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diz: “só sei que, pra encurtar a história, desde então até hoje não parei de comer cimento”. “Comer cimento” é como Jaime chama seu ofício. Do trabalho de fazer ladrilho, produzir os mosaicos, o ingrediente principal das peças é o cimento. Usa para misturar, para endurecer a peça, para chupar a água que sobra da tinta. O contato com ele é continuo e torna quase insalubre o ar da fábrica. As condições são artesanais para a fabricação do ladrilho. De um a um, no processo manual, contato direto, sem roupas especiais ou proteção, mesmo se a produção for em larga escala, faz com que os quatro homens que trabalham com Jaime convivam com a terra, a poeira e o cimento a todo momento. Jaime ainda brinca. Diz que depois de tantos anos trabalhando com o cimento tem receio de tomar banho e acabar por virar pedra. E mesmo tão ríspido, o ofício de “comer cimento” pede atenção, tato e suavidade. Desde o preparo das tintas, que levam em média cinco materiais cada cor, até a precisão de despejá-las nos moldes, como um tiro certeiro. Formas em trânsito Os dois tipos de ladrilho mais produzidos são para uso externo, como calçadas e praças; e para uso interno, o ladrilho decorado, que dá vida aos locais onde são dispostos. Ao todo, a fábrica conta com 215 modelos de mosaico. “Eles estão todos aqui, mas eu não ‘amostro’ para o pessoal, porque tem uns que são muito delicados, pequenos e a gente não faz mais”. Hoje ainda são produzidos em torno de 50 modelos de ladrilho. Em 1957, conta Jaime, o ladrilho hidráulico era sucesso no Nordeste. Em toda esquina haviam ladrilhos. “Naquele tempo a moda era o mosaico”, lembra. E bem sabe que o mosaico, de tradição europeia, veio tomando popularidade no lugar do 32

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mármore, demasiado caro, e mais bonito que a cerâmica. Nem precisa de fogo no seu processo. “Os portugueses e os espanhóis foram os primeiros ‘inventadores’ de mosaico, sabe?”. Seu Jaime diz que muitos viajantes vinham de São Paulo até Barbalha para trazer desenhos de mosaicos e vender aos donos das fábricas. E conta mais, diz que os modelos eram tão perfeitos que não se chegava a ver as soldas. “Hoje ninguém faz mais [...] Esses, que vieram de São Paulo, a gente tem o maior cuidado para não quebrar.” Jaime sabe que o melhor resultado se tem quando as ferramentas e

o operário estão na sua melhor condição. Das formas que variam, das cores que se mesclam no quadro das combinações aleatórias ou intencionais, o mosaico toma forma, se transforma na arte que Jaime ajuda a criar. E criou muito. “Nós rodamos levando mosaico para todo canto. A gente fazia para Mauriti, Brejo Santo, Serra Talhada, Salgueiro... Temos mosaicos de Alagoas a Belém, do Pará”. Lembra saudoso que carregava dois carros Chevrolett cheios de mosaico e despachava por esse Brasil. Em Crato e Barbalha, elaborou muito mosaico para compor o desenho das casas. “Tem muita casa do

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Laboratório de Jornalismo Impresso Curso de Jornalismo - UFCA

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