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Cicinha confecciona em média quatro peças por dia. A renda da família quase sempre é complementada pelo dinheiro das costuras

cas. Após ter o meu primeiro filho, comecei a costurar para as minhas irmãs e amigas. Também fazia roupas para mim, mas até então nunca havia pensado em me profissionalizar.” Casada há 36 anos, tem em seu marido, segundo ela, o seu maior incentivo. Ali­ás, seu Airton, aposentado, é o maior crítico e é o primeiro a apontar as falhas. É o que mais enten­de quando se trata dos acabamentos das costuras. Já é famoso entre as clientes, é muito sincero, “às vezes até demais” comenta Adriana, amiga e cliente de Cicinha. Seu Airton fala o que cai bem em cada uma, afiado nos palpites. É porque ele já trabalhou com tecidos, em uma loja da cidade, ven­dendo para a maioria das costureiras de Juazeiro. Entre um café e outro – já que o café não pode faltar em sua casa - Cicinha sempre acolhedora, sorridente, adora um bom papo. Mas confessa que, apesar do seu jeito calmo, já brigou feio com algumas clientes. “Quando trabalhava para uma loja aqui da cidade, fazendo alguns reparos, como ajustes, me enviaram uma 46

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roupa de uma dondoca, esposa de um médico famoso, mas eu já estava com duas clientes em casa esperando terminar suas roupas. Aí ela queria que eu deixasse de fa­zer o que estava fazendo para ajustar um vestido para ela. Disse que o marido a esperava e que não podia demorar. Com aquele ar de arrogância, sabe?” Cicinha sempre muito calma e paciente, conta que con­tinuou o que estava fazendo. “Aí eu disse que podia estar até o papa esperando por ela, que só quando terminasse aquela costu­ra, podia atendê-la, daí ela saiu cantando pneu no carro. Depois o pessoal da loja me ligou, pedindo para agilizar o dela, eu disse que até faria o ajuste, mas ela que não pisasse na minha casa, porque eu a colocava para correr”, conta Cicinha aos risos. Ela diz que pretende continuar como costu­reira, pois, acha uma profissão bonita, “agradeço a Deus por saber costurar, pois muitas vezes a renda da família depende somente do dinhei­ro das costuras.” Cicinha tem em muitas clien­tes, amizades duradouras e verdadeiras. Muitas contam

seus problemas, suas frustrações, e ela, apesar de muitas vezes cansada, sempre as es­ cuta com paciência e uma boa xícara de café. Sonhos, insônias e trabalho A poucos metros da sua mesa de costura, a foto de um rapaz sorrindo com o diploma na mão deixa dona Maria de Lourdes Pereira orgulhosa. Ela se lembra de um período de muito esforço e sacri­fícios. Compondo roupas e sustentando vidas. Ela formou o caçula dos seus três filhos em me­dicina apenas com o dinheiro de suas costuras. Autodidata, fazia uma costura vez ou outra. Não tinha tantas clientes. Não trabalhava para manter a família, apesar de suas costuras ajudarem no orçamento. Quando os dois filhos mais velhos casaram e for­maram suas famílias, a situação financeira na casa de Maria de Lourdes entrou em crise. Agora cada um tinha a sua própria família para sustentar. Além disso, nesse mesmo período, o seu marido adoeceu e precisou parar de trabalhar

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Laboratório de Jornalismo Impresso Curso de Jornalismo - UFCA

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