Edição março 2021

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Nossos Assuntos

Um lugar para chamar de nosso

N

esta edição em que completa 39 anos e inaugura seu quadragésimo ano de circulação, a DBO dedica sua reportagem de capa a um movimento que está apenas começando: a representatividade das mulheres em cargos de liderança em suas entidades de classe, como os sindicatos rurais e associações de produtores. Embora seja nítido o avanço da presença feminina no Agro, rumo a uma maior participação na gestão das propriedades, nas empresas e na academia, ainda há um longo caminho pela frente. É o que mostra um levantamento exclusivo e inédito realizado pelo jornalista Ariosto Mesquita, a partir do banco de dados da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), sobre a presença feminina nos sindicatos rurais. A DBO foi em busca dessas mulheres para mostrar como elas estão mudando o jeito de fazer sindicalismo no País. São poucas e a própria CNA reconhece essa indesejada realidade. A parca presença mostra a urgência de mudanças para que a representatividade feminina tenha o peso de sua relevância. A DBO vai acompanhar esse movimento. Além da importância de se levantar um tema tão atual como a igualdade de gênero, esta edição de aniversário também representa um período de reflexão para toda a sua equipe. Construir a Revista DBO ao longo desses anos foi uma honra para nós, porque nos deu a oportunidade de participar da transformação de uma pecuária que saiu da condição de atividade quase artesanal para um setor tecnológico, pujante e global, como mostra o Prosa Quente, que entrevistou para esta edição o doutor Fausto Pereira Lima. Dos seus quase 91 anos de idade, ele dedicou mais de 60 ao estudo e à avaliação de bovinos. Com sua filha, Maria Lúcia, Fausto acaba de lançar um livro que chama a atenção para uma ‘ferramenta’ que jamais deve ser esquecida: o olho do criador. Entre os muitos setores do Agro, estamos certos de que a pecuária é o que mais vai dará saltos de produtividade nas próximas décadas. E estamos mais certos, ainda, de que a DBO vai continuar a ser sua parceira em todas as plataformas da atual comunicação: seja impressa, digital, ou nas redes sociais e canais de vídeo. Boa leitura.

osta Demétrio C

demetrio@revistadbo.com.br

6 DBO março 2021

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Publicação mensal da

DBO Editores Associados Ltda. Diretores

Daniel Bilk Costa Demétrio Costa Odemar Costa Redação Diretor Executivo Demétrio Costa Editora Maristela Franco Repórteres Carolina Rodrigues, Fernando Yassu, e Renato Villela Colaboradores Adilson Aguiar, Ariosto Mesquita, Danilo Grandini, Denis Cardoso, Enrico Ortolani, Gualberto Vita, Larissa Vieira, Matheus Moretti, Moacir José, Paulo Murilo Galvão, Vera Ondei, Joana Angélica e Aline Marinho Editoração Edson Alves Coordenação Gráfica Walter Simões comercial/Marketing Gerente: Rosana Minante Supervisora de Vendas: Marlene Orlovas Executivos de Contas: Andrea Canal e Vanda Motta Circulação e Assinaturas Gerente: Margarete Basile Impressão e Acabamento Gráfica Oceano

DBO Editores Associados Ltda. Rua Dona Germaine Burchard, 229 Perdizes, São Paulo, SP 05002-900 Tel.: 11 3879-7099 Para assinar, ligue 11 3879-7099, de segunda a sexta, horário comercial. Whatsapp 11 96660-1891 Ou acesse www.portaldbo.com.br Para anunciar, ligue 11 3879-7099 ou comercial@midiadbo.com.br


Sumário Prosa quente 10 Fausto Pereira Lima, ícone

do IZ de Sertãozinho, e sua filha Maria Lúcia falam da importância da avaliação visual na seleção do Nelore, ao diretor Demétrio Costa.

Mercados 16 Coluna do Scot – A boa fase da cria e as projeções para a arroba com base no histórico dos últimos 20 anos

18

Mercado do boi segue travado com arroba a R$ 300

19

Preços da reposição têm margem de 20 pontos perceituais sobre a arroba do boi

Cadeia em pauta 20 “Confraria da carcaça” quer

carne Nelore premium “na prateleira de cima”

Pecuária 4.0 34 Através da bioacústica, Embrapa

36 Reportagem de capa DBO traz, neste mês de março, uma reportagem especial sobre a representação feminina nos sindicatos rurais, que não passa de 4,85%, mas cresce ano a ano. São mulheres com uma capacidade intrínseca para aceitar desafios além de administrar suas propriedades. Veja, na reportagem, alguns exemplos dessas pioneiras.

desenvolve sistema para gerenciar conforto térmico dos animais

Genética 46 Mais um recorde na IATF: 21

milhões de protocolos foram utilizados em 2020

48

Novo protocolo de IATF garante maior taxa de prenhez para vacas em anestro.

50

Genômica avaliza uso em larga escala de touros jovens, que crescem nas centrais

Pastagem 54 Em nova série de artigos, Adilson Aguiar fala do controle de plantas infestantes

56

Lay-out e arte final: Edson Alves Foto: Joner Campos

66

Coluna do Ortolani – A raiva nos bovinos, um pouco de história.

Bem-estar 70 Árvores para o conforto animal.

24

Planejamento forrageiro, ferramenta para tornar a pecuária mais rentável

28

Nutrição 58 Matheus Moretti, da Agroceres

Instalações 72 Sistema de puxadores em

Manejo 60 Como tratar os bezerros guachos,

Direito e legislação 74 Como fica a reserva legal de

Especialistas pedem ao governo programa interministerial para combater a cisticercose Marca de carne sustentável Gran Beef arrecada R$ 1,5 milhão em “vaquinha virtual”

30

Produtores em rede em parceria com a polícia reduzem abigeato no MT

33

Coluna do Danilo – Dinâmica dos preços é muito maior do que a da produção

Multimix, lista os 10 “ mandamentos” da boa suplementação

que precisam de cuidados especiais.

Saúde animal 64 Novo sistema de manejo da

Embrapa combate o carrapado, sem controle químico.

Quais espécies escolher e como cuidar.

apartadouro permite que um só vaqueiro faça o serviço.

um imóvel fracionado? Paulo Murilo Galvão responde

Leilões 76 Vendas de fêmeas no bimestre crescem 88% em relação a 2020.

Seções

8 DBOcomunidade

14 Giro Rápido

82 Sabor da Carne

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DBOcomunidade As 10 mais lidas no Portal DBO

Reposição em MS: bezerro Nelore de 8 meses e 129 vale, em média, R$ 2.541 Luto: Morre Taylor Nascimento, médico veterinário e técnico da ABCZ no Paraná Pecuarista vê a arroba acima de R$ 300, enquanto indústria abre a semana olhando o boi de longe Com arroba cravada nos R$ 300 em São Paulo, boi gordo começa fevereiro em ritmo lento por todo o País Pecuarista deve pensar com a cabeça de um agricultor, diz pesquisador mato-grossense

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Bezerras, novilhas e vacas Girolando puxam as comercializações do inédito virtual Select Milk Arroba do boi gordo sobe pela quinta semana consecutiva Pecuarista cadencia venda de boiada e cria problema ainda maior ao frigorífico Bezerras Canchim até 12 meses de idade e 260 kg são vendidas ao valor médio de R$ 2.925 Matéria orgânica, o ouro do solo

ROLOU NAS REDES DBO... www.portaldbo.com.br redação@revistadbo.com.br /portaldbo @portal_dbo @portaldbo /portal-dbo /portaldbo /portaldbo

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8 DBO março 2021

NO E-MAIL Acompanhando o assunto da cisticercose em bovinos, deparei-me com uma entrevista do professor Enrico Ortolani no Portal DBO, que aborda o tema com extrema clareza. A cisticercose sem dúvida é uma questão de saúde pública. Algumas semanas atrás, fui questionado por um produtor penalizado por causa da cisticercose se poderia tomar alguma medida preventiva em relação aos animais já próximos do peso de abate. Recomendei-lhe aplicar sulfóxido de albendazol e respeitar o período de carência, mesmo sabendo que poderia ainda haver penalizações devido ao cisticerco calcificado. Em seguida,ele me perguntou quanto tempo levaria para o cisticerco calcificado “desaparecer” do animal e eu não soube responder corretamente. O senhor saberia me dizer? Abraço e parabéns pela entrevista.

João Padilha

O colunista de DBO Enrico Ortolani responde: Obrigado por seus comentários sobre a live da cisticercose. Vamos à sua resposta. Depois que ocorreu a calcificação ou degeneração do cisto, sem a devida calcificação, as “cicatrizes” e marcas decorrentes vão permanecer na musculatura, podendo ou não ser notadas quando da inspeção da carcaça. Aqui vai um atenuante,

segundo muitos trabalhos internacionais e nacionais, nem todo cisto calcificado ou degenerado encontrado na musculatura se trata de antiga presença de larva de Taenia saginata, pois essas formações podem ser geradas pela presença de outros parasitas, como, por exemplo, o Sarcocystis cruzi e o Echinococus granulosus ou bactérias (Actinobacillus spp), indicando que nem todo cisto calcificado ou degenerado é marca registrada ou garantida de cisticercose. Tenho 35% de reserva legal na minha fazenda. Seria possível obter licença para abrir os 15 % excedentes? Rogério Rojas O colunista de DBO Paulo Murilo Galvão responde: Rogério, a princípio, é possível, sim, abrir esse excedente. Chamamos isso de supressão de vegetação nativa para uso alternativo do solo. Sua propriedade precisa se enquadrar no seguinte perfil: a) cadastramento do imóvel no CAR e b) autorização do órgão estadual competente do Sisnama. Você deverá elaborar um requerimento de autorização de supressão de que trata o art. 26 do Código Florestal, com as seguintes informações: I - A localização do imóvel, das áreas de preservação permanente, da reserva legal e das áreas de uso restrito, por coordenada geográfica, com pelo menos um ponto de amarração


DESTAQUES NO do perímetro do imóvel; II - A reposição ou compensação florestal; III - A utilização efetiva e sustentável das áreas já convertidas; IV - O uso alternativo da área a ser desmatada. Por fim, você deverá ainda comprovar que, em sua propriedade, não existem áreas abandonadas.

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Valoriza o boi, mas o grão continua a comer o boi.

Verdadeira aula. Grande Mestre, Lygia.

Renato De Souza Berzuini (Arroba do boi gordo sobe pela quinta semana consecutiva)

Vai vendo em julho, na seca, 400 é pouco.

Ludovico da Riva (Arroba do boi gordo bateu novo recorde e ficou acima dos R$ 300 em fevereiro, informa Cepea)

NO INSTAGRAM Já “passou da hora” disso acontecer, temos de pensar em produtividade do boi assim como o agricultor pensa na da soja.

@thaitls (Pecuarista deve pensar com a cabeça de um agricultor, diz pesquisador mato-grossense)

Porteira aberta para a geração de empregos!

Luciene Gazeta (Geração de empregos no agro tem o melhor resultado em 10 anos)

Jadson Ramos da Siva (DBO Entrevista com Lygia Pimentel: E o boi, vai rolar? Cadê ele?)

E o boi, vai rolar? Cadê ele?

NOTA DA REDAÇÃO

Na reportagem publicada na edição de fevereiro sobre o boi 22-22, conceito produtivo desenvolvido pelo professor Renato Dib, da Universidade Estadual de Goiás (UEG) e conduzido na BSB Agropecuária, de Jussara, GO, faltou mencionar o nome do proprietário da empresa, Elson Mário de Castilho. O empresário desenvolve trabalho de seleção com Nelore PO, dentro do Programa Qualitas e PMGZ.

Matéria orgânica, o ouro do solo

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Prosa Quente

Quem vê DEP não vê gado arquivo pessoal

Fausto Pereira Lima e a filha, Maria Lúcia, lançam livro sobre a importância da avaliação visual e questionam peso excessivo dos “números” na avaliação genética

N

Não adianta um animal ter DEP alta para ganho de peso, se tiver aprumo defeituoso. Seus filhos não vão conseguir cobrir as vacas”

o próximo dia 8 de maio, o engenheiro agrônomo Fausto Pereira Lima completa 91 anos. Formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), ele dedicou boa parte de sua vida ao estudo de bovinos na Estação Experimental do Instituto de Zootecnia (IZ), em Sertãozinho, região nordeste de São Paulo. Pereira Lima é de um tempo em que nem existiam balanças para pesar os animais nas exposições agropecuárias; por isso, ele desenvolveu vários estudos sobre metodologias que ajudam a calibrar o “olho” do selecionador.

