativa com a arte de viver. E todos eles precisam dos contadores de histórias e dos cantadores para que a palavra se dirija alma adentro e possa repercutir profundamente na forma de imagem poética. Letrados e não letrados leem o mundo e contam suas histórias. É preciso contá-las para que o mundo possa ouvi-las. Onde desaparece a arte de narrar, também desaparece o dom de ouvir, já dizia Benjamin: A narrativa mergulha a coisa na vida no narrador para em seguida retirá-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do barro. (BENJAMIN, 1994, p. 205)

Aí está a relevância das narrativas orais que se mantiveram vivas e germinativas antes mesmo dos suportes que as pudessem registrar: a narrativa é uma forma artesanal de comunicação que se prolonga e repercute, ao contrário da informação que se esgota rapidamente. As narrativas estão imbricadas com a arte de viver. Portanto a arte de narrar e o dom de ouvir se entrelaçam para que a maior aventura do homem possa acontecer.

Leituras Inspiradoras u A poética do devaneio. Gastón Bachelard. Martins Fontes, 2006. u Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Walter Benjamin. Brasiliense, 1994. (obras escolhidas I) u Memória e sociedade – Lembrança de velhos. Ecléa Bosi. Cia. Das Letras, 1994. u A arte de contar histórias no século XXI: tradição e ciberespaço. Cléo Busatto. Vozes, 2007. u Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas. Ítalo Calvino. Companhia das Letras, 1990. u Literatura oral no Brasil. Luis da Câmara Cascudo. Universidade de São Paulo, 1984.


Bia Bedran

u O dom da história: uma fábula sobre o que é suficiente. Clarissa Pinkola Estés. Rocco, 1998. u A renovação do conto. Emergência de uma prática oral. Maria de Lourdes Patrini. Cortez, 2005. u A redenção do robô: meu encontro com a educação através da arte. Herbert Read. Summus, 1986.

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A terceira margem da cena

o


[José Mauro Brant] A voz é querer dizer e vontade de existência. Zumthor.

oH

oje, o interesse do teatro contemporâneo pela encenação de textos literários

Hsem transposição de gênero é crescente. A ideia de fazer viver no palco o texto nar-

rativo sem adaptações teatrais fez ressurgir na cena contemporânea a presença do atornarrador, O Ator Rapsodo. O titulo aqui alude à própria gênese do ator, a figura dos poetas rapsodos, contadores de histórias da Grécia antiga, detentores da poesia oral que estiveram em cena em vários momentos históricos do teatro. Neste teatro “narrativo” o Ator Rapsodo preserva a voz autoral, sendo o responsável direto pela comunicação. Ele quebra a quarta parede e se projeta do espaço dramático; se distanciando da obra e encontrando o público e, desse espaço de cumplicidade, ele pode narrar, comentar, descrever e até viver os personagens da obra que está encenando. O diretor Aderbal Freire filho, um dos grandes praticantes desse gênero e criador do Romance em cena define: “(...) o ator rapsodo é títere e titeriteiro. Ele representa em primeira pessoa mas narra em terceira. Se no cinema o ator faz e a câmera mostra, no ‘romance em cena’ o ator faz e mostra.” O trânsito livre entre o narrado e o vivido cria um jogo franco com o público, sem ilusões, resultando numa teatralidade viva e instigante na qual o espectador é convocado como leitor, embarcando num exercício criativo de imaginação onde ele completa as imagens e os sentidos do texto. Mesmo dispondo das mesmas ferramentas e oferecendo ao público um mesmo exercício de recepção, o ator rapsodo parece distante do que hoje chamamos de Contador de Histórias – na realidade, os pontos de partida de ambos são diferentes. O Ator Rapsodo tem os pés fincados no palco e, da cena, abre uma janela pra vida real,

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interagindo com o público. Apesar de se alimentar da linguagem do seu ancestral em comum, o ator rapsodo hoje costuma ser apenas uma importante peça de uma engrenagem na qual o grande contador de histórias é o próprio encenador. O Contador de Histórias, por sua vez, tem os pés na vida, e dali, do mesmo lugar que o público, abre uma janela pra fantasia. A faculdade de contar histórias é um dom de todos os seres humanos e os atores hoje são minoria no mundo dos narradores. Os contadores de histórias contemporâneos são escritores, educadores, leitores, pesquisadores, promotores de leitura e também atores, são indivíduos que possuem em comum um “impulso rapsódico”. Mais do que intérprete de um texto narrativo, o contador é também uma autoridade sobre o que está contando. Seu repertório é resultado de uma experiência individual com a literatura, com o seu universo mais íntimo de significações, com sua história de amor com a linguagem; ele tem o dom de trazer para a voz a palavra autoral por meio de um processo de apropriação que faz seu texto se transformar em oralidade. A questão que se coloca, a partir daí, é: seria essa prática, que é de todos, uma linguagem cênica? Polêmico narrador e teórico das artes cênicas, o cubano, radicado na Espanha, Francisco Garzon Céspedes, cunhou o termo: narração oral cênica para designar a prática dos contadores de histórias do nosso tempo. No seu livro El arte escénico de contar cuentos [A arte cênica da contação de histórias] ele afirma: a arte de contar oral e cenicamente é uma arte cênica. Mas para Céspedes dizer cena não é dizer teatro, e é na oposição: teatro versus narração de histórias, que ele busca os paradigmas que vão apontar as direções dessa nova linguagem. “O teatro é ação. A narração oral cênica é sugestão. (...) O teatro é representação. A narração oral cênica é apresentação.” Meu mestre Fernando Lébeis dizia: “O ator bota máscaras, o contador de histórias tira as máscaras.” Diga-me o que contas e te direi quem és! Despido de personagens, descolado de qualquer “encenação”, o contador de histórias está pronto para, em qualquer espaço sob as condições mais adversas, fazer acontecer o seu “teatro”. Oriundo de uma sociedade em que a oralidade tem papel secundário, o contador de histórias urbano elege seu acervo a partir das muitas possibilidades que sua


José Mauro Brant

história de leituras oferece, textos autorais, poesias, crônicas e também as histórias da tradição oral que reencontramos nos livros. Afinal ler é sempre escutar uma voz. Ao escolher um texto para contar o narrador vira dono desta voz. Ele tem o dom de saber escutar e sentir os movimentos subjacentes ao texto. As leis da cena ajudam no processo artístico, administrando essas reverberações e as transformando em algo expressivo. A memória (e não só a memorização) age como cocriadora do texto que é incorporado pelo narrador. Assim o conto vira carne, sangue, gesto, olhar, escuta, suor, respiração; ou seja, corpo; e especialmente, voz, sua principal emanação. Essa conquista se deve à sua capacidade de ver e ouvir a sua audiência e se entregar para um jogo onde o público não é mero espectador e sim interlocutor, tudo isso sem perder o fio da história. Sua autoridade cênica é absoluta e vem do seu compromisso quase sagrado com o texto e com a sua transmissão. Um dos maiores encenadores e pensadores do teatro contemporâneo, Peter Brook, conta no livro A Porta Aberta suas experiências observando a prática dos contadores de histórias tradicionais da Índia, Irã e Afeganistão, que mantém vivos os mitos ancestrais. Com um misto de alegria e gravidade os velhos narradores não perdem nunca a relação com seus ouvintes, não para agradá-los, mas para partilhar com eles as qualidades sagradas do texto. Os grandes narradores nunca perdem o contato com a grandeza do mito que estão fazendo viver: “Tem um ouvido voltado para o seu interior e outro para fora.” Assim Brook sintetiza a maior lição dos velhos narradores: estar em dois mundos ao mesmo tempo. O narrador artístico sabe transitar por esses dois mundos e sabe também que ele é responsável por criar um terceiro mundo, imaginário. O espaço de construção conjunta da história, espaço de comunhão com os indivíduos da plateia onde de fato toda ação do conto acontece. A terceira margem da cena. Um dos mais frequentes colaboradores de Peter Brook, o ator japonês Yoshi Oida (que traz na sua história a prática do gidaiyu, tradicional estilo de narração que tem seu lugar nas encenações do teatro Kabuqui), conta em um de seus livros que certa vez um talentoso ator interpretou um gesto que no Kabuqui indica “Olhar para Lua”. Ao

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ver o ator apontando com o indicador para o céu, com elegância, todos admiraram a beleza do seu movimento e o virtuosismo técnico com que ele realizava a tarefa. Outro ator fez o mesmo gesto; apontou para a lua. O público não percebeu se ele tinha realizado ou não um movimento elegante; simplesmente viu a lua. O nome do livro? O ator invisível. Sonho contar uma história em que eu, ao final, desapareça e só reste, para o público, as imagens do conto. Foi a paixão por essa generosa arte de fazer visível o invisível e meu amor pela palavra dita, cantada, escrita que me fez ser contador de histórias. Contar histórias libertou a minha voz das armadilhas do teatro e hoje ela está por aí, em bibliotecas, salas de aula, hospitais, livros, CDs, e, é claro, e sempre, no meu lugar de origem, o palco. Sonho com um teatro que volte a nascer de um impulso rapsódico. Do desejo de contar. Contar histórias, pra mim, é sentir na pele a verdadeira função do oficio do ator. É tocar a essência do próprio teatro.

Leituras Inspiradoras u A porta aberta. Peter Brook. Civilização Brasileira, 2008. u Contadores de Histórias: Oralidade, Narração Oral e Narração oral cênica. Francisco Garzón Céspedes. In: O teatro dito infantil. Maria Helena Kühner (Org.). Cultura em Movimento, 2003. u O ator invisível. Yoshi Oida. Via Lettera, 2007. u Introdução à poesia oral. Paul Zumthor. UFMG, 2010. u Performance, recepção, leitura. Paul Zumthor. Cosac Naify, 2007. u Do livro para o palco: formas de interação entre o épico literário e o teatral. Luiz Arthur Nunes. In: O Percevejo – Revista de teatro, crítica e estética. Ano 8, Número 9. u O lugar das histórias(vídeo) In: Coleção Teatro. Volume 1. Fundação Joaquim Nabuco, 2010.


A voz quente do coração do rádio

o


[Gilka Girardello]

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om a novela de rádio aprendemos a ansiar pela continuação de uma história:

Cpara muitas gerações de brasileiros, a radionovela foi a primeira Scherazade.

Na minha vida, por exemplo, o primeiro rádio foi um Telefunken grandão, encaixado num móvel de madeira de um estilo que naqueles anos 1960 chamávamos de moderno. Esse móvel era o centro da sala do nosso apartamento em Porto Alegre: tinha toca-discos, um nicho espelhado para guardar bebidas… e o rádio. Depois do almoço, lavada a louça, minha mãe sentava conosco no tapete junto ao rádio – éramos quatro crianças – e amontoados escutávamos os acordes de abertura da novela. O rádio era quente, e quentes eram as vozes da mocinha, do galã, da vilã. Choros, soluços, suspiros, sussurros, batidas de portas, passos pelo chão, acordes de violino e sustos de tambor: como era quente tudo o que ouvíamos com o ouvido colado numa novela de rádio! De onde vinha aquele calor todo? – fico pensando. Um pouco vinha das válvulas aquecidas do corpo físico do radião, claro. Outro pouco do aconchego das famílias que se embolavam em colo, café e cafuné na moleza das tardes daquele tempo mais lento. Mas muito vinha mesmo de uma linguagem íntima, de vozes que falavam coladas no microfone, a ouvidos que as escutavam colados na tela palpitante do rádio. Essa intimidade tinha a ver também com o espaço doméstico: não havia cenas externas nas radionovelas daquele tempo. O vento e os ruídos da cidade certamente atrapalhariam gravações de rua, e além disso os enredos em si eram intimistas: segredos atrás da porta, confissões no leito de morte, cartas encontradas em gavetas, promessas e maldições ao pé do ouvido.

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Anos depois, já quase mocinha, ganhei um rádio de pilha de aniversário. Ia dormir com ele grudado no ouvido, o volume no mínimo e ainda por cima abafado pelo cobertor, pra não incomodar as irmãs nas camas ao lado. Caçava as vozes dos locutores dos primeiros programas de rock, ainda marginais naqueles tempos, pressentindo as emoções que a cultura dos jovens guardava pra quem a fosse descobrindo. Era revigorante a possibilidade de buscar e encontrar sozinha aqueles mundos, ao sabor das excursões pelo dial. Intuir que milhares de outras meninas e meninos da minha idade estavam ao mesmo tempo sozinhos em seus quartos, de ouvido nos radinhos, escutando a mesma coisa, dava um arrepio na espinha, como o prenúncio de uma revolução. O rádio permite uma intimidade, uma presença tátil, um tipo de conspiração narrativa entre quem fala e quem ouve. Ele envia pra longe a palavra encarnada e ao mesmo tempo preserva a proximidade que a voz humana instaura, em sua condição de corpo vivo. Afinal, “toda voz emana de um corpo, que permanece visível e palpável enquanto ela é audível”, como diz Paul Zumthor. Por isso, o rádio faz com que cada um dos milhares de ouvintes se sinta único, capaz de criar um rio de imagens mentais para acompanhar o fluxo da fala do parceiro, aquele locutor que está no estúdio. Que o rádio tem grande poder de animar a imaginação, é coisa já dita e redita. Em uma pesquisa feita há alguns anos com centenas de crianças, por exemplo, pediram que elas fizessem desenhos a partir de histórias ouvidas no rádio e na televisão. A versão em rádio estimulou desenhos mais imaginativos: as crianças escolheram uma variedade maior de conteúdos da história para representar graficamente, e incorporaram mais conteúdos exteriores à história em seus desenhos1. O apreço pelo rádio fez parte também da vida de um dos pensadores modernos mais apaixonados pela imaginação e pela narrativa oral, Walter Benjamin. Entre 1929 e 1933, o grande teórico cultural escreveu e apresentou programas semanais de rádio para crianças, em Berlim e Frankfurt. Nesses programas de vinte minutos, ele contava, como se estivesse conversando ao pé da lareira, casos como o da destruição de 1.

Pesquisa relatada em Patricia Marx Greenfield, Mind and Media: The effects of television, video games, and computers. Harvard University Press, Cambridge, MA, 1984. 


Pompeia pelo Vesúvio, o do terremoto de Lisboa, e muitas anedotas surpreendentes como esta, que se passa em Nova Orleans, no tempo da Lei Seca: Dois rapazes negros andam pelo corredor de um trem que acaba de parar, escondendo sob a roupa frascos de diferentes formatos, onde se lê em letras graúdas: “chá gelado”. Um viajante faz sinal a um dos vendedores e compra um dos frascos, pelo preço de um terno, escondendoo em seguida. Outro faz a mesma coisa, depois mais dez, vinte ou cinquenta. “Senhoras e senhores”, imploram os rapazes, “esperem que o trem volte a andar antes de beberem seu chá”. Todos piscam o olho em cumplicidade... O apito soa, o trem parte, e os passageiros bebendo é mesmo chá gelado2.

Nem a TV nem a internet acabaram com o rádio, que se acomodou à primeira e se acoplou à segunda, passando hoje muito bem, obrigado. No Brasil inteiro existem hoje rádios nas escolas e comunidades, rádios de curto e longo alcance, rádios feitas por crianças, por jovens, por velhos, rádios que falam todas as línguas que se fala no Brasil, muito além do português. Tanto existem emissoras interativas on-line, quanto emissoras captadas pela antena do radinho de pilha que o pedreiro escuta na obra, a professora enquanto corrige provas em casa, e o motorista, no táxi. Nem só de música, esporte e notícias se faz a programação dessas rádios. Em muitos projetos, nas grandes cidades e vilarejos do interior, as vozes no rádio contam histórias de vida, contos, poemas, fazem teatro com a textura da voz, experimentam linguagens e temas contemporâneos. As histórias que o rádio conta abastecem de emoções, arte e companhia os dias e noites das mulheres e dos homens em seus momentos de intimidade ou solidão, falam aos românticos, aos visionários, e a todos os que simplesmente buscam sintonizar seus semelhantes. O coração quente do rádio, nos cantos das casas brasileiras, aquece o cotidiano de milhões, e é um dos nossos grandes e nem sempre reconhecidos parceiros na aventura de povoar o cotidiano com histórias contadas, e portanto com mais sentido na vida.

2

Em MEHLMAN, Jeffrey: Walter Benjamin for children: an essay on his radio years. Chicago: University of Chicago Press, 1984, p. 8.

Gilka Girardello

levam os frascos aos lábios. Mas o desapontamento logo nubla seus rostos, pois o que estão

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Contadores de Histórias: um exercício para muitas vozes

Leituras Inspiradoras

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u Voz, presença, imaginação: a narração de histórias para crianças pequenas. Gilka Girardello. In: Infância: imaginação e educação em debate. Celdon Fritzen e Gladir Cabral. Papirus, 2007. u Teorias do Rádio – Textos e Contextos. Eduardo Meditsch (org.). Insular, 2005. u O corpo tornado voz: a experiência pedagógica da peça radiofônica. Mirna Spritzer. Tese de doutorado em educação. UFRGS, 2005.


Contando na telinha

o


[Augusto Pessôa]

o A

cho que contar histórias é um exercício de intimidade. Uma relação pro-

Afunda entre o narrador, a história e o ouvinte. Tendo como elemento principal a narrativa, o texto que é dito. A contação de histórias não necessita de imagens, de encenações ou outros subterfúgios. Eles podem até fazer parte do trabalho, mas esses elementos devem servir ao texto e somente a ele. O grande trabalho do contador é dizer o texto de forma clara para que ele seja elaborado na imaginação do ouvinte. Sou contador de histórias há muito tempo. Descobri recentemente que já tenho 18 anos de contação. Pra mim, parece que foi ontem. Mas já vivi várias experiências interessantes durante esse tempo. Uma realmente interessante é a relação da contação de histórias com a televisão. É curioso porque supostamente são linguagens que não combinam: a televisão vive de imagem. Uma imagem que é mostrada. Não há muito espaço para imaginação. O telespectador precisa ver e acreditar naquilo que é mostrado. Uma vez li uma entrevista do autor de novelas Silvio de Abreu onde ele dizia mais ou menos isso: “A realidade não precisa ser real, mas a teledramaturgia sim”. Na minha opinião essa frase é bastante significativa do trabalho realizado nas emissoras. Além disso, a televisão também precisa de dinamismo. As imagens não podem ficar mais de dois minutos no ar. Os cortes são rápidos. As informações aceleradas. Já a contação de histórias necessita exatamente do contrário. Precisa do tempo, do olho no olho, da intimidade. As informações são lentas, não precisam ser “reais” e necessitam da imaginação do ouvinte. As emissoras de televisão desejam essa intimidade com o telespectador e tentam colocar dentro do seu formato uma atividade que aparentemente não cabe nele.

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Dentro dessas tentativas de aproximação, participei de algumas reuniões com a intenção de afinar os formatos. Certa vez tivemos uma reunião na Casa da Leitura no Rio de Janeiro com um diretor e produtores de uma emissora de televisão. Tínhamos gravado algumas histórias num estúdio e esse trabalho foi apresentado aos senhores da emissora. Por coincidência, uma história que eu conto até hoje foi a primeira a ser apresentada: “Uma aposta”. Uma narrativa cheia de lirismo e romance de Artur Azevedo. A história tem aproximadamente oito minutos o que levou o diretor da emissora à loucura. O tal senhor ficou extremamente exaltado. Elogiou a história e a contação (para minha alegria), mas ficou espantado com a duração da história. Disse que seria impossível realizar o trabalho com narrativas desse tamanho. A discussão ficou acalorada e o projeto subiu no telhado. Numa outra tentativa, fomos para um estúdio gravar pilotos de um possível programa sobre contação de histórias. O diretor pediu para que eu contasse uma história para crianças. Escolhi “A rã e o boi”, uma deliciosa fábula. Conto essa história utilizando uma bola de encher, soprando até ela explodir. Por já ter vivido outras experiências frustradas com o veículo, contei a história de uma forma bem contida numa tentativa de enquadrá-la no formato televisivo. Não deu certo. O diretor me perguntou se era assim que eu contava normalmente. Respondi que não. Quando conto, me movimento muito. Os gestos são largos e grandes. Tentei explicar que, da forma que faço normalmente, não caberia na telinha. Mas o homem insistiu. E fiz. Confesso que até exagerei um pouquinho. E, como eu já desconfiava, o diretor ficou espantado e o projeto subiu no telhado também. Depois de muitas tentativas, surgiu um convite de uma emissora estatal. Fiquei mais animado principalmente porque, por ser estatal, a emissora não teria uma grande preocupação com a parte comercial. Mas foi só ilusão minha. A proposta era gravar vinte histórias que seriam apresentadas durante o mês de outubro numa homenagem as crianças. As narrativas teriam no máximo três minutos e uma animação gráfica. Eu faria a adaptação e a contação das histórias. E aí, começaram os problemas: como adaptar as narrativas para o tamanho pro-


Augusto Pessôa

posto? Optei por adaptar histórias curtas e fragmentos de histórias. Entreguei os textos e eles me pediram para diminuir o tempo para dois minutos. Fiz as novas adaptações e... pediram para diminuir para um minuto. Um minuto?! Agora fui eu que tive um espanto: Impossível!! Não conseguiria contar uma história em um minuto por mais curta que ela fosse. Pensei em recusar e apresentei minhas alegações. Para minha alegria, voltaram aos dois minutos, mas eu tinha que cronometrar as histórias para que tivessem realmente o tempo exigido. Fiz. Na época eu estava produzindo um espetáculo teatral baseado no conto popular “O rei doente do mal de amores”. Como eram vinte histórias e eu estava enrolado com a produção do espetáculo, pedi para que os textos adaptados fossem colocados num teleprompter. Eles aceitaram, mas aí veio a surpresa: seriam três câmeras! Não tenho muito experiência com o veículo. Não sei bem como agir na frente de uma câmera. Como ator, estou mais acostumado com o teatro. No teatro o gesto é grande, a voz é empostada e precisa atingir a famosa velhinha surda que está sentada na última fila. Como contador de histórias, dependendo do público, o processo é semelhante ao do teatro. Com o diferencial que na contação de histórias o texto é transmitido exclusivamente para o público. E ainda tinha o problema das tais três câmeras. O tempo de mudança de uma câmera para outra não tinha sido cronometrado. Resumindo: todas as adaptações ultrapassaram o limite de dois minutos. Para meu alívio, eles gostaram do resultado e não pediram para refazer as adaptações. Mas ainda tinha um problema: o olhar. Quando você vira de uma câmera para a outra, o seu olho vai antes do que seu rosto. Já imaginou? Nunca tinha pensado nisso! Precisava controlar meu olhar que, teimoso, insistia em ir antes do meu rosto. E também tinha que imaginar algumas figuras que seriam colocadas posteriormente pela computação gráfica. Como se eu interagisse com essas figuras. Foi difícil. Principalmente porque não tinha um único olhar para aquecer a contação. Somente o frio olho da câmera. Gravei em três dias. Três manhãs para ser mais preciso. Não podia me mexer muito e tinha que estar com uma “cara boa”. Essa era a pior parte. Como estava produzindo um espetáculo, tinha

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muito trabalho. Várias vezes o diretor chamou a maquiagem para esconder minhas olheiras. Realizei o trabalho e fiquei esperando o resultado final com os desenhos da computação gráfica. Não tinha muita certeza de como ficaria. Vi alguns trechos, mas não o resultado completo. Sinceramente, desconfiava de que não iria dar certo. No início de outubro, quando já imaginava que os programas nem iam mais passar, realizei um trabalho no estado da Bahia, na cidade de Feira de Santana. Um dia estava no hotel e liguei a televisão. Por uma feliz coincidência o aparelho estava ligado exatamente na tal emissora e... vi o programa! Era um tipo de trabalho que eles chamam de “interprograma”. Não tinha um horário certo para passar. Era transmitido durante a programação, entre os programas fixos. Tive a sorte de ligar e dar de cara comigo na televisão contando uma história. Lembro da narrativa: João mais Maria. Era um fragmento do conto popular. Terminada a transmissão a sensação foi boa. Boa e estranha. Diferente do que eu desconfiava, o trabalho funcionou. Mas de repente me dei conta de que o programa seria transmitido para o Brasil todo. Durante um mês eu entraria, sem pedir licença, na casa das pessoas, para contar uma história. Mas tive uma satisfação: a história estava ali! Não plena, pois faltava, no momento em que o trabalho foi gravado, a figura do ouvinte. O espectador viria depois e eu não podia me relacionar com ele. Mas mesmo assim, de alguma forma, a história alcançou o seu objetivo. A animação não era excessiva e estava ali para realçar o que era dito. A estrela continuava a ser a narrativa. O trabalho, que deveria durar apenas o mês de outubro, foi estendido. Um dia recebi uma ligação da produção da emissora falando do sucesso do programa e perguntando se eu me incomodava que ele se estendesse por mais um mês. Aceitei. No final de novembro nova ligação com pedido para estender o trabalho e assim foi. Os programas ficaram no ar por quase cinco anos. Por causa de problemas financeiros (a televisão era estatal, lembra?) dos vinte programas, só treze foram finalizados. Mas foi um sucesso. Mesmo com o fim das transmissões, até hoje sou parado na rua por desconhecidos que perguntam sobre o programa e quando ele vai retornar. Tive outras


experiências com a telinha contando ou lendo histórias. Mas, com certeza, a mais bem sucedida até agora foi a dos “interprogramas”. Atribuo esse sucesso às histórias. Ao poder que essas narrativas exercem e sempre exerceram sobre o ser humano. Independentemente do formato, a história ainda consegue sobreviver e encantar.

u Contos populares do Brasil. Silvio Romero. Itatiaia. u Contos tradicionais do Brasil. Luis da Câmara Cascudo. Ediouro. u O folclore no Brasil. Basílio de Magalhães. Imprensa Nacional. u Guardados do coração – memorial para contadores de histórias. Francisco Gregório Filho. Amais. u Literatura oral para a infância e a juventude. Henriqueta Lisboa. Peirópolis. u Como um romance. Daniel Pennac. Rocco. u Gramática da fantasia. Gianni Rodari. Summus. u As raízes históricas do conto maravilhoso. Vladímir Propp. Martins Fontes. u A arte de ler e contar histórias. Malba Tahan. Conquista.

Augusto Pessôa

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Cinema: um griot cuja argila é o tempo e a estátua são os atores na fogueira da sala escura

o


[Paulo Siqueira]

o M

eus avós eram da roça e eu passava todos os finais de semana ou férias lá. Me

Mlembro bem que minha avó realmente acreditava no Saci, assim como as pessoas

da região. Vejam bem, não era um folclore, as pessoas tinham visto, tinham tido ou conheciam quem tivesse vivido alguma experiência com o Saci. É diferente dos adesivos em carros do “eu acredito em duendes”. Não era uma questão de atitude, mas uma realidade próxima. Meu avô nasceu em 1905, ele viu a cerca chegar ao nordeste, e meus pais, que são de 1934, nasceram num país rural e participaram do processo de urbanização do país. Hoje temos um Saci domesticado e tratado de forma lúdica, não poderia ser diferente, vivemos num país moderno, urbano, virtual, digital e globalizado. Para meus avós a escuridão do campo à noite, o som do vento, das corujas piando no escuro, os insetos, as formas das árvores sob a lua, tudo isso possibilitava uma sensação de obscuridade com relação à noite e aos entes que por ela corriam. A noite urbana é diferente, cheia de luzes, sons de pessoas, carros, música, etc. Mas se o Saci nos parece uma fantasia distante, por outro lado o E.T. de Varginha existe, ah existe, sim! Existe porque eu conheço gente que viu o hospital cercado pelos soldados da aeronáutica e que conhecem as meninas que os viram, lembra o segredo de Fátima, né? Ou seja, tirando à parte a existência ou não desses mitos, a necessidade humana de vivenciá-los ainda persiste. Graças a Deus! Por isso mantenho meu emprego. Mas como se diz em física: na natureza nada se cria, nada se perde, o mito se transforma! Se meu avô contava suas histórias de caçada de onça, se minha avó contava sobre o cangaço e Sinhô Pereira, ou Neco Valõe, Lampião, Luiz Padre, Corisco... hoje, quan-

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do vou às favelas fazer algum documentário, os meninos me contam das histórias do Caveirão, do Bonde que invadiu tal comunidade, do traficante que enfrentou o helicóptero Águia da polícia, do Bope, da CORE... Ou seja, persiste a necessidade de contar e ouvir histórias. Epa! Aí eu posso ganhar dinheiro! O cinema é hoje um griot universal, a relação candidato/vaga no vestibular das faculdades de cinema se aproxima das de medicina. As pessoas querem deixar alguma coisa para o mundo, querem deixar histórias e seus pensamentos. Se meu avô andava a cavalo, meu pai anda de carro, eu uso a internet. Se meu avô contava histórias na fogueira com a viola, meu pai lê e vê televisão, eu uso a internet. Minha geração (tenho 37) ainda foi alfabetizada antes da grande rede. Vejo minha sobrinha de cinco anos, que nem sabe ler, mas já sabe navegar, e imagino onde isso vai dar. Quer dizer: fizeram estradas, alguém um dia inventou o carro, fizeram o projetor de imagens em movimento, alguém inventou o cinema. Taí a internet... Eu ainda tive a referência rural, minha sobrinha só terá a audiovisual. A minha relação com o tempo, que já é totalmente diferente da dos meus avós, será muito mais complexa com minha sobrinha. A velocidade com que minha sobrinha absorverá informação e portanto a velocidade contra a qual eu tenho que manter sua atenção, são os fatores X da equação. Para o homem rural, o tempo se apresenta cíclico, com as colheitas se repetindo, as estações, etc. Para o urbano do século XX, o tempo industrial-linear, como a linha de montagem de uma fábrica, onde o metal entra e sofre o processamento, até sair um carro do outro lado (assim foram escritos os roteiros da grande maioria dos filmes ao longo do século). Pra minha sobrinha virtual, o tempo digital é elíptico/polifônico, ou seja, ela pode estar pesquisando um assunto numa wikipedia e se deparar com um hiperlink que a levará para universos de interesse totalmente diferentes, e ela pode voltar ao assunto original ou seguir em suas aventuras virtuais. Pior! (ou melhor), são várias páginas da internet abertas ao mesmo tempo, junto com os sites de relacionamento, os messengers, a TV ligada, ouvindo música... Tudo isso reestrutura em sua cabecinha digital-multimídia a relação com os personagens ou heróis que iremos apresentar.


