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PrecariAcções Agosto 2012

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Boletim organizativo e de luta dos precários

Editorial A crise não vai de férias Em Portugal faliram, desde o inicio do ano até Junho, 2698 empresas, o que significa um aumento de 48% face ao anterior período. Esta é uma das faces da destruição que este governo tem levado a cabo na economia portuguesa. Mas este não é um fenómeno isolado, os governos de Portugal, Espanha, Itália, Grécia têm sistematicamente devastado as economias dos seus próprios países com consequências sociais que todos sentimos na pele e com tendência a piorar. O facto é que independentemente do país, do partido que governe e das capacidades das pessoas que os encabecem, o resultado é sempre o mesmo. Porquê? Porque as medidas são sempre as mesmas. Corte nos salários, apoios sociais,serviços públicos, privatizações de empresas centrais do estado e endividamento do estado pelos apoios dado às instituições bancárias. Estas medidas de cortar em quem trabalha para dar aos bancos paralisam a economia gerando desemprego e pobreza. No fim de contas tiram a quem trabalha para atirar ao buraco do sistema financeiro. Alguns podem perguntar porque um governo destrói de forma sistemática, a economia do seu próprio país, ou mesmo porque é que os governos dos países periféricos da Europa têm todos levado a cabo este programa. Mais uma vez os factos mostram o que realmente se passa. Todo o dinheiro que se retira aos trabalhadores destes países através dos cortes é canalizado para a banca alemã e francesa através da dívida, permitindo que os lucros fabulosos se façam à custa dos povos dos países periféricos. Hoje a dívida estrangula a nossa economia, gasta-se mais na dívida do que na saúde e na educação. Temos de parar este roubo descarado e para que isso aconteça é preciso suspender imediatamente o pagamento da dívida e fazer uma auditoria que esclareça quanto se deve e a quem se deve. Não pode ser quem trabalha a pagar uma dívida que não contraiu.

AS NOVAS ALTERAÇÕES/ATAQUES AO CÓDIGO DE TRABALHO Estejamos atentos... Recentemente foi aprovada a Lei n.º 23/2012 que introduz a terceira alteração ao código do Trabalho vigente. Uma lei que foi negociada numa reunião entre o governo e os parceiros sociais para um suposto aumento do crescimento, competitividade e emprego de acordo com as imposições do memorando da troika. Memorando este que até agora, só fez piorar as condições de vida de todos os trabalhadores, cortando-lhes na saúde, na educação, no salário, entre tantos outros. Apesar destes esforços todos que estão a ser impostos aos trabalhadores, a despesa pública ainda não parou de aumentar e o estado deve ainda mais do que devia, para regozijo dos grandes bancos, investidores e especuladores aos quais a troika serve tão bem. Nas alterações que se poderão ler em baixo pode-se constatar que as mesmas só vão fazer diminuir a nossa carteira e baixar, de maneira geral, o valor pago pelo trabalho. Infelizmente, já se sabe que em reuniões onde os trabalhadores não têm voz, quem irá ser prejudicado são eles em benefício óbvio das empresas. E não são as direcções sindicais, sempre de mão dada com governo e empresas, que nos representam e muito menos nos defendem perante os ataques da troika. Apesar dos sindicatos serem estruturas fundamentais para os trabalhadores se mobilizarem, organizarem e reinvidicarem pelos seus direitos, as suas direcções viraram as costas à luta e preferem participar em reuniões vergonhosas de conivência com a troika do que chamar os trabalhadores à rua. Expomos de seguida algumas das alterações que nos afectam mais directamente: As horas extras são pagas com acréscimo de 25%, 37,5%, e 50% para a 1ª hora, 2ª hora, e feriado ou folga, respectivamente. Por se prestar trabalho num feriado a empresa deixa de ter que dar compensação do feriado a 100% e pode optar por pagar esse dia a 50% ou dar 4h de folga. A partir de 1 de Novembro as indemnizações por despedimento passam a ser 20 dias por cada ano de trabalho, salvaguardando-se os 30 dias para contratos e trabalho prestrado anterior a essa data. Se os dias de descanso do trabalhador são em dias úteis, estes não contam para efeitos de contabilização de férias, mas contam os sábados e os domingos. Não se reduz o número de dias de descanso, mas interfere na marcação de férias. O banco de horas individual tem que ser proposto por escrito pela entidade patronal ao trabalhador e considera-se aceite se este não se opuser, por escrito também, dentro dos 14 dias após conhecimento da proposta. Em relação ao banco de horas grupal, pode ser aplicado a todos os trabalhadores se 75% destes não se opuserem à proposta. Os trabalhadores têm que responder por escrito, em 14 dias, se não quiserem ver o banco de horas implementado. [1]


