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Distribuído mensalmente com o POSTAL em conjunto com o PÚBLICO

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• Pátio de Letras:

Cultura implica memória 13 | JAN | 2011 • Nº 29 • Mensal • Este caderno faz parte integrante da edição nº1016 do POSTAL do ALGARVE e não pode ser vendido separadamente

DR

» p. 4 e 5

• Entrevista com Jorge Botelho

Tavira: cidade dedicada à Cultura » p. 14


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Cultura.Sul 13.01. 2011

blogosfera

Simplex dictum

Jady Batista

João Evaristo Editor Cultura.Sul

Este ano é que é! O que vale é que cada ano tem um fim. E depois desse fim podese começar um novo início, com a crença de um outro fim. Lavam-se com champanhe as almas e os corpos. Inicia-se uma nova empresa. Com fé e vontade e faz-se cedo ao caminho. Este ano é que é! Não levassem os mesmos caminhos aos mesmos destinos, sempre, inevitavelmente e ir-se-ia longe. Assim fica-se pela ginástica do tentar. Hamsters a correrem na rodinha! A meio da incursão já se deseja que o ano finde, na esperança do ano novo que virá. Para o ano é que é!

É a esperança do recomeço de quem não consegue dar a volta ao que não tem volta a dar. De quem perante as adversidades desiste, volta a começar de novo ou deixa andar. No meio disto existem os militantes do quotidiano, como defende João Mota. Aproveitam a vida como quem retira o azeite da azeitona, sem desprazer nenhuma fase, desde a apanha à moeda, da batedura ao encapachamento, da prensagem à decantação, da centrifugação ao azeite. A cada santo a sua reza! Há quem prefira a sinolea. Há quem não passe sem a refinação. Há quem se f ique pelo bagaço! Há quem passe a vida a varejar e a temperar a vida com vinagre!

Há quem pense que estou a falar de azeitoneiras. Ou quem julgue que a árvore que dá o azeite é o galheteiro. Uns não pensam muito nisto, porque não têm tempo e outros acham que pensar é perda de tempo. E passam a vida entre um cigarro e um café, sem fazer uma pausa para a vida. Colocam alpista no aquário e esperam que o douradinho cante!

“A montanha pariu um rato” Esta é bem capaz de ser das expressões que são pior utilizadas. Quando dizemos “A montanha pariu um rato” estamos a fazê-lo num sentido pejorativo para indicar uma situação ou uma pessoa que muito prometeu e pouco cumpriu. É uma das melhores metáforas para indicar a nossa decepção perante um resultado que frustrou as nossas expectativas. Olhemos agora para a mesma expressão e analisemo-la para lá das dimensões dos envolvidos, a montanha e o rato. Experimentemos por um momento comparar as suas naturezas. A da montanha, mineral, e a do rato, ser vivo. Uma montanha é uma estrutura geológica composta for rochas que são agregados de minerais. O Silício é o seu tijolo estruturante e, tal como todas as estruturas minerais, o seu segredo está na estabilidade da sua rede cristalina. A ordem e a organização são as suas leis e ninguém espera que uma montanha mude de forma, de cor ou de local por vontade própria. Ninguém espera que uma montanha faça o que quer que seja, a não ser ser erodida pela lenta e inexorável acção do tempo e dos fenómenos do meio ambiente. Um rato, por seu lado, é um

ser vivo. O Carbono é o seu criador, o seu imperador e o seu destino. O rato é concebido, nasce, cresce, reproduz-se e morre. Basta uma das inumeráveis reacções químicas que ocorrem no seu corpo para estarmos na presença de uma complexidade infinitamente superior a tudo o que ocorre numa montanha. Podemos então concluir que se uma montanha parisse um rato, estaríamos na presença de um milagre da natureza. Esta expressão é um claro exemplo de como as leis da natureza podem expor o real sentido de uma sabedoria popular. Que podemos fazer então? Será que se ignorarmos as leis naturais as coisas funcionarão de forma diferente? Podíamos rasgar os estudos de Newton na esperança de que a gravidade desaparecesse e todos pudéssemos voar tão alto como os nossos sonhos. Se queimássemos os livros de Galileu talvez voltássemos a acalentar a esperança de que o nosso pequeno planeta voltasse a estar no centro do Universo. E o que dizer de Freud? Não era giro acabar com o trabalho dele e voltar a acreditar que somos de facto conscientes de todas

as nossas acções? E Darwin? Este então era lindo de destruir. Acabava de vez a selecção natural, deixávamos de ser um produto da evolução, com antepassados comuns com os macacos, e voltávamos a ser obra divina criada à imagem e semelhança de deus para reinar em seu nome sobre o mundo. Por falar em deus, e se reduzíssemos a cinzas a bíblia, o Corão e a Torah? Deus acabaria, o Olimpo voltaria com o seu cortejo de deuses humanizados e, ainda, com a vantagem de deixarmos de ter que aturar o Saramago. Será que tudo isto funcionaria? Não! Não funcionaria. As ciências, sejam elas exactas ou inexactas, concretas ou abstractas, ocultas ou esotéricas, não criam nem inventam a realidade, apenas a tentam explicar. Ignorá-las, combatê-las ou repudiá-las não muda num milímetro o mundo em que vivemos. Estaremos então condenados a viver num mundo que pode ser explicado, compreendido e regido por leis científicas e equações matemáticas? Mais uma vez, não! Claro que não! Ainda temos a poesia. Na poesia somos completamente livres. Podemos voar até onde

Santos, Henrique Dias Freire, João Evaristo, Joaquim Parra, Rui Diniz Monteiro, Isabel Soares, AGECAL, Pedro Nascimento, Cristian Valsecchi, ALFA, Raul Coelho, Jady Batista, Marta Dias, Carlos Graça

Parceiros: Direcção Regional de Cultura do Algarve, Direcção Regional de Educação do Algarve, Postal do Algarve.

quisermos, só pelo facto de o querermos. Podemos plantar sonhos em solos de nuvens e esperar pela Primavera para colher os seus frutos, as estrelas. Podemos enterrar flores no coração e chamar de sentimentos às suas pétalas. Somos capazes de amar o próximo e o distante, o presente e o ausente só porque estamos vivos ou porque queremos reavivar a vida de alguém. Na poesia não há regras a não ser as nossas, não há limites a não ser os que ultrapassamos. Há apenas vontade, que é a verdadeira inspiração para a Liberdade. Sejamos então poetas, sonhemos com anjos e construamos um mundo onde o impossível não passe de um conceito teórico criado para nos recordar o quão pequenos podemos ser se deixarmos de sonhar. Então mas é ou não possível uma montanha parir um rato? É pois! Aconteceu hoje. O cerro de S. Miguel deu à luz um chinchila branco com as patinhas cinzentas e uma risca dourada na cabeça. Que tenha uma vida boa e que seja muito feliz. http://despistagens.blogspot.com

Ficha Técnica Direcção: GORDA Associação Sócio-Cultural

Paginação: Postal do Algarve Publicação e Editores, Lda

Editor: João Evaristo

Colaboradores: Ricardo Claro, Cineclube de Faro, Cineclube de Olhão, Cineclube de Tavira, Adriana Nogueira, Elisete

Tiragem: 9.199

e-mail: geralcultura.sul@gmail.com on-line: www.issuu.com/postaldoalgarve


Cultura.Sul 13.01. 2011

cinema Cineclube de Faro

São como bandos de pardais, à solta. São como bandos de pardais, à solta. Tantos bons filmes sobre a infância ou a puberdade em distribuição… Histórias de amor, também elas, a par de um punhado de magníficos filmes dedicados a uma faixa etária mais adulta. Num longo ciclo de 9 filmes (a terminar em Fevereiro), o Cineclube de Faro optou por programar para o arranque de um Novo Ano que se prevê cheio de dificuldades várias, La Pivellina, extraordinária menina de dois anos – a mais nova actriz de cinema de todos os tempos – protagonizando uma história de fantasia, alegria e ingenuidade, como que em recado para todos nós. Yuki e Nina diz de como a amizade arranja sempre forma de contornar obstáculos. Dois filmes em que a respiração da meninine ajuda a melhorar o ar. Os Mistérios

de Lisboa (dividido em duas partes dada a sua duração excepcional) tem arrecado prémios – nos quais pontifica o prestigiadíssimo Louis Delluc -, Camilo/ Ruiz em longa saga romanesca, filme de fulgor narrativo como poucos, lusitanochileno na inspiração e concretização. Depois, finalmente disponível para exibição em cineclubes, Lola como estreia do brilhante Brillante Mendoza no de Faro. Um autor a que vamos voltar. Em complemento, outro que arrecadou prémios e admiração – Leopardo de

Ouro de Locarno não é para qualquer um! -, a curta de Gabriel Abrantes, recente promessa do bom cinema português, A History of Mutual Respect de seu nome. O rei da evasão, esse, passou um pouco despercebido. Talvez pela estranheza da sua história, talvez por ser filme francês. Tonteria de razões estas, que é dos melhores estreados em Portugal no ano que há pouco findou… Ah! E a 29 de Janeiro, pelas 21h30, inauguração da nova sede do Cineclube de Faro! Finalmente um espaço digno para ser vivido por sócios e não-sócios! Biblioteca, Filmoteca, Espaço Internet, Centro Jovem… Que maravilha! Ali na Praceta ……………………., perto das urgências do Hospital. Consulte o mapa em cineclubefaro.blogspot.com e… apareça!

PROGRAMAÇÃO

www.cineclubefaro.com POR DETRÁS DO AMOR (de 3 de Janeiro a 28 de Fevereiro) IPJ ¦ 21.30 3 JAN ¦ LA PIVELLINA de, Tizza Covi e Rainer Frimmel (100 ) (M/6) 10/11 JAN * ¦ MISTÉRIOS DE LISBOA de Raoul Ruiz (272 ) (* em 2 partes dada a sua duração) 17 JAN ¦ LOLA de Brillante Mendonza (110 ) (M/16) A HISTORY OF MUTUAL RESPECT de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt (23 ) (M/16) 24 JAN ¦ YUKI E NINA de Hippolyte Girardot e Nobuhiro Suwa (92 ) (M/12) 31 JAN ¦ O REI DA EVASÃO de Alain Guiraudie (93 ) (M/12)

Cineclube de Olhão

MINE VAGANTI: Uma Família Moderna «Tommaso é o filho mais novo da numerosa e excêntrica família Cantone, proprietária de uma fábrica de massas em Puglia: a sua mãe, Stefania, é adorável, mas vive sufocada pelas convenções burguesas; o seu pai, Vincenzo, tem expectativas altas e irrealistas para os seus filhos; a tia Luciana é uma excêntrica; a irmã, Elena, é uma dona-de-casa frustrada; o irmão, Antonio, trabalha com o pai na fábrica; e ainda há a avó rebelde, perdida na memória de um amor impossível. Tommaso, um aspirante a escritor,

chegou de Roma para um importante jantar de família, onde o pai vai entregar a gestão do negócio a si e ao seu irmão. Determinado a fazer valer as suas próprias escolhas, Tommaso planeia anunciar ao jantar que é gay. Mas nessa noite, depois de ter apenas tempo de dizer “silêncio, por favor”, é ultrapassado pelo irmão que, para surpresa de Tommaso e choque para todos os outros, revela o seu próprio segredo! Vincenzo ordena que Antonio saia de casa, expulsandoo da família e do negócio. Logo

de seguida, é acometido por um ataque cardíaco, deixando a família devastada. É com relutância que Tommaso pega nos destinos da fábrica. Mas o seu coração não está ali. Ele sente a falta dos seus amigos e da sua vida em Rome, mas não pode abandonar tudo neste momento, sob pena de pôr ainda mais em risco a saúde do pai. Uma visita surpresa dos seus amigos força os segredos da família a virem à superfície, incluíndo uma outra impensável revelação, nesta comédia calorosa, comovente e generosa.»