Paulo Siqueira

O cinema é uma indústria cara, são investimentos de milhões para a realização de um filme. Quando se chega a estas cifras, o objetivo econômico é um fator preponderante, sim! Não podemos nos enganar em achar que os filmes (claro que em regras gerais) são regidos somente por princípios artísticos. Um filme tem o dever de gerar lucro, ou seja, produtores tentam minimizar os riscos de um fracasso de bilheteria. Opiniões ideológicas à parte (afinal é muito fácil pedir coragem com o pescoço alheio), ao longo deste século cinematográfico, foram estudadas regras de construção de roteiros que potencializam o prazer em se assistir a um filme. O cinema não possui o recurso presencial simultâneo. Com os recursos de que se dispõe hoje em dia (internet, TV digital, TV por celular, jogos digitais), pode-se trabalhar uma interatividade muito interessante, mas provavelmente dentro de um processo individual, dificilmente numa experiência coletiva num futuro próximo. Porém, temos recursos, como apresentação do primeiro corte para uma plateia experimental, etc. Mas até se chegar ao primeiro corte, já foram gastos milhões, portanto na compilação do roteiro, onde os gastos são ainda pequenos, precisamos garantir o máximo de eficiência. Os produtores de cinema procuram ficar antenados às necessidades da plateia em potencial. Hoje em dia os filmes americanos sobre a guerra ao terrorismo, superam em muito os sobre a guerra do Vietnã. No processo de elaboração do roteiro se buscam bússolas em pensadores como Aristóteles, Syd Field, Gabriel García Márquez, Christopher Vogler (o preferido dos roteiristas de hoje em dia, que na verdade adapta Joseph Campbell para o cinema e que trabalha não somente a estrutura macrodramatúrgica temporal do roteiro, mas principalmente os arquétipos dos personagens e da jornada mítica). A partir do momento em que se inventa o trem, a questão do tempo para o homem se torna fundamental. Percebe-se a importância do fuso horário, por exemplo. A velocidade de locomoção humana vai evoluindo e hoje, com a internet, temos tempos simultâneos, onde um acionista da bolsa de valores no Brasil investe na bolsa de Tókio on-line. Segundo Hitchcock, que além do grande cineasta, foi um pensador teórico do

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cinema, a “argila” (sua matéria-prima) do cineasta é o tempo. Para ele, todo o processo de montagem de um filme molda o tempo. Por exemplo, uma bomba-relógio cujo contador conta regressivamente cinco segundos, os cortes para o rosto tenso do desmontador da bomba, do mostrador de tempo, das vítimas, o som... estes cinco segundos podem durar mais de um minuto na tela. Por outro lado, uma passagem de tempo de anos, se faz através de um corte de uma cena pra outra, numa fração de segundos. Juntando todos estes pensadores, de Aristóteles a Vogler, muito me encanta o conflito, os personagens (arquétipos) e sua relação temporal, afinal isso elabora psicologias dos personagens e do espectador. Hoje o cinema se encontra em crise, não somente pela pirataria, mas tanto o cinema quanto a televisão, rádio ou jornais. São modelos que irradiam, em mão única, o conteúdo ao espectador que só tem o poder de mudar de canal, ou sair da sala, mas não pode interagir diretamente. A televisão tem buscado através do uso de telefones, votações, criar alternativas. Mas ainda tateamos no escuro. Por falar no escuro, me lembrei daquele contador, ao redor da fogueira (engraçado como ela nos hipnotiza, né?), contando e ouvindo histórias, onde a via de interlocução é de mão dupla. Ali o espectador interage diretamente, seja de maneira mais agressiva, interferindo, emendando, contando também, ou de maneira mais sutil, com seu olhar, sua reação ou sua concentração. Quando fui realizar o filme Histórias me deparei com o seguinte problema: Como fazer um documentário sobre este assunto (contar histórias) que é subjetivo e imaterial? Porque num documentário sobre uma cidade, uma fábrica, ou uma pessoa, há o objeto do documentário ali presente, seja por imagens que produzamos, ou por fotos, pinturas, etc. A representação pura e simples das histórias contadas não seria correto, pois há diferença entre a narração e a interpretação, que se dá no jogo de imaginação proposto. Uma peça de teatro apresenta a princesa, enquanto a narração da princesa dá ao ouvinte o papel criador de imaginar esta princesa. Mais, não sou um conhecedor teórico do assunto, afinal sou diretor de vídeo/cinema, o que sabia sobre contar histórias e seus contadores eram as referências familiares, da escola, etc. Nunca podia


Paulo Siqueira

imaginar que alguém vivesse disso, ou estudasse o assunto com tanta profundidade. Mãos à obra. Fui contratado, tinha que me virar. Primeira conclusão óbvia: eu não estava realizando uma narrativa oral, eu estava realizando um filme. Graças a Deus! Isso muda tudo. Era um filme sobre a narrativa oral, mas era um filme, com suas regras próprias da cinegrafia, seus códigos e truques. Ah sim, não acreditem os contadores que nós do cinema, só porque não temos o recurso presencial simultâneo – o que permite ao ator teatral ou ao contador sentir a plateia e assim utilizar interjeições, mis-en-scènes, improvisações, olhares e até (e por que não?) modificar a história – não somos capazes de manipular (no bom sentido, né gente?) o nosso público. Senti-lo e com ele interagir. O meu primeiro privilégio enquanto diretor é justamente o de ser o espectador número um do meu trabalho. Enquanto estou editando o filme, eu sou também plateia. Gente, não esqueçamos que o meu objeto é totalmente diferente do de um narrador oral. A minha matéria-prima são o tempo, as imagens e os sons que eu produzo. Imagens captadas por uma câmera, onde eu escolho o enquadramento, o que significa que são imagens descritivas mas também críticas da cena. É como se eu escrevesse um livro, onde eu leio e releio o quanto for necessário ou possível (há um fator econômico limitador envolvido no processo) a minha obra. Mas se a escrita é um ato individual (como conclui Boniface Ofogo) no filme Histórias, o cinema é uma experiência coletiva, o que o difere em muito da televisão, do computador, da leitura (se alguém lê em voz alta para uma plateia, o livro deixa de ser o veículo de interlocução, este papel cabe ao leitor, sendo o livro ali, sua matéria-prima). O cinema contém em si um processo ritualístico e também da oferta do mito. Uma plateia cinematográfica respira junto, criam-se laços de sintonia, onde, quando um ri, contagia os outros, é como num berçário, onde um bebê dispara o choro coletivo. A sala de cinema remete às fogueiras do passado, toda escura, as chamas bruxuleiam da tela, pra onde se voltam todas as atenções. Esse elemento é fundamental na compilação de um roteiro que vai pro cinema ou pra televisão. Nesta última, a atenção é disputada com a tensão do dedo sobre o controle remoto, o parente na cozinha, o vizinho na

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janela, o telefone que toca, a criança que brinca, o cachorro que late, etc. Portanto, o cinema retoma o ritual da fogueira, (Opa! Olha um ponto de conexão aí.) o ritual de sociabilidade. Quando vamos ao cinema, geralmente buscamos no jornal o filme que nos chame a atenção, telefonamos para alguém, amigo, namoro, paquera, etc. Combinamos o encontro. Antes de sairmos, tomamos banho, colocamos uma roupa melhorzinha, compramos o ingresso. Compramos a pipoca, conversamos até que comecem os trailers, e logo nos calamos para a vivência do filme. Após este, vamos a algum bar ou restaurante e completamos nossa experiência social. Hoje em dia, quando as ofertas de mídias são cada vez mais individuais, como TVs por celular, internet, etc. O cinema exerce seu papel de oferecer histórias através dessa experiência social. Por tudo isto, o cinema potencializa o chamado processo de “Desligamento Voluntário da Descrença” (vamos chamar de D.V.D.?), este é um acordo tácito entre o espectador e o produtor da obra, onde o espectador se dispõe a mergulhar na vivência do filme, esquecendo que aquilo é uma representação e realmente acredita no que vê. Portanto se fazem ridículos certos questionamentos como, por exemplo, alguém que contesta a inverossimilhança do super-homem não ser reconhecido quando coloca os óculos e se disfarça de Clark Kent. Ora, se nós acreditamos que o sujeito voa, as balas não penetram seu corpo, tem visão laser, ficarmos nos questionando com relação aos óculos?!! Assistir ao super-homem só é possível por conta do D.V.D. A partir disto o cinema nos proporciona algo fundamental, o mito e seus arquétipos. A possibilidade de entrarmos no mundo do fantástico. É de um valor inestimável. Nem todo contador tem à mão o recurso da fogueira, mas eu, através da sala de cinema, tenho. Voltando ao “Histórias”, fui buscar dentro das várias culturas que se apresentaram pra mim, os diferentes modelos de tempo, trabalhei numa macroestrutura de roteiro linear, partindo no início do filme das culturas pré-orais, até os dias atuais, nesta cultura pós-moderna-virtual-multimídia-digital, mas usando o tempo cíclico e elíptico ao longo dos vários momentos do filme. E mais, o tempo do narrador é totalmente diferente no cinema, portanto editei as histórias narradas,


Paulo Siqueira

cortando partes, dando dinâmicas a outras, no meu direito de diretor do filme. Fui em busca dos personagens com seus arquétipos. Estes últimos me eram narrados e eu não queria apresentá-los, mas manter o direito do meu espectador de imaginá-los. Então, bruxuleei as imagens dos contadores em suas narrativas (afinal sua presença é o cerne da narração) por entre imagens que não descreviam o que se contava, mas que criticavam o conto (no sentido de construírem junto, ou desconstruírem, afirmarem, potencializarem ou contestarem). Procurei trabalhar através dos recursos de edição, sonorização e pictóricos, a interação com a plateia, trabalhando suas emoções ou abstrações, de acordo com o objetivo de cada cena ou assunto abordado. Procurei que o filme contasse sua história dentro das histórias contadas e das teorias levantadas, assim como as experiências de vida relatadas. Assim procurei que o filme Histórias cumprisse os seus papéis: o papel de sociabilidade, levando gente ao cinema, o papel de trazer o mito e os arquétipos através dos personagens narrados, o papel de discutir o tema do contar histórias, seja através da narração, da literatura, de educar ao esclarecer sobre o assunto, o papel de divulgar o assunto, de seduzir para “a causa”, de divertir e entreter. Cheguei à seguinte bela e triste conclusão: a tradição oral tem sua maior força onde é sua maior fraqueza, pois quando uma pessoa morre, leva consigo seu universo de imaginação e uma biblioteca se queima aqui na Terra. Aí, não há livro que registre, vídeo, filme... Talvez, a partir da captação audiovisual eu consiga reter um pouco mais de seu jeito ou interpretação do que através da escrita, mas seu universo interior, ainda não há técnica capaz de preservar.

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u Documentário “Histórias”. Paulo Siqueira. Ópera Prima. u A poética. Aristóteles. Nova Cultural. u Hitchcock / Truffaut: entrevistas. François Truffaut. Companhia das Letras. u Esculpindo o tempo. Andreai Tarkovsky. Martins Fontes. u A jornada do escritor. Christopher Vogler. Ampersand.


Blog, uma janela para o mundo

o


[Marcio Allemand]

oE

u conto histórias desde muito moleque, se bem que custei a me dar conta disto.

ELembro que costumava deixar minha prima Mônica intrigada e de boca aberta

com tantas invencionices que saíam da minha mente pra lá de fértil. Afinal eu era o primo mais novo, mas nestas horas a diferença de idade pouco importava. Na verdade eu era só uma criança que não parava de pensar um segundo sequer, observava tudo e a todos, criava as situações mais absurdas e tinha sempre uma ideia nova na cabeça. Minhas tias diziam que eu gostava de inventar moda. Concordo. Por outro lado, tenho um amigo que diz que eu tenho a mente voltada para o mal. Discordo totalmente. Com os amigos da rua em que eu morava, no Méier, subúrbio do Rio de Janeiro, não era diferente. Eu era o que se pode chamar de arteiro. Não que eu fosse um moleque levado, agitado, daqueles que não parava quieto. Muito pelo contrário. Mas eu gostava de inventar arte e volta e meia deixava a vizinhança de cabelo em pé. Até hoje nunca descobriram quem realmente jogava ovos na casa da vila ao lado do meu prédio. Se desconfiarem de mim, continuarei negando. Já o caso do açougue, este todos souberam. Houve também uma época em que as meninas da minha rua começaram a receber cartas anônimas. Eram cartas onde eu me declarava apaixonado, cheias de versinhos simples e rimas baratas. Eu me divertia mesmo era vendo a cara das mães das meninas que, ao receberem as tais cartas, desciam para tentar adivinhar quem seria o autor desta ou daquela. Muito provavelmente eu fui o responsável pela maioria delas. Ou de todas, sei lá. Mas eu era precavido. Em meio aos versos e rimas, escrevia um “apaichonado“, assim com ch mesmo, e todas as vítimas acaba-

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vam desconfiando de um outro vizinho, que não me cabe aqui revelar o nome, mas carregava a má fama de ter uma certa dificuldade com a nossa ortografia. As meninas nunca quiseram namorar com ele, entre outras coisas, porque ele escrevia errado. Eu não. Eu escrevia correto. Mas elas também não queriam nada comigo. Anos mais tarde, quando eu cursava o segundo grau – atual ensino médio – cobrava para escrever cartas de amor para as namoradas de alguns amigos meus. Não cobrava caro não. Um lanche na cantina do colégio bastava. Na verdade eu nem gostava de escrever tais cartas, mas atendia aos apelos dos amigos mais chegados. O engraçado foi quando uma das namoradas de um destes amigos foi estudar no mesmo colégio que eu. Na mesma turma, aliás. O camarada ficou enciumado. Passou a sentar no fundo da sala. Não deixava a menina se relacionar com ninguém e parou de falar comigo. Quase um Cyrano de Bergerac. Ao mesmo tempo que escrevia cartas de amor para a minha namorada ou para as namoradas dos amigos, eu também gostava de escrever poesias e pequenas histórias. Até hoje guardo com carinho um caderno com meus primeiros escritos. Ganhei da Verinha, uma prima do meu pai, quando fiz 12 anos. Talvez ela nunca tenha se dado conta da importância que aquele presente teve na minha vida. De capa dura, cor de laranja, pautado, grosso. Bonito mesmo. Este caderno acompanhou toda a minha trajetória na tentativa de me tornar escritor e aprendiz de poeta. Ainda não existia internet e os computadores eram máquinas enormes, complicadíssimas e de difícil acesso. Hoje está tudo diferente. Tudo mais rápido. Vivemos conectados numa vida cada vez mais segmentada, única. E é realmente preciso surfar nesta onda para acompanharmos a evolução humana e tudo o que envolve este processo. Porque como disse o poeta, “o tempo não para” e, com ele, os meios de comunicação, a linguagem, a oralidade, as palavras, as rimas, as histórias. Talvez por isso eu ainda me surpreenda quando eu leio o que eu escrevia no meu antigo caderno. Durante muitos anos este caderno foi o meu melhor amigo. Ninguém sabia da sua existência. Ficava escondido. Só na faculdade resolvi revelar que ele existia e tudo o que estava ali escrito virou material de um trabalho que tive de entregar num dos


Marcio Allemand

primeiros períodos. Tirei dez e minha autoestima foi às alturas. Meus amigos também gostaram e para muitos deles foi uma surpresa saber que eu escrevia poesias. E escrevia no meu caderno. Computadores ainda eram raros. Lá se vão quase duas décadas e desde então eu perdi a conta das poesias e das histórias que escrevi em todos estes anos. Formado em jornalismo, já fiz de tudo na área da comunicação social. Hoje sou repórter de um grande jornal, mas já experimentei o audiovisual, fiz uma centena de vídeos institucionais, alguns curtas-metragens, sabe-se lá quantos roteiros e um documentário que me levou a Cuba. Foi com este documentário, por sinal, que pude conhecer mais de perto o universo dos contadores de histórias e pude me dar conta da importância da tradição oral para o desenvolvimento da humanidade. Entre as poucas certezas que eu tenho nesta vida, uma é que é primordial preservar nossas histórias. E contá-las a quem quer que seja. Porque uma boa história faz bem para todo mundo. Atualmente mantenho um blog chamado “Eu sei cozinhar” (www.euseicozinhar. blogspot.com), onde as minhas poesias, memórias e os fatos do cotidiano servem de ingredientes para incrementar a receita do que eu escrevo. Se a cozinha é lugar de experimentar novas receitas, o meu blog é meu lugar de experimentação. Eu tenho a sorte de ter alguns leitores fiéis, ou seguidores, como são conhecidos os leitores de blog, que fazem lá seus comentários, sejam críticas ou elogios. É uma ferramenta que me deu novo fôlego e estímulo para continuar a escrever. Se antes o meu caderno ficava escondido, fechado numa gaveta, meu blog é literalmente um livro aberto. Qualquer um pode ler, esteja onde estiver. E isso me fascina na comunicação virtual. É um terreno fértil e promissor, pois nada mais estimulante do que saber que seus textos, suas poesias, suas histórias, estão na rede e que qualquer pessoa de qualquer parte do mundo pode ter acesso a elas. E me fascina mais ainda poder interagir com estas pessoas, trocar ideias, fazer amigos do outro lado do mundo e então perceber que esta é a verdadeira globalização, a globalização das palavras e da perpetuação das histórias.  Nestas horas eu volto ao caderno laranja de capa dura que ficava escondido. Era o

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meu maior segredo e só eu sabia o que nele estava escrito. Eu era o meu único leitor e foi assim durante muitos anos. Até que a tal professora mandasse que seus alunos escrevessem um livro. O meu já estava pronto. Do fundo da gaveta surgia um caderno com as poesias de um menino. Este menino cresceu e nunca mais parou de escrever. Hoje, com mais de 40 anos, não para de ter ideias e continua pensando no que vai fazer quando o futuro chegar. E se o futuro só chegar quando eu tiver 80 anos, eu vou querer acompanhar as novidades de perto. Quiçá estar à frente delas. Seja plugado na internet ou no que mais inventarem até lá. Por ora sigo falando a mesma língua que meus filhos – e daqui a pouco meu neto – e transito muito bem nas tais redes sociais mais conhecidas atualmente. É engraçado e muito interessante ver como as novas gerações têm facilidade com a linguagem da web. Tenho a impressão de que daqui a pouco os bebês já sairão das maternidades com um tablet nas mãos. Se isto é bom ou ruim, eu não sei. O fato é que estamos on-line, ligados no mundo via fibra ótica, escrevendo, lendo, buscando informação e diversão. Tudo ao mesmo tempo agora. Num mundo que parece estar a cada dia mais veloz, onde o que acontece lá do outro lado do planeta em poucos minutos vira notícia do lado de cá. E eu adoro fazer parte de um mundo que vem derrubando suas barreiras na mesma velocidade em que a comunicação se fragmenta. É neste tipo de futuro que acredito. Enquanto este mundo corre, minha imaginação voa e eu escrevo tudo. Esta é a história que eu conto.

Leituras Inspiradoras u We’ve got blog: how weblogs are changing our culture. Rebecca Blood. Perseus Publishing. u Blog: understanding the information reformation that’s changing your world. Hugh Hewitt. Paperback.


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Paiquer锚 Piquiri Fiiet贸, um experimento com as linguagens

o


[Cléo Busatto]

oE

u me lembro do fogo. Eu me lembro das histórias ao redor da fogueira. Lembro-me

Edas histórias que falavam do fogo. Imagem que salta da memória – fogo crepitando. Eu me lembro da água, me lembro de histórias contadas à beira do rio. Vejo mulheres lavando roupa e cantando histórias. A memória traz a imagem de águas rolando, cachoeira, rio com pedras. Eu me lembro das histórias ao pé da cama, preparando o sono. Eram histórias de amor. Não lembro muito bem o nome. Ah! É tão bom dormir depois de ouvir histórias. Imagem mítica – noite bem escura com lua estreita pendurada no céu. Estrelas despencando sobre a terra. Eu me lembro das histórias no computador. Tem dessas também. Clica, arrasta, minimiza, maximiza, e de repente surge outra forma de se contar histórias. Imagem no tempo presente – multimídia colorindo a tela anuncia a chegada de uma contadora virtual. Assim começava o espetáculo Paiquerê Piquiri Fiietó que apresentei no teatro do Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, durante o outono de 2009. Quase 7 mil pessoas, 80% de crianças passaram por lá. Resultado da investigação sobre as possibilidades da narração oral de histórias no século XXI. Antes disso, já vinha pesquisando como as histórias podem se apresentar no meio digital. Esse trabalho originou quatro CD-ROMs: Contos e encantos dos 4 cantos do mundo; Lendas brasileiras; Nos campos do Paiquerê (a referência para o espetáculo) e Formosos monstros, um game, um livro virtual que revisita os monstrengos da literatura universal. São tantos os cenários, tantos suportes para um texto literário se materializar.

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Do primeiro movimento, ao redor da fogueira, onde soou pela primeira vez a voz de um contador de histórias, até a imersão no ciberespaço, onde pode soar a voz de um contador do tempo de agora, se passaram séculos. Porém, o que sustenta essas ações é a história que, enquanto sujeito, engendra o encantamento necessário para nos emocionar. E na essência, a palavra que desperta a memória, reaviva lembranças e afetos, propõe, instiga, efetiva vivências. O século XXI é assim. Sugere a hibridez das linguagens. Em Paiquerê Piquiri Fiietó foi assim. O presencial se fundia ao digital e nos mostrava como duas linguagens distantes no tempo podiam gerar uma terceira, que trazia consigo a marca da contemporaneidade. Atuei na interface entre a arte e as novas tecnologias. Ao mesmo tempo em que me utilizei de sofisticados recursos digitais, me apropriei da velha arte de contar histórias, técnica ancestral que chega ao século XXI agregada a valores estéticos, significados e significantes distintos. É dessa forma que em cena ocorreu um diálogo, em tempo real, entre o narrador presencial e o narrador virtual. Ora, se durante a contação presencial, o espectador se vê envolvido pelos sentimentos suscitados pelo sujeito-contador, na contação digital há um distanciamento que permite ao sujeito-ouvinte comentar a ação e senti-la sob outro ângulo, não menos envolvente, apenas distinto. Pensar a narração oral de histórias no século XXI é pensar nos meios disponíveis para que se dê a fruição desse conto. Supõe a reflexão sobre novas mídias e sobre o conceito de arte interativa. É de se considerar que a criança da atualidade encontra-se envolvida num imaginário construído por produções que utilizam tecnologia de ponta e que chegam até ela através da internet, softwares, blogs, games, redes de bate-papo. São os novos códigos geradores de poéticas. Novas leituras e outros tantos sentidos. A hibridez do meio e dos processos expondo diferentes significações. E no Paiquerê Piquiri Fiietó o espetáculo foi se fazendo, devagarinho, apresentando um personagem aqui, uma ação cênica acolá, revelando como a linguagem teatral pode dialogar com a digital. A atriz cedia lugar à contadora de histórias que, de posse da palavra, apenas sugeria e apresentava os personagens e as ações. Não mais


Leituras Inspiradoras u O livro depois do livro. Giselle Beiguelman. Peirópolis, 2003. u A arte de contar histórias no século XXI – tradição e ciberespaço. Cléo Busatto. Vozes, 2008. u Contar e encantar – pequenos segredos da narrativa. Cléo Busatto. Vozes, 2007. u Cibercultura. André Lemos. Sulina, 2002. u Máquina e imaginário. Arlindo Machado. Edusp, 2001. u Hamlet no holodeck: o futuro da narrativa no ciberespaço. Janet H. Murray. Itaú Cultural: Unesp, 2003. u Cultura das mídias. Lúcia Santaella. Experimento, 1996.

Cléo Busatto

representava um outro. Enquanto isso, nos espaços de projeções (três bolas de diferentes tamanhos e dispostas numa diagonal direção frente-fundo do palco) surgiam imagens, como se fossem faíscas da memória ficcional dos personagens que falavam no palco: a narradora, o xamã, a criança, a velha, a gralha branca. As imagens interagiam com a narradora, as mãos que ocupavam o primeiro plano na tela era um corpo expressivo em cena. Num exercício lúdico, eu, autora, atriz-narradora, me permitia viver essas criaturas e oferecia meu corpo e minha voz para que os personagens se materializassem, consciente de que, estivesse a contadora no palco ou na tela do computador, era ela, a palavra falada, a palavra querida, a palavra revelada que criava a história, fundava a magia e fazia um outro mundo acontecer.

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Duas hist贸rias contadas nos m煤ltiplos caminhos dos Role-Playing Games (RPG)

o


[Carlos Eduardo Klimick Pereira & Eliane Bettocchi Godinho]

o A

ristóteles ensina em sua POÉTICA que uma história tem início, meio e fim. Todas as par-

Ates igualmente importantes para a representação da ação. Devemos lembrar, porém,

que todo ponto de chegada é novo ponto de partida. E nos caminhos da vida, histórias se entrelaçam, como neste texto, escrito a quatro mãos. Quem começa é o Carlos.

Em minha jornada, a estrada acadêmica que percorri foi talvez pouco usual, com uma graduação em Administração, um mestrado em Design e um doutorado em Letras (Literatura). Há, porém, um elemento em comum, são todas áreas que se propõe a serem interdisciplinares, da prática administrativa à práxis estética educativa do Design Didático ao saber com sabor da Literatura. É, pois, um sujeito mestiço que vos fala pela escrita. Biologicamente, descendendo pela mãe de russos e pelo pai de negros e índios. Culturalmente, carioca de nascimento e criação, filho de pai paulista do interior e de mãe americana, mas sem inglês do berço devido à influência da avó paterna, a língua materna da mãe foi aprendida fora do lar para ao lar retornar. A mestiçagem é então assumida como posição, mais que condição, nesta vivência escrita. Ao viver acadêmico, soma-se um viver prático desde 1992 escrevendo, publicando e divulgando os Role-Playing Games (RPG) como livros de narrativa para o entretenimento, tendo como primeira obra o RPG Desafio dos bandeirantes, primeiro RPG a abordar a história, cultura e folclore do Brasil. Em 1998, comecei a jornada de aplicação do RPG à educação em escolas de Ensino Fundamental, principalmente para História e Geografia. O retorno à academia se deu em 2002 e 2003 com o mestrado

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em Design, utilizando histórias interativas para auxiliar crianças surdas a adquirir português oral e escrito, além de desenvolverem criatividade. O doutorado em Literatura trouxe o aprofundamento da pesquisa, na busca de se verificar se as histórias interativas podem contribuir para a formação de habilidades de leitura e escritura críticas em adolescentes do Ensino Médio. Eu conheci as histórias dos Role-Playing Games com amigos, vivenciando aventuras em tardes divertidas. Como observou o autor de RPGs estadunidense Ed Greenwood, as sessões de RPGs são basicamente sobre criar memórias de momentos divertidos com seus amigos. Divertir-se criando histórias interativamente, cooperativamente, compartilhando fantasias. Basicamente, no RPG, os praticantes criam suas personagens que participam de histórias parcialmente contadas por um Narrador (também chamado de Mestre). No livro (ou qualquer que seja o suporte) de RPG se encontra parcialmente descrito um cenário, no qual se passarão as histórias. As personagens criadas pelos “jogadores” e pelo Narrador serão coerentes com o cenário: bandeirantes e índios num cenário de Brasil colonial; cavaleiros e alquimistas num cenário de Europa Medieval, etc. A história começa a ser contada pelo Narrador, mas os “jogadores” são livres para decidir o que suas personagens falam e fazem na história. Assim, os rumos da história são frequentemente alterados pelas ações das personagens, sendo na verdade uma história contada em conjunto pelas interações de seus praticantes, Narrador e “jogadores”. Um dos temas mais usuais em RPG, devido a seu público ser majoritariamente formado por adolescentes do sexo masculino e sua origem estadunidense, é o da fantasia medieval. Este é um jargão do meio do RPG. Refere-se a um cenário em que existem povos de diferentes “raças” (normalmente humanos, elfos, anões e hobbits/ halflings/pequeninos) em que heróis, como cavaleiros, magos, sacerdotes, bardos e ladinos, enfrentam monstros e outros seres malignos. A magia e os seres sobrenaturais são presentes. O ambiente costuma ser inspirado no imaginário da Idade Média europeia, com castelos, tavernas, vilarejos, nobres, dragões, etc. Foi o primeiro tipo de cenário dos RPGs e até hoje é um dos mais populares. Atualmente há uma


Carlos Eduardo Klimick Pereira & Eliane Bettocchi Godinho

grande diversidade de cenários (fantasia; terror; histórico; aventura etc.) e o RPG passou a ser aplicado para outros fins além do entretenimento. Surgiram outros termos como “Narrador”; “História”; “Crônica”; etc., em clara “contaminação” do gênero por reflexos da Teoria da Literatura. Depois de jogar, vivenciar, as histórias interativas, nós quisemos criar um cenário e, atrevimento juvenil, publicá-lo para compartilhá-lo com pessoas que nem conhecíamos. Buscando valorizar nossa brasilidade, criamos o RPG Desafio dos bandeirantes, apresentando a fantasiosa “Terra de Santa Cruz” inspirada no Brasil de meados do século XVII, onde os jogadores poderiam vivenciar personagens, como jesuítas, bandeirantes, pajés, quilombolas, feiticeiros e lidar com seres mágicos, como iaras, curupiras, sacis, lobisomens, boiúnas, boitatás, dentre outros. Nesse processo, conheci a ilustradora, artista plástica, designer gráfica, pesquisadora, que viria a se tornar minha esposa: Eliane Bettocchi. Iniciou-se uma parceria de 14 anos, cada vez mais profunda e apaixonada. A experiência com o RPG Desafio dos bandeirantes nos despertou para o potencial do RPG como interface didática, pois não foram poucas as pessoas que nos disseram que passaram a se interessar por História do Brasil depois de jogarem num cenário nela inspirado. Parti então para as experiências com alunos do Ensino Fundamental. Em 2002 tive a oportunidade de trabalhar com crianças surdas em meu mestrado, nele as histórias interativas foram usadas para auxiliar as crianças a adquirir linguagem escrita e oral em português e auxiliá-las a fixar a Libras (Língua Brasileira de Sinais). Uma história interativa foi roteirizada e criada em dois suportes: um website, para as atividades de fonoaudiologia, e um flanelógrafo para a Educação Infantil. O website pode ser visitado em http://www.historias.interativas.nom.br/zoo O flanelógrafo se constituiu em uma flanela presa ao quadro negro, as figuras eram feitas de papelão com velcro colado no verso. A atividade era dinamizada por um contador de histórias e as crianças manipulavam as figuras manualmente. Foi interessante observar que em alguns momentos a interatividade alcançada era maior no flanelógrafo porque as crianças tinham maior espaço para cocriarem a história

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com o contador de histórias, em vez de se limitarem a escolher entre as opções de desenrolar de história apresentadas no website. Em 2004, a oportunidade no doutorado foi atacar o problema do baixo desempenho na leitura e escrita de adolescentes alunos da rede pública. Educadores e escritores veem a necessidade de “explicadores do escrito” em postos de atendimento público e o fracasso de estudantes nas universidades tanto na leitura quanto na elaboração de textos como tendo uma origem em comum: um contato infeliz, mal realizado, com a leitura que a transformou de portal para um universo de descobertas em abismo de pesadelos. Isso numa realidade que efetivamente ampliou as possibilidades de leitura! (Yunes, 2002). O desafio é buscar um caminho para resgatar leitores desse trauma, desse encontro mal-sucedido. Cabe observar que enquanto professores reclamam que seus alunos leem e escrevem cada vez menos e pior, no altamente interativo meio da internet cresce o volume de e-mails e o número de blogs, diários virtuais que dão a cada um que o desejar uma voz na grande rede de informática. Portanto, parece plausível que trazer um nível mais evidente de interatividade na relação do leitor com a obra e os colegas e dar-lhe voz seria um caminho para despertar o gosto pela leitura e escrita. Esta foi a proposta da pesquisa de campo feita com alunos do Ensino Médio de um colégio da rede pública no Rio de Janeiro. O cenário escolhido foi a obra Capitães da Areia, de Jorge Amado, tendo como suportes um website e um livro impresso interativo, em que se podiam acrescentar páginas criadas pelos alunos e os elementos que eles quisessem adicionar. As personagens dos alunos e alunas eram membros do bando dos capitães da areia que interagiam com as personagens de Amado, que eram interpretadas pelos narradores. A produção dos alunos teve duas etapas, uma livre e outra obrigatória. Os resultados obtidos foram encorajadores com alunos produzindo criativamente e demonstrando terem apreendido as questões de Jorge Amado na obra, bem como seu entorno. Um


Passo a bola agora para a Eliane.

