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PrecariAcções Setembro 2012

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Boletim organizativo e de luta dos precários

Editorial Editorial Greve Geral Já! O povo fez história mais uma vez. A manifestação de 15 de Setembro foi, provavelmente, a maior manifestação desde o 1º de Maio de 1974. A diminuição da TSU para os patrões e o aumento de 60% no desconto dos trabalhadores do privado e do público fez o povo transbordar de ira. As vozes de descontentamento e as palavras-deordem ecoaram em mais de 40 cidades. Foi visível e inequívoca a indignação dos trabalhadores, fartos de serem espoliados para pagar uma dívida que não foi contraída por eles, e dos reformados que depois de uma vida de trabalho vêem as suas reformas a serem saqueadas pela Troika e Passos&Portas. Ao lado de reformados, pensionistas, desempregados, trabalhadores do público e privado também estiveram jovens. Jovens cansados de terem o futuro amputado por um vínculo precário, onde a sombra do desemprego os persegue e não lhes permite, tão-pouco, sonhar com uma vida digna. Esta manifestação foi a resposta do povo às políticas de direita, foi a resposta cabal de quem não tem que pagar os submarinos do Portas, o roubo do BPN, os estádios do Euro, e as PPP ´s de Sócrates. Perante resposta tão maciça, o governo foi obrigado a recuar nesta medida, estando a conjecturar que outra forma usará para nos voltar a roubar. A maré popular que inundou as ruas não se deixa iludir, sabe que este governo tem de cair. É fundamental continuar as mobilizações e apelar às centrais sindicais que convoquem uma grande greve geral que derrube o governo. Está na hora de construir um futuro sem a Troika e sem a direita, é necessário que os partidos de esquerda anti-troika construam uma unidade de esquerda para fortalecer as lutas e forjar um governo de esquerda que suspenda o pagamento desta dívida para poder haver recursos para retomar a economia e dar uma vida digna ao povo.

ELES NÃO SÃO NOSSOS DONOS Novas ilegalidades na IBM Braga

A Adecco e a Raandstad informaram recentemente que os advisors que estiverem escalados para o último turno do dia são obrigados a ficar no seu posto de trabalho até que a linha fique vazia. Esta informação é passada por email como uma imposição e sem qualquer tipo de acordo ou discussão prévia. As empresas de trabalho temporário, que roubam metade do salário, acham-se no direito de usar e abusar dos trabalhadores obrigando uma pessoa a ficar mais tempo do que as 8h estipuladas no contrato. Em algumas linhas em que uma hora antes de fechar já têm 50 ou 100 chamadas em espera e tempos de espera de 10m a meia hora isto pode significar significar perder transportes ou não chegar a tempo a casa para estar com a família. Segundo o código do trabalho, para aumentar o número de horas que um trabalhador faz por dia (mais das 8h definidas em contrato) é necessária uma proposta feita por escrito pela entidade patronal, explicitando exactamente quando irá ser prestado o trabalho suplementar (hora extra), isto é, em que dia e em que hora é que pretendem que o trabalhador trabalhe mais daquilo que está estipulado em contrato, mais do que o período normal de trabalho. Como trabalhadores, tem-se o direito de aceitar ou não a proposta. Para se recusar o trabalhador só tem que responder por escrito (email também vale) a dizer que não aceita. Se o trabalhador não recusar no prazo de 14 dias a proposta é considerada como aceite. E se 75% dos trabalhadores não responderem a recusar, a proposta é imposta a 100% dos trabalhadores. Mas que fique claro, qualquer alteração ao horário de trabalho definido em contrato nunca poderá ser imposta unilateralmente pela entidade patronal.

Caros colegas de call-centerʼs, cabe a cada um de nós decidir o que fazer com o tempo para além do estipulado em contrato. Se queremos dar parte dele a quem paga salários de miséria ou se aproveitamos esse tempo para ter uma vida.