PROGRAMAÇÃO

www.cineclubeolhao.com 11 JAN ¦ MINE VAGANTI de Maurizio Calvesi (110 ) (M/12)

Cineclube de Tavira

Festival Black Nights em Tallinn, Estonia (25/11 – 05/12/2010) e Cinema em Tavira Decorreu sob neve constante e muito gelo a 14ª edição deste Festival de Cinema Euro-asiático, na cidade medieval que este ano é Capital Europeia da Cultura. Muito pouco resta dos tempos da ocupação pela União Soviética, pelo menos na capital deste pequeno país, a não ser que a maioria dos estonianos falam russo e que consomem quantidades consideráve is de bebidas alcólicas. Mesmo assim, são muito bem organizados, tudo parecia andar sobre rodas no Festival e apesar das enormes quantidades de neve e temperaturas altamente negativas não há atrasos ou cancelamentos de vôos no aeroporto. Os estonianos gostam de ver seus filmes no cinema, com filmes provenientes de 73 paises as várias centenas de sessões do Festival foram bem atendidas. O júri da Federação Internacional de Cineclubes escolheu o melhor filme entre as 21 longas metragens a concurso. Ganhou “3 Seasons In

Hell/3 Sesóny V Pekle (3 Temporadas No Inferno) de Tomáš Mašin, uma coprodução entre a República Checa, Alemanha e Slováquia. Apenas dois dos filmes a concurso em Tallinn estarão nas salas portuguesas, o belo Copie Conforme (Cópia Certificada) de Abbas Kiarostami e 127 Hours (127 Horas) o último filme de Danny Boyle, cuja estreia nacional está prevista para 10 de Fevereiro. Tive o prazer de ter sido convidado para assistir à ceremónia de entrega dos Prémios do Cinema Europeu, na presença de várias

estrelas europeias (Juliette Binoche, Wim Wenders, Bruno Ganz e Lotte Verbeek entre muitos outros). O único português, neste caso portuguesa, que encontrei na festa da ceremónia foi Maria de Medeiros, na companhia do seu marido. O grande vencedor Roman Polanski, proibido de viajar fora de França, Suiça ou Polónia, estava conósco através de Skype num ecrã gigante, sentado frente ao computador na sua casa em Paris... Todos os anos muitos filmes de grande qualidade são negligenciados pelas nossas distribuidoras; mesmo assim nosso Cineclube este mês tem um programa de grande interesse, com alguns filmes que inexplicavelmente ficaram fora dos Prémios do Cinema Europeu: Des Hommes Et Des Dieux (Dos Homens e Dos Deuses) e Le Concert (O Concerto). Como sempre, a não perder!

PROGRAMAÇÃO

www.cineclube-tavira.com Sessões Regulares Cine-Teatro António Pinheiro ¦ 21.30 6 JAN ¦ GIGANTE de Adrián Biniez (84 )(M/12) 9 JAN ¦ INSIDE JOB de Charles Ferguson (120 )((M/12) 13 JAN ¦ LOLA de Brillante Mendonza (110 ) (M/12) 16 JAN ¦ MINE VAGANTI de Maurizio Calvesi (110 ) (M/12) 20 JAN ¦ DES HOMMES ET DES DIEUX de Xavier Beauvois (122 ) (M/12) 23 JAN ¦ THE KIDS ARE ALL RIGHT de Lisa Cholodenko (106 ) (M/16) 27 JAN ¦ LE CONCERT de Radu Mihaileanu (119 ) (M/6) 30 JAN ¦ THE AMERICAN de Anton Corbijn (105 ) (M/12) APOIOS: ICA, Ministério da Cultura, Câmara Municipal de Tavira

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panorâmica • ESPAÇO MEMÓRIA – PÁTIO DE LETRAS

Um espaço cultural único por si mesmo, abrindo-se a todas as áreas. “É natural que o processo seja orgânico, estamos perante uma coisa viva no sentido de que não pára de evoluir e é isso que se pretende”, diz.

Há momentos assim, imprevistos quanto à forma como ocorrem, surpreendentes. Quando o Cultura. Sul marcou conversa com Liliana Palhinha para fazermos o Panorâmica desta primeira edição de 2011, nada fazia prever que à chegada ao Espaço Memória – Pátio das Letras, a conversa com o rosto que gere este projecto empresarial e cultural fosse marcada pela música. Mas a verdade é que o trabalho se desenvolveu ao som de uma inesperada sessão improvisada de guitarra portuguesa que foi pano de fundo para sabermos um pouco mais sobre um espaço singular da cidade de Faro. O Espaço Memória – Pátio de Letras, mais conhecido por Pátio de Letras, abriu as portas há sensivelmente dois anos e meio, em Julho de 2008, e une sob um conceito global de espaço cultural e de encontro, a livraria Pátio de Letras – o coração do projecto – e o Pátio Bar. Espaços que, formando a base espacial do projecto, são o palco onde o conceito idealizado por Liliana Palhinha ganha forma todos os dias.

Espaço Memória A escolha da palavra memória para o nome do espaço prende-se, de acordo com Liliana Palhinha, com a necessidade de ter um nome que fosse suficientemente abrangente para o projecto que tinha em mente, mas em particular com o seu entendimento da cultura: “a cultura implica necessariamente memória, porque não pode haver cultura com o apagamento do passado. Sem se saber o que se foi, não se sabe o que se é e o que se será em termos culturais, nessa perspectiva realizamos encontros, debates, palestras, conversas e workshops entre outros tantos eventos que evocam essa memória necessária à cultura e à vida como um todo”. A programação cultural

A ideia Liliana Palhinha, a proprietária e a alma do projecto, acalentou durante anos enquanto desenvolvia a sua carreira profissional a vontade de criar uma livraria com características específicas, muito diferente das que existiam em Faro. “A ideia surgiu a partir de um gosto que sempre tive de ler e do livro em si enquanto objecto táctil, que tem memória, onde se pode fazer anotações e onde se pode sempre voltar para reexperimentar a experiência da leitura”, diz Liliana Palhinha, confessando que “era uma vontade que me acompanhava há muito tempo”. O início do projecto não foi fácil, refere a proprietária do Pátio de Letras. “Arrancámos com o projecto numa altura em que só pessoas muito atentas sabiam que se avizinhava uma crise económica de tão grandes dimensões”, afirma, realçando que “eu não era uma dessas pessoas especialmente informadas e deveria ser, uma vez que ia abrir um negócio”. Mas não foi a crise de então que a deteve, nem é a crise actual que a detém. “Poucos meses depois fomos surpreendidos com o rebentar efectivo da crise”, diz Liliana Palhinha, que, no entanto, é clara: “temos sobrevivido com muito trabalho, muito esforço, mas simultaneamente com muita crença que este projecto tem clientela, tem público, um público constituído por pessoas que sentiam, como eu, que em Faro fazia falta um projecto com estas características”. Os primeiros passos “Eu tinha uma profissão (magistrada judicial) que não era compatível com a condição de empresária, legalmente

A casa que alberga o Espaço Memória - Pátio de Letras é ela mesma um edifício com história não era permitido”, relembra a mulher que governa os destinos do Pátio de Letras, “mas a necessidade, por motivos do foro pessoal, de pedir uma licença sem vencimento deu-me a disponibilidade de tempo necessária para poder avançar com a ideia que acalentava há vários anos”. O tempo já existia e o espaço surgiu para dar corpo ao projecto. “Deu-se então a oportunidade de ter disponíveis estas duas casas, o que viabilizava o projecto do ponto de vista do espaço para a sua instalação, apesar de uma delas estar já sem telhado, cheia de mato e praticamente em ruínas”,

conta Liliana Palhinha, que diz ter avançado para a concretização de uma ideia que era, à época, “muito vaga” e que evoluiu durante estes dois anos e meio, refere, “de acordo com aquilo que são as necessidades e as vontades dos públicos que nos visitam”. Sobre um aspecto, a proprietária do Pátio de Letras não tem qualquer dúvida: “desde o início que a ideia do espaço ia muito para além da livraria, da escrita e da leitura. Aliás, o nome completo do projecto é Espaço Memória - Pátio de Letras e logo na inauguração abrimos com a livraria e uma exposição de pintura de uma

artista mexicana que vive no Algarve e, pouco tempo depois, abríamos outra exposição que duraria seis meses, dada a qualidade e a relevância dos conteúdos que a integravam, sob o tema ‘Guerra Secreta em Portugal durante a II Guerra Mundial’”. Desde o primeiro momento, o conceito do projecto foi pensado como um espaço de cultura, abrangendo a literatura, as artes plásticas e performativas, a música, a filosofia e as ciências sociais e humanas, entre todas as áreas da realidade cultural e, como faz questão de realçar Liliana Palhinha, o próprio conceito evoluiu

O Espaço Memória – Pátio de Letras é, já o dissemos, um espaço em que a cultura se assume na sua plenitude e em que ganham destaque as suas manifestações nas mais variadas formas possíveis. A literatura ocupa um espaço de relevo fruto da existência da livraria, base de todo o projecto, mas as mais variadas expressões de cultura ganham corpo no pátio que se situa nas traseiras da livraria e que se apresenta como um local raro para ler, encontrar-se com os amigos, estudar, entre outras tantas actividades. O pátio é também o local que acolhe as palestras e conferências, as conversas mais ou menos informais que se incluem na programação e algumas das manifestações e eventos culturais que o programa mensal contém. A este espaço junta-se o do Pátio Bar que com uma programação mais virada para a música e para as performances ajuda a completar a oferta cultural do projecto a par dos workshops e das exposições que, em 2011, passarão a ocupar os espaços do pátio ou da casa contígua à livraria. Segundo Liliana Palhinha, a dupla vertente regional e nacional da programação do Pátio de Letras é a essência da própria ideia projectada para o espaço. “A presença de nomes de grande relevo, regionais e nacionais, na nossa programação nunca poderia deixar de existir com essa dupla dimensão regional e nacional, sob pena de se tornar num projecto regionalista que não me parece ter grande importância ao nível cultural. Essa presença de nomes nacionais e locais resulta numa muito melhor programação, que não é redutora, mas antes abrangente e que se dimensionou de forma a responder àquilo que eram as necessidades de quem nos visita e a corresponder às nossas possibilidades”, destaca.