Carlos Eduardo Klimick Pereira & Eliane Bettocchi Godinho

elemento importante foi que os jogadores eram alunos do primeiro ano do Ensino Médio e os narradores foram alunos voluntários do terceiro ano do Ensino Médio. Maiores detalhes sobre a pesquisa podem ser encontrados em http://www.historias. interativas.nom.br/incorporais/cpareia/index.html A pesquisadora Janet Murray aponta que as narrativas tem um papel fundamental na formação das comunidades e em nós como indivíduos, criamos nossas identidades muito em função das histórias que compartilhamos. Não é à toa que os jesuítas usavam o teatro como forma de educar e moralizar as pessoas já há séculos em nosso país. Os RPGs por agirem de forma interativa, abrindo espaço para a criação cooperativa, estimulando o trabalho de equipe e compartilhando fantasias, têm forte capacidade socializante, motivando e facilitando uma produção criativa. Em qualquer uma de suas formas, RPG de mesa com as pessoas sentadas ao redor da mesa e descrevendo as ações de suas personagens, live-action RPG com os jogadores dramatizando as ações de suas personagens em um teatro de improviso, ou através das ferramentas virtuais dos Massive Multiplayer Online RPG (MMORPG), esses valores de cooperação, socialização e criatividade devem ser mantidos para que o RPG possa alcançar todo seu potencial na criação de histórias ludicamente ou lúdico-pedagogicamente. As novas tecnologias trazem efetivamente grandes avanços quando vêm acompanhadas de novas formas de pensar, do contrário apenas “passam a limpo”, como usar o computador para decorar tabuada, em vez de inovar. Um filme de grande sucesso entre os fãs de RPG é Conan, o bárbaro, em que o vilão Tulsa Doom diz para Conan: “o que é uma espada comparada com o braço que a empunha?”. Parodiando, podemos dizer que se uma arma só é tão forte quanto o braço que a empunha, uma interface educacional/narrativa só é tão benéfica quanto a mente que a manipula. Interatividade implica ouvir e respeitar o outro. As histórias interativas então não podem ser vistas apenas como meios de transmitir conteúdos para os alunos e alunas, e sim como meios para que eles criem a partir do que vivenciaram.

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O RPG apareceu na minha vida durante a graduação na UFRJ, quando um colega percebeu meus desenhos nas folhas dos cadernos. Entre mitocôndrias, ciclos bioquímicos e cortes histológicos, surgiam guerreiras de espada em punho, dragões e castelos. Conforme minhas personagens ganhavam pontos de experiência, eu fui migrando, suavemente, mas não sem algum sofrimento, da Biologia para o Design: da anatomia vegetal para a ilustração botânica e desta para a ilustração fantástica, que deu frutos na editora GSA, responsável pelo lançamento do primeiro RPG feito no Brasil (Tagmar), e do primeiro RPG com temática brasileira, o já mencionado Desafio dos bandeirantes. Depois da pós-graduação lato sensu em Teoria da Arte pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, levei minhas questões de arte e design para o mestrado em Design da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e mergulhei de cabeça nestas questões no doutorado em Design na PUC-Rio, concluído em 2008. Assim, a arte me levou de volta para o método científico, agora na área humana. E, por conta destas navegações, a motivação para minhas pesquisas visuais emerge justamente destas fronteiras pouco nítidas entre arte e design, entre comercial e poético, entre lúdico e crítico, e procura sempre focalizar um olhar desejante sobre a indústria cultural, com seus estereótipos cristalizados e suas possibilidades de deslizamento. E, dentro da indústria cultural, o meu laboratório científico e artístico é o mundo dos games, mais precisamente, o do Role-Playing Game, ou RPG. Mesmo sendo um conteúdo interativo e hipermidiático, o RPG continua sendo massivamente veiculado em suporte impresso, sob a forma de livros e revistas, sem abrir espaço para uma intervenção mais direta dos usuários cada vez mais acostumados à flexibilidade dos suportes eletrônicos. Um problema que parece extrapolar o universo restrito do RPG para um universo muito mais abrangente: o do próprio livro como objeto, preocupação de Roger Chartier e do Núcleo de Estudos do Design na Leitura (NEL – Cátedra UNESCO de Leitura PUC-Rio), onde o projeto encontra-se atualmente inserido. Os suportes impressos de RPG continuam seguindo o aspecto mais tradicional do design de um livro na forma de códice: a linearidade. Roland Barthes fala de uma “responsabilidade da forma” no processo de signifi-


Carlos Eduardo Klimick Pereira & Eliane Bettocchi Godinho

cação: certas preferências históricas sobre a maneira como se profere uma mensagem, não sobre a mensagem em si. Se de início estas preferências são importantes para constituir e caracterizar um repertório, chega uma hora em que elas se esvaziam, sobretudo quando se perdem suas referências. O que era antes parte de um contexto histórico torna-se “inquestionavelmente natural”, não aquele natural “orgânico e fluido”, mas aquele que, também remetendo à natureza, cristaliza e endurece. Assim, a forma que vira fôrma fecha os links do código, limitando suas possibilidades e imprevisibilidades. Mas é pela própria forma que se pode reabrir as janelas, “trapaceando a linguagem”. Deste modo, a abertura pode permitir novos significados, que segundo Roland Barthes, consiste na escritura, ou em um fazer poético no sentido aristotélico de recriação, como propõem Paul Ricoeur e Julio Plaza e o próprio Barthes na sua atividade estruturalista. Na pesquisa de doutorado, desenvolvi um método denominado Design Poético para concepção de um suporte que desse conta do RPG como uma obra aberta, em que se permitam associações sígnicas de caráter crítico e questionador, como propõe Barthes, tanto na sua construção quanto na sua fruição (Bettocchi, 2006). O filho mais novo da parceria com Carlos Klimick nasceu em 2008 (a mais velha nasceu em 2005 e se chama Alice), com auxílio da Faperj, como atividade de formação continuada para professores do Colégio Estadual Vicente Januzzi, no Rio de Janeiro. Chama-se TNI, ou Técnicas para Narrativas Interativas, que compõem um método de utilização de histórias interativas do tipo Role-Playing Game (RPG) para construção coletiva de histórias, expressão criativa e construção de conhecimento dentro de uma pedagogia construtivista, cujas principais ações são a geração de suportes impressos, projetados via Design Poético, para veiculação dos cenários, adaptados para a situação de jogo para estimular e incorporar a produção dos jogadores; e a capacitação dos jogadores, por meio de oficinas presenciais, na utilização destes suportes impressos e da TNI para expansão do cenário jogado ou para aplicação da TNI a seus projetos particulares, qualificando novos participantes, num efeito multiplicador. Assim como meu primeiro trabalho publicado foi no RPG Tagmar, também no

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cenário deste RPG nasceu uma personagem guerreira, até hoje em jogo, durante um evento em Juiz de Fora, Minas Gerais. E para as Gerais então retorno, agora, como professora do Instituto de Artes e Design da UFJF, espaço de acolhimento para muitas aventuras hipertextuais e poéticas ainda por vir.

Leituras Inspiradoras u Design poético: intersemiose e abertura no projeto gráfico de um RPG. Eliane Bettocchi. In: Design, arte e tecnologia: espaço de trocas. Universidade Anhembi Morumbi, PUC-Rio & Rosari, 2006. (CD-Rom/PC Windows). u A imagem como link: autonomia, crítica e criatividade na aquisição de linguagem. Eliane Bettocchi & Carlos Klimick. Espaço (INES), v. 18/19, p. 76-82, 2003. u Escrita e leitura através de narrativas e livros interativos. Eliane Bettocchi & Carlos Klimick. In: Os lugares do Design na leitura. Luiz Antônio Coelho et all. Novas Idéias, 2008. u RPG & Educação: jogando e aprendendo; diálogos possíveis; um intertexto; a construção do conhecimento através do lúdico. Jane Maria Braga Silva. Universidade Federal de Juiz de Fora. u A leitura na escola: problemas e soluções. Jane Maria Braga Silva. In: Anais do I Simpósio RPG & Educação. Devir, 2004. [2002] pg. 256-266. u RPG: o resgate da história e do narrador. Kazuko Kojima Higuchi. In: Novas linguagens na escola. Adilson Citelli. Cortez, 2001. u Brincando de matar monstros: por que as crianças precisam de fantasia, videogames e violência de faz-de-conta. Gerard Jones. Conrad, 2004. u RPG & Educação. Carlos Klimick. http://www.historias.interativas.nom.br/educ u Construção de personagem & aquisição de linguagem: o desafio do RPG no INES. Carlos Klimick. Dissertação de mestrado, Depto. de Artes e Design - PUC-Rio. 2003. u RPG & educação: metodologia para o uso paradidático dos role playing games. Carlos Klimick. In: Design Método. Luiz Antônio Coelho (organizador). PUC-Rio, Novas Idéias, 2006. pp. 143-161.


Carlos Eduardo Klimick Pereira & Eliane Bettocchi Godinho

u TNI (Técnicas para Narrativas Interativas). Carlos Klimick. Boletim Técnico do SENAC, v. 33, p. 72-85, 2008. u Uma ponte pela escrita – Histórias interativas como apoio à inclusão social e estímulo a escrita. Carlos Klimick. Tese de doutorado. Depto. de Letras, PUC-Rio. 2008. u Mini Gurps: O resgate de “retirantes”: uma aventura de RPG pela vida de Cândido Portinari. Carlos Eduardo Lourenço. Devir, 2003.

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Como as hist贸rias foram entrando na minha vida...

o


[Ana Luísa Lacombe]

oN

a verdade, elas estavam lá o tempo todo, era só prestar atenção.

NNas férias, meu irmão e eu íamos para o sítio dos meus avós maternos. De manhã

vivíamos histórias de aventura que inventávamos nas nossas brincadeiras: encarapitados no alto das árvores, fazendo acampamentos, pintando nosso corpo com urucum. Na hora do lanche, sentados em torno da enorme mesa de madeira rústica da cozinha, ouvíamos as histórias de quando minha mãe e meus tios eram crianças e passavam as férias naquele sítio. Minha mãe narrava as brincadeiras que faziam, as brigas, as tristezas e as histórias que sua avó contava para ela. Eram contos dos Irmãos Grimm, vindos pela oralidade brasileira. À noite, minha mãe lia para nós Monteiro Lobato, Condessa de Ségur, Coleção Menina e Moça, A Ilha do Tesouro... Essa tinha sido a leitura de sua infância, e foi também a minha iniciação aos livros. Minha avó Lucia, mãe da minha mãe, me ensinou a bordar, a fazer tricô, tapeçaria e um pouquinho de costura. Bem pequena, já me interessei pelo assunto e ela pacientemente me ensinou. Nessas horas conversávamos bastante e ela me contava um pouco das histórias da família, um pouco de como eram os vestidos, sobre a moda... Meu avô materno era brigadeiro da aeronáutica e adorava política. Comprava TODOS os jornais, que lia de cabo a rabo. Com ele as histórias eram dos acontecimentos do momento em discussões inflamadas onde defendia suas ideias. Em casa, minha mãe sempre nos contava histórias na hora de dormir. A nossa preferida “O anjinho que tinha medo do escuro”, criada por ela, hoje faz parte do meu repertório.

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Meu pai tocava piano e tínhamos uma conexão pela música. Não me esqueço de estar sentada em seu colo e ele me contando a história da suíte dos Pescadores de Dorival Caymmi. Ouvíamos o disco e ele explicava. Lembro-me da tristeza poética daquele momento quando descobri que o homem morria no mar. Tristeza boa de sentir. O pai de meu pai era o rei das histórias, só que com H maiúsculo. Era um grande historiador e contava para nós a história do nosso país. Mas não era de um jeito chato ou didático, nada disso! Aos domingos os netos reuniam-se na casa desses avós. Era uma casa de três andares. No último ficava a biblioteca do Vovô Meco. Tinha mais de não sei quantos mil livros. Uma delícia aquele cheiro! Meu avô mandava encadernar todos os livros e colocar o seu Ex Libris. Às vezes as histórias vinham no meio da conversa, às vezes na dúvida de algum primo que estava estudando determinado assunto. O vovô contava os episódios de nossa História como se tivesse participado de todos os fatos. Era um ótimo contador de histórias! Minha avó Gilda, mãe do meu pai, me ensinou a fazer crochê. Era muito carinhosa e seu talento eram os doces. Que eu adorava comer, mas fazer... Este já não era meu forte. Ela me apresentou Agatha Christie e seu indefectível Monsieur Hercule Poirot, de quem eu fiquei fã. Vovó tinha a coleção completa. Minha adolescência foi recheada desse tipo de literatura, adorava Arsène Lupin, um personagem tipo ladrão de casacas. Este foi meu pai que me apresentou. Em casa, almoçávamos e jantávamos quase sempre juntos e nesses momentos conversávamos bastante. Não havia TV na sala e tínhamos tempo de trocar ideias. Tornei-me uma boa leitora. Com nove anos elegi como meu preferido Os colegas, da Lygia Bojunga Nunes, que li nove vezes seguidas... Chegava ao fim, virava para a primeira página e começava de novo. (Coincidência os nove anos e as nove vezes...) Depois me apaixonei pela A fada que tinha idéias, da Fernanda Lopes de Almeida! Eu queria ser a Clara Luz! Meus pais sempre nos levaram para ver peças de teatro. Vi todas as montagens do Tablado, do Grupo Navegando, do Ilo Krugli... Fui aluna do Ilo aos sete anos, numa escola que ele tinha no Rio de Janeiro, chamada NAC (Núcleo de Artes Criativas),


Ana Luísa Lacombe

depois, na minha adolescência, fui aluna da Maria Clara Machado, no Tablado. Já querendo fazer teatro como profissão. Meu mundo simbólico foi incessantemente alimentado e eu aproveitei cada gota disso. Hoje, quando dou aulas sobre “como contar histórias”, costumo conversar com os alunos e pergunto sobre suas experiências. Constato que é uma benção que de vez em quando falte energia elétrica, pois na maioria das vezes os depoimentos se referem às historias contadas nesses momentos. A família se reúne em volta de uma vela e pronto! Que maravilha! Conversam, contam fatos, histórias, memórias... Hoje são olhos grudados em telas. Muitas vezes constato também que as pessoas esquecem as referências do seu passado e quando começamos a conversar sobre as lembranças e as narrativas do passado... Rememoram e se emocionam. Às vezes têm um mundo simbólico enorme, cheio de experiências profundas, mas abandonam estas histórias, guardam-nas tão fechadas e tão escondidas que se esquecem que elas existem e de como são importantes para a construção do ser que somos. Com uma produção de livros infantis cada vez maior e mais rica nas livrarias, os pais às vezes se contentam em oferecer belas publicações a seus filhos. Muitas vezes a escolha é feita pela beleza e não pelo conteúdo. Perde-se a chance de compartilhar com o filho o momento mágico de uma história que pode ser significativa para ambos. Conversar, contar histórias faz com que a gente reflita sobre nós, sobre o mundo, sobre as relações humanas. Assim, nos tornamos seres críticos e comprometidos com a nossa vida e com a vida dos outros. É com grata satisfação que vejo o crescimento dos contadores de histórias pelas cidades e o interesse das pessoas em assistir a estas apresentações. É como se esse universo das histórias e da memória tivesse rompido as paredes das casas e invadido os espaços da cidade. Surgiram contadores de histórias urbanos, que fazem cursos, misturam linguagens, usam objetos, músicas, figurinos... A narração vira performance e entra em espaços culturais. Os pais levam seus filhos e experimentam juntos o papel de ouvintes.

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Os contadores de histórias, que percebem o poder da palavra e a utilizam com maestria, encantam crianças e adultos e mobilizam memórias e símbolos. Semeiam o desejo de compartilhar narrativas... Os pais que percebem o poder de sua emoção e envolvimento ao narrar para seus filhos histórias e episódios de suas vidas mobilizam o afeto e significados profundos no seu coração e no de seus filhos... A sociedade que percebe que sua História, suas memórias, seus símbolos, seus mitos é que tornam a vida e as relações significativas mobilizam seus cidadãos a uma vida mais generosa e harmônica.

Leituras Inspiradoras u Fiando palha tecendo ouro. Joan Gould. Rocco. u Lin e o outro lado do bambuzal. Lucia Hiratsuka. SM. u A fada que tinha idéias. Fernanda Lopes de Almeida. Ática. u Os colegas. Lygia Bojunga. Casa Lygia Bojunga.


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Da boca da noite para a acolhida na escola

o


[Almir Mota]

o Q

uando eu era criança, na casa da minha avó, tínhamos o hábito de sentar na

Qcalçada na “boca da noite”, para ouvir histórias. Era assim todos os dias, ali se

reuniam meus tios, tias, meus pais e minha avó paterna. E se preparavam depois do jantar, sentados em cadeiras de couro de bode, para ouvir uma boa prosa. O terreiro era de barro batido branco e, em noite de lua, tudo ficava claro ao redor da casa. Ali surgia um novo mundo na minha cabeça. Distante daquela realidade difícil do sertão, da falta de inverno e muita carestia. A roda de histórias na casa da minha avó, a Dona Canela, era o momento de lazer de toda a família. Chegado o meu tempo de escola, não me lembro de ter ouvido histórias na sala de aula, acho que histórias a gente já tinha em casa, então a professora se preocupava com outros conteúdos pedagógicos, além de ensinar a ler, escrever e fazer somas. Reconheço que se tratava de uma escola pequenina, mas o rosto gordo da mestra eu ainda lembro. Observo que nos últimos vinte anos as histórias foram saindo dos lares e aos poucos foram invadindo as escolas, ganhando a voz do professor. Hoje reconheço vozes que tecem o imaginário, o lúdico e o literário na sala de aula. São as novas metas educacionais. As promoções do livro, da leitura e da literatura fazem parte de novos parâmetros, e na escola surge o professor encantador, aquele que prepara histórias deliciosas para os seus alunos como se fossem biscoitos. O forno desta nova educação é a memória do professor, a imaginação onde cada vez mais crianças e adolescentes são convidados a sonharem os mundos que moram nos livros.

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Nós, educadores e pais, sabemos que tem histórias de todo tipo e para qualquer momento, com personagens e enredos diferentes. Tem aquelas para dormir, e se cenário é um pai contando um conto para uma menina de oito anos na cabeceira de sua cama, pode ser um conto de fadas; se um outro pai está com o filho na esteira na aldeia pode ser uma lenda, mas se o cenário for de uma mãe sertaneja balançando o filho na rede deve ser um causo de boi assombrado, deve ser assim ainda em alguns destes lares. E qual é a voz da escola? Os contos de fadas me parecem ainda favoritos, pois muitos professores foram alimentados com eles, e na verdade são contos maravilhosos. Mas chega aquela hora que o professor encantador de crianças, de tanto trabalhar com as mesmas histórias e livros, cansa um pouco das princesas e príncipes, olhando com bons olhos para novas histórias de autores bem vivinhos e até próximos da escola e da realidade brasileira. Atualmente a contação de histórias na sala de aula é igualmente literária como no passado, mas hoje utilizamos textos autorais. Antes no lar contavam-se histórias populares, “causos” de domínio público onde ninguém lembrava quem era o autor. Hoje os contos na escola, nos quais se propõe trabalhar a leitura, têm autores que são bem conhecidos e isto é muito bom. Aquelas vozes da professora impregnadas de literatura começam a aprender muitos outros contos, às vezes um livro por semana, criamos assim a mulher-livro, ou homem-livro, como queiram. Há entre os professores um esforço em preparar boas histórias e colocar o universo do livro e da literatura, obras da literatura infantojuvenil de boa qualidade na escola. É claro que estamos falando da prática da professora narradora, aquela que dá voz às histórias e toda a escola a reconhece. Mas temos práticas ditas de contação de histórias como a manipulação de bonecos em tendas, ou detrás da mesa, às vezes uma televisão artesanal para passar uma história, isto é arte sim, mas não acredito que seja realmente o que se propõem. É preciso dizer que o contador de histórias pode até usar alguns elementos para contar um conto, música, outras interferências, ou nada, mas é bom lembrar que o mais


Almir Mota

importante é o que está dentro dele, guardado na sua memória, as histórias. Veja o caso onde apresento uma professora e ela tem uma colega vizinha da sua sala que não conta histórias para sua turma de educação infantil, é uma professora dedicada, brinca, canta e assobia, mas não conta histórias para suas crianças de quatro e cinco anos. Quando chega a metade da tarde os seus alunos olham para a sala em frente que às vezes dá até para ver a professora que eles chamam de Kaka, e ficam apontando e balbuciando − história. É para a sala ao lado que sua professora e outras levam suas crianças para ouvir uma professora enfeitiçadora. Outra professora relatou-me que de tanto contar histórias na sala e devido a seu desempenho é convidada para abrir eventos para toda a escola. O gosto pelas histórias dos seus trinta alunos de quatro e cinco anos é o bastante para os mesmos ficarem tentando encontrar, no cesto de livros do canto da sala, novas ou velhas histórias para que ela as conte. E se ela ocultar a palavra, desandam a contarem tudo de novo. Nota-se que em salas de aula onde as crianças estão sempre ouvindo histórias, elas são também, frequentemente as mais expressivas, falantes. Claro que existem as salas de aula onde não tem sessões de contos, mas sim de leituras, isto não é ruim. Leitura e contação de histórias contribuem juntas para o mesmo objetivo de educar e entreter, criando mundos para pequenos seres que no geral só conhecem a sala de aula e a sua casa. Cada Floresta, fadas ou piratas, na voz da professora são pedaços de mundos e muita aventura. É verdade, às vezes fazemos atividades que não sabemos ao certo como realizamos, mas, no fundo, sabemos que dá certo, pois identificamos resultados felizes nas crianças, que “acham” os contos bem contados em livros coloridos, cheio de imagens, do qual se apossam e não largam por nada, até ser contado novamente ou surgir uma nova história contada pela professora. No projeto que coordeno no Ceará, uma professora disse o seguinte sobre uma criança que estava contando histórias para outras crianças, se apresentando na sua escola e outras do seu bairro e vizinhança: “Ele é outro menino, realiza as tarefas com mais entusiasmo e participa de tudo na sala.” A professora estava falando de um

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menino tímido, com problemas de fala, era assim, pois agora não erra mais as palavras e nem troca mais. Qual a mágica disto? Por que a voz da professora encanta tanto as crianças? Seria alguma semelhança com a voz da mãe. A voz que escutamos antes de dormir? Realmente eu não sei. Como pai, sempre contei histórias para o meu filho e ele era muito pequeno quando conheceu certos contos. Atualmente engajado no mesmo projeto cultural citado acima, Casa do Conto, ele busca livros que já tinha ouvido, talvez sem lembrar daquelas histórias e ele conta para outras crianças, é como se uma história que ouvimos carregássemos para sempre, vamos dizer que seja assim. Então é melhor capricharmos em boas narrativas, pois nós seguiremos, e eles ficam. Há muitas vozes na escola e precisamos primar para a realização de nossa intenção, ou seja, vamos narrar contos e só isto. Os grandes enfeites musicais e produções vamos deixar para os outros contadores que não têm plateia como você, que tem seus alunos que lhe adoram e seguem seus passos. Os outros contadores de fora da escola têm que se matar de estudar, ensaiar e esperar o público para realizar sua tarefa, mas isto para você, professora contadora de histórias é moleza, faz parte do seu cotidiano escolar. A sua voz, professora, e aqui faço questão de escrever professora, para fazer justiça à grande maioria de mulheres que educam neste Brasil, sua voz faz a diferença para estes meninos e meninas que buscam nela nada mais que um aconchego, às vezes não encontrado no lar. Aqui a nossa intenção, acredito, não é oferecer métodos para quem já pega no batente todo dia como vocês, devo lembrar que é muito bom contar histórias quando: ‘ O livro que lemos, gostamos tanto que poderíamos contar na mesma hora; ‘ É um autor novo na sala de aula, e as crianças ainda não o conhecem; ‘ Crie dias diferentes na escola, onde seus alunos e os demais realizem uma maratona de histórias; ‘ Se você gosta, fantasie-se, receba as crianças com um figurino de bruxa ou fada; ‘ Ou não realize nenhuma das alternativas anteriores e narre ótimas histórias. O resto você sabe fazer. Como diz um conto dinamarquês: “Tudo que você faz é sempre bem feito”.


Leituras Inspiradoras

Almir Mota

u A pedagogia Waldorf – caminho para um ensino mais humano. Rudolf Lanz. Antroposófica, 1998. u Da manhã ao anoitecer – jardim de infância cantando e brincando. Leonor von Osterroht. Diagrama, 2008.

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Bibliotecas: vozes silenciadas?

o


[Nanci Gonçalves da Nóbrega]

oA

o conversar sobre bibliotecas, costumo iniciar falando sobre a etimologia do seu

Anome: o histórico da palavra ensina que ela é biblion e théke, ou seja, compartimento

de guarda. Sendo assim, muitos fazem desta herança – a da preservação – a única possível. E, então, muitas bibliotecas reforçam a imagem de lugar inóspito, de penumbra, de aprisionamento, onde é impossível estar sem medo, sem fastio, sem tristeza. Nessas, impera o paradigma do silêncio. Ou, para ser mais exata, do silenciamento. Quantas histórias já ouvi, principalmente sendo professora de Biblioteconomia e Documentação! Histórias contadas por estudantes que, até mesmo fazendo essa Graduação, confessam num murmúrio que não frequentam o tal espaço. Estão lá as histórias de impedimentos, de recusas, de inacessibilidade às informações produzidas e registradas, seja em que suporte informacional for. Desta forma, se há algumas décadas os padrões informacionais eram baseados em premissas de estocagem, guarda, provisão e distribuição, hoje, esses paradigmas não alcançariam o vital poder interpretativo para os fenômenos comunicacionais da sociedade contemporânea, cujo ambiente é o das redes e das novas tecnologias; ambiente onde a troca de saberes é fundamental para a polifonia das múltiplas vozes que querem, precisam e se fazem ouvir. Minha conversa, então, passa a girar na contramão do persistente imaginário social a respeito de bibliotecas. Em oposição a uma imagem de acervos como espaços que estocam informação, como lugares de memória petrificada, discuto uma ação para transformá-los em territórios de produção de sentidos. Em vez de espaço de morte,

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tento implementar sua potência de vida, de mudança, de movimento. Rebelo-me contra a acepção das bibliotecas como estruturas de consagração somente, onde é desnecessária a comunicação, a provocação, ou seja, onde há a manutenção do apagamento, do silenciamento. Procuro eliminar a representação monumentalista que as identificam como palácios da memória ou templos do Saber (assim, com inicial maiúscula e no singular, demonstrando uma árida elitização). Insisto em trazer à tona sua face de forum, de território de discussão semeadora. Potencializo em minhas conversas sobre bibliotecas a conscientização acerca das algemas que podem significar sua etimologia e buscando imaginar muito mais para nossos acervos – qualquer que seja sua tipologia (acervo bibliográfico, acervo museológico, acervo arquivístico) –, a comparação com uma cristaleira, onde tudo pode ser visto, escolhido, tocado, usado, pois cristaleira se diferencia de um baú, uma caixa fechada a sete chaves. Tal qual a cristaleira que atrai recordações – lembranças representadas, por exemplo, pela última xícara do jogo de porcelana da avó, ou a vela enfeitada com laço de fita de cetim com a qual se dançou a valsa dos 15 anos –, nossas bibliotecas precisam ser também lugares de convívio, que permitam a troca, a interlocução; onde a ambiência convide e, não, empurre o leitor para fora, para o nunca mais. Um lugar de muitas e variadas vozes. Neste sentido, quero aqui tramar a possibilidade de construção de um paradigma outro para nossas bibliotecas: constituir nelas um território onde, sem o abandono à necessária preservação dos tesouros da humanidade – acervos que foram elaborados como representações da potência humana –, trabalhe-se muito mais com uma ação. Nossas práxis com acervos deverão estar, então, sedimentadas numa ação cultural e pedagógica com um viés tríplice: o da recepção/apropriação/expressão criadora a fim de configurá-los como territórios de (re) significação para os sujeitos sociais, na medida em que, servindo-lhes tanto como possibilidade de apropriação e produção, quanto de organização, oportunize construção de singularidades, transformação de realidades. Sendo assim, este é um trabalho em torno do sentido. E, pois, aquilo que costumo chamar de uma pedagogia da transformação; uma pedagogia do imaginário. Em resumo, trata-se de, partindo de nossa reserva simbólica, construída com os


Nanci Gonçalves da Nóbrega

fragmentos de nossas interpretações singulares e coletivas, alimentar o imaginário dos leitores das bibliotecas no desenvolvimento da função simbólica por meio de textos, de imagens, de sons, das vozes que narram, conferindo uma dimensão universal aos seus sentimentos. Já que temos desenvolvido muito mais a função lógica do educar, é preciso reencantar a Educação, dando relevo à sua função simbólica, mágica. Para isto, o trabalho primordial com as narrativas da tradição, com as vozes que nos chegam do mais profundo de nós mesmos e das nossas coletividades. As narrativas da tradição são tesouros do repertório humano arquitetado ao longo do tempo e simbolizam a jornada da alma rumo às transformações pessoais. Reserva simbólica da humanidade, portanto, estão repletas de figuras significativas que representam estágios de evolução subjetiva e coletiva. Nelas, as imagens nos fazem apreender o universo de modo instantâneo e as figuras significativas das narrativas da tradição – os arquétipos – enquanto projeções da alma dos sujeitos, são resíduos psíquicos acumulados no inconsciente da humanidade, são imagens primordiais, conteúdo eternamente presente no inconsciente coletivo e, assim, projeções do espírito de uma época. Nos contos tradicionais, as vozes encantadas que dizem de Bruxas, Velhos e Velhas Sábios, Heróis etc., potencializam este reencantamento mencionado. Quem são? O que significam? Quais suas características principais, seus atributos? Nossas tentativas de respostas a essas indagações promovem o necessário olhar sobre o duelo entre estar inserido no imaginário cristalizadamente insalubre da contemporaneidade ou pôr em movimento constante o pensar sobre outros possíveis significados. Para tanto, minha práxis nas bibliotecas é a tessitura de suas múltiplas vozes na laçada fundamental possibilitada pelas narrativas e suas figuras de significação; é um reviver da reverberação que tiveram em nossas almas. Alguns se perguntam: será possível o resgate hoje? Haverá interesse, nesses tempos fragmentados e fragmentadores, pelos contos da tradição? E outros trabalham, sim, com o significado profundo dessas narrativas fundantes, incentivando o mergulho em sua atmosfera para melhor compreender suas próprias lembranças, ressimbolizando o passado, a fim de reescrevê-lo e à própria vida. Nesse sentido, enquanto Darnton nos

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ensina que essas narrativas da tradição são histórias que se prendem a um imaginário coletivo, a uma memória de todos, Benjamin impulsiona em nós a necessidade do resgate da própria arte de narrar. Traz à tona a potência das histórias que se prendem ao imaginário popular, à memória coletiva; narrativas que constituem/são constituídas (como) nossa reserva simbólica. As que são insumo e produção de nossos acervos pessoais e coletivos. Assim, neste novo olhar, mais ampliado, a temática do imaginário nos auxilia a compreender sobre a existência de uma base poética da mente, como nos ensina Hillman, assim como sobre a dimensão fantástica da vida cotidiana, recriada pelas palavras de Certeau, e é evidência do repertório simbólico de toda sociedade, desde a tradicional, até as sociedades complexas da atualidade, conforme Durand. Nada mais incentivador para o homem contemporâneo, “oco de sentidos” no dizer de Fernando Pessoa. Nesta era homogeneizante, a Arte acontece como ponto de mutação, como ato micropolítico de transformação. Assim, dispositivos ou artefatos artísticos, se assim me posso expressar, em oposição a dispositivos de armazenamento será o mote para uma ação relacionada aos acervos dentro de uma dinamização que é anima ação (ação de alma). Dioniso integrado a Apolo, se me faço entender. Pois afinal somos homo sapiens, homo faber e homo ludens, todos ao mesmo tempo. Nesse sentido, valorizar as imagens significativas, singularizá-las enquanto movimentos singulares e coletivos possuidores de valores para a alma, diz de uma dimensão psíquica e planetária e cósmica para este novo espírito pedagógico veiculado/ veiculador das imagens, do imaginário, pois nele compreendo a ética como fundamento capital. O primordial aqui é desenvolver uma metodologia da invenção, do reencantamento, pois precisamos estar grávidos para poder criar. Assim, penso ser o papel da Biblioteca emprenhar os leitores de poemas, de filmes, de sonhos, desejos, risos, dores, imagens significativas, de vozes que ressoam no mais profundo de cada um. Povoar o imaginário, mas não para a domesticação da imagem – as simplificações deformantes das imagens, das narrativas; a preocupação em “dosar” a Fantasia; a subnutrição do imaginário seria exatamente o contrário desta didática da invenção.