Demétrio – O livro destaca, logo no início, que a produtividade do rebanho e a eficiência são muito importantes para o resultado econômico, mas que é preciso olhar para cada bovino, avaliar suas necessidades e manejá-los adequadamente, tornando-os mais produtivos. O que é fundamental enxergar? Fausto – Isso é muito importante. Hoje existe uma

polêmica sobre o que se aponta nos julgamentos de exposição e as avaliações dos programas que calculam as DEPs. O caminho das DEPs não olha o gado: se ela é positiva é o que importa. Mas quando observamos o gado, principalmente os touros, vemos que muitos deles, que têm DEP boa, nem dariam registro. Outra coisa: para ficar comprovado que o animal é bom reprodutor, ele tem de ter teste de progênie; confirmar que seus filhos são bons para peso, que as filhas têm boa habilidade mater-

10 DBO março 2021

Neste mês de março, ele lançou o livro “Nelore e outros zebuínos – avaliação visual, criação e manejo”, junto com a filha, Maria Lúcia, que também é esalquiana, tem pós-doutorado em bem-estar e manejo animal pela Universidade do Colorado (EUA) e foi diretora geral do IZ, entre 2009 e 2011, época em que o pai já estava aposentado de suas funções na instituição. Fausto Pereira Lima faz parte da história da pecuária brasileira. Em 1951, ainda como estudante de agronomia, ele assistiu em Barretos, SP, à apresentação dos resultados da primeira prova de ganho de peso realizada no País. Em 1960, já formado, foi trabalhar na instituição para a qual dedicou grande parte de suas pesquisas, o IZ. Mas esse não foi o começo de tudo. Criado em fazendas, os ensinamentos do livro agora publicado são transmitidos por um homem que dedicou a vida à observação da pecuária em busca da melhoria de sua produtividade. “Minha história de vida mistura-se com a recente história da bovinocultura de corte no Brasil, com o crescimento e a transformação do zebu e sua grande importância para a economia de nosso País”, escreve Pereira Lima na apresentação do livro. Dias antes do lançamento de sua obra, ocorrido em 2 de março, o icônico agrônomo, sempre de chapéu do tipo panamá na cabeça, como mostra a capa do livro, concedeu entrevista inédita ao diretor responsável da DBO, o jornalista Demétrio Costa. O autor também participou do programa “Revista DBO Em Foco”, que pode ser conferido no canal do Youtube e no DBO Play, no site www.portaldbo.com.br.

na... Aí, sim, ele passa a ser um vendedor de sêmen. Maria Lúcia – Essa questão da avaliação também é super importante, do ponto de vista do trabalho de melhoramento. Não adianta um animal ter uma DEP para alto ganho de peso se seu umbigo não é bom, se tem aprumo defeituoso, pois os filhos não vão conseguir cobrir as vacas. Então, se além dos números não se fizer avaliação visual, perde-se muito. Demétrio – Por que, em uma seleção genética para ganho de peso, é tão importante a avaliação visual dos produtos gerados? Fausto – Para se manter a caracterização racial. Há mui-

tos anos, fizemos um trabalho em Sertãozinho, para ver quais características tinham relação com o peso. A caracterização racial, de certa forma, não tem relação com o peso não, mas tem com a habilidade materna. Então,


não se pode modificar a caracterização de cada raça de uma hora para outra somente para ter bom ganho de peso. Acho que isso está errado. No livro, explicamos direitinho como escolher um touro, o boi que vai para a engorda, a vaca boa para criar, como substituir vaca defeituosa... Não é só número. Maria Lúcia – A ideia, no livro, é ensinar o leitor a fazer a avaliação visual. Pra isso, usamos fotografias, flechinhas, descrições. Este foi, inclusive, um pedido de muita gente: que escrevêssemos um livro didático para ajudar qualquer um a fazer avaliação visual, mostrando o como olhar um garrote e enxergar se ele vai dar um animal pesado ou não, como avaliar aprumos, o que é problema de umbigo e o que não é. Demétrio – Dr. Fausto, com sua longa história de juiz de animais em pista, como classifica o papel dos julgamentos nas exposições agropecuárias na época em que não existiam programas de melhoramento e os julgamentos nas exposições agropecuárias eram os principais indutores do padrão a ser seguido? Fausto – Nossa preocupação era a de contribuir para me-

lhorar o peso dos animais de corte da pecuária brasileira. Então, olhávamos a conformação do boi, se tinha carcaça bonita, bons aprumos, se era um animal equilibrado, dentro do padrão da raça. Esse animal tinha preferência para seleção. A gente já julgava ele desde bezerro pensando que seria um touro campeão; pai, avô ou bisavô de um animal de corte. Vou citar um exemplo: com a importação de 1962, veio da Índia um touro chamado Karvadi. Era um animal bonito, que chegou com a fama de ser campeão da Ásia e tetracampeão da Índia, e contribuiu muito aqui no Brasil. Esse touro deu, com uma outra vaca importada, um bezerro chamado Dumu, que se acasalou com muitas vacas. De uma delas – uma matriz baiana – nasceu Gim de Garça. Ele, por sua vez, gerou Ludy de Garça, que também deu vários outros touros melhoradores de plantel. E até hoje seguimos vendo os raçadores dessa linhagem nos pedigrees de animais que ganham prêmios nas pistas e têm bons números. Com um detalhe: nos julgamentos que fazíamos no começo da década de 70, não se tinha nem balança nas exposições. Demétrio – E hoje, como avalia a situação em que o juiz precisa considerar uma série de dados além da análise específica das características raciais dos animais expostos? Fausto – Hoje, acontece também um outro caso. A parte

de alimentação melhorou demais. O sal mineral e a ração que se dá para animais que vão disputar campeonatos de pista tornam esses animais muito pesados desde bezerros, e não dá muito certo lá para analisar, então ficam sem obter DEP. Como as centrais de inseminação querem animal com número, com DEP, o touro da exposição, embora seja um campeão, bem caracterizado e com boa conformação, perde espaço porque não tem número que ajude a vender sêmen. Agora, tem uma coisa: onde o boi cresce? Como ele cresce? Onde está o peso

do boi? O número não fala isso. Se, trabalhando com números, a gente aumentar o dianteiro do boi, isso vai prejudicar o bezerro ao nascer. Complica. Por isso, precisava haver um complemento nessa análise entre a coisa moderna de hoje e a realidade do plantel. As exposições sempre foram muito importantes. Demétrio – Mas atualmente elas perderam muito desse peso. Eram fornecedoras de animais que iam determinar uma genética que marcou muito a evolução. Hoje, o que se vê é que as centrais estão se abastecendo muito mais dos programas de melhoramento. Fausto – A gente vê nitidamente isso aí. Outra coisa

que o Ministério da Agricultura fez foi dar um certificado de produção para os touros filhos de vacas “cara limpa”, que não passam pelo registro. A pessoa que vem há muitos anos registrando gado bom, pesado, no fim vê outro produtor, cujas vacas se não sabe a origem, obtendo a mesma regalia de um touro que veio de um plantel registrado. Demétrio – Mas o senhor não considera que houve um avanço, mesmo nestes animais CEIP, em relação às características raciais, ou, para o senhor, a disseminação dessa genética traz algum risco de prejuízo para a melhoria do rebanho Nelore? Fausto – O pessoal faz um marketing muito agressivo

desse tipo de gado. Acho que ficou um pouco na contramão da seleção. O pedigree é muito importante nesse tipo de avaliação. Maria Lúcia – Sobre o CEIP, a questão é que temos animais muito heterogêneos. Alguns até possuem DEP superboa para ganho de peso, por exemplo, mas têm ventre volumoso. Eles vão gerar animais com rendimento de carcaça mais baixo. A gente colocou no livro a forma como se deve observar os animais; então, se você quer comprar sêmen do touro que está na central, nosso alerta é para ir olhar esse animal, olhar por trás, ver se tem ventre volumoso. Porque o Holandês, que só tem ventre e não tem músculo, apresenta ganho de peso ótimo, mas ninguém quer esse tipo de animal. E quando você visita uma central que tem um monte de touros, um com uma DEP melhor do que a outra, você vê que eles têm um tipo de musculosidade, altura, proporção de membros diferentes um do outro, sem padrão nenhum. Por isso é muito importante olhar.

Se você quer comprar sêmen de touro que está lá na central, nosso alerta é para ir olhar esse animal”

Demétrio – No livro, o senhor destaca a importância da preservação de algumas linhagens consagradas do Nelore, como é o caso do grande pilar da seleção, o touro importado Karvadi, bem como do também importado Golias. Fausto – Karvadi marcou época: touro bonito, bem carac-

terizado, comprido, musculoso na parte traseira e muito bom produtor de sêmen. As filhas também criavam bem os bezerros. Outro touro que veio da Índia, muito importante, mas cujos filhos não valiam tanto quanto os de Karvadi, foi o Golias. Teve pouca venda de tourinhos; acho que nem coletou sêmen ou se coletou foi pouco. Agora, teve criador que resolveu reviver a linhagem Go-

DBO março 2021 11


Prosa Quente lias, fazendo cruzamentos entre parentes, pra chegar perto de um meio-sangue Golias. E conseguiu. Tudo porque se descobriu que os descendentes de Golias tinham qualidade de carne marmorizada. Karvadi, não. Dava carne com gordura superficial. Agora, o normal do Nelore é ter gordura superficial. Pode se fazer gordura entremeada também, mas vai gastar muita ração. A linhagem Golias já tem essa genética diferenciada. Demétrio – E sobre novas importações de Nelore e outras raças zebuínas? Fausto – Quem precisa de zebu é o

Usar as melhores vacas Nelore somente para o cruzamento industrial e deixar as piores para reposição de plantel não é trabalho sério”

Demétrio – Maria Lúcia, bem-estar animal é uma de suas especialidades...

Dividido em nove capítulos, o livro escrito por Fausto Pereira Lima e sua filha, Maria Lúcia, aborda quatro temas: arte e ciência na avaliação visual; comportamento animal; manejo e criação; métodos de seleção e melhoramento. Discorre também sobre as raças zebuínas Nelore, Guzerá, Sindi, Indubrasil e Tabapuã; traz a história do gado no Brasil e destaca as principais contribuições de linhagens como a Lemgruber, Karvadi e Golias. A obra pode ser adquirida pela internet, em livraria.funep.org.br

Brasil, com seu clima tropical. Por que não trazer? Aí dizem: “Não, pra que trazer, se eles não têm as DEPs que temos nos touros aqui?”. Ora, gente, na Índia eles selecionam para tração, puxar pedra, mas são animais grandes, boa conformação. Como dizia, lá atrás, o dr. Barrison Villares, o zebu tem gene para produção de carne; só falta juntar esse gene e fazer aparecer. O trabalho realizado em Sertãozinho ilustra bem o grande avanço genético do rebanho de seleção em relação ao rebanho tradicional, que não teve esse trabalho de melhoramento. Um gráfico no livro mostra bem essa diferença. Quando você cruza o bom de número bem selecionado com os animais de pouca seleção provoca boa heterose.

Demétrio – Na década de 90, na primeira grande onda de cruzamentos na pecuária de corte brasileira, o então presidente da Associação de Criadores de Nelore do Brasil, Eduardo Biagi, contra-atacava dizendo que o melhor cruzamento era o de Nelore com Nelore. Mais do que isso, ele proclamava que o Nelore podia, sim, oferecer carne de qualidade. Gostaria que vocês comentassem afirmações como essas à luz do que se observa hoje na produção brasileira de carne. Maria Lúcia – Foi uma boa oportunidade ter todos os ma-

nuscritos dos experimentos que o Duda Biagi fez naquela época. Testou o Nelore ‘inteiro’ contra o Nelore castrado e o ganho de peso do inteiro foi muito maior. E fez vários outros experimentos, inclusive os de manejo e alimentação. Tudo isso trouxe muita informação sobre a viabilidade do ‘cruzamento’ de Nelore com Nelore. Fausto – E outra coisa: o pessoal fala que, para a carne do boi inteiro ficar macia, ela precisa ficar mais dias na câmara fria. Mas o problema não está na câmara fria e sim lá no curral, na hora de embarcar a boiada, e no que é feito no frigorífico, na hora de conduzir esses animais para abate. O animal inteiro fica estressado, pronto para brigar, e o animal estressado tem descarga de hormônio que enrijece a carne. 12 DBO março 2021

