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O Algarve do Reino à Região p. 4, 5, 6

Arquipélago Allgarve’ 10 p. 14 e 15

Juan Martinez pinta poesia p. 12 e 13

Caderno de artes >> Postal

3 | JUN | 2010 • Nº 22 • Mensal • Este caderno faz parte integrante da edição nº990 do POSTAL do ALGARVE e não pode ser vendido separadamente

13 exposições fazem uma retrospectiva de 1000 anos da história e da cultura na região


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notas

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notas

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Cultura

Diálogos 3

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nota

resente é um tempo entre passado e futuro. Este é o presente do tempo histórico, do quotidiano. O do tempo psicológico pode ser um presente do passado, recordação ou memória.Também pode ser um presente do futuro, imaginação ou ilusão. Confundir estes tempos torna-se um problema quando conduz à indistinção dos

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diversos planos e níveis da realidade. Problema grave quando se realiza em responsáveis pela coisa pública. Problema gravíssimo quando se transforma na linha de orientação de governo de um país. Em Março, responsáveis governamentais anunciaram que «a cultura já representa 2,8% do PIB e dá trabalho a 127 mil pessoas». Em época de crise, o anúncio soou prometendo a salvação ao país. Mês e meio depois, o Presidente da República confirmou: o segundo desígnio do país era as «novas indústrias criativas». O futuro era como se fosse presente. Portugal encontrara o rumo para vencer a crise. O presente era o futuro. E cultural. Um maná! Mais sebastiânico do que bíblico, como se veria. Três meses após vieram outros responsá-

veis da mesma governação dizer que a crise não só era mais grave, do que tinham dito até então, como só tinha uma solução. A mesma do passado: expropriar mais o cidadão. O presente é o passado. Sem futuro, a não ser o do passado. E a cultura? O que lhe aconteceu, nesta aparência de diálogo da governação no espaço público? É do passado ou do futuro? Ou é o presente de quem tão ligeiramente promete, nega, diz e desdiz, lança palavras ocas e ideias de areia para o crer dos cidadãos? Será que a cultura adveio palavra sem significado? Como a crise, a palavra, que é motivo, pretexto e justificação de tudo ou quase tudo. Uma abstracção, sem causas nem responsáveis. A cultura em Portugal no futuro próximo será tão maltratada como sempre foi, de

modo constante ao longo dos séculos e só fugazmente interrompido. Quando convém aos poderosos é um desígnio ou substantivo semelhante, mas nunca deixam de a considerar um adjectivo do poder. Foi neste contexto de um presente memória do passado e ilusão de futuro, de desorientação e engano, que se efectuaram no Algarve dois cursos de jornalismo de cultura com mais de 50 participantes. Muitos dos quais produziram matérias publicadas neste suplemento e noutros órgãos de comunicação social. Cursos exemplares de como a iniciativa dos cidadãos e das suas organizações em diálogo com instituições públicas pode gerar efectivos actos de cultura. Actos enraizados no passado, vivendo o presente, olhando para o futuro. José Luiz Fernandes

Ensino artístico e património

Lugares Mágicos D.R.

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econhecendo sempre o direito pleno de todos os cidadãos à cultura, a Direcção Regional de Cultura do Algarve não quis deixar de assinalar o Ano Europeu do Combate à Pobreza e à Exclusão Social (aprovado pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho da União Europeia em 2008), promovendo um projecto que possa contribuir para a Educação Artística e fruição de monumentos, por parte de jovens de famílias economicamente mais desfavorecidas Lugares Mágicos é um projecto de Educação Artística e Patrimonial da Direcção Regional de Cultura do Algarve em parceria com o Atelier Educativo (Associação para o Desenvolvimento da Educação pela Arte). O projecto contempla quatro monumentos afectos à Direcção Regional da Cultura do Algarve: Ruínas Romanas de Milreu e Castelo de Paderne na 1.ª fase (de Abril a Junho), e Monumentos Megalíticos de Alcalar e Ermida da Nossa Senhora de Guadalupe, na 2.ª fase (de Outubro a Janeiro). Neste momento estão 15 jovens a participar no Atelier das Ruínas Romanas de Milreu, onde se está a desenvolver a técnica

Jovem a participar no Atelier das Ruínas Romanas de Milreu da majolica, cerâmica e estampagem têxtil, orientado pelo artista Miguel Cheta. Cinco jovens são do Banco Alimentar da Casa do Povo de Estói, cinco da Casa de Protecção à Rapariga de Faro e cinco da Casa da Primeira Infância de Loulé. Em simultâneo, no Lar da Gaivota da Santa Casa da Misericórdia de Albufeira, 10 jovens estão a desenvolver um atelier  em torno da fotografia,

Ficha Técnica Director: Henrique Dias Freire Editor: Salvador Santos Design e paginação: Mário Coelho, André Navega/Profissional Gráfica

enquadrado pela história e paisagem do Castelo de Paderne, sob orientação do fotografo Vasco Célio. Na 2ª fase do projecto Lugares Mágicos, irá ser desenvolvido um trabalho em torno da dança para um grupo de 14 deficientes da instituição NECI (Núcleo de Educação da Criança Inadaptada) em Lagos. Este atelier irá decorrer na Ermida da Nossa Se-

Colaboram no .S: Adelto Gonçalves, Graça Cunha, Jorge Queiroz, José António Barreiros, José Bívar, José Luís Fernades, Manuel Madeira, Paula Ferro, Pedro Afonso, Pedro Santos, Pedro Bartilotti, Ricardo Claro, Sandra Boto, Susana Martins, Vasco Vidigal, Vítor Cantinho e-mail de contacto: .S@postaldoalgarve.com

nhora de Guadalupe e será orientado por Maria Alcobia. Está também programado um atelier, que será orientado pelo Ceramista Ricardo Lopes, para um grupo de 14 jovens da instituição Bom Samaritano (Portimão), onde as ruínas de Alcalar serão pretexto e contexto para a iniciação da aprendizagem da cerâmica. S.S.

Os artigos de opinião e as opiniões expressas ou por terceiras pessoas em citação ou entrevista, são da exclusiva responsabilidade das pessoas que as proferiram, não reflectindo necessariamente a posição do .S. Tiragem: 11.077 exemplares


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registámos

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notas coluna do editor

Fotografia

A Última Fronteira D.R.

Um equilíbrio precário

Salvador Santos

a não perder

decalque

nascido em Faro, no ano de 1964, teve em exposição no edifício da CCDR Algarve, uma mostra de trabalhos analógicos que o autor realizou com

utentes de um lar de idosos. As fotografias, por vezes de uma crueza atroz, atentam na debilidade que o corpo ganha com o acumular do tempo. Uma fragilidade que é também da alma como

Custa-nos imenso, a nós portugueses, porque continuamos no labirinto da saudade, aceitar a nossa escala, aceitar que somos um país com 10 milhões de pessoas, que não

teve revolução industrial; uma potência sem potência, demográfica, militar e economicamente débil. Pedro Rosa Mendes in ípsilon

se pode ler no olhar vazio de muitos dos retratados. A eminência da morte ou a ausência de novidade marcam os rostos captados pela objectiva do fotógrafo.

em revista

| EXPOSIÇÃO| Paulo Tomé, fotógrafo

 LITERATURA

O Sorriso Enigmático do Javali

 DANÇA

Quorum Ballet

D.R.

|LIVROS| Uma cobra tenta hip-

| ZZZZZZZ | No ano da celebração do

centenário da Implantação da República, o Quorum Ballet promove, «Dois Séculos», um encontro renovado com a vida e obra de Manuel Teixeira Gomes, representando alguns momentos capitais do seu percurso.

A obra, uma criação de Daniel Cardoso para o Quorum Balle, é um trabalho que vai ao encontro de outras formas de arte que agitaram a sensibilidade de Manuel Teixeira Gomes: a escultura e a pintura.

notizar um escritor. A um deputado falta um bocado da cabeça. Uma borboleta pode ter dentro dela o terrível imperador Ming. Um lagarto aparece com a cauda em forma de clave de sol. E muitas, muitas outras coisas: por exemplo, um javali que, de forma enigmática, sorri. São as primeiras aventuras do pequeno Tukie, pelos montados do Alentejo. Assim se apresenta no respectivo blogue (javalismile.blogspot.com) o mais recente livro de António Manuel Venda, «O Sorriso Enigmático do Javali». A edição é da Quetzal assim como «Uma Noite com o Fogo», de 2009.

O programa «Allgarve» que vai na quarta edição, na sua vertente de arte contemporânea e de música erudita, e o projecto «O Algarve do Reino à Região», iniciativa conjunta e pioneira da Rede de Museus do Algarve que percorre mil anos da história e da cultura algarvia, são dois exemplos da dinâmica cultural que toma a região. Para quem olha o fenómeno ao largo, a satisfação não pode deixar de ser evidente. As exposições, as peças de teatro, os concertos, o cinema e a edição de todo o género de literatura, sucedem-se a um ritmo difícil de acompanhar e em toda a extensão do território. Ainda recentemente, como prova da excelência das boas práticas que por cá se cultivam, o Museu de Portimão foi distinguido como Melhor Museu da Europa, pelo Conselho da Europa. Seduzidas pelo discurso das indústrias criativas, as autarquias tomaram os objectos culturais como uma prioridade ainda que sejam os primeiros a sofrer com as crises financeiras. Aquilo que se poderia considerar como uma época de amadurecimento cultural da região teve, no entanto, com o encerramento do Museu da Cortiça de Silves, na Fábrica do Inglês, a sua mais pura negação. Ainda se tentou uma solução onde a Câmara de Silves teria papel preponderante mas, ao que parece, guerras políticas inviabilizaram o processo. A verdade é que todos os projectos culturais que vão tendo protagonismo na região estão sob a alçada financeira das autarquias ou do governo. A iniciativa privada não conquista espaço, não consegue impor projectos que não estejam subordinados a tutelas autárquicas ou governamentais. O amadurecimento, julgo, é apenas ilusório. A ausência de públicos mantêm os agentes culturais reféns dos subsídios, e entre os governantes a cultura só é prioritária em caso de desafogo económico. Parece legítimo pensar que ao mínimo abanão todo este surto cultural possa ruir se o paradigma continuar a ser o do corte no financiamento das artes e das letras em situação de crise. Como se lê no poema Bernardo Doares de José Carlos Barros «...pobre/ de quem vê o que os seus olhos vêem/ As vezes/ é como se tudo tivesse uma alma um/ destino superior às vogais do seu nome/ um espaço onde a eternidade vem para morrer».