1.

Nos palimpsestos, a reescrita era feita por medida de economia: raspava-se no couro, no pergaminho as marcas deixadas do texto primeiro, para usar de novo o suporte onde estivera a escrita anterior. Aqui não me refiro ao objetivo econômico, mas ao fazer e refazer necessário, constante.

Nanci Gonçalves da Nóbrega

O que aqui se diz é da Arte como ato ético-político de transformação. Ética e Estética juntas no quefazer com os acervos. Desta maneira, em nossos acervos, cada vez mais espaço às narrativas como estratégias de autocriação. As narrativas que (se) compõem (a partir de) imagens singularizadas, num movimento constante de (re) construção. Formas estéticas e vitais de organização, são potência, elas próprias, para a provocação e o conhecimento. São como instrumentos, ou brechas, para nossos universos interno e externo. Pois com elas somos conduzidos ao terreno das subjetividades de nossos leitores, onde são realizadas as leituras próprias e singulares sobre os conteúdos todos do mundo, da vida. Nesse sentido, proporcionar concretamente ambiências de leitura para a criação de espaços de convivência; inserir a práxis com os acervos pessoais e coletivos utilizando álbuns de retratos, objetos biográficos, relatos, histórias de vida, compondo mapas afetivos; inserir a práxis com os acervos literários para a construção de conhecimento e a fruição; possibilitar espaço para a criação, as várias formas de manifestação criadora: o escrever, o desenhar, o cantar, o esculpir, o dançar, o inventar, o aprender; criar acervos possíveis com almofadas, plantas, obras de arte, brinquedos e brincadeiras, sonhos e desejos, contos, mitos, causos, águas, algodão doce, caixas de maquilagem, caixinhas de música, anjos de verdade, ou não, latinhas de pó de mico, fantasmas, bicho carpinteiro, livros e mais livros, etc. e coisa e tal. E as vozes das histórias que nos construiram e constroem esses que somos, enfatizando o trabalho com a oralidade e a escuta, experiências comunicativas fundamentais – o contar e ouvir histórias, o fazer com os falares, os cantares diversos, as conversas (as artes orais, como as denomina Havelock). É preciso, entretanto, primeiro compreender este plano de ação como um palimpsesto1, pois que não deve haver receitas ou fórmulas, e há que se ter cuidado em não cair na armadilha de um aporte funcionalista, se me faço entender. Ver a questão em seu caráter dinâmico, não normativo, já que precisa ser uma práxis sempre em andamento, construindo-se ela própria como narratividade, em que se possibilitam estratégias de apropriação, produção e comunicação dos sentidos, que são sempre moventes. Como as interpretações, como o mundo e a vida. Depois, pode-se elencar

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como possíveis itens de elaboração alguns pontos-chave, tais como aqueles que utilizo em minha vivência com as bibliotecas e seus leitores: a) um grande desejo de transformação; b) a leitura de múltiplas linguagens como propulsora e facilitadora dos encontros – e a linguagem da Arte, aí, como fundamental; c) o trabalho com a singularização das imagens; d) a inserção do que denomino de redes afetivas – mais do que com as comunidades interpretativas; redes cuja comunicação é, no meu entender, uma comum ação, uma comunhão; e) a constituição de um olhar indagador; f) o movimento da Informação, instrumental das bibliotecas, ser percebido como recurso simbólico, e a cultura ser compreendida como um reservatório, ou repertório de práticas e referentes internos/externos; g) teoria e prática devem imbricar-se num quefazer que envolva espaços teóricos de discussão e de prática com abordagem prazerosa da relação textosujeito-contexto; h) uma ressignificação dos conteúdos muitas vezes dilacerantes da realidade empreendida por grupos solidários entre si, por meio da ressignificação das práticas informacionais das comunidades a que pertencem. E, mais que tudo, compreender que um dos seus aspectos mais importantes é o da significação, e que, portanto, perguntar-se sobre seu valor também é da ordem das questões capitais. O mito da busca do sentido, para Maffesoli, porque estamos vivendo momento de profunda entropia, fragmentação, desintegração, é um mito que devemos buscar juntos. Assim o autor defende, em sua obra mais conhecida, uma tribalização do mundo. E é este o sentido contemporâneo de Estética para o autor: ela tem, agora, um sentido de comunhão. Esta consciência estética se opõe a uma consciência racionalista; ela gira em torno de uma compreensão da Totalidade, valendo-se da virtualidade que já existe em nós (Forma/Força). Como ainda não compreendemos, pois nossa percepção ainda está na linha da causalidade (causa/efeito), será necessária uma transfiguração – sair do que nossos olhos percebem (a figura) e ir para o ícone (imagem com sentido). O que implica numa metodologia de ruptura com os padrões até então vigentes. Uma ruptura no modo corriqueiro de ver a Biblioteca, para uma ampliação do olhar sobre ela; uma ruptura para um religare do homem consigo mesmo, com o contexto


Leituras Inspiradoras u Reencantar a educação. Hugo Assmann. Vozes, 2004. u Poética do devaneio. Gastón Bachelard. Martins Fontes, 2006. u A canoa de papel: tratado de Antropologia Teatral. Eugenio Barba. HUCITEC, 1986. u O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. Walter Benjamin. In: Obras

Nanci Gonçalves da Nóbrega

que o envolve e com o próprio Mistério. Fácil não é. Por isso gosto de lembrar o conceito fantástico de equilíbrio precário, de Eugenio Barba. Corpo/alma no mais extremo de si; o gesto intenso para o voo, se assim posso me expressar. Conscientemente atento à intensidade do gesto, o ator (estamos falando da antropologia teatral de Barba, mas também estamos falando do ator que somos todos nós no teatro da vida) busca superar(-se), transformar. O equilibrista no fio, na difícil e escolhida tarefa de dar o próximo passo. Ação sonhada e possível, mas que requer desejo, este elemento vital a uma política. E por isso há sempre um projeto político em potência nos acervos, numa biblioteca. Por isso, nós, os que lidamos com acervos (e todos nós o fazemos, não é?) precisamos ser guardiães dessas delicadezas e tesouros. Guardiães e hermeneutas. Porque precisamos também perturbar o conforto institucional, conforme o nomeia Silviano Santiago, que um acervo pode representar. Buscar brechas, janelas, possibilidades para, por exemplo, compreender o acervo como uma aventura (no seu sentido mais profundo ad ventura, aquilo que vai acontecer). Tomar consciência a respeito da potência dessas estratégias do fazer. Pois: o que eu quero dizer com o acervo que elaboro, com o qual trabalho? O que estou pretendendo narrar? O que narram nossos acervos? O que comunicam? Uma ação político-pedagógica que traz à tona nossa clareza política e nossa competência científica, ao nos perguntarmos – Bibliotecas: vozes silenciadas?

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escolhidas / 1. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história

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da cultura. Brasiliense, 1994. p. 197-221. u A invenção do cotidiano/ 1. Artes de fazer. Michel de Certeau. Vozes, 2004. u História da Leitura. Robert Darnton. In: A escrita da História: novas perspectivas. Peter Burke (Org.). UNESP, 1992. p. 199-236. u As estruturas antropológicas do imaginário. Gilbert Durand. Martins Fontes, 2002. u Oralidade. Eric Havelock. In: Cultura escrita e oralidade. David Olson e Nancy Torrance (Orgs.). Ática, 1995. u Psicologia arquetípica: um breve relato. James Hillman. Cultrix, 1983. u A transfiguração do político: a tribalização do mundo. Michel Maffesoli. Sulina, 1997. u Cultura, Informação e Educação de profissionais de informação nos países em desenvolvimento. Michel Menou. Ci. Inf., Brasília, v. 25, n. 3, 1996. Disponível em www.ibict.br/cionline u A caverna, o monstro, o medo. Nanci Gonçalves da Nóbrega. FBN-Proler, 1995. u De livros e bibliotecas como memória do mundo: dinamização de acervos. Nanci Gonçalves da Nóbrega. In: Pensar a leitura: complexidade. Eliana Yunes (Org.). PUCRio; Loyola, 2002. p. 120-135.


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A contação de histórias vivenciada no chão da universidade: um quase relato de experiência

o


[Edvânia Braz Teixeira Rodrigues]

oE

ra uma vez, nos tempos das andanças do Morandubetá pelo Brasil afora, no

Efinal do século XX, mais precisamente no ano de 1993, conduzidos pela nave mãe do Módulo Zero, comandada pelo Proler, no meio de suas inúmeras manobras fantásticas, fantasiosas, intrigantes e sedutoras de leitores, esta nave maravilhosa acabou por aterrizar nas terras do Cerrado Goiano, atraindo professores, atores e agentes culturais vinculados a várias instituições e dentre eles três professoras da Universidade Federal de Goiás, das quais duas eram vinculadas ao Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada a Educação (CEPAE/UFG). É importante dizer que durante o contato imediato estabelecido entre estas três professoras e os tripulantes da nave mãe módulo zero, as duas professoras do CEPAE/ UFG foram contaminadas por um micro-organismo poderosíssimo que as tomou e as transformou de tal forma que nunca mais elas foram as mesmas, haja vista que passaram a ler compulsivamente e a contar histórias em suas salas de aula, de forma tão constante e deliciosamente envolvente, que foram disseminando este hábito, numa rapidez tal, que as pessoas foram sendo seduzidas a compartilhar leituras. Aí... Alguns apaixonados por esta nova mania que havia se instalado, no âmbito da Universidade começaram a se preocupar com a possibilidade de que algum cientista desvairado se dedicasse a descobrir a cura para aquela deliciosa contaminação. Então, demandaram, daquelas professoras, a fórmula para disseminarem aquela febril vontade de ler e com ela aquela contagiante necessidade de contar as histórias lidas. Ah! Aquelas professoras pioneiras se sentiam como Naftali, personagem do livro

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Coração de Tinta, de Cornélia Funke, em seu diálogo de preocupação com as crianças desprovidas do acesso ao livro “– Mas como fazem essas crianças sem livros de histórias? – perguntou Naftali. E Reb Zebelun respondeu: – Elas têm que se conformar. Livros de histórias não são como pão. Pode-se viver sem eles. – Eu não poderia viver sem eles. – disse Naftali.” Eu não poderia viver sem livros. Este foi o princípio básico da contação de história que se vivenciava nas salas de aula do Colégio de Aplicação da UFG, naquele tempo... contavam-se histórias para despertar o desejo pelo texto escrito e, para contá-las, era necessário gostar muito delas, outro princípio básico. Aquelas duas professoras, agora acompanhadas de outros colegas de trabalho, então, fundaram um grupo de contadores de histórias, Grupo Gwaya Contadores de Histórias, da UFG. Este grupo institucionalmente era um projeto de extensão e cultura, que propiciou a elas o tempo necessário para saírem por aí em escolas, hospitais, festas, seminários e eventos, contando muitas histórias. E, com isso, se depararam com uma nova demanda, muitos e muitos professores que desejavam aprender a contar histórias. o ato de ler guarda sempre significados que estão além dele, transforma-se em metáfora que alimenta desejos ancestrais que a humanidade sempre perseguiu, mesmo se em vão. Em várias culturas, em várias épocas, ele foi promessa de revelação, de superação final da precariedade imposta como condição (PERROTI: 1990, p.39)

Eu buscava estes significados no trato com a leitura e com a escola básica e coletivamente o grupo passou a construir o seu projeto de formação de novos contadores. Os livros lidos, as discussões realizadas, as histórias contadas, o contato com o universo da literatura e da arte cênica essencial para contar história foi me mostrando que o livro tem um poder que se estabelece em duas perspectivas, na primeira ele se coloca como objeto histórico que narra a história refletindo, difundindo, permitindo, testemunhado e me colocando como partícipe do tempo, dos costumes, dos valores, do imaginário, do contexto e da época que ele me narra; na segunda o livro é constitutivo, nele mesmo, de um imaginário de sua significação e, em meio a estas constatações me


É importante ressaltar o quanto pode ser significativo que os pais leiam histórias para seus filhos, ou folheiem alguma literatura infantil, levando-os a dizerem o que imaginam o que irá acontecer na página seguinte (JOLIBERT, 1994. p. 129)

Mas também sentia necessidade de refletir, construir, socializar as ideias de forma fundamentada e sistematizada, assim, várias leituras, vários textos, vários projetos e um livro foi produzido e publicado – Contação de HISTÓRIAS: uma METODOLOGIA de incentivo à LEITURA. Daqueles cursos foram surgindo outras ações em outros espaços educativos: escolas, clubes, igrejas... e também a outros grupos, os integrantes do Grupo Gwaya inicial iam e vinham, porém os princípios, os objetivos do trabalho permaneciam, se ampliavam, se aprofundavam, se verticalizavam. Hoje o Grupo Gwaya Contadores de Histórias/UFG é constituído por 15 integrantes, dos quais a mais “antiga” sou eu, mas temos também integrantes que aprenderam a contar histórias, quando estavam no terceiro ano do Ensino Fundamental e, hoje, estão na faculdade.... Professores que conheceram o trabalho quando ainda estavam na ativa e, hoje, já aposentadas continuam na ativa, contando histórias... Professores de Física.... Estudantes de Engenharia... Não importa a área de conhecimento, todos querem ler e compartilhar histórias... Enfim, as pessoas passam pelo grupo... o grupo se renova... mas o amor pela leitura... o trabalho de formação de novos leitores... a dedicação ao incentivo à leitura... ESTES PERMANECEM! Atualmente, vivendo entre os livros de literatura infantojuvenil, os livros que refletem sobre a educação, os livros que nos mostram dados, imagens, ideias... a cada dia me convenço do árduo caminho a ser percorrido na luta pelo incentivo à leitura de “textos de qualidade” que sejam prenhes da possibilidade de transformação de

Edvânia Braz Teixeira Rodrigues

vi diante de questionamentos sobre o sentido das políticas de acesso ao livro que em última instância estão atreladas às questões da construção da cidadania e da emancipação humana, não me afastando, também, da percepção primeira que vivenciei em minha vida de leitora, a do livro como momento de lazer, sonho, doação, aventura... sempre trazido à minha presença pelas carinhosas mãos ora de minha mãe, ora de minha avó materna.

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dogmas, de crenças, de preconceitos. Ah!!! Esse poder ilimitado dos livros, estampado e construído dentro das possibilidades e limites do seu construtor, do seu leitor... Ele é fonte de renovação e transformação do conhecimento, do mundo! E a professora que existe dentro da contadora de histórias me diz para estar atenta, para buscar sustentação teórico-prática, pois assim poderei contribuir melhor com o processo de superação das barreiras encontradas pelos que nos procuram, no início de seu processo de formação como novos contadores de histórias. A preocupação com a formação de novos contadores fez com que professores integrantes do Grupo Gwaya, associados a outros professores da UFG propusessem a realização de um curso de especialização lato sensu em Metodologia da Arte de Contar Histórias Aplicada à Educação – este curso, presencial, teve sua primeira turma no ano de 2005. Nosso projeto de formação de professores atende a Rede Estadual de Ensino de Goiás, trabalhando com os Dinamizadores de Biblioteca e tem, como proposição, tornar o espaço da biblioteca escolar mais dinâmico com o objetivo precípuo de chegar aos estudantes de forma mais lúdica, participativa e cênica. Mas, também, o grupo publica histórias: Iluminando histórias (Cleidna Landivar ) e Haja Fôlego! (Nilton Murce), ambos pela Editora RHJ, temos ainda: Tem contação de histórias no céu! (Edvânia Braz Teixeira Rodrigues), pela CEGRAF/UFG edição comemorativa 40 anos da UFG e, temos ainda: Deu queimada no cerrado (Diane Valdez), Deu macaco na cabeça (Maria de Fátima Teixeira Barreto) e Bocó: um lobo muito bobo (Edvânia Braz Teixeira Rodrigues) que compõem a coleção Coisas de bicho – Editora Gwaya. Sendo que, a coleção Coisas de bicho foi especialmente preparada para ser distribuída nas escolas da Rede Estadual de Ensino de Goiás e para os Colégios de Aplicação das Universidades Federais. A editoria destes livros da coleção foi mais uma experiência extremamente gratificante, pois pude experienciar o processo de produção do objeto de desejo “livro” em sua completude, desde a sua idealização, o processo de escritura, a revisão, a ilustração, a definição do formato, o acompanhamento da editoração, impressão, pensar o lançamento, acompanhar a distribuição... mas, posso afirmar com toda a certeza que


nenhuma emoção bateu mais forte que a do brilho do olhar das crianças e adolescentes ao lerem ou ouvirem a narrativa daquelas histórias! “O prazer de ser transportado de forma benevolente e cuidadosa, ao universo das palavras que possuem corpo, das histórias que se tornam tangíveis, daquilo que nos humaniza”

Leituras Inspiradoras u Cenas de leitura. Verbena Maria Rocha Cordeiro. In: Leitor formado, leitor em formação: a leitura literária em questão. M. Z Turchi e V. M. T. Silva (orgs). ANEP, 2006. u Formando crianças leitoras. Josette Jolibert e colaboradores. Artes Médicas, 1994. u Textos e pretextos sobre a arte de contar histórias. Celso Sisto. Argos, 2001. u Confinamento cultural, infância e leitura. Edmir Perrotti. Summus, 1990. u Coração de tinta. Cornélia Funke. Cia. Das Letras, 2006.

Edvânia Braz Teixeira Rodrigues

(SISTO: 2001, p. 32)

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Por onde passo, levo comigo os contadores de histórias

o


[Maria Helena Ribeiro]

oC

ontar histórias, apesar de ser uma arte milenar, para mim foi tomando uma

Cnova dimensão a partir de 1989, quando trabalhava no setor de projetos da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - FNLIJ. Havia um burburinho, algo de novo, um frisson em torno de um tal curso, ministrado por um grupo estrangeiro, que algumas pessoas fizeram, criando alma nova para a questão do livro, da biblioteca e da formação do leitor. Esta foi a primeira notícia que me chegou. Continuava sem saber bem o que era, mas via a movimentação das pessoas, um entusiasmo no ar, um falatório nos corredores, até que a minha curiosidade chegou ao máximo e me forcei a saber exatamente o que estava se passando. O assunto girava em torno de algumas pessoas da Fundação que haviam feito um curso de Contadores de Histórias. Esse curso mudou as suas vidas e, por tabela, as nossas também, que não fizemos o curso. Houve uma contaminação de entusiasmo. Era como se a narração de histórias precisasse de um empurrãozinho para se firmar como a melhor estratégia de encantamento no processo de construção de um leitor. Esse empurrãozinho foi dado, pois desencadeou uma nova história na promoção da leitura, pelo menos por aqui. Todos nós sabíamos da importância de contar histórias, porque como professores e promotores de leitura já nos utilizávamos dessa ferramenta para incentivar a leitura. Mas, parece que esse curso foi um marco na história da Contação de Histórias no Brasil, inclusive originando, logo em seguida, o Grupo Morandubetá de Contadores de Histórias, que foi a primeira escola para a formação de outros contadores.

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Fiquei impressionada com a rapidez com que esse movimento se disseminou. As pessoas ficavam encantadas com a nova forma de contar histórias, com os segredos para fazê-las mais atraentes, com as novas técnicas de apresentar os textos dos livros, seduzindo a plateia. Aí, contavam-se histórias em todos os lugares, desde os corredores da Biblioteca Nacional, para os funcionários, até em praças públicas e espaços culturais.   Um curso desses, eu nunca fiz, mas, naquele momento, fui contagiada pelos contadores de histórias que começavam a se formar com essa nova orientação. Acreditei neles e nunca mais os abandonei. Em todas as instituições que trabalhei, daí pra frente, levei essa bandeira comigo, contribuindo assim, um pouco, para a concretização dessa arte no Brasil Migramos da Fundação do Livro para o Proler – Programa Nacional de Incentivo à Leitura da Biblioteca Nacional, onde assumi a coordenação pedagógica do Leia Brasil – Programa de Leitura da Petrobras, um programa de Bibliotecas Volantes em escolas públicas, com capacitação de professores para a questão da leitura. Levando comigo esse entusiasmo e a certeza da importância das histórias contadas na formação do leitor, para que ele tomasse o impulso que precisava, logo acrescentei ao Programa um curso de formação de Contadores de Histórias para os professores do programa e apresentações de contadores nas escolas, nos dias das visitas do caminhão-biblioteca. Enquanto isso, na Casa da Leitura – sede do Proler e do Leia Brasil – a comunidade de Laranjeiras e especialistas em Leitura e Literatura descobriam o encantamento das histórias contadas pelos novos contadores. De todas as atividades que a casa oferecia, o Curso de Contadores era o mais procurado. Artistas, atores principalmente, produtores culturais, educadores, psicólogos, leitores e até donas de casa iam buscar algo que lhes trouxesse prazer. Eliana Yunes, nossa diretora, e Francisco Gregório Filho, nosso querido chefe, planejaram um curso de excelência por onde se formaram os hoje mais renomados contadores de histórias e grupos de contação. Começou com esse curso uma com-


Maria Helena Ribeiro

pulsão pela leitura. Falava-se todo o tempo de textos, de escritores, de lançamentos de livros, de temas interessantes para se contar, de cultura popular, contos da carochinha, e, assim, circulavam os livros, trocavam-se experiências, formavam-se grupos, pesquisava-se sobre a leitura da literatura. O mais interessante é que os cursos não tinham exclusivamente o objetivo de ensinar a contar histórias, pois isso já é quase inerente ao ser humano. Basicamente visavam o incentivo à leitura pelo viés da arte, da literatura. Mas os alunos, além de se descobrirem leitores, descobriam-se também contadores de histórias. Até hoje encontramos nos cursos de Letras, ou já formados nas Universidades, pessoas que, a partir dos cursos da Casa da Leitura, descobriram sua vocação e hoje são profissionais dessa área; meu filho José Mauro Brant e minha neta Alluana Ribeiro são alguns exemplos. O Leia Brasil, que chegou a ter, em 1998, 16 Bibliotecas Volantes em 89 cidades de seis estados do Brasil, teve a contação de histórias como seu carro-chefe. Não havia uma atividade do Leia que não iniciasse e acabasse com uma história contada pelos novos contadores. Além disso, oferecíamos cursos de contadores de histórias para todos os professores, o que tornava o Programa cada vez mais respeitado e querido pelas Secretarias de Educação dos Municípios conveniados.  Nas cidades, muitos professores tornaram-se contadores, ou individualmente, ou em grupos e, por essa atividade se apaixonaram também pela leitura e pela literatura a ponto de mudar suas vidas. Não é exagero não, pois quem conta a história do Leia Brasil sabe a influência que as histórias autorais e as populares, apresentadas daquele jeito de contar, tiveram na formação de professores leitores, na sua atuação como promotores da leitura e nas suas histórias pessoais. Houve uma melhoria significativa na relação da escola com a leitura, dos professores com a leitura dos seus alunos e dos professores entre si. Foi a questão do encantamento. Foram todos encantados pelos contadores de histórias e trabalhar com leitura passou a ser um prazer. Após quase sete anos no Leia Brasil, fui para o Sesc Rio, levando comigo essa bagagem de experiências bem sucedidas com a contação de histórias. No programa de leitura que implantamos no Sesc, chamado Tecendo o Amanhã – Programa de Leitura do Sesc

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Rio, pude continuar abrindo espaços para a disseminação dessa arte e dessa prática. Como o programa tinha como objetivos estimular a leitura, dinamizar os acervos das Bibliotecas e promover, nas unidades do Sesc, eventos e atividades culturais em torno da leitura, encontrei nele a melhor oportunidade para divulgar o trabalho dos Contadores nas unidades do Sesc. Nesse momento, o trabalho de contar histórias nas Unidades do Sesc Rio foi tão bem aceito, que o desejo de ampliá-lo, para além dos espaços das bibliotecas, foi crescendo, crescendo tanto, que deu origem à ideia de se criar uma rede de contadores e juntá-los num só evento, aberto ao público em geral. Benita Prieto, do Grupo Morandubetá, havia feito, em 1999, pelo Leia Brasil, o Encontro de Contadores de Histórias com o maior sucesso. Eu participei desse processo e achei que seria o evento de que necessitávamos. E assim, em 2002, realizamos o Simpósio Internacional de Contadores de Histórias, primeiro realizado no Brasil. Convidamos a participar os maiores nomes nessa área, brasileiros e estrangeiros. Tanto sucesso fez, que até hoje, 2009, fica na nossa memória o evento em si e o que ele representou para o nosso país, tornando-o a referência mundial na contação de histórias e na questão da leitura e da oralidade. Foi muito gratificante participar do início da história dos Contadores de Histórias no país.      Levar os contadores comigo pelas instituições por onde passava era como se tivesse levando o Proler – Programa de Incentivo à Leitura da Biblioteca Nacional para dentro delas. No Sesc Rio não foi diferente. Levei o Proler para dentro das unidades, agreguei o valor da contação de histórias à formação das bibliotecárias, transformei as bibliotecas em ambientes bonitos, prazerosos para ler, ouvir e contar histórias. Eram crianças, idosos, jovens, todos encantados pelas histórias que habitavam o interior das unidades. As bibliotecas do Sesc nunca foram tão cheias de jovens como nas sessões de histórias. Os livros saíam mais das prateleiras, e os velhos livros de gramática, que eram vítimas das máquinas de Xerox, foram substituídos por novos livros de literatura de qualidade, lidos na própria biblioteca ou emprestados para serem lidos em casa. O movimento precioso de leitura que vivia o Sesc gerou um outro projeto Jornada


Maria Helena Ribeiro

de Leitura Sesc Rio: Formação de Jovens Agentes de Leitura, que talvez tenha sido o melhor projeto social que realizei em toda a minha vida. Acreditei que os jovens podiam ser leitores apaixonados e promotores de leitura nas suas comunidades, contrariando todo o estigma de que jovem não gosta de ler. Devo mais essa aos contadores de histórias que, como eu, acreditaram nos jovens e enfrentaram essa jornada de trabalho comigo. Quando saí do Sesc, foram eles que deram continuidade a esse nosso projeto. As instituições, que no início estranhavam a minha insistência na utilização da contação de histórias para tudo, logo se rendiam e concordavam em usar essa prática como “panaceia para todos os males”: abrir e fechar reuniões, criar ânimo nas pessoas, para relaxar, sensibilizar, entrosar equipes, minimizar conflitos, aumentar a autoestima. Sempre foi muito importante a atuação dos contadores na vida da cidade, tanto nas atividades de entretenimento, como nos projetos de grande relevância sociocultural, como nos hospitais, favelas, creches, com jovens e idosos, com crianças com dificuldades e comprometimentos de aprendizagem. Convicta de que a contação de histórias se enquadrava em qualquer circunstância educacional, cultural ou social, e que os contadores de histórias eram sempre excelentes parceiros das instituições, levei, mais uma vez, esse trabalho comigo para a Obra Social da Cidade do Rio de Janeiro, em um projeto de inclusão social em casas de convivência e lazer para idosos. Os idosos, assim como crianças e jovens, haviam de precisar dessa prática para ter uma vida melhor, com mais qualidade. Não sabia o quanto! Melhorar a autoestima, minimizar os efeitos das perdas e promover a sua integração social, desenvolvendo o imaginário dos idosos, recuperando as suas memórias afetivas, despertando seus talentos e habilidades, resgatando seus desejos reprimidos e satisfazendo-os na medida do possível era a nossa meta. Para isso, começamos nas Casas como se elas fossem a Casa da Leitura. Era uma volta ao passado. E os contadores sempre comigo. Por meio das oficinas de contação de histórias, dei início à concretização desses objetivos. Nessas casas, os idosos recuperaram suas lembranças, suas histórias, seus afetos, as histórias das suas famílias, suas ruas e cidades, as brincadeiras da infân-

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cia, das músicas e poesias preferidas. Nelas também cantaram, leram, recitaram, recortaram, pintaram, contaram histórias, riram, choraram, fizeram pipas, bonecos, escreveram cartas, montaram álbuns de memórias, murais de fotos.... E foram felizes durante os cinco anos que conviveram com os contadores de histórias. Hoje os idosos que tiveram essa oportunidade contam histórias em creches, escolas, em grupos sociais, e alguns até dão oficinas de leitura e histórias, contribuindo com esse rendimento para o aumento da sua renda familiar ou pessoal. Os contadores de histórias que me acompanharam na Obra Social fizeram dessas casas um espaço social de relevância no cenário cultural da cidade do Rio. É sempre assim: por onde passam, deixam um rastro de benfeitorias. Vão passando e carregando com eles pessoas que se tornam mais leitoras, mais esperançosas, mais participantes e mais felizes. Em qualquer instituição, seja ela educacional, social, cultural; seja em hospitais, creches, escolas, empresas, teatros, bibliotecas; seja em oficinas, aulas, apresentações, rodas de leitura... eles serão sempre os arautos da boa-nova.

