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Polêmica envolve moradores de rua e a População do Coração Eucarístico, que reclama do comportamento dos mesmos. Pág. 4

ANTONIO ELIZEU

RICARDO MALLACO

MAIARA MONTEIRO

Agentes de saúde fazem vistorias às residências da capital e alertam moradores quanto à necessidade de combate aos focos de dengue. Pág. 13

Lideranças da Vila Sumaré estão preocupadas com o fim do único projeto que atendia a jovens carentes daquela comunidade. Pág.12

marco jornal

Ano 37 • Edição 264 LaboratóriodeJornalismodaFaculdadedeComunicaçãoeArtesdaPucMinas•LaboratóriodeJornalismodaFaculdadedeComunicaçãoeArtesdaPucMinas•LaboratóriodeJornalismodaFaculdadedeComunicaçãoeArtesdaPucMinas

Março • 2009

O BRASIL QUE O POVO ESCOLHEU ARQUIVO JORNAL MARCO

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Moradores ainda lamentam estragos provocados pela chuva do reveillon Estragos causados por forte enchente, que ocorreu no último dia de 2008, ainda são lembrados por moradores e comerciantes do Bair ro Coração Eucarístico, na Região Nordeste de Belo Horizonte. Pessoas como Paulo Morais (foto), proproprietário de uma concessionária do bairro, tomaram providências com o objetivo de evitar que os temporais possam acarretar novos prejuízos. O medo de que ocorra uma nova tempestade, entretanto, ainda faz parte do cotidiano dessas pessoas. Página 3

O movimento pela redemocratização do país, conhecido como Diretas Já, completa bodas de prata. A comemoração dos 25 anos é oportunidade para se relembrar detalhes de um dos principais eventos de mobilização de massa já visto no Brasil. As principais capitais brasileiras tornaram-se palco de grandes comícios, que se transformaram em verdadeiras festas cívicas. A

campanha, que ultrapassou divergências partidárias e envolveu diferentes setores da sociedade, reuniu personalidades como Tancredo Neves, Milton Nascimento e Fernando Brant(foto). Mas, como ressalta o jornalista Ricardo Kotscho, ex-secretário de imprensa do presidente Lula, o povo foi protagonista. “O povo mudou a história do Brasil”. Páginas 8 e 9

Construção da rodoviária Crise mundial depende de estudos técnicos traz de volta brasileiros que estavam fora

MAIARA MONTEIRO

MAIARA MONTEIRO

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O prefeito Marcio Lacerda está aguardando um novo estudo realizado pela consultoria Macroplan, juntamente com a BHTrans, que avalia os impactos sobre a região da construção da nova rodoviária no Bairro Calafate

ou a viabilidade da manutenção do terminal rodoviário no hipercentro de Belo Horizonte. Antes de decidir sobre o assunto, ele quer obter “dados técnicos confiáveis” e conversar com a população local. Página15

Estudantes brasileiros que estavam na América do Norte a trabalho, por meio de programas de intercâmbio, foram obrigados a retornar ao país antes do planejado devido à crise econômica mundial. As consequências da crise, que prejudicaram os intercambistas, foram a diminuição das horas de trabalho e a falta de oferta de empregos para a quantidade de estrangeiros que estavam no local. Jovens de diversos estados do Brasil viviam a espectativa de ganhar dinheiro trabalhando durante o período de férias, em diferentes ramos. Apesar dos problemas, a procura por esses programas ainda existe. Página 16


2 Comunidade

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Março • 2009

EDITORIAL

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Participação popular é indispensável para superar desafios n MARCELO COELHO DA FONSECA,

PREFEITO SE REÚNE COM LÍDERES COMUNITÁRIOS Marcio Lacerda participou de encontro no Bairro Padre Eustáquio para ouvir as demandas da população da Região Noroeste ISABELLA LACERDA

n ISABELLA LACERDA, LAURA SANDERS,

5º PERÍODO

Resolver os problemas de uma metrópole exige planejamento correto e ações eficientes. É um trabalho que envolve, além dos principais governantes municipais, toda a estrutura de organização das regionais e associações de bairro, além dos demais representantes da chamada sociedade civil. É preciso um diálogo constante para buscar soluções que beneficiem o maior número de cidadãos, uma vez que, pela variedade das questões, sempre terão opiniões e propostas deixadas de lado. A nova administração municipal, que teve início em janeiro deste ano, terá pela frente muitos desafios, como por exemplo, a transferência da rodoviária para o Bairro Calafate, assunto que ainda se encontra longe de uma decisão e será debatido, de acordo com compromisso do prefeito Márcio Lacerda, com a participação das lideranças da região. As enchentes na cidade decorrentes das chuvas dos últimos meses também é outro problema a ser enfrentado pela prefeitura. Além das indenizações e auxílios para os afetados, os prejuízos e transtornos demandam uma ação preventiva mais eficiente, para que não se repitam no futuro. A dengue é um desafio que ficou como legado para o governo atual. São fundamentais esforços para divulgar as medidas necessárias para evitar a proliferação do mosquito vetor, fiscalizar as condições dos locais que possuem altos índices de ocorrência e, principalmente, conscientizar a população da necessidade de uma vigilância permanente, com objetivo de impedir o desenvolvimento de epidemias no futuro. Em sua primeira edição de 2009, o MARCO publica matérias que mostram essa movimentação da nova administração municipal e das lideranças comunitárias, que reivindicam mais voz na interlocução com a prefeitura. O diálogo entre sociedade e seus representantes é o caminho para alcançar mudanças desejadas e estabelecer base de cidadania para toda a população. Além de dar espaço à mobilização da comunidade no presente, para que o futuro da capital seja melhor para todos, o nosso jornal lembra de um movimento, que se tornou símbolo da união da sociedade em torno de um objetivo. Em 2009, o movimento que ficou conhecido como “Diretas Já” completa 25 anos e virou reportagem de página dupla nesta edição. Marco na história do Brasil, a campanha iniciou a trajetória democrática que vem se aperfeiçoando ao longo dos anos. A matéria tráz o ponto de vista de especialistas e pessoas que viveram o dia a dia do conturbado período, que, infelizmente, como demonstra recente pesquisa do Instituto Datafolha, não é conhecido ou lembrado por grande parte da população brasileira. A cobertura do movimento pela imprensa foi fundamental para a formação da opinião pública, através de enfoques variados que iam das grandes manifestações populares às ações dos políticos, nos bastidores, criando uma maior identidade de alguns veículos com a população. Recordar, 25 anos depois, este momento rico da história, é contribuir para o fortalecimento da democracia em nosso país.

EXPEDIENTE

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jornal marco Jornal Laboratório da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas www.pucminas.br . e-mail: jornalmarco@pucminas.br Rua Dom José Gaspar, 500 . CEP 30.535-610 Bairro Coração Eucarístico Belo Horizonte Minas Gerais Tel: (31)3319-4920 Sucursal PucMinas São Gabriel: Rua Walter Ianni, 255 CEP 31.980-110 Bairro São Gabriel Belo Horizonte MG Tel:(31)3439-5286 Diretora da Faculdade de Comunicação e Artes: Profª. Ivone de Lourdes Oliveira Chefe de Departamento: Profª. Glória Gomide Coordenador do Curso de Jornalismo: Profa. Maria Libia Araújo Barbosa Coordenadora do Curso de Comunicação / São Gabriel: Profª. Daniela Serra Editor: Prof. Fernando Lacerda Subeditor: Profa. Maria Libia Araújo Barbosa Editor Gráfico: Prof. José Maria de Morais Editor de Fotografia: Prof. Eugênio Sávio Monitores de Jornalismo: Laura Sanders, Isabella Lacerda, Camila Lam, Aline Scarponi, Diana Friche, Bianca Araújo (São Gabriel) Monitores de Fotografia: Barbara Dutra e Maiara Monteiro Monitor de Diagramação: Marcelo Coelho Fotolito e Impressão: Fumarc . Tiragem: 12.000 exemplares

3º E 5º PERÍODOS

“Queremos manter e aprofundar um modelo próximo das lideranças comunitárias”, foi o que afirmou o prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda, em reunião com as lideranças comunitárias da Região Noroeste, em fevereiro último, na Associação Social Padre Eustáquio (Aspe). Esse foi um dos nove encontros que aconteceram em todas as regionais da capital , dentro do programa “O Prefeito na Regional”. Segundo ele, essas reuniões visam manter e aprofundar o modelo de gestão do exprefeito Fernando Pimentel. Marcio Lacerda destacou a importância de diversas formas de diálogo entre a prefeitura e a população, entre elas, os orçamentos participativos, fóruns e conselhos, que, segundo ele, são uma oportunidade dos cidadãos exercerem seus direitos. Além disso, o prefeito afirmou que pretende estar de quatro a cinco vezes por ano, um dia inteiro, reunido com as lideranças comunitárias de cada regional com o intuito de valorizar e utilizar realmente esses instrumentos de participação. De acordo com Marcio Lacerda, o papel de cada regional também será reforçado e as secretarias devem ficar mais próximas da população, buscando uma gestão mais ágil e eficiente. O prefeito também salientou a necessidade de haver uma integração entre as cidades da região metropolitana. “Nós não podemos olhar Belo Horizonte isoladamente”, destacou. Durante a reunião, que, segundo a Regional Noroeste, contou

Em reunião no Bairro Padre Eustáquio, Marcio Lacerda ouve propostas de líderes comunitários da Região Noroeste com a participação de 600 pessoas, os representantes da comunidade tiveram oportunidade de questionar o prefeito quanto aos problemas dos seus respectivos bairros. As principais dúvidas foram referentes aos atendimentos nas áreas de saúde, educação, trasporte, moradia, políticas sociais e obras em andamento. O também presente, secretário de Administração da Regional Noroeste, Ajalmar José da Silva, enumerou os obras em andamento ou programadas para região, dentre elas a urbanização da Vila Senhor dos Passos, construção da sede do posto de saúde Dom Cabral e a construção de um teatro municipal. Além do prefeito, estavam presentes vereadores como Geraldo

Félix, e secretários de governo da atual gestão de Marcio Lacerda, como Marcelo Teixeira, da saúde, além do vice-prefeito Roberto Carvalho, que foram responsáveis por responder os questionamentos da comunidade. LIDERANÇAS Para a líder comunitária da Vila Sumaré, Rosimeire Pinto, a participação do prefeito Marcio Lacerda na reunião da Regional Noroeste foi apenas simbólica. “A gente queria muito que abrisse um canal direto. Foi mais para inglês ver”, afirma. Na reunião do dia 12, a moradora teve a oportunidade de fazer uma reivindicação a respeito do fim do projeto Agente Jovem da Vila Sumaré. Ela alegou que o projeto social era a única

alternativa para os jovens da comunidade que estão na faixa etária dos 15 aos 20 anos (leia matéria sobre o assunto na página 12 desta edição). Para o líder Alexandre Tadeu, da Vila Sumaré, a reunião com o prefeito e seus secretários de governo foi boa à primeira vista, mas afirmou que ainda está esperando respostas para suas reivindicações. Ele está insatisfeito com a situação da obra de urbanização da vila que foi aprovada pelo Orçamento Participativo, mas não foi concluída. “A obra teria duração de oito meses mas tem um ano e nada. Lá está tudo aberto, é em uma área de risco, um perigo para as crianças que ficam brincando nas lajes demolidas”, conta.

Quadra do Dom Cabral oferece risco para moradores do bairro MAIARA MONTEIRO

n MARIANA CÁSSIA SANTOS, SARA CHRISTINA BRAGA LIRA, 2º E 3º PERÍODOS

Pisos esburacados, grades quebradas, traves enferrujadas e sem rede, holofotes queimados e pouca segurança. Este é o cenário encontrado na quadra da Praça da Comunidade, no Dom Cabral. Moradores reclamam desde 2008 da situação de abandono do seu patrimônio, por meio da Associação de Moradores do Bairro, que já acionou a Prefeitura de Belo Horizonte para pedir os reparos. De acordo com Andréia Alves de Oliveira, assistente social e moradora do Dom Cabral, a alegação oficial é de falta de verba para a manutenção do local. “O problema maior da quadra e da praça é o abandono. Lá está cheio de buracos e depredado, colocando em risco as atividades físicas e de lazer dos moradores. As grades de proteção já caíram, por isso quando há crianças e idosos passando, ficam desprotegidos das bolas” afirma Andréia. “A associação já pediu a troca, mas a prefeitu-

ra não realizou isso ainda” completa. A atendente Maria Dolores Moreira de Jesus, 38 anos, sabe bem o que é isso. Há dois anos, quando estava grávida, quase levou uma bolada na barriga enquanto passava por lá, pela falta da grade de proteção. Um dos problemas mais recorrentes é a sujeira do local. “Já vi até escorpiões saindo do lugar onde era o vestiário” conta Maria Dolores, que já chegou a organizar uma reunião com a Associação de Moradores para eles próprios tentarem solucionar o problema. “A prefeitura vem limpar de dois em dois meses e mesmo assim, superficialmente. Só isso não basta”, conclui. Além disso, a insegurança impede que alguns moradores possam usufruir da quadra. Segundo moradores, o local se tornou ponto de drogas, intimidando transeuntes e frequentadores. Falta iluminação – já que os holofotes estão danificados. Por causa da insegurança, algumas mães impedem que seus filhos frequentem a quadra”. As mães dos meus amigos

Desde o ano passado, moradores reivindicam reformas na quadra não deixam mais que eles venham brincar aqui por causa desses meninos que ficam usando drogas”, diz o estudante Luiz Sérgio Faria da Silva, 13 anos. Segundo Maria Dolores, a praça e a quadra não têm vigilância policial e nem conta com guardas municipais, o que favorece tais práticas e colocam os moradores numa situação desconfortável. “Tem uma turma que joga futebol aos domingos, mas ninguém quer vir para a quadra devido à falta de segurança”, comenta. Dentre todas as formas de

abandono sofridas pelo local os moradores consideram esta a mais urgente. Segundo o gerente de eventos e esporte da Regional Noroeste, Miguel da Cruz Filho, a dificuldade do local já foi identificada e um levantamento geral de custo foi feito, mas falta a liberação de recursos da prefeitura. Ele conta que a idéia é criar uma comissão de moradores locais que irá ajudar na preservação do espaço, quando ele for revitalizado. Para participar da comissão é só se inscrever na Regional Noroeste.


Comunidade Março • 2009

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O QUE FICOU DEPOIS DA ENCHENTE Após estragos causados pela forte chuva da noite de 31 de dezembro, comerciantes do Bairro Coração Eucarístico buscam formas de se proteger e reconstruir o que foi atingido MAIARA MONTEIRO

n DIANA FRICHE, ISABELLA LACERDA,

cado de trabalho. “Elas vem para cá, conversam e produzem trabalhos com fuxico, bordados e materiais recicláveis”, explica Fátima Baião, coordenadora do projeto e servidora pública. Segundo ela, mesmo não tendo perdido a produção, que se encontrava na igreja devido a um bazar que havia ocorrido poucos dias antes do acontecido, o grupo só pôde voltar a se reunir no dia 2 de fevereiro, quando conseguiram limpar e pintar a sala de reunião. “As pessoas que dependiam da renda com esse artesanato ficaram muito prejudicadas”, lamenta.

4º E 3º PERÍODOS

“Ficamos sempre com medo de acontecer de novo”, conta Paulo Morais, proprietário da concessionária Camapuã Veículos, localizada na esquina das ruas Dom José Antônio Santos com Dom Prudêncio Gomes, no Bairro Coração Eucarístico, Região Noroeste da capital. O estabelecimento, assim como diversas lojas e residências vizinhas, foi um dos atingidos por uma forte chuva na noite de 31 de dezembro de 2008, que teve como consequência uma enchente que chegou a alcançar 1,40 metro de altura. Três meses depois, pessoas atingidas tentam reconstruir suas vidas após os estragos feitos pela água, que fizeram com que o ano de 2009 já começasse com muitas dívidas. Paulo Morais conta que estava viajando para o interior de Minas quando foi avisado do incidente por José Calixto Neto, morador da rua onde fica sua concessionária. “Liguei para as pessoas da agência de carros, mas não tinha como elas chegarem até aqui”, relembra. O comerciante comenta que já no dia 1º de janeiro, com a ajuda de amigos, começou a trabalhar para reconstruir parte dos estragos. Segundo Paulo Morais, o prejuízo calculado inicialmente era em torno de R$ 50 mil, só para o conserto dos carros, além de mais de R$10 mil com computadores e geladeiras. “O prejuízo maior é o lucro cessante, pois ficamos em janeiro sem trabalhar”, diz. A agência voltou a trabalhar normalmente somente a partir da segunda semana de fevereiro. “Além de tudo, ainda tem o dano moral”, completa. Ele ainda ressalta que tem vontade de

A vendedora da loja Ora Bolas, Lucinéia Ferreira, afirma que a solução encontrada foi reduzir o preço dos brinquedos transferir seu imóvel para outro local. “Muitos vizinhos desistiram de continuar morando aqui, mas eu não posso simplesmente me mudar daqui. Isso aqui é meu, não posso perder o imóvel”, justifica. Para voltar a funcionar, o estabelecimento de Paulo necessitou passar por reformas, além da instalação de novas barreiras para evitar os problemas com as enchentes. “Tinha duas opções: ou levantávamos o muro e fechávamos a visão dos carros aqui dentro ou colocávamos vidro, que parece que sustenta a força da água”, explica. De acordo com Paulo, a solução escolhida foi a instalação de vidros nas grades da agência. Assim como a concessionária de Paulo, a loja Ora Bolas, localizada à Rua Dom José Antônio dos Santos, no Bairro Coração Eucarístico, também sofreu com o temporal da noite de reveillon. O

dono do estabelecimento, Leonardo Amaral, explica que só ficou sabendo do acontecido no dia 6 de janeiro, já que estava viajando. Esta foi a segunda enchente que atingiu a loja, que funciona no local há um ano. “A água atingiu 1 metro e 10 centímetros e danificou muitas mercadorias”, conta. “Só em mercadorias perdi R$ 20 mil”, calcula. Ele também necessitou de obras para a reabertura do e s t a b e l e c i m e n t o. “ To m e i providências como vedar a vitrine e instalei um dique de contenção para quando a loja está fechada”, conta. A reposição do estoque, de acordo com o comerciante, só será feita em abril, quando há lançamento de brinquedos em São Paulo. “Não repus o estoque porque repor agora é ruim. Não compensa”, acrescenta. De acordo com Lucinéia Ferreira dos Santos, vendedora da loja há dez meses, a

solução imediata encontrada após a reabertura do estabelecimento, em 27 de janeiro, foi a venda de brinquedos a preços reduzidos. “Alguns brinquedos a gente perdeu. Os outros que tiveram as caixas estragadas, estamos vendendo pela metade do preço”, conta. Ela acrescenta que foi necessário um mutirão entre os funcionários para limpar a loja, já que o seguro não cobre esse tipo de acidente. “Tivemos que pintar as paredes, pois ficaram com marcas”, diz. O grupo de mulheres do Projeto Conviver, localizado em um galpão à Rua Dom Joaquim Silvério, nº 111, perdeu com a chuva todo o material usado na produção de artesanato. O projeto, que tem convênio com a Igreja Coração Eucarístico de Jesus, localizada à mesma rua, é formado por 25 mulheres e tem como objetivo gerar renda para quem está fora do mer-

AÇÕES OFICIAIS Paulo Morais afirma que a única atitude legal que tomou foi entrar com um pedido de isenção do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), ainda sem resposta. “Não procurei a Prefeitura, pois divulgaram na imprensa que só as pessoas físicas receberiam indenização”, alega. Dessa forma, o proprietário arcou com os prejuízos, uma vez que a seguradora não se responsabiliza por fenômenos naturais, como a chuva. Assim como Paulo Morais, Leonardo Amaral explica que também entrou com um pedido de isenção do IPTU, por meio da Regional da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH). Ele foi informado, no entanto, que somente residências teriam a isenção. “Estou aguardando o parecer da prefeitura sobre esse processo. Sei que só teve isenção quem foi atendido pela defesa civil e uma população mais carente”, conta. “Pelos meus danos a prefeitura não fez nada”, acrescenta. Paulo Morais ainda afirma que entrou em contato com a Associação de Moradores do Bairro Coração Eucarístico, que se prontificou a fazer uma reclamação formal em

nome dos moradores atingidos. “A Associação de Moradores já fez outras reclamações, mas ninguém nunca tomou uma providência”, esclarece. O presidente da entidade, Iraci Firmino da Silva, explica que houve um contato, mas a prefeitura não falou em pagar as vítimas. “Não conheço ninguém que foi atingido pela enchente que conseguiu a indenização”, atesta Firmino. Já a coordenadora do Projeto Conviver, Fátima Baião, afirma não ter entrado em contato com a administração municipal. “Queremos ver com a prefeitura se conseguimos alguma verba para ajudar a reconstruir aqui, mas ninguém da prefeitura nos procurou para ajudar nem nada”, pontua. O prefeito Marcio Lacerda, em entrevista ao MARCO, em fevereiro, garantiu assistência aos desabrigados das chuvas da Avenida Tereza Cristina. “Isso foi bem encaminhado. O pessoal teve uma assistência completa e nós vamos agora distribuir um recurso financeiro para ajudar o pessoal a recompor as suas casas”, afirma o prefeito. Segundo a Assessoria da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), em toda a capital 3000 famílias foram atingidas pela enchente do reveillon e os 660 processos de isenção do IPTU registrados até o dia 3 de março ainda estão em análise. Ainda de acordo com a assessoria, quem não entrou com o recurso, que pode ser requerido tanto por pessoas físicas e jurídicas, tem até 1º de abril para fazer o pedido de isenção na regional da prefeitura do seu bairro e aguardar a análise do processo. De qualquer forma, quem ainda aguarda a resposta deve pagar em dia o IPTU e, caso o processo seja deferido, receberá a restituição do imposto.