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Ricardo Claro

Uma presença de grandes nomes que resulta do trabalho da equipa liderada pela empresária e que contou com uma ajuda de peso, o reconhecimento do espaço a nível nacional. “Com o passar dos anos o nome do espaço e as suas características foram sendo conhecidos, nomeadamente ao nível das editoras”, diz Liliana Palhinha, concluindo que este facto: “possibilitou a escolha do Pátio de Letras para acolher determinadas sessões e eventos”. Destaque-se a este respeito que o espaço contou com a distinção de integrar a lista das cinco melhores livrarias do país em 2009, atribuída pela revista “Os meus livros”.

pessoas que tivemos cá a contribuir para a programação cultural fazemno de forma gratuita, algo que implica esforços adicionais e não deixa de implicar custos ao nível de refeições, alojamentos e divulgação, entre outros, aos quais temos de conseguir dar resposta”, realça a empresária, afirmando que “estas pessoas, entre as quais figuram nomes de grande relevo nas respectivas áreas de actuação, têm o meu reconhecimento pessoal pela forma como têm vindo a criar continuamente condições para que a nossa programação se mantenha”.

O financiamento

Mas Liliana Palhinha tem uma visão clara sobre este tema, desassombrada mesmo. “A vertente de programação cultural do espaço poderia ser subsidiada, mas enquanto eu puder trilhar este caminho do não recurso a apoios sob a forma de subsídios devo confessar-lhe que desejo mantê-lo. Até porque não há manifestamente dinheiro para apoiar as associações culturais de Faro que desenvolvem actividade há vários anos e nós como entidade empresarial e privada dificilmente teríamos acesso a subsídios, dificilmente um pedido nosso, creio eu, teria viabilidade prática”, diz. “Há entidades que há muito mais tempo levam a cabo actividades culturais e que teriam mais direito a ser apoiadas e não o são por falta de recursos, tentarei não recorrer a esses apoios enquanto me for possível encontrar outras soluções”, remata. “A i n d e p e n d ê n c i a é u m a característica minha, que provavelmente foi potenciada pela profissão que desempenhei, mas que resulta também de um pragmatismo que sempre tive na minha vida. Consegui abrir esta livraria em três anos sem apoios públicos. Se os tivesse pedido, se calhar, o projecto não estava ainda no terreno”, confessa Liliana Palhinha, que acrescenta: “tenho tido as maiores manifestações, mesmo públicas, de apreço pelo nosso trabalho, quer do antigo, quer do actual presidente da Câmara, quer da senhora directora regional de Cultura, o que me deixa satisfeita, aliás, foi uma opção minha não constituir uma associação para o projecto, mas sim uma empresa”. Fechamos a conversa com Liliana Palhinha a conhecermos muito mais do Espaço Memória – Pátio de Letras e ainda ao som da guitarra portuguesa, com a mestria do executante a brindarnos com Libetango de Ástor Piazzolla, melhor impossível.

A au sênc ia de s ubsíd ios à actividade cultural levada a cabo por Liliana Palhinha no Pátio de Letras determina, ao contrário do que acontece em grande parte dos projectos culturais, um motivo de regozijo da proprietária do espaço, mas o regozijo não esconde a solidão da empresária no percurso que levou o Espaço Memória – Pátio de Letras até à posição que hoje ocupa. “Este projecto não tem quaisquer subsídios, é um projecto privado, empresarial e independente, que não recebe mais apoios do que a disponibilização de alguns itens logísticos por parte de entidades como a Câmara de Faro ou a Junta de Freguesia da Sé. Apoios que são fundamentais para o desenvolvimento da nossa actividade de programação cultural e que agradecemos”, diz a responsável. Quanto à solidão do percurso, Liliana Palhinha diz senti-la de forma marcante. “Sinto-me bastante sozinha nesta caminhada, quer do ponto de vista da sustentabilidade financeira do projecto, quer do ponto de vista da sua execução prática, embora tenha uma colaboração inestimável das pessoas que aqui trabalham e que têm vestido cada vez mais a camisola do projecto”, refere, reconhecendo o esforço permanente para manter o nível do projecto: “a selecção de livros, as conferências, os workshops, enfim, toda a programação mensal ininterrupta que o espaço tem passa por mim e nessa medida há um esforço muito grande e em larga medida solitário para manter o padrão de quantidade e qualidade que temos vindo a ter”. “Repare que a programação cultural é feita integralmente com financiamento oriundo dos resultados da livraria, o que manifestamente não seria suficiente e, portanto, muitas das

Programação de Janeiro:

Uma livraria diferente a pensar em todos

Visão desassombrada

Sábado, 22 – 16.30 horas “Invasões Francesas: 19 de Janeiro de 1811, o dia em que Junot foi emboscado” Palestra por Rui Cardoso, jornalista do Expresso, estudioso da Guerra Peninsular e autor do livro recémeditado pela Imprensa Nacional C as a da M o e da “ Inv as õ es Francesas, 200 Anos, Mitos, Histórias e Protagonistas

Liliana Palhinha, o rosto do projecto São muitos os que nunca visitaram a Pátio de Letras mas, ao contrário do que possa parecer, a livraria situada em Faro é uma proposta rara a nível regional que merece uma visita, seja para comprar um livro ou para assistir a um dos muitos eventos culturais que acolhe na sua programação mensal recheada (pode consultar-se a programação integral de cada mês em http://espacodememoria-patiodeletras. blogspot.com/). Longe de ser um local elitista e dado a devaneios da chamada “grande cultura”, o espaço é um convite a entrar, conhecer e ficar, uma proposta a viver a ambiência e a regressar. Como diz Liliana Palhinha, é um espaço para todos e é uma livraria para todos. Os mais de 13 mil livros que compõem o acervo da livraria oferecem um leque de propostas que abarca as mais variadas temáticas. “A história, a filosofia, o fantástico têm presença nos nossos escaparates, como têm o livro infantil e as revistas, as obras que são a novidade do momento como aquelas que não se encontram já facilmente noutras livrarias”, diz a responsável pela escolha dos muitos livros que são disponibilizados. Ao cliente propõe-se uma miríade de escolhas e um convite a deixar-se

ficar e a percorrer os escaparates e mesas de exposição sem mais pressa do que aquela que quiser ter, sem as pressões dos grandes espaços comerciais. E isto sente-se, respira-se, há um tempo que corre ali com o compasso do comércio da tradicional, da livraria de outrora que se apresenta no presente. Uma experiência imperdível. “O acervo inicial da livraria criouse contactando as editoras, criando a livraria de raiz. Um acervo muito mais pequeno do que aquele que temos agora, como se compreende. Actualmente temos mais de 13 mil livros, mas no início o número era muito menor, uma vez que este é um projecto pessoal e que não tem por trás nenhuma grande empresa”, refere Liliana Palhinha. Sempre apostada em ser clara na forma como vê esta parte do projecto Espaço Memória – Pátio de Letras, a responsável pela livraria é peremptória: “a livraria não é de todo elitista, nem procura públicos ditos culturalmente acima da média. É uma livraria para todos, que tem livros de todos os géneros e para todos os gostos”. “Apostamos em ter títulos que não coincidam com aqueles que por exemplo as pessoas encontram nos supermercados, não que os

Sexta-feira, 28 – 21.30 horas “A Última Sexta-feira – Leituras Perniciosas”

Sábado, 29 – 16.30 horas “Para que servem os Presidentes da República”

“Joseph K Project”, poesia com Emanuel e música com Arenga Física

Palestra/debate por António Costa Pinto, professor de Ciência Política no Instituto Superior de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e co-autor do recém editado livro “O poder presidencial em Portugal”

enjeitemos ou que não os tenhamos em alguns casos nas nossas prateleiras, mas porque esses livros as pessoas podem adquirir de forma mais fácil e imediatista naquelas superfícies comerciais”, diz Liliana Palhinha. “Por outro lado, as limitações de espaço implicam que, na selecção que fazemos das dezenas de novidades de cada mês, escolhamos aqueles livros que pensamos poder serem em alguma medida referências para os nossos clientes actuais e potenciais e que não sejam aqueles que massivamente se vendem por exemplo em supermercados, aliás, porque as condições de concorrência são-nos aí largamente desfavoráveis por motivos óbvios”, esclarece. “Temos uma aposta em livros de referência, ainda que não sejam necessariamente novidades e possam ser uma edição com quatro ou cinco anos, mas cujo conteúdo é relevante para aqueles que nos procuram, o que faz com que possamos não ter mais livros do que as outras livrarias de Faro, não sei avaliar se temos ou não, mas decerto temos muitos livros que as outras livrarias não têm”. Eis o que faz desta uma livraria diferente, mas sempre uma livraria para todos.

Domingo, 30 – 16.30 horas Isabel Bruma – Apresentação e leitura de obras da escritora (para adultos e adolescentes) Momento musical com Pedro Cunha (violino) e João Miguel Cunha (viola de arco)




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Espaço AGECAL

Pedro Nascimento Produtor Cultural Sócio AGECAL – Associação de Gestores Culturais do Algarve

As sociedades são imprevisíveis, sendo que as crises são momentos cruciais de transformações sociais, políticas e económicas. Estas implicam uma responsabilização maior para os que nele têm capacidade de intervenção e reflexão sobre o que é hoje a contemporaneidade, a redefinição das identidades, os novos fluxos (de pessoas e de mercados), as novas centralidades, e, em particular, a importância definitiva que as cidades, nesta época de transnacionalidade, adquirem e como se expressa a produção artística e cultural neste contexto. A diversidade de dinâmicas sociais e a criação de novos espaços

Factor Desenvolvimento

Cristian Valsecchi Economista da Cultura e Gestor Factor Desenvolvimento Lda. cv@factordesenvolvimento.pt

A campanha promocional de Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012, que recentemente gerou polémica no Algarve, não surpreende apenas pela cumplicidade do Turismo de Portugal, principalmente para a estratégia e promoção turística de Portugal, mas é também sintomática de uma cultura social e política que lamentavelmente ainda está longe de entender as oportunidades derivantes de uma maior coesão e cooperação a nível regional, inter-regional e nacional, desígnios fundamentais para que o país possa dar início a uma retoma económica que, aos olhos dos mercados internacionais, é cada vez mais duvidosa. É surpreendente como perante um sistema competitivo cada vez mais aguerrido no que concerne à s econom ia s ma rg i na is , os actores locais – sem excepção para as administrações públicas – desaproveitam recursos agindo