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primeiro plano ATLAS DE DIOGO HOMEM E NAU S. GABRIEL NO MUSEU DA MARINHA EM FARO

FOTOS D.R.

LUZ E SOMBRA, O SÉC. XIX NO MUSEU DO TRAJO EM S. BRÁS DE ALPORTEL

EXPOSIÇÃO

Do Reino à Região: uma leitura

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uando no ano de 1607, aos 19 dias de Novembro, Henrique Fernandes Sarrão dirigiu ao muito ilustre senhor D. Manuel de Lencastre, governador e capitão geral do reino do Algarve e comendador-mor da Ordem de Santiago, a História do Reino do Algarve por si ordenada invocou como uma das primeiras razões para se entregar a semelhante esforço «a pouca notícia, que os estrangeiros, e ainda os naturais, têm das antiguidades e grandezas do reino do Algarve, sepultadas no silêncio de tantos anos». Passados quatro séculos ainda se fala à boca pequena, que isso é matéria de interesse de pouca gente, da ausência de uma história do Algarve. Coisa tanto mais grave quanto maior é o sentimento de autonomia identitária que aqui se vive. A exposição levada a cabo pela Rede de Museus do Algarve, «onde pela primeira vez, se abordam os últimos mil anos da história e da cultura algarvia (…) numa cooperação pioneira entre autarquias, museus, instituições públicas e privadas, universidades, centros de investigação e especialistas de diferentes áreas científicas e culturais», constitui um subsídio importante para a construção de um discurso histórico e cultural sobre a região. Discurso importante para uma perspectiva de futuro e que necessariamente sairá enriquecido da reconfiguração expositiva do material, dos textos de investigação reunidos em catálogo, das problemáticas e das novas avaliações que a execução da exposição proporcionou. O Algarve e os Descobrimentos D.R.

Colecção de M. Teixeira Gomes

Das exposições já inauguradas a que mais se atrasa no tem-

po é a que está patente no Museu Municipal de Lagos «O Reino dos Algarves de Áquem e para Além Mar», que recua ao período henriquino. D. Henrique, personagem controversa, considerado por alguns historiadores um homem medieval cujo interesse na exploração da costa de África tinha apenas como objectivo a acumulação de riqueza com o tráfico de escravos e a união de Portugal ao reino cristão do Prestes João, é uma das figuras centrais no papel que o Algarve assumiu durante o século XV nos Descobrimentos. A valorização das rotas comercias marítimas que se verificou no século XV com a transferência do comércio marítimo do Mediterrâneo para o Atlântico, com as primeiras viagens de contorno de África, reforçou a posição do Algarve que se liga assim aos principais centros de comércio internacional. Pela costa da região passavam produtos que Veneza transportava das cidades do Levante para Ocidente. Com a conquista de Ceuta, em 1415, e a decisão de manter a base cristã em território muçulmano, D. João I confia a D. Henrique o provimento e a manutenção de Ceuta que teriam de ser feitos a partir do litoral algarvio. As responsabilidades militares com a praça no norte de África foram a razão dos primeiros contactos de D. Henrique com o Algarve. Com a frequência da região foi-se apercebendo da importância do mar como fonte de rendimento e paralelamente às responsabilidades com Ceuta, os navios henriquinos começam a ocupar-se da pesca, com o comércio e a pirataria. A frequência do litoral atlântico de Marrocos e as incursões cada vez mais longínquas dos navios pela costa ocidental africana suscitaram o interesse de D. Henrique pela exploração das regiões costeiras de África. A actividade de D. Henrique centrou-se em

Lagos, onde se supõe ter existido uma Casa da Guiné. Focando o mesmo período, e em profunda complementaridade com a exposição de Lagos, no Museu Marítimo Almirante Ramalho Ortigão, em Faro, evocam-se os desenvolvimentos técnicos e tecnológicos que permitiram realizar com sucesso a empresa dos descobrimentos. Logo no dealbar do século XV as primeiras viagens de exploração revelaram a inadequação dos navios para circular no Atlântico. A solução técnica encontrada foi a caravela latina cuja robustez e o pequeno calado permitiam enfrentar alterosas condições de mar. No entanto foi do seu aparelho vélico, aparelhava com o pano latino que lhe permitia navegar com vento contrário, que se tirou mais proveito. Adquirido o conhecimento dos ventos no Atlântico, o pano redondo foi adaptado à caravela latina para melhor aproveitamento dos ventos favoráveis. Com a «Carreira da Índia» surge, a nau, um novo navio pensado para transporte de elevadas quantidades de produtos. Já no século XVI, aparecem as primeiras referências ao galeão, um navio de acentuada componente bélica e projectado para garantir a hegemonia portuguesa no Índico. A par dos desenvolvimentos técnicos na construção dos navios, a cartografia também revela mudanças. Perde o seu carácter mitológico e ganha em importantes informações como as escalas de latitudes e o registo de sondas. As cartas e planisférios serviram também, fazendo uso da ilustração, para divulgar as novas realidades contactadas. A necessidade de procurar ventos favoráveis em alto mar obrigou os navios a abandonar a linha de costa. Para o cálculo do posicionamento dos navios e introduzida a navegação astro-


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primeiro plano PEÇAS DA COLECÇÃO DE MANUEL TEIXEIRA GOMES E ASPECTOS DE PORTIMÃO NO SÉC. XIX

FOTOS D.R.

histórica e cultural do Algarve nómica e um novo instrumento de medição, o astrolábio português. A exposição «Os Descobrimentos Portugueses, do Museu da Marinha exibe, para além dos modelos dos navios e dos instrumentos de navegação, nove dos 16 fólios que compõem o atlas de 1561 do cartógrafo Diogo Homem. O século XIX e XX «Sombras e luz» é a proposta do Museu do Trajo, de São Brás de Alportel, para uma retrospectiva do Algarve no século XIX. Partindo da indumentária, de alguns acessórios e objectos de uso doméstico, e do natural edifício oitocentista em que está instalado o museu, procura-se recriar o ambiente da época, as vivenciais íntimas, sociais e laborais. Um dos problemas com que uma exposição do género se depara está ligado à carência de objectos de classes pobres o que em comparação com o legado das classes burguesas desequilibra a leitura que se pretende oferecer da época. Para aliviar a situação e para restabelecer alguma justiça na análise do século, do qual o legado de famílias como a dos Pestana Girão, que vestia em Paris, só pode ser considerado representativo do seu contexto social, ao longo de toda a exposição o visitante é confrontado, sobretudo, com notícias de jornal, que dão uma visão mais alargada do que foi o século XIX na região. De famílias da burguesia é também Manuel Teixeira Gomes, escritor e antigo Presidente da República, em destaque no Museu de Portimão. De Teixeira Gomes escreveu José Júdice, num texto síntese sobre a vida e a obra do escritor, que «viajou toda a vida, incansável até aos 50 anos, percorrendo a cinzenta Europa do Norte, a Bélgica, a Flandres, a Prússia renana por puras ra-

zões de interesse, obrigações de negócio, dizia, rio, atraiam-no as jovens adolescentes a quem, vendendo os seus frutos secos do Algarve, e de- dizia, colhia as primícias, e se lhe entregavam morando-se lentamente durante meses e meses com o desejo animal do sal, do sol e do sul (…) no regresso a Portimão, flanando pelas costas do É agora, dizia, quando se sentava no terraço de Mediterrâneo em peregrinação a Constantino- bouganvíleas do hotel de Bougie contemplando pla, à Grécia, a Itália, à Tunísia, a Marrocos e à o Mediterrâneo e fumando o seu charuto com Argélia, sem planos e sem horários, apauma taça de champanhe, que eu tenho nhando vapores daqui para ali beijado, abraçado e gozado as mais belas em esquecidos portos do mulheres do mundo». Levante e do Magreb, A exposição «Manuel Teixeira Gosem destino, só, percormes entre dois séculos e dois regirendo passo a passo a mes» reúne uma série de objectos paisagem pagã da civilipessoais do escritor e da sua zação grega e romana. Ao colecção de arte a par de aproximar-se dos 50, reuma interessante resolveu reformar-se de viaconstituição, à época, gens e negócios e instade um posto de telégralou-se nas suas fazendas fo através do qual lhe foi anunciade Portimão com o da a Implantação da República bucólico e ruinoso em Lisboa. entusiasmo de se torOs objectos que Teixeira Gonar lavrador». mes coleccionou vão desde a esCom o advento da cultura greco-romana, à arte japoRepública é convidado nesa, às medalhas antigas e à para Embaixador de Porpintura. Peças geralmente de petugal em Londres. Em quenos formatos e de fácil trans1923, é eleito Presidente da porte. Na pintura era notório o República. Dois anos depois seu gosto pelo Naturalismo. demite-se e embarca no carO Romantismo tinha entragueiro Zeus que o conduz a do tardiamente em Portugal um exílio voluntário que fruto de algumas vicissituduraria até à morte no des que atingiram o mecenorte de África. nato artístico como as inva«No Algarve, no sões francesas, a fuga da seu território, diz família real para o Brasil e José Júdice, se é que a guerra civil. Teixeira Goo mais viajado e o mes apreciava a vanguarda mais cosmopolita de que, à época, na pintura todos os nossos escriportuguesa era o Naturalistores tinha um territó- Colecção de M. Teixeira Gomes mo que irrompera em PorD.R.

tugal em 1879, com Silva Porto e Marques de Oliveira. No entanto tinha também um gosto mundano, o que o levou a adquirir nas viagens que fez ao Norte da Europa obras de relevância europeia. Teixeira Gomes está a par das tendências e da vanguarda ao ponto de receber um convite da Rainha Alexandra para decorar o seu gabinete de antiguidades orientais no Palácio de Bukingam. Compra os pintores mais importantes da sociedade vitoriana como o paisagista e retratista Alfred Stevens, Rossoff, pintor polaco emigrado em Paris, Henri Fontin-Latour, Henri Loire, William Etty entre outros. Na exposição «Portimão nos alvores do século XX», o olhar recai sobre a evolução da antiga Vila Nova no primeiro quartel do século XX, aquele em que se assiste à transição da monarquia para o regime republicano. O principal objecto da exposição são as transformações ao nível das infra-estruturas públicas. Logo à entrada, numa das duas visões que se dão a ler sobre a realidade de Portimão, registada no semanário independente «A Verdade» de 3 de Agosto de 1902, diz-se que o estado em que se encontra Portimão é «retrógrado». «Portimão não oferece aos seus habitantes as mais necessárias como as mais simples comodidades públicas. Portimão não tem mercado, Portimão não tem matadouro, Portimão não tem canalização de esgotos; Portimão não tem iluminação capaz, Portimão não tem teatro digno desse nome; Portimão não tem urinóis, nem serviço de limpeza que possa classificar-se de tal». Um carro de tracção animal cheio de bilhas para transporte de água dá-nos a medida das condições de vida da população antes das obras


