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Um olhar sobre a geografia humana Uma abordagem do passado O património natural. Dois ex-libris O património construído. O Interesse Público O património cultural. Um desafio

O objectivo deste texto é proporcionar uma ideia genérica do concelho, a partir de coordenadas que julgamos melhor o caracterizam. Naturalmente que, sendo um curta notícia, muito ficará de fora. São opções tomadas, sujeitas à crítica, que desde já se agradece. A quem desejar aprofundar os conhecimentos, aconselhamos a consulta da principal bibliografia sobre o concelho, que em breve vamos colocar disponível neste portal; e, sobretudo, passar uma temporada em contacto directo com as terras e as suas gentes.

Um olhar sobre a geografia humana

Num espaço de quase 264 Km2, no interior da Beira Litoral, afeiçoados à serra mas em parte ligados ao meio citadino, quer a Coimbra, quer a Lisboa, residem cerca de 5 000 almas, na esperança de ainda poderem assistir à inversão da taxa decrescente populacional, que o concelho sofreu no seu passado recente. Olhando do alto, uma linha de alturas evidencia uma divisão em duas áreas distintas, geográfica e socialmente díspares, que o poder central decidiu unir, numa visão economicista, contrariando a História, as leis da natureza e os desejos dos seus autóctones. Uma junção mais que união de facto, que muito veio condicionar o desenvolvimento social, económico e cultural desta mini – região .


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Um olhar sobre as alturas (num esboço hipsométrico do concelho)

Egas 455 m Gatucha 963 m

Vieiro 859 m

R. Ceira R. Celavisa R. Sotam Carvalhal 536 m

Rabadão 696 m

R. Sandinha

Sacões 593 m

R. Ádela

R. Ceira Caveiras 1029 m

R. Alvém R. Ceira R. Aigra

Trevim 1202 m Neve 1174 m

R. Mestras

R. Loureiro R. Pena Malhadas 1000 m

Penedo 1043 m

Pedras do Lumiar 874 m

Picos 1040 m

Entre Capelos 932 m

R. Sinhel Freiras 773 m

Vale do Chão 818 m

R. Simantorta R. Sinhel R. Amioso Amioso R. Mega

R. Unhais


4 A parte norte, o núcleo primitivo do concelho, faz parte da bacia hidrográfica do Mondego, unida pelo rio Ceira, que atravessa todas as suas freguesias. Insere-se na denominada Beira Serra, nos contrafortes sul da Serra da Estrela, à sombra da Serra do Açor. Em parceria histórica com o concelho vizinho de Arganil, e em parte com os de Tábua e Pampilhosa da Serra, com eles compartilhou divisões administrativas e judiciais, e conviveu economicamente e socialmente. Foi desta área que se gerou o primitivo concelho de Góis, foi dali que, ao longo do tempo, se moldou a alma goiense. A freguesia de Góis é uma amálgama de diferentes sociedades. Na sede, única vila do concelho, reside praticamente um sexto da população, um extracto social intermédio entre camponeses e citadinos, constituído sobretudo pelo tecido terciário, de funcionários, comerciantes e profissões liberais. Com um comportamento contraditório, característico de vila do nosso interior, por lado sendo proletários, isto é, vivendo da sua actividade profissional, por outro comportando-se como burgueses. Permanece ainda, pela força do costume, algo de espírito senhorial, de que o poder municipal, vindo de fora, tem querido apropriar-se. Uma boa parte dos que aqui trabalham são forasteiros e pouco inseridos na sociedade local. Por isso, quem desejar conhecer a genuína sociedade goiense, mais facilmente a encontrará nos subúrbios da vila. Nas povoações periféricas, das chãs às meias encostas dos montes que a envolvem, labuta uma classe que, embora movendo-se em torno da vila e por ela sendo atraída, não tem perdido as suas características aldeãs e algumas das suas tradições. Ponte do Sotam é, nesta freguesia, uma excepção. Outrora genuína povoação de operariado, consequência de uma grande indústria local centenária, que a marcaria ao longo de várias gerações, vive hoje a amargura de uma alteração radical, económica e social, do seu aglomerado. Os seus naturais são um exemplo vivo de luta tenaz contra a adversidade e as alterações de vida.


5 A freguesia de Vila Nova do Ceira é ainda senhora de arreigado espírito comunitário, de vida social coesa, de forte personalidade. A “pertença” paroquial que todos sentem, espelha-se quando se lhes pergunta donde são: invariavelmente respondem que são “da Várzea”, e só depois, se necessário, explicitam o nome da sua povoação natal. As freguesias do Cadafaz e Colmeal, tipicamente serranas, com as aldeias dispersas, onde é mais forte a simbiose entre as gentes e a natureza e é mais elevada a faixa etária. O seu isolamento, pelo acidentado do terreno e ausência de vias de comunicação, contribuiu para uma diversidade de valores culturais, dificultando ao mesmo tempo uma agregação de vontades e de esforços, na luta pelo seu desenvolvimento.

A parte sul, que se juntou em meados do século XIX, preenchida na sua totalidade pela freguesia de Alvares, está inserida na bacia hidrográfica do Zêzere e encontrase voltada para a região baixa das Beiras, onde outrora terá pertencido administrativamente. A Beira Serra pouco lhe diz. Com o centro de gravidade puxado bem a sul, onde se situa a sua sede e o grosso da população, distante da capital administrativa, a sua inserção no novo concelho não tem sido fácil, com o coração balançando entre Góis e os concelhos vizinhos. Tendo sido a freguesia capital de um concelho desmembrado, igualmente muito antigo e com pergaminhos, com a sua própria História, a perda da identidade concelhia deixou-lhe marcas profundas. Duas povoações, Alvares e Cortes, concentram cerca de 30 % da população da freguesia.