“Desafios do Associativismo Cultural Algarvio” de afirmação de cidadania, levam a alterações do paradigma do associativismo do pós 25 Abril, cuja génese era a promoção da convivência social, ocupação dos tempos livres, expressar publicamente pensamentos e relações de amizade, juntando pessoas em redor de ideais ou ações sociais. Uma realidade que vai perdendo força para novos espaços virtuais e redes sociais. As associações são entidades sem fins lucrativos, onde se trabalha para um bem comum, sendo um exercício de cidadania, prestando assim um serviço público. Promovem a integração social e tem um papel determinante na promoção da cultura. Mas qual será o seu papel na construção da cidadania do século XXI? O tecido associativo em Portugal é diverso e complexo. Manifesta-se desde ações coletivas e/ou sectoriais a estruturas associativas que prestam serviços profissionais. A falta de caracterização e identif icação desta realidade só contribui para a promiscuidade e fragilidade do tecido

associativo. Como se cria instrumentos de justiça social, de financiamento e de oportunidades, dentro de um espectro tão alargado? A “prof issionalização” dos agentes culturais, a procura de estratégias e modelos de gestão, a c r iat iv idade e inovação, o financiamento, a construção de redes, a internacionalização e a mobilidade cultural, mas também a responsabilização e a avaliação, serão certamente apenas algumas das respostas ao sector. Formar competências nas áreas da gestão, programação, produção e divulgação cu lt ura is, criando pontos de conf luência entre a investigação académica e a experiência artística; desenvolver uma relação íntima entre as opções de gestão e as opções estéticas, éticas e filosóficas dos criativos, nunca esquecendo as pessoas, seus interesses e necessidades. Este mostra-se como um futuro possível... Numa perspectiva de cada vez menos financiamento público

para a cultura, cabe ao agente cultural aperfeiçoar a sua gestão, as estratégias de financiamento, identificar as diversas formas de comunicação existentes e aplicálas de modo eficiente, promovendo o desenvolvimento sustentável e a responsabilidade social. A internacionalização, as redes e parcerias e a mobilidade do associativismo do Algarve e dos seus projetos culturais é um ponto fundamental nesta equação. É desejável que o associativismo cultural algarvio promova cada vez mais práticas de mobilidade internacional. Mas como fazê-lo se continuamos fechados sobre nós próprios? O associativismo cultural no Algarve vive da relação com o poder local, muitas vezes com o poder regional, raramente com o poder central. Esta mudança de paradigma de organização de amigos com afinidades comuns, para uma estrutura profissionalizante é ainda uma realidade distante. Mas, transformar uma lógica de companheirismo,

fraternidade e solidariedade, num paradigma comercial (e empresarial), com um fim de consumo - um produto cultural – será desejável para o nosso tecido associativo? Onde fica o processo criativo nisto tudo? E a reflexão, as estéticas e o pensamento crítico e artístico? E a possibilidade de qualquer pessoa experimentar uma expressão artística sem aspirar a ser um profissional da cultura? Estarão as associações culturais algarvias preparadas para esta transformação? Será este o modelo associativo a seguir? O associativismo de ontem, tem novas perspectivas e paradigmas nos dias de hoje. Os problemas de manter tradições e trabalhar expressões artísticas contemporâneas continuam a desafiar o associativismo cultural algarvio. Como irá refletir e manifestar-se a sociedade civil, por meio do associativismo cultural, com os desafios do amanhã, e, como se irá espelhar essa relação com a economia social do futuro? E qual o seu impacto na comunidade globalizada?

Guimarães | Capital Europeia da Cultura 2012 individualmente e mortificando um património feito de inteligências e capacidades criativas, de cultura, de ambiente e de paisagem, cujo valor acrescentado seria decididamente superior se valorizado numa óptica integrada. O próprio A lgar ve terá necessariamente que superar esta lógica individualista se quiser ultrapassar esta crise, na medida em que a nível regional não existe nenhuma cidade que pelas suas características ou dimensão tenha condições de garantir uma sustentabilidade económica e financeira a médio prazo. Este facto torna-se incontestável se considerarmos que o turismo, principal eixo da economia local, está a ser alvo de uma recessão cuja natureza não é certamente conjuntural. Continuar a não encarar a situação como se ela não existisse não fará mais do que alimentar o estado de crise. É determinante agir com humildade e realismo e ter consciência do peso relativo que as realidades locais assumem no contexto global. É com este espírito de humildade e realismo que Guimarães deve agir. Em toda a Europa existem de facto centenas de cidades que pela história, cultura, beleza assumem uma importância análoga ou superior

à esplêndida cidade portuguesa. Ao invés de adoptar estratégias de marketing discutíveis, que muitas vezes comprometem o papel de embaixador da cultura atribuído a Guimarães pela UE, é fundamental que a mesma saiba representar, com base numa estratégia clara fundada nos valores da coesão e da cooperação, um modelo de desenvolvimento sustentável capaz de espelhar, além-fronteiras, a imagem em que toda a nação portuguesa merece ser representada. Ser capital Europeia da Cultura pode ser uma grande oportunidade, mas também um notável desperdício de recursos públicos. São prova evidente disso os diversos êxitos que o programa teve nas duas cidades que detiveram este título em 2004: Lille e Génova. A primeira alcançou um sucesso de que ainda hoje a vivacidade e dinamismo da cidade fruem, graças a um plano estratégico desenvolvido com base num horizonte temporal de longo prazo, nas externalidades positivas resultantes da cooperação local e internacional, e na prioridade dada à comunidade aquando da definição das políticas culturais. O contrário do que se verificou em Génova, onde a ausência de uma orientação de longo prazo transformou a cidade num simples agregador de

Cartaz gera polémica no Algarve eventos caracterizados de uma índole ocasional que circunscreveu os sues benefícios (imaginários) a 2004. Gu i ma r ãe s tem hoje u ma

responsabilidade importante que todos desejamos saiba assumir não apenas em interesse próprio mas numa óptica alargada ao país.


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momento

7 Marta Dias

Reis Magos em Olhão Milhares de pessoas assitiram à chegada dos Reis Magos a Olhão, numa iniciativa da ACRAL e da Associação de Comerciantes da Baixa da Cidade. Os Reis Magos chegaram de camelo ao Paços do Concelho, onde foram recebidos por Francisco Leal , presidente da autarquia.

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• O mundo encantado de Sylvain Bongard  p. 11 • Muito para alÊm de Saramago  p. 12

em tons de azul

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• O Sorriso Enigmåtico do Javali  p. 13 • Cultura liga Portimão à comunidade  p. 14 • Músicas do Mundo em documentårio  p. 15

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5 | AGO | 2010 • Nº 24 • Mensal • Este caderno faz parte integrante da edição nº998 do POSTAL do ALGARVE e não pode ser vendido separadamente

1 | JUL | 2010 • Nº 23 • Mensal • Este caderno faz parte integrante da edição nº994 do POSTAL do ALGARVE e não pode ser vendido separadamente

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Com o apoio de: Direcção Regional de Cultura do Algarve • Câmara Municipal de Alcoutim • Câmara Municipal de Olhão • Câmara Municipal de S. Brås de Alportel

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a revolução silenciosa

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2 Âť Simplex Dictum: “Ser bom nĂŁo basta!â€? | 2/3 Âť Destaques | 4/5 Âť Orquestra do Algarve | 6 Âť ALFA: CromĂĄticas e Foto Impacto 2010 6 Âť JosĂŠ e Pilar , em exibição | 7 Âť “Tempestadeâ€? nas escolas, pelo VATe/ ACTA | 7 Âť GORDA com novo espectĂĄculo 8 Âť Riqueza Maior: Fortaleza de Sagres | 8 Âť BaĂş: “A pasta de escolaâ€? | 9 Âť Cineclubes | 11 Âť AGECAL: “Conhecer a cidadeâ€?, por Rita Manteigas 11 Âť “Circula teatro pela Serra Algarviaâ€?, por Paulo Moreira | 12 Âť Bibliotecas | 13 Âť Livro.S: “O Fio Ă Meadaâ€?; Da minha biblioteca; Diziam os antigos... | 14/15 Âť Em entrevista: DĂĄlia Paulo, DRCAlg | 16 Âť Espaço DRCAlg, por Idalina Silva Santos | 16 Âť Convidado.S: Teresa Rita Lopes

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• Vítor Guerreiro: O Algarve pode exportar cultura  p. 14 e 15

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• Algarve forma jovens actores  p. 13

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palco • TEATRO

Fala Comigo

TATA REGALA

Rui Diniz Monteiro Professor

A Peste – Associação de Pesquisa Teatral levou à cena o espectáculo “Fala Comigo” com um texto inspirado numa peça de Tennessee Williams. Fui assistir e vim de lá entusiasmadíssimo. Aqui ficam alguns apontamentos. Início: As minhas pa lav ras não fazem justiça à excelência do espectáculo. Portanto, peço a quem me ler que tenha sempre presente que o espectáculo é mais e melhor do que o que aqui é dito. Um. Apesar de o espectáculo dar liberdade para escolhermos o modo como nos queremos posicionar, a f im de podermos usufruir do máximo que tem para dar, ele vai surgindo como se de uma peça musical se tratasse, como se ali em cena estivesse a ser interpretada uma espécie de Fuga. Dois. Aqui o tema do sexo como género permeia todo o desenrolar da peça. Na verdade, não há categorias, não há masculino e feminino definidos do princípio ao fim, mas antes um continuum que vai desde a masculinidade mais grosseira até à feminilidade mais pura. Independentemente do sexo dos actores que lhes dão corpo e voz.

O texto é inspirado numa peça de Tennesse Williams Três. O texto em si é fabuloso. A interpretação não fica atrás. Percorre todos os cambiantes, desde o mergulho vertiginoso à distância embrutecida; desde a fala arrebatada à exposição depurada. Em todos os casos, o texto brilha no absoluto silêncio que, do princípio ao fim, se instala entre o público. Quatro. A simplicidade de meios e de recursos, longe de ser um obstáculo à vivência do espectáculo, pelo contrário, permite-lhe um fluir por aquele espaço

que os actores partilham connosco e que preenchem soberanamente com o seu corpo e com o seu texto. Cinco. A peça alimenta-se, entre outras coisas, de contrastes sucessivos, como já referi anteriormente. Aqui quero falar da degradação do ser humano, principalmente associada a um desejo estéril de fuga. Mas quero principalmente falar da “Cantiga de Alevantar”, uma impressionante canção, de resistência, de José Mário Branco. TATA REGALA

E dos rostos, dos olhares, limpos mas duros e questionadores, dos actores sobre nós os espectadores… à espera, para sempre à espera que nós realizemos, que nós mudemos, que nós preservemos qualquer coisa de claro e luminoso nestes tempos sombrios por onde tanta coisa boa se escoa, se esboroa.

Fim. O final fortíssimo, a fazer jus a toda a peça. Como se os actores e o encenador, eles, nos quisessem dizer, queimando a nossa alma, todos o nossos sentidos: “Não se esqueçam, não se esqueçam do que aqui viram e ouviram”. Não esqueceremos.