148 Leituras Inspiradoras u Os cem melhores contos brasileiros do século. Seleção Ítalo Moriconi. Objetiva, 2000. u O livro dos medos. Organização Heloísa Prieto. Companhia das Letras,1998. u Mil histórias sem fim: contos orientais. Malba Tahan. Record, 2001. u O livro dos abraços. Eduardo Galeano. L&PM, 2007. u Uma idéia toda azul. Marina Colasanti. Global, 1999. u Lendas do céu e da terra. Malba Tahan. Conquista,1960.


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Narrativas na empresa

o


[Fernando Goldman]

o Q

uando comecei minhas pesquisas sobre a Gestão do Conhecimento Organizacio-

Qnal, confesso que – engenheiro de formação que sou, por isso mesmo mais ligado

às ciências exatas, às coisas objetivas do mundo, com um pensamento mais cartesiano – estranhava a frequência com que esbarrava em referências às narrativas. Era perturbador notar que quanto mais eu me aprofundava em áreas tão especializadas como Administração Estratégica, Aprendizado Organizacional, Gestão da Inovação, Gestão da Mudança, Instituições, Teoria da Firma, Teoria Evolucionária das Mudanças Econômicas, etc., mais evidente ficava o importante papel representado pela contação de histórias (storytelling) na formação do capital social das empresas realmente de sucesso, ou seja, naquelas que têm a característica da longevidade e não nas de sucesso efêmero. Justamente quando poderia parecer que os rápidos desenvolvimentos tecnológicos dos tempos da globalização – tanto da informação, como das comunicações – tornariam aquela antiga arte uma coisa obsoleta, eu ia me apercebendo da importância crescente das narrativas. Dentro desta ótica, eram claros os indícios de que é no melhor entendimento dos fatos de suas histórias que as empresas constroem aquilo que os especialistas apontam como fundamental para sua sobrevivência nos dias de rápidas mudanças que vivemos: sua capacitação para inovar. Confesso que relutei em aceitar que as dificuldades vividas em fases iniciais pela empresa, suas crises importantes do passado, seus eventos marcantes, seus executivos anteriores, seus mitos e seus heróis moldassem e restringissem seu comportamento

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atual e futuro. Era difícil estabelecer uma conexão entre os aspectos mais tecnológicos das empresas e esta sua dependência de trajetória. Hoje noto que há algo de novo sobre a arte de contar histórias em ambientes organizacionais. Não se trata mais apenas do seu uso proposital para alcançar resultados práticos em questionáveis e antiquadas práticas de liderança. Em minhas pesquisas venho descobrindo que empresas longevas (as que se caracterizam como verdadeiras comunidades) têm como principal característica aquela especial capacitação para se adaptar constantemente às mudanças em seus ambientes de negócios, com mais rapidez do que seus concorrentes. Mas a inovação não é apenas uma vontade declarada. Ela exige a prática regular e constante de uma humildade em busca do que precisa ser aperfeiçoado na empresa, de um ambiente com abertura suficiente para tal, caracterizando que os verdadeiros proprietários do capital social não deveriam ser pequenos grupos – que podem facilmente ser tornar obsoletos – mas a empresa que, vista como uma comunidade, se mostra muito mais apta a dar respostas. Para atender aos atuais desafios de adaptação, contínuos e necessários, sempre com maior rapidez, diversos autores de diferentes áreas de estudos vêm chamando atenção para o fato de que as estruturas burocráticas e hierárquicas baseadas em mecanismos de comando e controle, que se mostraram tão eficientes desde o início do taylorismo, já não funcionam adequadamente e funcionarão cada vez menos. Há assim a necessidade da troca da ênfase em simples e objetivas relações de causa e efeito pelo foco em aspectos menos explícitos, menos objetivos, digamos mais tácitos. Esse novo mundo organizacional, de valores, significados e experiências, com atenção às interações humanas, precisa identificar o conhecimento, entendido como a união de saberes e habilidades para uma capacidade de ação eficaz, como novo e mais importante fator de produção. Sendo o conhecimento contextual e só existindo nas pessoas que compõem uma empresa, me chama atenção a importância da palavra “contexto” e a forma como ela é negligenciada nas empresas que não conseguem se ver como comunidades.


Fernando Goldman

É o contexto que faz com que, embora construído pela análise da informação e que possa algumas vezes ser transformado em informação para ser disseminado, o conhecimento não seja apenas um tipo especial estático de informação, como muitos creem. Isto porque diariamente importantes elementos de contexto são incorporados ao conhecimento nas mentes e corpos das pessoas, nas rotinas das empresas e, principalmente, no relacionamento entre as pessoas e entre elas e suas empresas. As empresas e suas pessoas em um determinado momento são apenas um instantâneo de um quadro dinâmico em que pessoas vão e vêm, influenciam e são influenciadas por aquilo a que nos referimos simplificadamente como organização. É fácil dizer que a empresa é uma organização. Mais fácil ainda é alardear que a organização é uma comunidade, mas na prática criar um ambiente propício ao florescimento do conhecimento exige muito mais do que simples slogans. Uma pessoa para expressar aquilo que conhece ou pelo menos aquilo que tem consciência que conhece não pode deixar de fazê-lo senão emitindo algum tipo de informação (conteúdos), na forma de mensagens, sejam orais, escritas, sinalizadas, gráficas, gestuais, dançadas, corporais ou qualquer outra forma que um ser humano tenha para se comunicar. É preciso conectar os conteúdos disponibilizados, representados por dados e informações, aos contextos, para que outras pessoas possam criar novos conhecimentos capazes de possibilitar à empresa se modificar de modo a se adaptar às mudanças de seus ambientes de negócios. Fui assim começando a entender que o elo, entre os conteúdos e os contextos, são as narrativas, que sendo a forma como as pessoas constroem um mundo de significados, se tornam um tipo de código, útil em ambientes dinâmicos, de racionalidade limitada e de incerteza, como os enfrentados pelas empresas na atual era de globalização, pois transformam a incerteza da mudança em algo compreensível e com significado. Seguindo as ideias de Argyris e Schoen sobre toda empresa ter uma teoria “proclamada” e uma “aplicada”, são as narrativas que nos informam sobre as regras informais, quando chegamos a uma empresa.

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No meu entender as narrativas organizacionais, além de proverem meios fundamentais para se compreender os processos do cotidiano organizacional, são elementos fundamentais na construção retrospectiva da realidade em que a empresa se encontra – o chamado sensemaking. Para mim, as narrativas representam os modos de falar sobre a empresa e, assim, refletem a disseminação e o compartilhamento de percepções. Dessa forma, as narrativas tratam das políticas de significados, isto é, como são selecionados os significados, codificados, legitimados e institucionalizados na empresa. O aprendizado e a criação de conhecimento, tendo características progressivas e implícitas no processo organizacional, se beneficiam sobremaneira de um ambiente propício às narrativas. Se é cada vez mais verdade que as empresas precisam adaptar-se rapidamente a mercados em constante mudança e às novas tecnologias, porém sem negligenciar os aspectos humanos, então as narrativas como aliadas das metáforas e analogias podem exercer um papel muito importante nos aspectos mais tácitos do conhecimento. Além disso, o futuro da empresa só pode ser construído considerando seu passado, pois os eventos de ontem delineiam o comportamento de hoje. Dessa forma, a mudança só pode ser entendida numa perspectiva de histórias, pois para romper com o passado é preciso antes de tudo, entendê-lo. Assim, considerando a empresa como uma cultura, as narrativas - tendo como principal objeto a construção de significados – são uma poderosa ferramenta para viabilizar a compreensão dos processos de mudança e aprendizado, possibilitando mudanças de percepção e a aquisição de novos significados. Foi assim, aos poucos, que descobri que a velha arte da contação de histórias pode fazer toda a diferença em ambientes tão atuais e complexos como as grandes empresas.

Leituras Inspiradoras u O poder das narrativas nas organizações. Stephen Denning. Campus - Elsevier, 2006.


Fernando Goldman

u The concept of “Ba”: building foundation for knowledge creation. I. Nonaka e N. Konno. California Management Review, v. 40, n. 3, Spring 1998. u Criação de conhecimento na empresa: como as empresas japonesas geram a dinâmica da inovação. I. Nonaka e H. Takeuchi. Campus, 1997.

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Fagulhas habitam multid천es

o


[Célia Linhares]

oL

ogo que fiz nove anos, perdi meu pai. Voltei para o Maranhão e encontrei uma

Lpaisagem já conhecida pelas conversas familiares e que, de vez em quando, ganha-

vam um tom nostálgico, próximo de um sentimento de exílio. Ah! Como o Rio de Janeiro ficava longe de São Luís! O re-encontro com minha cidade, me fez descobrir que ao construí-la, imaginariamente, nela havia reservado lugares de relevo para os primos e os tios, as alvoradas com suas brisas, os sabores e os batuques das festas populares. Então, me surpreendi com tantas ladeiras (difíceis de subir), com as travas de poderes estagnados, enfim, com as noites e suas tormentas... Sei que num desses dias em que os bondes pareciam saltar dos trilhos para trafegar em meu coração, me assombrei com a intensidade de perguntas que nem sabia formular. Acreditei que não ia dar conta da vida. Pedi a Deus que me ajudasse, mandando um anjo me buscar de forma veloz, se possível, fulminante. De repente, ao entrar numa das alcovas do sobrado, onde vivíamos, no Canto da Viração, deparei com uma imagem trêmula, estranha, assustadora, que se associou a um conjunto de vozes que cantavam, com determinação, se encontrando em desencontros. — Os céus me ouviram? Resolveram me atender? Estes eram os sinais não de um, mas de uma legião de anjos? Como poderia eu recuar de minhas súplicas, diante de uma decisão celestial? — Não, não queria ir pro céu. Era urgente, urgentíssimo declinar da viagem com os anjos. Pedi, com o coração aos saltos, uma prorrogação.

Corri pra janela, arriscando um canto de olho e decifrando o mistério da figura

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vacilante: era uma calça comprida de meu irmão, pendurada pelo suspensório, numa coluna de cama antiga! Em compensação, presenciei nas ruas uma passeata potente, contra a posse de um governo que o povo não aceitava pela usurpação e iniquidade do processamento eleitoral. Nunca tinha visto uma multidão tão decidida e tão vibrante em sua marcha. Por isso, a cada instante se encorpava mais. Ali, naquele momento que coube um fluxo de uma existência, entendi a dor e a beleza de sermos porosos, interdependentes uns dos outros, unindo os humanos aos viventes, às coisas, mas também ao cosmos, tecendo-nos com milhões de fios, que nos desafiam com enigmas que não se fecham em nós, pedindo conjunções, compartilhamentos. — Ah! Então são esses os movimentos sociais, em que nos perdemos e nos achamos, entrando e saindo de nós e, assim, nos constituindo nesses entre nós?

Os anos rolaram e acompanhei as esperanças de minha geração, com a UNE, a JUC que se articulava com a JOC, a JEC e tantos outros movimentos estudantis, mas também com o MEB, os CPCs, a campanha pelo Petróleo é nosso... A Petrobrás foi a nossa vitória, Nossa primeira vitória, De vitória em vitória... Se escreve a história...

Mas, todo esse entusiasmo coletivo foi interrompido com uma prolongada noite de chumbo que mostrou o quanto os estados de exceção, com suas tiranias e barbáries nos rondam e nos ameaçam permanentemente, comprometendo os projetos democráticos, exigindo repensá-los a contrapelo. (Benjamin, 1993, Agamben, 2004). E esses riscos se mostram e se agudizam quando os movimentos sociais se intensificam, se renovam, se reinventam, atualizando suas potências ao afirmar tradições inquietas e tenazes, com sonhos de dignidade existencial, política, que nunca morrem. Por tudo isso, não só nos fortalecemos, mas também nos alertamos contra tantos elitismos que também nos impregnam, compondo desigualdades que nos modelam historicamente. Ressoa em nós Darcy Ribeiro, lembrando como permanece em nós


Célia Linhares

essa convivência ambígua e paradoxal entre as cicatrizes de escravos e oprimidos, que se polarizam com a arrogância de senhores. De toda maneira, com a ditadura, os espaços dos movimentos sociais foram fechados, vigiados e punidos. Mas não interrompidos. Como rios nos desertos, os fluxos de tantas águas, irromperam por outros caminhos, manifestando-se de diferentes formas em oásis, pedindo novas formas de invenção e captação. A ditadura se enrijecia, recriando-se com outros níveis de selvageria e ferocidade, com sequestros e prisões, com torturas e assassinatos e inovando com a ocultação dos corpos dos opositores dessa barbárie instalada. Foi nesse período trágico que Rui Frazão Soares, estudante de engenharia foi preso e desapareceu no cárcere em 1974. Se o medo era imenso, toda essa generosidade dos que discordavam abriam caminhos para a liberdade que nunca deixou de fagulhar... Assim, os movimentos sociais se deslocaram para espaços que antes pareciam destituídos de política. As associações de moradores insurgiram em toda parte, nas comunidades de base, nas práticas da Teologia da Libertação, com os mutuários de casa própria, das donas de casa, dos aposentados, das mulheres, negros, indígenas e gays que se organizaram e tornaram mais abertas, compartilhadas e visíveis suas lutas. A realidade mudava e nossos instrumentos de apropriação dos movimentos sociais também precisavam ser refeitos (Evers, 1984). Os novos sujeitos coletivos instalavam outro tempo-espaço e requeriam uma outra inteligibilidade (Sader, 1988). Os movimentos de 1968 mostraram que as relações políticas não estão distanciadas das tensões cotidianas. Se Foucault (1984) tematizou a mobilidade do poder, que não se concentra nos palácios, nem se fixa nos gabinetes e nem, muito menos, se reduz a impor e negar condutas, potencializando ferramentas para intervirmos nos funcionamentos sociais, Paulo Freire (1992) também, por outros contornos, trabalhou o alargamento da política, discutindo uma processualística responsável pela manutenção dos mecanismos que fortalecem opressores e oprimidos. Ressaltou as relações entre políticas, culturas e existências sócio-humanas, sustentando poderes arbitrários e opressores, que ao invés de se instalarem exclusiva-

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mente, numa entidade externa, se alojam com tensões e complacências, nos sentimentos e afetos do oprimido, subjugando-o. De toda forma, para romper essa submissão, não pode ser dispensado nem o desejo de liberdade, nem as condições concretas de libertação, que precisam ser criadas e mobilizadas. Por isso, Paulo Freire valorizou a educação para a liberdade, como um exercício de autonomia, sempre inconcluso, em que os oprimidos se apropriam da vida, do mundo, para refazê-lo. Esses novos tipos de movimentos sociais, mesmo sob silenciamentos e suspeitas acadêmicas, foram construindo outras formas de ações políticas, intensificando solidariedades em circuitos crescentes, capilarizando-se e encontrando-se com aqueles até então banidos da fruição dos bens materiais e imateriais que a sociedade vinha produzindo. O avanço do capitalismo com suas forças necrófilas, foi derrubando fronteiras (como entre as Alemanhas) para reduzir a criação de mundos possíveis, proclamando a urgência de sofisticar, globalizando um mundo único; mundo que as políticas neoconservadoras e neoliberais pretendem infligir a tudo e a todos, como o Império irrecusável. Mas o preço da participação nesse império é não somente alto, muito alto, mas impagável, pois atinge de muitos modos a vida, o planeta, os corpos, enfim, toda uma múltipla realidade, enredando-os em relações agenciadoras em que nem faltam coerções cruéis e explícitas, nem tão pouco manipulações sutis e sedutoras. Assim, apesar das cadeias relacionais que se instalam e se apresentam como redes inescapáveis, emerge desse cerceamento formas múltiplas de afirmações de vida que vão instituindo fagulhas com que se constroem possibilidades de outros mundos mais solidários, em que as multiplicidades se dispersam e confluem diferindo e singularizando sujeitos coletivos e individuais, pelas interdependências entre objetos e sujeitos, rompendo com as formas de organização binária da vida (Lazaratto, 2006). Portanto, escapando de concepções e práticas endurecidas pela imutabilidade das utopias, Negri e Hardt (2001) vão ressignificar a concepção e a prática de multidão, tomando-a como resistência, multiplicidade e potência, atualizando-a pela apropriação dos circuitos cibernéticos.


Para minha mãe Alice e minha irmã Anna Maria que, em meio a labirintos, me fizeram encontrar movimentos sociais, que se recriam e com os quais me reinvento sem parar.

Leituras Inspiradoras u Estado de exceção. Giorgio Agamben. Boitempo, 2004. u Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. Walter Benjamin. Brasiliense, 1993. u Identidade: a face oculta dos novos movimentos sociais. Tilman Evers. In: Revista Novos Estudos CEBRAP, vol.2, nº 4, Abril de 1984. u Microfísica do poder. Michel Foucault. Organização e Tradução de Roberto Machado. Edições Graal, 1984. u Educação como prática da liberdade. Paulo Freire. Paz e Terra, 1992. u Império. Michael Hardt & Antonio Negri. Record, 2001. u As revoluções do capitalismo. Maurizio Lazzarato. Civilização Brasileira, 2006. u Quando novos personagens entraram em cena: experiências, falas e lutas dos trabalhadores da Grande São Paulo, 1970-80. Eder Sader. Paz e Terra, 1988.

Célia Linhares

É bom observar o comportamento das multidões em suas iniciativas que tomam celulares para mobilização social que se dispersa, atuando de modo livre, mas confluindo na causa comum de defesa da vida, da liberdade. Por isso, valorizam a pluralidade dos sujeitos e instrumentos reinventando, em sintonia com nosso tempo, militâncias interativas. Vale concluir lembrando a analogia que Negri (2001) faz entre as multidões e Francisco de Assis: “(...) encontramo-nos na situação de Francisco, propondo contra a miséria do poder a alegria do ser. Esta é a revolução que nenhum poder controlará”.

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Nos caminhos da MarĂŠ

o


[Lene Nunes]

o M

eu nome é Marilene Nunes, nasci numa cidadezinha do Espírito Santo chama-

Mda Mimoso do Sul. A minha vinda para o Rio de Janeiro aconteceu quando

ainda era criança. Como toda criança que mora no interior, sempre ouvi muitas histórias contadas por minha mãe, lembro que ficava horas sentada na porta de casa ao anoitecer, ouvindo mamãe contar contos de assombração, de fazendeiros, histórias de vida, etc. O tempo foi passando, me mudei e ainda era pré-adolescente quando cheguei à Maré, vinda de Del Castilho, removida da avenida Suburbana. Assim que cheguei, achei tudo muito estranho, a casa era chamada de “Dúplex”, porque tinha dois andares (embaixo ficava sala, cozinha, banheiro e em cima dois quartos), havia uma caixa d’água instalada, mas não tinha água encanada. A minha casa ficava numa parte já aterrada da Maré, na comunidade Nova Holanda, eu visitava várias colegas que moravam nas palafitas, era divertido e ao mesmo tempo perigoso quando andava nas pontes sobre as águas e no calor era gostoso, porque sempre molhava meus pés. Outra diversão era carregar água com o “rola-rola” ou “lata na cabeça” para encher a caixa d’água. (Era difícil conseguir água, porque tinha que sair pedindo nas casas distantes.) A minha entrada nesse universo de contar histórias aconteceu através de uma amiga que me informou que haveria uma Oficina de Contação de História no CEASM (Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré), logo me interessei, pois sempre gostei de ouvir e contar histórias para os meus filhos. Fiz a inscrição e fui entrevistada, mas saí de lá com a certeza de que não seria selecionada, pois a faixa etária exigida era de

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16 a 21 anos. Até então, só conhecia a ONG através de comentários dos moradores. A ONG CEASM foi fundado em 1997, por alguns moradores universitários que, a partir de suas ações de militância dentro da comunidade, viram a necessidade de proporcionar à comunidade o acesso à universidade através do “pré-vestibular comunitário”, o primeiro projeto da instituição. O CEASM atua nas áreas de educação, comunicação e cultura. Como moradora, acho muito importante participar desse resgate e valorização da história local, passar para os jovens de hoje toda essa luta e resistência, mostrar que seus pais e avós foram agentes importantes nesse processo de construção do Bairro, é apresentar a Maré de uma forma diferente do que é mostrado na mídia. Ao saber que fui selecionada, dei um grito de alegria. O primeiro encontro logo foi marcado e, então, foi iniciada a oficina. Fui até o encontro feliz da vida, pensando já no que ia contar caso pedissem, pensei comigo: Acho que vão nos ensinar a contar histórias para crianças, literatura infantil, era uma vez a princesa... Porém, fiquei surpresa com o andamento da oficina, foi muito além do que imaginava, trabalhei com dinâmicas, música, som, expressão corporal, leituras e durante uma atividade diária, onde os participantes contavam suas histórias de vida, foi confeccionado, em pequenas costuras, um grande tapete colorido que até hoje é utilizado nas contações. O que mais me atraiu foi saber que ia contar as histórias do bairro da Maré, pesquisar e entrevistar antigos moradores e a partir disso formular um repertório de histórias, causos e lendas da região da Maré. A partir da oficina surgiu o grupo Maré de Histórias, com jovens e adultos do Bairro da Maré. Demos início ao trabalho com a proposta de atuação nas áreas da cultura e educação dentro da comunidade, oferecendo às escolas da região oficinas de histórias com o intuito de divulgação e valorização da memória local. Juntamente com o grupo foi iniciado o primeiro trabalho, duas vezes por semana, na Escola Municipal IV Centenário, Maré. O encontro com as turmas era realizado no pátio, embaixo de uma árvore onde era estendido o imenso tapete colorido. Nos encontros, eram realizadas atividades e brincadeiras lúdicas, como jogos de memória e quebra-cabeça com fotos da Maré antiga, assim os alunos puderam conhecer um pouco mais o local onde moram e


1. Marca de um fogão.   2. Objeto que se esquentava ao fogo para alisar o cabelo (seria a prancha de hoje). 

Lene Nunes

suas transformações ao longo do tempo. A partir do trabalho feito com o livro “Contos e Lendas da Maré”, os alunos eram estimulados a ler, conhecer, criar e contar outras histórias. O mais interessante é que a partir da imaginação de cada um, iam surgindo através de desenhos e escritos novas maneiras de recontar os contos do livro. Percebi que, a partir do livro, criou-se um diálogo entre os jovens e seus pais, uma vez que estes pais vivenciaram e conheceram personagens vivos de alguns causos, surge uma importância maior e um sentimento de pertencimento dessas histórias, fazendo com que assim busquem ainda mais informações sobre esses fatos, cada local onde possivelmente aconteceram esses causos passaram a ser uma referência dentro da Comunidade. Com a construção do Museu da Maré, em maio de 2006, minhas ações e as do grupo foram ampliadas para também atender o público diversificado, recebendo grupos agendados uma vez por semana com contação de histórias. Uns dos contos é o Casamento na palafita, que eu conto na varanda do Tempo da Casa, segundo tempo do museu (uma vez que a concepção o divide em doze partes chamadas Tempos). E é dentro dessa réplica que as pessoas recordam, choram e resgatam, de dentro de si, toda a memória aterrada, adormecida, de uma época vivida ali. Numa dessas visitas que eu acompanhei, tive uma experiência com uma senhora que, ao entrar na réplica de uma palafita, construída dentro do Museu, chorou pelas lembranças que vieram à tona, ao ver expostos ali vários objetos e pertences que fizeram parte de sua vida. Quando a levei até o velho fogão Cosmopolita1 e falei do “pente-quente”2, foi uma emoção ainda maior, pois choramos juntas e lembrei-me da época em que minha mãe alisava meus cabelos com esse objeto. Outra experiência que vivi foi no Tempo do Medo. Em uma visita, a filha reconheceu a mãe, os irmãos e o primo numa foto, sentados na ponte, exposta ali, e contou para a mãe. Na semana seguinte, a mãe veio conhecer o Museu e ficou muito emocionada com tudo que viu, percebi que ela tinha pressa em chegar onde estava a tal foto, e, quando chegou perto, apontou um por um de seus familiares e disse: “O tempo passou, pois nesse retrato aqui, os meus cabelos eram pretos e agora estou com a cabeça branca. Ah, minha filha, meus meninos caíam muito dentro dessa maré. E

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eu mesma presenciei muita gente caindo dessas pontes e alguns até morreram.” Minha atuação como contadora de história me possibilitou um envolvimento maior com um povo que lutou e resistiu à força do tempo, esse trabalho mexeu com meu passado. Em minha opinião, a arte de contar histórias é viajar, interpretar, viver, passear pelos caminhos por onde passam cada personagem, e contar as da Maré, é uma questão de honra, de propriedade e pertencimento. Como eu sempre digo: “Quem não tem passado não tem história.”

Leituras Inspiradoras u Livro de contos e lendas da Maré. Vários autores. CEASM, Núcleo de produção editorial Maré das Letras, INFRAERO. u Guilherme Augusto Araújo Fernandes. Mem Fox. Brinque-Book. u Contos tradicionais do Brasil. Luis da Câmara Cascudo. Global. u Maré, vida na favela. Ivaldo Bertazzo, Drauzio Varella, Paola Berenstein Jacques. Casa da Palavra.


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Entre hospitais gerais e psiquiátricos: histórias humanas e literárias como um rio de caudaloso fio, tecendo redes de encontros na diversidade de afluências do viver saudável

o


[Kika Freyre]

oU

ma Contadora e um livro de histórias. Uma enfermaria e várias crianças. Foi

Uassim que os contos chegaram ao Hospital Universitário Oswaldo Cruz, no Recife

(Brasil), para que pudessem construir laços de parceria com o tratamento quimioterapêutico e cardiológico de crianças. Vieram fazer parte do Programa A Arte na Medicina às vezes cura, de vez em quando alivia, mas sempre consola, da Faculdade de Ciências Médicas da UPE (Universidade de Pernambuco), que já contava com oficinas de artes plásticas, fotografia e vários instrumentos musicais. Para estas aulas, as crianças precisavam ir até a Escolinha de Artes e Iniciação Musical, no próprio hospital. Mas e aí? e quando estas crianças estavam em processo de quimioterapia? E quando as suas defesas, de tão baixas não as deixavam sair da enfermaria? Que fariam elas? Daí a ideia da Oficina de Contos, para levar as histórias ao pé da cama, ao pé do ouvido, sobretudo às crianças que, cheias de achaques e cateteres, mal podiam ficar de pé. As histórias foram chegando comigo e logo se propagavam por todo aquele andar. As crianças pediam e a médica prescrevia: amor todos os dias, remédios tal e tal hora e ao menos uma história por semana. E assim, se cumpria a rotina terapêutica, sempre quebrada pela chegada de gente nova ou pela alta de quem lá estava – às vezes também se quebrava pela morte, mas isso é uma outra história. E rápido, como efeito de medicação intravenosa, os contos passaram a fazer parte do tratamento e, uma vez por semana, cada criança recebia a sua dose de fantasia. Mas não era só de fantasia que a Oficina de Contos vivia. Porque as histórias

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literárias, depois de contadas, acabavam por convidar histórias humanas a fazerem parte daquele cenário. Como numa trança. Como num encontro de águas de rios diferentes, desaguando num mesmo mar. É isso! E assim, com o fechar do livro, era passado o fio da palavra às crianças, onde se partilhava alegrias e desassossegos, medos e surpresas, encontros, dúvidas, delicadezas. A vida e a morte caminhavam juntas, lado a lado, e não em sentidos opostos como se costuma pensar. As crianças falavam da saudade de casa, dos irmãos, da escola, dos animais de estimação, da comida feita pela sua mãe e também falavam de outras crianças que, com o seu mesmo diagnóstico, encerravam ali suas histórias, quando elas pareciam estar apenas começando. A palavra guardava para nós um prestígio de nobreza. E a estas histórias humanas, começamos a dar-lhes fisionomia de contos, criando um mundo onde morassem para sempre todas as possibilidades, já que, ali, elas eram tão tolhidas pelas rotineiras normas do tratamento. E, neste mundo, entre o papel e a minha caneta, leite puro poderia ter gosto de leite com café pra agradar menino, uma vaca podia morrer de olhos abertos porque foi assim que menino viu sua avó morrer, as injeções podiam se abraçar dentro da geladeira pra curar solidão de menina, mãe-pomba podia dar cuscuz na boca do filhote pra agradar outro menino, e menina podia entrar até na fogueira pra abraçar a mãe sem se queimar, de tanta saudade que ela tinha. E em reverência a estas histórias, criadas ali na Oncologia, cortejadas pela dificuldade, editamos um primeiro livro cheio de histórias e, logo, o segundo. E a palavra continuava a ser levada pela correnteza da Oficina de Contos, que foi então desaguar também na Enfermaria da Cardiologia Pediátrica. O processo continuou seguindo o mesmo fio, reverenciando histórias humanas a ofertar-lhes histórias literárias. E editamos o terceiro e o quarto livros. Depois uma coletânea deles todos com livro e CD. As histórias humanas passaram a inspirar a criação de histórias literárias e, quando eu chegava, as crianças já anunciavam ter histórias inteirinhas morando em suas cabeças para me contar. Compomos um movimento bonito, uma sintonia mesmo, como as ondas e a areia, de ir e vir, de esperar pelo que se sabe chegar e chegar com maciez, com maciez de se estar tocando em sonhos infantis, uma imensa coleção de tesouros, rara, sensível, desigual.