BARBARA DUTRA

Comunidade também arcou com os prejuízos do temporal A advogada Maria José Xavier, 56 anos, é moradora de um edifício à Rua Dom José Antônio Santos. Ela planejava festejar a chegada do ano novo com amigos, em seu apartamento. Mas, a comemoração do reveillon teve que ser desmarcada devido à chuva que ocorreu na noite de 31 de dezembro e que atingiu seu prédio e muitos de seus vizinhos de rua. “Eu não ia sair, mas ia receber visitas. Tive que acabar ligando para elas e desmarcando o jantar. A minha filha, que ia sair para o clube Iate, quase não foi. Acabou indo, mas chegando atrasada”, lembra. Segundo Maria José, a água da chuva entrou no prédio e alagou a garagem, causando danos aos quatro carros que estavam estacionados. “Tive um prejuízo de R$ 1.300 com o carro, por enquanto”, lamenta. Ela conta que até brigar na oficina foi

necessário, uma vez que demorou para ter o carro consertado de volta. “Meu carro foi para o conserto no dia 3 de janeiro e só me devolveram no dia 15 de fevereiro”, desabafa. Maria José ainda explica que o dinheiro gasto no conserto fez com que o começo de ano fosse mais apertado para sua família. “A enchente nos atingiu numa época muito difícil. É a época com mais contas para pagar. Matrícula na faculdade dos filhos, material, IPTU, IPVA, viagem, presentes de Natal”, diz. De acordo com a moradora, em dois anos essa é a segunda vez que enfrenta uma enchente. “Estou até pensando em me mudar, porque quando eu comprei o apartamento não fui avisada desse risco”, revela. Ela conta que, no dia da enchente, os moradores do prédio chegaram a ligar para a defesa civil, mas não con-

seguiram nenhum tipo de ajuda. “Não cogitei entrar em contato com a prefeitura, pois é um trabalho quase perdido. Ninguém está disposto a ficar nas filas da Prefeitura ou anos na Justiça aguardando alguma coisa ser feita. Também não procurei ninguém da associação do bairro”. A moradora do prédio conta que o condomínio teve que arcar com os prejuízos. “O prejuízo do prédio foi com o sistema de alarme. Arrumamos e instalamos em um local onde a enchente não vai afetá-lo novamente”, explica. A água também atingiu uma casa próxima ao prédio onde mora Maria José, à Rua Dom Joaquim Silvério. É onde reside há 35 anos Paulo Henrique Augusto de Queiroz, produtor de eventos. Segundo ele, esta é a segunda vez que a chuva alaga a parte interna de sua residência. A primeira foi em 1981. “O portão empe-

Moradora do bairro há dois anos, Maria José afirma que já pensou em se mudar devido às sucessivas enchentes nou, a TV molhou, perdemos todo o piso, o portão eletrônico estragou”, afirma. Além dos estragos, uma das consequências da umidade causada pela chuva foi o aparecimento de pernilongos. “Agora o que mais tem incomodado são os mosquitos, que aumentaram demais”, conta. O produtor, que mora com sua mãe de 77 anos,

Zilah Queiroz, disse que foi sorte ter alguém em casa, já que assim algumas coisas que estavam no chão foram salvas, assim como seus três cachorros que estavam presos no quintal. “Os cachorros estavam presos no quintal e quase morreram afogados”, relembra. Paulo Henrique afirma que não entrou em contato com a prefeitura,

pois acredita que ela não arcaria seus prejuízos. Maria José ressalta, entretanto, que os prejuízos econômicos se tornam insignificantes quando comparados à perda de vidas. “Só sei que a gente fica feliz, pois não perdemos nenhuma vida, tem coisas que são piores do que isso”, observa a advogada.


4 Comunidade

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Março • 2009

PROBLEMAS COM MORADORES DE RUA Moradores do Bairro Coração Eucarístico reclamam do comportamento da população de rua. Os conflitos se agravam porque muitos mendigos não querem ir para abrigos ou centros de referência RICARDO MALLACO

n GABRIEL DUARTE, LILA GAUDÊNCIO, LÍVIA ALEN,

A rotina daqueles que não tem casa

3º PERÍODO

Drogas, sexo, alcoolismo, sujeira e mau cheiro. Essas são algumas das reclamações dos moradores do Coração Eucarístico em relação à população de rua do bairro. Segundo o presidente da Associação dos Moradores do Coração Eucarístico (Amacor), Iraci Firmino da Silva, há mais de três anos a retirada dessas pessoas é reivindicada à Prefeitura de Belo Horizonte. Em março de 2008, a polêmica foi tema de reportagem do Jornal MARCO e um ano depois, não houve melhora na situação dos moradores de rua, segundo a entidade. Capitão Firmino, como é conhecido, reclama da Regional Noroeste, que, segundo ele, não tem feito muito pelo bairro. “Você formaliza a reclamação, aquilo chega lá na prefeitura e eles nem tomam conhecimento do tema”, explica. Por outro lado, a Secretaria de Assistência Social coloca que o que mantém os mendigos no bairro são as doações, principalmente de dinheiro e alimentos. De acordo com o gerente regional de Políticas Sociais da Regional Noroeste, Marco Cavalcante, no Coração Eucarístico há 15 adultos e três crianças morando nas ruas. A Amacor está preparando um abaixoassinado a favor da remoção dessas pessoas. Entretanto, Capitão Firmino reconhece que as ações a serem efetuadas pelos órgãos responsáveis não podem ser

Muitos mendigos não permanecem em abrigos e continuam nas ruas porque recebem doações de moradores da Região autoritárias e devem respeitar a lei. O presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB, Carlos Victor Muzzi, ressalta que, antigamente, mendigar era considerado crime por vadiagem, porém não é mais. Assim, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) não pode obrigar essas pessoas a saírem das ruas. A representante da Secretaria Adjunta Municipal de Assistência Social, Mônica Tofani, explica que isso não pode ser feito sem que haja um ato, por parte dos mendigos, contrário à legislação municipal, pois fere o direito de ir e vir. “Não estamos na área das ciências exatas, em que dois e dois são quatro. Estamos na área dos direitos humanos”, justifica. As principais queixas dos moradores do Coração Eucarístico são o consumo de

entorpecentes, atentados ao pudor e pequenos delitos, que seriam cometidos pela população de rua - incluindo furto, de acordo com Mônica Tofani. O representante comercial Wander Coutinho, que mora no Coração Eucarístico há 24 anos, à rua Dom Prudêncio Gomes – uma das vias com maior incidência de mendigos, segundo a associação – soma a isso algazarra e sujeira. Ele relata que, junto com vizinhos, já enfrentou os moradores de rua e que, às vezes, é obrigado a agir de forma mais ríspida. Por causa disso, está sendo indiciado pela Justiça. “Já tivemos brigas no meio da rua com eles. Eu me sinto constrangido e vigiado 24 horas por dia”, afirma Coutinho. Ele constata que há dois anos e meio o incômodo se tornou mais frequente e acredita que há traficantes de drogas e ladrões, entre os moradores de rua.

A Secretaria Adjunta de Assistência Social informa que os mendigos podem ser encaminhados aos centros de referência e abrigos. Entretanto, tal medida não surte efeito, já que os moradores de rua recebem doações. “Esse casal que está aqui há anos ganhou um carrinho de um morador do bairro para catar papel. Aí eles não aceitaram os nossos benefícios”, explica a representante da Secretaria Municipal Adjunta de Assistência Social, Sandra Silar. Ela diz que apenas a atuação da equipe de abordagem da PBH não soluciona o problema. “O que ajuda a equipe da prefeitura é o entorno. Sem o entorno não tem jeito”. Os moradores utilizam o medo como justificativa, um impulso - segundo eles para a doação.

“My name is Sandro”. É assim que Sandro Ribeiro da Silva, 38 anos, conhecido como “Zoinho”, morador de rua há 20 anos, se apresenta. Ele, que diz ter cursado até a 5ª série, conta que a mãe era alcoólatra e morreu em decorrência do vício. Por isso, ele foi morar no Bairro Independência, Região Leste da capital, com os primos, mas fugiu de casa por causa das agressões físicas que sofria e, desde então, está na rua. Silva diz que, para ganhar dinheiro, vigia carros nos arredores da PUC e pede esmola. O morador de rua diz que conhece os serviços da Prefeitura. “Já dormi em abrigo – o [Abrigo] São Paulo – mas não dá certo porque mistura muita gente. Dá confusão. Também já fui a um centro de referência no Barro Preto, era perto de um ferro velho. Eu até gostei, ia todas as quartas-feiras tomar banho, mas era perto de um ponto de drogas, meio perigoso”, lembra. Sandro nega problemas com os moradores e, em relação às queixas da comunidade do bairro, diz que “isso é confusão na cabeça deles”.

BEM TRATADO Alexandre Rosa Pereira, 27 anos, morador de rua há três anos no Coração Eucarístico, diz que trabalha no bairro tomando conta de carros, a exemplo de Sandro,

e revela que em média ganha entre R$ 60 e R$ 80 por dia. Ele afirma que tem família em Venda Nova, mas que não volta para a sua casa porque não tem documentos e que leva uma vida melhor fora de casa. Assim, fica nas ruas por opção, segundo ele, motivada pela “vagabundagem” de querer beber muito. Com o dinheiro que ganha, Alexandre Pereira conta que compra alimento e roupas. “Mas também gosto de uma cachacinha”, conta. Ele diz que é bem tratado no bairro, que recebe roupas e alimentos de comerciantes e moradores. Segundo ele, as relações com os moradores do bairro nem sempre, no entanto, são amistosas. “Às vezes eles pensam que nós somos marginais e que só por falarmos em voz alta que estamos atrapalhando eles”, confidencia. Em relação à prefeitura, ele conta que os assistentes sociais estão sempre ajudando, mas que os abrigos para que são levados não são confortáveis. “O pessoal não paga a gente o necessário, aqui às vezes eles pagam o dobro”, afirma. Alexandre conta que para se higienizarem, os moradores de rua utilizam uma torneira da Praça do Coração Eucarístico e tomam banho no local com xampu e sabonetes comprados por eles.

MAIARA MONTEIRO

Bar Itaobim atrai alunos da PUC durante horário de aulas n ANTONIO ELIZEU, DIEGO HENRIQUE ALVES, 4º E 6º PERÍODOS

Funcionando um ano antes da chegada da PUC Minas ao São Gabriel, o Bar Itaobim, mais conhecido como Bim, localizado à Rua Walter Ianni, 248, transformou-se no “point” dos alunos daquele campus, de acordo com definição do estudante de Comunicação Social Integrada, Erlando Martins, 22 anos. O movimento é tanto, especialmente às quintas e sexta-feiras, até a meia-noite, e aos sábados à tarde, que boa parte da rua em frente ao estabelecimento fica lotada pelos frequentadores. Moacir Inácio Pereira, 43 anos, natural de Itaobim, que homenageou a sua cidade natal, no Vale do Jequitinhonha, dando o nome ao bar, chegou em 1996 em Belo Horizonte e há mais de nove anos é proprietário do estabelecimento. Segundo ele, sua clientela é formada em 90% por universitários da PUC Minas São Gabriel. “Graças a Deus está

dando tudo certo aqui”, diz. O comerciante, que reside com sua família em uma casa construída no andar de cima do bar, conta com oito funcionários, além do auxílio da esposa e dos filhos. Moacir Pereira se diz satisfeito com sua clientela e revela que não enfrenta problemas com brigas, confusão. “Eu mexo com universitários, têm uns poucos que dão problemas, mas, enfim, tudo que você vai mexer tem isso”, observa. Os motivos que levam os estudantes a frequentarem o bar são diversos. “É por causa da cerveja”, diz Walquíria Rodrigues, do 7º período de Letras. Já Greyce Castilho, do 5º período do mesmo curso, considera que é pela oportunidade de “interagir com os amigos”. “É uma reunião informal”, emenda Alex Mendonça, também do 5º período, cujo objetivo, de acordo com a colega Carla Garcia é mesmo “para relaxar”. Os quatro estudante de Letras garantem que só freqüentam o bar nos horários vagos e informam que aos sábados, após as aulas, a presença é certa. “O me-

lhor lugar de todos os lugares do São Gabriel é aqui”, afirma Ana Carolina Rossi, 18 anos, do 3º período de Comunicação Social Integrada. “Venho aqui para divertir, ‘zoar’ a galera”, completa Leonardo Costa, estudante do 2º período de Psicologia. Tantos jovens reunidos em um mesmo local desperta a atenção da 16ª Companhia da Polícia Militar de Minas Gerais, instalada à mesma rua. “Não tem problemas generalizados, mas específicos, e a patrulha sempre está presente no local. Devido a estacionamentos irregulares, já ocorreu até forma mais drástica com estudante embriagado”, diz o comandante da Companhia, major Francisco Gomes. Segundo o oficial, a continuar da atual forma os problemas de trânsito serão agravados. Além disso, ele informa que já houve desrespeito ao Código de Posturas do Município. “A prefeitura (Regional Nordeste) já fez várias ocorrências”, conta o major Francisco Gomes, referindo-se à colocação de mesas e cadeiras na via pública, atrapalhando o trânsito. De acordo com a BHTrans,

por meio de sua assessoria de comunicação, a empresa não tem autonomia para atuar neste caso, cabendo à Polícia Militar. Além disso, a BHTrans informa que já entrou em contato com a Regional Nordeste da Prefeitura, solicitando nova fiscalização em função do desrespeito ao Código de Posturas e que acaba afetando o trânsito. “No histórico do Bar Itaobim constam notificações e apreensões, devido à colocação de mesas e cadeiras na via pública, porém, isso no período 2006/2007. Não consta atualmente notificação, o bar tem alvará de funcionamento, está legalizado. As queixas são de música em alto volume após às 22 horas e ocupação da via pública, mas no momento não tem notificação em curso”, revela Júlio César Soares, assessor de comunicação da Regional Nordeste, explicitando uma contradição nas informações. O professor Mário Viggiano, do Curso de Comunicação Social Integrada, revela que já se sentiu prejudicado em função do som em alto volume. Ele cita o exemplo do dia 13 de

O Bar Itaobim é opção de divertmento para os alunos da PUC São Gabriel fevereiro deste ano, uma sextafeira, quando teve afetado o rendimento de sua aula, no horário entre 10h40 e 12h20. Mas ele diz que foi caso isolado. “Eu não sou contra as manifestações relacionadas ao lazer, mas acima de tudo acredito no bom senso. Existem horários em que não há aulas e que ele pode utilizar para fazer os seus eventos”, afirma Viggiano, referindose ao proprietário Moacir Inácio Moreira. “É possível conciliar a diversão com a finalidade maior da universidade, que é o Ensino”, acrescenta. “Nas áreas que são de usos urbanos, espaços democráticos, não há incompatibilidade, a legislação permite o funcionamento do estabelecimento”, explica o

diretor de Graduação da PUC Minas, Cláudio Bahia, professor de Arquitetura Urbanística. “O espaço está fora da universidade e o aluno tem o direito de frequentar”, observa. Carlos Roberto Vieira, 44 anos, vizinho ao bar, diz não se incomodar com o barulho e nem com a grande movimentação do bar. “Não vai até muito tarde e não prejudica em nada o bem estar dos moradores”, salientou. Já o motorista de ônibus da linha 810, Clóvis do Santos, 38 anos, diz que o intenso movimento de pessoas na rua em frente ao bar é prejudicial ao trânsito. “Atrapalha a circulação de veículos, que são obrigados a entrar na contra-mão para poderem passar”, salientou.