Não tem dúvida, primeiro porque já sabemos que o Nelore é um animal mais rápido, mais altivo, presta mais atenção e se assusta com muito mais facilidade. Então, sabendo disso, o manejo na fazenda, no confinamento, no caminhão, no desembarque, tudo isso pode ser muito melhorado. O Brasil ainda é ruim nessa parte de manejo. Inclusive, a gente colocou no livro soluções muito fáceis e baratas, para mostrar que é possível melhorar. Agora, essa questão de estressar e piorar a qualidade da carne é uma realidade. Soluções existem e é fácil colocar em prática. Demétrio – Até porque o abate predominante do boi inteiro é nossa realidade... Maria Lúcia – Realmente, é só corrigir

manejo. As pessoas que estão lidando com o gado têm de saber o que estão fazendo. O manejo deve ser calmo e o curral, adequado. Não é coisa difícil de se fazer, os animais precisam enxergar as porteiras, os lugares onde têm de passar, o caminhão a ser embarcado, tudo fica facilitado, diminui o estresse e isso melhora absurdamente a qualidade da carne. A qualidade da carne tem a ver mais com o fato de o animal ser estressado ou não, mais do que se é inteiro ou castrado. DBO – No livro, também se dá ênfase a um risco compartilhado por técnicos e criadores em relação à base do plantel Nelore como consequência do intenso uso de sêmen de raças europeias nos programas de IATF. Como se dá isso? Fausto – O problema do cruzamento é que as matri-

zes boas são as primeiras que entram no cio no mês mais favorável para concepção e justamente elas são inseminadas para cruzamento industrial. Aí, perde-se a produção dessas vacas para a reposição, porque o touro Nelore é usado nas vacas tardias, que vêm falhando um ano. Então, o que esperar das crias dessas vacas, a não ser filhos e filhas iguais às mães? Não é um trabalho sério esse, não. Maria Lúcia – É importante que boas matrizes sejam inseminadas com Nelore logo no início da estação de monta e que suas filhas bem nascidas e bem criadas sejam as matrizes de reprodução. Fausto – Também é importante dizer que cruzamentos entre zebuínos também dão heterose fora de série, principalmente o Gir com Nelore, porque o Gir é muito distante do Nelore. Quando se acasala os dois, dá uma heterose muito boa. O Sindi também está em evidência: dá heterose e fica um gado muito bonito. n


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Giro Rápido Congresso das mulheres começa a ganhar forma

No final de fevereiro, o grupo curador do 6° Congresso Nacional das Mulheres do Agronegócio, programado para o período de 25 a 27 de outubro, definiu o tema que norteará sua programação: “Digital e agregação de valor – a nova liderança no Agro”. Por segurança, os organizadores fecharam uma questão de imediato: o congresso, que em 2020 aconteceu em formato virtual, repete essa fórmula em função das indefinições sobre o quadro da Covid-19 até o fim do ano. A princípio, havia a possibilidade de se fazer um evento misto (virtual e presencial), para resgatá-lo como fórum de relacionamentos, condição que, ao longo dos anos colocou a iniciativa na grande agenda do setor. “Mas vamos com cuidado. Mesmo apenas no virtual, estamos apostando que o congresso será grande”, diz Carolina Scatena Gama, executiva do Transamérica Expo Center, promotor do evento, que tem curadoria da agência Biomarketing e apoio da Associação Brasileira do Agronegócio. O congresso abordará os impactos da digitalização e as suas correlações a partir da atuação feminina na gestão, na ciência e na tecnologia. Também está na agenda a agregação de valor a partir da originação dos alimentos, incluindo nessa agenda a agricultura de baixo carbono, o cuidado com os solos, as tecnologias de incremento da performance pecuária e as indicações geográficas. Para esses papéis de liderança na cadeia, uma nova realidade se impõe para as organizações, as empresas e o poder público, palcos em que a representatividade das mulheres ganha um novo significado. 14 DBO março 2021

Tour DSM de Confinamento mostra rentabilidade recorde Em conferência on-line no início de março, a DSM informou que pecuaristas que investiram mais em tecnologia no confinamento lucraram 23,8% no ano passado. É a síntese do que apurou o Tour DSM de Confinamento em nove propriedades, e significa que, na média, a cada R$ 1 investido, o retorno foi de R$ 1,24. Isso, num período “curtíssimo” de 98 dias. Foi o maior resultado desde que a DSM iniciou o projeto (em 2015), superior inclusive à média de confinamento de bovinos nacional, estimada pela parceria Agribenchmark /Cepea, de 10,1%. Por mês, a taxa de lucro foi

de 7,33%. As propriedades estão localizadas nos Estados de SP, MT, MS, GO, TO e MG.

Mais agilidade para as comitivas do Pantanal Um projeto tocado com investimentos de R$ 210 milhões em obras pretende reduzir sensivelmente o tempo do trajeto feito pelas comitivas pantaneiras no Mato Grosso do Sul. O objetivo é fazer com que alguns deslocamentos – que hoje podem demandar até 30 dias – sejam feitos em tempo muito menor (em até um dia), visando menor desgaste dos animais. Para isso, o Programa Integrando Pantanais (PIP) prevê construção de estradas e atalhos em 680 km, de modo a permitir a união entre os pantanais da Nhecolândia e Paia-

guás. Segundo a Secretaria de Infraestrutura de MS, até o início de março as obras cobriam 180 km de rodovias, com desembolso de R$ 32 milhões.

LUTO Morre o fundador da Agrícola Anamélia – Brangus HP Os selecionadores de Brangus perderam, em fevereiro, uma das referências da seleção da raça no Brasil. Herculano Carlos de Almeida Pires faleceu na capital paulista, aos 85 anos, 32 deles dedicados à pecuária de corte. Iniciou o cruzamento industrial em 1989; mas passou a dedicar-se à seleção em 1997, com foco no aprimoramento genético do Brangus, raça que elegeu como ferramenta imbatível para a produção de bons cruzados. O criatório, localizado no interior de SP, é capitaneado por sua filha, Anna Cecília de Almeida Pires Lancsarics, juntamente com o marido, Ladislau Lancsarics Júnior, atual presidente da Associação Brasileira de Brangus (ABB), entidade que, lamentou em nota, a perda do pecuarista.


CRA digital inédito no RS O agronegócio acaba de ganhar uma modalidade inédita de financiamento da produção, toda feita em ambiente digital. O Grupo Ecoagro e a Cotribá (Cooperativa Agrícola Mista General Osório), do Rio Grande do Sul, concluíram a primeira emissão de um Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) com lastro em Cédulas de Produto Rural Financeiras (CPR-F) pulverizadas ( para mais de um beneficiário) e 100% digitais, batizado de CRA-Tech. A emissão é mais barata que a operação tradicional e deve garantir R$ 53 milhões em financiamentos para a compra de insumos destinados a 120 cooperados.

Infopec

Infográficos que sintetizam informações importantes da pecuária

Evolução do rebanho brasileiro de bovinos confinados de 2018 a 2020 no universo pesquisado 600.000

2018

300.000 200.000 100.000

GO

MG

A Secretaria Especial de Assuntos Fundiários (Seaf) e o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) lançaram o Programa “Titula Brasil” para agilizar os processos de regularização fundiária por meio de acordos de cooperação técnica com as prefeituras municipais. O Incra seguirá fazendo o seu papel da análise, da instrução e das decisões dos processos, só que agora em parceria com as prefeituras. O programa foi desenvolvido pela Serpro, empresa pública de tecnologia da informação, com o objetivo de impulsionar a transformação digital nas propriedades rurais e dar mais agilidade à expedição de títulos via aplicativo.

MS

MT

SP

Distribuição do gado confinado, em 2020, por Estado Mato Grosso do Sul

Minas Gerais Mato Grosso

Para agilizar a regularização

2020

400.000

Aftosa: calendário indefinido O cronograma para a retirada da vacinação contra a febre aftosa no Brasil continua sem definição. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento não decidiu ainda se fracionará o bloco IV do Pnefa (hoje muito grande), o que torna o cenário ainda mais confuso. “Está difícil estipular um calendário. Temos Estados em níveis muito distintos na questão da implantação e execução das ações, previstas no Plano Estratégico” disse Geraldo Moraes, diretor do Departamento de Saúde Animal da Secretaria de Defesa Agropecuária do Mapa, em live promovida pela Sociedade Rural Brasileira (SRB) em parceria com a CNA, em fevereiro.

2019

500.000

20,5%

8%

São Paulo

34,3%

19,7% 19,7%

Goiás

Confinamentos e semiconfinamentos nos Estados visitados Anos

GO

MG

MS

MT

SP

Total

2018 a 2019

10,1%

8,8%

7,2%

16,9%

9,4%

11,0%

2019 a 2020

17,8%

17,0%

21,9%

11,1%

32,7%

21,2%

2018 a 2020

29,7%

27,2%

30,7%

29,9%

45,2%

34,5%

Fonte: Scot Consultoria

São Paulo lidera o Benchmarking Confina Brasil A quantidade de bovinos confinados nos cinco Estados onde a atividade é mais significativa – Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e São Paulo – cresceu 21,1% em 2020, no comparativo com 2019. É o que aponta o Benchmarking Confina Brasil, levantamento realizado pela Scot Consultoria, de Bebedouro, SP, e divulgado no início de março. A pesquisa teve como objetivo avaliar o comportamento da produção intensiva nas últimas três safras de boi, a partir de entrevistas realizadas em 112 propriedades, detentoras de 1,663 milhão de cabeças. As médias dos indicadores zootécnicos declarados pelos confinadores nestas regiões foram: 21,6 meses de idade na entrada do confinamento; 108 dias de duração; 1,547 kg/cabeça/dia

de ganho de peso; 10,8 kg/cabeça/dia de consumo de matéria seca; e 55% de rendimento de carcaça. São Paulo ficou com 34,3% do rebanho confinado e apresentou a maior taxa de crescimento em três anos: 45,2%. No Mato Grosso do Sul, o crescimento foi de 30,7%; no Mato Grosso, 29,9%; em Goiás, 29,7% e, no Estado de Minas Gerais, 27,2%. Ao se analisar isoladamente o cenário de 2020, a quantidade de bovinos confinados aumentou mais de 10% em relação a 2019 nas cinco praças, com destaque novamente para São Paulo, cujo crescimento foi de 32,7% de um ano para outro. Outras 43 visitas foram feitas em semiconfinamentos, que terminaram 247.000 bovinos em 2020.

DBO março 2021 15


Mercado sem Rodeios

Alcides Torres Jr.* –

Scot

Sazonalidade de abates reflete nos preços Engenheiro agrônomo e diretor-proprietário da Scot Consultoria, de Bebedouro, SP.

D

* Colaborou Hyberville Neto

esde 2018, o criador tem visto seus resultados melhorarem muito, enquanto o recriador, o invernista e o confinador mantêm um olho no boi e outro na reposição, além de acompanhar os custos dos concentrados (normalmente mais presentes nesses sistemas). Tradicionalmente, o criador tem custos menos voláteis, com menor participação de alimentos concentrados e não precisa pensar em reposição. Sem entrar no mérito da conjuntura social e econômica, dentro do negócio tem sido só alegria para os criadores. E quando algo dá lucro, o que ocorre é a busca pelo aumento da produção. No caso da cria, esse aumento advém das vacas e novilhas, da sua manutenção no rebanho. É a fase de retenção de fêmeas do ciclo pecuário que reduz, de maneira importante, a oferta de gado para abate e intensifica a valorização. Sazonalidade de abates No Brasil, os abates de vacas e novilhas se concentram mais no primeiro semestre, com destaque para março (devido ao descarte de fêmeas vazias após a estação de monta) e maio, quando chega a seca, que diminui a capacidade de suporte das pastagens, obrigando o pecuarista a intensificar a suplementação ou vender animais. Muitas vezes, observa-se uma verdadeira desova de final de safra, com incremento nos abates em geral. O primeiro gráfico mostra a sazonalidade de oferta de machos e fêmeas mês a mês, na média de 2000 a 2019, último ano com detalhamento para essas categorias. Podemos supor que, em anos de retenção de fêmeas, a pressão de final de safra seja menor. E normalmente é isso que ocorre. Tomando janeiro como referência, fizemos a evolução dos preços do boi gordo ao longo dos anos, entre 2000 e 2020. A partir daí, as variações foram agrupadas, com a média dos anos de retenção e descarte de fêmeas, além do preço geral, máximos e mínimos (veja gráfico 2). Tomando maio como exemplo, no pior ano de movimentação de preços, a cotação média foi 10,9% menor do que em janeiro. Na média dos anos de descarte, o re-

Projeções com base no histórico de variações e preço médio em janeiro de 2021 Mês maio outubro

Menor

Descarte

Geral

Retenção

variação

-10,9%

-4,8%

-1,2%

2,0%

Maior 8,5%

preço

249,94

267,22

277,16

286,19

304,40

variação

-7,5%

2,6%

9,0%

14,8%

34,3%

preço

259,75

288,05

305,93

322,19

376,88

Fonte: Scot Consultoria

16 DBO março 2021

Grafico 1 - Comportamento dos abates mês a mês por categoria (sazonalidade média desde 2000) 9,5% 9,0% 8,5% 8,0% 7,5% 7,0% 6,5%

Machos jan

fev

mar

abr

mai

jun

Fêmeas jul

ago

set

out

nov

dez

Fonte: IBGE / Scot Consultoria

Gráfico 2 - Variação da @ em relação ao valor de janeiro, à média geral, anos de descarte e de retenção, maior queda e maior alta, desde 2000 40,0% 30,0%