Kika Freyre

E se os contos nos encantam tanto, nos inspiram tanto e neles nos reconhecemos tanto, é porque eles trazem expressas em metáforas as nossas necessidades primordiais de aprender com a vida, de viver as suas aventuras, e o fio da história vem como um rio, nos carregando na sua correnteza para dentro dela, e estar em uma enfermaria de hospital, definitivamente, não nos impede de nada. Porque através da partilha da palavra neste cenário montado entre Contador, criança, história e hospital, o Contador que também escuta a história da criança busca dosificar (e também dulcificar) a carga pesada de suas histórias humanas, a aproximação com a morte, com o medo, com a solidão, com a dúvida, com a dor. É diferente de fingir que elas não existem, atenção! Mas é tentar buscar um equilíbrio, subjetivo, claro, sem receitas, entre toda a mazela emocional que a aflige e a promessa de felicidade perpétua que encerra as histórias literárias. E assim, as histórias acabam por às vezes ajudar a curar, n’outras a aliviar e n’outras ainda a consolar crianças e pais em situação de longo internamento. Os pais se aproximam mais dos filhos, e o diálogo flui mais transparente, brando, feito água de nascente. E cada vez mais os pais escolhem participar e partilhar histórias ouvidas, vividas e inventadas. Porque cada vez mais as pessoas buscam voltar ao tempo deste contato perdido, de partilhar o olhar, o gesto terno, a graça, a verdade das palavras. E o Contador de Histórias ganha força neste cenário, porque, para além da história que amortece o correr dos batimentos cardíacos, amacia a velocidade da pressão arterial, ele, o Contador, oferece no hospital este ambiente de possibilidades. Traz um viver feliz para sempre provável e a cada encontro, perpetua esta probabilidade. E acreditar nesta possibilidade de cura pode inverter muitos papéis de doenças. Porque esta crença acaricia a autoestima, passa um bálsamo na imunidade, elevando os números das defesas orgânicas. Fisiologicamente as histórias mexem conosco também. Elas entram pelos nossos poros, pelos nossos olhos, pelas janelas da nossa alma e se alojam ali, lá dentro, no sótão do nosso coração e a gente sabe que o sangue que passa, carrega tudo, inclusive os sonhos de cura que as histórias plantam lá naquele cantinho tão ‘desavistado’ dentro de nós. ...

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Mais uma vez, uma Contadora e um livro de histórias. Uma Casa para tratamento psiquiátrico de adultos no Recife/Brasil (NAPPE) e outra em Braga/Portugal (Casa de Saúde do Bom Jesus). Também aqui os contos chegavam como fios, tentando alinhavar o emaranhado de desintegrações que faziam sofrer a alma das pessoas que ali buscavam cura, alívio, consolo. As pessoas com esquizofrenia vivem um processo de desintegração de sua personalidade e os contos ajudam a montar este mosaico desconectado a partir do reconhecimento de traços próprios nas características dos personagens. Por alguns momentos, uma história que pertence a toda a humanidade passa a pertencer a uma só pessoa, como se falasse dela, como se houvesse sido escrita pra ela, tamanha a empatia com seus feitos e personagens. Os contos são oferecidos como acalantos, como uma possibilidade de embalar sonhos reais, que estavam perdidos ou desacreditados. Eles carregam o cheiro da esperança um dia vivida, sobretudo da esperança de se viver um final feliz em seu próprio conto real, em sua história de vida. A estrutura literária dos contos possibilita a reestruturação do pensamento esquizofrênico: quando escuta um conto, a pessoa segue o seu fio, seu trajeto e assim começa a ordenar seus pensamentos quebrados, desconectados a partir de uma mesma ordem e então é possível se compreender muitas de suas atitudes, dos seus delírios, das suas ausências, das suas desintegrações com a ‘vida comum’. Ademais dos contos, também é rico se trabalhar com as imagens que estes contos suscitam nas pessoas. Com estas imagens, propomos a conexão entre a história literária e a história de vida, história humana. Uma conexão com o que há de saudável nesta pessoa que sofre e buscar fazer com que esta salubridade se manifeste frente à doença. É um duelo difícil, mas possível. Ao escutar, escrever, ler e contar esta história ao longo do seu tratamento, a pessoa que está doente começa a tomar posse da sua própria história, vai juntando as linhas para tecer-se como o croché de um novo sujeito que agora se reconhece e conhece o seu entorno e pode ir voltando a tomar as suas próprias decisões e voltar a funcionar de forma ativa em sua vida; podendo falar


de si e conhecendo os seus limites, pode fazer com que as novas histórias os ampliem cada vez mais. Este é o objetivo de se trazer as histórias, do popular para o individual, do plural para o singular, e cuidar de feridas emocionais tão particulares e tão comuns. E nesta teia de diversidades, tínhamos a pluralidade humana, a constantemente enriquecer o nosso enredo: Esta menina aqui é Contadora de Histórias. Contou-nos uma história tão linda e tão interessante na passada quinta-feira, que eu pedi a cópia para reler todas as vezes que a coragem me faltar para resolver a minha vida. Eu nunca vi um lugar com Contadora de Histórias, mas aqui é assim. E foi a melhor coisa que me aconteceu aí dentro. Eu quero esquecer que adoeci lembrar sempre desta história porque ela me ajudou a resolver como a tecelã resolveu. E depois eu percebi o que eu quero e percebi que não quero esta vida para mim, de trabalhar por quem só me quer para serviçal. Eu nunca vou esquecer esta história. Parece que a menina adivinhou e a trouxe mesmo para mim. Obrigada! Joca, 53 anos

Para este trabalho com histórias, o diagnóstico pouco importa. O rótulo mais importante é o nome de cada uma destas pessoas – que também escolhem alcunhas para quando as suas frases aparecerem citadas. E sempre começamos a trabalhar em busca de se conhecer a história deste nome que se carrega por toda biografia, que, para tanta gente, traz uma força desigual. E, a partir daí, partilhamos enredos onde as pessoas traduzem capítulos das suas vidas... e das suas tantas mortes. São importantes as histórias para uma pessoa ouvir e vir a pensar sobre o que está a fazer da sua vida. Vico, 38 anos

E cavando os alicerces dos seus trajetos, encontramos pessoas que foram se construindo enchidas de nada, carentes, carentes de tudo, inclusive de ouvidos para suas próprias histórias. E diante deste manancial, fazemos juntas um trabalho arqueológico mesmo. Trabalhamos com memória, com acervo, com patrimônio imaterial. Trabalhamos com a leitura e a constante proposta de releitura dos fatos vividos em busca de um sentido para esta vida.

Kika Freyre

e tive que me internar estes dez dias por causa do meu marido, quero esquecer! Mas quero

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Há histórias que trazem mistérios. Eu gosto do mistério das histórias. As nossas vidas tam-

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bém trazem mistérios. As histórias são as nossas vidas contadas aos poucos, de mistério em mistério. Carlota, 39 anos

Trabalhamos com o que está guardado. Trabalhamos com o mistério e com os tantos vazios que às vezes passamos a vida inteira em busca de conseguir preencher. Trabalhamos com o que ficou retido daquele ‘eu’ que, com receio do mundo, encontrou no adoecer a única possibilidade de conseguir sobreviver. Trabalhamos com a verdade. Não a verdade que se cria para se apresentar ao mundo, a verdade social, mas a verdade íntima, profunda, desigual. Aquela que existia antes do mundo imprimir a nossa imagem em nós. Daí a importância da posse da nossa história. Da história legitimamente nossa, genuína. Construída com as linhas que contornam nosso semblante, que tatuam a nossa alma e nos acompanham por toda a caminhada; para que saibamos reconhecer quando aquele enredo ou aqueles personagens não fazem parte dos nossos capítulos e, assim, possamos construir e demarcar nossos parágrafos com os nossos próprios pontos finais. E peneirando os tesouros brotados entre histórias humanas e literárias, editamos dois livros com contos criados na partilha de olhares, palavras e silêncios. ‘ A lenda das sementes e outras histórias bonitas (FREYRE, Kika [Org.], Ed. Livro Rápido, Olinda, 2006) ‘ À margem de um sol poente… histórias de vários caminhos (FREYRE, Kika [Org.], Ed. Novo Estilo, Recife, 2007) E assim, seguimos buscando e partilhando o que há de saudável, nobre e rico, o que ainda está guardado no sótão do coração da alma, onde a doença pode até tentar chegar, mas não alcança. Onde as metáforas da vida e os desassossegos diários propõem novas esperanças a cada nascer do sol.


Ser mulher com doença mental é o nosso desassossego dia-após-dia. É preciso ter força de vontade para que sejamos grandes pessoas na sociedade e no meio em que estamos a viver. As histórias ajudam-nos a buscar esta força dentro de nós, onde ela existe de verdade. As histórias ajudam-nos a não perdermos a fé em nós. LaraLinda, 49 anos

E isto é tudo.

u A Psicanálise dos contos de fadas. Bruno Bettelheim. Paz e Terra, 1980. u O que conta o conto? Jette Bonaventure. Paulus, 1992. u No terreno das histórias… sementes de uma medicina humanizada – histórias para acordar os homens e celebrar a vida. Kika Freyre & Paulo F. B. C .Mello. EDUPE, 2009.

Kika Freyre

Leituras Inspiradoras

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Contos na prisão: um espaço chamado liberdade

o


[Rosana Mont’Alverne] Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.

oC

José Saramago

ontadores de Histórias sempre me fascinaram. Que magia era aquela, capaz de

Ctransportar, encantar, transformar, emocionar, divertir, unir, confortar? Qual seria

a motivação dessa gente portadora de histórias tão poderosas? De onde vinha tamanha generosidade, para entregá-las nas horas mais necessárias? E o talento para transformar em arte o singelo ato de narrar? Com as histórias aprendi a fazer perguntas e a buscar respostas diretamente na fonte. Aprendi também que contamos as nossas próprias experiências. Não nos apaixonamos por um conto de fadas em vão. A partir dessa reflexão, percebi de onde vinha a minha própria vontade de contar: da necessidade de me expressar no mundo, de repartir minhas experiências de uma maneira lúdica e interessante, de ajudar o outro através da palavra do conto, do mesmo modo como sempre me senti confortada ao ouvir histórias. O discurso direto, as exortações e explanações meramente racionais, não possuem a força e o poder de tocar os corações, como uma história bem contada possui. O tempo do “era uma vez” é mágico; é um tempo verbal que só existe no faz de conta, terreno onde temos a possibilidade de resolver nossas angústias por meio das aventuras e desventuras dos heróis. Descobri que não estava sozinha, que mais alguém viveu os mesmos medos e inseguranças que eu. E isso fez pressão no meu peito: eu precisava compartilhar isso com os outros. Comecei contando para a família e os amigos. Na medida em que fui me profissionalizando, passei a me apresentar em associações, espaços culturais, escolas e empresas. Até que em 1998 propus ao Tribunal de Justiça, onde sou funcionária concursada, o Projeto Conto Sete em Ponto, constituído por espetáculos mensais de

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Contadores de Histórias: um exercício para muitas vozes

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narração de histórias, sempre na última quinta-feira do mês, no melhor estilo Mushkil Gusha (se você ainda não conhece a história de Mushkil Gusha, não perca tempo, existem versões na internet). Durante os dez anos em que o projeto foi realizado nos auditórios daquela instituição, fizemos dois concursos, que revelaram novos talentos da arte narrativa e que resultaram em dois livros: Uma história para contar (2004) e Histórias que ouvi, histórias que vivi: o lado inusitado e pitoresco da Justiça Mineira (2005). O Conto Sete em Ponto hoje é realizado também em Ouro Preto e, em Belo Horizonte, os espetáculos acontecem mensalmente no Palácio das Artes. Os contos tradicionais e a literatura escrita, por possuírem ensinamentos que ultrapassaram séculos e regiões do mundo inteiro, têm o poder de nos apontar direções, de produzir insights e de nos despertar de um longo sono. Alguns têm verdadeiro poder de cura e parecem chegar na hora certa para nos auxiliar em momentos de escolhas difíceis, mudanças de fases de vida e início de novos projetos. Além do mais, uma roda de histórias é sempre uma diversão e um momento de religação com o que temos de mais humano: nossa capacidade de nos percebermos como seres em movimento; partes de um elo ancestral que nos une e nos lembra de nossa verdadeira identidade. Em um mundo cheio de padrões e modelos a seguir e a consumir (roupas, comida, música, modo de vida etc.), as histórias nos ajudam a nos lembrar quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Nesse trajeto, sem dúvida, estaremos mais seguros se acompanhados de uma boa história. Em setembro de 2004, recebi uma carta inusitada. O Juiz da Vara de Execuções Penais de Itaúna, Dr. Paulo Antônio de Carvalho, que conhecia o meu trabalho com a arte de contar histórias, convidou-me a ministrar oficinas semanais de contos para os presos da APAC de Itaúna — MG (Associação de Proteção e Assistência aos Condenados). Arrematou o convite com um verso de Cecília Meireles: “Não faças de ti um sonho a realizar. Vai”. Confesso que dúvidas e medos me cercaram. Estaria pronta para a tarefa? Senti que chegava a hora de experimentar o poder da palavra do contador de histórias no espaço da coerção, da punição, da privação da liberdade: a prisão. Lembrei-me da situação carcerária no Brasil, que, diga-se de passagem, é ampla-


Rosana Mont’Alverne

mente conhecida de todos os brasileiros minimamente informados. O sistema penal brasileiro vem sofrendo modificações legislativas, muitas vezes por pressão da sociedade, que vê no recrudescimento das penas e do aparato penitenciário a solução para a questão da segurança pública e da defesa social. Porém, cresce o número de encarcerados e cresce também a criminalidade. Não é mais possível e nem útil nos negarmos a reconhecer que os criminosos são parte do mesmo tecido social do qual também fazemos parte. Nesse tecido, eles tanto influenciam quanto são influenciados. Trabalhar pela recuperação real dessas pessoas, a fim de que possam se reintegrar de forma harmoniosa na comunidade, oferecer-lhes a oportunidade da socialização em lugar de excluílas parece ser a melhor alternativa, senão a única, na busca de uma solução definitiva do problema. Essa não é uma tarefa só do aparato estatal, mas de toda a sociedade. Mas é preciso esclarecer que a APAC de Itaúna é um estabelecimento prisional diferente, uma associação civil juridicamente constituída, sem fins lucrativos e tem apoio dos Poderes Judiciário e Executivo do Estado de Minas Gerais. Sua filosofia de trabalho é a de que um bandido recuperado é um bandido a menos nas ruas. Lá não há policiais nem agentes carcerários. Voluntários atuam em diversas áreas e os presos tomam conta dos presos. A APAC de Itaúna é referência mundial em recuperação de presos e foi o solo fértil para o desenvolvimento do trabalho com os contos. Nem é preciso dizer que aceitei o convite. Quantas portas se abrem quando nos permitimos entrar na aventura e nos lançamos com paixão em nosso ofício! Os participantes – todos condenados cumprindo pena em regime fechado – começaram a escutar histórias, contar, recontar, ler e criar, além de ter aulas sobre postura corporal, técnica vocal, expressão oral, gestual e visual e outros segredos que formam o bom contador de histórias. Nas improvisações, a criatividade e a memória são estimuladas; surgem belíssimas histórias, transcritas e incorporadas ao repertório do grupo. Antigos contos de fadas são recontados e discutidos, gerando reflexão e aprendizagem. Os contos surgem como opção de resignificação de vidas, de encantamento da própria história, que passa a ter valor. Esse é o principal objetivo do projeto:

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enriquecer o imaginário dos presos, trazendo-lhes novas representações, situações semelhantes às suas, mas tratadas de outra maneira. Trata-se de oferecer-lhes a chance de se recriarem em uma nova história onde a queda seja um acidente de percurso e não um destino irrefutável. Um acidente com o qual se aprende o que tiver para ser aprendido e se avança no caminho. Como resultado desse trabalho, foi formado um Grupo – os Encantadores de Histórias – que desde 2004 vem representando a APAC de Itaúna em outras cidades, sensibilizando as comunidades para a necessidade de outro olhar e novas atitudes quanto à recuperação de presos. O Grupo já se apresentou também em diversas universidades, Encontros Internacionais de Contadores de Histórias no Rio e em São Paulo, presídios, Centros de Internação de Menores Infratores, Encontros de Magistrados, escolas, creches e teatros. Também já foi publicado o primeiro livro de autoria coletiva do Grupo: O segredo da caixa (2006). A escolha do nome do Grupo, sugerida pelos próprios presos, foi uma grata revelação: Encantadores de Histórias. A beleza do nome reflete um poderoso desejo se não apenas contar, mas encantar, o que, segundo os dicionários, significa: “exercer encantamento em; tornar-se encantado”. Não esperava o nível de envolvimento do grupo com a proposta nem o quanto aprenderia com eles. Durante as primeiras oficinas, lembrava-me recorrentemente das palavras de Guimarães Rosa: “mestre é aquele que de repente aprende”. Falar de arte-educação e contos de fadas dentro de uma cadeia como possibilidade de recuperação pode parecer, à primeira vista, mais uma utopia. Será que contadores de histórias e esses teóricos da arte-educação já entraram em uma penitenciária pelo menos uma vez na vida? Será que eles acham que contando histórias ou ouvindo as histórias dos presos, estes vão sair de lá bonzinhos e nunca mais voltarão ao crime? Certo é que por detrás de uma sociedade cada vez mais armada, onde as empresas de segurança proliferam e auferem lucros exorbitantes, onde crescem os condomínios fechados, onde impera a truculência policial, a violência urbana, os morros ocupados por traficantes e onde os altos índices de morte violenta causam indignação a poucos, há um sentimento: o MEDO.


Como disse o então Presidente da APAC de Itaúna, atual Presidente da FBAC (Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados), Valdeci Antônio Ferreira: A sociedade vive hoje o drama do medo. É como se ninguém mais pudesse se sentir seguro. Medo do terrorismo. Medo do tráfico de drogas. Medo da violência e da poluição. Medo do desemprego e da solidão. Medo da guerra e do abandono. Medo da doença e da velhice. Medo das balas perdidas e das balas não encontradas. Medo de que chova muito e leve as casas. Medo de que não chova e aumente a fome. Medo da fraude e da corrupção. Medo da

Os presidiários também vivem nesse constante estado de medo. Temem as fugas, as rebeliões, a doença, a morte na calada da noite, além de temerem o que está além do seu controle, no mundo exterior: a reação da família, a infidelidade do cônjuge, o rigor do julgamento e a (não) assistência do advogado. O medo funciona como uma doença, afetando o nosso bem-estar e disseminando insegurança. A cura, ou seja, a restauração da tranquilidade, é uma necessidade de todos nós. Valdeci Antônio Ferreira também percebeu esses sentimentos e concluiu: Nesse momento, me vem à memória as minhas avós já falecidas, minha mãe e meu pai em volta do fogão à lenha, comendo biscoito frito e tomando café. Recordo-me, com saudades, das histórias contadas e recontadas para afastar o nosso medo de criança. (...) Tem gente que conta histórias para afastar o medo; e essas histórias contadas e recontadas possuem o dom de encantar a vida.

Contra o medo – nosso e dos presos – acredito na contribuição da força da palavra do conto ou da palavra encantada ou, ainda, na força na “boa palavra”, que carrega consigo a sabedoria e a possibilidade de dar nova interpretação a fatos do passado que não podem ser mudados. A palavra do contador de histórias, trabalhada artisticamente, ganha o atrativo estético, que cativa e encanta o ouvinte, conduzindo-o até a sabedoria e aos ensinamentos guardados no conto. A arte permite que o ouvinte se integre ao que é sublime, enriquecendo a experiência. Na atualidade, o retorno da prática da narração de histórias obedece a uma necessidade que extrapola a intenção profissional do artista, mas favorece a função social da

Rosana Mont’Alverne

verdade que dói e da mentira que mata.

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prática e o bem-estar individual. A integração de um indivíduo mais equilibrado com o mundo ao seu redor é um dos efeitos que se destaca a partir do diálogo com os contos. Um presidiário é duplamente condenado. Primeiro pela Justiça e, nesse caso, cumpre pena pelos seus próprios delitos praticados. Não é o caso de, aqui, entrar nesse mérito. Quanto à segunda condenação, sim. A segunda condenação de um presidiário é pela linguagem. Esta o aprisiona num estado de pouca mobilidade, pois, muitas vezes, é pobre em imagens e vazia de sentidos; e, ainda que não o seja, a repetição incessante de um mesmo “trecho” da própria história – esse que o levou à condição de presidiário – tende a fixá-lo num estranho curriculum repetido como uma litania que, aos poucos, o caracteriza como lenda viva, que fascina e atrai a curiosidade mórbida em seu entorno. Muitos podem sugerir que a superpopulação carcerária, as condições deficientes de trabalho dos presos ou o ócio completo, a falta de higiene, a promiscuidade sexual, a assistência psicológica deficiente ou inexistente e problemas como corrupção e violência são fatores que precisam ser enfrentados prioritariamente. E estão certos. É preciso uma conjugação de forças, trabalho e método a fim de que se obtenha o ambiente propício para o plantio de sementes como, por exemplo, iniciativas no campo da arte-educação. No caso, as sementes das histórias. Mas é bom lembrar que, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, nem sempre podemos contar com as condições ideais para começar um empreendimento. Às vezes, é preciso simplesmente começar. Muito cedo aprendi que nada nessa vida vem de graça, tudo é fruto de esforço e muito trabalho, como dizia minha mãe. Também meu avô, com sua sabedoria de matuto, ensinava a evitar os atalhos nos longos caminhos a percorrer na construção dos sonhos: se atalho fosse bom, não existiriam os arredores, dizia, entre uma baforada e outra do cigarrinho de palha. Aprendi, mais tarde, que Gaston Bachelard lhes daria razão ao afirmar, na sua obra O direito de sonhar, que nada é dado, tudo é construído. Se é assim, tudo é possível, até transformar presidiários em cativantes contadores de histórias. Por que não?


u As prisões da miséria. Loïc Wacquant. Jorge Zahar Editor, 2001. u Mulheres que correm com os lobos. Clarissa P. Estés. Rocco, 1992. u Le droit de rêver. Gastón Bachelard. PUF, 1970. u Correspondências do cárcere: um estudo sobre a linguagem de prisioneiros. Rosana de Mont’Alverne Neto. Dissertação de Mestrado em Educação. UFMG, 2009, disponível em http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/handle/1843/FAEC84PJD5

Rosana Mont’Alverne

Leituras Inspiradoras

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Hist贸rias em sinais

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[Lodenir Karnopp]

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primeira aproximação que tive com pessoas surdas e a língua de sinais foi

Aatravés de Cursos de Libras e, posteriormente, como professora de português em uma escola de surdos. Aproximação que trouxe e traz rupturas, possibilidades, deslocamentos. Estranhamento diante da língua e da cultura surda. Fala suspensa, sinais que emergem, sinais que capturam o olhar e a atenção. Sinais que contam histórias. “Atenção aos sinais!” foram os enunciados propositivos nos cursos de Libras e nos diálogos com os surdos! Olhares atentos, histórias em sinais trouxeram-me experiências com a língua de sinais, uma língua que flui através de mãos que vão combinando movimentos, configurações de mão, pontos de articulação, expressões faciais e corporais, posicionando o sujeito discursivamente. Visual-gestual, modalidade de uma língua de sinais, que alavanca uma diferença na forma como tradicionalmente concebemos as línguas. Línguas de sinais que nos posicionam e nos jogam para outra experiência: aquela em que o logofonocentrismo é deslocado. Olhares atentos, mãos ágeis e a ressignificação dos enunciados – difícil, longo, constante, mas atraente aprendizado. A língua sendo tecida naquele espaço de enunciação em frente ao corpo, com sinais articulados em diferentes camadas linguísticas. Discursivamente nos posicionamos, as armas sonoras silenciam, possibilitando o cultivo de uma outra experiência, em uma comunidade que interpela nosso olhar, nossos sinais. Não é simplesmente um deslocamento da experiência linguística falada para outra, que é visual. Trata-se, antes de tudo, de considerar que há sinais que nos per-

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mitem olhar e outros que nos ensinam a olhar. Olhar a cultura, o sujeito, a língua. A experiência, e aqui com referência à experiência de uma língua visual, é aquilo que “nos passa, que nos acontece, o que nos toca”. A experiência que estamos referindo considera “aquilo que nos acontece, nos sucede”1. Fui paulatinamente me aproximando das histórias que são contadas em Libras através das mãos que contam histórias. No entanto, esse contato ocorreu após alguns anos de convívio com a comunidade surda. Como professora de português, meu olhar esteve muito centrado em ensinar português. Ao me aproximar da comunidade de surdos, conviver com amigos surdos e ler textos relacionados às experiências de vida de pessoas surdas, tanto em narrativas sinalizadas quanto em textos acadêmicos, encontrei outras possibilidades de diálogo, de trocas, de aprendizados. Aprendi, por exemplo, com Miranda (2001), pesquisador surdo, que a escrita na língua portuguesa continua sendo a camisa de força que limita e conforma o saber à capacidade de decifração gráfica. Muitos dos programas de educação fracassam, também porque parte-se do princípio de que a língua portuguesa deve ser igual para todos. E esses todos são pessoas tratadas como monolíngues, assexuadas, sem história ou idade, sem raça, sem emprego, sem desejos. O apagamento da diferença linguística e cultural tem historicamente posicionado o surdo como ‘deficiente linguístico’, prevalecendo o acento em uma tradição que rejeita a existência de uma pluralidade de manifestações linguísticas. Presenciamos cenas em que não se reconhece a situação bilíngue do surdo e se rejeita de forma intolerante qualquer manifestação linguística diferente. Diante de tais cenas, uma das maiores contribuições que contadores de histórias, pesquisadores e educadores de surdos podem prestar hoje é varrer a ilusão da “deficiência linguística” e trazer para o cenário outras histórias, outras imagens, outras narrativas, outras traduções, outras línguas, outros olhares. Apesar de mudanças significativas na legislação e de iniciativas de algumas instituições, o fato é que, há muito tempo, temos por parte dos surdos uma luta histórica tentando fazer valer a diferença linguística e cultural que lhes é devida, não somente 1. (Larrosa 2002, p. 24)


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nos espaços escolares, mas também na mídia e nos diferentes artefatos culturais. Sabe-se que há a predominância de uma única forma linguística, silenciando as manifestações linguísticas tecidas em outras línguas, como é o caso, inclusive, da Libras. Desse modo, é “emudecida a trova, são silenciadas as histórias antes contadas nas quermesses, põe-se para adormecer a memória popular, imobilizam-se as mãos e as narrativas que os sinais tecem.” (Souza 2000, p. 87) O desafio é, então, explorar as condições de possibilidade de um olhar sobre a surdez que não se limite à deficiência, limitação, incapacidade. Que não se limite a uma “aceitação” ou tolerância da língua de sinais. Aproximei-me de narrativas, de poemas em Libras através de histórias contadas por surdos em diferentes momentos: nas associações de surdos, nos encontros anuais da Feira do Livro em Porto Alegre, em escolas de surdos. Épicos, poemas, anedotas e contos foram capturando meu olhar, minha atenção, tornando-se um dos temas de pesquisa que venho realizando. O encontro com a literatura surda, com histórias contadas em sinais e com traduções de diferentes histórias traduzidas para a Libras foram trazendo a articulação de olhares entre/culturas. Esse movimento poético/ político evidenciou que “Os surdos começam a se narrar de uma forma diferente, a serem representados por outros discursos, a desenvolverem novas identidades surdas, fundamentadas na diferença (...)” (Skliar 1999, p. 12). Nas últimas três décadas, no Brasil, ocorreram importantes conquistas das comunidades surdas, em diferentes espaços, especialmente, o reconhecimento da cultura surda e a oficialização da Língua de Sinais Brasileira. Produções culturais de surdos possibilitaram a elaboração de outras representações sobre os surdos. Atualmente desenvolvemos um projeto de pesquisa intitulado Literatura Surda. Buscamos histórias que são contadas por surdos contadores de histórias em diferentes regiões no Brasil, em Libras, seja presencialmente (em Associações de Surdos, Escolas de Surdos...) ou virtualmente (internet, youtube). Quando analisamos a Literatura Surda, a primeira observação que podemos fazer é que ela tem uma tradição próxima a culturas que transmitem suas histórias oral e presencialmente. Manifesta-se

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nas histórias contadas em sinais; no entanto, o registro de histórias contadas no passado permanece na memória de algumas pessoas surdas ou foram esquecidas. Desse modo, quando analisamos as histórias contadas em sinais, percebemos formas visuais do registro dessas histórias, por exemplo, através da filmagem de histórias (fitas VHS, CD, DVD), de textos impressos que apresentam imagens, fotos e/ou traduções para o português. O registro da literatura surda começou a ser possível principalmente a partir do reconhecimento da Libras e do acesso à tecnologia, que possibilitaram formas visuais de registro dos sinais. As histórias contadas por surdos em línguas de sinais marcam a cultura surda, são caracterizadas pela experiência visual, corporificadas em prosa e verso de um modo singular, em que o enredo, a trama, a linguagem utilizada e os sinais evidenciam o caminho da autorepresentação dos surdos na luta pelo estabelecimento do que reconhecem como suas identidades, legitimando sua língua, suas formas de narrar as histórias, suas formas de existência, suas formas de ler, traduzir, conceber e julgar os produtos culturais que consomem e que produzem. Para a análise das produções culturais em comunidades de surdos, deslocamo-nos entre a diferença linguística e cultural, entre fronteiras definidas e limites porosos, entre pessoas que compartilham a experiência visual e o uso de uma língua de sinais. Como pesquisadores, preocupa-nos o fato de que o que aparentemente são “histórias que nos fazem rir” possam, no entanto, servir para nutrir caricaturas e estereótipos. Entramos em cena à procura de histórias e, às vezes, involuntariamente, caminhamos em direção ao campo das construções do “outro”, nutrindo uma política de representação que frequentemente contribui para uma caricatura das mulheres e dos homens surdos. Uma vez que coletamos histórias de nossos contadores, a próxima etapa a demonstrar dificuldade envolve a interpretação, a tradução e a intraduzibilidade. Quando analisamos e traduzimos histórias/narrativas produzidas em língua de sinais, nós – pesquisadores — estamos inclinados a sermos atraídos pelo exótico, pelo bizarro, pelo violento. À medida que fazemos uma reflexão sobre as narrativas em sinais, nos sentimos na obrigação de explorar meticulosamente a rotina, o cotidiano, a experiência


de ser surdo e usuário de uma língua minoritária, sinalizada. Reconhecemos que traduzir histórias pode apresentar diferentes possibilidades de análise. A convergência é improvável e, talvez, indesejável. Enfim, suscetíveis à contradição, à heterogeneidade e à multiplicidade, produzimos uma colcha de histórias e uma tela de sinais que conversam entre si em tom de disputa, dissonância, apoio, diálogo, contenda e/ou contradição.

u O nome dos outros. Narrando a alteridade na cultura e na educação. Silvia Duschatzky e Carlos Skliar. In: Habitantes de Babel. Políticas e poéticas da diferença. Jorge Larrosa e Carlos Skliar. Autêntica, 2001, p. 119–138. u Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Jorge Larrosa. Revista Brasileira de Educação. Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação, n. 19, 2002, p. 20-28. u Atualidade da educação bilíngüe para surdos. Carlos Skliar (org.). Mediação, 1999. (vol. 1 e 2) u Que palavra que te falta? Lingüística, educação e surdez. Regina Maria de Souza. Martins Fontes, 1998. u Contando histórias sobre surdos(as) e surdez. Rosa Silveira. In: Estudos Culturais em Educação. Marisa V. Costa. UFRGS, 2000.