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Campus Março • 2009

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BARBARA DUTRA

COMPLEXO DA PUC GANHA ACADEMIA De portas abertas, a academia PUC Minas oferece atividades físicas para a comunidade n BARBARA MIRANDA CAMPOS, BARBARA CAROLINA MARTINS, ALEXANDRE DOLABELLA, MAYKO PEIXOTO DA SILVA, 1º E 3º PERÍODOS

Localizada no Complexo Esportivo da universidade, a Academia PUC Minas se encontra em funcionamento e recebe, diariamente, alunos e moradores do Bairro Coração Eucarístico. Ela oferece, inicialmente, musculação, caminhada e corrida orientadas e, no futuro, deverá aumentar o número de modalidades com a implantação de lutas e ginásticas artísticas e aeróbica. De acordo com o professor Daniel Marangon Duffles Teixeira, responsável pela gestão de esportes da PUC Minas, a implantação das atividades na academia é um processo gradativo. “Demos início com a parte de musculação, alongamentos para os grandes grupos musculares, e corrida e caminhada orientada, para em seguida contemplar outras modalidades como lutas, dança, ginástica artística, spinning, jump, além das atividades aquáticas como a natação”, afirma. Sobre a quantidade de vagas, Daniel informa que num primeiro momento 200 vagas foram disponibilizadas para a musculação e 120 para corrida e caminhada. Cerca de 30% das vagas são destinadas à comunidade do Bairro Coração Eucarístico. Em função da demanda que tem se mostrado alta, pretende-se expandir esse número de vagas em breve. “Nossa meta, é somar um

total de 1.200 vagas para todas as modalidades”, afirma o professor. INSCRIÇÕES Com medo de perder sua vaga na Caminhada Orientada, a pedagoga aposentada Helenita Moreira, moradora do bairro, contou que soube do projeto por meio de sua sobrinha, que é estudante da PUC Minas. “Assim que soube, vim correndo fazer minha inscrição, passei pela avaliação física e venho pela manhã fazer minha caminhada”, afirma. A aposentada diz que se interessou também pela academia “mas já havia até fila de espera”. Já a empresária Solange Alves acompanhou o andamento do projeto pelo site da PUC Minas. Ela conta que conseguiu conciliar seu horário de trabalho com a caminhada, mas sabe de pessoas interessadas em uma extensão da atividade no turno da noite. Além disso, Solange comenta as vantagens de fazer o exercício na pista. “Caminhar na via expressa tornou-se muito perigoso, pois o trânsito é intenso e o espaço pequeno para os pedestres. E aqui ainda há a vantagem de não haver a poluição das ruas”, justifica. HORÁRIOS Segundo Elder Leonardo, auxiliar administrativo do Complexo Esportivo, as aulas de musculação ocorrem no período de 12h às 21h e a corrida e caminhada orientadas, de 7h as 9h; ambas tiveram início no dia 16 de fevereiro último. A proposta é de que

quando tudo estiver organizado os horários das aulas sejam mais flexíveis. “Devido às avaliações médicas e a montagem do plano de exercício que são etapas individuais, a academia ainda encontra-se vazia e isso não permite maior elaboração do quadro de horários”, Elder. A estudante de psicologia e moradora do Coração Eucarístico, Marcelaine Dornelas, 27 anos, diz que não fica sem os exercícios físicos, mas caminhar na Via Expressa está cada vez mais complicado, devido ao perigo do trânsito. Por isso, ela acha vantagem usar as instalações da universidade e destaca a dedicação dos professores e estagiários: “Eles estão sempre acompanhando nossas fichas e orientando sobre postura”, diz. ORIGEM A academia, que comporta cerca de 60 alunos simultaneamente, foi construída com a finalidade de atender a demanda do curso de Educação Física que existe há dois anos. A proposta era reservar um espaço para que os alunos do curso tivessem o contato com a prática nas disciplinas que exigiam a utilização do ambiente. Mas para o professor Marangon, a idéia é instituir uma academia corporativa. “Nosso objetivo é contemplar tanto os alunos dos cursos de educação física e fisioterapia como o público interno, ou seja, alunos de outros cursos”, revela. Entusiasmado com seu primeiro dia , o estudante do curso de física, Lucas

Academia PUC Minas oferece duas modalidades de exercícios físicos e pretende atender futuramente 1.200 pessoas Freitas, 21 anos, aprova o espaço. “A academia oferece infraestrutura de qualidade, os professores e estagiários desempenham um ótimo trabalho. O projeto é excelente para os alunos que tiverem disponibilidade, pois, pelo primeiro dia, já posso afirmar que vale a pena”, diz. Sobre os horários de funcionamento, Lucas avalia que são adequados. “Permitiu que eu pudesse conciliar com meu plano de estudo e o que é melhor: nem preciso me deslocar da minha casa para uma academia em outro horário”, explica. O projeto avalia os alunos com o objetivo de saber em que condição física eles se encontram, quais são seus objetivos com a corrida ou caminhada, para que, desta forma, professores e estagiários da área possam orientá-los corretamente, conta a professora de educação física Elidia Braz, responsável pelo Pro j e t o C a m i n h a d a e Corrida Orientada

Complexo esportivo da PUC tem papel social O complexo esportivo pode ser visto hoje como um diferencial para a PUC Minas, tanto do ponto de vista interno, gerenciando projetos e criando oportunidades para alunos, quanto para a comunidade externa, que também pode utilizar os recursos oferecidos, melhorando sua qualidade de vida, pela prática de esportes ou utilizando somente como lazer. Segundo o professor Daniel Marangon, é “necessário investir e apoiar qualquer projeto que beneficie de alguma forma, alunos, funcionários e o público externo”. A ideia, de

acordo com o responsável pela gestão de esportes da PUC Minas, é que este espaço possa desempenhar sua missão social, sediando projetos destinados às comunidades carentes, ao oferecer, por exemplo, atividades para crianças de creches e aglomerados da região. “Projetos com objetivos como este, têm por finalidade incentivar a qualidade de vida e de bem estar em qualquer classe social”, completa. Além disso, Daniel ressalta que a estrutura do complexo esportivo representa um espaço importante para a prática de estudos e desenvolvimento de pesquisas.

Exposição comemora o bicentenário de Darwin GUSTAVO ANDRADE

n CAMILA VIEIRA, GABRIELA HADDAD, GABRIELE LANZA, MARCELLA BRAFMAM, 1º PERÍODOS

Em função da comemoração dos 200 anos do naturalista Charles Darwin, o estudante do 2º período do curso de História na PUC-Minas, Cláudio Brandão, de 21 anos, incorporou o personagem em foco. Ele participa como guia caracterizado na exposição “Darwin – Bicentenário”, organizada pelo Museu de Ciências Naturais da PUC Minas. Monitor do seu curso e estagiário no museu, Cláudio se diz encantado pelo trabalho e garante que esse era o seu objetivo ao iniciar o curso: trabalhar com a parte pedagógica. Junto com uma equipe, eles criaram encenações para dar vida ao biólogo e impressionar crianças e adolescentes, que são o público-alvo da exposição. Segundo o guia, essas duas gerações reagem à atração de formas diferentes. As crianças ficam muito empolgadas e chegam até a pedir autógrafos a Cláudio ao

Alunos do Colégio Neusa Rocha aproveitam excursão ao museu de Ciências Naturais para aprender sobre Darwin final da apresentação. Já os jovens ficam mais retraídos, mas ele avalia que não deixam de aproveitar a oportunidade de aprendizado. EVOLUÇÃO O objetivo da exposição é ensinar a evolução e mostrar que ela ocorre até hoje, usando uma linguagem apropriada para cada faixa etária e popularizando a ciên-

cia para os estudantes, informou o curador Bruno Kraemer. E essa meta tem sido cumprida, é o que se percebe ao conversar com os alunos do 5º ano do Colégio Neusa Rocha. O aluno Pedro Rios de 9 anos afirma: “Visitar a exposição é mais legal para aprender e para prestar atenção na matéria”. E o aluno Frederico Pereira, de dez anos, acrescenta que gos-

tou de ver os animais e aprender sobre a camuflagem deles, além de achar o método de aprendizagem mais interessante e eficiente. A professora de matemática e ciências, Sílvia Rocha, também aprova o formato. “O estudo prático com a presença de um guia caracterizado contribui para facilitar o estudo e torná-lo mais fácil e interessante”, observa.

OPORTUNIDADE A exposição, inaugurada no dia 12 de fevereiro, estará em exibição nos meses de fevereiro, março e abril, pelo preço de R$ 4,00. O acervo foi cedido pela Secretaria do Estado de Ciência e Tecnologia e Ensino Superior de Minas Gerais e estava no ano passado exposto na “Semana de Ciência do Parque Municipal”, que reuniu vários centros de pesquisa de diferentes instituições do estado. Dentre as atrações da exposição estão, ainda: “O jogo das Borboletas”, “Visita aos Jardins Galápagos”, “Ilustrações de Besouros”, além do roteiro do museu relacionado a Darwin.

QUEM FOI DARWIN? Neste ano comemora-se o bicentenário do nascimento do biólogo inglês Charles Darwin. Ele foi o naturalista responsável pela criação da Teoria da Evolução das Espécies, publicada na sua obra prima “A Origem das Espécies”. Sua teoria foi elaborada durante a viagem a bordo do navio Beagle entre os anos de 1831 a 1836. Foi nessa viagem que o biólogo observou que as espécies se modificavam ao longo do tempo. Assim foi criada a Teoria da Seleção Natural, que afirma que o próprio ambiente seleciona os indivíduos pelas características que os tornam mais aptos à sobrevivência.

À Bordo do Navio Beagle Charles Darwin embarcou em 27 de dezembro de 1831 no navio do governo inglês, o Beagle. A partir dessa viagem deu inicio às suas ideias evolucionistas. Essas surgiram através de minuciosas observações do naturalista acerca da diversidade de fauna e flora dos diferentes locais por onde passou. Vale destacar as ilhas Galápagos, que abrigavam espécies endêmicas que se assemelhavam a outras da América do Sul. Depois do continente sul americano, Darwin continuou sua expedição ao redor do mundo. E assim que retornou à Inglaterra em 1836 foi capaz de explicar a respeito da “Origem das espécies”, nome dado a sua obra.


6 Cultura

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35ª CAMPANHA ATRAI PÚBLICO FIEL AO TEATRO Apesar de grandes estréias, espectadores continuam prestigiando e tornando peças tradicionais um sucesso de bilheteria MAIARA MONTEIRO

n ISABELA MARTINS, NATHIELE LOBATO,

Março • 2009

As peças preferidas da campanha teatral Concluída a 35ª edição, a Campanha de Popularização do Teatro e da Dança de Belo Horizonte atrai cada vez mais espectadores. Exemplo disso é o fato do evento ter reunido mais de 300 mil pessoas em 53 dias de temporada. A tabela abaixo mostra as dez peças de maior bilheteria nesta edição da campanha.

3 º PERÍODO

Mais de 300 mil pessoas prestigiaram os diversos espetáculos proporcionados pela 35ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança. Mesmo com movimentadas estréias, o público manteve-se fiel à peças tradicionais, levando “Acredite, um espírito baixou em mim” a mais um recorde de bilheteria. A 35ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança de Belo Horizonte, que durou pouco mais de dois meses e se encerrou em oito de março, contou com 75 espetáculos de conteúdo adulto, 33 infantis e 8 de dança. Peças veteranas como “Acredite, um espírito baixou em mim”, “Mulheres de Hollanda” e “Como sobreviver a festas e recepções com buffet escasso” continuaram a esgotar ingressos, lotar teatros e fazer sucesso com o público, cada vez mais fiel. O coordenador da campanha e diretor do Sindicato dos Produtores de Artes Cênicas de Minas Gerais (Sinparc), Rômulo Duque, acredita que o constante sucesso de certas peças aos longos dos anos credita-se à produção, elenco e enredo. “Esses trabalhos, além da qualidade artística,

Exibição da peça “Mulheres de Hollanda”, uma das recordistas de público da 35ª Campanha de Popularização

1° Acredite um espírito baixou em mim

37.667

2° Meu tio é tia

18.542

3° 10 maneiras incríveis de destruir seu casamento

17.270

4° As barbeiras

16.232

5° Perigo, mineiros em férias!

14.427

6º Como sobreviver em festas e recepções com Buffet escasso

12.445

7° A virgem de 40 – agora ou nunca

8.864

8° Alfredo virou a mão

8.830

9° Cajú e Totonho em: Vão falar de coisa boa?!

8.475

10° Mulheres de Hollanda

6.208

*Fonte: SINPARC Belo Horizonte

têm elenco de primeira. O texto tange assuntos atuais e de fácil identificação”, afirma Rômulo. “Acredito que, independente de ser comédia ou drama, um bom espetáculo sempre terá um bom público”, completa o administrador. Segundo o balanço final da campanha, divulgado por meio de assessoria de imprensa do Sinparc, 300.608 pessoas assistiram aos espetáculos e 37.667 levaram “Acredite, um espírito baixou em mim”, dirigida por Sandra Pêra e escrita por Ronaldo Ciambroni, ao topo da lista dos mais vistos.

REVER O estudante de odontologia, Frederico Aganetti, de 21 anos, viu

a peça há muitos anos e na época em que assistiu já havia gostado. “É a melhor! Veria de novo, com certeza!”, diz. Já Leandro Junqueira, 22 anos, estudante de Engenharia Mecânica não perdeu a oportunidade oferecida pela campanha deste ano e assistiu mais uma vez. “É tão incrível a ponto de você assistir toda semana e continuar morrendo de rir”, admira o estudante. Outra peça de grande sucesso é “Mulheres de Hollanda”, escrita e dirigida pelo belo horizontino Pedro Paulo Cava. Montada há dezessete anos e reformulada em 2007, a peça que retrata o universo feminino da obra de Chico Buarque teve seus ingres-

sos esgotados logo no princípio de fevereiro. A artista plástica Gabriela Silva, 31 anos, garantiu pela terceira vez a entrada no espetáculo e fez recomendações. “Mulheres de Hollanda, é atemporal. É maravilhosa e acho que todo mundo deve vê-la nem que seja por curiosidade”, comenta Gabriela. “É uma peça cantada, toda com músicas do Chico Buarque. Mesmo quem não é fã de Chico fica maravilhado”, acrescenta a artista.

PRIVILÉGIO O diretor, ator e professor de teatro e Circuitos Artísticos e Culturais da PUC Minas, Ronaldo Boschi, acredita que a Campanha de Popula-

rização é um privilégio para Minas Gerais no contexto nacional. “Belo Horizonte é a única capital que permanece com a campanha tão bem estruturada”, observa. Boschi crê que o êxito das peças e do evento deve-se à comunicação. “O sucesso é a comunicabilidade desses atores pelo bom trabalho que fazem e desses autores, pela linguagem conexa com a expectativa do público”,pontua. Outra peça de grande sucesso é dirigida por Ênio Reis, produzida e protagonizada por Carlos Nunes. Em cartaz há quase nove anos, “Como sobreviver em festas e recepções com

buffet escasso” atraiu um variado público aos teatros, atingindo a marca de 12.445 espectadores. A advogada Regina Mendonça, 47 anos, já assistiu a peça cinco vezes e diz se surpreender cada vez mais. “Cada ano é uma coisa diferente. A peça se atualiza e é isso que a torna tão atraente”, comenta. Ela e seu marido, o professor Antônio Mendonça, 52, acreditam que os preços populares são mais um fator que contribui para os bons resultados do evento. “Essa campanha podia ocorrer mais vezes ao ano, pois é um ótimo incentivo à arte e à cultura”, sugere Antônio.

Tecnologias favorecem preservação de arquivos MAIARA MONTEIRO

n HANNA OLIVEIRA, GLÁUCIO SARAIVA,

QUALIDADE

4º PERÍODO

Ultimamente, pessoas que possuem algum acervo de fitas VHS, usadas nos videocassetes, têm procurado cada vez mais serviços para convertê-las em DVD. A vantagem é que nos meios digitais a qualidade do conteúdo é preservada e conservada por mais tempo e a navegação é mais rápida. Já nos suportes analógicos, o conteúdo é deteriorado mais facilmente, deixando imagem e áudio danificados e sem nitidez. No mercado, há diversos profissionais que fazem essa conversão. É o caso de Regis Amarante, 48 anos, que cobra R$ 13 por fita convertida. Ele acredita que a demanda por esse tipo de serviço não é muito grande, o que resulta em uma oferta na

Luiz Carlos precisa converter seu acervo de 300 fitas de VHS para DVD mesma proporção, e que a maioria de seus clientes, de perfis variados, possui um acervo pouco numeroso e prefere serviços de terceiros a comprar equipamentos próprios

para realizarem a transferência. Os conteúdos das fitas recebidas, segundo Amarante, são geralmente gravações de eventos pessoais como casamentos, festas e viagens.

Marcelo Luz, 42 anos, outro prestador desse serviço, afirma que pelo fato de os clientes imaginarem que o preço seja alto, a conversão de vídeos analógicos para o meio digital ainda é raramente procurada. Quanto à concorrência com os gravadores de DVD, Marcelo Luz diz se garantir pelo seu profissionalismo. “Existem muitas marcas de gravadoras de mesa no mercado. Este tipo de equipamento é mais usado pelos consumidores domésticos. Já os computadores com placa de captura, por serem equipamentos que necessitam conhecimentos na área de edição, estão destinados aos profissionais”, diz Luz, que oferece a possibilidade de remasterização, podendo melhorar tanto o vídeo quanto o áudio.

Ele ainda declara que não sente nenhuma espécie de saudosismo sobre o videocassete por acreditar que, com os equipamentos digitais que existem atualmente, há possibilidades infinitas de conseguir um resultado mais profissional. Para Luz, "devemos acompanhar a tecnologia e buscar o que de melhor ela tem a nos oferecer. Há acervos pessoais que não têm preço".

URGÊNCIA Luiz Carlos Faria, 55 anos, é engenheiro, palestrante e professor de Biodança. Em todos os seus trabalhos, o material audiovisual é imprescindível. As gravações de seus projetos de arte desde 1990 somam ao seu acervo atual mais de trezentas fitas VHS que precisam urgentemente serem convertidas em DVD. "A gente não está conseguindo mais o

equipamento que toca o VHS. Utilizo e preciso desse material, por isso a urgência em querer convertê-lo em DVD. Tem material que até já está danificado pela umidade", alerta ele. Faria toma muito cuidado para não perder sua coleção, mas sabe que com o tempo isso seria impossível. "Chega um momento que fica inviável. Temos que entender que a tecnologia muda e que precisamos acompanha-la", declara. Ele procura os serviços e considera o preço irrisório, mas adverte para o cliente, dependendo dos seus objetivos, ficar bem atento com a qualidade das cópias digitais. E conclui sobre a importância da conversão: "Isso é imagem, é conteúdo, é história e, se o material não for digitalizado, se perderá".


