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TECNOLÓGICA

EM REVISTA

Uma publicação da Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica

ANO l Nº 3 - setembro/outubro 2010

Inovação sob medida Como a avaliação de resultados contribui para ajustar as políticas públicas a modelos mais eficientes 6º Prêmio Inovar para Crescer No Dia da Inovação, Protec homenageia empresas 2010


editorial

E M R E V I S TA

TECNOLÓGICA

editorial

Uma publicação da Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica

Sociedade Brasileira Pró-InovaçãoTecnológica Presidente: Humberto Barbato Vice-presidentes: Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, Jorge Lins Freire, Paulo Skaf, Robson Braga de Andrade e Rodrigo Rocha Loures Conselheiros: Armando Monteiro Neto, Carlos Alexandre Geyer, Franco Pallamolla, Celso Antônio Barbosa, João Carlos Basílio, José Manuel de Aguiar Martins, Luiz Aubert Neto, Luiz Guedes, Luiz Amaral, Merheg Cachum, Paulo Godoy e Paulo Okamotto Diretoria: Roberto Nicolsky, Marcos Oliveira, Fabián Yaksic e Joel Weisz Pró-Inovação Tecnológica em Revista é uma publicação bimestral da Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica Expediente Comercial e Marketing: Alexandre Nicolsky Coordenação editorial: Natália Calandrini Textos: Natália Calandrini Colaboração: Luciana Ferreira Igor Waltz Projeto e produção editorial: Ricardo Meirelles Diagramação: Jessica Gama Estagiárias: Fernanda Magnani e Mayara Almeida Circulação: 5 mil exemplares

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Protec - Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica Av. Churchill, 129 - Grupo 1101 - Centro Rio de Janeiro - RJ CEP 20020-050 Tel.: (21) 3077-0800 Fax.: (21) 3077- 0812 revista@protec.org.br www.protec.org.br

Política de inovação e retorno econômico-social

Esta edição tem como tema o IX Encontro Nacional da Inovação Tecnológica (Enitec), principal fórum de discussão da área, que será realizado pela Protec nos dias 20 e 21 de outubro, em São Paulo. O tema do evento, “Políticas públicas de inovação – resultados e proposições”, é de tamanha importância que recebeu abordagem aprofundada nas diversas reportagens da revista, de forma a adiantar as discussões deste ano. A matéria de capa lança luz sobre a necessidade de governo e agências de fomento à inovação medirem os resultados de suas ações. Mas não por meio do dispêndio realizado, como costuma acontecer, e sim pelo retorno econômico e social desse investimento. Só assim será possível ajustar efetivamente as políticas públicas à realidade do setor produtivo, este o verdadeiro motor da inovação. As iniciativas do Senai e da Finep em avaliar seus editais de apoio, mostradas na reportagem, oferecem subsídios para se pensar em orientações a serem adotadas ou evitadas nessa missão. Mas nada adianta discutirmos maneiras de redefinir os rumos da política para a inovação sem apontarmos as falhas no campo econômico que vêm inviabilizando o desenvolvimento tecnológico do País. Por este motivo, o Enitec terá um painel dedicado à desindustrialização. Uma prévia do panorama a ser apresentado no evento pode ser conferida no artigo de Luiz Aubert Neto sobre a influência do câmbio. A página 2 traz o assunto sob outro enfoque, com a pesquisa da FGV que confirma a queda da participação da indústria no PIB. Ainda nesse espaço, mostramos a programação completa do Enitec, que, pela primeira vez, terá um período dedicado à definição de linhas referenciais para o planejamento estratégico da Rede de Entidades Tecnológicas Setoriais (Rets). A decisão demonstra a determinação das entidades em seguirem com um trabalho cada vez mais coeso em favor do fomento público à inovação. Nos oito anos de Enitec acumulados até aqui, já obtivemos importantes avanços por meio da interação das entidades no evento, como a criação da subvenção econômica e do mecanismo de dedução automática de gastos com P&D na Lei do Bem. Sem perder de vista a longa trajetória que ainda temos pela frente, devemos relembrar e comemorar as vitórias no Dia da Inovação (19 de outubro), sancionado este ano devido à proposta da Protec enviada ao Congresso Nacional em 2002. Na reportagem da página 8, adiantamos as novidades do Prêmio Inovar para Crescer, que será concedido nessa data. As empresas contempladas fizeram do aperfeiçoamento de produtos e processos seu instrumento de competitividade. Esperamos que elas sirvam de inspiração para termos políticas públicas direcionadas à inovação em seu sentido estrito. Ou seja: mais que a descoberta genial, o aprimoramento continuado que, acessível e vital, consiste na chave para a sobrevivência dos negócios. Roberto Nicolsky Diretor-geral da Protec

Sumário Notas............................................................................................................................................

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Opinião – O câmbio e outros males que levam à desindustrialização ........................................ 3 Capa – Avaliação de resultados: primeiro passo para as políticas públicas de inovação darem certo....4 Especial – Inovar para Crescer homenageia empresas que apostam na melhoria como inovação....8

Entrevista – Richard Macret revela como funciona o sistema de inovação da Rhodia..................10 Espaço Rets................................................................................................................................

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notas notas

Soluções conjuntas para a inovação

Entre os dias 20 e 21 de outubro, as Entidades Tecnológicas Setoriais (ETS), representantes do governo e de agências de fomento à inovação estarão dedicados à discussão, avaliação e proposição de políticas públicas durante o IX Encontro Nacional da Inovação Tecnológica (Enitec). Com o tema “Políticas públicas de inovação – resultados e proposições”, o evento será realizado pela Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica (Protec) no São Paulo Center. Um dos destaques da programação será a definição das linhas referenciais para o planejamento estratégico das ETS e sua rede (Rets), seguindo a proposta sugerida pelas próprias entidades em sua última reunião, em setembro. Para fomentar o debate, está no ar o blog Fórum Rets (forumrets.zip.net), em que as ETS podem publicar suas sugestões para o trabalho. Outros assuntos a serem abordados no evento são o poder de compra do Estado e os riscos de desindustrialização, processo que vem fazendo setor produtivo brasileiro perder conteúdo tecnológico. O Enitec incluirá, ainda, a análise de resultados de projetos apoiados pelo Senai, realizada pela Protec (veja a matéria de capa, na pág. 4), além da tradicional avaliação e formulação de propostas para a subvenção econômica e as linhas de financiamento à inovação. Para mais informações sobre o Enitec, acesse: www.protec.org.br.