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Palavras tรกteis

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[AnaLu Palma]

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ntrei na sala e encontrei uma plateia barulhenta, sentada de forma muito

Edesorganizada. Uma plateia que não se dispunha frontalmente ao palco, como é de hábito em apresentações. O espaço físico era preenchido por aqueles corpos numa composição incomum aos meus olhos necessitados de harmonia formal. Desejei criar frases em relevo no chão e em cada letra, dispor uma cadeira, alinhando palavras e corpos. Palavras táteis que organizassem, conduzissem e distribuíssem aquelas pessoas no espaço. Mas isso foi só um lampejo, habituada que estou a me valer das palavras para dar conta do inusitado. Tenho por costume sorrir para cumprimentar e para chamar a atenção. É uma espécie de cartão de visitas que captura o olhar do outro e me coloca na zona privilegiada do foco. Sorrio com o corpo todo e sei o que meu sorriso provoca. Contudo, não adiantaria nada este recurso. A menos que eu esculpisse pelas paredes meu rosto e convocasse todos ao toque. Imaginei diversas bocas escancaradas em alegria tátil, cumprindo sua função costumeira de simpatia. Isso era mais um raio de imaginação, buscando adaptar meios para resolver a realidade nova que se me apresentava. Inspirei fundo e escolhi a dedo as palavras que trariam para mim a atenção de todos. Pressenti que escolher a forma de dizer seria mais contundente do que as palavras em si. E como nos exercícios de leitura, imaginei uma mesma frase sendo dita com ternura, com veemência, com desleixo, com piedade, em tom de súplica. Ensaiei baixinho, só na minha cabeça. Quantas entradas diferentes eu poderia ter nesta mesma sala, quantas impressões diferentes poderia causar apenas pela maneira

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diversa de me dirigir ao público. Escolhi as palavras sopradas do coração. Súbito silêncio. E eu, tão afeita a silêncios meditativos, gostaria de assim permanecer. Procurar uma comunicação outra, cinestésica, sensorial, perceptiva, quando ondas calorosas e coloridas se comunicariam umas com as outras. E um turbilhão de auras tomaria a sala, deslizando livres e expressivas, comunicando os estados emocionais mais escondidos na alma. Todos os sentimentos se revelariam. Um mar de luzes interagindo, se harmonizando, se fundindo... Até que uma voz perguntou: Vai começar? Imaginei o barulhento: Começa! Começa! Começa! Abri o livro. Recebi o vento da folha (de) no rosto. Minhas mãos deslizaram pela página. Eu queria tocar as palavras, mas palavra de vidente é chata, amassada, comprimida. Minhas letras não são de arquiteto, afeitas ao carinho da pele. Desejei a textura do A, me aproximar do G, tocar o Q. As palavras não estão ao alcance de minhas mãos: tenho dedos que não leem. Elas se dão aos meus olhos, vejo-as. Queria tatuar em minha pele um poema de Pessoa em relevo. As palavras inanimadas do livro tomaram a forma dos estados de alma propostos pelo autor. Busquei um contato com a plateia através dos sons que emitia. As palavras saíam de minha garganta e meus lábios como pedaços de ideias tridimensionais. Assim, iam sendo transportadas e arquivadas na lembrança dos ouvintes. Eram pedaços imateriais a repercutir no espírito daqueles que me emprestavam os ouvidos. Minha voz queria ir ao encontro do outro, aniquilar nossas solidões, fazer unas as dores, angústias, paixões, alegrias. Minha voz articulada em palavras criava pontes unificadoras e humanas. Contar histórias para pessoas cegas abriu minha imaginação, porque precisei lidar com uma realidade completamente diferente da minha. Fez com que eu saísse de minha condição de quem enxerga para compreender o que era ser e estar no mundo sem poder ver o pôr do sol ou sem enxergar o rosto do homem amado. No contato com esta realidade pude compreender a escassez de livros disponíveis para os cegos e eu, tão afeita à literatura, decidi trabalhar, criando um acervo de livros


Do seu longínquo reino cor-de-rosa, Voando pela noite silenciosa, A fada das crianças vem, luzindo. Papoulas a coroam, e, cobrindo Seu corpo todo, a tornam misteriosa. 1. Aconteceu na Biblioteca Infantil da UNIRIO em novembro de 2008.

AnaLu Palma

gravados. Contudo, eu sozinha seria incapaz de dar conta do mercado editorial... passei a buscar aliados que ampliassem a quantidade de livros acessíveis: muitas vozes contando muitas histórias, com o propósito único de distribuir livros. A importância de contar histórias para as pessoas com deficiência visual é a mesma para aquelas que não o são, enriquece a vida, abastece a alma, dá profundidade à mente. Quando um novo livro se abre para que as palavras impressas se tornem som é o reencontro com o princípio: o verbo. Entretanto, esta estrada jamais foi de mão única. Quantas vezes sentei-me quieta enquanto alguma amiga não vidente abria seu volumoso livro feito de palavras em relevo, de palavras que não sei ler. Minha escuta perpassava várias dimensões humanas, até atingir a escuta interna de meu coração feliz, ritmado com as palavras tocadas e proferidas. Lindo foi ver crianças de uma escola diante de uma contadora de histórias cega1. As crianças alvoroçadas, incrédulas, perguntando como era possível com o deslizar do dedo construir frases. Elas queriam tocar também, não apenas as palavras, mas a contadora de história, para certificarem-se de que era real. Alguma coisa muito especial ficou gravada para sempre na memória daquelas crianças. Era a chance de compreender a diferença naquilo em que é mais potente: a diversidade humana, tão rica, tão bela, tão facilmente integrável. Se hoje minha voz é capaz de modulações variadas, devo aos ouvidos que precisei conquistar. Se hoje minha sensibilidade é aguçada, devo à utilização dos sentidos. Se hoje componho história é para aproximar os que enxergam dos que não enxergam ou que enxergam de uma forma diferente. Assim, formou-se o acervo de quatrocentos livros. Hoje, oito países que falam esta Língua com a qual me comunico com vocês poderão ouvir todos estes encantamentos.

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À criança que dorme chega leve,

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E, pondo-lhe na fonte a mão de neve, Os seus cabelos de ouro acaricia – E sonhos lindos, como ninguém teve, A sentir a criança principia. E todos os brinquedos se transformam Em coisas vivas, e um cortejo formam: Cavalos e soldados e bonecas, Ursos e pretos, que vêm, que vão e tornam, E palhaços que tocam em rebecas... E há figuras pequenas em engraçadas Que brincam e dão saltos e passadas... Mas vem o dia, e, leve e graciosa, Pé ante pé, volta a melhor das fadas Ao seu longínquo reino cor-de-rosa.2 (PESSOA, 1997: 562)

Leitura Inspiradora u A Voz do Ator Vidente: O Caminho Sonoro para o Ator com Deficiência Visual. Ana Lúcia Palma Gonçalves. In: Temas em inclusão: saberes e práticas. Aliny Lamoglia (Org.). Synergia, 2009.

2. PESSOA, Fernando. Obra Poética – Volume Único. In Poesias Coligidas. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguillar, 1997.


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E eles foram felizes para sempre. — disse a mãe fechando o livro. Demorou muito para eles chegarem lá? — perguntou o menino de quatro anos. Lá onde, meu filho? Eles não foram felizes para sempre? Onde é que fica esse sempre?

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[Regina Machado]

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ão é uma pergunta absurda. Não é uma pergunta banal. SEMPRE pode não ser um lugar para onde se vá, digamos, a pé ou a cavalo. Mas com certeza é um lugar onde se vive. Onde moram os contos milenares, sementeiros ancestrais da palavra que se renova, a todo instante e em qualquer espaço, na voz de cada contador ou contadora de estórias. Guimarães Rosa disse uma vez numa célebre entrevista: “Para quem vive no Infinito, como eu...” Penso aqui com meus botões, que o SEMPRE é um lugar dentro da gente, como outros que habitamos, dependendo da circunstância. Há o lugar do “imediatamente” para onde queremos ir quando aquele chocolate nos acena da prateleira. O lugar do “nunca mais” onde muitas vezes nos grudamos feito chicletes de sofrimento e saudade.E tantos outros lugares que compõem o quebra cabeças daquilo que acreditamos que somos nós. A imagem que me aparece do SEMPRE é a de um lugar vazio, que pode ser tudo e ter tudo. Não de qualquer jeito, desarrumado, uma bagunça, mas numa ordem absolutamente mutável segundo a gramática da Fantasia. É o lugar em que, quando criança, a gente brincava de cabaninha. A gente se metia embaixo de lençóis e colchonetes muito bem arrumados pra gente caber lá dentro com nossos travesseiros e o que mais desse vontade. Para viver o SEMPRE. O SEMPRE que nunca foi antes e nunca será outra vez, existindo só e apenas naquele instante, fora do tempo horizontal da História, da contingência.

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Um lugar para experimentar mil combinações do que é possível, para aprender o que pode vir a ser. Precisamente o que as estórias milenares nos convidam a fazer, num passeio pela paisagem mítica preservada humanidade afora. Que ecoa na nossa paisagem interior, aberta para nossa passagem quando estamos encantados. Sinto um pouco de pena das pessoas que confundem alhos com bugalhos. Então, nesse caso, por exemplo:“Os contos de fadas foram ridicularizados pela arte moderna e pelos freudianos como instrumento de alienação” (frase tirada do artigo: Disney, vida e fantasia de luzes e sombras, de Daniel Piza para o Jornal O Estado de São Paulo em 17 de maio de 2009). O encantamento não é alienado e também não é infantil. E os contos de fadas são um ramo apenas recente de uma árvore que existe desde que o mundo é mundo, enraizada no desejo de saber. E nem todos os freudianos concordariam com a afirmação acima, mas isso é uma outra conversa. O encantamento é um estado de conhecimento. A qualidade que acende sua vivacidade é o movimento perene e flexível da imaginação criadora. Uma qualidade forjada no SEMPRE que se manifesta nas mais variadas situações: nas formas da Natureza, nas brincadeiras das crianças (quando elas PODEM brincar), nas obras de artistas, de cientistas, nos mitos e nos ritos das culturas tradicionais, em todas as transgressões que transformam a História dos grupos humanos. Outro menino de quatro anos estava brincando com sua avó. De repente a corrente elétrica foi interrompida. No escuro, disse a avó: “Nossa, a luz caiu!” Logo em seguida tudo voltou ao normal. A avó outra vez: “Que bom, a luz voltou !” O menino, em silêncio por um certo tempo, abriu um ar de descoberta: “Sabe, vó, eu estava pensando. A luz caiu e depois ela voltou. Deve ser porque tem uma cama elástica dentro da parede!” (Caso contado pela avó, Eliana)

O SEMPRE é também um lugar de risco, da aventura de formular hipóteses, de


Regina Machado

alargamento do espaço do conhecido, como um salto livre para o que ainda não sei, para o que tenho vontade de saber, ou até para o que sei, mas não sabia que sabia. Digamos que não é exatamente na escola, na igreja, na família ou no ambiente de trabalho que as pessoas do mundo de hoje são convidadas a esse tipo essencial de busca de conhecimento. Mas é precisamente no SEMPRE da arte da Fantasia, onde os contos tradicionais milenares existem como expressão privilegiada e vigorosa, que esse convite é feito a qualquer um, criança ou adulto, sem cerimônia ou hierarquia, planejamentos ou dinâmicas de equipes de RH. É a própria estrutura narrativa, desenhada como uma rede de relações simbólicas, que pega cada um pela mão e a gente se vê num instante lá dentro da estória brincando de cabaninha, enredando nossa própria história nas ações dos personagens. Na nossa vida, todos os dias de manhã acordamos para o desconhecido, mas nós não nos lembramos disso. Nas culturas tradicionais os mitos, artefatos, cantos, danças e outras narrativas são documentos dessa lembrança, são símbolos. Os contos tradicionais são uma substância que armazena, perpetua e difunde conhecimento na forma de arte da Fantasia. Os contos dispõem uma situação que instiga nossa curiosidade, por meio de uma questão proposta logo no início da narrativa. E se a estória é boa, a gente se vê querendo saber “o que será que vai acontecer...depois” . E pouco a pouco, como uma espécie de contrário da alienação, que nos fixa no limite e na impossibilidade (“eu sou assim, sabe, o que é que vou fazer...”), podemos experimentar a liberdade do SEMPRE possível, num exercício de autonomia em que nos arriscamos a ficar horas dentro do ventre de uma baleia, a voar nas costas de uma águia, a conversar com um cavalo que é um príncipe encantado por um bruxo. Visitar esse espaço do SEMPRE dentro de nós, penso que é uma necessidade. Os contos tradicionais sacodem um lugar de confortável aparente certeza em que nos escoramos no dia a dia e desafiam em nós algum tipo de representação imaginária

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de limite. Enquanto acompanhamos o trajeto de um príncipe, de uma árvore, de uma mulher serpente, de um peixe sonhador, vivendo junto o desnovelar da narrativa, podemos experimentar possibilidades desconhecidas: E se fosse possível que eu fosse capaz de viver um amor desse tamanho, como o desse príncipe por essa jovem camponesa? Que eu vivesse uma generosidade tão grande? Que eu pudesse aguentar um medo, ou uma traição tão forte assim? E, de fato, quem sabe encontramos dentro de nós um espaço mais amplo, maior do que “imaginamos” que ele é. Pelo cômico, pelo trágico, pelo intrigante, pela experiência amorosa, pela aventura e risco, pelos obstáculos e ajudantes misteriosos, os contos surpreendem nossa percepção, dentro do SEMPRE, onde tudo é possível. E a gente que conta estórias sabe que não é só com as crianças que esse encantamento pode acontecer. Já cansei de ver adultos na plateia torcendo para o jovem herói acertar a flecha no ovo atirado para o alto pelo velho mestre, com gestos aflitos e OHS! de admiração, respiração suspensa e risos de alívio. Para aqueles que se esqueceram da maravilha desse tipo de experiência, o “faz de conta” é cuidadosamente esquartejado com as armas da razão, que ilusoriamente o rotula de “infantil”, “pueril”, “fuga da realidade” e outros que tais. Bem, se não fossem essas as mesmas pessoas que expressam, ou escondem, sonhos de se tornar um dia, quem sabe, o presidente da firma, a modelo famosa, o ator da Globo, o premiado não sei o quê, o próximo fenômeno do futebol..... Mais importante que tudo, penso que a Arte da Fantasia é a Arte do encontro entre pessoas. Eu não poderia dizer que esse encontro é impossível quando alguém está sozinho diante do computador apertando um ratinho mecânico, até, pode ser, escrevendo e lendo histórias. Meios são meios “para alguma coisa” e podem servir para encontros. Encontros no SEMPRE? Acho que não..


Dedico essas palavras à querida Mery Soucourouglou, nossa mama que se foi de vez viver no sempre

Regina Machado

Gente, não dá pra brincar de roda no computador. Parece que o SEMPRE, para acontecer, precisa na maioria das vezes do calor dos corpos sentados uns ao lado dos outros, da voz plena e do olhar brilhante dos contadores de estórias mirando nossos olhos. Das risadas, suspiros, mãos na boca e variadas caretas que os computadores até podem registrar, mas....... a respiração que anima todos esses gestos, eles não podem transmitir. A mesma respiração que leva pessoas juntas guiadas pela cadência das palavras encantadas, para além do horizonte visível. Para SEMPRE possamos escolher boas estórias, bem contadas, quando possível, por... (ainda existem muitos) seres humanos, com terra sob nossos pés e céu acima de nossas cabeças.

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O of铆cio de viver contando hist贸rias

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[Cristiano Mota Mendes]

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asci num tempo e lugar onde contar histórias era tão comum quanto apanhar

Nmanga madura em árvore ou caída na terra. Assim como frutos maduros jogavam

no ar seus cheiros, atraindo crianças e pássaros, as histórias contadas pelos mais velhos nos atraíam para viagens no maravilhoso da imaginação. Minha mãe e meu pai eram contadores de histórias de estilos bem diferentes. Benzinho, minha mãe, era eclética e sedutora em suas narrativas, que podiam começar em alguma versão ibérica de um conto de fadas e desembocar no Axixá, litoral maranhense. Eram histórias e estórias misturadas aos personagens da família e às toadas de bumba-meu-boi. Esta deliciosa transgressão das estórias tradicionais em apropriação particular, íntima, povoou minha infância e meu interesse vida afora pelas coisas que se mestiçam. Benzinho era cantora e adorava cantar, imprimia às suas narrativas, quase sempre, comentários musicais, a tal ponto que música e história se invadiam e vadiavam livremente sem nenhum compromisso com os limites normais dos significados. Não é à toa que eu e um dos meus irmãos, Ronaldo, nos tornamos músicos. Já seu Raimundo, nosso pai, fazia mais a linha cartesiana, com começo, meio e fim. Seus contares falavam quase sempre de bichos, rios e pássaros, índios do Pindaré, de Barra-do-Corda. Seu Mundoca, como ele era conhecido no interior do Maranhão, por onde vivia viajando, era um ambientalista romântico, andarilho, apaixonado por sua terra. Trabalhou no antigo SPI, Serviço de Proteção ao Índio, precursor da Funai, como seu pai, irmãos, primos e sobrinhos.

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Certa vez, contava ele, estava viajando no rio Mearim com um grupo de caçadores, quando avistaram um bando de macacos-prego numa árvore grande, perto da margem do rio. Um dos homens fez menção de apontar a arma para o bando. Imediatamente, uma das fêmeas mostrou para o grupo de caçadores o filhotinho que carregava às costas, como se dissesse: “não me matem, que tenho meu filhinho pra criar”. Esta história me marcou profundamente e creio que ela se mantém viva dentro de mim até hoje na compaixão e ternura que sinto pelos animais silvestres ou domésticos. Uma pequena história, na narrativa de um bom contador, é capaz de acompanhar e orientar um sentimento, contribuir decisivamente para uma formação ética e humanista. O ofício de contar histórias é um brinquedo mágico, misterioso e infinito. O contador de histórias desenha um caminho que vai dar no coração de quem o escuta. Se a tua Cigarra, contador, prenuncia a chuva ou se embriaga de néctar e jasmim, não importa. Se o coração do ouvinte, criança, adulto ou velho, não se hipnotiza por tua história é porque carece do sopro que acende a chama antiga feita de alma e paixão. Eros e Psique. Nenhuma narrativa, mito, causo, lenda, estória, resiste se não se atualiza dentro de quem escuta ou lê. Escutei mais de uma vez, de uma moça que trabalhava na casa dos meus pais, uma história de sereia que nunca esqueci. A Sereia, contava Teresa, se banhava nas águas de um poço, no quintal de sua casa, em Caxias no Maranhão. Não era mãe d’água de um grande rio ou do alto-mar. Ela apenas se banhava no poço e cantava na lua cheia com seus negros cabelos e nudez. Cada casa do interior do mundo tem um poço com mãe d’água. E cada sereia tem o sonho de um menino a visitar. Muitos anos depois leria histórias de um poeta cego que falava de sereias e de homens que tinham de ser amarrados aos mastros dos navios para não serem arrastados por elas ao fundo do mar. Alguns dizem que o tal do poeta não existiu. Talvez seja a mistura de muitos poetas que caminhavam pelo mundo contando histórias.


A Benzinho e Raimundo

Cristiano Mota Mendes

Independente das histórias e seus narradores, o mar sempre existiu e por volta dos 16 anos de idade me vi dono de um barco que se chamava Tucum. Seu cavername, espécie de esqueleto dos saveiros, foi trazido a reboque de Belém do Pará para São Luís do Maranhão pelo meu professor e sócio, Clemens Hilbert, um músico alemão aventureiro, que navegou por aqueles mares nos anos 1970 e 1980. A reconstrução do Tucum, num tosco estaleiro da Gamboa, bairro de São Luís, foi um acontecimento que não poderia esquecer. Dois mestres artesãos, irmãos, foram recolocando a madeira do barco, meses a fio, num processo complicadíssimo de construção e reconstrução, até que ressurgiu grandioso e belo como um enorme animal ressuscitado. Clemens parecia um menino de tão feliz. Era bonito navegar na lua cheia do delta do Parnaíba com um coração ávido por descobrir o mundo. Mais de trinta anos depois, uma outra história de barco me esperava. Foi no Etnodoc – Edital de apoio a documentários etnográficos sobre patrimônio cultural imaterial. Participei da gestão do projeto. Um dos filmes selecionados, O barco do mestre, do antropólogo e cineasta Gavin Andrews, documenta o ofício de fazer barcos na Região Norte e sua eminente extinção. Espero que isso nunca se confirme. Comecei a ler a obra de Guimarães Rosa mais ou menos na época que Tucum renascia das cinzas, ou melhor, das águas. Rosa disse certa vez ao crítico de literatura Günther Lorenz, que são as “estórias” que nos escrevem. No “Entremeio com o vaqueiro Mariano”, que considerava o maior vaqueiro do mundo porque conhecia a alma dos bois, escreveu que narrar é resistir. Encerro este artigo lembrando de amigos e colegas que estarão nessa hora contando histórias, no ofício mágico de viver contando histórias. Penso nesse tecido fino que vem de nossas almas. Penso nas histórias que nos fabricam o Ser e que nos fazem rir, chorar, encantar, refletir, educar e sonhar.

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Leituras Inspiradoras

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u Entremeio: com o vaqueiro Mariano. Guimarães Rosa. In: Estas estórias. José Olympio. u Nas águas do tempo. Mia Couto. In: Estórias abensonhadas. Nova Fronteira. u O vendedor de passados. José Eduardo Agualusa. Gryphus.


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O paciente como contador de sua pr贸pria hist贸ria: o olhar de um m茅dico homeopata

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[Conrado Mariano]

o P

ara toda história contada tem que existir um ouvinte, seja criança ou adulto,

Paluno ou não, espectador ou não, no meu caso, um médico, ofício que exerço

há pouco mais de trinta anos. Logo, ouço, por todo este tempo, histórias as mais diversas, engraçadas por vezes, comuns de outras, dolorosas em grande parte. Seja do ponto vista apenas físico, seja da alma, e, o mais comum, de ambos. Afinal, como homeopata não dá para ouvir o que a alma tem para contar sem ouvir também o que o corpo está falando, não apenas através do gestual, das atitudes, mas também, em boa parte das vezes, principalmente, dos sintomas físicos. Desde sempre fui considerado, por amigos e familiares, um bom ouvinte e admito que estão certos. Em todas as histórias ouvidas, a pouca interferência é necessária para que possamos ocupar o lugar do outro naquela história. É preciso que aquele que ouve, entenda a história pela perspectiva de quem conta. Muitas vezes histórias contadas por pessoas com outros hábitos, com outras culturas, outras maneiras de entender a vida, são muito diferentes das daquele que ouve. Mas uma coisa é comum a todos e não depende de nenhuma destas categorias: a emoção. Esta, sim, é universal. Não há ser humano, de qualquer parte do mundo, que viva sob seja qual for o regime político ou religioso, sob qualquer cultura, que não tenha emoções. Assim, fui treinando, durante a vida, esta arte de escutar, colocando-me sempre no lugar de quem conta. Sem julgar, sem avaliar, sem criticar, sem intervir, apenas ouvindo e buscando entender não apenas aquela história que me contam, mas o sujeito que a vive e a relata. Aprendi, com isso, que ouvir talvez seja a forma mais amo-

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rosa de acolhimento, desde que não tomemos como nosso o direito de julgar, determinar normas de vida, enfim, prescrever um estilo de vida para o outro. Temos que saber que quem conta sua história quer, antes de tudo, ser ouvido e compreendido. Só, mais nada. Só assim, penso eu, poderemos entender o que o outro está falando, na visão do outro, claro. Não adianta, neste caso, avaliarmos ou emitirmos qualquer julgamento, principalmente de valores. Importa sim, entender o outro. Não se trata de uma história arquetípica, ou que leve a uma reflexão ética, ou que nos traga uma mensagem que nos obrigue a pensar. Não é destas histórias que eu falo, pois estas devem ser contadas por profissionais experientes no ofício de contar histórias, por atores, atrizes, bailarinos e músicos, afinal as histórias não precisam ser contadas apenas oralmente. Falo não destas histórias, mas de outra: das histórias que são contadas por aqueles que vivenciam experiências durante sua existência e com elas constroem suas vidas. Pelo tipo de trabalho que executo, ouvir histórias faz parte do cotidiano e se aprende na faculdade – até hoje me lembro da aula sobre anamnese, estava no terceiro ano da faculdade — a “obter uma história” sempre a partir da anamnese que nada mais é do que uma investigação oral sobre os sintomas que o paciente nos relata. Assim, com determinados sintomas relatados, algumas perguntas feitas, bem objetivas, para algumas caracterizações, temos uma história clinica que, com alguns exames solicitados, vão permitir um diagnóstico e tratamento adequados. Não é da história clínica que eu falo, afinal esta é uma história guiada pelo médico, mas da história daquela pessoa que está ali com aqueles sintomas os quais, em si, falam da doença, mas não do doente. Para que eu possa ouvir e entender aquela pessoa sentada à minha frente, o relato tem que ser outro, acompanhado de sintomas clínicos muitas vezes, mas estes isoladamente são insuficientes para que eu possa lidar com o indivíduo que sente a dor. Diversas foram e são as histórias que ouvi. Dos mais diversos tipos de pessoas. Coisas que ouvi, as quais numa situação normal gerariam, inclusive, reações fortes, mas o papel de médico homeopata nos coloca de tal forma isento, visto que o mais importante no momento da consulta é a possibilidade de se entender o que o paci-


Conrado Mariano

ente nos relata e a maneira pela qual, peculiarmente, ela a vivencia. Busca-se identificar, nestes casos, a emoção que acompanha uma atitude. A intencionalidade emotiva da ação faz transparecer uma particularidade que mostra a identificação daquele ser: a sua essência. Certa vez ouvi dizer que ninguém é de todo mau nem de todo bom. Claro, não podemos pensar no ser humano de forma maniqueísta, afinal o bom e o mau existem em todos nós. Só somos bons porque conhecemos valores que são maus. Isso aparece no paciente e o homeopata consegue perceber isso pelos conceitos que aprende de homem, doença e cura. Uma paciente, um dia, me contou: “... me despedi do meu marido e saí, esqueci um documento e precisei voltar para casa e o ouvi ao telefone, pelo papo, desconfiei e não deu outra: ele tinha uma amante. Me descontrolei, estou neste estado que você vê. A forma como ele falou de mim para a outra me destruiu. Segui a mulher, cheguei a bater na casa dela, mas graças a Deus não havia ninguém em casa. Não sei o que eu faria. Entretanto, tenho que confessar: eu já o traí, com um amigo dele. Mas não suporto a ideia de ter sido traída por ele. Sei que estou sendo injusta, eu também já fiz isso, mas não consigo fazer diferente”. Este é apenas um trecho do que ouvi da história de uma mulher asmática. A asma, em si, me diria o quê? O que eu poderia fazer por uma pessoa com asma, além dos medicamentos específicos para o quadro? A asma, neste caso, é uma história, mas incompleta. Uma outra história mais ilustrativa disso se refere a uma paciente que me disse: “... tenho medo de mudanças, acabo deixando as coisas ficarem como estão, mesmo que não me agradem, mesmo que eu não esteja feliz, tenho medo de mudanças pois sempre acho que será para pior, não consigo me imaginar promovendo uma mudança na minha vida, mesmo pensando que seria para melhor e acabar sendo para pior, então fico nessa situação tão ruim tanto no trabalho quanto em casa”. Neste caso, o que a paciente apresentava era um quadro de mialgia, que se concentrava nas pernas. Pelas dores, era impedida de executar alguns movimentos, ou pelo menos os dificultava. Há um nexo entre o quadro emocional com o clínico, pois, para quem não consegue fazer movimentos de mudanças em sua vida, mesmo quando está infeliz,

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pode-se entender que os músculos não responderão de forma adequada aos movimentos solicitados. O corpo fala! Este último relato mostra como se pode ouvir o que ele nos diz e o relato de quem conta sua história apenas confirma e modaliza aquilo que está sendo dito pelos sintomas. Contar uma história, para nós, não se restringe a algo pontual, a apenas um período de uma vida, mas ao que aquela determinada pessoa teve de experiências ao logo de todo o período de vida até aquele momento. As emoções se repetem ao logo de nossas vidas, são elas que refletem nossa essência, são elas que nos identificam e são elas que permitem que tenhamos consciência de quem somos e como somos, do que gostamos, do que não gostamos, do que nos entristece, do que nos alegra. Do que nos dá raiva ou não. Enfim, são as nossas emoções que permitem que possamos nos conhecer. Elas permitem, assim, que possamos ser os atores principais de nossas vidas, que possamos ser, então, contadores de nossas próprias histórias.

Leituras Inspiradoras u Éthique à Nicomaque. Aristóteles. Trad. et presentation par Richard Bodéüs. Flammarion, 2004. u De l`âme. Aristóteles. Traduit par E. Barbotin. Belles Lettres, 2002. u La connaissance de la vie. George Canguilhem. Librarie Philosophique J. Vrin, 1975. u Ideologia e racionalidade nas ciências da vida. George Canguilhem. Edições 70, 1977.