Menor Descarte Geral Retenção

Maior

20,0% 10,0% 0,0% -10,0% -20,0%

Maio

Outubro

Fonte: IBGE / Scot Consultoria

cuo foi de 4,8% e, nos anos de retenção, a cotação em maio foi 2% maior do que em janeiro. A partir do preço em janeiro de 2021 (R$280,66/@, à vista, livre de imposto, em São Paulo), projetamos o que tais variações representariam em preços (veja a tabela abaixo). Considerando-se a variação média de anos de retenção, teríamos uma cotação, em maio, de R$286,19/@. Aqui cabe o destaque de que a projeção partiu da média de janeiro de 2021, o mesmo critério usado na série, mas ao final do mês a cotação já estava acima do patamar usado. Expectativas Temos uma infinidade de variáveis para acompanhar, passando pela imunização contra o coronavírus, seus efeitos sobre a economia e o câmbio, evolução das reformas, auxílios emergenciais, e por aí vai. As variações históricas não são garantias, mas indicam que o mercado futuro tem trabalhado com bastante cautela no começo de 2021, sem que os contratos para vencimento em novembro atingissem R$295/@, pelo menos até meados de fevereiro. n


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Mercado

Haverá oferta maior em março? Mercado do boi gordo segue travado, refletindo o acirramento da queda de braço entre a indústria frigorífica e o pecuarista Denis Cardoso

J

aneiro e fevereiro foram meses marcados pela enorme escassez de animais prontos para abate, devido ao atraso do período chuvoso no Brasil-Central, que retardou a recuperação das pastagens. A expectativa para março é de alguma melhora no quadro de oferta de boiadas gordas, já que os pastos ganharam vigor depois da chegada definitiva da estação chuvosa. Entretanto, na prática, o ritmo de escoamento de animais terminados vai depender muito das disputas travadas entre frigoríficos e pecuaristas. De um lado, há um setor industrial sufocado pelo aumento expressivo dos gastos operacionais, inflado pelos preços recordes da arroba (até o início de março ainda giravam ao redor de R$ 300, em São Paulo), e pela grande dificuldade em repassar esse aumento de custo para o restante da cadeia (atacado/varejo). Em tempos de crise econômica, gerada pela pandemia da Covid-19, os consumidores têm evitado passar perto das bandejas de carne vermelha, optando pelas prateleiras contendo proteínas mais baratas, como frango e carne suína. Na outra ponta da cadeia, há pecuaristas dispostos a não ceder com facilidade à pressão baixista dos frigoríficos, pois a ideia é tirar proveito de um valor de arroba em patamares ainda bastante elevados e, ao mesmo tempo, no caso específico de fazendas de recria/engorda, tentar

Contrato do boi gordo para outubro chega a R$ 301,50 Mês para liquidação dos contratos na B3 Data/ pregões

Fev

jan

Mar

Abr

Mai

Jun

Jul

Ago

Set

Out

29/01/2021 298,07 293,95 285,50 282,85 280,00 271,00 283,65 253,55 260,35 286,65 26/02/2021

-

Nov

Dez

-

261,00

301,69 302,85 297,60 291,10 281,60 298,35 266,70 273,80 301,50 298,70 274,45

Fonte: B3

Indicador do bezerro tem elevação de 6% em fevereiro Especificações Preço à vista por cabeça Peso médio/kg Preço por kg Preço por arroba

Datas de levantamento do Cepea 26/03/2021 29/01/2021 R$ 2.844,25 R$ 2.674.52 179,73 186,33 R$ 15,8 R$ 14,35 R$ 474,75 R$ 430,61

Fonte: Cepea/Esalq/USP

Indicador do boi gordo rompeu barreira dos R$ 300 em fevereiro Especificações Preço à vista

Datas das liquidações dos contratos negociados na B3 26/02/2021 29/01/2021 R$ 303,15 R$ 299,85

Fonte: Cepea/Esalq/USP/BM&FBovespa. Média dos últimos cinco dias úteis em São Paulo. O valor é usado para a liquidação dos contratos negociados a futuro na BM&FBovespa.

18 DBO março 2021

fechar a conta financeira da reposição. O movimento de valorização do bezerro e de outras categorias de animais jovens supera o ritmo de alta dos preços do boi gordo registrados ao longo de 2020 e início deste ano. Em relatório divulgado no início de março, o Rabobank se mostra cético em relação à expectativa de evolução consistente na oferta de boiadas a partir deste mês. “Não acreditamos em aumentos significativos na disponibilidade de gado nos meses de março e abril”, avalia o banco, acrescentando que espera preços da arroba ainda em níveis altos, no curto prazo. O analista Hyberville Neto, da Scot Consultoria, lembra que a pecuária nacional atravessa um período de forte retenção de fêmeas, o que muda o cenário no mês de março, tradicionalmente forte na venda de vacas e novilhas, devido ao fim do calendário reprodutivo. Fatores de alta Em seu relatório de início de março, a consultoria Agrifatto, de São Paulo, destacou o retorno da tendência de alta no mercado do boi gordo, depois de um período de mais calmaria nas cotações. “Mesmo diante da dificuldade em repassar as altas do boi gordo para o consumidor final, o preço do animal terminado ganhou fôlego, relatou a consultoria. Um dos motivos que contribuem para a expectativa de alta da arroba no curto prazo é o retorno definitivo da China ao mercado importador de carne bovina, depois de tirar o pé das compras internacionais em janeiro e na maior parte de fevereiro, devido ao período de feriado do ano novo chinês. Nas últimas semanas do último mês, os embarques de proteína vermelha ganharam fôlego, não somente pela volta do maior cliente internacional da carne brasileira às compras, mas também pela taxa de câmbio mais favorável aos exportadores (no início de março, o dólar rompeu a barreira dos R$ 5,60), o que deixa o produto nacional mais competitivo no mercado externo. Em fevereiro, o Brasil exportou 102.000 toneladas de carne bovina in natura, número 7,64% abaixo das 110.500 toneladas embarcadas em igual mês de 2020, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). Cabe destacar que os embarques haviam recuado 26,8% até a primeira quinzena de fevereiro. O faturamento no último mês atingiu US$ 463,5 milhões, queda de 5,3% frente à receita do mesmo período do ano anterior (US$ 489,6 milhões). No entanto, o preço pago pela carne bovina in natura no mercado internacional subiu 2,5% no mesmo período, saltando de US$ 4.428/tonelada, em fevereiro de 2020, para US$ 4.539/t, no mês passado. n


Mercado

Reposição engata a quinta marcha Alta do segmento é muito superior à da arroba do boi e reduz o poder de compra do recriador/invernista

Q

Denis Cardoso

uando o viés é de alta – uma constância no setor pecuário nos últimos dois anos –, a escalada de preços dos animais de reposição tem sido bem superior à registrada para a arroba do boi gordo. Em fevereiro passado, segundo levantamento da Scot Consultoria, o valor médio do bezerro anelorado desmamado (6@) em São Paulo ficou em R$ 2.800/cabeça, 68,2% superior à cotação média registrada em fevereiro de 2020. Enquanto isso, no mesmo período, a arroba do boi gordo acumulou alta de 48,7% ao registrar R$ 297,38 (a prazo, livre de impostos) em fevereiro, na praça paulista. Com isso, a relação de troca para o recriador/invernista encolheu em mais de 10% (9,42@ de boi gordo para adquirir um bezerro desmamado, ante 8,50@ em fevereiro/2020). Além disso, o bolso desse pecuarista também foi enfraquecido pelas valorizações de alguns insumos importantes para o setor, como o farelo de soja e o milho. Segundo dados do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea), em janeiro deste ano, o preço médio do “bezerro de ano” (12 meses de idade) subiu 31,9% no Mato Grosso, para R$ 2.649/cabeça, na comparação com janeiro de 2020. Essa alta, justifica o Imea, reflete o maior abate de fêmeas em anos anteriores, o que fez reduzir a quantidade de matrizes e, consequentemente, a oferta de bezerros ao mercado. No entanto, pondera o instituto, no intervalo de um ano, os preços do farelo de soja e do milho aumentaram 120,4% e 73,8%, respectivamente, no Mato Grosso. Com isso, na comparação com um ano atrás, ao negociar um bezerro de ano em janeiro último, o pecuarista desse Estado comprou 40,2% a menos de farelo de soja e 24,15% a menos de milho. A oferta de lotes para reposição continua bastante enxuta em todas as regiões pecuárias, o que ajuda a explicar novos avanços nas cotações nos últimos meses. Outro ponto de sustentação no mercado, diz a analista Thayná Drugowick de Andrade, da Scot Consultoria, é a melhoria da pastagem nas fazendas espalhadas pelo Brasil-Central, revigorada pela chegada do período de chuva. “Com isso, pecuaristas optam por segurar

os seus animais, aguardando o melhor momento para as negociações”,interpreta. Segundo a consultoria IHS Markit, nas últimas semanas, verificou-se altas mais expressivas de animais mais erados, sobretudo machos com mais de 12@ e novilhas com mais de 10@. “Alguns terminadores estiveram ativos nas compras de animais mais erados com foco na precificação dos lotes para entrega no segundo semestre do ano, sobretudo em outubro”, informa a IHS. No entanto, no interior paulista, a atual especulação em torno dos lotes com mais de 300 kg (boi magro) traz certa preocupação para os recriadores/invernistas. “Para essa categoria, houve relatos de negócios em torno de R$ 4.500/ cabeça, em São Paulo, dependendo da qualidade do lote”, relata a mesma consultoria. Preços regionais Segundo a Scot, na média de todos os Estados, em todas as categorias do setor de reposição, as cotações tiveram valorização de 3,5% em fevereiro, frente a janeiro passado. No Mato Grosso do Sul, o indicador Cepea do bezerro fechou fevereiro a R$ 2.211, alta de 1,5% sobre o valor de janeiro. Ainda no MS, o preço médio do bezerro desmamado ficou em R$ 2.880, elevação de 6,7% sobre o valor médio de janeiro, informa a Scot. Destaque também para a valorização da novilha, que subiu 10,4%, ficando em R$ 2.950, em média. No Mato Grosso, entre as categorias de reposição, destaque para a alta de 7,7% no preço do garrote, que bateu em R$ 3.500. Nessa mesma praça, o bezerro desmamado ficou em R$ 2.700 no mês passado, com elevação de 3,8% sobre janeiro, enquanto o boi magro atingiu R$ 4.000, em média, com acréscimo mensal de 3,9%. Na praça de São Paulo, todas as categorias de reposição registraram fortes elevações em fevereiro, com destaque maior para o bezerro desmama, que saltou 14,3%, para R$ 2.800, ante o preço médio de janeiro. O garrote também teve alta mensal expressiva: 13,7%, ficando em R$ 3.980. O boi magro subiu para R$ 4.350, 3,6% mais, na comparação com janeiro. A novilha foi negociada a R$ 3.100, alta de 10,7% sobre janeiro. n

nnn

R$ 2.950

Valor médio da novilha na praça do MS, em fevereiro; avanço de 10,4% sobre janeiro.

nnn

nnn MERCADO PECUÁRIO NO PORTAL DBO Confira as cotações, análises e tendências em portaldbo.com.br, atualizadas ao longo do dia, com base nas principais consultorias e outras fontes do mercado

R$ 2.800

Valor do bezerro desmama na praça paulista, no mês passado; elevação mensal de 14,3%

nnn

DBO março 2021 19


Cadeia em pauta

Carne Nelore na prateleira de cima Confraria da Carcaça reúne produtores focados na produção de carcaças premium, para atender consumidores que valorizam qualidade e um bom terroir estão construindo uma “rede” de difusão genética (já atuam em 10 Estados) e também de comercialização, com venda direta da carne marmorizada de Nelore em dois pontos de venda, um em Mato Grosso e outro em Mato Grosso do Sul. “O que vemos é um projeto com potencial para ir além da entrega de carcaça com alto rendimento para frigoríficos. É uma carne de alta qualidade, que pode chegar à mesa de consumidores muito exigentes”, avaliou Fábio Medeiros, CEO da Cooperaliança, que ministrou uma palestra durante o dia de campo sobre o mercado brasileiro de carne premium.