Comportamento Março • 2009

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MAIRON VIANA

CAMPANHAS AJUDAM A PREVENIR ACIDENTES Ações promovidas pela BHTrans visam mostrar a crianças e adultos os principais cuidados que devem ser tomados no trânsito n MAIRON VIANA DOS SANTOS, 6º PERÍODO

Na movimentada estação de ônibus do Barreiro, uma imagem inusitada destoa do cenário: uma pessoa com uma fantasia gigante de peru, com olhos pesados como se estivesse embriagado. A cena faz parte de mais uma campanha de educação no trânsito da Empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte S/A. A BHTrans possui um setor chamado Gerência de Educação no Trânsito, que é responsável pela elaboração e criação de campanhas educativas, visando conscientizar motoristas do perigo da mistura álcool e direção, e da importância da obediência às leis de trânsito. Após o carnaval recomeçou a campanha Transitando Legal, um projeto permanente direcionado às crianças até a 5ª série e adolescentes até a 8ª série do Ensino Fundamental, mostrando por meio de palestras e simulações de trânsito como se comportar

com segurança no trânsito de Belo Hoizonte. “Nós temos ônibus que buscam as crianças para a nossa pista de simulação. Atendemos a cerca de 300 crianças por dia”, informa a supervisora do setor, Rejane Calazans. Segundo ela, as crianças vão à sede da BHTrans, onde há um circo e a pista de simulação, e os adolescentes são visitados em suas escolas, onde assistem palestras. Já a campanha “Álcool e Direção nas Ruas” visa conscientizar motoristas para que não bebam quando forem dirigir. “O nosso mascote é o peru, que bebe antes de morrer”, revela Rejane, acrescentando que a idéia é mostrar às pessoas que não devem perder o melhor da festa, que é a vida. “Álcool e direção não combinam”, explica Rejane. Nas estações e principais ruas de BH, a equipe da BHTrans e o “peru”, distribuíram copos de água mineral e porta copos da campanha para motoristas e pedestres, chamando a atenção para o fato de que o motorista bêbado se compara ao peru embriagado

indo para a morte. Rejane afirma que após a instituição da lei seca, o número de acidentes no trânsito diminuiu e a expectativa da BHTrans com essa campanha é que esse índice seja ainda mais reduzido, graças à sensibilização dos motoristas pela mesma. Segundo Rejane, as pessoas recebem informações de como o álcool aumenta os riscos de acidentes e, por isso, pedem para levar material da campanha para amigos e parentes. “Quando uma pessoa toma três doses de uma bebida destilada ou uma latinha de cerveja, as chances de acidente aumentam em quatro vezes. A partir da quarta latinha, o risco sobe 25 vezes. As pessoas vêem esses riscos e levam o material para casa, para os filhos”, diz. Além dessas campanhas, a BHTrans fez também uma campanha de volta às aulas onde dirigiu aos estudantes e pais de alunos das escolas de BH, palestras e orientações sobre segurança no trânsito. A receptividade desses projetos, diz Rejane, é

muito boa, apesar de a mudança de comportamento ser um processo lento. “As pessoas gostam das campanhas, elogiam, agradecem, pensam a respeito, a gente vê nessa hora que tem mudado esse comportamento mesmo que lentamente” conclui. E não é só a BHTrans que vê essa eficiência. Motorista há 34 anos, Carlos Antônio Civius diz que as campanhas funcionam. “Não 'tá' 100%, mas na base de uns 80% 'tá' funcionando”, pondera. APROVAÇÃO Os jovens de Belo Horizonte também estão ligados nessas campanhas da BHTrans, e acham que elas são importantes para a prevenção de acidentes, embora as opiniões sejam bastante diversas. As gêmeas Jéssica e Paula Silva, estudantes de 17 anos, afirmam achá-las positivas e importantes para evitar acidentes. “É uma forma a mais de se evitar vários tipos de acidentes”, comenta Paula, apoiada pela irmã. Tadeu Henrique, de 16, acrescenta aos comentários das suas

Peru, animal que bebe antes de morrer, simboliza o perigo do álcool na direção amigas que esse tipo de campanha desmistifica a crença que alguns motoristas têm de que podem beber e sair totalmente ilesos, que não vai acontecer nada. Essa também é a visão de Isabelle Pontes, de 15 anos, que afirma que pode ver os resultados em seu bairro, onde a conscientização está fazendo com que pessoas que antes dirigiam alcoolizadas, mudem esse hábito. “Os garotos do meu bairro não estão mais pegando o carro dos pais quando estão bêbados, ficam em casa mesmo, nas proximidades”, conta.

Já sua irmã, Istéfane Pontes, 16, não partilha dessa opinião, achando que o que funciona mesmo é a aplicação de multas. “Brasileiro só se conscientiza quando dói no bolso”, afirma taxativa. Para endossar essa opinião, Amanda Granato, 17, diz que também não crê nessas campanhas como algo que vá mudar o comportamento de ninguém. Ela é mais radical quanto ao que realmente funciona. “Eu acho que campanha não resolve, o que funciona é teste do bafômetro e polícia prendendo mesmo os motoristas embriagados”.

Curso ajuda a superar dificuldades de aprendizagem MAIARA MONTEIRO

n JORGE SANTOS, 2º PERÍODO

O dia começa e logo pela manhã milhares de estudantes se preparam para deixar suas casas, rumo às escolas. Uma rotina comum e muitas vezes prazerosa para muitos alunos, mas, para aqueles que tem alguma dificuldade em estudar pode ser um sacrifício diário. O problema de Rafael Márcio Horta, 15 anos, começou na 3º série, com dificuldades na leitura e na matemática. Ele chegou a se matricular em várias escolas particulares, mas acabava saindo por não se adaptar ao ritmo de ensino. Foi numa dessas escolas que a psicóloga orientou os pais de Rafael a procurarem ajuda especializada e indicou uma psicopedagoga. “Antes meu filho passou por neurologista, oftalmologista, neuropsicólogo, otorrinolaringologista, fonoaudiólogo”, conta a empresária Roberta Manon Almeida Horta, 36 anos. De acordo com a mãe de Rafael, a família passou por uma luta sem fim para descobrir o real problema que o impossibilitava de estudar. Já Luiza Miraglia Firpe, à época na 4ª série, tinha dificuldade em matemática e ortografia. Além disso, a desorganização e a falta de anotações do deve r de casa chamaram a atenção da mãe, Márcia

Miraglia Firpe, 49 anos, programadora visual e funcionária na área administrativa de uma construtora. “Luiza vivia ligando para as coleguinhas perguntando sobre o dever de casa porque não dava tempo de anotar tudo”, explica a mãe. Com a ajuda de uma parenta pedagoga, Márcia procurou uma psicopedagoga. O TRATAMENTO Com a devida orientação, as famílias procuraram a Clínica Aprendizagem e Cia em Belo Horizonte, que auxilia pessoas com dislexia. Por meio de um método criado em Israel pelo romeno Reuven Feuerstein e que existe na capital mineira há aproximadamente cinco anos, os adolescentes passaram pelo Programa de Enriquecimento Instrumental (PEI), que proporciona aos indivíduos uma melhor relação com a aprendizagem. O curso é ministrado para pessoas com déficit de atenção, hiperativas, com esquizofrenia, ansiedade, dentre outros, e é indicado para todas as faixas de idade. Segundo Maria Sueli Mesquita Francisco, psicopedagoga do Hospital de Olhos, professora pós-graduada pela UniLeste de Coronel Fabriciano e pelo Unieco do Distrito Federal além de formada em Construtivismo e Educação pela Universidade de Madri, ao chegar à clínica, a pessoa faz uma primeira avaliação e, confirmado o

diagnóstico, o aluno passa pelo PEI nível 1, onde aprende funções cognitivas para percepção da aprendizagem. “O PEI nível 2 mais avançado, estimula o pensamento hipotético referencial, ou seja, observar a personalidade da família e questionar determinado fator que possa influenciá-lo, silogismo, que seria o raciocínio lógico, entre outros”, explica Maria Sueli. As seções duram 50 minutos e são realizadas uma vez por semana podendo durar até um ano. Cada seção custa aproximadamente R$ 80 e os instrumentos são importados. Um dos instrumentos, o TCAL, ensina os 3 canais da aprendizagem estimulando as funções motora, visual e o tato, já o OPB (Organização de Pontos Básicos) trabalha noções de retas, ângulos, formas, funções, noção de pequeno e grande. Uma vez por mês acontece uma reunião com os pais para acompanharem a evolução dos filhos e saberem os motivos do problema como separação dos pais e dificuldade de relacionamento. “Tem casos que uma criança passa por um tratamento multidisciplinar, em parceria com outros médicos”, conta a psicopedagoga. Caso o diagnóstico não seja feito em tempo, no futuro a pessoa pode ter problemas com repetências, insucesso no trabalho e, até mesmo, envolvimento com drogas.

Luiza Miraglia Firpe teve dificuldades de aprendizagem mas, atualmente, apresenta grande rendimento escolar

VOLTA POR CIMA Com o auxílio de lentes corretivas coloridas que estimulam a visão facilitando a memorização e a interpretação de textos tanto Luiza como Rafael tiveram melhorias significativas já nas primeiras seções. “Minha filha obteve melhora nas notas e no rendimento escolar. Melhorou sua organização e seu caderno é caprichado”, comenta, empolgada, Márcia. “Rafael

agora consegue ler e entender o assunto. Antes ele demorava 40 minutos para ler uma página e quando eu perguntava, ele já não se lembrava de mais nada”, revela Roberta Horta, emocionada. Segundo ela, Rafael superou uma série de obstáculos. “Meu filho sofreu preconceito de amigos e familiares, com isso ficava nos cantos chorando, teve depressão. Chegou até a apanhar do pai por tirar notas baixas. Hoje,

Rafael está feliz, dedicado e melhorou sua auto-estima”, comenta. Para ser um mediador e multiplicar os ensinamentos do PEI às empresas e escolas é necessário que a pessoa candidata à função tenha curso superior e ser comunicativo. A pessoa vai passar por um treinamento por meio do Centro Brasileiro de Modificabilidade (CBM), representante da Feuerstein no Brasil.


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DIRETAS JÁ, MARCO NA REDEMOCRA A campanha que mobilizou artistas, políticos, imprensa, e que teve ampla participação popular, comemora, este ano, bodas de prata. Relembrar essa data contribui ARQUIVO JORNAL MARCO

n ALINE SCARPONI, ANA LUISA AMORE, GABRIEL DUARTE, ISABELLA LACERDA, STEFÂNIA AKEL,

(PDS), acabaram se integrando ao movimento", afirma o cientista político Carlos Ranulfo, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). "Foi uma grande 3º PERÍODO frente ampla da sociedade civil", acrescenta. Há 25 anos, milhões de O também cientista político brasileiros reuniram-se nas praAnanias José de Freitas, profesças de algumas das principais sor da PUC Minas, ressalta a capitais do país para reivinimportância do movimento. dicar, em voz alta, o direito de “Ele simbolizou e sintetizou um votar para presidente da Redesejo de democracia, de liberpública. Conhecido por “Diredade política, que de alguma tas Já”, o movimento mudou a maneira expressou as mais trajetória recente do Brasil, de diversas tendências políticas do acordo com pessoas, que, de país”, diz. diferentes maneiras, particiApesar da sua importância param daquele momento, conhistórica, o movimento é descosiderado uma das reivindinhecido por um grande número cações populares mais imporde brasileiros. Pesquisa do tantes da história. "O movimenInstituto Datafolha, realizada to mostrou que a sociedade não entre 25 e 28 de novembro de toleraria mais a ditadura. 2008, com 3468 entrevistados a Inclusive políticos que eram de partir dos 16 anos, em 180 partidos de oposição, como o municípios do Sul, Sudeste, Partido Democrático Social Nordeste e Nort e / C e n t ro - O e s t e , B D constatou que 57% das pessoas já ouviram falar das Diretas Já. Entretanto, apenas 35% sabem dizer o que ele realmente foi, um movimento em defesa do voto direto. “O brasileiro tem pouca afeição à sua historia. Eu acho que a comemoração e a rememoração dessas datas são muito importantes para que as novas gerações saibam o que custou em termos de lutas o processo de transição política dos anos 80”, comenta Freitas. Ele diz que a primeira movimentação partiu do Partido dos Nilmário relata bastidores políticos das Diretas Trabalhadores (PT), ARBARA

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que lançou essa idéia em São Paulo, em 1983, ainda com pouca gente. “Depois isso foi crescendo com o deputado do PMDB, na época, Dante de Oliveira, que apresentou ao congresso uma emenda propondo as eleições diretas para presidente”, explica. A Emenda Dante de Oliveira acabou derrotada na Câmara dos Deputados, com 298 votos a favor, 65 contra, três abstenções e 112 parlamentares que não compareceram ao Plenário. "Na verdade, o Congresso Basileiro, à época, era ainda muito mais moldado pelo período anterior, Militar, do que um Congresso democrático. Na verdade não houve omissão, houve posicionamento. O congresso votou contra as eleições diretas", analisa Ananias. Carlos Ranulfo acredita que a não-aprovação só ocorreu porque muitos dos deputados que votaram eram centristas e que, por isso, tinham medo se houvesse um resultado diferente do que realmente ocorreu. "Se a emenda fosse aprovada, as mudanças seriam naquele exato momento, e isso é que gerava medo nessas pessoas. Com a não-aprovação, as mudanças só ocorreram em 1989", recorda o cientista político, referindo-se à eleição de Fernando Collor. Ele ainda observa que votar contra significava encontrar uma alternativa mais moderada para aquilo que estava acontecendo. "A alternativa era a eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral. Foi pensando nessa alternativa mais moderada que os deputados fizeram com que a Emenda perdesse", completa. Carlos Ranulfo acredita que os cinco anos a menos de democracia fizeram diferença para o país, pois acabaram cau-

sando reflexos sentidos até hoje. "Acabou ocorrendo a reciclagem de muita gente da ditadura, como José Sarney, Antônio Carlos Magalhães. Isso foi um prejuízo para o país. Não ganhamos nada com o governo do Sarney, nem com o do ACM, nem com o do Maluf", opina. A derrota da emenda causou uma comoção em toda a população brasileira que acreditava no movimento e na volta da democracia no país. "Para ser aprovada, precisava de dois terços dos votos, mas teve maioria simples. Os deputados que não votaram saíram dos seus gabinetes às duas horas da madrugada, onde estavam escondidos. Eles foram esculhambados por jornalistas e pelas pessoas, foram muito xingados”, revela o jornalista Ricardo Kotscho, ex-secretário de imprensa do presidente Lula. "O sentimento da nação era para que fosse aprovada e, no entanto, nós perdemos na votação. Havia uma euforia tão grande, um desejo tão intenso, que a gente tinha esperança de que fosse aprovada. Foi uma frustração muito grande", lembra Tilden Santiago, ex-deputado federal, ex-embaixador do Brasil em Cuba, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas, que participou ativamente de vários episódios envolvendo as Diretas Já e presenciou o anúncio da não-aprovação da emenda. Segundo Ricardo Kotscho, apesar da não aprovação da emenda, o movimento foi de extrema importância para o país. "As Diretas foram um marco na redemocratização do país. Aquelas pessoas não se desmobilizaram. Foi um momento único em que a história mudou nas ruas, e não nos conchavos dos gabinetes. O povo mudou a história do Brasil", ressalta.

Comícios pela campanha das Diretas Já, em 1984, se tornaram grandes festas do Nilmário Miranda, que à época das Diretas era militante do PT, concorda. "Foi importantíssimo, porque derrubou a ditadura. Foi uma manifestação popular mais importante que o voto, porque o voto era manipulado", opina. Ele conta que chegou a fazer camisetas com os dizeres da luta: “Diretas Já” e “Eu quero votar pra Presidente”. “Produzíamos dezenas de milhares de camisetas com esses dizeres", recorda. De acordo com Ananias de Freitas, a democracia do país começou a ser conquistada com

o movimento pelas Diretas, uma vez que o resultado foi a possibilidade, ainda que derrotada, de criar as condições políticas para que, naquele mesmo ano, no Colégio Eleitoral, o candidato de oposição, à época Tancredo Neves, pudesse derrotar o candidato dos militares que era Paulo Maluf. "Ali começou um processo de democratização do país que está em curso até hoje. A democracia não é algo que se completa, ela é sempre um processo", explica.

História do Brasil marcada pela participação do povo Palanque na Praça da Rodoviária e ruas tomadas pela multidão. Comícios e passeatas que reuniam pessoas de diversos segmentos sociais. O sentimento, entretanto, era único: vontade de redemocratizar o Brasil. A campanha das Diretas Já foi o maior evento de massa do país, e dessa vez, quem deu destaque ao movimento não foram apenas políticos e imprensa. “Os grandes nomes sempre foram importantes, porque davam solidez, mas o grande protagonista era o povo”, relembra o ex-deputado pelo PT, Nilmário de Miranda. A polícia calculava 300 mil pessoas presentes, os jornais calculavam 100 mil, mas na hora de divulgar, optavam por números ARQUIVO JOR

NAL

MARCO

otimistas, aderindo à causa das Diretas. Afinal, o que surpreendia era o tamanho da mobilização, jamais vista. “No final, quatro milhões de brasileiros haviam saído às ruas em todo o Brasil. Se colocar, pela metade, já é um grande número”, comenta o jornalista José de Castro, que cobriu as Diretas pelo Jornal do Brasil quando era o editor da sucursal em Belo Horizonte. O jornalista Ricardo Kotscho, que cobriu o movimento para a Folha de S. Paulo, afirma que no início das manifestações nem todos os setores sociais estavam presentes, mas que posteriormente a campanha foi aderida fortemente pelo povo. No começo, somente os setores organizados, como estudantes, sindicatos e igreja se mobilizaram. “Porém, depois de um determinado momento, foi a

massa”, relata. O ambientalista Renê Vilela participou ativamente das manifestações pelas Diretas quando tinha apenas 15 anos, por meio do Movimento Secundarista Estudantil. Ele era estudante do Colégio Estadual Central, que organizou manifestações de resistência a Ditadura, à época. “Eu estava anonimamente na multidão”, conta. Embora a palavra de ordem fosse mudança, Renê afirma que o clima de repressão ainda era muito presente. Ter sua casa invadida e somente seu quarto revirado, o deixou muito impressionado. “Isso foi muito em função das Diretas, porque a gente conseguiu a paralisação das escolas. No dia seguinte, por pura intimidação, arrombaram minha

casa”, recorda. Andrea Beatriz Salles, 57 anos, dona de casa, também se envolveu na campanha e participou de vários comícios menores na Praça Sete. Segundo ela, o que se queria era a volta do Estado de direito, a democracia plena e, para organizar um movimento que almejasse esse objetivo, “muitas pessoas enfrentaram sérias conseqüências”. Ela se refere às pessoas que sofreram pressões do governo militar para abandonar a causa. Mirtes Maria do Vale Beirão, (na foto abaixo, em primeiro plano, de óculos) à época coordenadora do movimento de mulheres da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, lembra que o movimento começou pequeno, com poucas pessoas, mas foi crescendo. “Surgiu gente que a gente nunca pensou que participaria, pessoas de todos os tipos, todas as classes, todos os grupos”, diz. MEMÓRIAS E EMOÇÃO O médico e professor da escola de medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG,), Ajáx Pinto, comenta que ter participado do movimento

das Diretas foi um gesto cívico. “Eu acho que dei a minha contribuição. Eu não fui alienado e nem omisso”, afirma. Segundo o professor, antes do golpe militar, havia uma crença muito forte no erguimento do Brasil como uma grande potência, e as Diretas foram movidas pela retomada dessa crença. “Nós sonhávamos com um país em que se houvesse menos desigualdade social, mais oportunidades e respeito. As Diretas lutavam por um tipo importante de igualdade”, argumenta. Mirtes Beirão, que participou de várias passeatas e que, à época, era responsável pela mobilização da comunidade da UFMG em prol da participação no movimento, destaca a emoção de participar do movimento. “Mas a decepção de quando perdemos a emenda foi muito grande para todo mundo”, revela. Movida pelo mesmo sentimento de responsabilidade perante o país, a dona de casa Andrea Beatriz confessa que ficava encantada com a beleza das passeatas e a movimentação nas ruas. “As passeatas eram lindas e participar delas dava a sensação de que eu estava fazendo alguma coisa. Além disso, o ‘buzinaço’ na rua era de emocionar qualquer um. A cidade parava, era uma loucura”, relembra. ESTUDANTES Marcado por seu engajamento, energia e criatividade nas manifestações, o movimento estudantil vestiu a camisa da campanha pelo direito ao voto direto. “O movimento estudantil tanto universitário quanto secundarista era muito contestador, e a gente estava bem organizado”, afirma Renê.. Quem participou ativamente de toda essa luta com coragem e orgulho de estar fazen-

do alguma coisa, hoje, sente tristeza de ver que os estudantes não conseguem se organizar e lutar por uma causa como fizeram há 25 anos.. “Hoje, a juventude não é capaz de se organizar em tão grande número, está faltando uma liderança da parte deles. DCE e DA não eram para tirar xerox e nem fumar, era sério, discutiam política e tinham objetivos para alcançar”, afirma a Andréa, Beatriz, ao lembrar da época em que cursava Ciências Sociais. O jornalista Ricardo Kotscho lembra que depois das Diretas Já só houve mais uma grande mobilização, que foi o movimento pelo impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello.. “Aí sim, houve uma predominância de estudantes. Mas é sempre assim, os estudantes vão na frente e aí vem a massa”, observa. Segundo ele, isso não acontece mais pela falta de um “inimigo comum”. “Em um era a ditadura militar e no outro um presidente que havia aprontado com a população. Tínhamos uma bandeira. Nos últimos anos não teve mais uma situação assim, de um inimigo comum. Você tem crises, gente a favor e contra o governo ”, comenta Kotscho, lembrando que hoje as pessoas estão engajadas em vários outros movimentos sociais simultâneos. Um trecho de uma música de Chico Buarque, recitado por Ájax, consegue expressar o que ele considera alienação política que está presente em muitos dos jovens de hoje. “Num tempo, página infeliz da nossa história. Memória desbotada na memória das nossas gerações. Dormia a nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída. Em tenebrosas transações”.