Setor industrial encolhe A indústria de transformação brasileira atingiu a mais baixa participação no Produto Interno Bruto (PIB) desde 1947, quando o setor ainda estava pouco estruturado e o Brasil era um país agrícola. Na época, o segmento respondia por 16% do PIB. Em 2004, o percentual caiu para 19,2% e, no ano passado, ficou em modestos 15,5%. Os dados foram apontados em levantamento da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que reuniu estatísticas de contas nacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), além de analisar estudos internacionais. As conclusões da pesquisa reforçam a existência de um processo de desindustrialização, como será debatido no IX Enitec. Uma comparação recuperada pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) indica um peso ainda menor da indústria do Brasil sobre o PIB, de 14,4% em 2008, enquanto na China ele era de 35,4% e na Argentina, de 16,8%. O trabalho da FGV conclui que o Brasil chegou "muito cedo" a um processo de desindustrialização. Em outros países, o fenômeno aconteceu quando a renda

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per capta variava entre US$ 8 mil e US$ 11 mil, aumentando a demanda pelo setor de serviços, que pode ocupar parte do papel da indústria na economia. Mas a desindustrialização aqui, segundo o estudo, começou na década de 80, quando a renda média era inferior a US$ 4 mil.

Pró-Inovação em Revista - Ano I - nº 3 - setembro/outubro 2010

Se a dívida dos anos 80 e a abertura comercial da década de 90 explicam a desindustrialização nacional de antes, hoje o câmbio valorizado é um dos fatores que mais contribuem para o processo. Este se manifesta na importação de insumos, peças, componentes e até produtos acabados, desarticulando as cadeias produtivas. Porém, o estudo também aponta elementos conjunturais (como a recessão dos países ricos), permanentes (o efeito-China, por exemplo) e os altos custos de produção.


opinião

E o câmbio continua matando Luiz Aubert Neto

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emos chamado a atenção, insistentemente, para o processo de desindustrialização e desnacionalização que vem ocorrendo no Brasil. Nos últimos 20 anos, passamos de 5º maior produtor mundial de máquinas e equipamentos a um modesto 14º lugar. A verdade, comprovada diversas vezes em números, é que a indústria de transformação do Brasil está sem condições de competir em igualdade com as demais indústrias instaladas mundo afora. O mais duro desta constatação é que a perda de competitividade não ocorre do portão para dentro das nossas empresas, ou seja, há décadas a indústria vem dando demonstração de força, de melhoria constante da produtividade, de desenvolvimento e inovação tecnológica, em uma luta constante pela sobrevivência. Somente quem vive o dia a dia do chão de fábrica sabe o quanto é difícil produzir neste País.

Nos últimos 20 anos, o Brasil passou de 5º maior produtor mundial de máquinas e equipamentos a um modesto 14º lugar

Os desafios são enormes: custo Brasil – que torna os produtos brasileiros cerca de 43% mais caros (caso da indústria de máquinas) –, taxas de juros mais altas do mundo, carga tributária que representa cerca de 35% dos nossos custos, e taxa de câmbio – que impõe uma perda irreparável ao setor produtivo, pois faz com que a indústria fique menos competitiva nas exportações e, por outro lado, abre o mercado brasileiro aos produtos importados.

Apesar de todas as oportunidades existentes, a indústria vive um momento de incertezas, diante de um paradoxo que merece explicação clara por parte do governo. Se, por um lado, a indústria de máquinas – que produz bens de alto valor agregado, que gera desenvolvimento tecnológico, que oferece empregos qualificados e que paga os melhores salários da indústria de transformação – busca a sua sobrevivência, convivendo com crédito extremamente caro e de curto prazo, por outro lado, o setor financeiro vem batendo recordes de lucratividade. No último trimestre, ele foi o mais lucrativo de todos os setores, com lucro líquido de R$ 10,1 bilhões, ficando, inclusive, à frente do segmento de petróleo e mineração. O sistema financeiro é altamente competente e nós somos um bando de incompetentes? Não há nada de errado na política econômica? Para mim, a resposta é simples e óbvia: falta uma política industrial séria, que privilegie o investimento produtivo em vez do não produtivo, da mesma forma que os países hoje desenvolvidos compreenderam que a industrialização é o caminho para o desenvolvimento. É sempre bom lembrar que, para proteger as suas indústrias até se tornarem fortes, esses países adotaram a seguinte política: desoneração total dos investimentos, câmbio e financiamento competitivos, incentivo às exportações de bens de alto valor agregado, desenvolvimento e inovação tecnológica. Um bom e recente exemplo é a Coreia do Sul. Mas, enquanto essa política industrial não é implementada, não podemos continuar reféns de um câmbio que, de forma acelerada, vem sendo o grande vilão do processo de desindustrialização e desnacionalização vivenciado pela indústria de transformação. Para se ter uma ideia, no caso do setor de máquinas e equipamentos, o déficit acumulado da balança, de 2004 a 2010, já é superior a US$ 43 bilhões. Somente as importações vindas da China cresceram cerca de 57% no primeiro semestre de 2010, comparado

Foto: Divulgação Abimaq

opinião

ao mesmo período de 2009. Em 2005, a China não aparecia entre os 10 principais países de origem das nossas importações. Hoje já é o terceiro colocado e, ainda em 2010, deverá ser o segundo, superando, inclusive, a Alemanha, o maior fabricante de bens de capital do mundo. Diante deste cenário, não nos restou outra alternativa senão pedir, em caráter emergencial, o aumento da alíquota do Imposto de Importação de 14% para 35%. Após a realização de um estudo aprofundado, chegamos à conclusão de que esta é a única medida capaz de minimizar a perda de competitividade da indústria de máquinas frente aos concorrentes internacionais. Alguns vão dizer que tal medida se configura protecionismo ou reserva de mercado. Em nossa opinião, tal argumento não se sustenta, pois só se poderia falar em proteção se a indústria nacional estivesse concorrendo em condições de igualdade, ou seja, se houvesse isonomia. Também vale ressaltar que outros setores da economia contam com uma alíquota de 35%, a nosso ver uma proteção justa, pois sem ela esses setores já teriam sido extintos. O momento é de atenção e o aumento da alíquota se faz necessário para dar sobrevida às nossas indústrias, pelo menos enquanto tivermos que conviver com um câmbio que inviabiliza o processo produtivo. O governo precisa ter a sensibilidade de que o remédio imediato é o aumento da alíquota de importação, ou continuaremos a assistir o câmbio a matar as nossas indústrias.

