Page 1

capa

Efeitos da maconha no cérebro as discussões sobre descriminalização e legalização da cannabis sativa devem ir além da superficialidade de ser “contra ou a favor”. há fatores importantes a considerar, a começar pela necessária clareza na diferenciação entre uso medicinal e recreativo. no caso deste último, o debate de uma política de drogas deve levar em conta os potenciais efeitos nocivos da erva para os mais jovens, que configuram um importante grupo de risco

A AUTORA FERNANDA TEIXEIRA RIBEIRO é jornalista com especialização em neurociência 20

shutterstock

por Fernanda Teixeira Ribeiro


fevereiro 2016 • mentecÊrebro 21


capa

V

ocê apoia a descriminalização da maconha? E a legalização? Se sim, para uso apenas medicinal ou recreativo também? Neste último caso, deve haver restrições? Se essas perguntas soaram específicas demais e passou pela sua cabeça o pensamento “mas não se trata apenas de ser a favor ou contra o uso da droga?”, não se surpreenda. Apesar de ser um dos temas mais calorosamente debatidos em nossa sociedade, a maconha ainda permanece mal compreendida. Em parte, pela quantidade de informações desencontradas e superficiais geralmente divulgadas pela grande mídia e por grupos que têm interesses políticos e econômicos na proibição ou, também outro extremo, na liberação sem restriçõesda produção e comércio de Cannabis sativa. A desinformação sobre o tema tem custado a qualidade de vida de pessoas que poderiam se beneficiar do uso medicinal da planta em situações cuja eficácia já é comprovada: controle dos efeitos colaterais da quimioterapia (como náusea e falta de apetite) e dores crônicas são alguns exemplos. Isso já ocorre em 23 estados americanos e no Distrito de Columbia, que permitem o comércio e consumo da planta in natura para fins medicinais. A Food and Drug Administration (FDA), órgão de regulação de medicamentos nos Estados Unidos, autoriza no país a comercialização de remédios produzidos em laboratório a partir de componentes da maconha. Um exemplo é o Marinol, uma versão sintética do tetraidrocanabinol (THC), um dos principais componentes da planta (veja quadro na pág. 41). O remédio é indicado para controlar efeitos adversos da quimioterapia. Outro exemplo é o spray de uso oral Sativex, patenteado pela GWPharma, que combina extratos de maconha ricos em THC e em canabidiol (CBD) para tratar espasmos musculares da esclerose múltipla (que já é aprovado, na realidade, em mais de dez países). A FDA permite também

22

a comercialização de óleo de cânhamo (cannabis com baixíssima quantidade de THC, geralmente plantada para fins industriais) como suplemento alimentar. O composto é adquirido por várias famílias no país para controlar crises eplépticas em crianças diagnosticadas com síndrome raras, graças aos comprovados efeitos anticonvulsivantes do CBD. Em 2014, o óleo rico em canabidiol foi o centro de uma batalha judicial no Brasil, pois pais de crianças com epilepsias graves que ficavam sabendo dessa alternativa de tratamento não conseguiam importar o suplemento dos Estados Unidos, que era barrado na alfândega porque o canabidiol pertencia à relação de substâncias proibidas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A discussão se estendeu até o início de 2015, quando a Anvisa finalmente transferiu o canabidiol para lista C1, de substâncias controladas, que são possíveis de importar com prescrição médica. No mesmo período, o Conselho Federal de Medicina (CFM) autorizou o uso compassivo do CBD, isto é, a prescrição médica em casos específicos de epilepsias em crianças e adolescentes que não respondem a tratamentos convencionais. Mais recentemente, em novembro de 2015, o THC tomou lugar na discussão. A Justiça