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Uma abordagem do passado

Vestígios antigos indicam-nos que a região de Góis foi frequentada por romanos e outros povos que estiveram na Lusitânia. Calçadas, talvez de hipotéticas rotas de mercadorias, ligando Tomar a Bobadela ou a caminho do interior da Península, e alguns achados arqueológicos, embora não muitos, encontrados por aqui e ali, como candeias, ânforas e mós, ou aras votivas, moedas e brincos de ouro, a isso levam a crer. As nossas minas certamente tê-los-ão atraído, mas não se sabe se chegado a manter uma povoação com estabilidade. Provavelmente a um desses povos remotos (do tempo dos “mouros”, como em linguagem popular são referidos os nossos antepassados antigos), se deva a origem da própria palavra Góis, um topónimo que existe em apenas mais três povoações na Europa ocidental, uma em França, outra na Áustria e uma terceira na Holanda, locais onde já tivemos ocasião de conviver com os nossos irmãos goienses. Há quem sugira que o topónimo Góis tenha origem goda, mas há outros também que esgrimem argumentos a favor da latina. Aquando da reconquista cristã, a região encontrava-se despovoada. É natural que os indígenas estivessem refugiados nas montanhas, fugindo das sucessivas invasões e lutas travadas. Mas é dessa altura que possuímos elementos concretos que nos permitem assinalar no tempo a constituição do embrião do concelho de Góis. De facto, por documentos escritos, sabe-se que D. Teresa, então viúva do Conde D. Henrique e tendo a seu cargo a governação do Condado Portucalense, sendo o seu filho Afonso Henriques ainda uma criança, doa os domínios de Goes (como então se escrevia) a Anaia Vestrares. E fá-lo isso exactamente com o intuito de ele fazer o seu povoamento (referindo que se encontrava despovoado), de modo a fortalecer a defesa contra os infiéis, na reconquista das terras usurpadas. A data deste documento de doação, 15 de Agosto, é o motivo da opção do Dia do Município, que festejamos nos tempos actuais. Constitui-se assim um senhorio, na base de uma concessão a título hereditário, que iria prosseguir numa linhagem contínua, passando de geração em geração, até ao


7 liberalismo, no século XIX, quando então é decretado o fim do regime geral dos senhorios. Ao longo de oito séculos, os donatários unem-se pelo matrimónio a outras famílias notáveis do reino, passam por algumas turbulências e lutas violentas, mas resistindo sempre. E vão ter posição de destaque na História do nosso país, quer na Idade Média, quer na Moderna.

*** Ainda que toda a periodização histórica seja sempre artificial, pessoalmente gostamos de o fazer, pela sua utilidade na compreensão da evolução da sociedade. Assim, vamos distinguir duas épocas ao longo deste tempo senhorial. A primeira abrange a vivência de duas famílias, a dos Góis (1114 - 1459) e a dos Silveira (1459 - 1617), ambas famílias da Corte, de prestígio, com altos cargos na Administração Pública e intervenientes em acções importantes no país. Na família Góis, que se estende ao longo de onze gerações, vamos referir apenas alguns dos seus donatários, ligados a factos relevantes na vida do concelho: Gonçalo Dias de Goes – Genro do primeiro donatário Anaia Vestrares, que, ao usar o homónimo Goes, tirado do topónimo local, dá início à nova família. Merecia, pelo menos, uma referência na toponímia da vila. Vasco Farinha de Goes – Institui, em 1290, o morgado de Góis, um dos primeiros que foram constituídos no reino, uma instituição que iria fortalecer, durante séculos, a unidade do senhorio. Constrói o Paço Velho, no largo do Pombal, que vai servir de residência dos Senhores, até à construção do Novo Paço, terminado em 1532, junto ao rio Ceira. Gonçalo Vasques de Goes – Escrivão da puridade (hoje chamaríamos Primeiro Ministro) de D. Pedro I, estabelece, em 1314, o primeiro foral de Góis. Não foral do poder central, mas um regularizando a organização local. Mécia Vasques de Goes – É uma das figuras emblemáticas do concelho, pela sua forte personalidade e envolvimento na vida local. Bem podia ser considerada como símbolo da mulher goiense. E com direito a estátua. Foi dona do senhorio entre os anos 1395 e 1444.


8 Une-se pelo casamento à família Lemos, mas fica viúva muito cedo. Com uma grande fortuna, faz aplicações no forte mercado financeiro italiano e, em Portugal, conhecem-se ajudas financeiras ao Infante D. Henrique, para os seus negócios e actividades marítimas. Bate-se com energia numa longa batalha jurídica, travada entre os seus filhos mais velhos, para que os negócios do senhorio de Góis pudessem prosseguir no bom rumo. Morre nos Paços Velhos, em 1444, no Largo de Pombal. Beatriz Lemos de Goes – O último donatário a usar o apelido de família. Casa com Diogo da Silveira, escrivão da puridade de D. Afonso V, da família alentejana Silveira, então em vertiginosa ascensão social e política do reino. Fora do concelho, outros Goes e Góis (a partir de certa altura usaram-se as duas grafias), escreviam algumas das melhores páginas da história do nosso país. Poderíamos falar sobre muitos deles, alguns levando o nome da nossa terra por outros mundos, mas neste contexto são cartas fora do baralho. Ao longo deste período dos Góis, e à medida que Portugal também se ia constituindo de Norte para Sul, o concelho vai tomando, pouco a pouco, uma forma administrativa e jurídica cada vez mais perfeita. A palavra concelho raramente aparece antes de meados do século XIII, sendo mais frequente usar-se a expressão “reunião dos homens da governança municipal”. No início, estendia-se por áreas actualmente pertencentes aos concelhos de Arganil e Penacova, com fronteiras que se foram modificando de acordo com a vontade dos vizinhos.

A família Silveira está em Góis durante cerca de um século e meio, de 1459 a 1617, abrangendo seis donatários. Salientamos três deles, avô, filho e neto, com os quais Góis entraria na Idade Moderna, ao nível que a Corte estava a querer para o país. Nuno Martins da Silveira Muito próximo do poder real, em quatro reinados, de D. Afonso V a D. João III, é contemporâneo do foral manuelino, em 1516, e inicia obras importantes da vila, algumas das quais virão ser concluídas no tempo de seu filho Luís.