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primeiro plano

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A PRIMEIRA REPÚBLICA NO MUSEU MUNICIPAL DE LOULÉ

SALVADOR SANTOS

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de abastecimento de água, da iluminação pública, da ponte e caminhos-de-ferro, do mercado do peixe e da verdura, do matadouro, das praças e jardins que se registaram neste período. Os clubes desportivos, as colectividades e cafés, o cinema e o Casino da Praia da Rocha trouxeram à cidade uma cultura de lazer e de tempos livres consentânea com os novos valores da República. As primeiras fábricas de conserva e de cortiça marcam a rotura entre a feição rural de Portimão e o novo carácter industrial e urbano. A República Tal como Manuel Teixeira Gomes também José Mendes Cabeadas, filho ilustre de Loulé, exerceu a chefia do governo no conturbado ano de 1926. A exposição que está patente no Convento de Santo António de Loulé toma Mendes Cabe-

çadas como figura de partida para abordar a primeira república no Algarve. A abrir a exposição encontram-se documentos que espelham a propaganda republicana em período monárquico. Uma fotografia de correligionários algarvios do Partido Republicano, onde se vê o Dr. Alexandre Braga, tirada após o julgamento de Paulo Madeira, traz à memória a contenda judicial que opôs o director do jornal republicano «O Povo Algarvio» ao padre Basílio Correia director do jornal «Notícias de Loulé», semanário monárquico e revela a acérrima disputa política que se travou na época. Pedro de Freitas referindo-se à propaganda republicana refere que ela «engrossava por todo o país. Loulé, embora apegado ao sentimento D.R.

Reconstituição de uma oficina de sapateiro

monárquico, impelido pela curiosidade de espírito dos louletanos de todos os credos políticos, assiste, logo no dia 29 de Março, ao primeiro comício público que os republicanos levaram a efeito na fazenda de José Ascensão (o republicano mais activo de Loulé), depois bairro do Cadoiço. (…) as centenas de assistentes ficaram a compreender melhor o que era a ideia republicana». Já implantada a republica, «O Povo Algarvio» de 6 de Maio de 1911 apresentam os candidatos às Constituintes pelo círculo de Silves, onde se inclui Loulé, entre ois quais figura o nome de José Mendes Cabeçadas. Oficial da Marinha, Mendes Cabeçadas, assumiu uma acção decisiva na preparação do 5 de Outubro, assumindo na noite de 3 para 4 de Outubro o comando do cruzador «Adamastor», dando o sinal para o início da revolta. No entanto foi também um dos mais convictos conspiradores contra a situação vigente nos anos de 1925 e 1926. A 19 de Julho de 1925 insubordina-se a bordo do Vasco da Gama e percorre o país organizando o movimento militar de 28 de Maio de 1926. Distituido por Gomes da Costa da presidência do Ministério que lhe foi entregue passa à oposição à Diatdura Militar e depois ao Estado Novo. Em 1949 é julgado em Tribunal Militar por ter sido um dos principais dirigentes de uma intentona contra o regime. A República trouxe um novo fôlego às actividades culturais. A modernidade entra em Portugal e no Algarve essa dinâmica terá reflexo em autores como Roberto Nobre, Carlos Porfírio, Lyster Franco, José Dias Sancho e Mateus Moreno entre outros. O núcleo dedicado à cultura e formas de sociabilização na República abre com um óleo de Cândido Guerreiro assinado por Raul Carneiro, caricaturas de Fernandes Lopes e Bernardo de Passos, e pinturas de Roberto Nobre. Expõem-se exemplares de «Portugal Futurista», dirigido por Carlos Porfírio, o «Orpheu», o «Manifesto Anti-Dantas», de AmaD.R.

deu de Sousa Cardoso, «Ídolos de Barro» de José Dias Sancho, «A Ceia dos Cardiais» e uma série de reacções paródicas à obra de Júlio Dantas como a «Ceia dos Pobres» de Campos Lima ou a «Ceia dos Pardais» de José Ferreira da Silva. O núcleo dá destaque ao Congresso Regional Algarvio e sublinha a intervenção de Thomaz Cabreira sobre as «Tarifas Ferro-viárias». A educação, a vida burguesa, anticlericalismo e a questão religiosa e a participação na 1ª Grande Guerra são outros dos eixos estruturantes da exposição. Salvador Santos

D.R.


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livros D.R.

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CARLOS BRITO

Álvaro Cunhal, Sete Fôlegos do Combatente

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Carlos Brito Nasceu em 1933 em Moçambique. Veio para Portugal com três anos de idade. Viveu com a família, a infância e parte da juventude, em Alcoutim, no Algarve. A sua actividade literária principiou em Lisboa, quando já frequentava o Instituto Comercial (actual ISCAL) onde, com outros jovens, organizou recitais e colaborou em vários jornais e revistas. Aos 20 anos foi preso pela PIDE, pela primeira vez. Voltou a ser preso mais duas vezes, tendo cumprido um total de oito anos de prisão. Em 1967 passou a participar na direcção do Partido Comunista Português. No dia 25 de Abril de 1974 estava em Lisboa, clandestino, e era responsável pela organização partidária na capital. Em 1975 foi eleito deputado à Assembleia Constituinte pelo Algarve. De 1976 a 1991 exerceu sem interrupção o mandato de deputado, tendo desempenhado durante 15 anos as funções de presidente do Grupo Parlamentar do PCP. Em 1980 foi candidato à Presidência da República. Entre 1992 e 1998 foi director do jornal Avante!. Em 1997, foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique e, em 2004, com a Ordem da Liberdade (Grande-Oficial). Tem colaboração dispersa em várias publicações nacionais e estrangeiras. Publicou até hoje nove livros, todos após ter deixado de ser deputado.

om edição de Nelson de Matos, foi apresentado, no passado dia 27 de Maio, o livro de memórias de Carlos Brito, «Álvaro Cunhal, Sete Fôlegos do Combatente», onde o escritor dá conta das suas relações com o histórico dirigente do Partido Comunista Português. A apresentação, que decorreu na Livraria Buchholz, em Lisboa, esteve a cargo do deputado e poeta Manuel Alegre e do historiador António Borges Coelho. Apesar de tudo aquilo que já se disse nos cinco anos que passaram sobre a sua morte, 13 de Junho de 2005, Carlos Brito entende, depois de sarar as feridas dos combates internos no PCP, que é necessário que a « história conserve a justa memória de uma figura marcante e das mais polémicas do século XX português, com influência reconhecível e reconhecida nos acontecimentos e nos protagonistas, com especial incidência, naturalmente, na construção do Partido Comunista Português e nas sucessivas gerações dos que abraçaram o ideal comunista». A principal motivação do livro, afirma, é «preservar essa memó-

ria, quer das falsas construções apologéticas, dos entorses sectários e mesquinhas apropriações partidárias, dos alegados amigos, quer das sequelas rancorosas de afrontamentos políticos e ideológicos e de póstumos ajustes de contas demolidores, dos proclamados ou encobertos adversários e inimigos». Na introdução, o autor revela que desde muito cedo pensou em escrever sobre Álvaro Cunhal e que este teria achado natural que isso acontecesse, pois por diversas ocasiões lhe fez «inesperadas confidências inusuais». A convivência de mais de três décadas, começou com um encontro entre os dois, em Paris, num café da Place de Clichy, nos finais de Outubro de 1966 e estendeu-se até 1999, quando Álvaro Cunhal regressa ao comando do Partido, «impondo a férrea obediência da ortodoxia conservadora à Direcção então vigente», o que culminou com «o agravamento da crise interna, a divisão, a dissidência e o declínio do PCP». A impressão que esse primeiro encontro provocou em Carlos Brito aumentou a sua admiração pelo secretário-geral e reforçou a sua ligação ao partido. Meses mais tarde, voltaria a encontrá-lo em Praga, no processo de preparação da conferência dos Partidos Comunistas e Operários da Europa que se realizou na Primavera de 1967. Por esta altura, Cunhal praticava uma «liderança sem brechas» como pôde comprovar numa reunião do Comité Central que «foi amplamente esclarecedora do papel absolutamente dominante de Álvaro Cunhal no trabalho da direcção central do partido». Neste período, a linha política do

PCP para o derrubamento da ditadura fascista suscitava reservas no movimento comunista europeu, na medida em que compreendia o recurso à violência e às armas numa altura em que os seus congéneres tinham consagrado a via pacifista na luta contra as forças reaccionárias. Apesar dessa situação, o prestígio de Cunhal entre os dirigentes comunistas não era afectado. No livro, o autor coloca-nos perante a importância que uma das propostas de Álvaro Cunhal teve para a formação de uma consciência revolucionária dentro das forças armadas portuguesas ao definir como orientação geral que os militantes comunistas deviam trabalhar para estimular e organizar as deserções, continuando o seu trabalho

Álvaro Cunhal, Sete Fôlegos do Combatente Memórias Autor: Carlos Brito, Editora: Edições Nelson de Matos, Nº pág: 376 Preço: 25,00 €

revolucionário nas forças armadas.Teve que se empenhar para provar que os comunistas não deveriam ser os primeiros a desertar em sinal de oposição da juventude à guerra colonial. O 25 de Abril e as orientações que acabaram por vingar no Movimento dos Capitães vieram dar-lhe razão. Apesar do que deu a entender, não foi um incondicional da invasão da Checoslováquia, nem das justificações dos invasores, apesar da direcção do PCP tornar público o seu apoio à invasão. Sobre as posições de Cunhal em relação a Mário Soares, Carlos Brito revela que lhe «pareceram sempre marcadas, tal como acontecia com Santiago Carrilllo, por uma carga subjectiva que nunca percebi bem se era desconfiança, antipatia, rivalidade, despeito, ou tudo junto, que lhe dificultava avaliar objectivamente o papel de qualquer deles nos respectivos quadros de luta». Os aspectos que sublinhamos são apenas uma pequena relação dos acontecimentos que os primeiros anos de contacto entre os dois responsáveis proporcionaram. O testemunho de Carlos Brito desenvolve-se no período anterior à revolução, altura em que a prioridade dos comunistas portugueses era o derrube da ditadura até à última conversa com Cunhal em 2000, em plena convulsão do PCP. «Álvaro Cunhal, Sete Fôlegos de um Combatente» propõe uma viagem com o líder histórico «ao longo dos anos, dos avanços e reveses da sua luta, das peripécias dos seus fôlegos revolucionários, dos gostos e das aversões, das recepções e tristezas, e também das alegrias e esperanças» que no livro se documentam.