divulgação

do Distrito Federal determinou que a Anvisa colocasse também esse componente na lista de controlados, considerando a situação de pacientes que poderiam se beneficiar da alternativa de tratamento com a substância (documento da decisão disponível em bit.ly/1YkBD0G). A Anvisa, porém, entrou com um embargo contra a decisão, ainda não julgado até o fechamento desta edição. O órgão comunicou à imprensa que já autoriza a importação de produtos com THC, desde que “os níveis da substância não ultrapassassem os de CBD”. Nesse contexto, pacientes que necessitam de medicamentos cuja dose de THC é maior ficam prejudicados. Por exemplo, o Sativex, remédio para esclerose múltipla mencionado anteriormente, tem quantidades ligeiramente maiores de THC que de CBD. A importação desse medicamento para uso pessoal pode ser tentada por meio de pedido formal à Anvisa, que avalia o caso individualmente. Tal como era feito com os compostos ricos em CBD quando a substância ainda era proibida (e tantos pacientes tiveram de recorrer à Justiça para conseguir a autorização para importar). O THC é principalmente conhecido por ser o responsável pelas alterações mentais, “o barato”, no uso recreativo da planta. Uma crítica comum à legalização da maconha medicinal

LABORATÓRIO GWPHARMA, que produz o Sativex, medicamento para esclerose múltipla que combina proporções dos canabinoides THC e canabidiol

in natura é a possibilidade de isolar os componentes da planta, como o CBD, em laboratório, o que garantiria uso mais seguro. A questão, porém, é mais complexa. Existe a hipótese de que CBD, THC e talvez outros canabinoides e demais componentes da planta trabalhem de forma sinérgica. “Isso pode aumentar certos efeitos fisiológicos e atenuar outros”, diz o neurocientista Sidarta Ribeiro, diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). “A cannabis tem dezenas de substâncias que interagem através dos mesmos receptores. O THC e o CBD, em particular, têm efeitos psicológicos opostos”, diz. “Do ponto de vista médico, é sempre mais interessante o uso isolado de canabinoides, de medicamentos com o princípio que causa o efeito desejado. Mas a ciência ainda não chegou a esse nível de sofisticação, levando em consideração que o uso de canabinoides isolados ainda não traz o mesmo efeito do uso fitoterápico da planta, com seus mais de 400 componentes, entre canabinoides, terpenos e outras substâncias”, explica o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, diretor do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Deve-se deixar os pacientes sem opção enquanto isso?”, questiona. fevereiro 2016 • mentecérebro 23


capa

ENTENDA AS DIFERENÇAS USO MEDICINAL Significa tanto o uso de medicamentos derivados de componentes da cannabis, sintetizados em laboratório, como de compostos feitos de extratos da planta. Ou mesmo o uso por inalação com intenção medicinal. As indicações são diversas e as proporções de canabinoides (veja ao lado) variam de acordo com o efeito desejado. USO RECREATIVO Busca os efeitos psicoativos da planta, como fluidez de pensamento, relaxamento, euforia – sensações que variam de acordo com o indivíduo e a qualidade e quantidade da droga consumida. Algumas pessoas podem sentir efeitos negativos, como confusão mental, medo e ansiedade. Cerca de 9% dos usuários recreativos tornam-se dependentes. Os sintomas que caracterizam as crises de abstinência são: irritabilidade, insônia e ansiedade, entre outros. POLÍTICA NO BRASIL A cannabis é atualmente proibida no Brasil, seja para qualquer tipo de uso. Portar a droga é crime, independentemente da quantidade. Os critérios que definem traficante (revendedor) e usuário (consumidor) não são objetivos, depende de quantidade e circunstâncias de apreensão, mas as penalidades são mais brandas no segundo caso. A exceção vale unicamente para remédios com maior quantidade de CBD que de THC, obtidos por meio de importação. LEGALIZAÇÃO Mudar leis de forma a permitir o cultivo próprio e produção de cannabis para comercialização. Pode contemplar somente o uso medicinal ou também o recreativo, dependendo de cada país ou, no caso dos Estados Unidos, estado. Nesse país, 23 estados e DC permitem o uso medicinal – quatro deles permitem também o recreativo. Envolve muitas discussões, pois demanda regulamentação. REGULAMENTAÇÃO É o que vai determinar o controle da venda e do acesso à substância. Interferência do Estado pode variar de acordo com cada país. Por exemplo: em alguns estados americanos, a maconha é vendida apenas para uso medicinal, em dispensários, com receita médica. Na Holanda, o uso recreativo é permitido em locais específicos, que vendem a droga com índices controlados de canabinoides, bem explícitos para o consumidor. DESCRIMINALIZAÇÃO Nesse caso, o porte da droga para consumo próprio deixa de ser crime, mas o tráfico continua sendo proibido. 24