9 Luís da Silveira I, 1º Conde de Sortelha. Talvez a figura mais emblemática do senhorio. Cortesão, homem de espírito e de cultura, poeta do Cancioneiro de Garcia Resende, guerreiro em África, embaixador na corte espanhola. De espírito rebelde e inconformado, arranja sarilhos com D. Manuel I e D. João III. Desgostoso, afasta-se da corte e isola-se em Góis, para felicidade dos goienses, pois, vai dar um grande contributo ao património da vila (ver à frente). O seu filho mais novo, o nono, Gonçalo da Silveira, padre jesuíta martirizado em Monomotapa, cantado nos Lusíadas, é figura da História de Portugal. Tal como seus pais, encontra-se sepultado na Igreja matriz, junto da sua estátua de guerreiro. Diogo da Silveira I, 2º Conde de Sortelha. Continua a obra do pai e, com ele, provavelmente Góis atinge o seu zénite. Inaugura o hospital de Góis, funcionando como albergaria e local de tratamento de moléstias, cuja fama vai atrair muitos forasteiros e chamar a atenção do país. Cria as paróquias de Cadafaz e de Colmeal, iniciando a construção das respectivas igrejas matriz. Com Luís da Silveira II, que morre em 1617, sem descendentes varões, encerra-se o ciclo dos Silveira. No seu tempo, em 1599, é constituída a Misericórdia de Góis, exactamente cem anos depois de esta instituição ser formada em Portugal. A filha mais velha, Branca da Silveira, casa com Gregório de Castelo Branco, novo donatário, desaparecendo no senhorio o nome Silveira. Como curiosidade, baseando-nos no primeiro levantamento dos lugares e dos seus moradores feito no país, por ordem de D. João III, em 1527 (e não esquecendo a sua credibilidade, face às condicionantes da época), diga-se que a vila de Góis tinha 77 residentes, Várzea d’Além 27, Várzea da Igreja 12, Bordeiro 15, e todas as demais povoações do concelho apenas com um dígito, incluindo Cadafaz (9) e Colmeal (8)... No total do concelho, estimava-se 321.

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10 A partir dos Silveira, os donatários de Góis, mais ligados a outras regiões do reino, parece que se desinteressaram por este senhorio, não perdendo, é claro, os direitos que o estatuto lhes concedia, isto é, arrecadando tributos e prestações aos moradores, aos trabalhadores, aos proprietários e por quem cá passava. E, face à ausência deles, assiste-se ao emergir de novos senhores locais, oriundos da burguesia rural, ainda que fidalga, filha d’algo, mas não aristocrática. Uma burguesia já não fundada no nascimento, no privilégio ou na honra, como era a dos donatários, mas no trabalho ou no talento. E foram esses então que mais puxaram pelo progresso do concelho. É o segundo período do senhorio, que decorre até 1832, quando, por decreto de Mousinho da Silveira, se extinguem os senhorios e os pequenos morgadios. Deste período, indiquemos apenas o primeiro que ficou para a história do concelho: Pedro Rodrigues Barreto. Por duas razões, por estar na toponímia local (Rua Pêro Roiz, depois alterada para Rua da Quinta) e por dar origem a dois importantes morgadios, que marcaram a vida de Góis. Seu filho António Rodrigues Barreto, nascido em 1590 (?) institui o morgado da Capela ou de São José (a que se liga a Quinta da Capela), e o seu neto Alexandre Barreto de Figueiredo Perdigão, nascido em Góis em 1598, institui o morgado da Lavra (a que se liga a Quinta da Lavra, na qual a Casa de Cima terá sido acabada de construir cerca de 1625).

*** Entrando agora na época da Monarquia Constitucional, destaquemos dois acontecimentos. Logo no início, em 1821, a implantação da indústria de papel, que viria a durar mais de um século e meio, e seria, durante muito tempo, a principal indústria da região, a mais empregadora e a de maior valor acrescentado, e que faria de Ponte do Sotam, onde esteve instalada, devido à boa água do rio Sotam, a única terra do concelho com uma sociedade de índole operária. Também nos alvores do liberalismo, a racionalização da divisão administrativa vai levar à inclusão no concelho de Góis da freguesia de Alvares, que anteriormente


11 fazia parte do desaparecido concelho de Alvares, uma região antiga, com carta de foral passada por D. Dinis, ao mesmo tempo que se reajustam as fronteiras do concelho de Góis com as dos vizinhos. O ano de 1855 passa a ser data histórica do concelho, não só por serem estabelecidos os seus actuais limites, como também por, desde então, passar de quatro para as actuais cinco freguesias: a da Várzea de Góis (que, a partir de 1927, se denominaria Vila Nova do Ceira, para, com toda a razão, ter nome próprio e afirmar a sua identidade), de tradições muito antigas, com prerrogativas próprias, face à Câmara Municipal de Góis, supondo-se mesmo que tenha sido aqui, na época romana, o principal aglomerado das terras de Góis; as freguesias de Cadafaz e Colmeal, do lado nascente do concelho, terras antigas dos domínios de Góis, mas só elevadas à categoria de freguesia em 1560; e a freguesia de Alvares, a nova companheira, que agora se lhes juntava. O fontismo, que varre Portugal na segunda metade do século, praticamente não contemplaria o concelho de Góis. O caminho-de-ferro foi promessa chorada e alimentada durante dezenas de anos, mas por aí se ficou. O ramal de Coimbra chegaria a Serpins em 1930, e a sua continuação até Arganil, atravessando Góis, não passaria do traçado no terreno, embora ainda tenham sido feitas expropriações de terrenos. Os goienses passavam a ver passar o comboio só por um canudo. Entretanto, a importância que o concelho a nível regional ia tomando, na vida comercial e política, encorajava-o a solicitar ao poder central novas divisões, administrativa e judicial, com uma repartição de espaços mais apropriada aos seus interesses e a ser mesmo sede de comarca. Mas aqui também sem êxito. Nos finais da Monarquia e inícios da I República, destaca-se a figura de Francisco Inácio Dias Nogueira, como político e empresário. Exerce intensa actividade política na região, militando no Partido Regenerador. Financiador do jornal A Comarca de Arganil, é seu Director nos últimos anos da Monarquia. É o último Presidente da Câmara Municipal antes da revolução republicana.