sentido para a cidade. O livro entende-o como parte desse compromisso, dessa esperança. «Faro Cidade Possível» opera sobre três ideias fundamentais: a cultura urbana, a cidadania activa e a gestão da mudança, e através delas explica como Faro pode ser uma cidade cosmopolita, sustentável, criando mais emprego e gerando mais riqueza. A cidade de que Viegas Gomes parte, é uma cidade que nos anos 60 e 70 capitulou aos interesses dos especuladores, dos fabricantes de automóveis. Uma cidade a quem a via administrativa e burocrática tolhem os movimentos e o pensamento. Uma cidade a pedir urgentemente pensamento criativo. Que voltou costas contra o destino e optou por uma concepção produtivista do uso

da terra, por uma política de maisvalia imediata. Uma cidade que no Plano Estratégico de 1996 estava consciente das suas debilidades, como o crescimento periférico, a deficiente articulação Faro-Montenegro-Gambelas, o isolamento em relação à Ria Formosa, a incipiente estrutura verde urbana. Passados 14 anos, os problemas persistem, não por inconsciência dos factos, mas por não ter havido vontade política para os resolver. Acentuou-se a característica expansiva da cidade e a tendência para se privilegiar a periferia em relação à centralidade história. Faro é hoje uma cidade constituída com base em bolsas urbanas. Diz Viegas Gomes, que «criar novas centralidades, não consolidando a centralidade histórica, é

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VIEGAS GOMES

Faro cidade possível

N

um dos fragmentos de «As cidades Invisíveis», Italo Calvino refere-se à coincidência entre o desejo de um homem e Isadora, cidade com prédios de escada de caracol incrustadas de búzios, onde se fabricam artísticos óculos e violinos, as lutas de galos degeneram em lutas sangrentas e onde

há sempre uma terceira mulher para o forasteiro que se encontra indeciso entre duas. «Era em todas estas coisas que ele pensava quando desejava uma cidade. Assim, Isadora é a cidade dos seus sonhos: com uma diferença. A vida sonhada continha-o jovem: a Isadora chega em idade tardia. Na praça há o paredão dos velhos que vêem passar a juventude; ele está sentado em fila com eles. Os desejos são já recordações. A leitura de «Faro Cidade Possível» deixa-nos a impressão de uma certa urgência, cuja metáfora se pode encontrar nesta passagem do livro de Italo Calvino. Com este livro, Viegas Gomes, que refere-se a si próprio como um observador comprometido, pretende agitar ideias, ajudar a encontrar um bom


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livros D.R.

construir uma cidade ao avesso. No seu entender, é preciso travar a cidade expansionista e devolvê-la à Ria. Aproximar, no contexto de um novo Plano Estratégico, os cidadãos à gestão municipal. Lembra como Faro vivia junto à ribeira antes do crescimento desaforado que assolou as cidades nas décadas de 50, 60 e 70. Era aí que se acotevelavam as esplanadas, que os farenses passavam as noites, que tinha lugar o mercado municipal. A lota fazia-se junto às Portas do Mar, as barcas encostavam-se ao parapeito da doca, os mergulhos enchiam de frescura a noite. Junto à muralha, o Café Marítimo estava aberto até ao romper da aurora. O prazer de usufruição da cidade existia. A modernidade foi incapaz de manter essa lógica urbana anterior, o que torna necessário o regresso da cidade à sua naturalidade. Como parte integrante da estratégia de desenvolvimento da cidade em «Faro Cidade Possível» salientam-se elementos de ordem cultural. Assim, destacamos a chamada de atenção para a importância da literatura como motivação para o desejo da visita e aconselha a que se inicie o projecto de turismo de natureza pelo combate pelo vazio de informação. O viajante que chegue a Faro vagueia hoje por

Faro Cidade Possivel, Autor: Viegas Gomes Editora: Pop Sul Nº pág: 87 entre uma pobreza documental. Falta uma literatura de emoções, uma história singular. Apesar de Viegas Gomes entender a cultura como um complemento do turismo, afirma que Faro tem boas potencialidades para desenvolver uma boa política cultural. Para evitar a gestão errada do programa Faro Capital Nacional da Cultura 2005, que não deixou vestígios nem herança, propõe

a criação de uma agência de especialistas para que daí possa sair uma estratégia neste domínio. Salienta que nenhuma cidade cosmopolita prescinde de bons café e de boas livraria. Considera o café Aliança, encerrado de momento, como o bilhete de identidade de uma cidade com um longo passado cultural. As livrarias são lugares estruturantes que facilitam o combate contra a desumanização. Falta na cidade uma grande livraria comercial para públicos dilatados, que a ser localizada na baixa altere o ritmo de horários. No seu entender, o Atrium é um bom espaço de cultura. A sua solução não está nos bancos mas no exemplo do Palácio Chalot, na cidade da arquitectura e património parisiense, onde funciona um pequeno centro comercial com salas de cinema ligadas a cinemateca francesa, livrarias, biblioteca e restauração temática. Considera o Mercado Municipal desproporcionado, que há que encher de qualquer forma, cada vez menos mercado e mais bazar, inócuo, inocente. Quando se entra nele tem-se a convicção de entrar numa enorme gare de onde, porém, não partem comboios. Diz não exalar sentimento de pertença e que a admição de actividades que nada o caracterizam

lhe retiram o ADN. Observa a perda da sua ligação ao mundo rural farense, às campinas. A cidade desejada por Viegas Gomes é um lugar onde a museologia será uma forte componente do projecto de turismo urbano. Com destaque para o museu de arte contemporânea que terá de contar com o apoio do mecenato e conseguir dar resposta à crescente tentativa dos coleccionadores privados de institucionalizarem as suas colecções. Sobre o conteúdo para o museu, levanta a hipótese de contar com obras de artistas residentes no Algarve. Lembra a colecção do pintor Carlos Porfírio e de Augusto Lyster Franco, e se a solução for a criação de uma rede de museus temáticos a possibilidade de criar o museu do futurismo, do cartaz, lembrando a colecção de Joaquim António Viegas e do Móvel, tendo como núcleo a colecção de Ferreira de Almeida. Outra das soluções seria a criação de um centro de artes onde houvesse a possibilidade de realizar exposições de arte contemporânea. No que respeita ainda à museologia foca a necessidade de um Museu da Ria que se poderia localizar no Cais do Neves Pires. S.S.

Viegas Gomes Nasceu, em Faro, em 1937. Cursou Direito em Lisboa onde viveu 30 anos. O tempo dividiu-o entre a Rua da Escola Politécnica, onde estava a Imprensa Nacional-Casa da Moeda, sede da sua actividade, e o Saldanha, onde se reunia a sua tertúlia e Herberto Hélder. Colaborou em quase toda a imprensa nacional.Publicou, entre outros os títulos « O Sistema Desportivo» e o roteiro «Onde se come bem no Algarve». Depois do regresso a Faro, dedicou-se ao «espírito do lugar», à cidade, numa literatura funcional publicando então o livro «Faro Cidade Possível». PUBLICIDADE


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espaço agecal O papel social da biblioteca pública As bibliotecas públicas são uma realidade que, nos últimos vinte anos ,sofreu uma revolução silenciosa, que levou a uma alteração profunda do seu Salomé conceito de base, na Sócia da AGECAL sua relação com o Chefe de Divisão público e com a code Bibliotecas munidade em que e Arquivos da Câmara está inserida. Municipal de Faro Orientando a sua actuação pelo manifesto da Unesco, assumiu o papel de centro local de informação, tornando acessíveis aos seus utilizadores o conhecimento, informação e cultura, através da prestação de serviços oferecidos com base na igualdade de acesso para todos. Concentrada no seu alvo principal, o público, contribui diariamente para uma aprendizagem ao longo da vida, para uma tomada de decisão independente e para o desenvolvimento cultural do indivíduo e dos grupos sociais que a rodeiam, criando condições para que os cidadãos possam actuar de forma cívica e consciente, na dimensão pessoal, profissional e social da sua

vida quotidiana. Estamos perante bibliotecas que disponibilizam serviços gratuitos e inclusivos, dedicados a todos na generalidade, mas também atentas aos que apresentam necessidades especiais. Bibliotecas inclusivas, onde todos têm um lugar, onde todos poderão encontrar algo que lhes pode interessar, tendo em vista a educação, a informação, o desenvolvimento pessoal, a cultura e o lazer. Com um trabalho assente em objectivos gerais e comuns a todas, cada uma destas bibliotecas está integrada numa comunidade com especificidades, necessidades e cultura próprias, aspectos sistematicamente consideradas e reflectidos no seu trabalho diário. Nesta perspectiva as bibliotecas públicas têm feito uma aposta clara em serviços e projectos que vão ao encontro das necessidades reais dos utilizadores e da comunidade. Por um lado, encontramos uma biblioteca de portas abertas, disponível para receber e apoiar os conteúdos produzidos por indivíduos e instituições, assumindo um papel impulsionador das dinâmicas culturais locais e indutor de partilha entre pares. Numa outra perspectiva, a Biblioteca ultrapassa os seus limites físicos e fora de portas,

procura a comunidade na sua diversidade, atingindo populações “isoladas”. São inúmeras as estratégias encontradas para chegar aos diferentes públicos. Projectos nos hospitais, leituras nas prisões, bibliotecas itinerantes, serviços domiciliários e outros, que a imaginação concebeu, levam a biblioteca para fora dos seus limites e proporcionam leituras e informação a populações isoladas ou com fraca mobilidade. O Algarve apresenta hoje uma rede de bibliotecas públicas que cobre a quase totalidade do seu território e onde projectos como os anteriormente mencionados são desenvolvidos, muitas vezes, sem a merecida projecção e reconhecimento, num trabalho discreto mas que modifica diariamente a vida de muitos. A grande maioria vai ficar esquecida, no entanto não posso deixar de referir alguns: • Baú das Histórias (BM de Faro – dirigido ás escolas do meio rural); • Um Escritor na Biblioteca Escolar (BM de Portimão); • Uma palavra, uma rima (BM de Lagoa em parceria com a escolas do concelho); • C@minet: Biblioteca sobre rodas (BM de Faro – dirigido às escolas do meio rural); • Brincar a Ler (BM de Faro – intervenção precoce dos 0 aos 5 anos)