THC X CBD São os componentes da maconha mais estudados. O TETRAIDROCANABINOL (THC) é o agente responsável pelos efeitos psicoativos da planta. Atualmente, é uma substância proibida pela Anvisa no Brasil. No exterior, é usado medicinalmente para tratar problemas como dores crônicas e efeitos colaterais da quimioterapia. O CANABIDIOL (CBD) tem efeito ansiolítico, antipsicótico e anticonvulsivante. É uma substância de uso controlado no Brasil, de forma que medicamentos cujo CBD é o principal componente podem ser importados, com prescrição médica. O Conselho Federal de Medicina (CFM) autoriza o uso compassivo da substância para tratar epilepsias refratárias em crianças e adolescentes.


shutterstock

CANABINOIDES X MACONHA (A PLANTA) Os canabinoides são componentes da Cannabis sativa. A planta contém mais de 400 substâncias, sendo mais de 70 delas fitocanabinoides. Os mais estudados são THC e CBD. Em países que legalizaram a maconha medicinal, pacientes usam tanto remédios produzidos em laboratório como a planta in natura, com as proporções de canabinoides definidas de acordo com os fins terapêuticos, geralmente inalada..

LUGAR-COMUM Se as discussões sobre o uso medicinal ainda estão permeadas pela desinformação, o terreno é ainda mais nebuloso quando o tema é uso recreativo. Em agosto do ano passado, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou a possibilidade de descriminalização (entenda o conceito no quadro na pág. 40) do porte de drogas para consumo próprio, autoridades surpreenderam com declarações superficiais e desprovidas de fundamento científico em relação à maconha. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, sustentou que “90% das pessoas expostas à maconha se tornam viciadas”. Apesar de dizer se apoiar em estudos, “Janot errou em dez vezes”, comenta Sidarta Ribeiro, citando estimativas apresentadas por pesquisas – cerca de 9% das pessoas que experimentam maconha tornam-se dependentes. Com o álcool, isso ocorre em 15%; com o tabaco, 33%. Os dados são de um estudo que comparou epidemiologia de uso e dependência de algumas substâncias, publicado na Experimental and Clinical Pshychopharmacology. Janot fez também comparações que soam absurdas para especialistas – mas que na verdade refletem lugares-comuns em nossa sociedade. Segundo ele, “o que causa a dependência química no uso do álcool é o abuso”, enquanto “o que faz a dependência no caso da substância entorpecente [e] o (...) simples uso, e não o abuso”. “A frase é um completo disparate”, diz Sidarta Ribeiro. “Contrapõe o álcool a todas as outras substâncias entorpecentes, propaga o mito da dependência automática pelo mero uso e ignora que entre todas as drogas é justamente o álcool a mais perigosa para a sociedade.” O procurador-geral fez outra declaração polêmica, Existe o risco de que envereda pelo campo que o uso precoce da moral: “Não existe direito constitucionalmente de maconha, assegurado a uma pesespecialmente se soa ficar em êxtase”. Uma há abuso, interfira opinião “sem fundamento no desenvolvimento jurídico, ético ou político”, na análise do historiador pleno do cérebro e Henrique Carneiro, profesno desempenho de sor da Universidade de São algumas funções Paulo (USP), especialista fevereiro 2016 • mentecérebro 25


em história das drogas. “O êxtase religioso, estético, filosófico ou puramente individual é um espaço sagrado da própria noção de liberdade”, diz. Para a antropóloga Bia Labate, pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (Neip), a discussão sobre drogas permanece “uma espécie de tabu cultural”. “O discurso médico é usado, no fundo, para defender determinadas ideologias, que estão muito além da questão ‘de saúde’”, diz.