Especial

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TIZAÇÃO DO PAÍS, COMPLETA 25 ANOS para que a importância desse acontecimento não seja esquecida por aqueles que não participaram do evento, mas que ainda hoje vivenciam suas consequências

Movimento que alterou os rumos da imprensa brasileira

povo, que manifestava com faixas e cartazes, sua vontade de votar para presidente

Derrota da Emenda Dante de Oliveira não significou um fracasso

ARQUIVO JORNAL MARCO

A não aprovação da Emenda Dante de Oliveira, projeto de emenda constitucional que tinha por objetivo voltar com as eleições diretas para Presidência da República, não fez das Diretas Já um movimento fracassado. “Mesmo não tendo sido aprovada por 22 votos, um sentimento persistia: o Brasil não tinha volta, o Brasil não retrocede”, conta Renê Vilela. Entretanto, após 25 anos de ocorrência dessa campanha, a análise mais profunda de seu significado é inevitável. “Já sabemos que a não aprovação das Diretas retardou a democracia, e uma série de avanços. Mas, na verdade, observamos hoje, que as Diretas foi um mecanismo de mudança importante, e que as coisas têm que mudar para continuarem como

estão”, avalia Renê. Canalizando forças para a Constituinte, a campanha atingiu seu objetivo de redemocratização do país em 1988, uma vez que “não há democracia sem uma constituição democrática, não há democracia com biônicos”, ressalta Nilmário de Miranda, referindose aos senadores que eram eleitos por voto indireto. Além disso, o ex-deputado afirma que sem as Diretas Já havia a possibilidade da ditadura permanecer sobre formas discretas. “Sem o movimento das Diretas, a ditadura poderia ter continuado sobre formas mitigadas, como aconteceu no Chile com a derrota do Pinochet. É uma democracia restrita. A velha ditadura continua tutelando o país”, comenta.

Devido a importância do movimento das Diretas Já, a imprensa, principalmente a escrita, tornou-se referência para a opinião pública. Porém, cada veículo cobriu o evento à sua maneira. Enquanto muitos buscavam seguir as figuras políticas e os artistas, outros focavam nos demais atores do movimento, como o povo. “A imprensa, de uma maneira geral, teve um papel menos relevante. As emissoras não focalizavam o povo, preocupavam-se em focalizar os políticos. O povo fez o movimento aparecer”, afirma José de Castro, à época chefe da sucursal do Jornal do Brasil, em Belo Horizonte. Ricardo Kotscho, que era repórter da Folha de S. Paulo, fez a cobertura do movimento de uma maneira diferente. Segundo ele, os repórteres, em geral, só ficavam no palanque tentando ouvir as autoridades, um empurrando o outro, enquanto ele ia atrás das pessoas comuns. “Me surpreendia com isso, no dia seguinte, ao ler o jornal. Eu procurava o outro lado da notícia”, relata. Ele afirma que a Folha de S. Paulo se tornou um dos mais importantes veículos de comunicação do país após a campanha das Diretas. O jornalista lembra que, na ocasião, faltava uma “bandeira” à Folha. Segundo Kotscho, o jornal tinha que ser respeitado e ter credibilidade e, percebeu que conseguiriam isso fazendo uma grande cobertura das Diretas Já. Assim, ele conversou com o dono do jornal paulista, Otávio Frias de Oliveira, que aceitou a proposta na hora. “Os outros jornais não entraram nessa, e a Folha saiu na frente. A televisão então demorou pra caramba. Só quando ganhou uma dimensão muito grande e não tinha mais como ignorar, que a imprensa toda acabou entrando, mas já na parte final da campanha”, relata. Ele relembra que a cobertura foi

tomando maior importância e que, no último comício, a equipe já tinha mais de 20 repórteres. O jornalista conta que os discursos dos políticos se repetiam todos os dias e que, por focar em personagens que estavam fora da política, passou por situações curiosas nesse período. “Cada lugar que a gente ia, tinha gente diferente, não no palanque, mas no público. E eu ia atrás dessas pessoas, porque por meio delas, dava para contar como vivia o povo brasileiro daquele tempo”, revela Kotscho. Para Ricardo Kotscho, a cobertura das Diretas Já foi a mais importante de sua vida. “Marcou a minha carreira, porque foi uma coisa que mudou a história do Brasil e eu participei diretamente”, ressalta. Diferente do ex-Secretário de Imprensa de Lula, José de Castro diz que cobrir esse movimento foi uma grande frustração. “Estou entre os derrotados, porque eu, como jornalista, achava que iria fazer um grande trabalho e tive que fazer uma cobertura burocrática da campanha”, afirma. Ele aponta que o motivo dessa frustração foi decorrente do veículo em que trabalhava na época, o Jornal do Brasil, que, segundo José de Castro, fez uma cobertura superficial do evento. “Aqui na sucursal (do Jornal do Brasil) em Minas, a gente estava bem acostumado a fazer grandes coberturas, a gente mobilizava a sucursal toda. Uma das frustrações nossas foi que, nesse período, a Folha de S. Paulo dava um “banho” na nossa cobertura, investia na cobertura. Aqui, por mais que a gente fizesse a cobertura, o jornal dava pouco espaço pra gente”, admite. O jornalista afirma que a Folha de S. Paulo foi uma das mais beneficiadas com a campanha das Diretas e enumerou mais dois beneficiados:

Lula e Tancredo Neves. Com a cobertura, de acordo com José de Castro, a Folha começou a ter adesão de toda a oposição e ganhou credibilidade. “O terceiro ganhador foi a Folha de S. Paulo, que começou a ter adesão de toda a esquerda brasileira e passou a ser o jornal mais importante em termos de influência e ocupou o lugar que o Jornal do Brasil ocupava antes”, constata. “O grande perdedor dessa democratização

no Rio de Janeiro e assistir tudo isso em um lugar estratégico ao lado dos políticos. Isso para mim foi muito marcante”, acrescenta. Aloísio salienta a importância de se comemorar esses 25 anos de Diretas Já devido a grandeza do movimento e sua importância para a redemocratização no país. “Se todos assistissem aquilo de cabeças baixas, o Tancredo não teria sido eleito nem pelo Colégio Eleitoral. Mas não era só pelas Diretas que o D B povo lutava, tinham várias bandeiras por trás, como a liberdade democrática, sindical. As diretas eram o guarda-chuva e debaixo dele, tinham outras bandeiras sendo defendidas”, opina. Mesmo com a dimensão do movimento, José de Castro afirma que não acreditava que a emenda conseguiria ser aprovaO jornalista José de Castro lembra sua atuação da. “Nunca pensei que fosse ganhar foi o Jornal do Brasil, e a não, mesmo com a festa nas Folha a grande vencedora ruas. O governo tinha em termos de imprensa”, muita força e a oposição era opina. fraca”, revela. Ele conta que “Participei do movimento estava na Praça da Estação, aqui em Belo Horizonte, no centro de Belo Hoque foi uma coisa impressiorizonte, quando a votação nante quando lotou a estava em andamento no Afonso Pena inteira. Eu traCongresso. Ao divulgar a balhava na sucursal do jorrepercussão da não nal O Globo aqui em BH e aprovação da Emenda tive o privilégio de participar Dante de Oliveira, em Belo trabalhando nesse período”, Horizonte, o Jornal do recorda o jornalista e atual Brasil, segundo José de presidente do Sindicato dos Castro, priorizou a reação da Jornalistas de Minas Gerais, população diante do fato. Aloísio Morais. Ele conta “Noticiamos, principalque o jornal o colocou junto mente, a Polícia Militar de de Tancredo Neves e que, Tancredo (Neves) batendo por isso, viajava com ele para no povo que estava fazendo todos os locais onde tinham passeata para protestar concomícios. “Tive a sorte de tra a não aprovação da acompanhar o Tancredo em emenda”, lembra. outros lugares onde esse movimento também foi forte como em São Paulo e ARBARA

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10 Economia

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Março • 2009

BARBARA DUTRA

EMPRESAS MUDAM DE ROTINA PARA CONTORNAR CRISE Indústrias são obrigadas a tomar medidas para minimizar efeitos negativos do período n ANA LUÍSA AMORE, STEFÂNIA AKEL, 3º PERÍODO

Os efeitos da crise econômica internacional têm modificado, desde o último trimestre de 2008, a rotina das indústrias mineiras. O último trimestre do ano passado foi considerado o pior dos últimos dez anos pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). Assim, queda nas vendas e na produção, demissões, férias coletivas e redução de gastos são medidas adotadas visando atenuar a situação. “No Brasil, a crise foi repentina e a redução das vendas em alguns setores aconteceu muito rapidamente. No resto do mundo, esse processo vem acontecendo desde 2007”, afirma Sérgio Cavalieri, vice-presidente do Conselho de Política Econômica e Industrial da Fiemg. Segundo ele, os setores mais atingidos pela crise foram os exportadores: minério de ferro, siderurgias e papel celulose, além das indústrias automobilísticas. Nesses setores, as vendas caíram e, consequentemente, o estoque aumentou. Como resultado, o ritmo da produção diminuiu. A mineradora Vale tomou medidas em parâmetro mundial para lidar com a crise. De acordo com sua assessoria de comunicação, a empresa já reduziu em 30 milhões de toneladas sua produção de minério de ferro. Até agora, já ocorreram 1.200 demissões em todo o mundo, sendo 20% delas em Minas Gerais. Além

disso, 5.000 empregados estão em férias coletivas, 80% deles em Minas. A Vale ainda assinou, com 15 sindicatos majoritários, um acordo de licença remunerada, que determina a garantia de empregos até 31 de maio. Durante esse período, os funcionários permanecem em casa e têm seu salário reduzido em 50%. Segundo a assessoria de comunicação, nenhum funcionário da empresa se encontra em licença remunerada atualmente, uma vez que ainda não houve necessidade. A crise também não está passando despercebida na siderúrgica mineira Arcelor Mittal. Segundo Juliana Paschoal, que trabalha na área de contabilidade da empresa, os funcionários não tiveram redução de salários ou de jornada, mas muitos já foram demitidos. “Os setores que mais demitiram foram os administrativos e o comercial. O setor de produção vem sendo afetado também”, explica. Juliana conta que a Arcelor criou um programa de demissão voluntária (PDV), que entrou em funcionamento em janeiro deste ano. Com o programa, o funcionário que decidir se desligar da empresa ganha meio salário mínimo para cada ano de trabalho na Arcelor. “O programa estimulou a demissão voluntária principalmente de quem estava perto de se aposentar, pois é quem mais sai ganhando”, afirma. A crise também afetou a rotina da empresa. A Arcelor tem cortado viagens, optando

na maioria das vezes por vídeo-conferências. Também houve redução de office boys e de gastos com festas para os aniversariantes do mês. Além disso, a empresa parou de pagar cursos de inglês para seus funcionários. Mesmo com essa situação, Juliana afirma que a estrutura da empresa afasta seu medo de perder o emprego. “Não sinto muito medo de perder o emprego porque a Arcelor está fazendo tudo para evitar o pior. São medidas estruturadas que me dão mais segurança”, garante. AUTOMÓVEIS A crise financeira que veio à tona em setembro também atingiu fortemente a indústria automobilística nos principais mercados do mundo e do Brasil. Mesmo com a forte queda de vendas verificada nos últimos três meses do ano de 2008, as vendas da indústria automobilística brasileira cresceram 14% durante todo o ano, o que ainda assim foi abaixo do esperado. Para se ter uma idéia da redução, o crescimento estimado até setembro de 2008 era de 24%. Com a Fiat não foi diferente. Segundo a assessoria de comunicação da empresa, apesar dos resultados positivos em 2008, com recordes de produção e vendas, os números de janeiro de 2009 mostram uma sensível queda em relação ao ano passado. Em janeiro, foram emplacados somente 43.312 automóveis e veículos comerciais leves da Fiat, uma queda de 13,3% em relação ao

Concessionárias usam recursos decorativos para chamar a atenção dos consumidores em período de queda de vendas mesmo período de 2008. O desempenho de janeiro, no entanto, foi superior em 1,8% ao de dezembro, o que confirma a expectativa de recuperação do mercado, principalmente a partir da decisão do governo de reduzir o Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI) incidente sobre os veículos. Essa medida foi integralmente repassada para os consumidores, com redução em torno de 7% sobre os preços dos automóveis. Com a redução drástica do mercado automobilístico, tanto no Brasil quanto nos países para os quais a Fiat exporta, houve também uma redução nos volumes de produção. Com isso, a empresa adotou sucessivos períodos de férias coletivas a partir de outubro de 2008 até janeiro de 2009, sem recorrer a planos de demissão em larga escala. Para reduzir os gastos, a Fiat iniciou uma campanha interna intitulada Mais Consciência, com o objetivo de intensificar os programas de redução de custos existentes. A iniciativa visa a diminuição do consumo de água, energia e impressos, além de despesas de viagem e outros serviços.

Para Fiemg, expectativa não é de crescimento Mesmo com as medidas de recuperação da economia adotadas pelo governo, desde o último trimestre de 2008, empresas de diversos setores evitam divulgar previsões sobre o comportamento da economia em 2009. As medidas tomadas pelo governo visam segurar empregos e deixar o crédito mais acessível para projetos e investimentos de empresas. “O sistema financeiro brasileiro travou de repente. Os bancos reduziram os empréstimos e passaram a exigir mais garantia de quem pega dinheiro emprestado. Com esse enxugamento financeiro, o mercado retraiu e as empresas ficaram engessadas, sem muitas possibilidades”, explica Sérgio Cavalieri, vice-presidente do Conselho de Política Econômica e Industrial da Fiemg.

Em relação às previsões para este ano, Cavalieri explica que a Fiemg trabalha com a expectativa de que, em 2009, o ritmo de vendas, faturamento e produção das indústrias no ano de 2008 seja mantido. Segundo ele, não há mais a expectativa de crescimento. “Os últimos dias foram turbulentos por aqui. Acharam que os efeitos da crise no Brasil não seriam tão profundos, mas com os últimos balanços percebe-se que a crise de pessimismo mundial atingiu o país”, comenta. Como é característico das crises capitalistas, Cavalieri acredita que a atual continuará tendo seus altos e baixos. “Somente no segundo trimestre deste ano há perspectivas mais otimistas para as indústrias”, conclui.

MAIARA MONTEIRO

Tecnologia beneficia pessoas que utilizam transporte público n MARINA SENRA, NATHÁLIA BUENO, 1º PERÍODO

Aparelhos de GPS, alarmes anti-furto, bilhetes e painéis eletrônicos, câmeras de segurança. Todas essas novas tecnologias que já são usadas em prédios, casas e empresas também podem ser encontradas nos transportes coletivos. Com o objetivo de proporcionar maior segurança e conforto para os passageiros, o Brasil tem investido cada vez mais em aplicações que deixam os ônibus e metrôs mais eficientes. Os usuários do transporte coletivo de Belo Horizonte já podem usufruir dessas tecnologias durante as viagens. A bilhetagem eletrônica é um exemplo. Ela foi implantada em 2002 e encontra-se instalada em 100% da frota de ônibus. Além disso, pode fornecer dados diários sobre as viagens realizadas, o número de passageiros transportados e utiliza-

ção de gratuidades. Alguns usuários aprovam. “A bilhetagem eletrônica é benéfica, pois possui as vantagens da meia tarifa quando se usa dois coletivos em pequenos intervalos, da rapidez quando há super lotação nos horários de pico e ainda diminui o volume de dinheiro que carregamos na bolsa, o que contribui para a segurança”, diz a professora Maria Terêsa Miranda. Apesar das inegáveis qualidades dos aparelhos, certos passageiros ainda não se familiarizaram com eles. “Acho que o cartão eletrônico é válido, mas ainda não senti os efeitos dessas novas tecnologias”, aponta Maria do Carmo, usuária de ônibus. As câmeras de segurança também são bem aceitas pelos passageiros. A usuária Maria Terêsa ainda comenta que “as câmeras no ônibus só tiram a privacidade de quem está com ‘segundas intenções’. Elas são extremamente vantajosas”, completa.

Ainda existem outros sistemas que estão sendo implantados gradativamente, entre eles o Infoponto, que foi criado pela Prefeitura de Belo Horizonte, e busca informar os usuários sobre os principais pontos de embarque e desembarque, por intermédio de mapas esquemáticos, informações sobre itinerário e quadro de horários das linhas. Esses dados estarão dispostos em painéis eletrônicos em 230 abrigos localizados na Área Central e arredores da Avenida do Contorno. Fernando Chiarini, gerente de coordenação da Gestão de Informação da BHTrans, informou que a opção por instalar o Infoponto nos abrigos da Área Central se deu por se tratar de uma região com enorme circulação de pessoas e por permitir que os usuários de diferentes linhas possam obter informações sobre outras que ele eventualmente precise usar. Ele ainda afirma que antes da implantação do Infoponto, houve implementação de um

projeto piloto na Região da Savassi e foi feita uma pesquisa de opinião com os usuários em relação ao grau de satisfação dos mesmos. “ A imensa maioria aprovou o projeto e só então ele foi implantado definitivamente”, diz. Os usuários estão realmente muito satisfeitos com a nova tecnologia. A estudante de fisioterapia e acupunturista Carina Amaral conta que o Infoponto facilita o passageiro a chegar ao seu destino. “Informa pontos de referência, como por exemplo no cruzamento das Avenidas Amazonas e Afonso Pena onde se escreve Praça Sete. Além disso, evita ter que pedir informação ao trocador e ao motorista e depender da boa vontade deles e se localiza com mais facilidade”, diz. “A vida dos usuários do transporte coletivo melhorou bastante, porque quem vai pagar determinada linha de ônibus pela primeira vez e não conhece o itinerário, pode ter mais certeza de onde o ônibus

O Infoponto traz informações sobre intinerário, horários e pontos de embarque passa, onde não passa e dos os horários”, opina a estudante Dayse Cândida. Muitas pessoas também acreditam que essa inovação tecnológica estaria visando a Copa de 2014, que será realizada no Brasil. Mas Chiarini esclarece que a intenção não é essa. “Esses projetos não foram instalados especificamente para a Copa do Mundo, mas já ajudam. Existe uma comissão específica, da qual a BHTrans faz parte, para tratar das questões relacionadas ao Mundial, mas ainda não houve a

formatação de um projeto específico para 2014”, diz. No final do ano passado, a PBH, em parceria com o Google, também passou a oferecer ao usuário um serviço de informação sobre alternativas de rotas entre dois endereços, utilizando ônibus ou metrô. Segundo a assessoria de imprensa da BHTrans, o projeto “Como Chegar” permite que o usuário faça seus deslocamentos de forma planejada. O serviço está disponível no portal da instituição: www.bhtrans.pbh.gov.br


Saúde Março • 2009

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POSSIBILIDADE DE EXERCÍCIO GRATUITO Academias da Cidade têm atraído cada vez mais belorizontinos, oferecendo atividades físicas a quem não tem condições de pagá-las. Cerca de 400 alunos são atendidos em cada unidade MAIARA MONTEIRO

n NATHÁLIA DE OLIVEIRA,

qualquer aluno para ver que o objetivo vem sendo alcançado.