• Biblioteca Itinerante (BM de Loulé); • Biblioteca vai às Freguesias (BM de Olhão); • Livros sobre rodas (BM de S. Brás de Alportel – projecto itinerante); • Estórias no Hospital (BM de Faro em parceria com a pediatria do Hospital de Faro); • A poesia está na rua (BM de Silves – dirigido aos funcionários da autarquia); • Leituras na Prisão (BM de Faro em parceria com o Estabelecimento Prisional de Faro); • Histórias contadas por pais e avós (BM de Albufeira – encontros intergeracionais); • Do outro lado: a saúde mental dos mais velhos (BM de Tavira em parceria com a Associação Âncora); • Internet: Nunca é tarde para aprender (BM de Faro, informática para maiores de 55 anos); • Internet Sénior (BM de Castro Marim, informática para maiores de 55 anos) • Tertúlia no Baixo Guadiana: Temas da actualidade local (BM de V.R. Sto António em parceria com o Jornal do Baixo Guadiana) A Biblioteca pública mudou, assumiu em pleno o seu papel na área da intervenção social, contribuindo decisivamente para o desenvolvimento da comunidade em que se insere, e transformou a vida de muitos. publicidade

03 > 13.Jun IV MEMORIAL GASTRONÓMICO DE VILA REAL DE SANTO ANTÓNIO

ATÉ 23.JUN INSCRIÇÕES FÉRIAS EM MOVIMENTO Crianças dos 6 aos 12 anos

LOCAL. Restaurantes do centro da cidade

LOCAL. Junta de Freguesia de VRSA

04 > 27.JUN 2.ª MOSTRA GASTRONÓMICA DE CACELA “ENTRE A SERRA E O MAR”

01 > 30.JUN // EXPOSIÇÕES “MEMENTO MAR MEMOR” “INDÚSTRIA CONSERVEIRA EM VRSA” “ARTES LITOGRÁFICAS”

Restaurantes aderentes: Casa Azul, Cacela Velha // Rios, Praia da Manta Rota // Finalmente, Praia da Manta Rota // Chá com Água Salgada, Praia da Manta Rota // Sem Espinhas, Praia da Manta Rota // Sabores, Vila Nova de Cacela // Sabinos, Vila Nova de Cacela // Vistas, Monte Rei Golf & Country Club

HORA. 9h30>12h30 / 14h00>16h45 (seg>sex) LOCAL. Arquivo Histórico Municipal

01 > 30.JUN HORA DO CONTO “CONTA LÁ! - A ZEBRA CAMILA”

HORA. 10h30 (ter//qua//qui) LOCAL. Biblioteca Municipal Vicente Campinas

P/ marcação na Biblioteca ou T. 281 510 050

01 > 30.JUN EXPOSIÇÃO DE AZULEJARIA “O PAÍS DO FRANZULEIJO” Pelo Franchito

HORA. 9h30 > 18h30 (seg > sex)

14h00 > 18h30 (sáb)

LOCAL. Biblioteca Municipal Vicente Campinas

N.06 JUN.2010

AGENDA CULTURAL

01 > 30.JUN (seg > sex) VISITAS ACOMPANHADAS À EXPOSIÇÃO “PLANTAS QUE CURAM. USOS E SABERES NA MEDICINA POPULAR”

01 > 30.JUN (ter//qua//qui) VISITAS GUIADAS À BIBLIOTECA MUNICIPAL VICENTE CAMPINAS

Investigação e Informação do Património de Cacela // T./F. 281 952 600

05.JUN DIA MUNDIAL DO AMBIENTE ACÇÃO DE LIMPEZA SUBAQUÁTICA HORA. 9h00 LOCAL. Praia Santo António

01.JUN “PORQUE TODOS SOMOS CRIANÇAS”

05.JUN MOSTRA DE ARTESANATO

Pelos alunos da Escola D. José I

HORA. 21h00 LOCAL. Centro Cultural António Aleixo

Hora: 10h00> 17h00 Local: Praça Marquês de Pombal

06.JUN MERCADO MENSAL DE VRSA

Hora: 9h00> 17h00 Local: Praça Marquês de Pombal

08.JUN

MÊS DA PROMOÇÃO DE UMA VIDA SAUDÁVEL

PALESTRA “ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL VS VIDA SAUDÁVEL”

ORADORA. Dr.ª Ana Brás HORA. 17h00 LOCAL. Biblioteca Municipal Vicente Campinas

(inscrições limitadas com transporte incluído)

HORA. 9h30 > 16h30 (seg > sex) INSCRIÇÕES / INFORMAÇÃO. Centro de

de Inocêncio Costa Pelo Dr. Teodomiro Cabrita Neto HORA. 17h30 LOCAL. Biblioteca Municipal Vicente Campinas

P/ marcação na Biblioteca ou T. 281 510 050

HORA. Público geral. 9h30>13h / 14h>16h30 Escolas do Concelho. 9h30>13h / 14h>17h LOCAL. Centro de Investigação e Informação do Património de Cacela INSCRIÇÕES / INFORMAÇÃO. T./F. 281 952 600 // Turmas do concelho - Com marcação prévia

01 > 30.JUN VISITAS ACOMPANHADAS A CACELA VELHA

04.JUN APRESENTAÇÃO DO LIVRO “VENTOS DO SUL”

02.JUN ESPECTÁCULO INFANTIL “LER, OUVIR E CANTAR” Pelo Bica Teatro

HORA. 10h00 // 14h30 LOCAL. Biblioteca Municipal Vicente Campinas

09.JUN AUDIÇÃO DE FIM DE ANO DO CONSERVATÓRIO REGIONAL DE VRSA HORA. 21h00 LOCAL. Centro Cultural António Aleixo


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teatro

d.r.

Al-Masrah

O teatro em tempos de crise AL-MaSRAH é uma companhia profissional de teatro, formada em 2004 e sediada em Tavira. Apresenta textos do repertório dramatúrgico contemporâneo, mas também cria as suas próprias peças reflectindo colec-

C

onversamos com os fundadores da companhia AL-MaSRAH Susana Nunes, actriz e produtora executiva e Pedro Ramos, actor e encenador, sobre estes temas e os planos para enfrentar este momento de crise. Por que escolheram Tavira? PEDRO: Isto começou porque no Algarve só havia uma companhia profissional de teatro e nós achámos que havia a necessidade de formar uma outra. Achámos que devíamos instalar-nos numa cidade de menores dimensões que ainda mantivesse características de preservação de património, com um ambiente agradável e propício para a criação, e onde existisse interesse em se investir na cultura. SUSANA: Ou seja… não elegemos Tavira, mas encontrámos aqui as circunstâncias e condições de receptividade para aquilo que propusemos. PEDRO: Nunca nos instalámos em Tavira numa perspectiva de trabalharmos apenas nesta cidade. Queríamos fazer uma trabalho para a região mas que, na verdade, se tem revelado ser mais para o país do que para a região. Apesar de não ter sido uma escolha é possível ver um grande envolvimento do AL-MaSRAH com a comunidade. Como foi que isso aconteceu? PEDRO: Tavira é uma cidade com pouca tradição teatral. Na medida em que nos cederam um espaço para trabalhar nós resolvemos dedicá-lo não apenas às nossas próprias peças, porque senão estaríamos fechados sempre que estivéssemos em processos de criação… ,resolvemos todos os meses promover, além da nossa criação ou acolhimento a outros grupos profissionais, alguma programação feita com ou para outros intervenientes locais. Acabámos por atingir grupos de diferentes origens, interesses e de diversas faixas etárias. É justo então pensar que o ALMaSRAH passou a funcionar também como uma espécie de plataforma social? SUSANA: Sim, sim, decidimos

tivamente sobre temas de interesse social, com uma abordagem aberta e pouco ortodoxa utilizando livremente, mas de forma coerente, um cruzamento de várias disciplinas das artes do espectáculo. Mesmo enfrentado

abrir o Espaço da Corredoura a este tipo de iniciativas, desde que sejam ligadas às artes performativas, sejam de carácter escolar, amador ou profissional. Passaram a fazer parte da nossa programação regular. E nesses cinco anos em que estão em Tavira, entre todas as experiências que vocês acolheram vindas da comunidade qual a que consideram ter sido a mais marcante? PEDRO: Lembro-me logo das apresentações de Dança Inclusiva da Fundação Irene Rolo. A primeira vez que vi fiquei mesmo emocionado. O trabalho em si era muito forte, com uma grande entrega daquelas pessoas

dificuldades de sobrevivência e trabalhando num espaço precário, tem conseguido dar voz a várias comunidades da região e a sua participação em muitos festivais pelo país colocou Tavira no mapa teatral de Portugal.

paço financeiro suficiente das autarquias para acolher espectáculos de mais de uma companhia do Algarve. SUSANA: Achamos que seria possível reverter essa situação, porque sabemos que há público para o trabalho que fazemos. Mas ainda temos que convencer os programadores locais. Até hoje conseguimos apresentar-nos em doze dos dezasseis municípios do Algarve, embora sem qualquer regularidade. Notaram algum crescimento de público nestes cinco anos em Tavira? SUSANA: O público irá sempre aumentando na medida em que houver oferta. D.R.