COISA DE LOUCO Não raro o discurso proibicionista busca respaldo na psiquiatria. Uma das discussões mais complexas é sobre uma possível relação entre o consumo de maconha no começo da juventude e o posterior surgimento de transtornos psicóticos, em especial a esquizofrenia. Hipótese que deve ser analisada com ponderação e senso crítico. Na década passada, a discussão ganhou força quando a mídia disseminou as conclusões de um estudo longitudinal com mais de mil jovens neozelandeses publicado no British Medical Journal em 2002. Esse estudo relaciona o consumo de maconha antes dos 18 anos com o aumento da possibilidade de desenvolver psicose no começo da vida adulta. A pesquisa passou a ser amplamente citada em outros artigos. Os dados, porém, “não são suficientes para inferir correlação causal direta entre o uso de maconha e o surgimento de psicoses”, analisa o psiquiatra Luís Fernando Tófoli, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um dos muitos especialistas críticos a esse estudo. “Um problema é a dificuldade que esses estudos têm de controlar variáveis sociais que sabemos que, pela experiência clínica, influenciam no padrão de uso de drogas e o desenvolvimento de transtornos mentais”, diz. Ele aponta alguns dados: “A associação entre uso de maconha aos 15 anos e um diagnóstico formal de psicose desaparece quando os sintomas psicóticos foram controlados aos 11 anos de idade. Além disso, a associação simplesmente não acontece – nem com sintomas nem com diagnósticos – em pessoas com 18 anos ou mais”. Estudos mais recentes, aliás, contestam de forma mais consistente a associação entre uso precoce de maconha e desenvolvimento de esquizofrenia. Dartiu Xavier destaca um trabalho 26

da Universidade Harvard, publicado em 2014 na Schizophrenia Research, que analisou quatro contextos: jovens com esquizofrenia na família e que usavam maconha; com a doença na família e que não usavam; usuários sem ocorrência da doença na família, mas que fumavam; usuários sem histórico e que não fumavam. “Todas as possíveis combinações. A conclusão foi que o histórico de esquizofrenia na família era fator de risco para desenvolvimento do transtorno, mas não o uso de cannabis em si”, diz. A prevalência de esquizofrenia é relativamente estável no mundo todo (cerca de 1% da população). “Desde os anos 70 houve um aumento do consumo de maconha entre populações jovens. Se a relação entre maconha e esquizofrenia fosse de causalidade, deveríamos ter constatado aumento da incidência do transtorno”, analisa Xavier. A relação entre fumar maconha e o surgimento de sintomas psicóticos – o que não significa necessariamente um diagnóstico de esquizofrenia – ainda não é esclarecida. “Sabemos que o fato de uma pessoa fumar maconha de forma precoce e intensa está associado ao maior risco de desenvolver sintomas psicóticos”, diz Tófoli, destacando outra hipótese: “Existe, no entanto, a possibilidade de que a predisposição à psicose induza pessoas a consumir maconha com mais frequência que a média da população”. De qualquer forma, é consenso entre especialistas que pessoas com histórico familiar de transtornos psicóticos configuram um grupo de risco para o uso de maconha, levando-se em conta que a predisposição genética é, segundo vários estudos, fator para o surgimento dos sintomas. “Deve-se considerar a possibilidade de que a droga possa desencadear os sintomas psicóticos mais cedo”, diz Tófoli. “O início precoce de um transtorno mental grave é fator de pior prognóstico.” Como os sintomas psicóticos geralmente se iniciam na juventude, adolescentes merecem atenção especial no debate sobre possíveis efeitos nocivos da maconha. “Eu considero – e a maioria dos antiproibicionistas concorda com isso – que menores de 18 anos devem ser fortemente desencorajados a consumir maconha, não só pelo risco potencial de psicose, mas também pela associação


com maior risco de dependência de maconha e de uso de drogas mais pesadas”, diz Tófoli.