FICHA ARTÍSTICA E TÉCNICA Elenco Homem: Fernando Cabral/Jorge Carvalho; Blanche : Jorge Carvalho/Sónia Esteves; Os outros: António Branco e Márcio Guerra TEXTO PRINCIPAL d A Peste, inspirado em Talk to me like the rain, de Tennesse Williams (1953) TEXTOS COMPLEMENTARES fragmento de Fando e Lis, de Fernando Arrabal, e «Nada é impossível de mudar», poema de Bertolt Brecht DIRECÇÃO ARTÍSTICA António Branco TAPETE E CAMA Tó Quintas QUIMONOS desenho de Susana Duarte, confecção de Augusta Lampreia MÚSICA «Estrellita», de Manuel Ponce; «Cantiga de levantar», de José Mário Branco CARTAZ Susana Nunes FOTO DO PROGRAMA E DO CARTAZ de A Mãe, de Brecht-Gorki-Comuna (1978) FOTOS PARA DIVULGAÇÃO Tatá Regala A PESTE António Branco, Fernando Cabral, Jorge Carvalho, Márcio Guerra, Rui Andrade, Rui Mimoso, Sónia Esteves - e os conselheiros artísticos, Manuela de Freitas e José Mário Branco. Próximos espectáculos: 13, 14, 20, 21, 27, 28 JAN ¦ 21.30 Campus de Gambelas Laboratório de Teatro e Artes Performativas (FCHS) A entrada é gratuita mediante reserva: 289 800 914 (2ªF » 6ªF ¦ 9.00»12.30 ‒ 14.00»17.30) (lotação de 20 lugares).

Fala Comigo é a mais recente produção d’A Peste


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baú

Palavra de honra Joaquim Parra Professor de História e Coleccionista Há dias, remexendo no meu Baú, encontrei uns documentos bastante curiosos mas, simultaneamente, caricatos, testemunhos de uma época em que a palavra liberdade era um suspiro em surdina. Aqueles que viveram in illo tempore, ainda se devem recordar das proibições absurdas então vigentes e que uma policia atenta e uma censura mais ou menos eficaz (lembram-se do refrão das Janeiras de Zeca Afonso? Pam parari piri pam ) zelavam para que fossem escrupulosamente cumpridas. Não se podia dar um beijo em público; os rapazes tinham a sua escola e as raparigas, a sua, por vezes a funcionarem no mesmo edifício, mas devidamente separadas, não fosse o Diabo tecê-las; enfermeiras, hospedeiras do ar, telefonistas e, em alguns casos, as professoras, não se podiam casar, uma vez que eram consideradas profissões incompatíveis com as tarefas de esposa e mãe; usar isqueiro, só com a devida licença; o casamento, era “até que a morte os separe”, não sendo permitido o divórcio. A mulher podia sair de casa, mas para além do olho negro, levava a aliança que a prendia ao marido para sempre. Se começasse uma nova relação e tivesse um filho, o apelido seria o do seu ex e sempre, marido, resultando

desta absurda situação as célebres e estigmatizantes classificações de “filho de pai incógnito” ou “filho de mãe incógnita”. Os exemplos são imensos, por isso, o melhor é voltar aos documentos. O documento 1 refere-se a declaração “ajuramentada” e selada com “palavra de honra” a que todos os funcionários públicos estavam obrigados. Nela declaravam que estavam integrados na ordem social e constitucional vigente, repudiando o comunismo, todas as ideias subversivas e que jamais pertenceriam a institutos ou associações secretas. Estão datadas de 1948. O documento 2 é, igualmente, uma declaração, só que feita pelo marido, a autorizar a sua esposa a ir a Espanha, provavelmente para comprar caramelos ou uma esfregona, com a certeza porém que, sem esta declaração, a mulher não podia sair do país, uma vez que não podia ter um passaporte individual. Está datada de 1967. O documento 3 diz respeito a um parecer da Comissão Concelhia da União Nacional informando que é de conceder o visto no passaporte uma vez que, o individuo em causa, “não tem manifestado ideias subversivas e não consta que seja desafecto à actual situação política do país”. Está datado de 1951. O documento 4 é diferente. Trata-se de uma carta que foi aberta (e lida) para inspecção, pela censura. Desconheço as razões, mas é sabido que nessa época bastava estar debaixo de olho da PIDE ou DGS, para que a vida pessoal e íntima fosse esmiuçada. Neste caso, a pessoa teve sorte, uma vez que recebeu a carta, porque muitas vezes a correspondência pura e simplesmente desaparecia (como

1 - Repúdio ao Comunismo

3- Concessão do passaporte se pode verificar nos arquivos destas polícias). Está datada de 1945. O último documento (5), datado dos anos 70, diz respeito ao Boletim do Funcionário (público) no qual, anualmente, era averbada, após exame médico, a situação sanitária do mesmo ( seria substituído mais tarde pelo “atestado de robustez física” ).

2 - O marido tinha que autorizar a ida da esposa a Espanha

4- Carta aberta e lida pela Censura

5 - Boletim do funcionário público

• DA IMPRENSA LOCAL

Jornais de castro marim Com este número do Cultura. Sul damos início a uma nova secção que pretende continuar a divulgação do nosso património cultural. Aqui procuraremos homenagear um veículo de cultura que, tendo surgido principalmente, na segunda metade do século XIX, viria a consolidar a sua posição, contra ventos e marés, ao longo do século XX. Referimonos à Imprensa Local. Não é/será nosso objectivo elaborar exaustivas l ist a g ens dos jor na is loc a is publicados no Algarve, mas tão somente relembrar que em cada vila, cidade ou concelho algarvio existiram/ existem periódicos que, muitas vezes, só com as mais valias daqueles que os carregam aos ombros, lutando contra mil e uma adversidades, continuam o seu traba l ho de div u lgação cultural em prol da sua Terra, do seu Concelho e/ou do seu Distrito. Para aqueles, a quem estes despretensiosos artigos contribuam para despertar a cur iosidade de aprof unda r os conhecimentos sobre a sua imprensa local, aqui irão ficando, algumas referências bibliográficas.

Nesse sentido e, pelo seu carácter mais abrangente e exaustivo, aqui ficam, então, duas indicações iniciais: Subsídios para a História da Imprensa Algarvia de 1833 aos Nossos Dias, Capitão Vieira Branco, Faro, 1938 e História da Imprensa do Algarve, José Carlos Vilhena Mesquita, Comissão de Coordenação da região do Algarve, Faro, 1988, II Volumes.

Castro Marim Não se pode dizer que a imprensa periódica castro-marinense (ou baesurense) tenha um grande e diversificado historial, mas pelas suas particularidades destaco três exemplos, que, embora com uma vida efémera, simbolizam a vontade e a luta de Sísifo do jornalismo local.

Flores sobre Ruínas (1895/1896?) – Foi o pr imei ro jor na l de Castro Marim. Viu a luz do dia numa época conturbada em que a ameaça de extinção do Concelho ameaçava tornar-se (uma vez mais) uma realidade. Tratava-se de um jornal manuscrito, reproduzido pelo sistema de “copiógrapho” (conforme é referido no nº4) e do qual saíram, pelos menos, 25 números. Embora seja apontado como seu fundador, João Nepumoceno Mimoso Faísca, a verdade é que a única referência a este nome é a mesma aplicada a Jacinto Emídio Celorico Drago: “colega de redacção”.Os artigos são assinados sempre com pseudónimos. Era composto por um editorial, um folhetim, carteira (partidas e chegadas), enigma e a última folha era preenchida com desenhos para as senhoras bordarem. Alguns números apresentavam, além destes, caricaturas ou outro tipo de desenhos. Alvorada (1930/1931) – fundado e dirigido pelo médico

Mário Drago, era impresso na Tipografia Artes Gráficas Lda. de Faro. Com uma periodicidade semana l, saíram 10 números. Apresentava no cabeçalho o brasão da Vila de Castro Marim e diziase republicano. Apesar de visado pela censura, bateu-se pelos ideais republicanos contra a ditadura saída do golpe militar de 28 de Maio razão que, provavelmente, ditou a sua curta existência. Nas suas páginas podemos encontrar a reprodução de algumas fotografias, desenhos e publicidade. Boletim Paroquial de Castro Marim (1978) – propriedade da Fábrica da Igreja de Castro Marim, era dirigido pelo Padre António Oliveiros Henriques. Teve vida efémera: nasceu em Janeiro e terminou com o número 6, em Junho. Mensário de carácter religioso, era composto e impresso na Tipografia União em Faro. O seu conteúdo era essencialmente religioso, embora também aparecessem alguns artigos relacionados com o concelho.


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museu • MUSEUS – A VEZ E A VOZ DO VISITANTE

Isabel Soares Museóloga/Arqueóloga Não sou visitante de primeira viagem. Já o visitei algumas vezes, tendo sido a primeira vez há mais de trinta anos, no âmbito de uma visita de estudo da escola primária. Na altura era um acontecimento obrigatório para quem estudava no Barlavento algarvio. Ainda me recordo da algazarra e da manifestação de alegria incontida, no momento em que entrámos, silenciada minutos depois pela surpresa, pela diferença e sobretudo pela magia suscitada pelos bizarros animais de oito patas, três olhos, duas cabeças e mesmo o pinto de quatro patas. Relembro que fomos conduzidos por salas e salas, com “milhões de coisas”, que eram explicadas pela professora, numa conversa ininterrupta que nos inundava de dados, juntamente com a guia do museu que nos advertia repetidamente para não tocarmos ou mexermos em nada. Naquele dia, não me lembro de termos tido tempo para nos divertirmos. Porém, aprendemos a História da região, contada pelo museu. E isso não foi pouco. A ideia de museu da época, o desafio da procura em cada espaço e as memórias da visita perduram até hoje. Na véspera da passagem para o ano de 2011 fui, novamente, ao encontro deste museu, desta vez, sem imposições, apenas pelo prazer de aprender e pela alegria de partilhar o que observei naqueles espaços. Nesta visita procurei também entender por onde entravam os olhos do “outro”, anotando a reacção das demais pessoas que o visitavam, as suas sensações e ainda o ritmo das suas caminhadas, neste lugar onde tudo parece ter menos pressa. Para conhecer melhor a História deste museu foi fundamental recuar ao tempo da sua fundação. Por isso, foi necessário investigar o contexto em que este museu nasceu e, igualmente, compreender o seu fundador, Dr. José Formosinho. Este homem de cultura e algarvio era muito afeiçoado à sua região. Destacou-se, desde logo, pela realização de explorações sistemáticas e estudos regionais que permitiram levar a cabo um conjunto de iniciativas de âmbito cultural, nomeadamente a criação deste Museu, que foi construído à semelhança dos Museus Regionais do Estado Novo, onde a Etnografia e a História Regional assumiram uma grande importância na época. Este ilustre algarvio não poupou esforços para recolher e salvaguardar os testemunhos das várias épocas e dos vários aspectos históricos, artísticos, religiosos e populares da região. Numa visão global do que será uma visita a este museu, viajaremos então desde o átrio da entrada, passando pelas diversas “secções”, até chegar à maravilhosa Igreja de Santo