Cena da peça Carne para Cargueiro criação colectiva AL-MaSe via-se o orgulho que eles tinham de poder vir apresentar o trabalho publicamente ali naquela sala de teatro da sua cidade. SUSANA: E é importante dar visibilidade perante a comunidade a este tipo de trabalho que resulta numa obra de expressão artística, porque há pessoas que sabem o que é feito na Fundação Irene Rolo, mas que não teriam oportunidade de ver o resultado de outra forma. Muitos outros nem têm ideia… é preciso mostrar. Quais são as dificuldades para a sobrevivência do vosso grupo numa cidade desta dimensão, nesta região do sul de Portugal? PEDRO: Uma das dificuldades tem sido vender espectáculos na própria região, pois parece não haver es-

PEDRO: Com oferta o público irá adquirindo o hábito de ir ao teatro. SUSANA: Nós nunca duvidámos que o público haveria de se manifestar e de aderir. Mas ele também tem que ser cativado… PEDRO: A regularidade é muito importante, e confiamos que vamos conseguir assinar protocolos com as autarquias focando também o teatro para a infância, como já fazemos em Tavira, porque para criar novos públicos é preciso trabalhar hábitos culturais junto a faixas etárias mais jovens. E se conseguissem vender mais espectáculos, isso poderia diminuir a dependência dos subsídios e apoios de dinheiros públicos? PEDRO: Com certeza, mas a de-

pendência é sempre grande para todo o teatro sem características comerciais, que é aquele que nós fazemos. Precisamos de subsídios do Ministério da Cultura e da autarquia onde estamos inseridos para desenvolver este trabalho, que é considerado um serviço público cultural. SUSANA: Somos um grupo de teatro profissional que desenvolve um trabalho experimental na sua forma e com preocupações sociais no seu conteúdo e temos uma formação que nos dá ferramentas para garantir a qualidade do projecto. O AL-MaSRAH participou na génese de uma rede independente de programação entre companhias que se auto-promovem assim como às suas cidades. Como é que funciona essa rede? PEDRO: Temos protocolos com várias companhias profissionais do País e adoptámos um sistema de troca de espectáculos. O festival Teatro no Inverno em Tavira, por exemplo, traz anualmente várias companhias à cidade, e vamos depois “pagar” essas participações com apresentações do AL-MaSRAH em festivais que essas companhias organizam nas suas terras. SUSANA: Mesmo essa rede não pode viver sem o apoio das autarquias, pois há que pagar as despesas de deslocação, alimentação, alojamento e produção. PEDRO: A venda de bilhetes não seria suficiente para cobrir tais despesas. Mas a possibilidade de difusão da imagem institucional da cidade, bem como a dos nomes de patrocinadores privados que queiram colaborar com a companhia fica assegurada em todas as cidades por onde o AL-MaSRAH passar. Já representámos em todos as regiões de Portugal continental e a regularidade dessa presença tende a aumentar. SUSANA: Trata-se de uma equação que embora não ideal, pode ser considerada bastante apropriada para momentos de crise como o que se vive. Quem quiser mais informações sobre como ligar seu nome ao do ALMaSRAH pode contactar com a companhia através do email: alteatro. c@gmail.com, e para conhecer a programação visite o al-masrahteatro. blogspot.com. Tela Leão

no âmbito do 2º curso de jornalismo de cultura

O grupo de dança Se7e Luas já se apresentou algumas vezes no Espaço da Corredoura, e integrou com a Banda Filarmónica de Tavira, um espectáculo apresentado no festival Cenas na Rua 2009, pela Vo’Arte . Os Al-Masrah já trabalharam com a coreógrafa brasileira Rita Alves com um grupo de jovens e crianças frequentadores da Fundação Irene Rolo, uma Instituição Particular de Solidariedade Social com sede em Tavira, criada por doação de Irene Rolo em 1982, que desenvolve seu trabalho no âmbito da prevenção, reabilitação/ formação e integração pessoal, profissional e social de pessoas com deficiência.

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Cena da peça Sadow Play, criação do Al-Masrah Teatro em co-produção com o projecto Ruínas e o Espaço do Tempo


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artes plásticas

Juan Martinez pinta l

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Exposição

Juan Martinez nasceu em Navas de San Juan, na Andaluzia, em 1942. Concluiu os estudos na Escola Superior de Arquitectura em Barcelona, mas a que interessa é a força que habita dentro de um corpo. A exposição que se encontra no Centro Cultural de S. Lourenço até 24 de Junho, não tem título, é como um capitulo entre duas exposições, uma que aconteceu em Sevilha intitulada “Assim mesmo” e outra que se encontra neste momento em Noviedo, com o título “Apesar de tudo”. “As três exposições podem misturar-se”, afirma Juan Martinez, “é o mesmo campo de discurso”, onde os quadros mais pequenos exprimem um mundo mais interior e os de dimensões maiores falam mais do exterior. A figura humana é o centro da sua obra mas, ao longo dos anos, tem vindo a depurar-se, a aproximar-se da essência.

sua sensibilidade inquieta e acesa fê-lo licenciar-se em Pintura na Escola de Belas Artes de Lousane, na Suíça. Há uma paixão muito forte

“Isto para mim são retratos”, explica o artista. “O retrato pode ser muitas coisas”, continua, “pode-se ir muito longe com um retrato”. Aqui são apresentados retratos de sentimentos, porque “não é necessário um modelo e sim um exemplo interior”. O importante não é a forma do rosto ou da boca. “O que me interessa é a força que habita dentro de um corpo e faz mover a pessoa”. Existem símbolos que são habituais nas exposições de Martinez, um deles é a caveira. Mas a caveira aqui não significa morte e sim, uma maneira de celebrar a vida. Habituámonos a ver na caveira o símbolo da morte, mas “se conseguíssemos não ver na caveira a morte, porque não o é, é uma consequência dela, olharíapaula ferro

por outras áreas das artes, como a música e a literatura. Nos últimos anos tem-se dedicado a pintar retratos de poesia.

mos para o mundo e para a vida de outra maneira, é por isso que a represento sempre e isso quer dizer que estou vivo, que a vida é magnífica e as pessoas são fantásticas”. Outro símbolo que acompanha a sua obra é o “T”. “Os ‘Ts’ têm estado comigo desde sempre. Tive um professor que me disse que não era tão difícil assim fazer um retrato, era um ‘expert’ em cultura grega, e que para se fazer um retrato, basta desenhar um ovo e colocar um ‘T’ lá dentro. Aí começou a história do ‘T’”. Faz uma pausa como quem vai contar uma história, “mas eu costumava introduzir o ‘T’ direito. Então, um dia, lendo sobre a filosofia chinesa, sobre taoismo, descubro que o ‘T’ significa a vida e a morte, horizontal, vertical, e é o símbolo da humanidade. Senti uma grande emoção porque, idiotamente, eu utilizava o ‘T’ direito. Então pensei: ‘não, não posso usar o ‘T’ direito pois isto é um jogo de vida e de morte, logo, tenho que impedir que a morte entre como se fosse em sua casa. Se deixo o ‘T’ direito a morte está acostumada a entrar e a sair à vontade, mas se o inclino o ‘T’, vou dificultar-lhe a entrada, vou jogar com ela. Por isso nunca mais fiz um ‘T’ direito, para impedir que a morte entre”. A obra evolui quase mais rapidamente que nós Juan Martinez expõe com frequência no Centro Cultural de S. Lourenço. Há muitos anos que nos habituou a telas fortes, com um uso intenso e certeiro da cor. Usualmente apresenta obras de grande dimensão. Esta exposição traz a novidade de pinturas, em papel, de pequenas dimensões. “Eu não sabia trabalhar em pequeno”, explica,”foi a poesia que me obrigou a fazer coisas pequenas, o que trouxe uma forma de liberdade e riqueza fantásticas ao meu trabalho e isso o devo, mais uma vez, à poesia”. Há alguns anos atrás fez um livro de 15X15cm com 150 retratos de poetas imaginários. “Sempre me interessei loucamente por poesia”, explica, “e queria fazer-lhe essa homenagem. Foi aí que começaram as reduções”. Não buscou uma forma específica para os poetas imaginários, foi sim, à procura da “espiritualidade que contem certa poesia”. Juan sempre se sentiu fascinado por outras áreas das artes. “Penso que pin-

to porque me enganei”, revela, “estou contente por ter escolhido pintura depois de ter estudado arquitectura. A arquitectura tem um processo muito diferente de chegar à realização das coisas. Mas, a conversão foi à pintura, no entanto, sempre fui fascinado pela música e pela literatura”. Com compositores como Beethoven ele bebe coragem, a audácia de ultrapassar o medo de destruir, para ir mais longe. “De um modo geral nós tornamo-nos maneiristas”, afirma, “quando fazemos algo que achamos que está bem feito, retraímo-nos, com medo de estragar o que fizemos bem. Porém, é importante não ter medo. Quando ouço, por exemplo, os quartetos de Beethoven que são obras incríveis, com um potencial enorme, D.R.

compreendo que esse homem não se travou dizendo ‘fiz algo bonito por isso vou já guardar para não estragar’, não! Ele teve o arrojo de continuar, com muito risco, com muito valor. E é isso que me traz a música, diz-me que não devo fazer coisas bonitinhas, devo romper mesmo. Na realidade, o medo de não fazer as coisas bem traz algo de negativo. É importante ir em frente e destruir o que se faz para se compreender como funciona”. O erro é uma lição tremenda Cada obra é única e corresponde a um instante específico. “Se voltasse a fazer este quadro não o faria igual”, revela, apontando para um dos quadros, “há sempre um defeito, mas isso é uma vantagem. A obra evolui quase mais rapidamente do que nós. Nós estamos permanentemente a mudar e cada obra é um documento que denuncia os nossos erros, mas não a de-


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artes plásticas

poesia D.R.

vemos destruir porque cada peça nos vai ensinar o que tínhamos que ter feito e não fizemos, porque nesse momento não encontrámos a solução. Assim, com esse documento do nosso erro, aprendemos o que não sabíamos fazer antes. Isso é importante”. A autocrítica no trabalho artístico é fundamental. “Temos que nos afastar um pouco do que fazemos. Em tudo o que fazemos temos que criar uma certa distância e sermos felizes” porque a familiaridade esconde aos olhos aquilo que estão habituados a ver e “o erro é uma lição tremenda”, ensina-nos a ultrapassá-lo e a evoluir. “O êxito faz parte do erro”, por isso o artista não pode estabelecer-se na crença da sua genialidade, isso é um impedimento para a sua contínua evolução. Os críticos podem ser muito importantes porque ajudam a manter a qualidade do que é oferecido ao público. Muitas pessoas vivem por procuração A sua relação com a literatura é fortíssima. Ele próprio tem o hábito da escrita e o seu mundo encontra-se aí, na relação que mantém com poetas, músicos e outros artistas, onde a conversa é fluída e sensível, “com quem se pode falar ‘à flor da pele’”, pois é aí se encontra a intensidade dos momentos únicos que compõem a vida que escorre fluída e irrepetível. Juan confessa que não lhe interessa muito contar histórias, o que lhe interessa realmente é vivê-las. “Muitas pessoas vivem por procuração”, constata, “mas a vida pode ser uma grande maravilha”, se a vivermos situados no presente e nos entregarmos intensamente a cada instante que ela nos oferece. “O dilema das pessoas tem a ver com a própria sombra. A sombra ocupa um espaço enorme e por isso não as deixa viver a própria vida”. A sua obra passa pelos mecanismos da poesia Nos últimos anos Juan Martinez tem feito parcerias com poetas. Esco-