Luiz Aubert Neto é presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) e participará do painel “Riscos de desindustrialização” do IX Encontro Nacional da Inovação Tecnológica (Enitec)

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capa Capa

Desde que foi regulamentada a Lei de Inovação, há cinco anos, a cultura empresarial e os mecanismos de incentivo só fizeram evoluir no Brasil. Ainda que se aponte a necessidade de mais investimentos, anualmente eles vêm crescendo. O que falta agora é o governo e as agências de fomento avaliarem com consistência se suas ações têm obtido êxito, o que significa retorno econômico para a sociedade. O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) deu este passo, contratando uma auditoria externa para conferir os resultados dos projetos de inovação que apoia. Como consequência da ousadia em verificar os próprios erros e acertos, a entidade já começa a estudar aperfeiçoamentos em seu edital. Essa e outras experiências, abordadas nesta reportagem, serão tema do IX Encontro Nacional da Inovação Tecnológica (Enitec), que será realizado nos dias 20 e 21 de outubro, em São Paulo.

Políticas públicas de inovação: avaliar é preciso O

Senai decidiu verificar este ano os resultados de seu Programa de Inovação, contratando a consultoria externa da Sociedade Brasileira PróInovação Tecnológica (Protec), que firmou parceria com o Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foram avaliados 42 projetos apoiados nos editais lançados entre 2004 e 2007, por meio de entrevistas presenciais com técnicos das diretorias regionais do Senai e com visitas às empresas participantes. A equipe da pesquisa mensurou o sucesso dos projetos do ponto de vista da inserção no mercado, criando dois indicadores:

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propostas apresentadas por iniciativa do Senai e por iniciativa da empresa. Quase 54% dos projetos apresentados por empresas já tiveram boa inserção no mercado. O relatório apresenta uma síntese dos fatores que contribuíram para a inserção dos produtos e processos no mercado: escolha adequada da empresa parceira (84,6% dos casos), plano de negócios consistente (61,5%), conjuntura de mercado favorável (53,8%) e complexidade tecnológica baixa (61,5%). “A conclusão confirma que o foco no mercado, principalmente por meio da elaboração de um plano de negócio, é fundamental para garantir a comerciali-

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zação e o retorno econômico do produto desenvolvido. Inclusive, a exigência do plano de negócio passou a ser adotada no edital de subvenção da Finep”, defende o diretor-geral da Protec, Roberto Nicolsky, coordenador do estudo. O Programa de Inovação, de abrangência nacional, já segue nessa linha, por contemplar propostas elaboradas pelas diretorias regionais do Senai em parceria com indústrias locais para o desenvolvimento de produtos, processos e serviços. Segundo o gerente executivo do Departamento Nacional do Senai, Orlando Clapp Filho, a instituição considera central que os projetos de


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inovação tecnológica sejam incorporados como negócio pelas empresas. “Desta forma, adotamos como indicador de desempenho o percentual de projetos concluídos, que apresenta a evidência formal dessa incorporação. E entendemos que a confiabilidade do indicador terá seu maior reconhecimento sendo produzido por terceira parte”, afirma, referindo-se à contratação da consultoria externa. Foto: Divulgação Senai

O Senai adotou como indicador de desempenho a incorporação da inovação tecnológica como negócio pelas empresas

Orlando Clapp De acordo com Alysson Andrade Amorim, analista da Gerência de Inovação Tecnológica do Senai Nacional, desde o início a instituição avalia internamente o resultado dos projetos, por meio das sugestões e críticas feitas pelos interlocutores das unidades estaduais. Com a experiência, o edital foi sendo aperfeiçoado. A auditoria externa busca aprofundar as avaliações já feitas.

Recomendações O estudo recomenda que os editais futuros deixem de exigir o chamado caráter inovador para o projeto. “A característica pode desestimular a apresentação de projetos de aprimoramento de produtos ou processos, com rápida execução, porém alto impacto econômico”, diz Nicolsky. Outra sugestão é a incorporação de juízes externos para compor, junto com o corpo técnico do Senai, uma mesa avaliadora para a seleção dos projetos beneficiados, conferindo credibilidade e multiplicidade de visões ao processo. Um dos principais méritos do Programa Senai de Inovação apontados no relatório é a alta capilaridade na concessão dos incentivos, promovendo a inovação com base nas vocações econômicas e o conhecimento tecnológico acumulados nas regiões do Brasil. O levantamento realizado ajudará também nessa missão, pois mede o desempenho dos estados, podendo orientar a distribuição de recursos. Amorim, do Senai, destaca que a participação ativa da entidade nos projetos, aliando apoio técnico e financeiro, tem se mostrado o caminho correto. O Senai, segundo o analista, já estuda a aplicação de aperfeiçoamentos no edital a partir dos resultados da avaliação, como revisar a estrutura do plano de negócio exigido, verificando se o estudo de viabilidade técnico-econômica atende às necessidades, e reforçar a capacitação dos representantes regionais. “Consta-tando que o edital está conseguindo cumprir em boa parte o objetivo de inserção no mercado, temos motivos para fortalecê-lo com orçamentos cada vez maiores, aumentando o número de empresas apoiadas”, ressalta Amorim. Análise da subvenção econômica Já com o acompanhamento consolidado nas linhas de capital semente e financiamento, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) começou a avaliar os resultados da subvenção econômica em 2009. As empresas responderam a um questionário e apresentaram os desdobramentos dos projetos em um seminário fechado, sob críticas das entidades setoriais ao modelo adotado e a abrangência restrita – o universo de companhias

