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Roberta Tassinari


Pinturas “Todo corpo continua em seu estado de repouso ou de movimento uniforme em uma linha reta, a menos que seja forçado a mudar aquele estado por forças aplicadas sobre ele.” Primeira Lei de Newton

Roberta Tassinari dá a ver um mundo decaído. uma pintura que se precipita. ainda assim, suave, translúcida. o gosto em ver essas cores é inegável. o desejo de tocá-las ainda maior. uma pintura em movimento, quase cinema. porque há aqui o movimento implícito (do alto para baixo). e existe um resto, um excedente dessa operação da artista que se acumula diante de nossos pés. nos filmes: há trechos que ficam de fora. em contrapartida, na pintura de roberta tassinari: a sobra é incorporada, faz-se obra por meio do excesso. se pensarmos em todo o esforço da história da pintura, ao menos até o século XIX, em fazer caber as linhas e as cores no espaço delimitado de um quadro (sendo a pintura em tela a principal representante desse desejo e claude monet o sujeito que o frustrou ao fazer seus barcos atravessarem o limite das molduras e depositar esse resto de imagem no vazio). se tivermos em mente também o não menos laborioso desafio que o cinema se lançou ao decidir enquadrar as ações de modo a caberem na tela de projeção. assim, o trabalho de roberta tassinari será desconcertante. porque não diz respeito ao quadro, à tela branca de projeção. ele desliza no terreno do improvável. e ainda: ao contrário de nossos pés, que servem para sustentar o peso de um corpo em constante luta contra a gravidade, estes trabalhos apostam na queda, na justaposição da força da gravidade com seu próprio gesto. afinal, ao posicionar-se no alto do painel para ali depositar e fazer cair a amoeba (trata-se da famosa geleca, brinquedo infantil, mas que se torna instrumento plástico no processo da artista), o que ela faz é dizer: “sim, estou aqui com meu corpo, aplicando essa massa de cor; no entanto, além do meu corpo há o acaso, que vai sobredeterminar o desenho que essa cor ganhará até alcançar o solo”. e é nessa conjunção entre o acaso e o desejo da artista que surge esse belo trabalho. porque sim, a beleza está aqui, travestida de arte contemporânea. Fernando Boppré


dimensĂľes variĂĄveis amoeba sobre parede 2010


Sementeira O trabalho é composto por três momentos: o primeiro consiste na sementeira fixada no teto, com a massa gelatinosa de cor em algumas de suas cavidades; o segundo, ocorre no tempo em que a ação da gravidade está agindo sobre a matéria, o tempo do acontecimento, e no terceiro momento, quando esta massa chega ao chão e não escorre mais. A imagem deste trabalho consiste no movimento, no tempo do acontecimento, e não na matéria que caiu no chão. Ela ocorre entre as duas superfícies do trabalho: teto e chão. Finalizada esta ação, o que se dá a ver são os resquícios desta marca.


Memorial Meyer Filho - Florianópolis Sem título I dimensões variáveis amoeba e sementeira 2010


Cor-matéria

Nas estruturas de Roberta Tassinari, a cor parece inchar, dobrar e se redobrar através das situações surgidas pela junção de elementos encontrados. Ao escolher elementos comuns do contexto dos objetos utilitários, Roberta pretende operar uma disfunção inicial para, a partir do esvaziamento do que conhecemos desses elementos, recuperá-los em nova chave. A eficácia da operação se dá na medida em que esses elementos, rearmados pelas estruturas que Roberta inventa, submergem na cor. A partir daí há um esquecimento da utilidade anterior e um aparecimento, na duração da observação das obras, de outra ordem: a cor imanente que perpassa plástico, folha, borracha e se espalha pelo espaço circundante. Talvez o que o trabalho de Roberta aspire seja a invenção de cores. Cores que estão presentes, em partes, espalhadas e fragmentadas nas coisas do mundo. Cores que estão num estado de potência, porém ainda desarticuladas. Cores que necessitam de uma materialidade, de um corpo. E é esse corpo que Roberta parece articular e unir através da sobreposição de materiais opacos ou transparentes, moles ou rígidos, translúcidos ou dobrados, escondidos ou evidentes. Esse corpo-cor que incha, dobra e se estende no sofrimento e na alegria da existência no mundo manifestado. Fernando Lindote


