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Crónica Odeio almoços de família. Quando falo em família, não me refiro apenas aos mais próximos (pai, mãe, tio…) mas sim ao primo do tio do bisavô ou à mulher do filho do tio da mãe do meu primo. Quando são anunciadas pelos meus pais este tipos de reuniões à hora do jantar, levanto-me rapidamente da mesa, alegando que tenho trabalhos para fazer ou a mochila para arrumar. Sei que não há maneira possível de me escapar à ocasião, por isso admito derrota e sigo para o meu quarto, porque a última coisa que naquele momento quero ouvir são as indicações precisas dos meus pais sobre como me comportar à frente de todos os meus… “parentes”. Acontece que a viagem até ao local da reunião corre calmamente, mas nada me prepara para o que encontro no destino: não só estão lá os ditos familiares que nunca conheci na vida (cerca de cinquenta) como também pessoas perfeitamente dispensáveis como a empregada (que tem de tratar de um primo recém-nascido dos primos da minha mãe), um idoso de quem estavam a cuidar a troco de dinheiro (“Não o podia deixar sozinho!”) e os amigos dos filhos dos tios do meu pai (“Teve de ser, caso contrário eles não viriam”). Não sou a pessoa mais sociável do mundo, por isso digo “Bom-dia” com um sorriso amarelo e sigo rapidamente ao encontro de alguém que conheça. Como normalmente nada corre como eu espero, a meio caminho do trajeto para os meus avós sou intersetada por uma figura estranha mas que me parece conhecer como a palma da sua mão. “Estás tão alta!” ou “Como cresceste!” são as frases que passei a odiar depois destes almoços terem começado a existir. Aguento até ao fim da ocasião, rindo-me de piadas sem sentidos, escutando com embaraço histórias sobre a minha infância que eu própria desconhecia e dizendo pequenas palavras como “Sim”, “Não” ou “Olá”. E quando volto para o carro, dou graças por ter terminado. Adoro a minha família… mas não estes almoços.


Crónica