analisadas (24) corresponde a menos de 8% do total de 322 apoiadas nos editais de 2006 e 2007. Outra reclamação foi direcionada à falta de transparência na avaliação, baseada em dados das próprias empresas, sem auditoria externa. Ainda assim, a iniciativa de começar a medir resultados conta como ponto positivo. A avaliação continuará a ser feita anualmente, porém ainda no mesmo formato. Este ano, foram convidadas a participar 44 empresas, com 47 projetos dos editais de 2006 e 2007, que receberam integralmente a verba até abril deste ano. Elas já começaram a preencher o questionário, que foi ampliado e inclui dados como percentual de gastos com pesquisa e desenvolvimento, aquisição de softwares e equipamentos, continuidade das atividades do projeto no período, alcance geográfico da inovação, se projeto ainda está em protótipo ou foi convertido em produto, e de onde virão os recursos para lançá-lo no mercado. Em novembro, será realizado o seminário. A avaliação terá doutores de universidades e institutos de pesquisa como consultores externos. “Mais adequado seria a incorporação de profissionais de mercado, capazes de analisar os resultados do ponto de vista de negócio e não acadêmico”, diz Nicolsky, da Protec. Luiz Coelho, superintendente da área de Financiamento da Finep, admite a possibilidade de, futuramente, entidades e associações da área tecnológica serem convidadas para reforçar o time de auditores, sempre mantendo as regras de sigilo tecnológico. Ele destaca os desdobramentos já obtidos com a primeira avaliação, que subsidiou em grande parte as mudanças feitas no edital de subvenção econômica de 2010. Coelho afirma que as críticas das entidades setoriais e da Protec também foram incorporadas. “Afinal, a subvenção é para a indústria”, ressalta. As principais mudanças positivas no edital foram a limitação do valor liberado ao faturamento da empresa, a exigência de comprovação de que ela está ativa, com objeto social compatível com o projeto e registrada há mais de um ano e meio. As medidas evitam que empresas sejam criadas apenas para concorrer à subvenção e aumentam as chances de acesso do setor produtivo aos recursos.

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Foto: Divulgação Abinee

Foto: João Luiz Ribeiro / Divulgação Finep

Luiz Coelho

Os riscos da falta de avaliação Diretor de Tecnologia da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Nelson Freire reforça que projetos de inovação precisam ser monitorados, especialmente os da subvenção econômica. Para ele, se a subvenção não for eficiente, corre o risco de ser questionada pelo governo quanto à sua adequação para fomentar a inovação. “Se as políticas públicas não tiverem os impactos econômicos mensurados, quem pode levar a culpa pelo baixo aumento da inovação é a indústria. Perderíamos um processo necessário para as empresas brasileiras competirem no mundo. A subvenção não deve ser a fundo perdido e sim um fundo de muito retorno econômico”, diz Freire. Ele cita como exemplo a linha da Finep para alocar mestres e doutores nas empresas, que teve demanda inferior à oferta, pois os requisitos do edital não atendiam às companhias. Mas poderia parecer que houve desinteresse do setor. Para ele, o compartilhamento das informações sobre o retorno econômico da inovação por parte das empresas deveria ser uma condicionante estabelecida no edital de subvenção e em contrato, preservado o segredo tecnológi-

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Se as políticas públicas não tiverem os impactos econômicos mensurados, quem pode levar a culpa pelo baixo aumento da inovação é a indústria

A subvenção é para a indústria

co. “Os gestores da subvenção começariam a ser cobrados como gestores de um fundo econômico. Quanto deu sua taxa de sucesso este ano? E no próximo, quanto ela será?”. Mas, pondera Freire, alguns questionam que os projetos de novas descobertas, que são de alto risco, seriam excluídos se adotado o parâmetro do resultado econômico. “Se fosse usado um sistema que mesclasse os dois tipos de inovação, o gestor público trabalharia com uma taxa de falha, mas com o retorno econômico também”. Segundo ele, o mesmo vale para bolsas, financiamentos e outros mecanismos de fomento. “Estaremos mais afinados para redirecionar esforços inovadores no futuro”. Na opinião de Fernando Varella, consultor da Protec, as agências de fomento não têm dado a devida atenção à avaliação dos resultados dos projetos apoiados. “Com exceção do Senai, não há auditoria externa. Esse tipo de ação confere a transparência que vem sendo cobrada insistentemente pela sociedade, em especial pelas entidades de representação empresarial”, pontua. “Por exemplo, quais foram os resultados da subvenção econômica? Ela possibi-litou o lançamento de quantos produtos no mercado, quanto de retorno financeiro para as empresas e

Nelson Freire

De olho no mercado, sucesso garantido Quando o projeto de inovação surge em uma empresa produtiva, com base em necessidades reais detectadas no mercado, suas chances de dar certo aumentam consideravelmente. Esses fatores de sucesso puderam ser comprovados na avaliação de resultados do Programa Senai de Inovação. O estudo fornece exemplos inspiradores para outros modelos de apoio às empresas. A Ceramitelha é um deles, por ter conseguido incrementar o negócio já no processo de desenvolvimento, antes mesmo do produto ir para o mercado. Interessada em melhorar suas telhas cerâmicas de barro vermelho, a empresa buscou a parce-

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ria do Senai em 2007 e desenvolveu um novo processo de produção para retirar a granulação das telhas e esmaltá-las. O projeto foi criado a partir da demanda local pelo produto, que, inexistente na região, era comprado no Sul do País pelos moradores. Apesar de ainda não ter lançado as telhas esmaltadas (o que será feito após a inauguração da nova fábrica em construção), a Ceramitelha melhorou a qualidade de seu produto tradicional, economizou na fabricação e aumentou as vendas de 350 mil para 850 mil peças por mês.


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criou quantos empregos?”, questiona. Para o consultor, esses são os resultados que importam, pois têm impacto social. Ele ressalta a iniciativa da Finep de realizar mudanças nas regras do edital de 2010 do programa de Subvenção Econômica como uma demonstração de cuidado com o melhor uso do dinheiro público. Avanços ainda maiores poderiam ser obtidos se as agências investissem em avaliações aprofundadas dos resultados das inovações. Assim, poderiam perceber ou confirmar fatores indispensáveis para o sucesso dos projetos. Na visão de Varella, por exemplo, o baixo nível de inovação tecnológica na economia brasileira tem relação com o reduzido apoio financeiro do governo e o compartilhamento de riscos, existentes em todo projeto de inovação. “Muitos países já compreenderam que, por causa disso, o governo precisa ser parceiro das empresas nos riscos. O Brasil encontra nesse aspecto um dos grandes gargalos de suas políticas públicas”, avalia Varella.