Dia de campo na Fazenda Araponga (MT) reuniu público expressivo em tempos de pandemia (100 pessoas) e apresentou os resultados da seleção de Shiro Nishimura

Carolina Rodrigues

P

carol@revistadbo.com.br

roduzir carne gourmet a partir do Nelore selecionado para marmoreio, conectando selecionadores e terminadores às demandas do consumidor de carne premium. Essa é a proposta da Confraria da Carcaça, tema do terceiro Dia de Campo da Fazenda Araponga, localizada em Jaciara (MT) e pertencente ao selecionador Shiro Nishimura. Realizado dia 29 de janeiro, o evento reuniu cerca de 100 criadores e técnicos de várias partes do Brasil para apresentação dos resultados dos 32 anos de seleção do criador, oito deles focados em qualidade de carcaça. “Nosso Nelore vai muito além da carne commodity. Existe qualidade no Nelore, mas ela precisa ser mostrada e comercializada para o mundo”, disse o anfitrião, que, ao lado do produtor Humberto Tavares, da Fazenda Sucuri, de Itapirapuã (GO), tem reunido criadores para provar que o Nelore possui, sim, condições de disputar com o Angus a “prateleira de cima” das boutiques de carne em todo o País. O projeto Confraria da Carcaça nasceu há cerca de quatro anos e reúne pecuaristas que usam a ultrassonografia como ferramenta para identificar animais capazes de produzir carne de qualidade, seja para seleção, seja para obter melhor remuneração junto à indústria ou participar do mercado de carne premium. São 60 criadores conectados, incluindo 40 fornecedores de genética e 20 proprietários de rebanhos comerciais. Aos poucos, eles

20 DBO março 2021

Elo comum Liliane Suguisawa, zootecnista e diretora técnica da DGT Brasil, responsável pela aplicação da ultrassonografia nas fazendas do grupo, explica que a Confraria tem avançado porque conecta os selecionadores com a base da cadeia produtiva, possibilitando levantar informações sobre qualidade de carne no abate, o que retroalimenta os projetos de genética. Em quatro anos, já foram identificados cerca de 100 touros melhoradores para características de carcaça, cujo sêmen tem sido utilizado nos rebanhos comerciais parceiros. “São fazendas que já empregam a ultrassonografia como ferramenta de gestão na engorda, o que torna a comunicação com os selecionadores de gado PO muito mais direta, facilitando a integração”, avalia Liliane, garantindo que muitos dos projetos têm obtido bom ágio junto à indústria frigorífica, devido ao maior rendimento das carcaças entregues. Segundo ela, os primeiros abates ocorreram no ano passado, porque existe um delay natural no ciclo pecuário entre a identificação do touro com potencial genético para marmoreio e a obtenção dos primeiros produtos com essa característica de carcaça, mas um bom volume de novilhos já estariam sendo recriados nas fazendas comerciais. “O que ainda não ocorreu, mas deverá se intensificar nos próximos anos é a consolidação dos projetos de carne com foco nesse ‘Nelore gourmet de alto marmoreio’, destinado ao mercado premium”, diz Liliane. “Sobre esse nicho recaem as expectativas da Confraria e também seu esforço de fomento”, diz Humberto Tavares, já que a ultrassonografia de carcaça permite a obtenção de medidas como área de olho de lombo (AOL) e Espessura de Gordura (EGS), já usadas de maneira corriqueira na indústria frigorífica, além do marmoreio, característica considerada a “cereja do bolo


“do projeto. “Nosso desafio é aumentar a escala e obter maior regularidade na entrega de novilhas que produzam carne de alto valor agregado”, diz o titular da Fazenda Sucuri. Hoje, apenas dois projetos atuando no varejo: o da Estância Celeiro, de Rondonópolis (MT), dona de sua própria empresa de carnes, e o da Fazenda Água Tirada, de Maracaju (MS), que tem entregue seus produtos à rede BigBeef, de Campo Grande, capital sul-mato-grossense. “Esmeraldas” para o abate Marco Túlio Duarte Soares, dono da Celeiro Carnes Especiais, há dois anos decidiu criar uma linha específica de Nelore com marmoreio (a Reserva), sem imaginar que ela alcançaria valor 20% superior ao da linha Euro, carro-chefe de vendas da empresa, abastecida por novilhas meio-sangue Angus. Os cortes da Reserva veem exclusivamente de fêmeas jovens da raça Nelore (20 a 30 meses), criadas a pasto com suplementação (não são aceitas dietas à base de subprodurtos do algodão). Devem apresentar grau de marmoreio acima de 3% e acabamento mínimo de 3 mm de gordura. “O consumidor que prova essa carne pela primeira vez não titubeia na hora de comprar novamente, nem se importa em pagar mais, pois sabe que seu processo de produção é praticamente artesanal”. A Celeiro tem abatido, em média, cinco animais/ mês, todos crioulos e fruto da seleção por qualidade de carcaça que Marco Túlio desenvolve em sua fazenda. “É pouco, perto do que processo na minha indústria e do que entendo como potencialidade de mercado, mas o Nelore com marmoreio é meio que ‘esmeralda’: não é fácil de obter. Isso é que o torna tão especial”. Para garantir o abastecimento da linha, Marco Túlio iniciou uma parceria com produtores regionais: ele lhes entrega sêmen de touros provados para marmoreio da Estância Celeiro e recebe 30% das fêmeas produzidas a partir dessa genética. No ano passado, ele recebeu 200 bezerras dos parceiros, que estão sendo recriadas a pasto, recebendo o equivalente a 1% do peso vivo em ração. Elas serão abatidas de maneira escalonada para elevar a escala de cinco para 10 abates/mês em 2021. Com intenção de fidelizar os parceiros fornecedores, ele criou um sistema de premiação: paga o mesmo

Shiro Nishimura e Humberto Tavares, articuladores da Confraria da Carcaça, que quer ter selo próprio.

ágio oferecido às novilhas Angus (5% acima da arroba de boi gordo na região), mais um adicional de R$ 1 a R$ 2, o representa ágio de R$ 12 ou mais por arroba, resume o dono da Celeiro. “O cliente me remunera na gôndola, por isso faço questão de pagar bem o produtor”. Os cortes da linha Reserva são destinados às lojas da Celeiro em Rondonópolis e Cuiabá, além de “stekerias”, hotéis, supermercados e restaurantes gourmets. “Tenho clientes assíduos por causa desses cortes, cada vez mais reconhecidos por seu terroir [palavra francesa difícil de traduzir para o português, mas que denota diferenciação, jeito diferente de produzir]. A carne do Nelore com marmoreio criado a pasto tem um perfume, um sabor muito particular”, garante o empresário. Nova fronteira O conceito de terroir é a nova fronteira da carne de qualidade, segundo Fábio Schuler Medeiros, superintendente da Cooperaliança. Já popularizado no mercado de vinhos para diferenciar produtos com oriundos de determinada geografia, clima, tipo de solo e espécie de uva, o termo vem ganhando espaço no mercado da carne premium. “O terroir é uma combinação de predicados (aroma, textura, cor, sabor) que tornam um produto autêntico. Esse é o caso da carne fornecida pelos animais da Confraria. Eles são diferentes dos obtidos em outros sistemas intensivos pela própria concepção de recria/engorda a pasto. Garantem uma carne com cor mais bonita, uma intensidade de sabor muito marcante, além da característica de marmoreio”, avalia MeCortes da linha Reserva, comercializada pela Celeiro Carnes Especiais, de Rondonópolis, MT: marmoreio à vista e cobertura de gordura adequada a cortes grill.

DBO março 2021 21


Cadeia em pauta

Carne marmorizada de Nelore é como esmeralda: difícil de achar” Marco Túlio Duarte Soares, proprietário de Celeiro Carnes

O conceito de terroir é a nova fronteira kda carne de qualidade” Fábio Shuler Medeiros, superintentende da Cooperaliança Carnes Nobres

deiros, acrescentando que a Confraria alinha interesses comuns de forma muito competente, em torno de um produto realmente diferenciado, que pode se posicionar com vantagens no mercado premium. “O que falta, ainda, é direcionamento, para que o esforço de qualificação e seleção dos bovinos Nelore em quesitos como AOL, EGS, marmoreio não se perca ao longo da cadeia produtiva e esses animais, infelizmente, sejam comercializado como commodity nos frigoríficos Brasil afora”, alerta Medeiros. Shiro Nishimura explica que a média de indivíduos de seu rebanho que apresentam marmoreio é de 20% a cada safra, por isso, é tão importante o trabalho de multiplicação e difusão dessa genética, assim como a popularização desse conceito entre os neloristas.“Temos um tesouro nas mãos. Como convencer o produtor a usar nossos touros para produzir carne de alto padrão? Fazendo ele experimentar essa carne”, diz o produtor, que já programou o quarto dia de campo da Fazenda Araponga em 2022 para o fomento do projeto, que tem importantes parceiros. Hoje, as novilhas com alto grau de marmoreio identificadas por ultrassonografia de carcaça recebem o Selo de Origem 100% Nelore da ACNB (Associação dos Criadores de Nelore do Brasil), embora o projeto do grupo seja criar um selo de certificação de carne Confraria. “É natural que isso ocorra em certo momento”, observa Liliane que já teve algumas conversas com o grupo sobre a proposta. “Há um mundo de possibilidades. Podemos compartilhar marca, certificação, fazer alianças e entregar para a indústria. Estamos em um momento de chegada ao mercado, tudo é novo ainda”, diz ela. Verticalização promissora A Fazenda Água Tirada, uma das “confrárias”, recebeu a certificação da ACNB pela primeira vez em março de 2019, um ano após introduzir as avaliações por ultrassonografia em seu modelo de criação exclusivamente a pasto, iniciado por Arthemio Olegário de Souza, em 1965, no município de Maracaju, MS. Conhecida pela produção tradicional de Nelore PO no Estado, a Água Tirada decidiu estruturar um programa de carne de qualidade após perceber que a seleção desenvolvida há cinco décadas vinha obtendo números muito aquém do esperado nos programas de melhoramento genético, o que levou a propriedade a buscar novas respostas na ultrassonografia de carcaça. “Foi aí que descobrimos que estávamos vendendo ouro a preço de carvão”, diz Ana Nery Terra, nora de Arthemio Olegário e diretora do Grupo Água Tirada. Ela lembra que no primeiro lote escaneado, identificou-se 29% de carne com marmoreio acima de 3% e acabamento superior a 5 mm de gordura. “Isso nos fez pensar na possibilidade de vender carne gourmet, já que fazíamos o ciclo completo com a engorda de 600 novilhos mês há alguns anos”.

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Linhas de carne Nelore com marmoreio estão sendo abastecidas com novilhas criadas a pasto

A fazenda de cria está localizada na região de Porto Murtinho e conta com pastagens bem formadas e bem divididas. A engorda é feita na Água Tirada, em Maracaju, MS (para onde vão os machos) e em outra propriedade em Terenos, (para onde vão as fêmeas). É de lá que saem as novilhas com alto grau de marmoreio fornecedoras de cortes premium para a grife Água Tirada, vendida na Boutique de Carnes BigBeef de Campo Grande (MS). O projeto tem avançado sem pressa. São entregues 10 animais/mês, escala que Ana Nery não pretende aumentar neste ano por estratégia de mercado. Com o preço do bezerro em alta, a opção escolhida foi empenhar novilhas e não abatê-las. A fazenda destina 120 fêmeas/ano para o projeto. Elas são abatidas no mesmo padrão dos animais da Celeiro: jovens (24 a 30 meses), com marmoreio acima de 3,5 e no mínimo 4 mm de acabamento de gordura. Fábio Medeiros garante que o volume pequeno de abate não é uma exclusividade da Confraria e nem um problema. “Muitos pecuaristas têm a ideia de que, para começar um programa de carne de qualidade, é preciso grande volume de animais. E, na verdade, não precisa. Você pode fazer isso em escala menor, desde que haja constância, uniformidade e autenticidade. Uma série de projetos de Wagyu abatendo dois a três animais por semana, com sucesso, não me deixam mentir”, pondera. O superintendente da Cooperaliança afirma que entregar qualidade dentro do perfil de trabalho que se estabeleceu é essencial. “Talvez não seja possível atingir o nível de marmoreio do Wagyu ou Angus Prime, mas a diferenciação desse produto estará, sem dúvida, na intensidade de sabor superior. Existe um mercado para qualquer tipo de carne no Brasil, desde que ela se relacione com o consumidor no sentido de prometer e entregar”. n



Saúde Animal

Governo adia aplicação de normas sobre cisticercose Produtores e frigoríficos terão 18 meses para se adequar às novas exigências do RIISPOA, mas especialistas recomendam discussões técnicas sobre o tema.

Representantes do CRMV-MS e do Codevale após reunião com a ministra Tereza Cristina, em Brasília, para apresentar sugestões sobre o controle da cisticercose.

Ariosto Mesquita

co de Desenvolvimento do Vale do Ivinhema (Codevale), que lhe entregaram um documento solicitando o retorno à regra anterior, pois os pecuaristas estavam deixando de vermifugar os animais contra a cisticercose e os frigoríficos enfrentavam dificuldade para fazer o tratamento térmico das carcaças, por falta de espaço nas câmaras frias. No documento – elaborado por especialistas após reunião técnica presencial, dia 11 de fevereiro, na sede do CRMV-MS, em Campo Grande –, um grupo de sete entidades do setor apresentaram várias sugestões para controlar a doença, dentre elas a criação de um programa nacional de combate e erradicação da cisticercose, semelhante ao da febre aftosa e da brucelose/tuberculose. “Na reunião, a ministra nos sinalizou que não abriria mão da medida restritiva às carcaças com um único cisticerco morto, mas avisou que estudava conceder um prazo para adequação do setor às novas normas, promessa cumprida dois dias depois”, relata Rodrigo Piva, presidente do CRMV-MS.