DEIXEM-SE DE BRINCADEIRAS E aumentem-nos o salário! Foi recentemente apresentada na IBM Braga a sala de convívio “Joga um joguinho se tiveres tempo” (esta é a nossa sugestão para nome) , toda apetrechada, com máquinas e aparelhos de diversão de vários formas e feitios para deleite dos advisors que arranjem tempo para lá ir. Durante as 9h a que somos obrigados a estar no nosso local de trabalho não há grande tempo para ir à sala de convívio. Durante os breaks os advisors não fumadores teriam uns 10 minutos bem contadinhos para uma partida qualquer ( esperando que estes advisors não precisem nem de ir à casa de banho nem de comer ), os restantes advisors já têm o seu break bem preenchido. Na hora de almoço, se sobrarem 20 minutinhos, uma pessoa quer é apanhar ar fresco e tratar da sua vida pessoal. É questão para nos perguntarmos se os nossos chefes acham que vamos chegar mais cedo ou sair mais tarde do edifício onde trabalhamos só por uma jogatina! O que os advisors precisavam não era uma sala de diversão. Precisavam sim mas de um aumento substancial do seu salário para poderem pagar as suas próprias diversões no mundo cá fora, já que o que se ganha só chega para pagar contas e e…

Um projecto que está sempre a crescer à custa dos advisors e a exigir cada vez mais deles, mas aos quais são negados sempre aumentos salariais desde que o projecto começou, dá-se ao luxo de gastar sabe-se lá quanto numa sala inútil de convívio que apenas existe para que o projecto IBM seja visto como um call center com condições e possa assim ser melhor cotado num ranking de call centers. Isto mostra-nos que afinal há dinheiro e todos sabemos que com o projecto a crescer há ainda mais dinheiro a entrar mas os advisors não lucram nada com isso. E toda a gente sabe que bem precisavam e que o merecem. Parece que os nossos chefes não estão atentos às notícias e não vêem que o custo de vida não pára de aumentar.

Já era hora de nos aumentarem a nós!

AOS NOVOS COLEGAS Bem vindos ao edifício da estação! Caros novos colegas, sejam bem-vindos! Em primeiro lugar, não hesitem em contactar-nos, quer para tirar dúvidas, quer para colaborar neste boletim organizativo dos trabalhadores de call center. Como já devem ter reparado, aqui pode encontrar-se um ambiente de trabalho tranquilo e incomum nos dias de hoje. Mas não se iludam, nem tudo é um mar de rosas. Preparem-se para trabalharem aos fins-de-semana sem tirarem qualquer vantagem disso, preparem-se para sair daqui depois da hora de saída (por vezes acontece atenderem chamadas que se prolongam até 30 min da hora de saída) sem receberem mais por isso, preparem-se para saberem os vossos horários com, no máximo, 2 semanas de antecedência (não podendo, por isso, planear as vossas vidas), preparem-se para controlarem todos os segundos do vosso dia porque os intervalos e almoços que ultrapassem mais do que o devido, independentemente da razão, são descontados no teu salário, preparem-se para vos serem exigidas coisas todos os dias que não fazem sentido nenhum. Todos os dias há alguma coisa que fazes mal: demoras mais de 1 min. a preencher as tuas notas, se não preenches as tuas notas detalhadas estás a falhar, se demoras mais de 11 min. por chamadas não estás a cumprir as tuas funções porque há muita gente à espera de ser “atendida”; etc, etc, etc. Prepara-te também para atenderes mais de 40 chamadas por dia, tendo apenas 3 a 7 segundos entra chamadas. Vais sair esgotado/a daqui... Quando chegares ao fim do mês e perceberes que perdeste €50 do teu salário porque te atrasaste pouco mais do que 30 seg. por dia, vais pensar na injustiça que é trabalhares esgotantemente e ser-te descontado todo esse dinheiro por mísereos min. de atraso (que por vezes nem atraso é). Se adoeceres ou se tiveres um acidente que te impossibilite de vires trabalhar um dia que seja, serte-ão descontados à mesma os €50... Não achas injusto? Este valor deveria estar contemplado no nosso salário, mas é mais vantajoso para alguém que assim não o seja. As empresas de trabalho temporário, que aqui nada fazem à excepção de intermediarem a nossa vida, é uma das empresas a quem isso interessa. Junta-te a nós para discutirmos estas e outras injustiças. Juntos somos mais fortes e só juntos podemos reivindicar melhores condições de trabalho.

Contacta-nos através de:

Email: precariaccoesbraga@gmail.com Blog: precariaccoesbraga.blogspot.com [2]

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