DESAFIO DE UMA eventual regulamentação do uso recreativo: evitar que aconteça com a cannabis o que ocorreu com o álcool e o cigarro há algumas décadas – uma intensa divulgação publicitária que associou essas drogas lícitas ao prazer e a um estilo de vida

canopy/corbis/latinstock

O CÉREBRO EM FORMAÇÃO Um equívoco frequente é considerar que o consumo de maconha é de todo inócuo. A noção de que a droga comercializada ilegalmente é um “produto natural”, sem nenhum tipo de consequência negativa, é extremamente deseducativa. Principalmente para pré-adolescentes e jovens. Por que um adolescente que consome maconha está mais sujeito a prejuízos que um adulto? Porque o cérebro humano não nasce “pronto”. Algumas regiões vão amadurecendo continuamente durante as primeiras décadas de vida. O lobo frontal, por exemplo, continua se desenvolvendo até por volta dos 25 anos de idade, conforme mostram estudos baseados em exames de neuroimagem. Nessa região, encontraram-se áreas associadas ao desempenho de funções mais “sofisticadas”, como direcionamento da atenção, planejamento de tarefas e reflexão, entre outras. Logo, existe o risco de que o uso precoce de maconha, especialmente se há abuso, interfira no desenvolvimento pleno do cérebro e no desempenho de algumas funções.

Há estudos que demonstram alterações anatômicas ou funcionais do córtex pré-frontal no caso de uso precoce e abusivo de maconha. No entanto, não há comprovação de que fumar maconha na adolescência cause problemas estruturais permanentes e irreversíveis. “Presume-se que estas alterações reflitam danos estruturais e que causem danos psicológicos, mas essa cadeia causal ainda não está elucidada”, diz Sidarta Ribeiro. Em parte isso ocorre porque é difícil separar o uso abusivo da maconha do uso abusivo de outras drogas, como álcool e tabaco. “Além disso, estabelecer que uma alteração cerebral corresponde a um dano estrutural é muito mais complicado cientificamente do que apenas mensurar uma alteração”, explica o neurocientista, fazendo referência a estudos que mostram que a interrupção do uso excessivo rapidamente melhora a cognição e o humor, o que indica que os efeitos deletérios do uso abusivo são ao menos parcialmente reversíveis. “O adolescente é um ser em processo de formação. Isso vale tanto para os aspectos cerebrais quanto para a estruturação da vida social e da personalidade”, diz Tófoli. De acordo com

fevereiro 2016 • mentecérebro 27


capa

PERGUNTAS E RESPOSTAS RÁPIDAS

shutterstock

Algumas dúvidas frequentes sobre o uso recreativo Adolescentes são mais propensos à dependência? Luís Fernando Tófoli: Sim, mas especialmente quando são expostos de forma descuidada. A resposta neurobiológica ainda está em construção, mas parece estar associada a uma imaturidade dos circuitos cerebrais que conseguem conter e circunscrever outros circuitos, que são associados às vivências prazerosas, vinculadas ao neurotransmissor dopamina. Note, porém, que há variações culturais que podem modu-

lar essa experiência. Se o ambiente “ensina” o consumo consciente, os riscos podem ser menos graves. Prejudica a aprendizagem? Sidarta Ribeiro: Embora alguns estudos sobre o assunto não tenham detectado prejuízos acadêmicos em jovens que fazem uso precoce, há evidências de que o uso precoce e abusivo pode propiciar síndrome amotivacional, depressão e desengajamento escolar. Também é importante lembrar que muitas vezes os estudos

o psiquiatra, as pesquisas desenvolvidas até o momento ainda não respondem de forma inequívoca se o uso precoce de maconha causa prejuízos permanentes no cérebro. As alterações cerebrais foram detectadas somente em estudos transversais e ainda não entendemos completamente o que elas significam”, diz. “Um risco ainda não completamente medido, mas que por uma medida de prudência é melhor assumir como existente, desde que fazendo uso de forma frequente.”