Código do Trabalho, artigos 197 a 231 Lei nº7 de 2009 dre.pt/pdf1s/2009/02/03000/0092601029.pdf [1]


AUMENTEM OS SALÁRIOS Somos bons e valemos mais Mais uma vez a Apple lançou um upgrade dos sistemas operativos, quer para ios quer para mac, que revolucionaram a forma de utilização dos aparelhos. Mais uma vez também fomos lançados para a linha de fogo sem termos um real conhecimento sobre as mudanças no novo sistema operativo e andamos nós à nora a tentar fazer o melhor para ajudarmos os clientes ao telefone. Para além desta limitação de conhecimento como advisors, que nos faz estarmos mais nervosos, menos confiantes em linha e mais stressados, ainda vêm as empresas de trabalho temporário que nos contratam implorarem-nos para fazermos horas extra e assim estarmos mais horas expostos às perguntas constantes dos clientes sobre as novas mudanças no software. Como os apelos vão dar a ouvidos moucos, porque os advisors não estão para fazer horas extras pagas ao preço da chuva, as empresas de trabalho temporários vão aumentando o nível de benesses que oferecem por essas horas extra. No entanto essas benesses são pôr-nos uns contra os outros, a matarmo-nos a trabalhar para apenas um de cada linha ganhar um ipod, que à apple custa uma pechincha. Vêm-nos dizer que este é um momento importante de crescimento das empresas, quer para Apple quer para a IBM, e que é preciso o contributo de todos mas ao fim ao cabo só querem que a gente dê mais de nós sem termos reais recompensas com esse esforço adicional. O que advisors queriam exatamente era ver o seu trabalho e esforço reconhecidos e que esse reconhecimento fosse demonstrado monetariamente, com aumentos nos salários e com pagamento de horas extra a valores atractivos. É preciso reconhecer que quem faz o call-center andar para à frente são os advisors que atendem milhares de chamadas todos os dias e isso deveria ser reflectido no nosso salário. Aqui é-nos apenas dado um kebab de agradecimento e siga toca a atender! Chega de menosprezarem o nosso valor como profissionais ao pagarem-nos uma ninharia! Chega de meterem dinheiro ao bolso à custa do nosso esforço!

BASTA DE HIPOCRISIA Viu-se, há pouco tempo, colegas a irem sozinhos a reuniões com os “chefes”, sem representação duma estrutura de trabalhadores, para serem confrontados com procedimentos utilizados em linha. Ouviu-se dizer que era devido ao registo incorrecto/nulo do email do cliente para fugir a uma possível avaliação negativa daquele. Viu-se, mais uma vez, colegas desaparecerem de repente do local de trabalho, que nem tempo para um adeus se teve. Ouviu-se, mais uma vez, em reuniões de grupo com vários advisors, sermões por parte dos “chefes” em relação aos procedimentos incorrectos utilizados para fugir ao dsat. Pensou-se - “Mas foram estas pessoas que nos ensinaram como fugir ao dsat através do que é chamado martelar email.” Ouve-se agora que é obrigatório logar todas as chamadas. - “100% de logging real!” dizem eles. Ouvia-se há uns tempos que, para fugir a dsats, devia-se não logar e compensar com outros casos. Pensa-se -”Será que irei a reuniões individuais com os bosses para me dizerem que vou ser despedido por não ter logado tudo? Como posso eu logar tudo e evitar levar dsats como eles pretendem?” Ouve-se dizer por parte deles - “Ai não! A culpa é vossa. vocês têm que ter posicionamento em linha. Quando o problema é claramente não técnico e o cliente está claramente desagradado com os procedimentos e condições apple, vocês, têm que o referir para o link do feedback. Se não o referirem é por isso que tiveram o dsat, e só por isso. Se referiram o cliente para o link e mesmo assim tiveram o dsat é porque fizeram alguma coisa mal em linha. Não se posicionaram correctamente com o cliente. O cliente nunca utiliza o survey destinado ao trabalho técnico do advisor para reclamar sobre a apple.” Isto é obviamente conversa de quem já não atende ou nunca atendeu chamadas na vida. Dizemos -”Parem com as hipocrisias. Já basta ter que ser o advisor a perder 50 euros do seu salário e arriscar-se a ser despedido por andar a limpar a cara da apple e suportar tudo que é reclamação no survey. Não nos venham ainda por cima dar lições de moral com as tretas de coaching de como evitar dsats que são destinados à apple”.

Contacta-nos através de:

Email: precariaccoesbraga@gmail.com Blog: precariaccoesbraga.blogspot.com [2]

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