Após muita “gritaria” do setor, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) decidiu dar um prazo para que pecuaristas e frigoríficos se adequem às novas exigências do RIISPOA (Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal) sobre a cisticercose. Nos próximos 18 meses (a contar de 1º de março), carcaças com um único cisto calcificado (morto) poderão ser liberadas para o consumo humano após remoção da área atingida e os pecuaristas não serão penalizados. Mas depois volta a valer a regra de tratamento pelo frio, que tem gerado deságio de até 50% nas carcaças, causando grande prejuízo aos produtores. A instrução normativa 121, publica dia 26/2/2021 pelo Mapa, determina que as unidades industriais que tiverem registrado mais de 1% de cisticercose em relação ao total de animais abatidos em 2020 devem criar programas de educação continuada para os produtores no prazo de 90 dias. Enquanto isso, o Mapa afirma que atuará junto a órgãos de saúde pública para mitigação da doença. A IN, de certa forma, continua a manter o foco do problema no produtor, quando este pouco pode fazer para controlar as fontes primárias de contaminação (veja quadro). De qualquer forma, a publicação da IN traz certo alívio. A decisão foi tomada pela ministra Tereza Cristina após uma reunião, no dia 24 de fevereiro, com representantes do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Mato Grosso do Sul (CRMV-MS) e do Consórcio Públi-

Impacto na inspeção municipal As discussões sobre o Decreto Lei 10.468, de 18 de agosto de 2020. que deu nova redação ao parágrafo 2º do artigo 185 do RIISPOA, veem se intensificando nos últimos meses, em função dos problemas que a medida tem gerado. No documento apresentado à ministra, as entidades ressaltam que a decisão foi tomada sem consulta ao setor (a famosa “canetada”); que a cisticercose deveria ser tratada como questão de saúde única (humana, animal e ambiental); que há dificuldades para se implementar a nova regra nos frigoríficos sob inspeção estadual/municipal e que o desestímulo à vermifugação dos animais poderá levar ao recrudescimento da doença. “Muitos produtores me contaram que suspenderam a aplicação de albendazol, porque já estão sendo penalizados mesmo. Isso é grave. Pesquisadores e professores universitários que consultei concordam que, sem a vermifugação, não há controle”. informa Daniela Cabriotti, diretora-executiva do Codevale. A proximidade dessa entidade com pecuaristas se deve ao fato de o Codevale ser, oficialmente, responsável pelo serviço de inspeção de carcaças nos municípios participantes do Consórcio, que aderiu ao Sistema Brasileiro de Inspeção (Sisbi) em 2012. Hoje, o Codevale coordena esse trabalho em dois frigoríficos com inspeção municipal, que, juntos, abatem cerca de 500 cabeças/dia. Grande parte desses animais são originários de regiões

24 DBO março 2021


Saúde Animal tradicionalmente mais vulneráveis à cisticercose, com reduzida estrutura sanitária, por exemplo. “Em média, 60% do gado que abatemos são oriundos de pequenas propriedades e de assentamentos”, estima Daniela. A diretora da Codevale entende que o Decreto Lei 10.468 acabou desmotivando sobretudo esse tipo de produtor a fazer o controle da doença: “O tratamento mais indicado, que é feito com albendazol, exige levar o rebanho para o curral por três vezes, a intervalos de 30 dias e ainda aguardar 50 dias para a completa calcificação de eventuais cistos. Só ao final desse processo o animal é levado para abate. Isso demanda mão-de-obra e tem custos, riscos de acidentes e contusões nos animais, dentre outros problemas. Quando começaram a perceber que esse tratamento não estava fazendo mais diferença no abate, muitos procuraram o Codevale. Esses produtores não vão a Brasília falar com a ministra, mas veem aqui cobrar da gente. Quando explicamos que se trata de uma lei nacional, eles geralmente reagem dizendo que vão parar de vermifugar”. Apesar de entender que houve “boa intenção” do Mapa ao mudar a lei, a diretora do Codevale discorda do modelo adotado. “Não vejo sentido em tentar controlar o ciclo final da cisticersose. Isso, em médio prazo, provocará efeito reverso, trazendo maior incidência da doença. Trata-se de uma zoonose e exige a implantação de um plano alinhado ao conceito de saúde única, envolvendo o segmento humano, animal e ambiental. O vetor da doença e contaminador é o homem. Não adianta condenar a carcaça numa ponta e não se fazer nada em relação à fonte infectante”, diz. Mais debates Com o problema nas mãos, Daniela procurou o CRMV-MS e conseguiu viabilizar a reunião que gerou o documento entregue ainda em fevereiro à ministra. Participaram dos debates representantes da Universidade Federal de Goiás (UFG), Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Codevale, Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal do MS (Iagro), Ministério da Agricultura, Embrapa, Sindicato das Indústrias de A cisticercose é uma questão saúde pública

• Causada pela Taenia saginata, a cisticercose é uma zooonose. O homem pode ser acometido pela doença de duas maneiras: pela ingestão da carne contaminada com cisticercos, que vão se desenvolver para a fase adulta do verme (teníase); e pela ingestão direta de ovos (cisticercose humana).

• Quando fezes humanas contendo ovos de tênia vão parar no meio ambiente (solo, água), os bovinos podem se tornar hospedeiros intermediários do verme.

• A solução definitiva para o problema está no saneamento básico e na vermifugação das pessoas no meio rural. O produtor pode contribuir fazendo ações educativas e aplicando albendazol nos bovinos.

Frios, Carnes e Derivados do Mato Grosso do Sul (Sicadems) e CRMV-MS. Mesmo com o adiamento determinado pela ministra, Rodrigo Piva deve levar o assunto adiante: “Temos uma reunião da Câmara Nacional de Presidentes de Conselhos Veterinários prevista para este mês de março e, nela, vou comunicar nosso encaminhamento e propor mais discussões sobre o assunto, porque as alterações na norma não foram revogadas, apenas adiadas. Queremos criar uma agenda sobre a questão, envolvendo profissionais de outros Estados. A gente entende que o objetivo do governo é a erradicação da cisticercose, mas tudo deve ser feito dentro de um processo gradativo, com ações em várias esferas, pois trata-se de um problema de saúde pública”, salienta Piva. O documento entregue pelas entidades à ministra ressalta bastante este aspecto. Ao pedir a criação de um Programa Interministerial de Controle e Erradicação da Cisticercose (solicitação que será analisada pela ministra), ressalta que o Ministério da Saúde deveria ser sensibilizado quanto à necessidade de fortalecimento da política nacional de saneamento básico, além do tratamento/controle de enteroparasitoses em humanos, especialmente em trabalhadores rurais. Segundo o documento, existem medidas inseridas na Estratégia de Saúde Pública da Família que contemplam o tratamento e controle dessas doenças, mas raramente são usados vermífugos à base de albendazol, devido a sua posologia e espectro de ação. As entidades que assinaram o documento também questionaram o trabalho técnico no qual o Mapa se baseou para alterar a legislação: “Trata-se de um estudo frágil e superficial, pautado no exame de apenas 16 carcaças”. O autor dessa pesquisa diz que, nos procedimentos normais de rotina de inspeção, não foi possível detectar de 26% a 56,7% dos animais cisticercósicos do lote pesquisado, pois os cortes não são retalhados pelo inspetor, devido a questões comerciais e estéticas. “Restou confessado, que a inspeção não detém tecnologia suficiente para detecção precisa da cisticercose, o que reforça a necessidade de se vermifugar o rebanho, pois, do contrário, teríamos de tratar a frio todas as carcaças”, ressalta o documento entregue à ministra. As entidades pedem um novo estudo, mais aprofundado, sobre o tema. n

Em reunião na sede do CRMV-MS, realizada em fevereiro, sete entidades do setor decidiram elaborar um documento pedindo a revogação das novas normas sobre inspeção da cisticercose nos frigoríficos.

Leia o QR e assista à entrevista que o professor da USP, Erico Ortolani, concedeu ao Programa Revista DBO em Foco sobre a cisticercose.

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Cadeia em pauta

Comunicando o Agro já Movimento “Todos a uma só voz”, lançado em fevereiro, reúne entidades do setor e a iniciativa privada em proposta de educação coletiva do campo à mesa

Evento para apresentar as bases do projeto “Todos a uma só voz” reuniu entidades e apoiadores

O

Vera Ondei

rganizar uma comunicação mais eficiente com o consumidor, apostando em educação e difusão de conhecimentos sobre o agronegócio, é a espinha dorsal de um projeto apresentado, em fevereiro, por entidades do setor. Entitulado “Todos a Uma Só Voz”, o movimento se autodeclara pró-ativo e conta com o patrocínio da CropLife Brasil, associação que reúne especialistas, instituições e empresas ligadas à pesquisa e ao desenvolvimento de tecnologias. Também recebeu apoio de diversas entidades, dentre elas a ABAG, ABCC, ABPA, SNA, Ama Brasil, Abiarroz, Abiec, Abitrigo, Abraleite, Andav, Asbram, Fenep, Ibá e a Associação Brasileira de Marketing Rural (ABMRA). “Temos de fazer chegar à sociedade mais informaçôes sobre a força do Agro brasileiro. Esta é a missão do movimento”, diz Ricardo Nicodemos, diretor da agência de publicidade RV Monde e vice-presidente executivo da ABMRA e coordenador do projeto. Os primeiros passos foram a construção de uma página na internet – o site www.todosaumasovoz.com.br –, além da presença nas redes sociais e a produção de um audiobook com o primeiro episódio da série “O Reino de Agrus”. O objetivo do site é engrossar o caldo de conteúdo

26 DBO março 2021

sobre as cadeias produtivas. “Já reiteramos, várias vezes, que o agronegócio não se comunica bem fora da porteira e isso precisa mudar”, disse Jorge Espanha, presidente da ABMRA, durante o lançamento online do projeto, dia 23 de fevereiro. “Fizemos uma pesquisa, recentemente, e ela mostrou que, de cada 10 notícias sobre o agro [da mídia não especializada], cerca de 1 a 1,5 falam bem, e de 8 a 9 são negativas”, acrescentou Espanha. Marcello Brito, presidente da Associação Brasileira de Agronegócio (Abag), lembrou que, nos últimos 30 anos, a quase totalidade das campanhas de comunicação foram de “tiro curto, lamentavelmente”. “Estamos aqui, dizendo de forma humilde, que a gente precisa de um movimento de comunicação de fatos e de realidades inerentes ao nosso setor”, salientou. O audiobook criado pela RV Mondel pretende contribuir para encurtar a distância entre campo e cidade, por meio da série “O Reino de Agrus”. Com linguagem lúdica, tem como público-alvo as crianças em idade escolar. O primeiro episódio da série conta a história do rei Amós, que sonha aumentar a produção de alimentos de seu reino. Não por acaso, o movimento começa com o apoio da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), entidade que reúne 40.000 escolas, 15 milhões de alunos, da educação infantil à pós-graduação, e emprega 2,5 milhões de profissionais. “A gente pode somar esforços. Nós somos bons em muitas coisas no Brasil, tem muito o que fazer. A partir da escola é possível fazer muita coisa”, disse Ademar Batista Pedreira, presidente da Fenep. Andrea Bernabé, co-fundadora do movimento “De olho no material escolar”, que tem por objetivo a revisão de conceitos equivocados que estão em parte dos livros didáticos, também manifestou apoio à iniciativa “Todos a uma só voz”. Além das entidades e das associações do setor privado, vários veículos de comunicação, dentre eles a Revista DBO, apoiam o movimento. n


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Cadeia em Pauta

Sistema crowdfunding chega à pecuária bovina Gran Beef, de Barretos, SP, consegue captar R$ 1,5 milhão com investidores interessados em seu projeto de produção sustentável de carne premium

Gado criado solto no pasto, ao lado da floresta, neutralizadora de gases de efeito estufa: pré-requisito de forte apelo.