12 Funda a Companhia de Papel de Góis, consolidando a indústria de papel, então já existente, e instala a Central Hidro-Eléctrica de Monte Redondo, obra arrojada para a época, que permitiu à vila de Góis ter sido uma das terras pioneiras a ter iluminação eléctrica pública, ainda antes da cidade-mãe Coimbra. O seu busto, erguido de iniciativa popular e por subscrição pública, aliás o único da vila de Góis, encontra-se no centro do largo que tem o seu nome, o antigo Largo de Pombal.

*** Durante a I República, é de assinalar a inauguração, em 1916, do Hospital Comendador Monteiro Bastos, em Vila Nova do Ceira, pondo fim a um jejum de 82 anos, pois desde o encerramento do Hospital de Góis, em 1834, que o concelho não possuía qualquer estabelecimento hospitalar.

Durante a II República, a das ditaduras militar e corporativista, três acontecimentos assumem um significado especial. A exploração de minério, com relevância económica e social sobretudo nos finais dos anos 30 e princípios de 40. No concelho, são numerosos os sinais de exploração antiga, quer em galerias, quer em terraços fluviais, mas a sua cronologia é desconhecida. No entanto, por achados arqueológicos na região, supõe-se que os romanos tenham aqui explorado o ouro e o estanho, antes de outros povos o terem feito. Agora, em meados do século XX, Góis vai novamente passar por um período de grande animação, envolvendo as comunidades locais e centenas de imigrantes, sobretudo dos concelhos vizinhos, atraídos pelas zonas estano - volframítica das freguesias de Cadafaz e de Góis, e aurífera no norte da freguesia de Alvares. Foram anos de movimento de grandes quantidades de dinheiro, que animaram a economia local, proporcionando enriquecimento em muitos dos seus autóctones, a fixação de forasteiros, originando novas famílias, e o desenvolvimento de algumas estruturas locais. Infelizmente foi tempo efémero. A Grande Guerra, com a desordem


13 e espionagem a que esteve associada, e a conjuntura internacional que se lhe seguiu, não foram favoráveis para a criação de uma indústria mineira consistente, como chegou na época a ser equacionada. O êxodo rural, contemporâneo de outras zonas do interior do país, começa entre nós a ter um significado maior a partir dos meados dos anos 40, em direcção sobretudo à Grande Lisboa, na procura de melhores condições de vida. É lá que agora vive a maior comunidade goiense, num número que se estima, com as gerações que se seguiram, superior ao triplo da população actual do concelho. A população, que se tinha mantido na ordem dos 12 500 residentes até ao fim da Grande Guerra, baixaria para 9 700 em 1960 e 6 500 em 1980. No princípio deste século, cifrava-se em 4 800. Este grande decréscimo, sobretudo com a saída do seu sangue mais vivo, vai reflectir-se no envelhecimento da população e na sua letargia. No entanto, a uma má carta, seguia-se uma boa: o movimento regionalista. Um vínculo forte às origens, um estado de espírito próprio da região, a possibilidade de os migrantes em Lisboa estarem “com um pé cá e um pé lá”, deu origem a um associativismo sui generis. Um trunfo que, infelizmente, ainda não foi usado em toda a sua potencialidade no desenvolvimento do concelho. Cerca de meia centena de associações, as denominadas Comissões de Melhoramentos, são constituídas pelas várias aldeias do concelho, ao mesmo tempo que, a Casa do Concelho, sediada em Lisboa, é inaugurada em 1954. Seria esta instituição a ter a iniciativa de construir o primeiro estabelecimento de ensino secundário do concelho, inaugurado em 1969. Tal como o Hospital, a Escola Primária Feminina e a Casa de Caridade, também o Colégio seria totalmente doado por beneméritos da terra, instituições estas que se ficam a dever, respectivamente, ao Comendador Joaquim Marques Monteiro Bastos, Comendador António Torres Dias Galvão, Engenheiro Stanley Mitchell e Comendador Augusto Luís Rodrigues.


14 A III República, que nos trouxe a democracia, a instalação de um Poder Local forte e a adesão à Comunidade Europeia, veio permitir um desenvolvimento mais harmonioso. O concelho apetrecha-se de estruturas básicas, há uma melhoria significativa de vida da população e uma maior equidade social. Se o espírito de solidariedade social já fora patente no passado, mais ressalta agora. Perante o envelhecimento cada vez maior da população, consequência da elevada emigração, da mais baixa natalidade e do aumento do tempo de vida, instalam-se vários Lares e Centros de Assistência: o Centro Social de Rocha Barros, inaugurado em 1978, em Góis; o Centro Paroquial de Solidariedade Social da Freguesia de Alvares, em 1981, sediado nas Cortes e com extensão em Alvares, onde recentemente foi aberto o Lar de S. Mateus; o novo Lar de Vila Nova do Ceira, da Santa Casa da Misericórdia, no prosseguimento aliás da sua grande acção benemérita no concelho; a que em se deverá juntar, em breve, o da freguesia de Cadafaz. A solidariedade social tem sido uma carta activa na vida destas gentes. Cria-se a ADIBER, uma associação de desenvolvimento local, com campo de acção em alguns concelhos da região mas sediada na vila de Góis, que, sabendo com oportunidade

aproveitar

as

ajudas

comunitárias,

tem

contribuído

para

o

desenvolvimento económico e cultural. A semelhança de outros concelhos, também no concelho têm-se vindo a acolher imigrantes estrangeiros, sobretudo oriundos da Europa, distribuindo-se pelas aldeias serranas, o que tem contribuído para o início de uma pequena revolução cultural no concelho.

Entretanto, o século XXI parece iniciar-se auspiciosamente. O Poder Local adquire o grande edifício do antigo Hospital, do século XVI – outrora, uma marca do esplendor do concelho, que levou o nome de Góis pelo país fora – e decide dotá-lo de condições, para ser novamente um foco de desenvolvimento.