6º PERÍODO

Desde dezembro de 2006 estão funcionando as Academias da Cidade, desenvolvidas pela Prefeitura Municipal por meio do Projeto BH Saúde em parceria com instituições de ensino superior. A possibilidade de praticar exercícios físicos e receber orientação nutricional gratuitamente tem atraído cada vez mais belohorizontinos que lotam as nove academias já implantadas – cada uma possui cerca de 400 alunos – além dos que tentam uma vaga na lista de espera. Maria de Fátima Santos de 53 anos, frequentadora da Academia há dois, atribui à atividade física a diminuição das dores que sentia. “Eu tive paralisia infantil e sempre sofri com dores nos braços, além de não ter firmeza para segurar coisas pesadas. Agora eu consigo, melhorei bastante. Já indiquei a Academia da Cidade para várias pessoas”, conta. Para a aposentada Maria Lúcia de Almeida, de 68 anos, a academia vale mais que remédio. “Eu sempre ia ao médico, sentia muitas dores mas

Luana Reginato Moreira, professora e coordenadora de uma das Academias da Cidade, auxilia aluno nos exercícios nunca descobriam nada. Depois que comecei a fazer os exercícios, melhorei demais. Estava acima do peso e agora faço caminhada e me sinto bem. Essa Academia é o meu remédio”, conclui. PÚBLICO Ainda que a maioria dos alunos sejam mulheres acima dos 40 anos, vale lembrar que

qualquer pessoa a partir dos 18 anos pode procurar a Academia da Cidade mais próxima de sua residência. De acordo com Luana Reginato Moreira, uma das professoras de educação física da academia da Cidade do Bairro Minaslândia, na Regional Norte, a grande maioria dos alunos não tinha o

hábito de se exercitar regularmente e nem sequer havia entrado em uma academia antes. “Daí a necessidade de se fazer um trabalho de conscientização da melhoria da qualidade de vida, da alimentação e do sono desses alunos. É como uma academia normal, mas nosso objetivo não é trabalhar a parte estética, ela

pode vir como consequência. O principal ponto aqui é a redução da dosagem de medicamentos, diminuição do percentual de gordura e aumento do condicionamento físico. Não estamos trabalhando para que os alunos fiquem sarados, mas sim saudáveis”, explica. Basta conversar com

AVALIAÇÃO Para participar da Academia da Cidade o indivíduo é submetido à uma avaliação física criteriosa e, uma vez classificado como apto, é encaminhado ao grupo A, se não possuir nenhum tipo de limitação física, ou ao grupo B, onde a intensidade dos exercícios é mais branda. Existem ainda os horários especiais onde são atendidas pessoas que requerem maiores cuidados como gestantes, cardíacos e deficientes físicos. As aulas consistem em trinta minutos de caminhada e mais trinta minutos de exercícios de força – step, ginástica aeróbica, exercícios com pesos e aulas de dança – três vezes por semana. A PBH pretende ampliar o projeto, implantando cerca de 40 novas unidades nos próximos três anos. Tal crescimento é impulsionado por dados favoráveis, como a sobra de medicamentos anti-inflamatórios na farmácia do posto de saúde do Bairro Mariano de Abreu, onde foi instalada a primeira Academia da Cidade.

Grupo teatral ensina espectadores a prevenir doenças MAIARA MONTEIRO

n RAFAEL OLIVEIRA, 1º PERIODO

O grupo de teatro “Saúde em Cena”, que completou em março dois anos, conquista cada vez mais uma posição de destaque no cenário artístico e social mineiro. Criado pela Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES), o objetivo do gr upo é conscientizar a população quanto a doenças que trazem sérios riscos à saúde, mas com um diferencial: o bom humor e a habilidade de interação com o público. Com vários trabalhos de prevenção já realizados, como por exemplo no combate à dengue e ao tabagismo, o grupo esteve recentemente em cartaz no colégio Sagrado Coração de Jesus antecedendo a peça “Meu tio é tia”, com uma rápida apresentação que teve como foco, mais uma vez, a luta contra a dengue. Susan Prado, formada em Psicologia e voluntária do projeto, revelou a importância do teatro no combate a

doenças graves. “As informações todo mundo sabe, como por exemplo não deixar água parada, mas o teatro traz de uma forma lúdica, de uma forma que as pessoas se identificam, absorvendo as informações mais facilmente”, diz. Sobre os objetivos do gr upo, Susan demonstrou o desejo de expansão das atividades do “Saúde em Cena”, buscando a ampliação das atividades e do público a ser atingido, destacando, também, a busca pelos ideais sociais que caracteriza o gr upo. “Promovemos a saúde através do teatro com amor e carinho, e nosso objetivo é obter cada vez mais visibilidade, mostrar que temos um sentido no trabalho e passar a corrente pra frente”, afirma.

HISTÓRIA O diretor artístico do grupo, Joney Fonseca, formado em Jornalismo e Artes Cênicas e também ator da peça “Meu tio é tia”, revela que o gr upo surgiu com a intenção de utilizar a força de trabalho para

levar a mensagem de saúde para a população. Segundo ele, há também o objetivo de ser vir de modelo para que outros grupos de teatro sejam criados tomando como referência o “Saúde em Cena”. “A idéia é estimular também as regionais de saúde do estado de Minas Gerais e os próprios municípios para iniciativas artísticas de caráter social como a nossa”, conta.

PARCERIAS Ao f a l a r sobre o diferencial do gr upo, Joney destacou um conjunto de parcerias como principal motivo do sucesso do projeto: “O diferencial do nosso gr upo são as p a rc e r i a s que re a l i z a m o s c o m o, p o r exemplo, com a Asmare ( A s s o c i a ç ã o d o s C a t a d o re s d e Pa p e l , Pa p e l ã o e M a t e r i a l Reciclável) sendo nosso cenário completamente reciclável. Outra peça chave em nossa empreitada é o figurinista Flávio C a r v a l h o, q u e é v o luntário, e nos ajuda com todo o figurino e maquiagem do projeto Saúde em Cena.

Grupo “Saúde em Cena” em uma de suas intervenções, ensinando cuidados necessários para o combate à dengue Quanto mais parcerias puderem existir, maior a mobilização que podemos alcançar ”.

PÚBLICO A reação da platéia durante a apresentação do gr upo é imediata. Muitas risadas e olhares atentos podem ser observ a d o s . “A c h e i l e g a l , eles deram o recado de

q u e p re c i s a m o s s e r mais conscientes, tomar mais cuidado em nosso cotidiano, e ainda através do bom humor, o que tor na o processo de entendimento mais fácil ainda”, a p ro v a a super visora de call center Helen Peçanha. O gr upo “Saúde em Cena”, que já passou

por diversas cidades mineiras como Uberaba, Caeté, Diamantina, Confins e Carmópolis, atualmente se apresenta em aeroportos, rodoviárias, na r ua e em eventos em geral. Para conhecer o p ro j e t o, a c e s s e : h t t p://teatrosaudeemcena.zip.net/


12 Cidade

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Março • 2009

POPULAÇÃO QUER SALVAR PROJETO Agente Jovem, único programa que atendia jovens na Vila Sumaré, não funciona desde dezembro do ano passado. Para retomá-lo é indispensável a implantação do BH Cidadania no local ANTONIO ELIZEU

n ALINE LEITE, ANTONIO ELIZEU, 4º PERÍODO

Nayara Cristina Frederico, 17 anos, desempregada, duas filhas, uma de um ano e oito meses e outra de três anos, mora com a mãe, que foi acometida de derrame cerebral (AVC) e mais dois irmãos, ambos também sem ocupações. A adolescente, que estudou somente até a 5ª série do Ensino Fundamental, era uma das participantes do Projeto Agente Jovem, na Vila Sumaré, Região Noroeste de Belo Horizonte, e usava a bolsa que recebia no programa para ajudar no sustento da família, que tem um ganho mensal de R$ 102 através do Bolsa Família. “O programa é muito bom, aprendia muitas coisas. Ficamos tristes quando soubemos que ia acabar”, relembra Nayara, que aprendeu grafite, informática e os cursos de temática, além do esporte. O Projeto Agente Jovem, que atendia jovens em situação de risco social, teve seu término decretado, na Vila Sumaré, em dezembro de 2008. “Fomos avisados pela Coordenação Social da PBH (Prefeitura de Belo Horizonte) desde o início do ano passado, que as atividades do projeto encerrariam em dezembro daquele ano”, conta Abedias Pereira de Souza, o Bida, 57 anos, líder comunitário, presidente da creche e

Rosemeire e Abedias lutam pela implantação do Cras na Vila Sumaré, o que possibilitaria a volta do Agente Jovem responsável pela administração do projeto naquele local. Segundo o gerente regional de Políticas Sociais da Secretaria de Administração da Regional Noroeste, Marco Cavalcante, o projeto passou por uma reformulação em instância nacional, passando a chamar-se PróJovem-Adolescente e contemplar adolescentes entre 15 e 17 anos e, um dos requisitos básicos, é que só poderá ser ofertado em locais onde se tenha implantado o Centro de Referência da Assistência Social (Cras) – também conhecido como BH Cidadania, localizado

em áreas com maiores índices de vulnerabilidade e risco social. E apesar de reconhecer que a Vila Sumaré esteja nesse enquadramento, ele declarou que a prefeitura ainda não dispõe de recursos para a implantação do Cras naquele local. Na Vila Sumaré, os líderes, inconformados com o fim do programa que atendia aos jovens, mobilizaram a comunidade para lutar contra o fim do Agente Jovem, fizeram abaixo-assinado, reuniram com o antigo gerente regional de Políticas Sociais, Alfredo Ananias e enviaram um ofí-

cio ao atual secretário, Marco Cavalcante. Na última terça-feira, 10 de março, conseguiram uma reunião para discutir essas questões com o secretário adjunto de Políticas Urbanas e Sociais, Nildo Taroni, além do secretário da Regional Noroeste, Ajalmar José da Silva. Na reunião, os líderes comunitários Rosemeire Pinto, Bida e José Cupertino sugeriram destinar três salas da Unidade Municipal de Educação Infantil (Umei), que teve sua construção aprovada pelo orçamento participativo, ou o antigo Centro de Saúde, que hoje

só funciona como sede da zoonose, para abrigar o Cras. Dessa forma, seria possível atender às exigências do governo, possibilitando a volta do Agente Jovem. “Era o único projeto dessa natureza que atendia essa comunidade”, declarou Bida, e disse que o próximo passo é lutar para a implantação do BH Cidadania na Vila Sumaré. “Ganhamos um novo prédio no OP (Orçamento Participativo) onde funciona hoje o Centro de Saúde. Fizemos reunião e disponibilizamos o antigo prédio onde funcionava o Centro de Saúde, para implantar o Cras, é necessário manter o projeto para os jovens aqui”, revela Rosemeire. No encontro com os secretários da Regional Noroeste, além da entrega de um documento com as reivindicações da Vila Sumaré, ficou decidido que a prefeitura tentará buscar soluções para o problema, mesmo que seja a implantação de um novo projeto. “Vou levantar o porquê ele acabou. Porque ele (Agente Jovem) é federal. E se tem como retornar, a gente vai brigar. E vamos pensar outra alternativa”, afirmou Ajalmar. “Não depende só de nós, dependemos do MDS (Ministério de Desenvolvimento Social e Combate a Fome). Estamos preocupados com a comunidade mas com a posse do novo

prefeito, estamos em transição, mudança estrutural”, ressalta Marco Cavalcante. O Agente Jovem foi um projeto criado em 2001, numa parceria do Governo Federal e as Prefeituras Municipais e atendia jovens entre 15 e 18 anos, proporcionando-lhes a oportunidade de se reintegrarem à sociedade por meio de esporte, lazer e cursos, além de uma bolsa de R$ 65. Implantado na Vila Sumaré com a ajuda da Agente Comunitária de Saúde Rosimeire Pinto, 40 anos – e que juntamente com outros sete companheiros faz parte da liderança da comunidade – o projeto contemplava 50 jovens daquela comunidade. De acordo com Bida, o projeto capacitava e remunerava os educadores, mantinha os “oficineiros”, que ministravam aulas de capoeira, artes plásticas e várias modalidades esportivas, tendo a parte pedagógica mantida pela Secretaria Municipal de Educação. Os jovens eram inseridos nas modalidades, permanecendo em cada uma durante seis meses. “Construímos juntos o programa, criamos bons alicerces, trabalhando a questão da identidade dos jovens, dando a eles autonomia para serem os protagonistas da sua própria história e vem a PBH tirar o que construímos?”, reclama Rosemeire.

Altos preços de alimentos nos aeroportos da capital n JULIA LERY, ISABELA CORDEIRO, LAURA ZSCHABER, 1º PERÍODO

O Movimento das Donas de Casa (MDC-MG) disponibilizou em seu site (www.mdcmg.com.br) uma pesquisa em que constata a grande diferença entre preços praticados em cafés e restaurantes dos aeroportos de Confins e Pampulha em comparação com estabelecimentos dos mesmos ramos localizados no Terminal Rodoviário e no centro de Belo Horizonte. “Com a demanda crescente de consumidores nos aeroportos, a disparidade dos preços foi percebida”, diz a diretora de pesquisa do MDC-MG, Teresinha Teixeira. Ela esclarece que o estudo foi feito com base em reclamações de alguns consumidores. A pesquisa apurou, por exemplo, que um café com leite pequeno pode custar até R$ 5 no aeroporto Tancredo Neves, em Confins, contra R$ 1,80 na rodoviária e R$ 0,80 no centro. A variação, nesse caso, de acordo com o Movimento das Donas de Casa é de mais de 500%. O supervisor da cafeteria BlackCoffee no aeroporto da Pampulha, Fábio Antônio Ribeiro, justifica a discrepân-

cia dos preços com base nos valores dos aluguéis. Segundo ele, o aluguel de uma lanchonete no centro custa, em média, R$ 4 mil por mês, preço que sobe para R$ 7 mil na rodoviária e R$ 18 mil no aeroporto. A Infraero, por meio de sua assessoria de comunicação social, informou que o processo de licitação é regido por lei, e pode ser feito por tomada de preços. Além da disparidade nos preços dos aluguéis, o gerente Fábio Ribeiro responsabiliza também a transferência da maioria dos voos da Pampulha para o Aeroporto de Confins, acarretando significativa redução no movimento diário. “Se houvesse equilíbrio na divisão de voos entre os aeroportos, o movimento ajudaria a abaixar o custo dos produtos”, acrescenta. Alex Cortílio, de 34 anos, quando questionado no Aeroporto de Confins sobre a diferença de preços afirmou que já havia observado que produtos e serviços nos aeroportos de Belo Horizonte são mais caros do que em outros pelos quais já passou, até mesmo os internacionais. Ângela Cordeiro, de 43 anos, entrevistada no aeroporto da Pampulha, também observou essa diferença. “Nos aeroportos de São Paulo, o movi-

mento é bem maior e os preços não sofrem grandes variações se comparados com os de lanchonetes comuns”, diz. Há ainda um agravante, a variação de preços não se limita aos lanches. Para chegar até o Aeroporto de Confins, o passageiro conta com poucas opções viáveis. Ao optar por um ônibus convencional, pagaria R$ 7,65, além do transporte até a rodoviária, mas nessa opção, precisaria carregar a própria bagagem. O serviço de ônibus executivo custa R$ 16,90, além do transporte até o centro, de onde sai o ônibus. Há ainda a possibilidade de ir de táxi, que pode custar até R$ 95 de alguns bairros de Zona Sul até Confins. A diária no único estacionamento do aeroporto Tancredo Neves, por sua vez, custa R$ 30. Evandro da Cunha, 39 anos, afirma: “Fiquei dez minutos parado no estacionamento e tive que pagar R$ 4”. Ele diz ainda que encaminhou a denúncia a um jornal local, mas não resolveu o problema. Teresinha Teixeira acredita que a situação é de difícil solução, pois a Infraero não detém controle sobre os preços, apenas sobre o gênero do estabelecimento, o que foi confirmado pela assessoria de comunicação da empresa.

Comparação de preços: Produtos :

Aeroporto *

Rodoviária **

Centro ***

Água MIneral sem gás

R$3,00

R$1,50

R$1,20

Pão de queijo

R$2,50

R$1,20

R$1,00

Coxinha com catupiry

R$4,10

R$2,30

R$2,50

Refrigerante lata

R$4,40

R$2,20

R$1,80

*Cafeteria Black Coffe-Aeroporto de Confins **Fritas e Cia-Estação Rodoviária ***Lanchonete Ki-delícia MAIARA MONTEIRO

No Aeroporto da Pampulha, onde fica localizada a cafeteria Black, um café pequeno pode custar até R$ 5


Cidade Março • 2009

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MARCELO COELHO

AÇÕES CONJUNTAS NA LUTA CONTRA A DENGUE Prefeitura de Belo Horizonte faz pacto com cidades da Região Metropolitana visando o conter a proliferação do mosquito n DIANA FRICHE, LAURA SANDERS, 4º E 5º PERÍODOS

Maria do Nascimento Oliveira Silva, ajudante de cozinha do restaurante Macau, no Bairro de Lourdes, não pensava que a dengue pudesse deixá-la tão mal. Quando ficou doente, ela diz que nunca passou nada igual. Sentia febre, dor no corpo, tremura e “aquela fraqueza”. “O meu corpo doía tanto que parecia que eu tinha levado uma surra”, conta. Maria passou nove dias doente. Tentou trabalhar mas o estado de saúde não permitiu. Durante esse tempo, ela esteve no hospital por três vezes com dor no corpo. “A gente tem que ter muito cuidado porque é perigoso. Eu não quero que ninguém sofra como eu sofri“, alerta a trabalhadora, que diz cuidar para não deixar água parada em sua residência. O secretário de saúde da Prefeitura de Belo Horizonte, Marcelo Teixeira, afirmou que todo o vetor norte da capital é uma área de maior pre-

ocupação, já que apresenta grande índice de infestação da dengue. Para este ano, o secretário conta que o prefeito Marcio Lacerda elaborou uma ação conjunta com participação de várias áreas da administração municipal, além da saúde: limpeza urbana, comunicação, educação, planejamento e área de regulação urbana da capital. Sobre o risco de uma epidemia, Marcelo Teixeira conta que existe essa possibilidade, já que a última ocorreu há uma década e que o Espírito Santo, estado bastante frequentado pelos mineiros, tem circulação do tipo dois, que é letal. “Estamos em situação de risco. A última epidemia de dengue já foi há dez anos, então nós temos uma grande população suscetível, ou seja, que não teve contato com o vírus”, adverte. Marcelo disse que as ações de rotina foram intensificadas para o controle da doença. “Nós estamos mobilizando 1.200 agentes de controle de epidemias que estão

fazendo ciclos de visitas nas casas”, informa. Além disso, o secretário de saúde conta que estão sendo feitos mutirões com agentes comunitários, de controle da endemia e de limpeza urbana. Segundo ele, o resultado têm sido satisfatório. Em três semanas, do final de janeiro ao início de fevereiro, já tinham sido recolhidas praticamente 200 toneladas de lixo nas áreas onde foram percorridos os mutirões, priorizando as áreas com maior incidência, com maior infestação e com a ocorrência maior de casos de dengue. Além de todas as medidas tomadas para acabar com a dengue na capital mineira, foi iniciado este ano um trabalho de prevenção conjunta com oito municípios próximos à Belo Horizonte: Ribeirão das Neves, Vespasiano, Santa Luzia, Sabará, Nova Lima, Ibirité, Contagem e Betim. Segundo Marcelo Teixeira, essa ação foi tomada por haver um grande número de pessoas que circula

diariamente em mais de uma cidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte. “Temos uma área conurbada, em que há uma circulação de pessoas. A pessoa mora num lugar, trabalha em outro, estuda em outro. Há um cidadão que é metropolitano e há uma área de risco que é metropolitana”, explica.