O Museu Municipal José Formosinho, em Lagos

Os diferentes espaços do Museu apresentam colecções multidisciplinares António e à sua Sacristia, local onde primitivamente se instalou o pequeno museu regional. Os diferentes espaços apresentam colecções mu lt id iscipl ina res, provenientes de várias localidades da região. Destaco, do riquíssimo espólio, as colecções de arqueologia, que vão desde a pré-história até à época árabe. Assinalo ainda a importância dada à História da cidade de Lagos e, de um passado mais recente, aponto a etnografia que representa quase todo o artesanato do Algarve. Também as artes plásticas e decorativas, a arte sacra, armaria, curiosidades e a numismática fazem parte deste acervo. Nesta mostra, o visitante nota uma verdadeira preocupação organizacional a nível expositivo, sendo que as secções

se encontram organizadas por salas e os objectos por períodos cronológicos. Alguns armários e escaparates antigos, eles próprios, parecem ter interesse para a História da Museologia, apesa r de, nesta última visita, ter verificado algumas alterações no mobiliário de exposição, justificadas certamente por questões de conservação e preservação das peças. São de ter igualmente em conta, as melhorias realizadas na comunicação de algumas das suas colecções, respeitando contudo a historicidade do museu. Actualmente, este museu mantém praticamente a mesma configuração dos anos seguintes à sua fundação, permanecendo enquanto “documento vivo” da História da museologia. O

espaço foi aproveitado ao máximo e dividido por salas, onde figuram exposições permanentes, que o tempo parece ter cristalizado. Longe de uma museograf ia contemporânea, no meio de um mundo imenso de coisas díspares, ainda me sinto visitando um dos museus dos anos 30, o que não deixa de me deleitar. Termino procurando rememorar e partilhar algumas das palavras que resultaram do diálogo entre o visitante, as colecções e os funcionários deste museu. Este espaço, noutro tempo, foi considerado como um dos melhores “Museus Provinciais”, fazendo, por isso, honra ao Algarve. Hoje é, na opinião daqueles com quem conversei e que também o visitavam, um

museu de “feição muito própria”. Muitos dos seus visitantes consideramno surpreendente, interessante e maravilhoso e, para outros, este lugar é simplesmente mágico e transcendente. Para as pessoas que nele trabalham esta é a sua “casa” e, por isso, partilham com brio o seu museu, dito de outra forma: “a história da nossa região algarvia”. Para mim, que o julgo com os olhos de hoje, visitá-lo é uma questão de tempo e de olhar. Retrata a História do Algarve, nas diferentes épocas e ele próprio conduz-nos às suas memórias, enquanto Museu.


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Espaço Educação

Projecto “Escola Activa” O c on s e n s o e m to r no d a problemática da Obesidade Infantil, levou a Administração Regional de Saúde do Algarve, I. P. e a Escola Superior de Saúde da Universidade do Algarve a conceberem o Programa de Combate à Obesidade Infantil no Algarve. Foram, nesse âmbito, implicadas outras instituições através da celebração de um Protocolo de Colaboração, assinado em 10 de Março de 2006 e com o aditamento a 26 de Março de 2007, entre a Administração Regional de Saúde do Algarve, a Universidade do Algarve, a Direcção Regional de Educação do Algarve, o Hospital Distrital de Faro, o Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio, a Área Metropolitana do Algarve, a Federação Regional das Associações de Pais do Algarve, a Direcção Regional do Algarve do Instituto do Desporto de Portugal e as Câmaras Municipais que perfazem a totalidade dos 16 concelhos da região do Algarve. No âmbito do Programa de Combate à Obesidade Infantil no Algarve, a Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve em articulação com outros parceiros do Programa concebeu a “Escola Activa”, sendo este um projecto de abrangência regional que decorre e que se fundamenta na promoção da quantidade e qualidade da prática de actividade física e desportiva na população infantil. Pretende favorecer, sobretudo, a diminuição do excesso de peso e contribui para a formação de indivíduos com estilos de vida mais activos e saudáveis. A “Escola Activa” centra-se, pois, na criança/jovem e avalia actividades de prevenção e actuação que permitem a identificação precoce do excesso de peso e, consequentemente, uma rápida resposta às necessidades da criança/jovem em prol de um peso saudável, para toda a vida. Estas medidas integradas (na criança/jovem, na família, nos técnicos de saúde e na comunidade escolar), baseiam-se numa lógica de acção local e assentam numa actuação de natureza comunitária através da participação activa de diferentes forças vivas regionais. A Direcção Reg iona l de Educação do Algarve implementou a operacionalização da “Escola Activa” que envolveu, no seu arranque, no ano lectivo de 2008/2009, diversos professores do Ensino Básico dos Agrupamentos de Escolas do Algarve, contando com a participação de 2 699 alunos do Pré-Escolar e 1º Ciclo, de 20 Agrupamentos de Escola, respectivas famílias e técnicos de saúde dos 16 concelhos algarvios. No ano lectivo de 2009/2010 houve um crescimento significativo,

Encontro Desportivo Escola Activa em Silves 2010 devido à pertinência e necessidade de implementar este projecto em outras Escolas, perfazendo um total de 20 102 alunos. Assim, nesse ano lectivo formaram-se Coordenadores Escola Activa de Agrupamento de Escola que coordena, desde o Pré-Escolar ao 9º ano de escolaridade, em estreita articulação com o Coordenador da Escola Activa da Autarquia, que, por sua vez, tem a seu cargo as Actividades de Enriquecimento Curricular Actividade Física e Desportiva no 1º Ciclo do Ensino Básico. No ano lectivo de 2010/2011, o Projecto “Escola Activa”, coordenado pela Direcção Regional de Educação do Algarve, envolve 31 151 alunos de 45 Agrupamentos de Escolas do Algarve. No â mbito da sua acção conjuntamente com os parceiros do Programa de Combate à Obesidade Infantil no Algarve, o Projecto “Escola Activa” tem vindo a realizar: - Acções de Formação para docentes, envolvendo os 6 Centros de Formação de Associação de Escolas do Algarve. - Acções de Sensibilização com o tema “Pais Activos pela Saúde”, em parceria com as Nutricionistas/ Dietistas dos Centros de Saúde, envolvendo Encarregados de Educação.

- Avaliação da Aptidão Física dos alunos e encaminhamento para os Centros de Saúde dos alunos com magreza extrema e com obesidade. - Avaliação das iniciativas realizadas por cada Escola e atribuição dos Galardões Escola Activa. No ano lectivo de 2009/2010 foram atribuídos Galardões a 118 Escolas do Algarve (80 Galardões Bronze, 26 Galardões Prata, 11 Galardões Ouro e 1 Galardão Platina). - Encontros Desportivos da “Escola Activa” por Concelho com o apoio e a organização das Autarquias do Algarve, e que no ano anterior totalizaram 13 561 alunos. Onde o “Activix” (mascote do Projecto), tem sido uma presença constante destes grandes eventos. Contamos com a vontade e o envolvimento de todos, para que possamos ter uma Escola cada vez mais Activa e uma sociedade mais saudável. Para mais informações sobre o Projecto “Escola Activa” consultar o endereço: www.drealg.min-edu.pt

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Encontro Desportivo Escola Activa em Loulé 2010

Luís Correia Director Regional de Educação do Algarve Dados de Alunos Inscritos na Escola Activa


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livro • DA MINHA BIBLIOTECA

Escrita do sul? Escrita regional? Adriana Nogueira

Professora Universitária de Estudos Clássicos adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com

Quando estiver a ler este texto já poderá ter participado no encontro promovido pela Câmara Municipal de Loulé, dia 11 de Janeiro, subordinado ao tema: «Existe uma escrita do sul?». Também eu espero poder lá ter estado, mas, entretanto, aqui vos deixo a minha reflexão, que não versa sobre nenhum dos intervenientes – que muito aprecio – do referido encontro, mas sobre outro: Rogério Silva. Isto, porque já uma vez me tive de pôr a pergunta «o que é um escritor regional?». Tudo aconteceu há uns anos, quando procurava o último livro de José Carlos Fernandes (insigne autor de banda desenhada que, por acaso, é de Loulé, e de quem hei-de falar neste espaço). A situação foi a seguinte: tinhame dirigido a uma livraria em Faro, daquelas que pertencem a uma cadeia de livrarias, e perguntei se tinham o referido livro (devia ser um dos volume de A Pior Banda do Mundo). Como a funcionária não estivesse a localizar o autor, eu acrescentei «ele até é daqui, de Loulé». Foi então que ouvi a resposta mais espantosa: «Ah, então não temos. Nós não temos escritores regionais». O que é um escritor regional? Escritores regionais? O que é um escritor regional? Um escritor provinciano? Será que Aquilino Ribeiro foi um escritor provinciano, por os seus escritos estarem cheios de provincianismos? E Mia Couto, conceituado escritor moçambicano, que refaz a língua portuguesa em cada linha? Até que ponto a linguagem pode limitar a expansão ou a «exportação» de um autor? Paul Auster é de Nova Iorque, situa as suas histórias em Nova Iorque (o que é normal, pois é a terra que conhece melhor), usa gíria nova-iorquina. É Paul Auster um escritor regional? A maioria dos romances está impregnada de referências, quer literárias, quer artísticas, quer históricas... enfim, uma obra de arte literária não surge sem referência. O seu autor, necessariamente, está integrado num contexto sociocultural, para não dizer também económico, que determina as suas escolhas estilísticas, na busca, normalmente, de um estilo próprio, cognoscível para quem o lê, ou/e na inserção numa corrente literária com a qual se identifique. E, como dizia Aquilino Ribeiro, «Em literatura o estilo é como o álcool para os corpos embalsamados: conserva-a». Tomo, então, o exemplo do autor acima referido, natural de Tavira, que usa esta sua terra, o Algarve, numa escolha deliberada deste espaço

geográfico e cultural, com uma intenção programática de preservação daquilo que lhe é típico, identificativo, daquilo que faz com que se pense e entenda esta região como pertença sua/de quem de lá (cá) é. Fonte Salgada, de Rogério Silva Rogério Silva publicou o seu último livro, Fonte Salgada, em Fevereiro de 2008, na editora Gente Singular, e é a esta obra específica que me vou referir. Fonte Salgada é uma colectânea de contos onde o autor recupera uma linguagem regional algarvia, se bem que não exclua outras inf luências linguísticas, como galicismos (métier), italianismos (garbo), latinismos (normalmente referentes a termos jurídicos, área que o autor conhece bem, pela sua profissão de advogado) e anglicismos (match). Aliás, os seus contos são muito variados, quase tanto como os seus narradores. Dependendo de quem conta a história, assim a linguagem muda. Confesso que usei várias vezes o dicionário Houaiss (tenho uma utilíssima versão electrónica) para entender o sentido de algumas palavras. Umas eram formas populares, outras antigas, outras regionalismos (como cóia, por cróia, ou larada). Outras não estavam registadas (baldeado – amalucado). Algumas deduzi-as pelo sentido (almareado por mareado), outras nem por isso (como palaio, que parece ser um tipo de alimento, mas quem não sabe – como eu – fica na mesma)… Alguns dos contos podem tornar-se quase incompreensíveis se quisermos entender tudo, mas, como o meu pai me aconselhou a fazer na altura em que comecei a ler Camilo (aos 11 anos, não o deixando descansar, ao perguntar-lhe insistentemente «Ó pai, o que quer dizer isto…?»), o melhor é ir lendo e «tirar pelo sentido». Mesmo não compreendendo a totalidade, «sentimos» que é bonito e coisa boa. Façam o exercício de ler (em voz alta, para a família, por exemplo) o conto «Zé Frescata» (pp.209-215). Que traz Rogério Silva a mais, além da linguagem (o que, só por si, não seria pouco)? Teresa Rita Lopes responde a isto, no prefácio, «se o tempero é algarvio, o manjar é português». O autor preserva um conhecimento de uma realidade que, a alguns de nós, passa ao lado, mas não é de desprezar na compreensão das gentes e da sua mentalidade, como é o da diferença entre a serra e o mar, a visão que outros têm da gente de cá, a vida de trabalho a que aqui se assistia: «sentia desprezo pelos serrenhos, pela fala mazorra trocando o ou pelo ou (som da serra, som serrenha), pelo cheiro entranhado a esteva que