Lei para o bem da inovação O Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) analisa anualmente os relatórios da Lei do Bem, que concede incentivos fiscais para empresas que invistam em atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica. Trata-se de uma análise documental, em que se verifica a conformidade das informações e das atividades descritas com a lei, ou seja, verifica a coerência do investimento com o beneficio usufruído. A avaliação relativa ao exercício de 2009 deve ser concluída até o fim de outubro. “Podemos adiantar que os prognósticos indicam que teremos investimentos entre R$ 8,5 e R$ 9 bilhões, o que significará algo em torno de R$ 1,2 bilhão de renúncia

fiscal efetiva”, revela Ronaldo Mota, secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do MCT. Apesar das críticas quanto ao fato de impossibilitar o acesso das pequenas empresas, a Lei do Bem tem se mostrado um dos mais eficientes mecanismos de fomento. Em 2006, 130 empresas declararam investimentos de aproximadamente R$ 2,2 bilhões. Já em 2007, os números pularam para 299 empresas declarando mais de R$ 5 bilhões. No ano passado (relativamente ao ano de 2008), foram 460 empresas e os investimentos atingiram mais de R$ 8 bilhões. Em apenas três anos, o incremento do número de companhias é da ordem de 240% e de valores, 270%.

O desafio de desenvolver indicadores O

ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) conta com a Coordenação Geral de Indicadores, responsável por levantar informações sobre a execução das políticas de ciência e tecnologia e de desenvolvimento produtivo em todo o País. O levantamento é dividido entre os chamados indicadores de insumos e os de resultado. Os primeiros incluem os gastos em P&D e atividades científicas e técnicas correlatas realizados pelo governo federal, estados e empresas, além dos recursos humanos dedicados a essas atividades. O segundo grupo consiste na produção científica, verificada pelo número de artigos publicados, e na quantidade de patentes pedidas e concedidas. O objetivo dos indicadores gerados é monitorar o desempenho das políticas públicas, oferecendo informações que

auxiliem na revisão das metas para a C&T. Também cria base para a comparação com o desempenho de outros países e para as agências de fomento monitorarem suas políticas. Porém, o consultor da Protec, Fernando Varella, contesta a adoção de artigos científicos e patentes como parâmetro para se medir resultado de inovações. Segundo ele, a inovação, que consiste em melhoramentos, em geral não se traduz em patente, que se refere a descobertas. Segundo ele é por isso que vemos o Brasil no 13º lugar no ranking internacional de artigos científicos de 2008, porém na 68ª posição no ranking mundial de inovação de 2010, produzido pela escola mundial de negócios Insead. A coordenadora Geral de Indicadores do MCT, Mariana Rebouças, explica que ainda há limitações para a elabora-

ção de indicadores de impacto. Uma delas é o fato de o conceito de inovação em governo e indicadores para medir seus efeitos ainda estão sendo elaborados internacionalmente. Hoje, os indicadores da Coordenação são produzidos a partir de dados coletados em fontes como o Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (Siafi) e a Pesquisa Industrial de Inovação Tecnológica (Pintec) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo Mariana, a metodologia adotada será revista para ampliar os indicadores relacionados às empresas, incluindo segmentos não cobertos pela Pintec, como os de energia e construção civil. Outra mudança será contabilizar os dispêndios das secretarias de Ciência e Tecnologia dos municípios.

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especial especial

Prêmio Inovar para Crescer destaca aperfeiçoamentos que fazem a diferença .

I

novar: tornar novo, renovar; introduzir novidade em algo. Essa é a definição do dicionário Aurélio para um dos termos mais usados da atualidade. Porém, ela passa uma noção bem diferente daquela que vem se cristalizando no imaginário social, referenciado nas descobertas revolucionárias de gênios criativos. É para difundir o conceito de inovação como atividade incremental que o Prêmio Inovar para Crescer presta homenagem a empresas que fizeram do aperfeiçoamento constante de produtos e processos um fator de competitividade. A premiação será realizada em uma cerimônia no Dia da Inovação, em 19 de outubro, antecipando o IX Encontro Nacional da Inovação Tecnológica (Enitec). Oferecido pela Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica (Protec) em parceria com o Senai, o Prêmio Inovar para Crescer ganhou novos nomes para algumas de suas categorias. Grande Empresa se tornou Visão; Média Empresa, Estratégia; e Pequena Empresa, Revelação. “Com a novidade, buscamos valorizar a visão de futuro de companhias hoje consolidadas, a estratégia consistente daquelas que inovaram para

conseguir crescer e a disposição para inovar, apesar das dificuldades, revelada pelas jovens empresas”, explica o gerente Comercial e de Marketing da Protec, Alexandre Nicolsky. Escolhida para a categoria Revelação, a Nibtec – hoje Giga Security – desenvolve e fabrica produtos para segurança eletrônica, como leitores para controle de acesso por radiofrequência e biométricos. “É com grande honra e felicidade que recebemos da Protec o reconhecimento de um ideal que nosso time sempre buscou: o ideal de fabricação competitiva nacional de produtos de alta

tecnologia e valor agregado para atender demandas de mercado”, declara Bruno Gouvea, diretor do Grupo Giga, do qual a empresa faz parte.

. Fortalecimento da imagem institucional O laboratório farmacêutico Cristália foi contemplado com o Prêmio em 2009. Para o presidente da empresa, Ogari Pacheco, o reconhecimento formal contribuiu para colocar o Cristália na vitrine do setor. “Fortalecemos nossa imagem institucional, o que ajudou na contratação de novos talentos e motivou empresas transnacionais a buscarem nossa

Conheça as empresas que serão premiadas Visão:

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Estratégia:

Revelação:

Embraer

Altus Sistemas de Informática

Nibtec

No mercado há mais de 40 anos, já produziu cerca de 5 mil aviões, que operam em 88 países. Seu portfólio revela a inovação permanente. Em 1999, se destacou ao lançar uma aeronave de médio porte para rotas regionais, um mercado até então não explorado. Em seu Centro de Realidade Virtual, realiza simulações para configuração de novas aeronaves e reduz o tempo de desenvolvimento dos produtos.

É líder nacional no uso de tecnologia própria no setor de automação e controle de processos industriais. Foi pioneira no desenvolvimento e fabricação de controladores programáveis na América Latina. A Altus possui matriz no Polo de Informática de São Leopoldo (RS), nove filiais no Brasil e operações na Alemanha, Argentina, Chile e Estados Unidos. Participa de redes mundiais de empresas que se unem para oferecer soluções globais e produtos inovadores para seus clientes.

