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dio ou o rádio tivesse sido criado para mim. Só que na segunda-feira veio a grande surpresa: ao invés de me pagar os oito dias que trabalhei, como determinou o diretor, ela trouxe uma carta de ABC, uma tabuada, caderno, lápis e borracha e me perguntou se eu tinha feito todo meu trabalho (lavar, espanar, varrer). Foi quando ela disse: “Senta aqui. A partir de hoje, você só será liberado para o almoço e jantar, depois de eu dar a lição.” Em 90 dias aprendi a carta de ABC. Noventa dias depois ela me levou à escola do Comércio, que tinha como diretora, dona Susana Sobreira, que fez um teste comigo para ver que ano eu acompanharia. Ela disse: “Olha Irene, o menino é muito evoluído, dá para ele seguir o primeiro ano.” Nós já saímos da escola, direto para o comércio, quando ela comprou o livro que a escola adotava. Comprou também um caderno de caligrafia. Eu estudei três anos e depois me mudei para o tradicional Colégio Salesianos e lá, praticamente, conclui o segundo grau. Aí foi quando veio a primeira proposta para eu me transferir para Petrolina, abrir e administrar um departamento esportivo. Como você se tornou narrador esportivo? Um ano depois de chegar ao rádio, eu já estava sendo controlista. O controlista era quem bota o disco, abre microfone para o locutor, essa coisa toda. Só que eu chegava à rádio imitando o locutor que nós tínhamos, chamado Dalton Medeiros, narrador esportivo. Era como se eu tivesse desejo de ingressar naquela função. Só que Dalton fez o concurso do Banco do Brasil, acabou conseguindo o primeiro lugar e foi de imediato chamado para o Banco do Brasil do Crato. Começaram a botar na minha cabeça que eu era a pessoa indicada para substituí-lo. Então, eu e um companheiro chamado Luiz Carlos de Lima Cruz, que hoje é professor, começamos (a narrar). Eu narrava um tempo, ele narrava outro. Foi aí que 20

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veio o convite para eu ir a Petrolina. Como foi sua carreira depois que saiu de Juazeiro? Eu abri um departamento esportivo em Petrolina. Fiquei sete anos em Petrolina. Acabei fazendo carreira. Comecei a ser admirado, a ponto de receber o título de cidadão petrolinense. Aí veio o convite para trabalhar na Rádio Cultura, da Bahia. Quer dizer, foi como se eu estivesse saindo daqui, de uma escola primária e indo depois para escola de segundo grau, no caso Petrolina. Depois, saindo de uma escola de segundo grau e ingressando numa faculdade. Porque o rádio da Bahia era o rádio mais concorrido e o mais prestigiado da época. Aí eu fiquei seis anos em Salvador, na Rádio Cultura. E dei muita sorte porque na Rádio Cultura, tinham três narrado-

“Narrar um jogo dos intermunicipais foi mais importante pra mim do que fazer primeira Copa do Mundo”

res: José de Ataíde Costa, que era o chefe, mas não entrava em avião, nem mesmo com ele parado; Fernando José, que só fazia jogos ali próximos de Salvador, porque era diretor de uma agência do Banco da Bahia. Então, eu era o caxeiro viajante. Cheguei a passar 26 dias no mês fora de Salvador, porque a rádio, para economizar, mandava fazer um giro. Para você ter uma ideia, nos seis anos que passei na Bahia, eu acumulei mais de 3.000 horas de voos. Aí por um problema familiar, acabei retornando a Juazeiro. Como foi seu retorno a Juazeiro? Foi como se eu tivesse saído de uma faculdade e voltado para uma escola primária. Entrei em depressão com

aquela mudança radical. Saí de um nível altíssimo, que era o rádio baiano, para Juazeiro do Norte, mesmo sendo minha terra, mas para quem queria subir na vida... Aí foi aí que parei, meditei e decidi o seguinte: só há uma maneira de superar essa mudança brusca. Se começar a ousar. Aí o que eu fiz? Bolei a cobertura de uma Copa América na Argentina, em parceria com a Rádio Uirapuru de Fortaleza. A Uirapuru entrou com o Wilton Bezerra, como comentarista e eu como narrador e fizemos a Copa América. No ano seguinte, narrei todas as Eliminatórias, dentro e fora do Brasil para Copa do Mundo de 1982, na Espanha. Depois dei sequência e não parei mais. Foi a maneira que eu achei de me sentir como eu me sentia no rádio baiano. Graças a Deus, só foi sucesso, toquei o barco para frente. Qual o jogo mais importante que você narrou? Fica difícil, porque se eu disser a você hoje que narrar um jogo dos intermunicipais foi mais importante para mim do que fazer o primeiro jogo ou a primeira Copa do Mundo, você não vai entender. Mas é uma verdade. Sempre foi mais importante para mim cobrir um jogo do Icasa, do Guarani ou um Icasa x Guarani, que é o nosso clássico maior, do que mesmo as Copas do Mundo que fiz ou os mundiais de clubes. Nem isso superou, com toda certeza, eventos que fiz, envolvendo o futebol de Juazeiro, porque são as raízes, é aquilo que a gente faz. Mas não teve um jogo que você tenha uma lembrança marcante? Ver o Brasil perder aquela Copa de 82 (eliminado pela Itália) foi para não sair nunca mais da mente. Quanto mais você tenta esquecer, mais você lembra. Primeiro, foi minha primeira copa. Segundo, foi em minha opinião, a melhor seleção que o Brasil já fez até hoje. Nem a de 70, nem a de 62. Seleção nenhuma foi melhor do que aquela de 82. E nós perdemos a Copa num detalhe.

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Laboratório de Jornalismo Impresso Curso de Jornalismo - UFCA

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