Jesus no fim dos tempos: livro revê trajetória da banda Jesus and Mary Chain desde o princípio

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música

Jesus desde o

PRINCIPIO ´

BIOGRAFIA COMPILA TRAJETÓRIA DA ICÔNICA BANDA THE JESUS AND MARY CHAIN, UM DOS PAIS DO CHAMADO “ROCK ALTERNATIVO”, QUE TEVE PASSAGEM MEMORÁVEL POR PORTO ALEGRE EM 1990 ANDREW CATLIN, DIVULGAÇÃO

CRISTIANO BASTOS Jornalista, autor de “Júpiter Maçã: a Efervescente Obra” e do ainda inédito “Metralha”, livro biográfico de Nelson Gonçalves

A

dulto, eu ainda sonhava com a possibilidade de, um dia, ver shows de algumas bandas que haviam me enfeitiçado na adolescência. Assim foi com os New York Dolls e com o MC5. Também assisti, ao vivo, a lendas como Ramones e Bad Brains, mas infelizmente não consegui ver The Stooges, Primal Scream e, muito menos, o The Jesus and Mary Chain, banda que no entanto veio ao Brasil em três ocasiões. Em junho deste ano, na mais recente dessas três, a banda dos irmãos escoceses Jim e William Reid fez um único show em São Paulo. Sempre é um incognita saber se Jesus novamente voltará... Germinado em 1983, o Jesus and Mary Chain chegou a se apresentar, uma única vez, em Porto Alegre. Foi no dia 5 de julho de 1990. Eu era apenas um teenage lust sem “nenhum dinheiro no bolso”, mas, como se fosse hoje, ainda lembro do clima de excitação que pairava na cidade. Segundo relatos que colhi, o show, que rolou no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), foi um acontecimento memoravelmente ensurdecedor. O músico e iluminador Gilberto Six tem boas histórias a respeito. Ele conta que foi ao aeroporto esperar o desembarque da banda e, na cara de pau, pediu ao vocalista Jim Reid que botasse seu nome na lista de convidados. Conta que Jim ficou comovido, chamou um roadie e pediu que este anotasse o nome de Six num pedaço de papel. “No outro dia me dirigi à Reitoria, não levando muita fé que meu nome constaria, porém, não é que o meu era o único nome da lista deles?”, rememora. Six também guarda na memória a massa sonora vindo em sua direção, como uma ventania soprando numa praia do litoral

norte gaúcho, na execução do hit Just Like Honey: – A Reitoria veio abaixo. O (ilustrador e cineasta) Otto Guerra quase enfartou. Lembro dele se levantando da poltrona e soltando um grito gutural. As apresentações do Jesus and Mary Chain costumam ser um espetáculo de luzes estroboscópicas, psicodélicas, piscando numa ambiência envolvida por muito fog. No telão, projeções de filmes experimentais, a exemplo de Scorpio Rising (1963), de Kenneth Anger. O guitarrista Gustavo X, à época integrante da banda Justa Causa, divide outra lembrança: – Eles erraram a primeira música, Penetration, e começaram tudo de novo”. O cineasta, professor e replicante Carlos Gerbase lamenta: – Eu não fui ao show e me arrependo até hoje. Mas nem tudo ficou perdido. Para quem não pôde ser abençoado pelas emanações sônicas da banda, ao menos uma “salvação”: a recomendadíssima e recém-lançada biografia Barbed Wire Kisses – A História do Jesus And Mary Chain, de Zoë Howe. No livro, a autora explica, por exemplo, porque teria bastado apenas um pedal de guitarra quebrado para que o cenário do rock nunca mais voltasse a ser o mesmo. Ela também decodifica a “fórmula Jesus and Mary Chain”: esquisitice, timidez no limite da fobia social, adoração ao Velvet Underground e absoluto deslumbramento pelo wall of sound de Phil Spector (adoração mais do que óbvia nos acordes iniciais de Just Like Honey, emulativos de Be My Baby, das The Ronettes). Fora que, depois deles, tocar guitarra “errado” se tornaria, para muita gente, uma virtude. O Jesus and Mary Chain foi um dos primeiros grupos a serem rotulados de “alternativos” – embora

MESTRES DA DISTORÇÃO Os irmãos escoceses Jim e William Reid, que estão de volta após duas longas paradas

detestem essa alcunha. Também são conhecidos como a primeira banda shoegaze (referência a músicos como os da banda My Blood Valentine, que, de tão tímidos, chegavam a ficar o tempo todo olhando para baixo sem encarar o público ou “olhando para os sapatos”), título igualmente execrado pelos irmãos. Após muitas brigas, várias delas em cima do palco, em 1999 os Reid resolvem decretar o fim da banda. Mas, em 2003, a diretora Sofia Copolla inventou de pôr Just Like Honey para tocar – inteira – no final de seu filme Encontros e Desencontros, e eles, então, roubaram a cena. Em 2007, os irmãos reuniramse outra vez, sem aviso prévio, no festival Coachella, na Califórnia, arrebatando o público e empolgando a si próprios. E, desde então, com a graça divina, Jesus voltou para ficar. Em 2017, a banda lançou The Damage and Joy, um excelente petardo ao velho estilo Jesus and Mary Chain. Com seu fuzz zombeteiro e excruciante, por vezes doce-amargo, os Reid abriram, à base de microfonias, as veredas

do rock barulhento em sua época. Para finalizar, Bobby Gillespie, do Primal Scream (ele também foi baterista do Jesus and Mary Chain de 1984 a 1986), certa vez afirmou que o álbum Munki, de 1998, era “o último grande disco de rock”. Sou obrigado a concordar: 20 anos depois, eu, pelo menos, ainda não ouvi nada que o superasse.

O LIVRO

Barbed Wire Kisses – A História do Jesus and Mary Chain Biografia. De Zoë Howe. Tradução de Letícia Lopes Ferreira. Editora Sapopemba, 448 páginas, R$ 55 (em média).

ZERO HORA | SÁBADO E DOMINGO | XX E XX DE XXXXXXXXXXXXXXX DE 20XX

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