Incorporada pelo Grupo Giga em 2008, a empresa passou a se chamar Giga Security e se destaca no mercado de segurança eletrônica. Desenvolveu tecnologias de identificação por radiofrequência e biometria cujo retorno permitiu aumentar os investimentos em P&D. A escolha da empresa também pretende homenagear o polo tecnológico de eletroeletrônicos de Santa Rita de Sapucaí (MG), conhecido como Vale da Eletrônica.

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Foto: Divulgação Grupo Giga

especial

Recebemos da Protec o reconhecimento de um ideal: a fabricação nacional competitiva de produtos de alta tecnologia e valor agregado, voltados para o mercado

Personalidade Inovadora:

parceria. Muitos pesquisadores tiveram a iniciativa de nos apresentar projetos, ao mesmo tempo em que o relacionamento universidade-empresa foi facilitado”, conta. “Ações como essa retroalimentam o espírito de pesquisa e inovação que existe em nossa empresa”, acrescenta. Na avaliação de Rafael Lucchesi, diretor de Operações da Confederação Nacional da Indústria (CNI) – instituição apoiadora do Prêmio –, a inovação está mais presente na rotina das empresas do que as descobertas. Porém, em muitos casos, esses processos não são notados. Para ele, o prêmio Inovar para Crescer contribui para despertar essa percepção entre as companhias, na medida em que rastreia as melhores práticas do setor produtivo, documenta casos de sucesso e difunde as informações. “Se as empresas conseguirem identificar o conjunto de atividades de inovação que já fazem e adotarem uma

Bruno Gouvea abordagem mais técnica, aumentarão sua produtividade. Ganharão velocidade na condução de ações permanentes, com resultados mais consistentes, criando um ciclo virtuoso no ambiente de negócio”, defende Lucchesi, pontuando outro papel importante exercido pelo Prêmio. “Ao se lançar luz sobre o que vem sendo feito pelo empresariado, é possível cobrar maior efetividade das políticas públicas. Por isso, a CNI é parceira da Protec desde sua instituição. Acreditamos no prêmio e na entidade”, declara. “O reconhecimento da atuação destacada das empresas conforme os requisitos do Prêmio Inovar para Crescer é um importante estímulo à adoção da inovação no ambiente empresarial”, finaliza o diretor-geral do Departamento Nacional do Senai, José Manuel de Aguiar Martins.

Um dia dedicado à inovação

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Dia da Inovação passou a ser oficialmente celebrado em 19 de outubro a partir deste ano, com a sanção da Lei 12.193/2010 – uma sugestão encaminhada pela Protec para o Congresso Nacional em 2002. A intenção é valorizar a perseverança dos inovadores em busca da introdução sistemática de novidades em produtos ou processos, em vez das descobertas complexas, onerosas e de alto risco tecnológico. A data escolhida foi quando Alberto Santos Dumont, brasileiro conhecido como Pai da Aviação, circundou pela primeira vez a Torre Eiffel, em seu dirigível nº 6, no ano de 1901. O feito só foi possível graças a uma série de inovações anteriores. Em 1900, o magnata do petróleo Henry Deutsch ofereceu um prêmio de 100 mil francos a quem partisse de Saint Cloud e, sem tocar na terra, contornasse a Torre Eiffel e regressasse ao ponto de partida em até 30 minutos. Dumont aperfeiçoou seu dirigível nº 4 para diminuir o peso da estrutura. Após testá-lo e melhorá-lo, desenvolveu o nº 5, com o qual sofreu dois acidentes. Somente após aperfeiçoar novamente sua máquina conseguiu cumprir o objetivo, vencendo a competição.

Personalidade Inovadora In Memoriam:

Egon João da Silva

Carlos Chiti

O administrador foi um dos três fundadores da fábrica de motores WEG, na pequena cidade catarinense de Jaraguá do Sul. Desde o início, em 1961, Silva criou na empresa a cultura da inovação, em um cenário em que a proteção do mercado interno por meio de barreiras alfandegárias desestimulava o investimento em tecnologias locais. A postura garantiu a sobrevivência e o crescimento da WEG do período de abertura comercial até hoje.

Inovador e empreendedor por natureza, Carlos Chiti foi co-fundador e presidente do Conselho Consultivo das Indústrias Romi, empresa produtora de máquinas a que se dedicou durante 80 anos. Italiano de nascimento, foi quem propôs a fabricação do veículo italiano Romi Isetta, que se tornou o primeiro a ser produzido integralmente no Brasil, na década de 50. Entre os legados deixados por Chiti, está o perfil inovador assumido pela Romi, que possui mais de 60 patentes.

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entrevista Entrevista

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Richard Macret

Entre o radical e o incremental, Rhodia segue na rota da inovação para o mercado Foto: José Carlos Brasil / Divulgação Rhodia

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o carro, no creme dental, nas roupas, no xampú e até nos alimentos, ela está presente. Empresa mundial de química de especialidades, a Rhodia investe 1% de seu faturamento no Brasil (algo em torno de R$ 27 milhões) em pesquisa e desenvolvimento (P&D) para fornecer insumos inovadores para setores que vão desde o agroquímico até o eletroeletrônico. Em seu centro de pesquisa em Paulínia (SP) – um dos cinco que mantém no mundo –, possui 50 projetos em andamento, com mais de 100 profissionais ao todo. Entre as linhas de pesquisa, estão os produtos químicos de origem renovável, como a glicerina, e fios têxteis com funcionalidades, por exemplo proteção contra raios UV e eliminação do mau cheiro do suor. Apesar da superestrutura, a Rhodia aposta no equilíbrio entre projetos de alto risco e de baixo risco, como os de novos usos para produtos já existentes. É o caso da sílica para pneus que foi adaptada para aplicação em ração para frangos. O portfólio da empresa está longe de focar apenas em novos produtos de altíssima tecnologia, como muitos poderiam pensar. Mais importante para a Rhodia é a sustentabilidade financeira e ambiental da inovação, como conta o diretor de P&D da Rhodia América Latina, Richard Macret, que também analisa os mecanismos brasileiros de incentivo à inovação, um dos temas do IX Encontro Nacional da Inova-ção Tecnológica (Enitec). Quem confirma o sucesso da fórmula de inovação da Rhodia é o mercado. Não à toa a empresa faturou US$ 1,03 bilhões no País em 2009.