lheu livros de três poetas de língua espanhola, dois Prémios Cervantes, Juan Gelman, “filho de judeus ucranianos, provavelmente o mais importante poeta vivo da Argentina”, António Gamoneda, crítico de arte e poeta espanhol e Caballero Bonald “de pai cubano e mãe que provém da aristocracia francesa, estudou Filosofia e Letras em Sevilha. Um poeta muito conhecido em Espanha e provavelmente também em Portugal. Falei com eles, eles conhecem a minha obra e fizemos uma colaboração”. A pintura de Juan Martinez passa pelos mecanismos da poesia, a depuração que faz nas suas telas é muito semelhante à poda do texto que se faz em poesia. Pode-se dizer que a exposição que se encontra em S. Lourenço é um livro de poesia, ou parte de um livro, na medida em que ela entremeia e completa duas outras exposições, “Assim mesmo” em Sevilha e “Apesar de tudo” em Noviedo. Cada obra é como uma poesia que busca a essência mais ínfima das coisas que tenta abrigar em cor e traço. Mas, “o fantástico seria captar a beleza do ar, do vento ou da luz… esses momentos magníficos não conseguimos captar. É um desperdício!”, confessa com certa tristeza, “nós somos perfeitos e totalmente imperfeitos”. Os artistas não contam para a sociedade, no entanto, são primordiais O artista é um ser Humano muito diferente, “acho que os artistas não são gente normal, graças a Deus!”, e ri-se, “regra geral, o artista não se integra na sociedade normal. Têm duas possibilidades, ou são completamente ignorados, ou, quando conhecidos, são consagrados, mas nunca estão misturados”. Isso prende-se com a sua forma especial de estar no mundo, que é ser permanentemente vigilante. “O nosso papel é de observação, de ver detalhes, de denunciar ou aplaudir certas coisas, mas o artista está sempre vigiando, tem um papel estranho, creio que somos ‘os loucos do rei’”. No fundo, o artista é a charneira da D.R.

paula ferro

Juan Martinez, muito mais do que um pintor sociedade, a dobradiça da porta, o que permite que esta se abra e se feche. “Somos um meio de transmissão. Os artistas não contam para a sociedade, no entanto, são primordiais. A política não lhes dá valor, no entanto são essenciais. Toda ou grande parte da nossa História, foram as artes ou os ‘loucos’ que a fizeram. Sim, somos os loucos, a charneira da sociedade”. “Temos uma grande dificuldade”, confidencia, “existe um grande divórcio entre a cabeça e o corpo. Isso é uma imensa dificuldade, mas ao mesmo tempo é uma vantagem. A necessidade que temos no corpo, na emoção, passa pela cabeça e a cabeça é reflexão” e não deixa desnudar ou cumprir, seja por educação, por formatação ou por conveniência, aquilo que o corpo exige. Esse divórcio entre a necessidade do corpo e a parte intelectual interessa-me muito”, faz uma pausa, “sempre disse que somos girafas porque temos o corpo muito longe da cabeça”. Compreendemos melhor a pintura pintada porque dela existe uma grande tradição O artista, enquanto observa, entrega-se ao mundo. Há muita emoção e muito sentimento na arte. O artista é uma espécie de fazedor de milagres ,porque “o milagre é ser-se feliz enquanto se faz a obra e, depois, de vez em quando, haver alguém que é feliz com ela. O milagre está em chegar ao

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coração de outras pessoas através da obra, seja ela em que área da arte for, na pintura, na música, na literatura. Aí é que se nota algo, é que se vê que o artista é superior”. A arte contemporânea, embora seja mais conceptual e por isso muito mais ligada à ideia, ao pensamento, também consegue chegar às pessoas e tocá-las. O que se passa é que “compreendemos melhor a pintura pintada porque dela já existe uma longa tradição. Do conceito não temos ainda essa tradição. Temos que praticar mais, estar mais atentos às propostas que nos são feitas, mas a arte conceptual também está no nosso corpo e na nossa mente, só que por vezes não sabemos ver e há coisas que não se ensinam na escola”, explica. “Há obras conceptuais muito bem pensadas e

quando estão bem pensadas chegam de igual modo, tocam de igual modo as pessoas. Há uma lógica que não se explica e quando essa lógica coincide com o sentimento e a emoção, também chega ao coração. Há obras conceptuais que me deixam extasiado e me põem a pensar: ’que inteligente! Que maravilha!” A inteligência e o sentimento não são a mesma coisa, mas podem coexistir e, quando uma obra é realmente inteligente, raramente é totalmente perversa. “O mundo está a mudarmuito, e ao mesmo tempo não muda nada, porque as necessidades do Homem hão-de ser sempre as mesmas, são as suas necessidades primárias, mas certos sentimentos mudam porque os meios de comunicação os fazem mudar, porque a noção de família muda, porque compreendemos que as políticas e as religiões nos enganaram… as relações entre as pessoas alteram-se, a noção de consumo invadiu tudo, até o próprio sentimento, já não se acredita, não se respeita do mesmo modo… creio que estamos a viver uma época de grandes alterações” e a arte está dentro do tempo e do mundo, por isso tem necessidade de se reforçar e é obrigada a manifestar-se relativamente ao tempo em que se desenrola. O que a arte observa é o que acontece neste momento e é isso que ela reflecte, este momento, este agora que a estimula e ela aborda. Paula Ferro


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artes plásticas D.R.

Arquipélago:

O programa de artes l

«H ikonoklash É um projecto multidisciplinar na área da arte contemporânea comissariado por Dinis Guarda, que, a convite do Centro Cultural de Lagos e integrado no programa Allgarve’10, propõe uma reflexão sobre o papel da internet e do seu impacto na criação de imagens, de ícones de arte. Este evento compreende um portal web 2.0, www.ikonoklash.com, eminentemente social, que se desdobra fisicamente numa exposição no CCL onde artistas/criadores apresentam obras em diferentes áreas disciplinares. Será também organizado, em conjunto com a Universidade do Algarve, um seminário, serão realizados workshops e performances igualmente transversais às várias disciplinas, tendo como elemento comum a Web e o seu factor “iconoclasme” [utiliza-se aqui na acepção de “destruidor de ícones”]. O título deste projecto surge da fusão desse termo, aqui abreviada para “Ikno”, e da ideia de impacto/colisão, “Klash”. ikonoklash reflecte sobre o papel da Web como o elemento central e verdadeiro factor “iconoclasme”. A internet surge neste contexto como um “destruidor” ou, usando um neologismo/eufemismo, uma entidade que acelera a mutação de conceitos estéticos. É sem dúvida uma das principais influências/ motores na criação contemporânea, seja na criação de imagens em movimento, seja como pressuposto e ferramenta tecnológica, seja ainda como ponto de comunicação e fórum social, estético e político na paisagem da arte que se faz nos nossos dias.

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á uma individualidade radical dos autores que aqui se encontram. É como se fossem ilhas. Daí o nome de arquipélago para o programa», refere Nuno Faria. «As pessoas estão isoladas nos seus contextos. Encontram-se autores com um pensamento extraordinário, absolutamente idiossincrático mas que carecem radicalmente de pessoas que acompanhem, dialoguem e reflictam sobre o seu trabalho». É esta leitura que faz do território e dos seus intérpretes que o programa de arte contemporânea que estabeleceu para o programa Allgarve, em parte, procura responder. O reconhecimento por parte do Turismo de Portugal de que havia condições para a região continuar a receber o programa Allgarve e que a Região de Turismo estaria em condições de o gerir trouxe algumas mudanças à 4ª edição do programa. A ERTA tomou algumas medidas importantes e ajustadas, entre as quais se destacam o convite formulado ao engenhiro Augusto Miranda para coordenar o programa, pessoa com experiência na área e ligada à região, e o estabelecimento de uma equipa de programadores que trabalham no Algarve para as várias áreas: arte, música e gastronomia. Este ano o programa conta com uma área nova, a animação de rua, uma área cada vez mais requisitada e de conotação urbana. Na arte contemporânea, Nuno Faria, que tinha colaborado no programa em 2008 com João Fernandes da Fundação de Serralves, e já com a programação estabelecida, a conclusão que tira é que «este não é o programa que ambiciona fazer. O programa apesar de ter novidades estruturais relativamente às edições anteriores não apresenta uma estrutura assim tão diferente. É um programa que se inscreve no mesmo paradigma de colaboração com as câmaras municipais e com os espaços existentes». Diferenças estruturais Estabeleceu-se o reforço de uma lógica que já tinha imperado em 2008, a procura de espaços emblemáticos na região. Espaços com uma ressonância especial e que transmitem o espírito da região. Em anos anteriores isso tinha acontecido com a mina da Salgema, com a fábrica da cerveja, em Faro, com o palácio da Fonte da Pipa. Lugares não convencionais que obrigam os artistas a trabalhar o espaço, o contexto, o ecossistema cultural. Para a presente edição, estabeleceuse uma colaboração com a Delegação Regional do Ministério da Cultura que se traduz na intervenção em quatro monumentos nacionais. «Milreu recebe uma exposição cerâmica com

azulejos de René Bértholo. A Fortaleza de Sagres vai ter uma intervenção de Pancho Guedes e uma peça de ar livre, de arte britânica, da colecção Berardo. O António Bolota vai apresentar uma intervenção na ermida de Nossa Senhora da Guadalupe e o Gonçalo Sena, um artista jovem que trabalha na Alemanha, nos monu-

Vista do ateliê de René Bértholo

mentos megalíticos de Alcalar». Outra novidade prende-se com o facto de o Allgarve integrar na sua programação uma exposição concebida no âmbito do «Algarve - do Reino à Região». A exposição, comissariada por Nuno Faria, faz uma leitura da contemporaneidade artística na região na sua relação com o território. Reúne


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artes plásticas D.R.

do Allgarve’ 10 uma série de artistas que apresentam os mais variados vínculos com a região, o que dá uma nota crucial ao programa por se tratar de uma exposição estruturante que «procura estabelecer um chão para a arte que se faz aqui».

Fotos D.R.

Artistas em destaque O programa apresenta uma terceira característica que o distancia das edições anteriores ao D.R.