15 Um projecto promissor encontra-se em curso, com o intuito de o transformar num Museu do século XXI, não só espaço de preservação de memória colectiva e guardador de ricas colecções doadas ao concelho, mas também uma instituição viva, pedagógica, com ramificações previstas pelos pequenos museus das nossas aldeias. Uma obra que se espera dignificar toda a região e a ser um ponto fomentador de turismo de qualidade. Foram já efectuadas escavações, a cargo da Câmara Municipal e supervisionadas pelo IPPAR, trazendo até nós importantes vestígios do passado, seguidas do seu estudo. A comunidade científica olha com expectativa para este projecto de tempos modernos. E o Poder Local, ao afixar um grande cartaz no centro da vila “Um Compromisso” -, transmite, com coragem e determinação, uma mensagem pública do seu empenho para levar este projecto a bom porto. Os goienses têm razões para voltarem a sonhar e poderem sentir novamente orgulho na sua terra e, para muitos que tiveram que partir, pensar que valerá a pena um dia regressar.

O Século de Oiro No século XVI, Góis atingiu o apogeu da sua vida. Na arte, de que a estátua de Luís da Silveira, com o seu enquadramento, é o seu símbolo maior. Na Assistência Hospitalar e Social, com o Hospital - Hospedaria e a instituição da Santa Casa da Misericórdia. Na criação de duas novas paróquias, Cadafaz e Colmeal, e edificação das respectivas igrejas matriz. Na grandeza do património construído, reflectido no novo palácio, no hospital, na ermida do castelo, na restauração da igreja matriz da vila com nova capela mor, em capelas várias em aldeias, na ponte de três arcos, nas residências que ainda hoje se reflectem na arquitectura do centro histórico. Pela primeira vez, eram unidas as duas margens do Ceira, para passagem de viaturas. E ser-lhe-iam atribuídos forais, pelo governo central, com a carga simbólica que lhes está associada. Vieram alguns dos mais conhecidos artistas do país, para dar corpo a algumas daquelas obras. Visitaram-na gente ilustre, eclesiásticos, nobres, poetas e músicos, para as festas palacianas. Para aqui encaminharam-se muitos carenciados, na procura de assistência física e espiritual. O Palácio à beira do Ceira, o Hospital e as obras de arte eram focos de atracção. Góis estava na geografia de Portugal. O seu nome era referido com respeito no país e fora dele.


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O património natural. Dois ex-libris do concelho.

É valioso o nosso património natural. O encanto das montanhas e das serras, dos rios e das ribeiras, as matas e os espaços verdes, as paisagens e o ambiente, o sossego, o clima, um pouco de tudo isso está a atrair emigrantes de outros países, que aqui encontram uma qualidade de vida que não usufruem nas suas terras. São já algumas dezenas de famílias estrangeiras que aqui estão instaladas, com perspectivas de um aumento progressivo, à medida que o homem moderno, com as possibilidades que a tecnologia lhes oferece, de a todo o momento poder estar em contacto com o mundo inteiro, se volta cada vez mais para residir junto da natureza. Tendo que fazer uma escolha para ilustrar este património, opto pelos dois seguintes.

O Penedo de Góis Em tempos remotos, em data incerta, mas certamente durante a orogenia do ciclo hercínico (com início há cerca de 450 milhões de anos), terá acontecido aqui, um fenómeno geológico semelhante a tantos outros que a natureza nos proporciona: uma grande projecção e derrame de aglomerados de rochas metamórficas, vindos do interior da terra, a temperaturas elevadas, transformando os arenitos em quartzitos, a rocha predominante do novo maciço que se formou. Nascia assim uma nova elevação, sobrelevando-se às vizinhas, no seguimento de uma linha de alturas que, ligando a Serra da Lousã com a do Açor, divide o concelho em duas zonas bem diferenciadas. Com o passar do tempo, por ocorrência de desligamentos, fracturas e enrugamentos, aliada com a resistência à erosão que é própria do quartzito, o Penedo tomaria o seu aspecto actual, de acentuado contraste de relevo, de crista alongada, imponente e majestoso nos seus 1043 metros de altura, que sobressai da paisagem, avistado das cinco freguesias do concelho.


17 Composto por vários montes, os pastores foram-nos baptizando com denominações simbólicas ou alusivas à sua utilização, que entraram no seu vocabulário quotidiano, o Penedo da Abelha, o Penedo do Picoto, o Penedo das Portas do Sol, o Penedo do Meio-Dia, o Penedo do Reboludo, o Penedo da Foice, o Penedo do Pinheiro, o Penedo da Aigra, o Penedo da Carvalha, o calhau das merendas, as meninas, as fraguitas... A pastorícia era a principal actividade de subsistência. Grandes rebanhos comunitários, de vários milhares de cabeças, compartilhavam os mesmos pastos e eram geridos pelo mesmo pastor, indicado rotativamente por cada grupo proprietário. Quem visite esta região, ainda pode deleitar-se, junto dos poucos residentes, com histórias de lobos, atacando os seus rebanhos, umas com pitadas de heroísmo ou de bravura, outras fantasmagóricas, ou com lendas de mouros que em tempos habitavam nas suas grutas. Quatro aldeias da região – Comareira, Aigra Nova, Aigra Velha e Pena – pequenos aglomerados à base do xisto, constituindo como que um percurso histórico, estão sob alçada de um projecto comunitário de desenvolvimento. Mas é pertinente também referir, como aldeias típicas desta região, e aconchegadas ao Penedo, os Povorais e o Vale Torto. Na parte ocidental, na extrema com o concelho de Castanheira de Pêra, o espaço ao redor da capela de Santo António da Neve é local do “Encontro dos Povos Serranos”, alegre convívio anual entre as gentes das serras. Em tempos remotos, juntavam-se os pastores dos montes e aldeias ao redor, nos seus trajes característicos, constituindo grande romaria, com gentes vindas de zonas muito afastadas. Uma romaria e, agora também feira, que continua a fazer-se anualmente, no segundo sábado do mês de Julho, não faltando a tradição de cada participante levar, para além da merenda, um queijo inteiro, em homenagem ao seu santo padroeiro.