Pró-Inovação em Revista - Ano I - nº 3 - setembro/outubro 2010


entrevista

Entrevista

Quem diz se o produto é uma ruptura ou não é o mercado. Você pode criar um produto de altíssima tecnologia e ninguém se interessar

Como funciona o sistema para redução de risco de projetos inovadores? R. M.: Uma coisa é o risco do projeto e outra é o do portfólio de projetos. Em cada projeto, há uma ferramenta de análise de riscos. Verificamos desde a possibilidade de a planta explodir até a ocorrência de efeitos ruins na natureza ou de o produto ficar caro demais para o mercado. É uma análise simples: qual é a

probabilidade do risco e o impacto financeiro? Se forem altos, o projeto não vai para frente. Fazemos essa avaliação em todas as etapas de desenvolvimento. Em cada uma, temos mais informações para avaliar melhor e decidir. Enquanto não eliminamos os riscos, o projeto não anda. Apesar de simples, a análise é fundamental para não desperdiçarmos nem recursos, nem uma ideia que pode trazer muito retorno. E quanto ao portfólio de projetos? R. M.: Quanto mais o projeto for de ruptura tecnológica, maior será o risco. Procuramos ter um portfólio balanceado de projetos de alto risco e de baixo risco. O resultado que vale para a empresa é o do portfólio. Cerca de 20% dos projetos de inovação chegam ao final. Porém, o mais importante é ver a qualidade desse percentual. Não adianta termos 70% de desenvolvimentos realizados e as vendas serem péssimas.

Para medir a performance de P&D, calculamos o percentual de faturamento obtido com produtos criados há menos de cinco anos

Como está estruturado o sistema de inovação da Rhodia no Brasil? Richard Macret: Recebemos demandas internas ou de clientes e tentamos transformá-las em algo que gere dinheiro para a empresa. Existe uma planilha com vários critérios para avaliá-las e selecioná-las: o mercado potencial; o tempo necessário para o desenvolvimento; a probabilidade de sucesso; se vai ser algo totalmente inovador que precise de parceiros externos e assim por diante. Do início ao fim, toda a empresa é envolvida no processo de inovação. Por exemplo, para avaliar o mercado, entra a equipe de Marketing. Não é o pessoal de pesquisa e desenvolvimento que tem como saber quanto o mercado está disposto a pagar por um produto. Depois da seleção, as ideias viram projetos de P&D, que são de diferentes tipos. Um deles é o de novos produtos. Outro é o de aplicação, em que pensamos novos usos para um produto existente. Um terceiro tipo de trabalho são estudos de processo de produção, por exemplo, pensar como a fábrica vai gastar menos energia. Na Rhodia, qualquer inovação que não tenha foco na sustentabilidade é vetada. Logo no início do processo, perguntamos: o produto é tóxico? Esse processo será mais poluente?

que melhora a circulação. Quando começamos a desenvolvê-lo, não investiríamos em um laboratório para realizar os testes. Então, fazemos parcerias com instituições que saibam o que fazer e tenham reconhecimento no mercado, pois respeitabilidade é importante para o cliente.

. Então o investimento maior da Rhodia é na inovação, ou seja, no aperfeiçoamento de produtos, e não na ruptura tecnológica? R. M.: A ruptura não está na dificuldade em fazer o produto, mas em seu beneficio. Em nossa visão interna, quem diz se é ruptura ou não é o mercado. Você pode criar um produto complicado, com anos de desenvolvimento, altíssima tecnologia e ninguém se interessar. Conside-ramos produto novo aquele que o cliente reconhecer como novo e estiver disposto a pagar mais por ele. Como a empresa verifica o retorno do investimento feito no desenvolvimento de produtos? R. M.: Para medir a performance de P&D, calculamos o percentual de faturamento obtido com produtos criados há menos de cinco anos dentro do total de vendas. Fazemos hoje de 20% a 30%, mas gostaríamos de chegar a 50%. A Rhodia desenvolve produtos em parceria? R. M.: Temos projetos realizados no laboratório do cliente e outros em parceria com universidades, neste caso em fase inicial de laboratório, buscando competências que ajudam a acelerar o processo. Por exemplo, o fio de poliamida

Por que a escolha do Brasil como um dos cinco centros de P&D no mundo? R. M.: Não fazemos pesquisa básica. A política da Rhodia de P&D está baseada no que o mercado demanda, então precisamos estar próximos dele e ver as oportunidades. O Brasil é responsável pela P&D da América Latina. Então, viajamos muito para Argentina, Peru, México e outros países da região.

. Como o senhor avalia as políticas públicas de fomento à inovação? R. M.: Avançou muito nos últimos anos. A Lei do Bem representa um grande avanço, porém é nova e precisa melhorar. Ela tem uma insegurança jurídica grande, como o entendimento quanto à depreciação ser despesa de P&D ou não. A compra de máquina é investimento, mas deprecia com o tempo. Então, há empresa que inclui na dedução do imposto, outras que não. Alguns aspectos não estão claros e ficamos sem saber o que fazer. Nos editais da Finep [Financiadora de Estudos e Projetos], é difícil de conseguirmos entrar, pois os tópicos definidos para os projetos são muito específicos. Nossa posição é que deveriam ser itens mais abertos. Já na parceria com as universidades, ainda há burocracia, mas elas estão bem mais abertas às empresas que anos trás.

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espaço rets

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Resultados da atuação em rede no Enitec Associados da Rets

O IX Encontro Nacional da Inovação Tecnológica (Enitec) reunirá as Entidades Tecnológicas Setoriais (ETS) para discutirem, junto a agências de fomento e governo, as políticas públicas para a inovação tecnológica nas empresas brasileiras, além de proporem mudanças necessárias. Representantes de ETS contam os resultados já obtidos por suas organizações a partir da participação em eventos anteriores: Foto: Antonio Batalha / Divulgação Abifina

“O Enitec tem contribuído para a cristalização de conceitos e formação de opinião, inclusive entre aqueles que irão implantar as sugestões apresentadas. Em uma das edições do evento, Eduardo Costa, diretor do laboratório público Farmanguinhos, assumiu o primeiro compromisso formal em priorizar os fabricantes nacionais de fármacos nas compras públicas. Isso se consolidou na contratação de empresas locais para a fabricação dos antiretrovirais lamivudina e zidovudina. O resultado da licitação chegou a ser contestado na Justiça, que deu ganho de causa a Farmanguinhos. A vitória deu a segurança jurídica preliminar necessária para incentivar o Ministério da Saúde a criar o marco regulatório do Complexo Industrial da Saúde em 2008.”