PROIBIR É SOLUÇÃO? A vulnerabilidade dos adolescentes se mostra à primeira vista um argumento a favor da proibição. Para os defensores da repressão, mesmo a legalização medicinal tornaria a droga mais acessível. “Essa ideia não se sustenta, porque a maconha hoje é altamente acessível. Ao contrário, a população jovem está muito mais exposta aos perigos não só da cannabis, mas da proibição associada a ela, por exemplo, tráfico e criminalidade”, diz Bia Labate. A antropóloga está entre os cientistas que defendem a ideia de que a legalização acompanhada de regulamentação (ver quadro na pág. 40) e campanhas de prevenção e educação podem controlar o acesso e uso da droga por menores de idade. A regulamentação também seria uma maneira de fiscalizar a qualidade da droga 28

que investigam o suposto impacto da maconha não controlam para fatores sociais, olhando só para o uso da droga em si, esquecendo que o ambiente social e familiar da pessoa é um importante fator de risco ou proteção. Deixa as pessoas “burras”? L.F.T.: Alguns estudos que indicaram associação de uso precoce com queda no QI estão sendo questionados por novos estudos que incluem variáveis sociais na análise, e não somente o uso ou não da droga.

que chega aos consumidores – a chamada redução de danos. A erva comercializada ilegalmente é misturada a uma enorme variedade de substâncias tóxicas para aumentar seu volume. “Dessa perspectiva, o autocultivo, seria a maneira mais segura de consumo”, diz Dartiu Xavier. O psiquiatra esclarece, aliás, um mito comum, o de que a maconha estaria ficando cada vez mais potente (e “perigosa”) por causa de um suposto aumento progressivo dos níveis de THC. “A maconha vendida aqui é baixa em índices de canabinoides. De forma alguma a realidade dos Estados Unidos, em que são cultivadas plantas com quantidades maiores de THC ou CBD, se reproduz aqui”. Nos Estados Unidos, a discussão sobre um suposto aumento do consumo da droga entre adolescentes por causa das mudanças na legislação em relação à maconha em alguns estados tem gerado uma “guerra de números e interpretações”, segundo Sidarta Ribeiro. Um estudo conduzido por Debora Hasin, da Universidade Columbia, mostra que uso de cannabis por adultos nos Estados Unidos mais que dobrou desde 2001 até 2013. No entanto, o mesmo grupo de pesquisa observou que esse aumento não ocorreu entre os adolescentes entre 1991 e 2014. Em artigo publicado na Lancet Psychiatry, os autores afirmam a ausência de evidências da relação entre legalização


Deixa as pessoas apáticas? L.F.T.: A chamada “síndrome amotivacional” não está comprovada. Sua ideia surgiu provavelmente da associação entre apatia e uso de maconha, mas desconheço dados que possam rejeitar a hipótese de que a associação possa ser inversa, ou seja, a de que pessoas que, por diversas razões, são apáticas, tenham maior tendência a fumar maconha. Mais uma vez, valores sociais, que muitas vezes não são medidos nos estudos, parecem também estar

em jogo nessa questão. No geral, porém, o consenso dos especialistas parece entender que a grande maioria dos fumantes de maconha não tem síndrome amotivacional. O que pais, educadores e adolescentes devem saber sobre maconha? S. R.: Acho crucial que os pais saibam que a maconha comprada na rua é contaminada e degradada, além de conter doses desconhecidas de canabinoides. O segundo aspecto relevante é compreender que para a maior