Museu de Arte contemporânea de Goiânia dimensões variáveis Celofane, acetato, bóia inflável, cabide, copo, canudo e potes 2009


Croma De que trata esta obra com a qual Roberta Tassinari ocupa um dos espaços do Museu Histórico de Santa Catarina, em Florianópolis, nesta exposição que ela chama de Croma? O título, em princípio, nos remete a uma gramática própria da pintura, haja vista ser este um termo associado não só à noção de pureza cromática, como, também, à da ausência do branco na diluição de uma cor para a obtenção de um meio tom. Entre quatro pilares de ferro do espaço expositivo do Museu Histórico, são dispostos algumas dezenas de bóias infláveis – nas cores rosa neon, rosa fosco e rosa translúcido – em diferentes escalas que, suspensas por fios de nylon, espalham-se compondo o ambiente. Trata-se de um trabalho eminentemente retiniano e, inerentes a ele, espacialidade e temporalidade são os aspectos que mais facilmente podem ser identificados. Conforme variam a localização do espectador e a luminosidade do ambiente, as bóias – que poderiam ser vistas como massas de cor – vão assumindo novas configurações e, na medida em que se agrupam em diferentes sobreposições ou justaposições, vão compondo infinitas combinações. Estruturado pelas bóias que Roberta cuidadosamente distribui, este arranjo espacial pode ser visto como uma pintura espacial caleidoscópica (ou uma instalação como preferem alguns) que está sempre por fazer-se. Inconclusa diante das tantas variáveis que regem sua lógica interna constitui-se num trabalho que nunca se esgota, sempre se renovando a cada situação. Neste trabalho, a artista/pesquisadora vale-se do uso especial e muito particular daquelas lições pictóricas aprendidas já faz algum tempo. Segura dos procedimentos adotados, não só pretende desdobrar aspectos referentes à cor, luz, transparência, veladura, e todos aqueles aspectos próprios do discurso da pintura, como, também, descontextualizar muitas das suas operações básicas. Fica-nos claro que, ao ousar tal gesto de ruptura, de superação, de insurgência mesmo, consegue ir muito mais além, ao ponto de transpor todos aqueles limites e fronteiras mais arcaicos que ainda insistem e persistem na lógica do confinamento que nos é imposta pela via das categorias tradicionais da arte. De certo é que não haveria empecilho algum em pensarmos nesta recente proposição de Roberta como algo pertencente ao campo da pintura, entretanto, ao fazê-lo, deve-se ter em mente tratar-se de um trabalho que procura expandir e dilatar conceitos. A atualidade desta obra consiste, justamente, do uso que faz de outros eixos além daqueles já demasiadamente saturados da superfície plana cartesiana e de sua exigente necessidade de um espaço expositivo ideal; contrário a isto, se utiliza de variáveis outras como aquelas que, há algum tempo, já foram requisitadas pela arte contemporânea (leiam-se aí as relações espaço/tempo, público/obra, entre outras), todas elas facilmente identificáveis, ou, melhor ainda, os elementos constitutivos que a complementam. Então, a proposta pictórica que Roberta Tassinari nos apresenta pode ser entendida tal qual um dispositivo instaurador de um jogo visual que objetiva a desestabilização de supostas verdades e valores que, todavia, permeiam o discurso da pintura. Ao promover esta situação de esgarçamento de fronteiras e limites, este trabalho revela-nos, não só a potência que o caracteriza, como, também, a relevância com que está impregnado. Marcelo Pereira Seixas


Fundação Cultural de Criciúma bóias infláveis e nylon dimensões variáveis 2010


croma - vista do lado de fora da sala Fundação Cultural de Criciúma bóias infláveis e nylon dimensões variáveis 2010


Museu Histórico de Santa Catarina bóias infláveis e nylon dimensões variáveis 2010