PROXIMIDADES

Em Contagem, já foram feitos seis mutirões de limpeza nos bairros do município. A prefeitura está investindo na mobilização educativa, por meio da panfletagem, na educação sanitária e no bloqueio químico, mais conhecido como “fumacê”. Segundo José Renato Rezende Costa, gerente de zoonoses de Contagem, a ação conjunta entre os municípios da Região Metropolitana foi uma espécie de pacto contra a dengue, em que cada município ficou responsável por campanhas e ações para evitar a proliferação da doença.

Marcelo Teixeira afirma que o vetor norte da capital é o mais preocupante No município de Nova Lima, a pedagoga do Setor de Educação e Saúde da Prefeitura, Denia Aparecida Ferreira do Carmo, conta que entre as ações para conter a doença estão o “Bota Fora” e o LIRA (Levantamento de Índice Rápido), que indica a presença do mosquito. Ela explica que o “Bota Fora”, que antes era uma ação regional, agora vai abranger toda a cidade. Neste evento, agentes da administração municipal identificam os depósitos

mais comuns do mosquito e recolhem esses objetos nas residências e lotes vagos. Além dessas ações diretas, a Prefeitura de Nova Lima está elaborando um comitê externo que irá integrar as secretarias de Educação, Meio-ambiente, Obras, Comunicação e Assistência social. Denia do carmo esclarece que além do comitê interno, formado pela Secretaria de Saúde, é importante a ação conjunta dessas secretarias.

Região Noroeste da capital em situação de alerta MAIARA MONTEIRO

Apesar do Centro de Saúde do Dom Cabral ter notificado apenas um caso de dengue este ano, a agente de zoonoses Maria Aparecida Valadares afirma que o período é de alerta, já que o mês de março costuma apresentar altos índices da doença e os agentes de saúde têm notificado a presença do mosquito na região. A moradora do bairro, Jacira Alves de Souza, de 75 anos, já teve dengue há cinco, quando fez uma viagem ao litoral do Espírito Santo. Atualmente, seu maior medo é de pegar a doença novamente. “Eu só tenho medo de pegar outra vez porque corre o risco de ser hemorrágica”, revela. Jacira conta que teve muitas dores de cabeça, enjoo e uma sensação de tremor. Como estava doente ela não aproveitou o passeio. A moradora se diz muito apreensiva com a proliferação do mosquito. “Eu tenho muito cuidado com minha casa, mas tem os vizinhos”, ressalta.

tratamento adequado. A fiscalização, segundo ela, deve ser feita nas próprias casas, mas também observando os lotes vizinhos. “Cada um é um agente que deve estar informando à zoonose para trazer a responsabilidade dos vizinhos”, observa Maria Aparecida.

AÇÕES Para controlar

Agentes de saúde realizam mutirões para identificar os focos do mosquito nas residências da Região do Dom Cabral Para Maria Aparecida Valadares, a dengue é uma doença muito complexa. “A dengue é um problema social, da comunidade. Você acha os focos nas moradias”, afirma. Mesmo com toda campanha, ela se mostra preocupada porque não há uma mudança de atitude por parte da popu-

lação. “Esse olhar diferenciado para dengue o povo não criou. Com outras coisas eles se preocupam. Quando vai viajar lembram de não deixar um fogo ligado, uma coisa que pode pegar fogo, por exemplo, mas se tem uma vasilha de planta que pode proliferar o mosquito eles

não lembram”, constata. Segundo a agente, o problema ainda se concentra nos lotes vagos, que só são limpos quando a prefeitura manda uma notificação; nas caixas d’água que não estão bem vedadas como acreditam os moradores; nas calhas e até em piscinas que não recebem um

os focos de mosquito na região, os agentes de zoonoses do Dom Cabral visitam as moradias cinco vezes ao ano, numa atividade que chamam tratamento focal. Além disso, a cada 15 dias eles controlam os pontos estratégicos, os chamados PE’s, que são locais de maior risco. O campus Coração Eucarístico da PUC está entre eles. Maria Aparecida conta que a universidade é um local onde circulam pessoas de todas as regiões da cidade e também vindas do interior de Minas. Ela afirma que, com o retorno das férias e do Carnaval, quando muitos alunos viajam para municípios

que apresentam a doença, há um risco de proliferação. “As pessoas voltam de áreas que tem a presença da doença e são contaminadas. Quando voltam, transmitem a doença aqui”, explica. A PUC Minas está mobilizando suas diversas unidades para combater a dengue. No campus Betim, alunos do curso de fisioterapia criaram o projeto “Todos Contra a Dengue”, com o apoio do Comitê Municipal Intersetorial de Combate à Dengue e em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde de Betim. Desde 18 de março e durante cinco semanas, cerca de 50 alunos estão orientando moradores quanto aos cuidados necessários. Alunos do 4º e 5º períodos de enfermagem da unidade Barreiro estão realizando encenações teatrais e distribuição de panfletos para conscientizar a comunidade acadêmica sobre as ações preventivas. O projeto abrange ainda o campus Coração Eucarístico e as unidades São Gabriel, Betim e Contagem.


14 Cidade

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Março • 2009

SÃO JOÃO, A TERRA DE TIRADENTES Justiça decide que o herói da Inconfidência nasceu no município de São João del Rei, mas ainda não há um registro civil TATIANA LAGÔA

n TATIANA LAGÔA,

Decisão não muda a valorização do herói

7° PERÍODO

O impasse judicial quanto a naturalidade de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que envolvia três municípios mineiros – São João del Rei, Tiradentes e Ritápolis –, ainda não chegou ao fim apesar de já ter saído a sentença judicial. Mesmo sem cessar o embate, a sentença trouxe um dado novo para a história do país: o herói nacional é sanjoanense. Apesar desta vitória alcançada, os representantes do Instituto Histórico e Geográfico (IHG) de São João del Rei recorreram à Procuradoria Geral do Estado para buscar o registro civil de Tiradentes, já que o juiz julgou desnecessário. “Queremos o registro ainda que tardio porque estamos na República e o que vale é esse documento agora”, explica o presidente da instituição, José Antônio de Ávila Sacramento. O juiz responsável pelo caso, Hélio Martins da Costa, confirmou a naturalidade sanjonense de Tiradentes, mas não acatou a tese de conceder um registro civil tardio para o herói. “É de se concluir, ante o que restou evidenciado nos autos, que Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, é natural de São João del Rei”, afirma a setença judicial. Quanto à questão do registro, no mesmo documento, o juiz questiona: ”Se Joaquim da Silva Xavier já tem registro, realizado dentro dos preceitos legais regentes ao tempo de seu nascimento, assinalando a sua existência jurídica, porque realizar o registro tardio conforme pretensão deduzida nesses autos?”. O advogado que representa a cidade de São João del Rei neste caso, Wainer Carvalho Ávila, entende que o juiz admitir que Tiradentes é sanjoanense “já é um avanço”. “Mas não o suficiente porque

Mesmo antes de comprovar que Tiradentes é natural de São João Del Rei, a cidade já mostrava seu orgulho pelo herói queremos um registro. Entendo que Tiradentes é uma pessoa sem registro, já que o batismo é uma questão religiosa e o Brasil agora é um país desvinculado dessas questões”, observa. O procurador geral do Estado que analisou o caso acatou a tese sanjoanense, mas para que a sentença judicial seja modificada é preciso que o desembargador também dê o aval necessário. “Se não conseguirmos ganhar essa causa em Belo Horizonte, iremos recorrer ao Supremo Tribunal Federal em Brasília”, salienta. Já o membro do Instituto Histórico e Geográfico do município de Tiradentes, Rogério de Almeida, afirma não considerar importante definir a naturalidade do herói. “Eu acho tudo isso uma grande bobagem. O Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes não está se preocupando com essa questão judicial não. No meu ponto de vista, isso é uma perda

de tempo e nada vai mudar a História”, afirma. Quanto ao fato dos representantes de São João del Rei recorrerem a um tribunal superior ele comenta: “Essa atitude só mostra que continuamos esquartejando o Tiradentes. Ele não pertence a nenhuma das três cidades, hoje ele é um herói nacional e não só de um município”, acrescenta. EMBATE Tudo começou em 2005, quando José Antônio Sacramento recorreu à Justiça em busca do registro civil tardio de Tiradentes, que nasceu em um período anterior a esse tipo de documento. À época, o presidente do IHG de São João del Rei afirmou estar em busca de uma comprovação da naturalidade do alferes motivado pela preocupação com o que as crianças aprendem na escola sobre a história do país, pela falta de uma biografia bem detalhada de uma personalidade histórica e por acreditar que Tiradentes é

um patrimônio imaterial da cidade na qual nasceu. Essa atitude, porém, desagradou representantes das cidades mineiras de Tiradentes e Ritápolis que apresentaram ao Ministério Público contestações ao processo. O promotor de Justiça responsável pelo caso, Adalberto de Paula Christo Leite, acatou a tese de São João del Rei, no início de 2008, e a sentença saiu ainda ano passado. HISTÓRIA Para entender a disputa e o tipo de registro que Tiradentes possui é preciso voltar ao passado, em 12 de novembro de 1746, quando ele nasceu. Naquele período, quem registrava os nascimentos era a Igreja Católica, o que valeu até o primeiro dia de 1889. Consta no livro de assentamentos de batizados, que Tiradentes foi registrado na Capela de São Sebastião do Rio Abaixo que pertencia à freguesia de Nossa Senhora

Apesar de, no papel, a naturalidade de Joaquim José da Silva Xavier já estar definida, na prática pouca coisa mudou. As três cidades possuem monumentos em praças dedicadas ao herói, considerado em todas um “filho famoso”, e pelo que se constata essa realidade não vai ser alterada por causa da sentença judicial. Antes mesmo de sair a sentença judicial, o membro do Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, Rogério Almeida, classificava a ação como uma atitude sensacionalista e já questionava: “São João vai deixar de chamar São João e vai chamar Tiradentes? Não vai mudar nada. Ninguém vai reescrever a História”. Para se ter idéia do quanto os moradores dessas cidades levam a sério essa filiação do herói, Ritápolis, por exemplo, recebe os visitantes com uma placa na entrada da cidade com os dizeres: “Ritápolis, terra natal de Tiradentes”. São

do Pilar. Como essa igreja pertencia a então Vila de São João del Rei, o juiz concluiu que ele era sanjoanense e que os documentos daquela igreja já eram o bastante, não havendo necessidade de um registro civil. Mas o debate entre as três cidades passava pela Fazenda do Pombal, onde nasceu o inconfidente e que já pertenceu a todas elas, em períodos distintos. Por essa razão, um dos esforços dos envolvidos foi o de comprovar na Justiça a quem pertencia o

João del Rei compartilha desse orgulho e o demonstra através da praça Tiradentes que tem em seu centro uma estátua do herói e que se localiza na Avenida Tiradentes, no centro da cidade. O município de Tiradentes também não faz nenhuma questão de esconder a simpatia pelo herói, haja visto que estampa isso logo no seu nome, sem contar que também tem uma praça onde fica o busto do alferes. O próprio advogado que representa São João del Rei no embate, Wainer Carvalho Ávila, afirma não esperar mudanças mais visíveis, como a retirada do busto do herói da cidade de Tiradentes ou da placa na entrada de Ritápolis. “Para nós, o valor é a repercussão nacional que essa sentença vai alcançar. Acredito que Tiradentes é um herói esquecido fora de Minas Gerais, essa é uma oportunidade de valorizá-lo”, defende.

local na data do nascimento de Tiradentes. Os município de Tiradentes e São João del Rei sempre disputaram essas terras. Entre 1718 e 1955, elas estavam em posse sanjoanense. Ritápolis fazia parte de São João del Rei e ainda não era uma cidade nessa época, só em 30 de dezembro de 1962, quando foi emancipada. O que a credenciou a participar do embate judicial foi o fato de ser o atual endereço da Fazenda do Pombal, que hoje são ruínas preservadas pelo município.

Associação apresenta artes cênicas à comunidade MAIARA MONTEIRO

n KAROLINA LIMA COELHO,

Mas se o projeto social nasceu do excesso, a escassez de espaço certamente não lhe causará a morte. “Temos convicção de que nosso trabalho está só no início e que podemos ir mais longe”, anuncia Hérlen Romão. No ano de 2008, o projeto atendeu a 125 pessoas, entre crianças, adolescentes e jovens. E, apesar de não haver estatísticas oficiais, a fundadora estima que desde o surgimento da associação, toda a Vila Aparecida e 80% da Vila Conceição, que compõem o aglomerado, já foram assistidas.

1º PERÍODO

Fundada em 13 de março de 1999, a Associação Cultural Cênico Paternon surgiu de um sentimento comum a Hérlen Romão e Juliano Magalhães: o amor pelo teatro. Nessa época, Juliano frequentava as primeiras aulas de interpretação e Hérlen, professora de informática, estava afastada dos palcos após três anos como integrante do grupo teatral “Raízes”. Os dois moradores do Aglomerado da Serra trocaram experiências e decidiram montar um grupo teatral, cujos objetivos eram incluir a comunidade no mundo das artes cênicas e retratar o cotidiano na periferia. Hérlen e Juliano convidaram alguns amigos e estava fundado o Grupo Teatral Paternon. Logo após seu nascimento, o grupo contava com dez integrantes reunidos num espaço muito maior que o necessário. Os fundadores do grupo perceberam que podiam fazer ainda mais pela comunidade e a partir dessa avaliação surgiu o Projeto Social Paternon, que

No Paternon as crianças têm contato com as primeiras noções de teatro deveria ensinar às crianças e aos jovens as primeiras noções de teatro e de cidadania. A Associação Cultural Cênico Paternon reúne o grupo teatral, projeto social e, segundo informações da diretoria, em breve, a cooperativa Paternon. Dez anos após seu surgimento, o espaço se tornou pequeno. Atualmente, o local é

denominado centro comunitário. Por isso, além da Associação Paternon, que o utiliza para ensaiar, guardar cenários e figurinos, funcionam no mesmo endereço: o “Programa Fica Vivo” da Prefeitura de Belo Horizonte, um pré-vestibular e a Acolus (Associação de Partes dos Bairros São Lucas e Serra).

ATIVIDADES No início, o projeto se dedicava inteira e exclusivamente às artes cênicas. Anos mais tarde, percebeu-se a necessidade de preparar os jovens para o ingresso no mercado de trabalho. “Desde 2003, introduzimos então aprendizados relacionados ao mercado de trabalho e parcerias como a Cruz Vermelha”, conta Hérlen. Atualmente, o Projeto Social Paternon se divide em duas etapas: o Programa Luzes de Minas, que atende a crianças de 6 a 12 anos, e oferece aulas de

informática, reforço escolar, aulas de dança e de teatro, que inclui interpretação e produção de figurinos e de cenários; o Programa GAI (Grupo de Acompanhamento Intensivo), que assiste adolescentes e jovens de 12 a 23 anos com debates sobre sexologia, comportamento humano e ética, além de preparação profissional. Além disso, a associação exerce para muitos adolescentes a função de desmitificar a profissão de ator, conscientizando-os das dificuldades dessa atividade. “Os jovens” acreditam somente no glamour. Pensam que é só aquele momento da apresentação, cheio de abraços e cumprimentos. Temos que os fazer compreender que a vida de ator não é fácil, precisa muita preparação e dedicação”, explica Hérlen. Os participantes frequentam o projeto duas vezes por semana de manhã ou à tarde, período em que não estão na escola regular. Mas a fundadora do grupo ressalta que, em casos especiais, em que, por exemplo, os responsáveis pelas crianças não têm com quem

deixá-las, elas são atendidas todos os dias.

FINANÇAS A Associação Cultural Cênico Paternon não recebe qualquer apoio governamental. Para se manter o grupo conta com formas diferentes de auxílio. O espaço onde funciona a associação foi cedido por uma entidade católica, os parceiros do projeto financiam algumas atividades e pagam os salários de alguns funcionários. As crianças e jovens também colaboram com mensalidades que variam de R$ 5 a R$ 10, gerando, aproximadamente, R$ 500 para cobrir despesas, tais como a compra de equipamentos e materiais e pagamento administrativo. A fundadora esclarece que qualquer pessoa pode se tornar parceira do grupo. “É muito difícil encontrar pessoas e entidades que queiram trabalhar com o nosso público alvo, diz Herlen. “Este ano, devido à crise mundial, foram encerradas várias parcerias, ainda não conseguimos solução para isso”, acrescenta.


Cidade Março • 2009

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PBH REAVALIA NOVA RODOVIÁRIA O prefeito Marcio Lacerda afirma que é preciso ter dados técnicos muito confiáveis para então se convencer que a trasferência do terminal rodoviário da capital é a solução mais viável MAIARA MONTEIRO

n STEFÂNIA AKEL, 3

PERÍODO

A polêmica mudança do Terminal Rodoviário Governador Israel Pinheiro (Tergip), localizado no hipercentro de Belo Horizonte, para o Bairro Calafate, Região Oeste da capital, continua sem definição. O prefeito Marcio Lacerda contratou a empresa de consultoria Macroplan Prospectiva Estratégica & Gestão Ltda, para, juntamente com a BHTrans, analisar a viabilidade da manutenção do terminal, além de estudar os impactos financeiros e estruturais da transferência para o Calafate. A conclusão do estudo está prevista para maio, quando o prefeito pretende reiniciar as discussões com a população, incluindo a Câmara Municipal nos debates. A prefeitura já considera a hipótese de manter a rodoviária onde está. Em novembro passado, o prefeito Marcio Lacerda afirmou ao MARCO que a transferência seria amplamente discutida com a população e as lideranças comunitárias. De acordo com ele, essa promessa ainda vale e será cumprida assim que o estudo for encerrado. “Vamos con-

Prefeitura proteme ouvir população antes de decidir sobre a Rodoviária de BH versar com a população depois desse estudo para ver se realmente terá um impacto tão grande quanto eles temem no Calafate”, diz Marcio, em nova entrevista ao MARCO. Segundo o prefeito, antes de conversar com a comunidade local é preciso ter em mãos “dados técnicos muito confiáveis” com relação ao possível impacto do trânsito na região. “Os estudos estão sendo refeitos para que, em primeiro lugar, eu possa me convencer de que não haverá esse impacto no trânsito que a população teme, para depois a gente conversar”, observa. OPÇÕES Mesmo se o estudo

concluir que a manutenção da rodoviária na região central é inviável, a construção do prédio no Calafate não é garantida. Segundo Marcio, o estudo técnico em andamento vai indicar as principais alternativas para o tema. Outro local já considerado pela prefeitura é o limite da capital com Contagem, mas o prefeito, em entrevista ao MARCO no mês de fevereiro, afirmou que não há chance dessa nova rodoviária ser construída nesse local. “Isto não está em análise no momento”, garante Marcio. “É importante frisar que o projeto de lei de transferência da rodoviária do ex-prefeito Fernando Pimentel não indi-

cava a mudança para o Calafate, somente definia o processo de licitação”, lembra Guilherme Neves, presidente do SOS Bairros, entidade representante dos moradores dos Bairros Prado, Calafate, Gutierrez e Barroca. Guilherme acredita que a manutenção da rodoviária no centro é a melhor opção, mas que são necessárias reformas nas vias ao redor do Tergip para a melhora do trânsito da região. Segundo ele, a mudança do terminal para o Calafate é inviável. “A região do Tergip fica saturada somente em feriados prolongados, como o Carnaval. Já o trânsito do Calafate é caótico naturalmente”, argumenta. Esse também é o pensamento de Ernani Ferreira Leandro, representante da Comissão de Moradores dos Bairros Gameleira e Nova Suiça. “Um trabalho de adaptação no centro pode ser a solução para manter a rodoviária onde está”, acredita. De acordo com ele, se a mudança for realmente necessária, é preciso um amplo estudo que leve em consideração o impacto de um terminal rodoviário em diferentes regiões da capital.