A

Modelo mais alinhado com a filosofia do pasto ao prato” Bruno Junqueira, sócio-fundador da Gran Beef

Denis Cardoso

Gran Beef, empresa de Barretos (SP), cujo objetivo principal é avançar no mercado europeu de carne bovina premium, foi uma das primeiras do setor a apostar na nova modalidade de negócios conhecida no mundo financeiro como crowdfunding. Trata-se de um de sistema de “financiamento coletivo”. Por meio de uma plataforma virtual, pessoas que se identificam com a proposta de determinada empresa (no caso da Gran Beef, produção de carne carbono neutro) compram participações no negócio. Os investidores, além de apoiar um projeto no qual acreditam, buscam diversificar sua carteira de aplicações para além dos modelos convencionais – poupança, Bovespa e CDI, dentre outros. Segundo Bruno Junqueira de Andrade, fundador da Gran Beef e dono da Fazenda Bugre, em Prata, no Triângulo Mineiro, em apenas seis dias (no início de fevereiro), foram levantados quase R$ 1,5 milhão. “O prazo que tínhamos para alcançar esse montante era de 60 dias”, comemora o empresário, representante da quarta geração da família dona da Bugre, de 820 ha (460 ha de pastagem), que faz ciclo completo, com terminação de cruzados meio-sangue Angus x Nelore, em semiconfinamento. Todo o dinheiro levantado será aplicado na expansão dos negócios da Gran Beef no mercado europeu. Em 2020, a empresa faturou R$ 1 milhão com a remes-

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sa de cortes de carne de alta qualidade para países do bloco, especialmente Holanda e Suíça, obtendo lucro aproximado de R$ 200.000. Pelas previsões de Andrade, com a expansão do projeto, o faturamento da Gran Beef deverá chegar a R$ 7,2 milhões, quintuplicando seu lucro e elevando-o para cerca de R$ 1 milhão. Atualmente, a empresa brasileira exporta para Europa apenas cortes grill como picanha, maminha, fraldinha e contrafilé, vendidos a preços elevados. “Nossa picanha é negociada hoje, no mercado holandês, por 38 euros o quilo” [algo próximo de R$ 260/kg], conta o fundador da empresa, que há 18 meses mudou-se com a família para a Holanda, para acompanhar mais de perto a evolução dos negócios em território europeu. Parceria com Minerva Pelos planos de Junqueira, o aporte de capital via crowdfunding proporcionará à empresa maior fluxo de caixa, o que permitirá elevar a quantidade de animais abatidos dentro do projeto, aumentando as remessas de carne ao mercado europeu. A Gran Beef conta com a parceria da Minerva Foods, também sediada em Barretos, responsável pelos abates. “Pretendemos passar das atuais 800 cabeças/ano para 1.400”, informa Junqueira, acrescentando que também serão enviados à Europa outros cortes ainda não trabalhados pela empresa, como alcatra, raquete, coxão mole e lagarto. Os animais são abatidos com 20@ aos 24 meses de idade. Para chegar ao padrão desejado, passam a maior parte de suas vidas no pasto, em sistema rotacionado.


Abaixo, machos Angus x Nelore no rotacionado da Fazenda Bugre, em Prata, MG; ao lado, o resultado: suculenta picanha

Na terminação, são suplementados com ração contendo alto teor de energia, estratégia que visa intensificar a deposição de gordura subcutânea e aumentar o grau de marmoreio da carne (gordura intramuscular). Com o avanço na produção, a Gran Beef passará a utilizar, com maior frequência, o transporte marítimo, melhorando a eficiência dos embarques, hoje feitos de avião. “Essa operação nos dará ganho de escala e vai proporcionar uma redução muito grande nos custos com logística”, destaca Junqueira. Certificação internacional Já bastante difundido no Exterior, o crowdfunding é regulado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a mesma que controla a Bolsa de Valores brasileira. Na prática, 188 investidores do País compraram virtualmente cotas mínimas de R$ 2.500 para participar diretamente do projeto de exportação de cortes nobres, oriundos de animais criados em sistemas de integração pecuária-floresta (IPF), que buscam neutralizar a emissão de gás metano dos bovinos, além de seguir à risca outros preceitos socioambientais e de bem-estar animal. Todo o programa é certificado com o selo “Pecuária Neutra”, projeto criado em 2016 pelo próprio Bruno Junqueira, em parceria com outros dois pecuaristas mineiros (Leonardo Resende, da Fazenda Triqueda, em Coronel Pacheco, e Elesier Lima Gonçalves, da Fazenda Real, em Juiz de Fora). Em 2019, um quarto pecuarista entrou como sócio do Pecuária Neutra, o carioca Fillipo Leta, dono da marca AH Pashto, que produz leite de cabra e eucalipto, hoje também responsável pelo selo “Pecuária Regenerativa”, projeto que se baseia num conjunto de técnicas capaz de demonstrar que a pecuária pode conviver em harmonia com a natureza. Além disso, a carne produzida na Fazenda de Bruno Junqueira em Prata é certificada internacionalmente pela Rainforest Alliance. “Os selos nos ajudaram a atender o padrão exigido pelos consumidores europeus, que são cada vez mais exigentes em relação às questões socioambientais”, enfatiza. Garantia de bons rendimentos O plano de participação de terceiros nos negócios da Gran Beef promete boa remuneração aos investidores, acima dos rendimentos financeiros convencionais, enfraquecidos pela redução gradual da taxa básica de juros da economia brasileira (a Selic), atualmente mantida em 2% ao ano (mínimo histórico). Segundo Junqueira, a operação de crowdfunding – organizada pela fintech [startup da área financeira] Bloxs e que leva o nome oficial de Agro Exportação I” – tem prazo de 24 meses e garante retorno fixo sobre o capital investido de 0,5% ao mês, além de uma remuneração variável de 5% sobre o faturamento da companhia exportadora projetado para 2022, o que pode resultar em rentabilidade de até 17% ao ano. “O que observamos atualmente é que, em momentos de instabilidade econômica como essa que vivemos

com a pandemia da Covid-19, o crowdfunding tem se mostrado uma opção rentável”, destaca o advogado Mohamed Adi Neto, responsável pelo jurídico da Gran Beef e grande entusiasta deste modelo de investimento. “Em 2019, mundialmente, o modelo cresceu 44% em relação às operações do ano anterior”, diz ele, referindo-se aos dados publicados no último relatório da Cambrideg Center for Alternative Finance (CCAF). Na visão de Bruno Junqueira, o modelo proposto de captação coletiva de recursos é o caminho mais rápido para envolver de maneira direta um número maior de pessoas que acreditam no projeto da pecuária sustentável. “Poderíamos captar esse valor com bancos ou qualquer outra instituição financeira; porém, o crowdfunding é algo que está muito alinhado com a nossa filosofia de farm to table [da fazenda ao prato]”, ressalta. Novo sócio Ainda dentro do plano de expansão, a Gran Beef espera anunciar, em breve, a entrada de um novo parceiro no projeto de produção de carne, que elevaria para cinco o número de fazendas contempladas pelo selo “Pecuária Neutra” e habilitadas para produzir e exportar ao mercado da Europa. Sem revelar nomes, pois ainda faltam alguns detalhes para o fechamento da parceria, Junqueira diz que o ingresso do novo sócio permitirá elevar o abate para 3.000 cabeças/ano, quantidade muito acima das 1.400 cabeças projetadas para 2022. Desde o princípio do projeto da Pecuária Neutra, os sócios planejam trabalhar com um número maior de pecuaristas parceiros, que receberão bonificação de até 20% sobre o preço de mercado da arroba. “Continuamos avaliando oportunidades de novas parcerias com produtores do País, capazes de ajudar a fortalecer a marca Gran Beef nos pontos de comércio de carne premium da Europa”, relata Junqueira. n DBO março 2021 29


Cadeia em pauta

Por fazendas mais seguras Abiageato preocupa, mas parceria da Polícia com produtores em rede dá bons resultados.

Polícia do Programa Fazenda Segura verificando caminhão com carga suspeita

Grupos em redes sociais ajudam a prevenir crimes rurais” Francisco Manzi, diretor técnico da Acrimat

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Ariosto Mesquita

rime rural, sobretudo o abigeato (furto de gado) não é novidade no Brasil, mas a recente escalada de valorização da arroba parece ter enchido os olhos dos malfeitores. Nos últimos meses ficou nítido o recrudescimento de relatos pelo País, alguns dignos de compor roteiros de filmes policiais. Na madrugada do dia 5 de fevereiro, em Vila Rica (MT), 10 homens armados invadiram uma fazenda, renderam e mantiveram em cárcere privado toda a equipe da propriedade até às 8 horas do dia seguinte. Nesse tempo, os invasores conseguiram embarcar 115 animais em cinco caminhões boiadeiros mobilizados especialmente para a operação. Na manhã do dia 6, contudo, uma equipe da Força Tática da Polícia Civil interceptou o comboio em uma rodovia, rumo ao Pará. A carga (avaliada em R$ 1 milhão) foi recuperada e cinco homens imediatamente detidos. Os criminosos, porém, não estão de olho apenas no rebanho. Em 12 de fevereiro, 20 toneladas de sementes forrageiras e 3 t de suplementos do Grupo Gasparim, de Presidente Bernardes (SP), foram roubadas enquanto eram transportadas para distribuição em Mato Grosso. De acordo com Mariana Gasparim, representante da empresa, o motorista foi sequestrado e libertado somente quatro dias depois, em 16 de fevereiro. “Registramos o boletim de ocorrência em Cuiabá e também conseguimos, no dia 18, recuperar o caminhão, porém sem a carga avaliada em aproximadamente R$ 230.000”, contou à DBO. É difícil fazer frente a esses crimes, mas uma iniciativa promissora surgiu no próprio Mato Grosso. Em 2018, representantes da Associação dos Criadores de MT

30 DBO março 2021

(Acrimat), sindicatos rurais, produtores e polícia civil de municípios do Médio Araguaia implantaram o Projeto Fazenda Segura. “Essta mobilização permitiu reduzir em 90% os crimes rurais, principalmente o abate aberto, no pasto das fazendas, e o roubo embarcado”, garante o delegado Wilyney Santana Borges, titular da Delegacia Regional da Polícia Judiciária Civil de Barra do Garças, MT. Fazenda Segura em rede Segundo ele, o projeto pressupõe orientações diretas às equipes nas propriedades, patrulhamento rural e integração de todos os envolvidos em um grupo dentro de uma rede social. “Hoje temos perto de 300 participantes, a maioria absoluta de produtores rurais. Graças a esse trabalho, qualquer movimentação suspeita é rapidamente comunicada, o que permite a redução do nosso tempo de resposta”, explica o delegado. Por não ser apenas uma iniciativa reativa, o Fazenda Segura permitiu, na visão do delegado Borges, inibir a ação criminal no campo. “Neste aspecto, é muito importante que os produtores tomem atitudes preventivas, como manter as porteiras sempre fechadas e nunca deixar a fazenda sozinha, sem pelo menos uma equipe de confiança. São medidas que podem ser adotadas em todas as propriedades, em qualquer lugar do Brasil”, avisa. Além de Barra do Garças, o Fazenda Segura atende comunidades de mais seis municípios do Médio Araguaia Mato-grossense: Torixoréu, General Carneiro, Pontal do Araguaia, Ribeirãozinho, Araguaiana e Novo São Joaquim. O diretor técnico da Acrimat, Francisco de Sales Manzi, admite que a criminalidade rural “está se agravando” de forma geral e lista algumas ações que podem trazer mais segurança no campo: “É importante oferecer acesso à Internet na propriedade e integrar os colaboradores, proprietários e gestores em um grupo de rede social. Também é fundamental que os produtores vizinhos troquem informações sobre seus hábitos ou regras, como, por exemplo, nunca transitar com caminhões em um determinado período do dia. Assim, qualquer movimentação fora do padrão pode ser rapidamente identificada e denunciada”. n COMO EVITAR ROUBOS Orientações preventivas

Após ocorrência

• Manter porteiras fechadas

• Não alterar a cena do crime

• Alternar os dias de compras

• Fazer imediata comunicação à polícia

• Nunca deixar a fazenda sozinha

• Registrar boletim de ocorrência presencialmente ou via internet (quando disponível)

• Vistoriar diariamente as cercas de divisas • Fazer contagem periódica do rebanho • Sempre que possível manter curral e barracões de armazenagens próximos à sede • Implantar monitoramento por câmeras de vídeo Fonte: Delegado Wilyney Santana Borges, titular da Delegacia Regional da Polícia Judiciária Civil de Barra do Garças, MT



Cadeia em Pauta JBS mira mercado de proteína vegetal

Marfrig recebe US$ 30 milhões do fundo &Green

Minerva negocia parceria para atuar na Austrália

A JBS pretende criar uma empresa global dedicada somente para produção de alimentos à base de plantas (planted based), aproveitando a onda dos alimentos vegetarianos ou veganis, com tendência de crescimento no mundo. A JBS entrou no mercado de carnes vegetais em 2019, e a nova empresa planejada pelo diretor-presidente da companhia, Gilberto Tomazoni, reuniria todos os negócios regionais em um único empreendimento. A JBS tem presença considerável no setor, com 57% do mercado de hambúrgueres vegetais no Brasil. Somados os itens da marca Seara, o portfólio chega a 11 produtos.“Temos tudo para crescer neste mercado: capacidade de inovação, investimentos em pesquisa, acordos com empresas globais para fornecimento de ingredientes e presença no varejo. Estamos muito entusiasmados com o que podemos fazer”, diz ele.