Nelson Brasil de Oliveira

1º Vice-Presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Química Fina, Biotecnologia e suas Especialidades (Abifina)

Abendi – Associação Brasileira de Ensaios Não Destrutivos e Inspeção Abifina - Associação Brasileira das Indústrias de Química Fina, Biotecnologia e suas Especialidades Abimo – Associação Brasileira das Indústrias de Artigos e Equipamentos Médicos e Odontológicos Abiquim – Associação Brasileira da Indústria Química ABM – Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração Abraco – Associação Brasileira de Corrosão Abravest – Associação Brasileira do Vestuário Abripur – Associação Brasileira da Indústria do Poliuretano

“A troca de experiências entre as entidades mostra novas possibilidades. A discussão sobre as ETS passarem a obter recursos do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico] para projeto de interesse dos setores foi pauta de mais de um Enitec. Em 2009, saiu o primeiro edital do CNPq em que as ETS puderam inscrever projetos de inovação. Foi o Edital MCT/CNPq nº 65/2009 - Entidades Setoriais de Apoio a PD&I nas Empresas. A ABTCP inscreveu um projeto para a criação de indicadores de desempenho para pequenas e médias empresas e benchmarking no setor de celulose e papel. Fomos contemplados com uma verba de R$ 350 mil.”

Afonso Moura

Gerente Técnico da Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel (ABTCP)

“Uma grande contribuição do Enitec é a reunião de autoridades e técnicos envolvidos com a formulação de políticas públicas para debaterem as questões que diretamente impactam no desenvolvimento tecnológico da indústria, resultando no avanço e aprimoramento das políticas públicas, além da oferta de linhas e programas de financiamento. Entre alguns dos desdobramentos de Enitecs anteriores, podemos mencionar a flexibilização das condições dos novos editais e a abertura de um importante espaço para discussões com instituições de fomento e organismos ligados ao desenvolvimento de políticas públicas.”

Marina Kobayashi

Coordenadora de Assuntos Econômicos da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec)

ABTCP – Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel CT-Dut - Centro de Tecnologia em Dutos FBTS – Fundação Brasileira de Tecnologia da Soldagem IBTeC – Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefatos IPDEletron – Instituto de Gestão de Pesquisa e Desenvolvimento para a Indústria Elétrica e Eletrônica IPD-Farma – Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento de Fármacos e Produtos Farmacêuticos IPD-Maq - Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Máquinas e Equipamentos ITeB – Instituto Tecnológico da Borracha Itehpec – Instituto de Tecnologia e Estudos de Higiene Pessoal, Perfurmaria e Cosméticos

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Veja o que o Senai pode fazer para sua indústria inovar Serviços técnicos e tecnológicos Assessoria Técnica e Tecnológica Se o problema é a qualidade do produto ou a produtividade da empresa ou instituição, o Senai, por meio de um trabalho de diagnóstico e recomendações, pode detectar e corrigir falhas no campo da gestão, da produção e da execução de serviços. Pesquisa Aplicada Trabalho executado com o objetivo de desenvolver ou aprimorar produtos, processos ou sistemas, utilizando uma ampla rede de laboratórios, centros de informação e de especialistas, com foco na pesquisa de novos conhecimentos ou na compreensão dos já existentes. Design Atividade especializada, de caráter técnico-científico, criativo e artístico, com vistas à concepção e desenvolvimento de projetos de objetos e mensagens visuais que equacionem sistematicamente dados ergonômicos, tecnológicos, econômicos, sociais, culturais e estéticos, com atendimento concreto às necessidades humanas. Serviço laboratorial A Rede Senai de laboratórios oferece serviços de calibração, dosagem, ensaio ou teste de desempenho para qualificação de produtos e processos, preferencialmente fundamentada em normas técnicas ou procedimentos sistematizados. Informação tecnológica Atividade que engloba busca, tratamento, organização e disseminação de informações, possibilitando a solução de necessidades de natureza técnica e tecnológica referente a produtos, serviços e processos, para promover a melhoria contínua da qualidade e a inovação no setor produtivo.

Cursos sob medida Um dos fatores críticos para o sucesso de sua empresa é possuir um quadro de funcionários treinado, qualificado e atualizado. Seja qual for a necessidade de educação profissional de sua indústria, o Senai tem solução para ela. Além dos 1.800 cursos, em 28 áreas industriais, regularmente ministrados nas unidades operacionais do Senai, a organização oferece cursos especialmente desenvolvidos para as necessidades de cada empresa. Com currículos e horários flexíveis, concebidos para atender à demanda específica de cada cliente, os cursos sob medida do Senai representam um forte diferencial para a sua empresa.

Aprendizagem industrial Tão importante para a indústria quanto para a sociedade, a Aprendizagem Industrial está ligada às origens do Senai. Hoje, revitalizada e adequada às novas necessidades do mercado de trabalho, a modalidade também ganhou em flexibilidade e eficácia. Uma das alternativas criadas é a aprendizagem na empresa , promovida nos locais em que não exista escola, curso ou vaga para atender à demanda das indústrias. A aprendizagem na empresa é resultado de uma parceria na qual ambos - Senai e empresa - têm responsabilidades e atribuições bem definidas e negociadas. Criteriosamente planejados, acompanhados, controlados e auditados, os cursos de aprendizagem na empresa representam a possibilidade de unir o cumprimento às leis, o exercício da responsabilidade social e o treinamento de futuros trabalhadores.

Consulte o Senai mais próximo e informe-se

REVISTA PRÓ INOVAÇÃO - EDIÇAÕ 03  

INOVAÇÃO SOB MEDIDA - COMO A AVALIAÇÃO DE RESULTADOS CONTRIBUI PARA AJUSTAR AS POLÍTICAS PÚBLICAS A MODELOS MAIS EFICIENTES.

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