medicinal e aumento do uso recreativo entre adolescentes. Na Europa, relatório do Centro Europeu de Monitoramento para Drogas e Adição em Drogas não encontrou nenhuma associação nem mesmo entre prevalência do consumo de cannabis e descriminalização em diversos países europeus ao longo de dez anos. No início de 2015, a Associação Americana de Psiquiatria emitiu um documento se posicionando contra a legalização da cannabis recreativa por causa dos potenciais riscos para o desenvolvimento do cérebro de crianças e adolescentes. No entanto, a associação defende claramente a descriminalização por causa das consequências negativas que penalizações podem trazer. “O usuário está sujeito a discriminação, violência e achaque, o que contribui para uma experiência mental negativa, paranoide, persecutória”, comenta Sidarta Ribeiro. De acordo com o neurocientista, a campanha antitabagista no Brasil é um ótimo exemplo de como é possível reduzir fortemente o consumo (queda de 65% em 15 anos) com campanhas de esclarecimento e restrição do consumo em locais fechados. Dartiu Xavier concorda que campanhas direcionadas à juventude são fundamentais. O que chama atenção para a necessidade de olhar mais crítico ao contexto proibicionista. “Como regulamentar uma droga ilícita cuja produção e distribuição

parte dos adolescentes a maconha não oferece grande risco, mas para uma minoria psicologicamente vulnerável o uso da maconha é perigoso e deve ser enfaticamente desencorajado. Também é importante que os pais saibam que não existe uma maconha, mas várias maconhas, com características muito diferentes. Luís Fernando Tófoli, psiquiatra, pro­ fessor da Unicamp; Sidarta Ribeiro, neurocientista, diretor do Instituto do Cérebro

ocorrem à margem da sociedade?”, questiona. Tófoli faz uma comparação com o álcool. No Brasil, a regulamentação impede a venda de bebidas alcoólicas com gradação maior do que 50 graus, mas ninguém sabe dos teores de THC e CBD quando compra a droga. Os dois elementos têm fatores opostos: um estimula, o outro seda. Um pode proporcionar ideação paranoide e ataques de pânico, o outro parece ser antipsicótico e ansiolítico. “Só poderemos realmente cuidar da saúde das pessoas que usam maconha se puder ficar claro para quem consome quais são os teores dos principais canabinoides, que podem – e devem, na minha opinião, no caso do THC – ser controlados. Como fazer isso sem legalizar? Manter a maconha proibida significa manter a regulação dos canabinoides em mãos de quem não tem interesses vinculados à saúde pública”, diz. Para Bia Labate, um dos desafios da regulamentação do uso recreativo será evitar que aconteça com a cannabis o que ocorreu com o álcool e o cigarro há algumas décadas – uma intensa divulgação publicitária que associou essas drogas lícitas ao prazer e a um estilo de vida. “Há diferentes modelos de regulamentação, que variam da presença e centralidade do Estado para o livre mercado. Contudo, sem nenhuma regulamentação, a realidade é pior.”

PARA SABER MAIS Comparative epidemiology of dependence on tobacco, alcohol, controlled substances, and inhalants – Basic findings from the national comorbidity survey. James C. Anthony e outros. Experimental and Clinical Psychopharmacolo­ gy, vol. 2, no 3, págs. 244268; 1994. Cannabis use in adolescence and risk for adult psychosis: longitudinal prospective study. L. Arsenault e outros. BMJ, vol. 325, no 7374, págs. 1212-1213; 23 de novembro de 2002. A controlled family study of cannabis users with and without psychosis. A.C. Proal e outros. Schiz­ ophrenia Research, vol. 152, no 1, págs. 283-2888; janeiro de 2014. The impact of marijuana policies on youth: clinical, research, and legal update. Policy Statement – American Academy of Pediatrics. Pediatrics, vol. 135, no 3; março de 2015.

fevereiro 2016 • mentecérebro 29

Maconha: não basta ser contra ou a favor, é preciso entendê la