Iniciativa do prefeito agrada lideranças O adiamento da transferência da rodoviária e a realização de estudos técnicos para analisar os impactos de uma possível mudança do terminal para o Calafate agradaram os líderes comunitários da Região Oeste da capital. “A nossa expectativa sempre foi de que o Marcio Lacerda fosse um prefeito mais popular, que escutasse a população. O ex-prefeito Fernando Pimentel não abria diálogos, batia logo o martelo”, compara Guilherme Neves, presidente do SOS Bairros. Ele acredita que o prefeito também deve fazer com que o terminal opere com 100% de sua capacidade, o que não é o caso do Tergip, que opera com 70%. Guilherme lembra, ainda, que Marcio Lacerda não deve deixar de atualizar, junto à população, o Plano Diretor de Belo Horizonte, que atualmente se encontra vencido, antes de iniciar uma possível transferência. A Lei do Plano Diretor de Belo

Horizonte é formada através de consultas populares, respeitando sempre os interesses coletivos, e vence a cada dez anos. Ernani Ferreira Leandro, representante da Comissão de Moradores dos Bairros Gameleira e Nova Suíça, também considera que o novo prefeito está no caminho correto. “Ele está levando em consideração o entendimento da comunidade sobre o assunto, o que é o mínimo que um representante tem que fazer”, analisa. Segundo ele, o posicionamento da comunidade contra o projeto da rodoviária no Calafate foi fundamental para que a prefeitura considerasse melhor o que fazer. “A comunidade evitou um transtorno, uma idéia estapafúrdia. O estudo que o Marcio Lacerda encomendou à Macroplan com certeza indicará a impertinência da rodoviária no Calafate”, conclui.

Cem anos da morte do ex-presidente Afonso Pena n LARA PONTES, BRUNA ALVES AGUIAR,

BARBARA DUTRA

1º PERÍODO

Em 2009, comemora-se o centenário da morte de uma personalidade de destaque no cenário político brasileiro. Afonso Augusto Moreira Pena nasceu na cidade de Santa Bárbara do Mato Dentro, em 30 de novembro de 1847, foi deputado e presidente do Brasil, contribuindo para o desenvolvimento do estado e do país. Fundador da “Faculdade de Livre Direito”, que originou a Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Afonso Pena exerceu ainda os cargos cobiçados de governador e relator da constituição estadual. Coube também a ele transferir a capital de Ouro Preto para Belo Horizonte. "Filho de estrangeiro, sempre defendeu a nacionalização dos imigrantes e, além disso, apoiava

MAIARA MONTEIRO

o movimento migratório. Tinha como lema a frase ‘governar é povoar’”, conta a historiadora Sayonara Faria. Assumiu a Presidência da República, em 1905, e deu ênfase a empreendimentos ferroviários e programas de saneamento. Além disso, durante seu governo, segundo Sayonara, investiu na modernização dos portos. Teve seu terceiro mandato interrompido, em 1909, devido a uma crise de pneumonia que resultou em seu falecimento. Uma grande referência à importância de Afonso Pena em Belo Horizonte é a avenida que recebe seu nome. Com 4,3 quilômetros de extensão, a via de sentido norte-sul, corta o Centro e os bairros Funcionários, Serra, Cruzeiro e Mangabeiras além de reunir alguns dos principais prédios e serviços da capital. Iniciando-se no centro da capital, na Praça Rio Branco, mais conhecida como Praça da Rodoviária, a avenida corta

a Praça Sete e serve de endereço para as sedes da prefeitura, do Correio, para o Palácio das Artes e o Parque Municipal, indo até a Praça da Bandeira. A tradicional “Feira de Arte, Artesanato e Produtores de Variedades”, conhecida popularmente como “Feira Hippie”, também acontece ali, em um comércio organizado de maneira a comportar 2.379 expositores e um público aproximado de 70 mil pessoas rotativas. É dividida em 12 setores que possuem os mais diversos artigos, incluindo, não só roupas e acessórios, como também esculturas, arranjos e peças de decoração. Por ser uma das principais avenidas da cidade, o trânsito da Afonso Pena é intenso. “O tráfego tornou-se insuportável. A avenida parece não comportar, além do grande número de veículos, o significativo número de pedestres”, salienta o encarregado da recepção Amarildo

Marques, 28 anos. Funcionário do edifício Acaiaca, considerado o primeiro arranha céu da capital, Amarildo destaca a necessidade de limpar os móveis diariamente, devido a poeira causada pela elevada taxa de poluição do ar. Isso, apesar de a avenida possuir uma grade de limpeza especial. São feitas quatro varrições por dia e uma lavação por semana. A coleta de lixo é realizada diariamente e os canteiros são capinados cinco vezes ao ano. A violência é outro ponto frequentemente abordado pelos que ali residem ou trabalham. “É difícil passar um dia sem presenciar assaltos ou roubos aqui. E eles geralmente ocorrem com mulheres, já que são consideradas mais indefesas. As vítimas na maioria dos casos estão desatentas, falando ao celular”, declara o porteiro do edifício Camila Balbina de Araújo, Clemente Liberatos, de 64 anos.

MAIARA MONTEIRO

Há 30 anos, carteiro percorre diariamente trajeto da avenida n ALINE SCARPONI, 3° PERÍODO

Carteiro há 30 anos, Jorge Marques da Silva, 54 anos, é um dos quatro responsáveis por efetuar diariamente a distribuição de correspondências ao longo da Avenida Afonso Pena. “Acompanhei as mudanças da avenida. Vi muitos prédios serem reformados, outros construídos”, comenta. De acordo com Jorge, quando ele começou a trabalhar na agência

dos Correios na Afonso Pena, a avenida ainda possuía casarões e árvores em seu entorno. Entretanto, com o passar do tempo, a cidade toda se verticalizou e o volume de troca de informações e serviços aumentou muito, o que contribuiu para que a quantidade de encomendas a serem entregues, também aumentasse. Assim, a atividade de distribuição de cartas teve que acompanhar o crescimento da avenida. “Antes o volume de serviço era menor. Só se precisava de um carteiro de cada lado da avenida.

Hoje em dia ela é dividida em quatro partes, logo são necessários quatro carteiros”, explica. Na avenida que recebe seu nome em homenagem ao ex-presidente Afonso Pena, são distribuídas 12 mil correspondências diariamente, média de 4 mil entregas realizada por cada carteiro. “O carteiro não atravessa a avenida. Um carteiro pega, por exemplo, um lado da avenida desde a praça da rodoviária e vai até o número 1.500, e o outro continua. Cada lado da avenida é dividido para dois

carteiros”, afirma Jorge. Para facilitar as entregas, cada carteiro escolhe locais estratégicos para deixar caixas de correspondências, que são distribuídas por carros de apoio, logo de manhã. Dessa maneira, o carteiro não sai da agência de correio com sua bolsa muito pesada, e vai ao longo de seu trajeto, repondo cartas a medida que passa por bancas, prédios e até mesmo frigoríficos que guardam as caixas lacradas. “Isso também evita que o carteiro tenha que retornar à agência quando sua bolsa esvazia”, diz o

Jorge Marques da Silva afirma que acompanha o crescimento da avenida carteiro. Segundo Jorge, as pessoas em geral são muito receptivas com os carteiros. “Por exemplo, no Café Nice sempre nos dão café 0800”, conta sorrindo, ao se referir a gratu-

idade do café oferecido por uma tradicional cafeteria do centro da cidade, marcada por ser um lugar de discussão da política mineira e brasileira.


16Viagem

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Março• 2009

CRISE ANTECIPA VOLTA DE ESTUDANTES Alunos universitários, que estavam em intercâmbio, se veêm obrigados a retornar mais cedo para casa devido a recessão e falta de empregos, causados pelos problemas econômicos mundiais MARIANA ZANATTA

n CAMILA LAM, MARIANA ZANATTA, THIAGO TRISTÁO, 5º, 6º E 1º PERÍODOS

A crise econômica mundial não atingiu apenas os investidores da bolsa de valores. Estudantes universitários que embarcaram para a América do Norte em busca de novas experiências sentiram na pele as consequências da recessão. Muitos deles retornaram mais cedo ao Brasil. O estudante de Ciência da Computação e Design Gráfico, Juarez Tanure, não sabia o que estava por vir quando decidiu fazer intercâmbio nos Estados Unidos pela segunda vez. “Na temporada de inverno de 2006/2007, eu fiz este programa em South Lake Tahoe, Califórnia, e foi a melhor experiência da minha vida. Tinha esperanças de que desta vez fosse tão bom quanto da primeira”, conta Juarez, que embarcou com a namorada em 14 de dezembro de 2008 com destino a Breckenridge, Colorado. Juarez teve que retornar ao Brasil um mês antes do planejado devido às consequências da crise econômica na cidade em que morava, cuja economia era baseada nas temporadas de inverno. O estudante foi por meio de um programa de traba-

lho remunerado (Work & Travel) e demorou em torno de um mês para começar a trabalhar. Em três semanas ele somou apenas 35 horas trabalhadas. “Para mim não compensava continuar perdendo aula de duas faculdades para trabalhar tão pouco e, consequentemente, não ganhar o suficiente para me sustentar”, lamenta. Segundo ele, as agências com as quais tinha contrato (uma brasileira e uma estadounidense) não deram o suporte prometido e não puderam garantir um aumento de horas de trabalho. O contrato do estudante com a agência garantia a documentação para o visto destinado a estudantes participantes de programas de trabalho remunerado; um emprego nos Estados Unidos com média de 35 horas semanais; e assistência ao intercambista durante todo o programa. Aluízio Quintão, diretor executivo da agência que foi responsável pela viagem de Juarez, explica que inglês e dinheiro são consequências do trabalho no exterior e que cada intercambista vivencia uma experiência diferente. “O problema é que os americanos estão viajando menos, e isso afeta diretamente nas horas de trabalho”, completa. A recessão da economia atrapalhou os planos de mais de 200

brasileiros que estavam no Summit County, (condado formado pelas cidades Breckenridge, Silverthorne, Keystone e Frisco), segundo o jornal local, Summit Daily News. “Nós demoramos muito para receber a oferta de trabalho e quando chegamos lá ficamos sabendo que existiam centenas de brasileiros a procura de emprego no condado”, relata Juarez. SEM EMPREGO O estudante carioca, Eduardo Neves de Pinho, de 22 anos, também não teve sucesso em sua viagem. “Minha maior dificuldade foi conseguir um emprego. Neste sentido a minha experiência foi nula”, conta Eduardo, que tinha um contrato diferente com sua agência. Ele foi para os Estados Unidos sem um emprego garantido, o que é conhecido como “self placement”. Neste caso, os estudantes devem encontrar um emprego por conta própria em um mês com possibilidade de extensão por mais 15 dias. “Apesar de ter ficado pouco tempo, a experiência foi válida por ter conseguido melhorar meu inglês e, principalmente, pelos amigos que fiz lá”, analisa Eduardo. “Me senti totalmente perdido e confuso nos Estados Unidos em recessão”, acrescenta. André Justo Stivanin mora

em São Paulo e é estudante de administração, e em vez de três meses que tinha planejado, ficou apenas um nos Estados Unidos. Inicialmente, ele ficou somente durante uma semana na região de Aspen, no Colorado e sentiu que a oferta de trabalho não iria atender a demanda de brasileiros, argentinos e chilenos que estavam por lá. Como a região tem como base o turismo, ele preferiu não perder tempo e partiu para San Diego, na Califórnia. “Alguns dos meus amigos insistiram, e a grande maioria, ficou mais de um mês sem trabalho. Outros só foram conseguir mais tarde ou voltaram para o Brasil sem nada”, explica. Depois de procurar bastante, André conseguiu dois empregos, um fantasiado de estátua da liberdade para uma empresa de serviços financeiros e outro de assistente em um restaurante chinês. A média de horas trabalhadas foi baixa, 20 horas somente. “Falando com um pessoal que já tinha ido em outros anos, deu pra ver que, sem dúvida, não foi o melhor ano pra se fazer esse programa”, afirma. PROCURA Isabel Franco é gerente de uma agência de rede nacional de viagens e relata que apesar da crise, por enquanto, as pessoas ainda estão fazendo

O estudante Juarez Tanure em frente a sua casa em Silverthone orçamentos em busca de novas experiências no exterior. “Os meses de dezembro e janeiro são períodos de baixa temporada para o nosso mercado de turismo educacional. Nestes meses, a queda pela procura de programas de intercâmbio e viagens no exte-

rior já é reduzido. Não podemos afirmar que foi devido somente ao aumento do dólar. O que posso dizer é que já no mês de fevereiro o movimento das lojas iniciou a retomada da alta temporada de vendas, como normalmente acontece todos os anos. ”, explica.

Histórico da crise econômica que atinge o mundo Em 2005, os Estados Unidos viveram um “boom” do mercado imobiliário. Com isso, pessoas de renda considerada baixa para este tipo de investimento começaram a comprar imóveis. Entretanto, nem todos conseguiram arcar com suas despesas, o que faz o mercado ter medo de emprestar dinheiro a estes pequenos investidores ou comprar seus títulos de alto risco, os chamados “subprime”. O

receio do mercado gerou uma crise de liquidez, o que nada mais é que a retenção de crédito. Em setembro de 2008, o banco BNP Paribas Investment Partners congelou cerca de dois bilhões de euros dos seus fundos, fato justificado com suas preocupações com o crédito destinado ao “subprime” nos Estados Unidos. Logo após esta medida, o mercado imobiliário

começou a sofrer as conseqüências do pânico gerado com a contração. As duas maiores empresas hipotecárias americanas, a Fannie Mae e a Freddie Mac, são as vítimas mais recentes da crise e anunciaram perdas e prejuízos bilionários. A falência de qualquer uma delas provocaria uma enorme turbulência no sistema financeiro estadounidense e no restante do mundo por

serem detentoras de quase a metade dos US$ 12 trilhões em empréstimos para habitação nos Estados Unidos. Foi anunciada uma ajuda de até US$ 200 bilhões para estas duas empresas. O banco de investimentos Lehman Brothers não teve tanta sorte. Sua concordata foi anunciada em setembro de 2008 após tentativas frustradas de vender parte das ações da empresa.

Intercâmbio auxilia jovens a vivenciar a independência De acordo com a psicóloga Sônia Maria de Araújo Couto, o intercâmbio é o momento do adolescente lidar com suas experiências sem intervenção dos pais, tanto no sentido financeiro quanto em relação ao autoconhecimento. Para ela, jovens com 17 e 18 anos carregam um desejo de se tornarem adultos, e muitas vezes para se tornar adulto, é preciso estar fora de casa. “Desde a infância eles convivem com a idéia de que são dependentes dos pais, não só financeiramente, mas também emocionalmente”, explica. Para adquirir essa autonomia e liberdade, eles querem sair de casa e vêem no intercâmbio uma oportunidade de conseguir isso. Ficar longe dos pais pode ser uma tarefa difícil. Além da falta emocional, outro problema pode prejudicar a viagem. “Muitas vezes o jovem não se dá conta de que vai pra fora, mas leva consigo as dificuldades. Ele não deixa as dificuldades com os pais”. Mas se afastar de casa também tem seus pontos positivos, e não são poucos. “Na infância, todo conhecimento que a criança tem dela mesma é baseado nos pais. A criança é o que o pai vê. A adolescência é o

BARBARA DUTRA

Atividade que atrai todas as idades

A psicóloga Sônia Maria de Araújo comenta que o intercâmbio favorece o processo de autoconhecimento dos jovens momento de deixar de lado a opinião dos pais e procurar encontrar pelas suas próprias experiências o que ele é de fato. O jovem vai descobrir se é ou não capaz de fazer tudo sozinho, e mais, vai se deparar com os próprios limites. Ele, com certeza, terá um impacto com a liberdade, o que vai fazer com que ele se torne uma pessoa mais autônoma e madura”. Pedro Britto, de 17 anos, está há quase um mês em

Vancouver, no Canadá, um dos destinos mais procurados por brasileiros. Para ele sair do país é uma grande experiência de vida, e acredita que conviver com diferentes culturas, além de ser muito interessante, pode ser desafiador. “O primeiro impacto que tive foi a diferença do povo canadense com os brasileiros, o que é bem percebível”, revela. Muitos jovens ao se afastarem de casa descobrem que a vida

que tinham era bem menos complicada”, diz. Esse é o lado ruim do intercâmbio. Algumas horas você se sente sozinho, e ficar longe de quem você gosta é difícil. Mas acredito que seja essencial pra mim e pra minha vida profissional esse curso, pois além de estar conhecendo lugares novos estou aprendendo não só inglês, mas também a me relacionar com pessoas completamente diferentes”, diz Pedro.

O casal Wilson de Castro Júnior, 50 anos, e Maria Lúcia Missagia de Mattos Castro, 44 anos, não viajaram para Toronto a procura de independência e autoconhecimento. Eles estão há duas semanas fora do país para estudar inglês em uma escola que recebe estudantes do mundo inteiro. Wilson é procurador federal e no seu trabalho precisa lidar com contratos e documentos em inglês, e apesar de ter um conhecimento básico da língua, faltava a fluência. “Tenho tradutores e intérpretes para me ajudar, mas não me queria contentar com isso”, resume. Eles alugaram um apartamento, pois não se sentiram à vontade com a possibilidade de morar em uma casa de família, como é comum nos programas

de intercâmbio. E além dos estudos na escola, todas as atividades diárias estão ajudando o casal a pegar fluência na língua, apesar do começo ser bem difícil. “Aos poucos você vai se soltando e para de importar se você está falando errado”, diz Maria Lúcia. Ela revela que no começo sentiu insegura de acompanhar o marido e deixar suas duas filhas e a neta em Brasília. Ela conta que achou o desafio de ir para um lugar em que teria que falar inglês na hora de fazer compras e pedir informações, belíssimo. “A experiência está sendo maravilhosa, estou convivendo muito com pessoas da idade das (minhas) meninas e isso também esta me ajudando a entendê-las melhor”, destaca.


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