Na colectânea de contos, o autor recupera uma linguagem regional algarvia exalavam das roupas e dos cabelos» (p.92); «Que nunca tinha servido. Entre as gentes da baixa-mar isso não era costume, nem os patrões as aceitava m pela r u im fa ma que tinham» (p.186); [um padre transmontano] «tinha nos algarvios uma descrença atávica caldeada no preconceito religioso e histórico que os taxava de agarenos, relapsos à cruz de Cristo, mouros sem lei e sem fé» (p.101); «louçã e solta, livre e insubmissa, atributos que sempre pensou comporem o carácter das gentes do mar. Via-lhe nos olhos claros a cor da areia da praia [se fosse alentejana diria o dourado das espigas, provavelmente], no cabelo espesso a coloração crestada e a forma riça das moitas dos sapais; sentia o cheiro da ria, desprendendose da mancha pardacenta com que o lodo lhe cobria os pés (…) daquele corpo de mulher do sul, de talhe trigueiro e meão. (p.183); «vidas sustidas por nós e atilhos delidos que no mar, na ria, nas obras e nas fábricas de conservas (…)».

«até um que tinha a mania dos versos a comparara a um figo pingo-de-mel maduro» Deixo-vos com uma das mais saborosas delícias algaravias (conto «Malvados Figos!», pp. 63-65): «figuinho temporão que amadurece ao rés da estrada»; «aos alvores de São João, quando o lampo cachopeiro intumescia e começava a expor o brilhozinho guloso»; «o figueiral

abundava de castelhano e bêbera luzindo no seu tom castanho-escuro, e de coito pequenote de pedir meças ao mel»; «e empanturrou-se como nunca do sortido mais precioso quer de brancos quer de pretos». E termino com um conselho sábio do narrador: «figos quentes dá dor de barriga ou figo ainda inchado rebenta os lábios».

• DIZIAM OS ANTIGOS São puros mentirosos todos os que pretendem fazer crer que, se não se entregam ao estudo, é por causa dos seus inúmeros afazeres. Na realidade, tais afazeres são um pretexto, são afazeres empolados por gente que se quer fingir ocupada! Eu sou um homem livre, inteiramente livre, e onde quer que esteja, tenho todo o tempo à minha disposição. Não me entrego aos afazeres, presto-me a eles, quanto muito, e não me ponho à procura de ocasiões para perder tempo. Séneca, Cartas a Lucílio, 62. Edição da Fundação Calouste Gulbenkian.


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política

Henrique Dias Freire

• ENTREVISTA COM JORGE BOTELHO, PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE TAVIRA

Só a cultura pode dar emprego todo o ano do Convento da Graça, que atrai muita gente, e temos actividade no Palácio da Galeria. Mas isso não se modifica por decreto mas dando sinais claros aos empresários que vale a pena investir porque há um programa estratégico para levar coisas àquele espaço. Há em Tavira uma actividade que pode vir a crescer, que é a das visitas comentadas ou guiadas. Temos muitos roteiros, mas temos as igrejas fechadas. No ano passado abrimo-las de Verão, este ano vamos abri-las muito mais cedo e fazer um projecto para estarem abertas o ano todo.

Para Jorge Botelho, presidente da Câmara de Tavira, a cultura deve ser a grande aposta de quem pretende uma verdadeira quebra da sazonalidade turística no concelho. O autarca defende a promoção de eventos culturais durante todo o ano, associada ao turismo de natureza e à vida numa cidade calma, preservada e atravessada pelo Rio Gilão. E, no caso de Tavira, a falta de um grande auditório até nem constitui um grande problema, uma vez que a sua falta obriga a “repartir” os eventos por outros espaços, muitas vezes na rua, um pouco por toda a cidade. A revitalização da zona histórica como espaço onde se vive cultura é uma das grandes apostas para os próximos tempos.

E as “marcas” de Tavira? CS – É a cultura uma possibilidade para gerar emprego durante todo o ano?

Cultura.Sul – Como caracteriza culturalmente Tavira? Jorge Botelho – Tavira é conhecida por ter uma oferta muito diversificada ao longo do ano e aos f ins-desemana. Temos protocolos com várias e n t i d a d e s , a q u i d e Ta v i r a , nomeadamente com a Academia de Música que ao longo das 52 semanas do ano nos dá música nas igrejas todos os fins-de-semana. Muitas vezes com mais do que um espectáculo, aos sábados e domingos. Temos uma série de espectáculos programados com as companhias de teatro AL-MaSRAH e ACTA e com a Orquestra do Algarve. Fazemos uma programação nos nossos espaços museológicos e usamos as nossas igrejas como anfiteatros. Ao longo do ano, temos sempre alguma coisa para oferecer. Uma actividade riquíssima, com colóquios, sessões e apresentações de livros. CS – O Verão merece uma atenção especial… JB – A partir do dia 1 de Julho, na Praça da República, conseguimos juntar, até à primeira quinzena de Setembro, uma programação diversificada com música, exposições, jazz, artes performativas e teatro. Tavira é uma cidade com muita história, muito preservada, calma e muito identificada com a qualidade de vida. Nós associamos a isto um escape com um conjunto de animações que são gratuitas. Tavira é uma cidade dedicada à cultura nas suas várias vertentes. Grande parte dos artistas nacionais passa por cá. Temos várias exposições no Museu Municipal e vai lá ter lugar uma exposição da Culturgest e várias outras exposições que vão seguramente ter muitos visitantes. No ano passado, tivemos um acréscimo de 30% de visitantes naquele espaço e mais 10% de turistas a visitar o concelho. CS – E novos investimentos? JB – Estamos a investir na abertura de mais um espaço museológico dedicado ao mundo islâmico e depois

Jorge Botelho, presidente da Câmara Municipal de Tavira vamos investir num outro dedicado ao mundo fenício, continuando a investir na recuperação do património histórico edificado.

Falta de auditório leva cultura pela cidade CS – Apesar da desvantagem de não haver um grande auditório, a existência de uma série de espaços alternativos onde acontece cultura não acaba por tornar a cidade mais interessante? JB – Efectivamente. Temos encontrado espaços alternativos e, quando um evento não pode ser feito “debaixo de telha”, tem de ser feito no espaço público. Nisso temos tido muita sorte e temos criado condições para o fazer. Penso que as pessoas que vêm cá nunca dão por mal empregue o tempo gasto. O que não quer dizer que não tenhamos uma visão estratégica de complementar o que nós fazemos com outras actividades ligadas aos dias de hoje. Tavira não pode ficar de fora dos circuitos à nossa dimensão que tenham qualidade. E temos de estar preparados para os receber. É nessa linha que vamos recuperar o velhinho Cine-Teatro António Pinheiro. CS – Em que fase é que está o projecto de recuperação? JB - Vamos reformatar o projecto

inicial, que era um projecto em grande dimensão, que custaria mais de dez milhões de euros e que provavelmente não seria rentabilizado devido à falta de estacionamentos nas ruas limítrofes. Pensámos em recuperar o edifício, num investimento de mais de um milhão de euros. Estamos, de resto, a pensar num novo auditório, no Campo da Feira, onde estamos a tratar da alteração do plano de urbanização. Não há datas, mas iremos seguramente avançar com o projecto e esperamos lançá-lo ainda neste mandato.

Revitalizar Zona Histórica é grande desafio CS – Que projectos estão na calha para o desenvolvimento da Zona Histórica da cidade? JB – A afirmação do Palácio da Galeria é fundamental para o desenvolvimento da Zona Histórica, bem como a recuperação do edificado e das igrejas. A Igreja da Misericórdia esteve em obras e vamos avançar com um projecto de recuperação urbanística aquando da criação do núcleo museológico sobre o mundo fenício. Queremos aproveitar melhor o nosso Castelo. Gostávamos de o transformar num espaço onde se pudesse estar, para a realização de concertos e outros eventos, a par da utilização da nossa zona alta. O

espaço urbanístico envolvente da zona muralhada da cidade deve ser melhorado. Vamos avançar rapidamente com a recuperação da Igreja das Ondas. Estão ainda previstas outras intervenções no património edificado, para além da recuperação de pinturas e fachadas que temos vindo a fazer. C S – Como é que se pode dinamizar a Zona Histórica? JB – Levando pa ra a Z ona Histórica um conjunto de realizações, programas, feiras. Este ano fizemos concertos no Palácio da Galeria. Fizemos o Festival Jazz do Verão todo no Palácio da Galeria, o que foi uma boa aposta porque o sítio é fantástico e esteve sempre cheio. Temos programados alguns concertos dentro do Castelo, dentro das praças, nomeadamente na que fica por detrás da Igreja de Santa Maria. Não acontece na Zona Histórica de Tavira o que acontece noutras cidades em que o centro histórico está povoado, com actividades, bares e cafés. CS – Neste momento a ofer ta resume-se a um único restaurante… JB – …Sim, e esse restaurante tem passado por muitas dificuldades. Esse restaurante é uma varanda sobre Tavira mas um restaurante não faz a zona histórica. Também temos lá a Pousada

JB – Tavira teve muita gente com história e muita gente ilustre que passou por cá. A Biblioteca Municipal chama-se Álvaro de Campos. E porquê? Porque foi aqui em Tavira que Fernando Pessoa fez nascer esse seu heterónimo. E quantas pessoas é que sabem disso? Tavira pode associarse ao universo pessoano como a terra onde ele criou o seu alter-ego. Porque Álvaro de Campos representava a pessoa que ele sempre quis ser. Não podemos ser ingénuos. Sabemos que estes circuitos dão emprego a muita gente. E a única matriz que pode verdadeiramente dar emprego durante todo o ano em Tavira é a matriz cultura associada a um conjunto de actividades de turismo de natureza. O ex-líbris é conciliar isso com a sociedade civil, os financiamentos e os apoios que temos. E para isso estamos a elaborar um plano que iremos partilhar com os agentes. PA - Tavira tem um dos três cineclubes do Algarve, uma das duas companhias profissionais de teatro da região… Há uma grande aposta nas marcas da terra? JB – Há uma aposta numa transversalidade, que é muito boa se se associar às marcas da terra, que também têm de se juntar e sofrer influências de outro tipo de marcas. Se fizermos uma coisa muito bairrista e muito caseirinha podemos não ter o espectro da avaliação total porque não somos influenciados. Esta complementaridade é muito importante para uma terra eminentemente turística como Tavira. Nós temos tudo para oferecer. Temos bom tempo, Tavira é a terra com a maior exposição solar do país, temos uma boa gastronomia, um espaço público arranjado, somos bafejados pela natureza com um rio a meio da cidade, temos arquitectura, igrejas, expressões culturais, artistas e muitos visitantes ligados ao movimento artístico.