18 Outrora, fabricava-se ali gelo, a partir de neve, em poços de que ainda hoje se observam vestígios, vendido depois para diferentes partes do país, nomeadamente para as geladeiras da Corte, em Lisboa. O antigo armazém dos neveiros transformarse-ia na actual capela, por se ter encontrado num dos poços, um santo, logo baptizado de Santo António da Neve. Curiosamente, por meio da capela, passa a linha de fronteira dos dois concelhos, Góis e Castanheira de Pêra.

O Rio Ceira Permitam-me que endosse a palavra ao nosso rio, que, melhor do que nós, saberá transmitir-vos um pouco da sua vida. “Os antigos chamavam-me “Célia”, outros “Celium”, mas ainda ninguém me explicou porquê. Atravesso as quatro freguesias do núcleo antigo do concelho, e por isso me terem considerado sempre como traço de união entre os goienses, do que muito me orgulho. Através dos meus vinte e cinco quilómetros dentro do concelho, passo por baixo de uma dezena de pontes, desde a manuelina, em pedra, de três arcos, a mais velha, já com cinco séculos de vida, até à noviça, aquela de madeira, elegante e de ar moderno, a seguir ao Cerejal (aqui para nós, são as duas de que mais gosto), e penso que deixo por toda a parte um rasto forte da minha personalidade. Sei que tenho encantos, que sou prazenteiro, mas também, por vezes, arrebatado, quando a isso me obrigam, chegando mesmo a ser torrencial, e então, claro, sujeito-me a um monte de lamúrias e de queixumes, que reconheço serem justas. Mas, entre amores e desavenças, não deixo de me comportar como anjo protector. Nas freguesias serranas, do Colmeal e Cadafaz, serpenteando por montes e vales, vãose-me revelando vestígios de um passado antigo, moinhos, as “Buracas dos Mouros”, covas talhadas em rocha, talvez minas exploradas noutros tempos, a extensa “Levada dos Mouros”, também ela talhada na rocha, que, segundo a lenda, teria sido aberta por um cavaleiro, para levar a água até Bobadela, onde estava a princesa sua amada, coisas que vou ouvindo, por aqui e por ali, e com que me delicio no meu trajecto.


19 Antes da Cabreira, um conjunto de antigos lagares e tulhas, junto ao rio, é uma autêntica relíquia do passado, memória do espírito comunitário da vida destas gentes. Com estatutos aprovados pela população, e com uma Comissão de Lagares administrando-os democraticamente, a vida era feita de maneira ordenada, de modo a todos beneficiar e dentro da maior justiça. Era um bom exemplo de vida comunitária. Acontece que aqui, na encosta da minha margem direita, se situa uma daquelas áreas de mineralização de estanho e volfrâmio, onde, durante a Segunda Guerra Mundial, se processaria uma exploração mineira muito intensa. Pois foi ali mesmo, junto às tulhas, na junção que a ribeira do Lagar faz comigo, que se tornou um local abundante de minério de aluvião. Com o preço do volfrâmio a galopar para valores nunca antes imagináveis, a cabeça de muita boa gente rodopiou demasiado. E fiquei de boca aberta, a ver aquele enxame todo, uns da casa, outros forasteiros, conspurcando (e de que maneira) as minhas águas e sacando avidamente das minhas entranhas o ouro negro. Onde era um local ordeiro e pacato, agora centenas de “mineiros” amontoavam-se, sem rei nem roque, uns procurando trabalho honesto, para equilibrar o seu orçamento familiar, mas outros com subtis artimanhas, ludibriando as autoridades e o próximo. Que me fez compreender como é volúvel a mente humana, quando a tentação se lhes apresenta, vislumbrando pontes sedutoras, por vezes em miragens de falsos horizontes, Por sobre o que Eu não sou há grandes pontes Que um outro, só metade, quer passar Em miragens de falsos horizontes, Um outro que eu não posso acorrentar... Prosseguindo o caminho, as minhas águas vão passar mais abaixo pela Central de Monte Redondo, obrigando-me agora a grandes esforços. Nada que seja extraordinário, mas sempre alimento duas unidades, uma de 400 KVA e outra de 175 KVA. Foram instaladas pela extinta Companhia de Papel de Góis e agora exploradas por uma empresa de fora. Mas o meu esforço é compensado pela vaidade que tenho de os meus antepassados terem gerado electricidade e fornecido iluminação pública à vila de Góis, ainda antes de Coimbra a ter. Segundo conta a minha avó, o Mondego jamais nos terá perdoado. Daqui a cinco anos, completar-se-á um século que realizamos essa proeza, a vila de Góis iluminada a lâmpadas incandescentes.


20 Saindo das turbinas, vou descendo para jusante, a caminho da vila, retemperando forças. Cortejo respeitosamente os três arcos da Ponte Manuelina, embora já tenha sido concluída no tempo do seu filho D. João III, e entro no meu troço final, lentamente, julgo que de um modo majestoso, em terreno chão de fundo largo, tentando animar os turistas e deliciar os meus amantes. Depois de um cúmplice pestanejo a Santo António (de cuja capela os nossos historiadores ainda não conseguiram saber a idade), torno-me galanteador, aos pés do irresistível Cerejal. E ali fico, enamorando-o por uns aprazíveis momentos, não me esquecendo que se trata de um parque classificado de Interesse Público. Agora mais sereno, chega a Vila Nova do Ceira, espreguiçando-me nas suas várzeas e espraiando-me pelas belas margens com que me quiseram presentear. E depois, a despedida. No sítio do Cabril, no Cerro da Candosa, com a sua pequena ermida lá no alto, onde o povo vai adorar a Virgem, invocando-a com o nome de Nossa Senhora das Candeias, ou, para outros, Nossa Senhora da Candosa. Padroeira dos varzeenses, é motivo para no local se realizar anualmente, em meados de Agosto, uma tradicional festa que, desde há muito, é pertença da memória do concelho. A partir de ligeiros vestígios encontrados, há quem questione se ali não teria havido uma fortaleza ou uma povoação, para defesa daquele vale majestoso de horizontes sem fim. E ouvi contar uma história, talvez seja lenda, em que o grande rochedo estaria outrora fechado, com a água tombando em cascata por cima dele. Existia então uma grande lagoa, estendendo-se desde a Candosa até Góis, bordando as povoações de Bordeiro e Alagoa, que justificavam assim a sua denominação. Na carta de doação de Serpins, passada por D. Afonso Henriques, é referido a lagoa de Sacões, o que dá credibilidade a essa suposição. Mais tarde, ter-se-á cortado o rochedo, com intuito de desfazer a lagoa, e, com o abaixamento das águas, obter-se aquelas terras férteis que conformam as várzeas. Ouvi também de outra lenda, que a imaginação do povo é muito fértil, que a Senhora das Candeias, linda como sempre, protegida de capuz e de candeia na mão, ia pela calada da noite destruir a muralha que os mouros tentavam sucessivamente erguer para refazer a lagoa. E assim, desse modo, os varzeenses conseguiram conservar as suas boas terras, ao mesmo tempo que baptizavam carinhosamente a sua santa padroeira.