A Voz do Mar Daniel Vieira com a primeira edição do «Campo de Flores» de João de Deus convocar duas figuras de referência no nosso panorama artístico: o arquitecto Pancho Guedes e o pintor e escultor José de Guimarães. Para além da intervenção de Pancho Guedes na fortaleza de Sagres vai realizar-se uma exposição em torno dos seus desenhos no Posto 1, em Vilamoura. Um espaço recuperado para a arte contemporânea e que poderá ganhar alguma importância nesse domínio. A exposição chamar-se-á «Linha Curva» e é um conjunto de deambulações de artistas mais novos, todos eles portugueses, em torno da obra do Pancho Guedes. O José de Guimarães terá uma exposição, em Loulé, que se divide em dois espaços, com destaque para a intervenção na Fonte da Pipa. A exposição intitula-se «Negreiro e Guaranis» e estabelece um diálogo entre a colecção de arte africana do autor e a sua produção artística marcada pela mestiçagem, pelo nomadismo e pela relação entre a arte primitiva e a arte contemporânea. Outro dos momentos do programa será a exposição retrospectiva do ceramista Jorge Mealha, que terá lugar no Centro Cultural de Lagos e curadoria de Míriam Tavares. A tónica africana que estes dois artistas emprestam ao programa justifica-se pela «procura de outros azimutes nesta região; mais a sua vivência histórica e menos um reconhecimento a norte. Estamos no fundo a tentar implantar o Algarve como uma centralidade. Uma centralidade periférica, eu diria, mas que procura outros horizontes e não tanto o olhar um bocado ensimesmado para o norte e para os modelos mais colonizadores. No fundo, procuramos religar o Algarve à sua dinâmica natural de plataforma de passagem». Desse ponto de vista o programa está marcado pela questão do nomadismo, da utopia, da articulação, do encontro de culturas que o Algarve sempre soube estabelecer. Pela primeira vez em Portugal Três autores inéditos em Portugal têm espaço este ano na programação, são eles: Joachim Brohm, um dos mais reputados fotógrafo alemães da actualidade, que tem vindo a fotografar a ilha da Culatra há vários anos e vai estar em exposição no Parque Natural da Ria Formosa, na Quinta de Marim, estabelecendo também ela uma relação com o lugar. Jaroslaw Flicinski, um dos tutores do Mobilehome, Curso Experimental de Arte Con-

temporânea vai realizar uma intervenção escultórica/pictórica nos claustros do Museu de Faro intitulada «And What About the Enthusiasm? Shall We Kill It?». Fernando Marques Penteado, artista brasileiro, cuja obra se caracteriza pelo trabalho com a arte popular, terá uma intervenção específica no Museu Regional do Algarve. A não perder Outras exposições em destaque são: «Ikonoklach criação artística em tempo Web», comissariada por Dinis Guarda, que estará patente no Centro Cultural de Lagos. A mostra reúne um conjunto importante de artistas que trabalham as novas tecnologias e poderá ser motivo de interesse para um público mais jovem. A exposição «Escultura Abstracta nas Décadas de 1960-1970», da Colecção da Fundação de Serralves, no Espaço Multiusos, em Albufeira, com curadoria de João Fernandes. Luís Tavares Pereira, arquitecto do Porto, que já comissariou duas exposições para o Allgarve, vai realizar em parceria com Nuno Faria uma exposição intitulada «Golf Stream», uma exposição em que se procura fazer uma leitura alargada do fenómeno do golf do ponto de vista urbanístico, da arquitectura, da sócio-política. Será a última exposição a inaugurar e tem data para Outubro. A exposição «Algarve visionário, excêntrico e utópico» propõe uma leitura para a região a partir da criação artística. Estabelece uma relação muito forte entre a palavra e a imagem. «Não é uma exposição tese mas é uma exposição crítica, charneira que apanha uma série de contributos anteriores mas que também é prospectiva». Importa com esta exposição dar um contexto a um conjunto de autores que estão no Algarve. É um primeiro olhar sobre um conjunto de artistas que criaram um vínculo com a região e que procura, de alguma forma, suprimir a lacuna de instâncias críticas que aqui se vive no campo da arte contemporânea. Ao longo dos oito meses em que estará patente ao público, a exposição apresentará sucessivas montagens sempre com uma gramática museológica arriscada. O catálogo da exposição terá um ensaio de Francisco Palma Dias sobre a linguagem e a terra. S.S.

É uma intervenção do arquitecto Pancho Guedes no promontório de Sagres, inserido na programação do Allgarve. Prevê-se uma instalação de carácter temporário colocada à volta de uma cavidade natural existente no terreno do promontório. Pancho propõe a criação de um caminho em forma de labirinto até à cavidade. A presença ritmada do som, produzido pelas marés, em conjunto com as paredes que sobem em altura, desenham um percurso até à descoberta do local. É um projecto acústico pela intensidade de reverberações. Nesta intervenção Pancho Guedes dá a conhecer um lugar onde o mar é sentido debaixo dos pés no sentido literal do termo. Pancho Guedes de seu nome Amâncio d’Alpoim Miranda Guedes é arquitecto, escultor, pintor e professor. Nasceu em Portugal em 1925 O seu período mais criativo passou-o em Moçambique, nas décadas de 50 e 60, onde projectou mais de 500 edifícios, muitos deles construídos em Moçambique e alguns em Angola, África do Sul e Portugal. Os seus edifícios e projectos são classificados como exuberantes, ecléticos, complexos e pensativos. A. d’Alpoim Guedes, como assina os quadros, é o “filho” de Pancho Guedes, o executante, o “responsável por toda a obra, excepto o betão armado”. É também o historiador e o arquivista: é ele quem guarda os desenhos, as pinturas, as esculturas, as fotografias sobreviventes, que se tornam cada vez mais a cada dia que passa. A actividade como pintor surgiu quando estava a acabar o curso de arquitectura em Joanesburgo e participava em exp o s i ç õ e s c om o s a r t i s t a s m a i s progressistas da época. Em 1961 esteve presente na Bienal de S. Paulo, Brasil, estando também presente na Bienal de Veneza no ano de 1975. Em 1962 as suas obras foram publicadas na revista francesa “L’Architecture d’Aujordui” com o título “Architectures Fantastiques”.Nesse mesmo ano participa no 1º Congresso de Arte Africana em Salibury, Rodésia, com a comunicação “The Auto-Biofarcical hour”, onde apresenta pinturas, esculturas e outras obras que despertam um enorme interesse. Em 1987 teve uma exposição de desenhos e pinturas na Galeria Cómicos, em Lisboa, Portugal.


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opinião

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NUNO FARIA

Fotografia de Joachim Brohm, série «Culatra» 

O FALCÃO E A GARÇA

Extinção e Resistência Nuno Faria » curador

É precisamente em momentos como este que atravessamos que a palavra resistência ganha pleno sentido. Sabemos, há inúmeros estudos que o provam, que em tempos de crise há mais público para o teatro, cinema e exposições de arte. Essa aparente contradição explica-se de forma afinal simples: há necessidades supérfluas e outras vitais. Desfrutar de uma criação artística enquadra-se no segundo grupo. Somos, por natureza, seres pensantes, curiosos, indagadores, se paramos de reflectir, morremos. Ninguém atenta contra si próprio de ânimo leve. Estes momentos de crise são, no campo da arte e não só, especialmente perigosos; servem, muitas vezes, propósitos iconoclastas, propiciam censuras veladas, extinções irreversíveis. Quem sofre, somos todos nós. Não são só os criadores, os artistas, os bailarinos, os actores, os agentes que trabalham para que as coisas aconteçam e

sejam apresentadas ao público. Tenho a convicção de que é precisamente em meios desprovidos de dinâmicas culturais consolidadas e autónomas - e o Algarve é um contexto especialmente frágil desse ponto de vista, pois aqui existe uma relação umbilical entre a gestão cultural e os centros de poder, senão vejamos a constituição da AGECAL (Associação de Gestores Culturais do Algarve) e constatemos a composição da respectiva direcção - que existe menor consciência de que a criação de um contexto forte passa precisamente pela diversidade de instâncias de mediação concomitantes e complementares, dialécticas e até divergentes entre si. É certo que só quando algo nos falta ganhamos consciência plena da importância que tem para nós essa coisa. Mas a mim custa-me compreender como não se percebe, ou é conveniente não perceber, que sendo primordial construir um contexto cultural estruturado e saudável, que, para além das habituais instâncias de mediação - museus, centros culturais, galerias, teatros, companhias de teatro, estruturas independentes - é vital haver um exercício crítico permanente, regular e independente. A crítica de arte, o jornalismo cultural, é uma peça importantíssima não só na imprensa local

mas também nacional. É escasso, tem pouco espaço nos jornais diários e tem dificuldade em conquistar públicos. A pobreza engendra pobreza. Mas a pior pobreza não é a material, é a de espírito. Penso que, verdadeiramente, ainda ninguém entendeu isso: as autarquias, que promovem oferta cultural, ainda não entenderam que não basta fazer para se criar um público; há que dotar esse público de ferramentas reflexivas e há que consolidar não só as boas práticas de acesso e fruição, mas, tão ou mais importante, favorecer também uma forte consciência crítica, promovendo não uma “política de gosto”, mas, pelo contrário, as condições para que o gosto de cada um se construa sólida e individualmente. É a única garantia de sucesso para o investimento na área cultural. Ademais, não basta promover encontros, cursos, formações, alíneas para o currículo, medalhas para a lapela. Chegou a altura de dizer se queremos preservar o espaço crítico que temos na imprensa local algarvia. O “.S”, onde publico com muito empenho aquelas que talvez sejam as últimas linhas, é a única instância divulgadora e crítica da actividade cultural do contexto local. Tem vindo a promover um trabalho sério, equidistante, diversificado. Tem-me dado a co-

nhecer vários autores essenciais para se entender a riqueza da produção artística e literária do Algarve. Tem rotinas de produção e, quer com a experiência, quer com o enriquecimento da oferta cultural na região nos últimos anos, tem vindo a afinar processos editoriais. E tem vindo a conquistar e a fidelizar leitores, tem acrescentado qualidade de reflexão. Para quem trabalha com os artistas possibilitando-lhes plataformas de diálogo, de reflexão e de produção, é vital não somente que essas produções sejam divulgadas, como ter um retorno crítico lúcido e informado. A dialéctica crítica, mesmo quando gera desentendimentos, é essencial para avançar. Entender o público como uma massa indistinta, seria um erro grosseiro. O público é tão mais rico quanto for plural, diverso, composto por cabeças que pensem de forma individual. Um espectador lúcido vale mais do que cem acríticos e acéfalos. Em cultura, os números não valem nada. Conta a qualidade da relação que se estabelece entre as partes. É precisamente em momentos como este que a palavra resistência ganha pleno sentido. Chegou a altura de dizer se queremos ou não que o suplemento cultural do Postal continue a aparecer nas bancas. Eu quero.

Caderno de Artes .S 22  

.S edição nº 22 de 3 de Junho de 2010

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