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arte CARLOS GRAÇA

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João Evaristo

• CASA DA JUVENTUDE DE OLHÃO

Igor Nunes Silva expõe pintura e escultura Igor Nunes Silva nasceu em Olhão, em 1977, de onde partiu para uma inebriante aventura de descobertas, por vários continentes. Viajou por África, Ásia e Europa. Foi artista de rua, envolveu-se nas diferentes culturas, experimentou diversas técnicas, integrou vários projectos artísticos. Desta pluriculturalidade de experiências e aprendizagens nasceram obras excepcionais que revelam grande domínio em diferentes técnicas e se traduzem num artista impar. De volta a Portugal continuou o seu processo de criação. Foi fundador e orientador de um núcleo de banda desenhada e de uma oficina de artes para crianças, num projecto de apoio social. Produziu alguns projectos para espaços comerciais de forte implementação no mercado onde operam.

Pormenor da escultura do Rei Gato, de Igor Nunes Silva

Espaço ALFA

No decorrer de 2010 participou no aniversário da MTV Portugal com a personificação do “MTV Toy” em representação do Fórum Algarve. Colabora com jornais. Articula o seu trabalho com diferentes áreas artísticas, nomeadamente teatro e cinema.

Das exposições realizadas por todo o Mundo, destacam-se: - Palm Beach Salon Bil A.M. Florida USA - A r t Show at space Sor ia Montmartre Paris France - Solo Exhibition at space P.E.O Poul Andersen Frederiksberg Denmark - Art meeting at space yuri Ken Sai kai Kamakura Japan - Art Show Salon Ben Mayer South Africa - Art show Maconde Monçambique Kultural Lisboa Portugal - Art Show MTV music television Portugal Com trabalhos actualmente expostos em diferentes locais, esta é uma pequena mostra da versatilidade de estilos e técnicas de Igor Nunes Silva.

7 JAN » 4FEV | Corredor das Artes da Casa da Juventude de Olhão

• ALFA – ASSOCIAÇÃO LIVRE DE FOTÓGRAFOS DO ALGARVE

Balanço 2010 e antevisão das primeiras Actividades para 2011 Raul Coelho ALFA www.alfa.pt www.flirckr.com/groups/alfa www.facebook.com/alfaphoto

Fomentar o gosto pela fotografia é um dos objectivos da ALFA que começou a reunir cada vez mais os amantes por esta arte. Foi esta a razão que levou a que 2010 fosse mais um ano dourado para esta associação sem f ins lucrativos que reuniu inúmeras vezes as duas centenas de sócios que participaram em diversas

iniciativas. O mercado de Portimão foi uma das primeiras actividades de 2010 em que os alfistas puderam realizar o seu gosto de premir o botão e prender aqueles momentos que espelham o nosso povo e a nossa forma de viver. São momentos como este que nos dão vontade de partilhar com as outras pessoas o fruto do nosso trabalho que tem sido recolhido por toda a região. Já voltando à capital algarvia, em Maio foi possível fotografar modelos que se expuseram às objectivas dos fotógrafos que desta forma realizaram um sonho para muitos de nós que ainda não tinham tido a oportunidade de experimentar capturar a beleza dos manequins.

Iniciativas deste tipo aconteceram diversas vezes pelo Algarve podendo apontar a cobertura de eventos como a Concentração de Motos, em Faro, o Festival do Marisco, em Olhão, Dias Medievais de Castro Marim e outros mais pontuais como o espectáculo musical e artístico, La Fura Dels Baus, peça de teatro experimental, em Lagos que juntaram sempre grupos de dezenas de fotógrafos da ALFA. Ao mesmo tempo que decorriam estes passeios fotográficos foram também realizados encontros que deram formação aos fotógrafos iniciantes. Exemplo disso decorreu em Julho, na Biblioteca Municipal d e Ta v i r a q u e d e s t a f o r m a aprofundou os conhecimentos dos

que participaram. Rumando ao futuro, 2011 será um ano especial pois está prevista a abertura da sede da ALFA, a partir de Março na Cidade Velha de Faro onde irão decorrer diversas actividades desde tertúlias, workshops, exposições e passeios fotográficos que desta forma simbolizarão aquele espaço. O Pictures Style / Estilos de Cor será a primeira iniciativa, em meados de Janeiro na Sociedade Recreativa Olhanense, a que se seguirá a descoberta dos Vinhos do Algarve no âmbito do Ano Internacional da Química, depois as Cooking Sessions _ Aprender, Fotografar e Degustar e uma exposição dedicada ao Banco Alimentar, em Março. Fotografar os bastidores de corrida

no Autódromo Internacional do Algarve e uma Sessão sobre Direitos de autor e Imagem em Portimão, são os momentos altos, em Maio. Esta é uma breve ideia geral das actividades da ALFA que se tem enriquecido desde a sua fundação em 2008 brilhando cada vez mais com os seus flashes que fotografam os dias algarvios. Por último, convém recordar que para se associar na ALFA basta ter uma câmara convencional, compacta ou SLR digital, dispor de algum tempo livre ao fim de semana e estar disposto a pagar a quota mensal no valor de um euro por mês.


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Espaço Cultura

Cidades (In)visíveis – laboratórios de ensaio e focus de interesse turístico-cultural Os autores da Época Clássica que, nos primeiros séculos da nossa era, escreveram sobre o extremo Sudoeste da Península Ibérica coincidem em relevar Balsa e Ossonoba como aglomerados urbanos de primeira importância, cidades portuárias com funções de capitalidade regional sob o domínio imperial romano. Embora com origens e destinos diferentes, ambas são, hoje, cidades (in)visíveis. Ta l c o m o C o n i m b r i g a , Eburobrittium e outras cidades romanas de Portugal, Balsa foi totalmente abandonada com o final do Império Romano e jaz agora sob os terrenos agrícolas das Quintas da Torre d’Aires, do Arroio e das Antas. Se a sua relevância histórica é confirmada pelos inúmeros achados arqueológicos que o acaso e sucessivas gerações de arqueólogos têm podido resgatar, a invisibilidade física da urbe apenas se torna perceptível pela ponderação da geografia histórica e do traçado dos caminhos rurais que atravessam os terrenos onde, outrora, viveram e morreram mulheres, homens e crianças. A vida continuou e Balsa é hoje uma paisagem cultural de características rurais adentrandose nos sapais da Ria Formosa, a Sotavento, frente a Luz de Tavira. No Algarve Central, e tal como Balsa, também Ossonoba faz negaças à nossa vista: nem um só edifício exento se mostra, daquela que foi capital de uma vasta circunscrição romana, que chegou a abarcar o território circundante e também todo o Barlavento! O templo do arruinado forum, visível frente à Sé ainda na

Tal como Balsa, também Ossonoba faz negaças à nossa vista década de 1960, jaz novamente soterrado sob a praça da catedral. Tal como Olisipo, Pax Iulia e outras cidades romanas de Portugal, e distintamente de Balsa, aqui a cidade antiga permanece invisível por baixo e no cerne do vetusto casario de Faro. E cada obra, cada cave, cada ferida no subsolo da velha cidade pode converter-se em um pretexto para espreitar a urbe invisível onde, desde o século IV antes do início

da nossa era, ininterruptamente, foram vivendo e morrendo mulheres, homens e crianças. Tal como Balsa, também Ossonoba se deixa entrever no entretecido dos caminhos urbanos, vielas da cidade actual. Os antigos cardines e decumani têm a sua correspondência em ruas que foram mudando de nome conforme os tempos e a vontade das pessoas. Subsolos altamente sensíveis como o destas duas cidades invisíveis

António Pina Convida

Cultura.Sul apresenta opinião convidada pela mão de António Pina O Cultura. Sul lança nesta edição, em simultâneo com a nova imagem, novas rubricas e entre elas está “António Pina convida”, um espaço de opinião onde um dos nomes mais relevantes da vida pública da região, António Francisco Ventura Pina, terá um convidado todas as semanas. A opinião tem assim uma marca pessoal na selecção de quem a escreve, um cunho, o do actual Provedor do Estudante da Universidade do Algarve. O s c onv id a do s são a s si m

invisível Ossonoba – e de todas as outras cidades, mais ou menos invisíveis, que lhe foram sobrepondoa. Nesta perspectiva, a Direcção Regional de Cultura do Algarve, em consonância com o IGESPAR, IP, tem incentivado, com os Municípios da região, a adopção de medidas de planeamento de salvaguarda, inscrevendo nos Planos Municipais de Ordenamento – em particular nos Planos de Urbanização e nos Planos de Pormenor – a cartografia por menor iz ada das á reas de sensibilidade arqueológica, com graduação de risco e de medidas de salvaguarda/valorização plasmadas nos correspondentes regulamentos. Neste sentido, as cidades (in)visíveis constituem-se como verdadeiros «laboratórios de ensaio histórico», nos quais se vão ensaiando e pouco a pouco descobrindo as fórmulas e os receituários de convivência entre a paisagem cultural, as arruinadas urbes preexistentes e os interesses dos cidadãos que, hoje, sobre elas procuram viver e, teimosamente, ser felizes.

escolhidos por um nome cuja isenção, conhecimento, independência e amplo espectro de relações são sobejamente reconhecidos. Um algarvio com um currículo extenso onde constam, depois da profissão de sempre, professor, os cargos públicos como vice-presidente da Câmara Municipal de Olhão, director Regional de Educação do Algarve, presidente da Assembleia Municipal de Olhão, deputado pelo Algarve à Assembleia da República, Governador Civil e presidente da

Região de Turismo do Algarve. Mas muito mais do que o percurso político e profissional António Pina é reconhecido pela disponibilidade para a causa pública em geral, pela sua capacidade de se dedicar às mais diversas áreas em prol da sociedade e muito em particular da sociedade algarvia. Algo que, uma vez mais, faz ao aceitar o convite do Cultura.Sul e assumir o espaço “António Pina Convida”.

recomendam ser tratados com cuidados extremos. Cada vala, cada cabouco, pode converter-se numa lição de História. E nem sempre os homens, ou a sua vontade, são sensíveis a perscrutar nas entranhas da terra os sinais do passado. De aí que em Faro desde há alguns anos se tenha preparado um mapeamento das áreas de sensibilidade arqueológica, diferenciada em consonância com o achado dos testemunhos materiais da

(Endnotes) a Ver Regulamento Municipal das Intervenções nos Núcleos Históricos de Faro, Aviso n.º 10395/2002 (2.ª série) – AP. Disponível em http://www.cm-faro. pt/NR/rdonlyres/63CE6353-80D2444E-886E-11E5422857F1/0/DR_ Aviso_103952002RMINHF.pdf Direcção Regional de Cultura do Algarve

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