21 Seja obra do homem ou da natureza, seja ou não com a participação bondosa de Nossa Senhora, é nesse local aprazível, o Cerro da Candosa, que me despeço com ternura e emoção do concelho de Góis, a caminho do Mondego, a quem não deixarei depois de segredar, baixinho, “haver sereias sem ser no mar”, como nos diz o poema do hino dos goienses e como eu próprio tenho tido ocasião de verificar. Para trás, fica a consciência do dever cumprido, de ter proporcionado melhoria de vida aos goienses. Ora irrigando as várzeas e os campos verdejantes, ora dando força às mós e às turbinas, ora alimentando os salmonídeos, ora proporcionando momentos de prazer a quem tenha querido deliciar-se, com pescarias, com velejo, com desporto, com amor, ou apenas com o dolce fare niente. E leguei-lhes um espólio de encantos e de belezas, de lendas e de fantasias, onde os poetas se podem inspirar. Sei que, nas suas margens, frente ao lindo palácio que mandou edificar, para os Senhores e para o prestígio da terra, e para onde se tinha acolhido, fugindo ás amarguras e aos enganos da Corte, já lá vão quase cinco séculos!, Luís da Silveira um dia poetisou: Ao longo desta ribeira vivo vida descansada e a derradeira, esta é vida descansada para quem já não quer nada. (...) Não me deis, quer mo creiais quer se me, senhor, não creia, mas eu folgo de ser mais o primeiro desta aldeia que o segundo donde estais. Para defesa da minha honra, peço licença para lembrar que ribeira não é forçosamente um rio pequeno, pois igualmente tem o significado (sobretudo em tempos idos) de margem, de porção de terreno banhado pelo rio. Obrigado pela vossa atenção.”

O Penedo e o rio Ceira são bem representativos das belezas naturais do património natural do concelho. A montanha e o rio. Simbiose de alturas e de várzeas. Região montanhosa, entre as serras da Gatucha, do Vieiro, de Egas, do Rabadão, do Carvalhal, de Sacões, das Caveiras, das Malhadas, de Entre Capelos, das Pedras


22 do Lumiar, da Neve, do Trevim, dos Picos, do Vale de Chão. Onde as antenas eólicas vão marcando as paisagens bucólicas, lembrando que a qualidade de vida vai exigindo cada vez mais uma vivência inteligente entre o ambiente e a tecnologia. Região de floresta e, por enquanto, ainda de pastorícia e apicultura. E também de minério, guardado que está no subsolo, para um dia, quem sabe, vir a ser novamente revolvido. Região fluvial dividindo-se por duas redes hidrográficas distintas. Pele vertente norte, em direcção ao Mondego, através das ribeiras de Ádela, de Carrimá, da Sandinha, do Lagar, das Mestras, de Celavisa, do Alvém, do Sotam; e, pela vertente sul, a caminho do Zêzere, através das ribeiras da Simantorta, de Sinhel, do Amioso, de Mega, dos Unhais. Uma extensa rede fluvial, com a água correndo pelas encostas, escapulindo-se por refúgios ou saltando sobre pequenos açudes, proporcionando por vezes paisagens idílicas.

A montanha e o rio. As alturas e as chãs, os planaltos e os vales. O silêncio e o murmurejar. A pureza e a transparência. A liberdade. A imensidão e o recanto. O céu e a terra O Penedo e o Ceira. Dois símbolos. Dois ex-libris do concelho.


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O património construído. O Interesse Público.

No património edificado pelo homem, são três as nossas opções. A Pedra Letreira, por ser o mais antigo testemunho dos nossos antepassados. Situado no extremo norte da freguesia de Alvares, fronteiro ao Penedo, é uma manifestação de arte rupestre, ao ar livre, de hieróglifos, sendo suposto ter cerca de quatro milénios, da plena Idade do Bronze. Está com classificação oficial de Interesse Público.

Em segundo lugar, o Centro Histórico da vila. Por várias razões: por se tratar de um conjunto de grande qualidade arquitectónica e artística, por se situar no centro da vila e portanto no centro do concelho, e por aquilo que representa na nossa memória colectiva. Há poucos anos, esta área foi considerada como possuindo virtualidades para ser englobada na lista do património mundial, precisamente pelo representante da UNESCO para a sua classificação. Será que haverá coragem e vontade para prosseguir com essa ideia e tentar concretizá-la, antes ainda do concelho festejar os seus 900 anos de existência? A sua descrição pormenorizada seria aqui fastidiosa. Apenas recordarei, como dele fazendo parte: a Igreja Matriz, com a capela-mor e a estátua tumular de Luís da Silveira I, sob a batuta de Diogo de Castilho, Diogo de Torralva e Filipe Hodarte; o antigo Hospital e o seu espaço adjacente, agora postos a nu, arqueologicamente falando, pela feliz intervenção da Câmara Municipal; a Casa da Quinta e os seus tectos pintados; a arquitectura envolvente dos edifícios da Praça da República, do Largo do Pombal e de algumas das suas artérias; a antiga fonte do Pombal e os seus azulejos; as pinturas no tecto de outro edifício da Praça; os santos da Igreja; a ponte manuelina; a capela do Mártir e a capela de Nossa Senhora da Assunção, no morro do castelo, tudo isto património dos séculos XVI ao XVIII. Alguns deles também já


26 reconhecidos oficialmente de Interesse Público nacional, como foram a Igreja Matriz, os tectos dos Paços do Concelho e o conjunto Ponte Manuelina - Capela do Mártir. E não esqueçamos, embora bordando esse espaço histórico (traçado no passado mas certamente passível de revisão), a linda capela de Santo António.