:prosa final 213


As 谩guas da mem贸ria e os guardadores da corrente de hist贸rias

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[Maria de Lourdes Soares]

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1. Memória de Mnemosyne Musa ensina-me o canto / Venerável e antigo Sophia de Mello Breyner Andresen

Palavras cantadas. Na mitologia grega, Mnemosyne, irmã de Cronos (Tempo) e Okeanós (Rio-Oceano), é a deusa da recordação vivificadora. São as Musas, filhas de Mnemosyne e Zeus, que concedem ao aedo (poeta-cantor) o dom de cantar a Verdade (Aletheia, desvelamento), oposta ao Esquecimento (Lethe). Inflamado pelas Musas, o aedo transmite o conhecimento do que foi, é e será. Engendrando a memória coletiva através das gerações, as palavras cantadas (Musas) são, portanto, inseparáveis da memória (Mnemosyne). Por parte de Zeus pai, as Musas adquirem qualidades que lhes permitem acordar nos homens certas propriedades da memória. Não a memória absoluta, como a do personagem de Jorge Luís Borges, do conto “Funes, o memorioso”: incapaz de selecionar, pensar e esquecer, Funes acumula incessantemente memórias, “como um despejadouro de lixo”. Não o esquecimento total, como, até certo ponto, o do protagonista de Amnésia (Memento, do latim “Lembra-te”, no significativo título original), filme de Cristopher Nolan: Leonard não consegue guardar acontecimentos recentes e por isso fotografa pessoas que considera importantes e tatua em sua pele dados (faz-se corpo-livro com vários “memento”), na tentativa de posteriormente conseguir

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estabelecer nexos e reconstituir sua história. Tanto a memória prodigiosa de Funes quanto a memória volátil de Leonard são distúrbios decorrentes de forte traumatismo. Ambas as formas de totalidade são igualmente funestas para a identidade do indivíduo e da sociedade. O pesadelo da iminente amnésia coletiva pode ser gerado por imposição de governos totalitários, como em Fahrenheit 451, de François Truffaut (adaptação cinematográfica do romance homônimo, de Ray Bradbury), em que o pensamento crítico é proibido e os materiais escritos incinerados (o título refere-se à temperatura em que o papel entra em combustão). Guy Montag, um dos bombeiros encarregados de queimar livros, furta alguns para ler, e fica seduzido. Refugia-se, com outros dissidentes, na terra dos homens-livro, cada um deles identificado com o nome do livro que conserva “tatuado” na memória. A memória-dom conferida por Mnemosyne através das Musas conjuga harmoniosamente memória e não-memória: é seletiva, reflexiva, capaz de discernir o que se deve presentificar pela rememoração ou entregar ao esquecimento (lesmosyne), “para oblívio de males e pausa de aflições” (Hesíodo). A boa memória, portanto, implica seleção, esquecimento e pausa. Poesia e sabedoria bebem em Lethes e Mnemosyne, fontes de lembrar e esquecer. Nessa dialética, pulsa a vida. O Canto, a memória, o tempo. Ao invocarem a manifestação dessas forças numinosas, Camões (século XVI) e Sophia (século XX) reafirmam que as Musas são o princípio do Canto, inaugurando e alentando o sopro poético. Camões invoca Calíope, Musa da epopeia, para cantar “aqueles que por obras valerosas / se vão da lei da Morte libertando”. Sophia reinventa e celebra na sua moderna lírica a memória fulgurante da Grécia antiga. Se na sociedade moderna a memória não mais conserva o sentido originário, que permitia o conhecimento em êxtase e vidência, o poeta recita-a, recorda-a (recordar, trazer de novo ao coração) e, assim, preserva-a e lega-a ao futuro. Lançado num mundo dessacralizado, o poeta-cantor de nosso tempo – “tempo de indigência” (Hölderlin), “tempo dividido” (Sophia), de “homens partidos” (Drummond) – abre


2. Guardiões da memória, cerzidores da túnica inconsútil Não se pode perder, no deserto dos tempos, uma só gota da água irisada que, nômades, passamos do côncavo de uma para outra mão. Ecléa Bosi

Gente da palavra. Antigos aedos e rapsodos gregos (rápthein áoidén, aqueles que sabem costurar cantos), assim como os griots da África de nossos dias, são garantes da permanência da memória em sociedades fundadas sobre a tradição oral, em que contar histórias não é um evento à parte, mas algo constitutivo do próprio cotidiano. Com razão Alex Haley dirá: “quando um griot morre é como se toda uma biblioteca tivesse sido arrasada pelo fogo”. Guardiã das tradições orais, a cantadora-contadora Clarissa Pinkola Estés (autora de O dom das histórias e Mulheres que correm com os lobos) nasceu da confluência de duas linhagens: a das contadoras húngaras (mesenmondók) e a das latinas (cuentistas). Segundo o legado de que Clarissa descende, “acredita-se que as histórias são escritas como uma leve tatuagem na pele de quem as viveu”. Essa espécie de “escrita levíssima” faz lembrar as tatuagens dos griots, pergaminhos de palavras andantes, de aldeia em aldeia. As arquetípicas narradoras velhas e sábias são transportadas para os textos impressos da cultura letrada (nas maternas figuras de criadas, amas ou avós, como a Mamãe Gansa), que ficcionam a voz carinhosa da contadora e a memória de uma origem

Maria de Lourdes Soares

passagens para o poético, luta contra a opressão e o adverso olvido, faz-se porta-voz dos “silenciosos lábios”: “eu vengo hablar por vuestra boca muerta” (Neruda). Mesmo vivendo em tempos não-heroicos, insiste em salvaguardar seu “sentimento do mundo” e repassar a outras mãos, para a plenitude do que há-de vir, o fio da memória que atravessa a corrente de tempos: “Guardei-me para a epopeia / que jamais escreverei (...) recolhei meu pobre acervo, / alongai meu sentimento” (Drummond).

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ligada ao contexto da oralidade. Na verdade, relato oral e escrito se entrelaçam e retroalimentam: “a linguagem conduz da boca para a página e vice-versa, e a ‘oratura’, ou a literatura oral, no Ocidente não existiu de modo isolado desde os tempos homéricos” (Marina Warner). Às duas categorias de narradores postuladas e associadas por Walter Benjamin – a do camponês sedentário, que recolhe o saber do passado, e a do marinheiro comerciante, que traz o saber das terras distantes –, Marina Warner acrescenta a da fiandeira, “mulher madura com sua roca”, que se tornou “ícone genérico da narrativa nas capas de coleções de fadas a partir de Charles Perrault”. A esta linhagem pertencem também D. Benta e Tia Nastácia (Monteiro Lobato), inseparáveis repositórios do saber erudito e popular, respectivamente. Outra figura que remete às maternais contadoras de histórias e também às antigas deusas da fecundidade é a mulher de saia imensa, toda cheia de bolsos, que canta e conta histórias, “espiando papeizinhos, como que lê a sorte de soslaio”: “dos bolsos vai tirando papeizinhos, um por um, e em cada papelzinho há uma boa história para ser contada, de fundação e fundamento, e em cada história há gente que quer tornar a viver por arte de bruxaria. E assim ela vai ressuscitando os esquecidos e os mortos; e das profundidades desta saia vão brotando as andanças e os amores do bicho humano, que vai vivendo, que dizendo vai” (Eduardo Galeano). Contadores conhecem bem o seu ofício e, não raro, também escrevem lindamente. O contador – afirma Galeano – é alguém prenhe, “grávido de gente. Gente que sai por seus poros. Assim mostram, em figuras de barro, os índios do Novo México: o narrador, o que conta a memória, coletiva, está todo brotado de pessoinhas”. Cada contador – lembra Clarissa – sabe que “contar ou ouvir histórias deriva da energia de uma altíssima coluna de seres humanos interligados através do tempo e do espaço, sofisticadamente trajados com farrapos, mantos ou com a nudez da sua época, e repletos a ponto de transbordarem de vida ainda sendo viva. Se existe uma única fonte das histórias e um espírito das histórias, ela está nessa longa corrente de seres humanos”. Narrar, tecer, curar. Walter Benjamin, no artigo “Narrar e curar”, a propósito da extraordinária força de cura das mãos e da voz de uma mulher que contava histó-


Maria de Lourdes Soares

rias junto ao leito do filho enfermo, conjectura: “toda doença não seria curável, contanto que se deixasse levar suficientemente longe – até a embocadura – pela corrente da narrativa?” E conclui: “O acaricial desenha um leito para essa corrente”. Por sua vez, como educador e terapeuta de crianças gravemente perturbadas, cuja tarefa principal foi restaurar um significado na vida delas, Bruno Betelheim destacou, do conjunto da literatura infantil, os contos de fadas, por proporcionarem “as experiências na vida infantil mais adequadas para promover sua capacidade de encontrar sentido na vida”, ajudando a criança a lidar com a “perplexidade existencial”. Segundo o psicanalista, “o prazer que experimentamos quando nos permitimos ser susceptíveis a um conto de fadas, o encantamento que sentimos não vêm do significado psicológico de um conto (embora isto contribua para tal), mas das suas qualidades literárias – o próprio conto como uma obra de arte”, “uma forma artística única”. Nesse sentido, parafraseando Walter Benjamin, a arte pode ser terapêutica (ou revolucionária, pedagógica etc.) mas, enquanto arte, sem jamais abrir mão do valor estético. Clarissa Estés, contadora/cantadora e terapeuta junguiana, considera que as histórias “são bálsamos medicinais”, medicamentos que “fortificam o indivíduo e a comunidade”, amenizam “velhas cicatrizes” e dão “alívio a antigas feridas”, conferindo “movimento à nossa vida interior”: “o ofício de contar histórias” e “o ofício de ocupar as mãos” possibilitam a “criação de algo, e esse algo é a alma. Sempre que alimentamos a alma, garantimos a expansão”. A tecelã das narrativas. Xerazade, a célebre contadora de histórias que abre e fecha as Mil e uma noites, ao contar histórias para o sultão Xariar, cura-lhe a ferida interior, alimenta-lhe o espírito. Ao tecer, noite após noite, sua sedutora rede de histórias encadeadas, Xerazade literal e simbolicamente vence a morte. Narra para não morrer. Narra para que as histórias não morram. Salva, assim, a sua história e as mil e uma que transporta e entretece, por encaixe, no fluxo da narrativa, sempre aberto a mais uma – bela e vertiginosa metáfora do infinito. A teia-tecido entrelaça passado e presente, memória e imaginação, e envolve a todos – a contadora, a irmã Dinazarda, as outras jovens do reino, o sultão, o povo –, criando um imaginário comum em expansão. Na

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voz e nos gestos da contadora dotada de prodigiosa – mas seletiva memória (na medida em que escolhe as histórias do seu imenso acervo, recorre a estratégias e organiza a estrutura segundo sofisticadas técnicas) – vibram e ecoam muitas outras vozes. Ao evocá-las, de viva voz, a tecelã das narrativas a elas acrescenta a própria voz. Vozes que repercutem nos nossos dias, graças às versões e traduções da obra (Antoine Galland, E. Lane, R. Burton, J. Mardrus, Ferreira Gullar, Mamede Jarouche...) e às ficções que revisitam essa bela tapeçaria, como Vozes do deserto de Nélida Piñon. A astuciosa contadora – também excelente poeta e leitora, conforme a tradução de Galland – oferece a Xariar a arte de contar histórias, o prazer do ficcional. E o sultão deixa-se seduzir, acolhe esse dom, exercitando, noite a noite, a arte de ouvir. Como Xerazade, o contador é também, em príncipio, um grande ouvinte/leitor. Dotado de escuta atenta, precisa encontrar ouvidos disponíveis para acolher o legado de sua memória. Este é precisamente o humano desejo do androide Roy, líder dos Nexus 6, em Blade Runner de Ridley Scott. Com seu breve tempo de vida prestes a expirar, o último dos replicantes narra sua experiência a Deckard, seu caçador (também ele caça), a quem acabara de salvar da morte. Salva, assim, a sua narrativa e, através dela, a possibilidade de permanecer vivo na memória de Deckard e de seus futuros ouvintes: “Eu vi coisas que vocês nunca acreditariam. Naves de ataques em chamas perto de Orion. Vi a luz do sol cintilar no escuro, na Comporta Tannhausen. Todos estes momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva”. Narrar, cerzir: um dos cognomes de Riobaldo, personagem-narrador de Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa é justamente Cerzidor, ao entretecer, por arte de seu criador, diversos fios/vertentes que convergem para a caudalosa narrativa/rio de uma memória que transcende a vivência particular e regional – a travessia do “homem humano”. As grandes contadoras são hábeis fiandeiras, cerzindo, através do fio das histórias, o corpo e a alma, em cuja cisão reside a grande ferida do humano. “Seremos incólumes se não separarmos o corpo e a alma”, afirma Maria Gabriela Llansol, escritora portuguesa que cerze imagens em seus textos, insistindo em refazer a túnica inconsútil, em buscar o fulgor que nos foi roubado.


Maria de Lourdes Soares

A sageza do contador não consiste apenas em transmitir a sua experiência, nadando contra a corrente de “uma geral configuração traumática da modernidade” que quase emudeceu os narradores, mas também na capacidade de ser um elo na milenar corrente de experiência humana formada pelas histórias. Em cada contador vive uma Xerazade, “que imagina uma nova história em cada história que está contando” (Benjamin). Ou um Homero. No filme As asas do desejo de Wim Wenders “há um velho que se chama Homero e anda no mundo a contar histórias. Ele é o garante de uma experiência imemorial que se transmite. Num universo dominado pela celeridade da informação, é preciso recuperar o sentido da sageza e da experiência que apenas as histórias são capazes de dar. Histórias para adormecer, histórias para comer a sopa até o fim, histórias para seduzir. Alguma coisa decisiva sobrevive em nós através desse regresso do prazer do ficcional” (Eduardo Prado Coelho). Para que o círculo mágico da palavra se faça, refaça e propague. De mão em mão, de voz em voz, por dom e graça da arte de contar, ouvir e recontar. Na dialética entre tradição e inovação, permanência e mudança, sem a qual o templo das Musas (Museu) não será casa móvel, água viva, lugar de criação e disseminação, onde o conhecimento adquirido, ao ser rememorado, possibilite estabelecer nexos com o conhecimento novo. No canto alongado (Drummond). Na “continuação inventada” (Guimarães Rosa).

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De quem s達o essas vozes

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Affonso Romano de Sant’Anna, poeta, ensaísta e cronista com mais de cinquenta obras publicadas. Ministrou cursos na Universidade de Köln (Alemanha), Universidade do Texas (EUA), Universidade de Aarhus (Dinamarca), Universidade Nova (Portugal) e Universidade de Aix-en-Provence (França). Dirigiu o departamento de Letras da PUC-Rio. Presidiu a Biblioteca Nacional (1991-1996) possibilitando a criação do Sistema Nacional de Bibliotecas, do Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Proler), exportando a literatura brasileira e modernizando a instituição. Foi cronista do Jornal do Brasil e d’O Globo. Atualmente, escreve para O Estado de Minas e Correio Brasiliense.

Almir Mota, contador de histórias e autor de 16 livros de literatura infantil, incluindo temas ligados ao folclore e às paisagens históricas do Ceará. É idealizador e coordenador geral da Feira do Livro Infantil de Fortaleza. Ganhador do II Concurso Literatura para todos do MEC (2008). Idealizador do Bolsa de Letrinhas selecionada pela Bolsa Funarte de Circulação Literária 2010.

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Contadores de Histórias: um exercício para muitas vozes

Ana Luísa Lacombe, atriz desde 1980 e contadora de histórias desde

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2002, pesquisa a linguagem da narração de histórias associando-a ao teatro. Ganhou vários prêmios com estes trabalhos. É curadora do projeto “Sipurim – Hora da História” e do Café literário do Centro da Cultura Judaica e uma das fundadoras do Centro de Referência do Teatro para Infância que promove encontros e eventos para refletir sobre esta arte.

AnaLu Palma, mestre em Teatro pela UNI-RIO — Universidade do Rio de Janeiro. Pesquisa meios acessíveis e adaptações na literatura e no teatro para que pessoas com deficiência visual estejam capacitadas a produzir e consumir estas artes. Coordena o Projeto Livro Falado através da Oficina de Capacitação de Ledores, da criação de audiotecas e da Coleção Voz da Academia.

Augusto Pessôa, ator, cenógrafo, figurinista, arte educador, escritor, dramaturgo e contador de histórias. Bacharelado em Artes Cênicas (Habilitação em Interpretação e Habilitação em Cenografia) pela UNI-RIO — Universidade do Rio de Janeiro.

Bia Bedran, mestre em Ciência da Arte pela Universidade Federal Fluminense, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, graduada em Musicoterapia e Educação Artística, cantora, compositora, contadora de histórias


e escritora. Apresentou os programas “Canta-Conto” e o “Lá vem História”, na TVBrasil/RJ e na TVCultura/São Paulo. Escreveu dez livros, gravou oito CDs e lançou dois DVDs gravados ao vivo. Nos últimos anos, viaja pelo Brasil participando de eventos culturais e congressos, levando seus espetáculos para diversos

Carlos Aldemir Farias, antropólogo e professor; mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte; doutorando em Ciências Sociais pela PUC-SP; pesquisador permanente do Grupo de Estudos da Complexidade – Grecom/UFRN.

Carlos Eduardo Klimick Pereira, doutor em Letras (PUC-Rio), mestre em Design (PUC-Rio). Possui 17 anos de experiência com a criação de RPGs, sendo um dos pioneiros no Brasil na sua aplicação para fins educacionais. Atualmente trabalha em diversos projetos educacionais e é consultor lúdico-pedagógico da Cátedra UNESCO de Leitura PUC-Rio.

Célia Linhares, graduada pela Universidade Federal do Maranhão, onde iniciou a docência universitária. Obteve o mestrado em Filosofia e Sociologia da Educação em Michigan State University/USA, doutora em Filosofia da Educação pela Universidade Nacional de Buenos Aires e pós-doutorado em

De quem são essas vozes

palcos em teatros, escolas e praças públicas.

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Contadores de Histórias: um exercício para muitas vozes

Política Educacional na Universidade Complutense de Madri e na Universidade de Londres. Professora Emérita da Universidade Federal Fluminense.

Cléo Busatto, escritora e narradora oral de histórias. Mestre em Teoria Literária pela Universidade Federal de Santa Catarina e pesquisadora transdisciplinar/Cetrans. Em 2002 publicou seu primeiro livro infantil, Dorminhoco e não parou mais. Seguiram-se Contos e encantos dos 4 cantos do mundo (2003); Coleção Criança Segura, 3 volumes (2004); Pedro e o Cruzeiro do Sul (2006); Paiquerê, o paraíso dos Kaingang (2009); O florista e a gata (2010); Histórias de quem conta histórias (2010). Suas obras fazem parte de programas de leitura e catálogos internacionais como o Bologna Children’s Book Fair.

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Conrado Mariano formou-se em medicina em 1978, iniciou os estudos em Homeopatia em 1985, tem graduação e mestrado em Filosofia. Atualmente doutorando em História da Ciência na PUC-SP, dedica-se a estudar as Ciências da Vida.

Cristiano Mota Mendes, músico e compositor. Trabalha com teatro e leituras dramatizadas. Coordenador do Programa de Apoio à Produção de Documentários Etnográficos da Associação dos Amigos do Museu Edson Carneiro, do Rio de Janeiro.


Daniele Ramalho, atriz, contadora de histórias, pesquisadora e produtora cultural. Formada em artes cênicas com bacharelado em interpretação pela UNI-RIO — Universidade do Rio de Janeiro. Pesquisa literatura, cultura popular e indígena brasileiras, desenvolvendo programações e projetos sobre os temas, além de conteúdo para programas de televisão. Narrou mitos para o Canal Futura. de Performance da Universidade de Nova Iorque. Narrou mitos na programação do Ano do Brasil na França. Atualmente escreve roteiros com temas indígenas para programas veiculados nas TV Brasil e TV Cultura. É curadora do África Diversa: Encontro de Cultura Afro-Brasileira.

Edmilson Santini, ator, autor, cordelista, desenvolve, no Teatro Em Cordel, um repertório de histórias, em que se abordam diversos temas. Paralelo a isso, toca o projeto Oficinas de Criação e Recriação de Histórias em Cordel.

Edvânia Braz Teixeira Rodrigues, licenciada e especialista em Educação Física, pela Escola Superior de Educação Física de Goiás (ESEFEGO), mestre em Educação Escolar Brasileira pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Professora assistente do CEPAE/UFG, Integrante/Coordenadora do Grupo Gwaya — Contadores de Histórias da UFG. Atualmente é Superintendente de Desenvolvimento e Avaliação da Secretaria de Estado da Educação de Goiás, também coordena o Projeto de Incentivo à Leitura da Rede Estadual de Educação em Goiás.

De quem são essas vozes

Escreveu artigo sobre mitologia indígena e corporalidade para a revista do Instituto

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Contadores de Histórias: um exercício para muitas vozes

Eliane Bettocchi Godinho, doutora em Design pela PUC-

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Rio, atua como consultora da Cátedra UNESCO de Leitura PUC-Rio e docente de pós-graduação lato sensu no Depto. de Artes e Design da PUC-Rio. Coordena projeto de formação de professores de Ensino Médio com apoio da Faperj. Realiza pesquisas teóricas e aplicadas em Design e Formação do Leitor. Professora da graduação em Design da UniFOA — Centro Universitário de Volta Redonda. Atua como profissional de Design Gráfico e Ilustração, com ênfase em jogos narrativos, comunicação e semiótica.

Fernando Goldman, doutorando em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento no IE/Universidade Federal do Rio de Janeiro, Engenheiro Eletricista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestre em Engenharia de Produção, pela Universidade Federal Fluminense. Possui ainda Especialização em Gestão Empresarial pela Fundação Getulio Vargas. Desde 2007 é Presidente da Sociedade Brasileira de Gestão do Conhecimento — RJ. É engenheiro de FURNAS Centrais Elétricas SA.

Gilka Girardello, professora da Universidade Federal de Santa Catarina, coordenadora da Oficina Permanente de Narração de Histórias da UFSC e contadora de histórias da Biblioteca Barca dos Livros, em Florianópolis.


Grupo Morandubetá de Contadores de Histórias tem a seguinte formação desde 1991:

Benita Prieto, engenheira eletrônica, atriz, especialista em Literatura Infantil e Juvenil pela Universidade Federal Fluminense e em Leitura: Teoria e ções pelo Brasil e exterior. Escritora. Produtora cultural e idealizadora de eventos de Literatura e Leitura, podendo destacar o Simpósio Internacional de Contadores de Histórias. É presidente da Prieto Produções Artísticas e do Instituto Conta Brasil. Coordenadora da Red Internacional de Cuentacuentos.

Celso Sisto, escritor, ilustrador, contador de histórias, crítico de Literatura, especialista em Literatura Infantil e Juvenil pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal de Santa Catarina e doutorando em Teoria da Literatura pela PUC-RS. Tem mais de cinquenta livros publicados para crianças e jovens e é responsável pela formação de inúmeros grupos de contadores de histórias espalhados pelo país. Já recebeu vários prêmios, dentre eles o prêmio de autor revelação (1994) e ilustrador revelação (1999) da FNLIJ – Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Idealizador, coordenador e diretor artístico dos Seminários de Contadores de Histórias da Feira do Livro de Porto Alegre e da Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo.

De quem são essas vozes

Práticas pela UniverCidade. Contadora de histórias com mais de 2000 apresenta-

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Contadores de Histórias: um exercício para muitas vozes

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Eliana Yunes, criadora do Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Proler) da Fundação Biblioteca Nacional. É uma das pesquisadoras mais renomadas sobre temas de Leitura na América Latina, onde seu discurso teve uma imensa recepção, principalmente no México e Colômbia. Doutorou-se em Letras e Linguística pela Pontifícia Universidade Católica, PUC-Rio, e pela Universidade de Málaga, Espanha. Também é ensaísta, crítica e pesquisadora de temas relacionados com a Formação de Leitores, Infância e Cultura. É assessora da UNESCO para Políticas de Leitura, Coordenadora adjunta da Cátedra UNESCO de Leitura PUCRio, Consultora do CERLALC e do PNLL. Tem artigos e livros publicados tanto no Brasil como em outras partes do mundo, com ênfase no tema Leitura, bem como em Teoria Literária, Literatura Comparada e trabalhos interdisciplinares.

Lúcia Fidalgo, escritora, contadora de histórias, bibliotecária, professora universitária e mestre em Educação pela Universidade Federal Fluminense. Iniciou seu trabalho com a literatura infantil em 1989, na Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). À convite de Eliana Yunes, passou a integrar a primeira equipe do Programa Nacional de Leitura (Proler), desenvolvendo oficinas de contadores de histórias em todo o país. Como autora, conquistou o prêmio de Autora Revelação pela FNLIJ, com o livro Menino bom. Publicou mais de vinte livros de literatura infantil e juvenil, além de artigos para revistas especializadas.

José Mauro Brant, ator que participou em mais de setenta produções teatrais, dentre elas O Púcaro Búlgaro — Romance em cena de Aderbal Freire Filho. Desde 1993 pesquisa a linguagem dos contadores de histórias. Criou e produziu


diversos espetáculos sobre temas literários como: Contos, Cantos e Acalantos (que lhe valeu os prêmios TIM de Música e Rival Petrobras pelo CD homônimo) e Federico García Lorca – pequeno poema infinito que lhe valeu uma indicação para o prêmio Shell 2007 e teve o seu roteiro, parceria de Brant com o diretor Antonio

Júlio Diniz, doutor em Literatura Brasileira pela PUC-Rio, com Pós-Doutorado em Literatura Comparada pela Universidad de Salamanca, Espanha. É diretor do Departamento de Letras da PUC-Rio e professor associado na Área de Estudos de Literatura. Realiza consultorias e coordena projetos para instituições públicas e privadas, ONGs e empresas (Ministério da Cultura, Ministério da Educação, Secretarias Estaduais e Municipais de Educação e de Cultura, Rede Globo, Petrobras, Ampla e Leia Brasil). Publicou inúmeros artigos, ensaios e livros no Brasil e no exterior. Foi membro do Conselho Estadual de Cultura do Rio de Janeiro (2004-2006) e é pesquisador do CNPq.

Kika Freyre, contadora de histórias, psicóloga, arteterapeuta. Mestre em Sociologia da Saúde pela Universidade do Minho, Braga (Portugal) e doutoranda em Antropologia de Iberoamérica, na Universidade de Salamanca (Espanha). Pesquisadora da Faculdade de Ciências Médicas da UPE – Universidade de Pernambuco, no programa ‘A Arte na Medicina às vezes cura, de vez em quando alivia, mas sempre consola’.

De quem são essas vozes

Gilberto, publicado pela Imprensa Oficial, de São Paulo.

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Contadores de Histórias: um exercício para muitas vozes

Lene Nunes, estudou teatro no Tablado, fez curso de contadores de histórias

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com Gregório Filho, Miza Carvalho e Lorena Best. Tem grande atuação no Bairro da Maré do Rio de Janeiro como contadora de histórias no Museu da Maré, instituição pioneira no Brasil na preservação de memória das comunidades e na biblioteca municipal Jorge Amado da lona cultural Herbert Vianna. Coordena projeto de incentivo a leitura para crianças de seis a treze anos na biblioteca Elias José.

Lodenir Karnopp, professora adjunta da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no Departamento de Estudos Especializados e no Programa de Pós-Graduação em Educação (FACED/ UFRGS). Possui graduação em Letras, mestrado e doutorado em Linguística e Letras (PUC - RS). Desenvolve pesquisas no campo dos Estudos Culturais em Educação e na área de Linguística, com ênfase em Línguas de Sinais e educação de surdos. É bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Produtividade em Pesquisa 2, CNPq).

Marcio Allemand, jornalista, roteirista, diretor de institucionais e documentários. Compartilha histórias, poesias e palavras no seu blog http:// euseicozinhar.blogspot.com.

Maria de Lourdes Soares, mestre e doutora em Letras (PUCRJ). Professora de Literatura Portuguesa e Literatura Infantil e Juvenil (Univer-


sidade Federal do Rio de Janeiro). Especialista em teoria e práticas da leitura. Colaborou no Proler. Autora de Descobertas e Encontros , B.I. das Fadas e Bruxas, B.I. do Saci , B. I. da Iara, do Boto e de Iemanjá, B. I. do Pão no Brasil e Livro dos Acalantos.

gerente de projetos e programas educacionais e culturais; produtora cultural; consultora para implantação de programas e projetos. Pedagoga; especialista em educação da Prefeitura do Rio de Janeiro (aposentada); com especialização em Didática da Comunicação e em Técnicas de Projetos; promotora de leitura desde 1989.

Nanci Gonçalves da Nóbrega, pós-graduada em Literatura Infantil, Arteterapia e doutora em Ciência da Informação. É professora adjunta da Universidade Federal Fluminense, atuando na Graduação e Pós-Graduação do Departamento de Ciência da Informação e na Pós-Graduação do Instituto de Letras. Professora Visitante de inúmeras instituições, onde conversa sobre bibliotecas para crianças, narrativas e leitura – suas grandes paixões.

Paulo Siqueira, diretor artístico da Ópera Prima, dirigiu vários documentários, entre os quais Histórias de 2006. Dirigiu também várias peças publicitárias. Autor de Cajuínas, um romance, é atualmente coordenador da Óficina, oficina de cinema.

De quem são essas vozes

Maria Helena Ribeiro, professora alfabetizadora durante 12 anos;

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Contadores de Histórias: um exercício para muitas vozes

Regina Machado, graduada em Ciências Sociais pela USP, mestre em

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Educational Theatre na New York University, professora Livre Docente da Eca USP, escritora, pesquisadora de narrativas de tradição oral, artista educadora e contadora de histórias. Criadora e coordenadora do Encontro Internacional de Contadores de Histórias BOCA DO CÉU.

Rogério Andrade Barbosa, professor, escritor e contador de histórias. Publicou mais de setenta livros para crianças e jovens. Prêmio da Academia Brasileira de Letras em Literatura Infanto-Juvenil em 2005.

Rosana Mont’Alverne, mineira de Três Corações. Bacharela em Direito e mestre em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais. É fundadora do Instituto Cultural Aletria, em Belo Horizonte, MG, que é escola de formação e aperfeiçoamento de contadores de histórias, editora de literatura infantil e juvenil, produtora cultural e portal na internet www.aletria.com.br.


Deixe a sua voz no site www.simposiodecontadores.com.br e se desejar baixe gratuitamente a vers達o digitalizada do livro.

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[ Esta obra — idealizada e organizada por Benita Prieto e composta por Marcos Corrêa — foi impressa, durante a primavera de 2011, nas oficinas gráficas da Edigráfica, sobre papel Pólen Bold 120g para o miolo e Duo Design 250g para capa. As tipografias utilizadas foram Goudy Old Style T, Goudy catalog SC, Dalliance roman, Dalliance Flourishes & Hoefler Text Fleurons. A presente edição teve a tiragem limitada inicial de 1500 exemplares dos quais os primeiros foram numerados de 001 a 500 e presenteados aos participantes do Simpósio Internacional de Contadores de Histórias nas comemorações de sua 10ª edição.


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Contadores de Histórias: um exercício para muitas vozes  

Ensaios, entrevista e artigos de 35 contadores de histórias brasileiros. A arte da narrativa oral pensada, discutida e comentada por seus fa...

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