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um misto de fé, prática cultural e medicina popular, as rezadeiras mantêm viva a esperança de cura do corpo e da alma. Não importa se o problema é mau-olhado, espinhela caída, briga de marido e mulher ou quebranto: as rezadeiras conhecem remédio e tratamento para tudo. O ritual se reveste de mistérios. Símbolos sagrados, rezas, rosários, sal, água benta, cordão e nomes de santos envolvem o solo sagrado da casa das rezadeiras. Remete às divindades protetoras de origem africana, indígena e européia. Imagens de santos espalhadas pelas paredes demonstram o sincretismo religioso. A atividade é realizada geralmente por mulheres, que não cobram pela reza. Os gestos nunca são ensinados ou aprendidos, mas sim revelados, segundo elas, pelo “Divino”. O estudioso das religiões, escritor Giorgino Paleari, em seu livro “Religiões do Povo”, define as múltiplas funções das rezadeiras na vasta e rica Cultura Popular: — Dependendo de cada situação social ou histórica, a religião assentada numa cultura popular pode ser fator de identidade popular, de resistência diante da cultura dominante ou oficial. Portanto, o ofício das rezadeiras é a resistência diante desta cultura dominante dos meios de comunicação e das religiões oficiais que as discriminam. Na vila bom Jesus, uma comunidade próximo ao Horto, em Juazeiro do Norte, encontramos duas histórias de vida intrigantes de rezadores. A primeira é a de dona Enôi Vieira. Uma mulher simples, 62 anos, que usa um enorme terço em seu pescoço e um pano amarrado na cabeça. Ela tem uma história singular. Mora na Vila Bom Jesus há quarenta anos. Aparentemente é uma figura normal, mas com o lenço ganha algo mítico. Rezadeira profissional nunca cobrou um tostão dos pacientes.

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Ela tira o sustento da agricultura, da roça de milho. Quando não está na roça, nem rezando, arruma a casa. O tempo de Dona Enôi é bastante corrido. Enôi Vieira é uma alegre e feliz rezadeira. Tem uma característica intrigante de alegria, sorrisos, gargalhadas repentinas. Nasceu em Juazeiro do Norte e atende seus pacientes geralmente em casa. Se descobiu rezadeira por volta dos dez anos de idade. Ela conta o começo da sua vida de rezadeira. — Eu nem sabia, mas descobri que eu tinha o dom de rezar, sabe por quê? Porque eu trabalhava na roça, né? Aí tinha dia que minha irmã Ciça dizia assim: ‘Enôis eu estou com dor de cabeça’. Aí eu dizia assim: ‘vou rezar na sua cabeça’. Ela dizia assim: ‘Como tu vai rezar na minha cabeça?’ Aí eu dizia: ‘Vou rezar de dor de cabeça’. Eu mandei ela parar e me levantei, peguei um galho de pé de pau bem verdinho, tirei quatro raminhos, e dizia assim: ‘sustente isso aqui, para o mal que está em sua cabeça ir para esse raminho aqui. Vou rezar um Pai Nosso e uma Ave Maria e uma Salve Rainha em você e sua cabeça. Se você tiver fé, vai ficar boa, Ciça’. Aí eu sentava ela numa pedrinha e começava a rezar um Pai de Nosso. Depois de um Pai de Nosso, eu rezava uma Salve Rainha. A língua das rezadeiras Enôi explicou que a sua força e determinação em rezar partiu de sua mãe, Maria. Ela conta que a mãe reunia todos os irmãos para rezar. Pressentindo que sua filha (Enôi) seria uma rezadeira no futuro, tratou de avisar a todos que ela era “curada”, que significa abençoada na língua dos rezadores. Dona Enôi diz que as crianças são seu principal alvo de cura, não que os adultos sejam descartados. Mas ela tem um motivo para isso: — As crianças não possuem

uma carga tão pesada quanto a dos adultos. Os velhos são muito carregados pra mim, tenho que me prevenir para poder rezar, né? ” E completa assinalando que, apesar de não saber ler, buscou um meio de ter sua assinatura registrada. — Hoje sou rezadeira, sou parteira, só não tenho as luvas, e nem sei ler, mas aprendi a escrever meu nome para me aposentar. Quando eu ia fazer 55 anos, entrei na escola para fazer meu nome, com dois meses já estava assinando. Dona Enôi além de rezadeira, parteira e dona de casa, busca sempre

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Laboratório de Jornalismo Impresso Curso de Jornalismo - UFCA

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