Como terceira opção, para caracterizar o nosso património construído, elejo as típicas aldeias serranas. Espalhadas pelo concelho, muitas povoações, aldeias, casais e lugares, contém em si um valioso património. Calcorreando as ruelas e examinando a sua arquitectura, conseguimos perspectivar um pouco o seu passado e compreender o que elas contribuíram para dar corpo à identidade do concelho. Geralmente são de casario concentrado e fechado entre si, com as fachadas das habitações defronte umas das outras, como que querendo defender-se de perigos do exterior, pessoas estranhas ou perigosos animais. Tradicionalmente habitações do tipo agro-pastoril, com predomínio do xisto, de telhados de ardósia escuros a formarem extensas áreas contínuas. Sendo a pastorícia fundamental, o gado é recolhido no piso inferior, o seu calor ajudando o aquecimento da própria casa. No primeiro andar, onde se habita, a lareira a um canto

dispensa

a

chaminé,

dissipando-se

os

fumos

através

das

telhas

estrategicamente colocadas e resguardando-se o calor para o fumar dos enchidos e o aquecimento do interior. São zonas de invernos rigorosos, em que todo o calor é pouco para lhes aquecer o corpo e a alma. Fora das habitações, notam-se equipamentos colectivos, uns trabalhando ou prontos para isso, outros apenas restos de um passado que a emigração abandonou. Moinhos, junto a correntes de água, geralmente de propriedade de alguns mas compartilhados por todos; ou fornos de lenha, em que o trabalho de aquecimento e de cozedura, do pão e da broa, era combinado colectivamente entre as vizinhas.


27 E naturalmente com capelas, que são propriedades das respectivas aldeias, do mesmo modo que a igreja paroquial é propriedade da freguesia. Lugar de culto, lugar de convívio e de festa, a capela é o património que o aldeão mais venera. O nosso registo pessoal enumera 81capelas públicas, não contando as particulares, uma ou outra com indícios de serem do século XVI, mas a maioria são dos séculos seguintes, até ao final do século XX. As capelas estão normalmente associadas ao culto de um santo, protector da comunidade, e, por todo o concelho, cultivam-se 21, cada um deles com o seu próprio atributo. O que mais se repete é o Santo António, por seis vezes, ou não fosse ele o casamenteiro. Outras capelas estão sob o culto de Maria, aparecendo o nome de Nossa Senhora em 17 diferentes denominações, algumas ligadas à topografia local ou a momentos importantes da vida, e, em três delas, o padroeiro é Nosso Senhor. Materializados em imagens, pintadas ou esculpidas, em pedra ou em madeira, estes símbolos constituem um rico património da aldeia. Também não podemos esquecer as Alminhas, cerca de meia centena, colocadas em locais estratégicos, à beira dos caminhos, normalmente nas encruzilhadas ou à saída das povoações. Na falta de capela, rezava-se defronte delas por alma de alguém, numa manifestação de saudade, ou de despedida quando se levava o caixão a caminho do cemitério. Mas há também quem ainda se recorde do costume de as raparigas lá irem rezar para que o santo lhes arranjasse marido... Há-os de pequenos nichos, em pedra ou em madeira, alguns muito estimados, outros quase abandonados, a maior parte com uma idade que se perdeu na memória colectiva. Mas há também, como uma nos Povorais, nas fraldas do Penedo, onde se entra em pé no seu interior. Ciosos do seu passado, há aldeias, como o Soito, a Várzea Grande, o Esporão, Alvares, que vão criando pequenos espaços museológicos, carinhosamente guardando aquilo que de mais importante pensam ser representativo das suas comunidades. Para que a memória não se perca.


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1ª fila – Pinturas em tectos da Câmara Municipal, considerado de Interesse Público (sec. XVII?) Estátua de D. Luís da Silveira, na Igreja Matriz de Góis (sec. XVI) 2ª fila – Imagem de Nossa Senhora, em madeira, considerada de Interesse Público (sec. XV) Imagem de S. Mateus, em pedra, padroeira dos alvarenses (sec.XVI). (ambas no Museu Paroquial de Alvares) 3ª fila – Miniaturas sobre folha de marfim, de Alice Sande (século XX)


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O património cultural. Um desafio.

Temos a ousadia de aqui colocar este tema, para não sermos acusados de passar ao lado do que certamente mais identifica a nossa terra. Apresentar “Conhecer Góis”, sem referir a sua cultura, seria uma imperdoável omissão. Sem ela, fica-se com uma perspectiva redutora do concelho. É como apreender o hardware, o corpo, e deixar de lado o seu software, a alma. Para se conhecer Góis, tem que se mergulhar profundamente nas suas raízes, apreciar o seu habitat, aspirar o seu aroma, compreender a mentalidade das suas gentes. No entanto, seria presunção da nossa parte, tentar resumi-la, em meia dúzia de parágrafos ou de páginas. Até porque ninguém teve, até aqui, a coragem de fazer o seu levantamento. Os usos e costumes, o folclore, as lendas e os contos de cunho local, as tradições, a música e a poesia popular, os poetas, os escritores e os artistas. Longe ainda de uma certa massificação e de agressões do exterior, que se têm apoderado de outras regiões, despersonalizando-as, nas nossas aldeias continua-se a apostar na “autenticidade”, preferindo prosseguir na continuidade do que embrenharem-se por modernismos. Deixamos aqui esse desafio, de se fazer, em próximo futuro, o levantamento das principais áreas culturais, contando, para isso, com a ajuda dos associados do Movimento, sejam ou não cibernautas, e de todos aqueles que connosco queiram colaborar.

E por aqui nos ficamos, na esperança de que tenhamos contribuído para aumentar a curiosidade sobre o concelho de Góis. Porque vale a pena conhecê-lo.

Góis, Janeiro de 2007 João Nogueira Ramos


Conhecer Góis