Plástica

Contemporâneo Imemorial Trocando a pintura de cavalete e a arte retiniana pelas sutilezas do conceito, a abordagem de Roberta Tassinari escapa da moldura e da própria superfície biplanar, mas faz persistir inquietações pictóricas, desdobradas tanto em termos de poética como de fatura, ou seja, tanto no que diz respeito às noções operatórias, como procedimentos formais e técnicos. Assim, o problema do coeficiente criativo, ou seja, a distância entre a concepção e à materialização do pensamento artístico, torna-se parte da questão que tomou para encarar e dar consistência através de seus trabalhos. Recorrendo à premeditação, mas acolhendo os resultados inesperados, sua gestualidade não é apenas manual, mas exige um movimento constante e inteiro do corpo em relação à distância e à altura em que a obra se encontra disposta. Destituindo os objetos compositivos de suas funções previamente conhecidas, surgem planos de cor e veladuras, alterando formas e cores através de novos encontros e combinações. A continuidade desta linha investigativa vem produzindo uma nova série de objetos, sendo que cada um deles busca uma composição cromática a partir de objetos diferentes, devidamente posicionados em planos distintos. Sendo apresentadas diferentes densidades de transparências, cada cor predominante possibilita variações tonais. Enquanto situações cromáticas diferentes e sutis são dadas a ver, os elementos saem de dentro da estrutura que as envolve e ganham espaço. O que aparecia de modo mais tímido nos trabalhos dos anos anteriores agora está mais explícito. Embora esteja avançando e amadurecendo em seu pensamento plástico, o que esta jovem artista permite alcançar é também um paradoxo. De um lado, implica a compreensão de que para sonhar é preciso esquecer a matéria vivida no estado diurno, fazendo com que ela seja processada e nos permita adentrar nos estranhos segredos que nos habitam, que persistem e insistem em nosso destino, percorrendo nossas consistências e obstinações. De outro, faz pensar que a criação artística seja talvez um tipo particular de sonho, em que aquele que sonha tangencia a matéria dos inumeráveis sonhos que lhes precederam. Ou seja, ao perseguir suas inquietações plásticas, não seria constitutivo e próprio do gesto artístico precisamente fazer voltar as questões irresolutas que nasceram com aquele que, desde um tempo imemorial, imaginava e criava blocos de percepções e sensibilidades a que mais tarde chamou de arte? Se assim for, Roberta Tassinari faz voltar na arte contemporânea os mais longínquos problemas da pintura: do que é feita a luz e a cor? quais são as formas pictóricas e do que elas podem ser feitas? O que uma pintura pode nos fazer ver, o que ela ilumina e até onde ela pode nos lançar? Rosangela Cherem


Sem tĂ­tulo I tapete de banheiro, copo, grampo de roupa, estojo, pasta, pote,capa de vinil 50 x 60cm 2010


Sem tĂ­tulo II copos, pĂĄ de lixo, tampas, potes e nylon. 60 x 80 2010


Sem título III celofane, canudos, bandeja, mangueira, pasta, copos, pote, papéis, plásticos e nylon. dimensões variáveis 2010


Trabalhos recentes


Sem TĂ­tulo I Copos, cabide e lacre de plĂĄstico 80 x 50 x 20 2012


Sem TĂ­tulo VI leiteira, pulseira, escorredor de arroz e lacre de plĂĄstico 35 x 23 x 24 2012


Sem Título II Copos, cabide, pá de lixo, bóia inflável, acrílico, mangueira e lacre de plástico 70 x 60 x 10 2012


Sem Título IV Funil, porta parafuso, pá de lixo e lacre de plástico 30 x 30 x 18 2012


Sem TĂ­tulo V Funil, pulseira, cabide e lacre de plĂĄstico. 80 x 30 x 40 2012


Sem Título III Copos, cabide, forma de gelo, potes, mata mosca, pulseira, canudo acrílico, mangueira e lacre de plástico. 100 x 50 x 23 2012



Roberta Tassinari