O fundo holandês &Green, voltado à promoção de cadeias agropecuárias sustentáveis, concedeu um empréstimo de US$ 30 milhões para que a Marfrig refine o monitoramento de fornecedores na Amazônia e Cerrado. O aporte está associado a uma série de compromissos, dentre eles alcançar uma cadeia livre de desmatamento na Amazônia até 2028 e, no Cerrado, até 2030, com metas escalonadas para diferentes tipos de fornecedores. O foco de aplicação dos recursos será o rastreamento e apoio aos fornecedores indiretos (produtores de bezerros), que entregam gado aos recriadores/ terminadores (fornecedor direto) e que representam hoje o principal “buraco negro” na cadeia pecuária. Em 2020, a companhia rastreou 62% do total de animais abatidos na Amazônia e 47% do Cerrado, incluindo tanto fazendas que fazem ciclo completo quanto aquelas que atuam apenas numa das etapas de produção.

A Minerva Foods assinou um memorando de entendimento com o grupo investidor saudita Saudi Agricultural and Livestock Investment Company (Salic) para a exportação anual de 25.000 t de produtos da companhia (carne, miúdos, dentre outros), a preços de mercado, de acordo com termos e procedimentos pré-definidos, disse a empresa em comunicado. O contrato deve fortalecer a exposição da marca e as operações da Minerva no Oriente Médio e na Ásia. Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), esses mercados foram responsáveis por mais de 60% das importações globais de carne bovina. Nos três primeiros trimestres de 2020, a região foi destino de cerca de 55% das exportações do produto pela Minerva Foods. O memorando também registrou a intenção de compra de ativos na Austrália e a criação de uma joint venture focada no processamento e exportação de carne ovina naquele país.

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Janela Aberta

Danilo Grandini

Ora et labora

A Zootecnista, com pós-graduacão em análise econômica e diretor de marketing da Phibro para o Hemisfério Sul (Austrália, África do Sul, Argentina e Brasil).

frase não é nova: “Reze e trabalhe”. Foi dita por São Bento (na foto), que nasceu no ano 480, em Nórcia, na Itália, e faleceu em 547. Basicamente nos recomenda orar como se tudo dependesse de Deus e trabalhar como se tudo dependesse de você. Mas qual é o ponto aqui, para nós do setor Agro, mais precisamente da pecuária de corte? O preço do que se produz e/ou o que se compra é de suma importância, e deve sim ser discutido, defendido, exposto à exaustão e aqui faço um paralelo com a parte da oração da frase citada acima. Contrastando, não se vê a mesma energia em discutir, compartilhar e refinar tudo que se refere às tecnologias e gestão dedicadas ao processo de produção. Para mim, isso estaria mais para o lado do trabalho na referida frase. O leitor poderia ficar meio magoado com o autor, ao pensar que minimizo seu trabalho, entendido aqui como o esforço mental e físico para se atingir um propósito e/ou objetivo. Muito pelo contrário, reconheço, sim, que muita gente acorda cedo, dorme tarde e dá um duro danado! O problema é que a dinâmica dos preços é infinitamente maior do que a de produzir. Isto, aliado à exposição quase que diária de cenários econômicos na mídia especializada ou não, traduz-se em foco nas discussões. O que nos remete a uma reflexão importante sobre a visão do nosso negócio no longo prazo: pode ser que estejamos mudando muito lentamente nosso jeito de fazer as coisas, a ponto de não lhe darmos a devida importância ou não refletirmos a fundo sobre sua relevância. Visão de longo prazo O artigo “Fazendeiros deveriam aumentar o foco nos objetivos de longo prazo” (Farmers should increase focus on long-term goals), publicado pela revista The Western Producer, em 17 de setembro de 2015, traz observações e recomendações muito interessantes para produtores canadenses, mas que também são aplicáveis em muitas das geografias que conhecemos:

Nascimento de bezerros em millhões de cabeças/ano (USDA, Janeiro 2021) 54

296

53

294

Brasil

52

Mundo

292

51

290

50

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49

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48

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47 46

2017

Fonte: USDA/2021

2018

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2020

2021

282

Muitas fazendas são negócios multimilionários, mas não agem como tal. • Gestores de negócios multidisciplinares muitas vezes se veem frente a situações que vão além de seus conhecimentos e buscam consultoria externa para ajudá-los, mas isso não é comum nas propriedades rurais. • Fazendas muitas vezes alcançam um tamanho considerável focando no operacional, mas, em determinado momento, isto tem de mudar. • Mesmo fazendeiros que sabem que precisam adotar uma visão mais estratégica e de longo prazo não conseguem sair de suas rotinas e se veem fazendo sempre as mesmas tarefas. • Se uma fazenda se manteve de pé até os dias atuais, ela provavelmente sobreviveu a uma enormidade de riscos, sem se aperceber disso. Neste caso, fazendeiros não deveriam temer risco, pois estes são pertinentes à sua atividade. O Banco Mundial projeta que, em 2050, seremos 9,7 milhões de habitantes no planeta e que a atividade agrícola será a ferramenta mais importante contra a extrema pobreza, sendo essa atividade 200% mais efetiva no incremento da prosperidade e renda do que qualquer outro setor. Não precisa ser dito que onde existe agricultura forte, coexiste uma pecuária intensiva e sustentável. Aqui já daria para profetizar muitas das coisas pelas quais nosso setor vai passar. É preciso pensar à frente, fazer planos mais audaciosos e nos orgulhamos mais dos meios do que dos fins. Para ajudá-lo a fazer planos futuros, segue a figura ao lado. Ela mostra a quantidade de bezerros que deve nascer neste ano, em solo brasileiro e no mundo. É com esta população que o planejamento de longo prazo tem início, boa sorte. O nosso modelo segue em construção. Quanto antes chegarmos lá, melhor! n DBO

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33


ESPAÇO PECUÁRIA

4.0

DBO de olho em novas tecnologias

Embrapa avança em estudos sobre bioacústica

Empresa desenvolve método que permite medir, por meio da captação de sons, a frequência respiratória, um indicador de conforto térmico dos animais

Vaca leiteira com gravador acoplado ao cabresto: sons captados são, depois, interpretados por programa de computador

E

Denis Cardoso

squeçam a internet, computadores de última geração, drones, imagens de satélite, Google maps, dentre outras ferramentas tecnológicas de ponta. Embora o tema desta reportagem se encaixe perfeitamente à proposta da seção Pecuária 4.0, o projeto em questão chama a atenção pela simplicidade dos equipamentos utilizados e pela fácil e rápida execução (não-invasiva), além do seu custo moderadamente baixo. Trata-se do uso de avaliações bioacústicas para mensuração do comportamento animal durante o pastejo, sistema que, recentemente, ganhou fôlego após a conclusão de um estudo inovador realizado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que desenvolveu uma nova metodologia capaz de acompanhar o conforto térmico dos bovinos por meio de sons emitidos por eles, identificando a frequência respiratória e o bem-estar de cada um – o que permite ao pecuarista tomar decisões estratégias importantes que resultam no aumento da produtividade do rebanho. “Ao escutar a respiração dos animais, é possível saber se eles estão gastando mais energia com os mecanismos de dissipação de calor e, posteriormente, correlacionar essas informações com o desempenho”, explica a pesquisadora Ana Karina Salman, da Embrapa Rondônia, com

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sede na capital Porto Velho, a unidade responsável pelo estudo, que contou também com as parcerias da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e da Universidade Federal de Rondônia (Unir). Essa nova pesquisa de bioacústica envolveu apenas animais do segmento leiteiro – todos da raça Girolando (novilhas e vacas em lactação). No entanto, a pesquisadora Ana Karina não descarta a possiblidade de a tecnologia ser aplicada com sucesso em rebanhos de corte, sobretudo em sistemas a pasto. No caso do confinamento – que aloja grupos mais reduzidos de animais em espaços menores –, ela sugere o uso de câmeras de vídeo como ferramenta para observar o comportamento e a frequência respiratória. “Como a fisiologia dos animais de corte é diferente da dos bovinos leiteiros, é necessário fazer inicialmente um estudo de validação científica para ter certeza de que é possível utilizar essa mesma metodologia”, esclarece. A bioacústica já é usada para medir outros comportamentos de bovinos, como tempo de pastejo, ruminação, período de descanso (ócio), ingestão de água e atividades ingestivas (tempo de mastigação e apreensão dos alimentos, além da frequência e duração das refeições). Contudo, é a primeira vez que a metodologia é validada para medir um parâmetro fisiológico (frequência respiratória), um importante indicador de conforto térmico em bovinos. “Trata-se de uma ferramenta valiosa para os pesquisadores que estudam o efeito do estresse térmico nesses animais em situação de pastejo”, ressalta a pesquisadora. Segundo ela, se comparada com o método convencional (visual), a bioacústica leva vantagem, pois “potencialmente soluciona as deficiências apresentadas pela observação humana, tais como a possibilidade de mensuração noturna do comportamento animal, a determinação precisa da atividade de ruminação, e o registro contínuo das atividades sem a interferência de pessoas durante as avaliações”. Durante o trabalho com rebanho leiteiro, os pesquisadores observaram que, por meio da análise dos sons captados pelos animais, o sombreamento do pasto com eucalipto teve impacto sobre o tempo que os bovinos gastam ingerindo água e pastejando. “Nós verificamos que a frequência respiratória é menor em novilhas que pastejam em áreas sombreadas quando comparadas àquelas que permanecem debaixo do sol”, relata Ana. Segundo o professor Eduardo Schmitt, da Universidade de Pelotas (UFPel), quando os bovinos são expostos a


Material utilizado inclui cabresto, gravador, tecido TNP, filme plástico e fita adesiva e é de fácil manuseio.

altas temperaturas, eles acionam mecanismos para dissipação de calor, como aumento da circulação de sangue na pele, aumento do suor e da frequência respiratória. “Tudo isso representa um custo energético para o animal, que acarreta diminuição de produtividade, aumento de susceptibilidade a doenças, podendo resultar também em interferências na fertilidade”, esclarece ele. Portanto, para melhorar as condições ambientais dos animais, a interferência humana se faz altamente necessária. “Ao escutar a respiração dos animais, é possível saber se estão gastando mais energia com os mecanismos de dissipação de calor e, posteriormente, correlacionar essas informações com o desempenho”, ressalta o professor. Na prática, continua Schmitt, a técnica bioacústica pode auxiliar em pesquisas que ajudem a definir quantos metros quadrados de sombra devem ser ofertados para os animais produzirem mais, e de que forma essa sombra deve estar disposta na pastagem, dentre outros fatores. Praticidade Uma das principais características que contribuem para o sucesso da técnica da bioacústica é o baixo custo dos equipamentos, sobretudo se comparado aos gastos despendidos com outros sistemas de controle utilizados na pecuária moderna. Outra grande vantagem da tecnologia é o baixo peso dos materiais, praticamente imperceptíveis para os bovinos, não interferindo, assim, no comportamento natural dos lotes de manejo. Para coleta de dados acústicos utilizados para medir a frequência respiratória são necessários apenas cinco itens: um gravador MP3, cabrestos, tecido TNT, filme de PVC e uma fita de empacotamento. O acessório mais caro da lista é o gravador, que custa em torno de R$ 500 cada, segundo levantamento da Embrapa. O processo de “instalação” do material no animal é bastante simples. A primeira ação para o uso da tecnologia consiste na identificação de cada animal na bolsa (local de armazenagem do gravador). Depois, o aparelho de áudio precisa ser embalado com filme PVC, tomando cuidado para que a área do microfone para captação do som fique aberta. O cabresto também é envolvido no processo de embalagem. Por fim, coloca-se uma fita adesiva para fixar bem o equipamento ao cabresto do animal.

A etapa seguinte exige um maior conhecimento das pessoas envolvidas, alerta a pesquisadora Ana Karina. “É preciso que se faça um treinamento de análise dos áudios captados pelo gravador, que são específicos de cada atividade exercida pelos animais”, diz a pesquisadora (a Embrapa Rondônia oferece, gratuitamente, um manual para coleta e análise de dados bioacústicos para caracterização de comportamento bovino em pastejo). Segundo Ana Karina, a análise dos áudios é realizada com o auxílio do programa Audacity, um software livre (gratuito), responsável por reproduzir os sons do gravador. Esse programa gera oscilogramas dos sons emitidos, tornando possível identificar os tempos de início e fim de cada uma das atividades dos animais. Por causa do padrão característico dos sons respiratórios, será possível, futuramente, desenvolver um algoritmo de inteligência artificial que permita automatizar essa etapa da metodologia, acreditam os pesquisadores. Por fim, o resultado de todo o material de áudio analisado é inserido em uma planilha Excel, que reúne os dados estatísticos de cada animal e serve de base para a tomada de decisões estratégicas. Outras avaliações A Embrapa também conduz pesquisas sobre o uso da bioacústica como ferramenta de avaliação do comportamento ingestivo de bovinos a pasto. A técnica se baseia na captura dos sons mandibulares amplificados e propagados através dos ossos do crânio, por meio de microfones de contato dispostos sobre a caixa craniana. Seu uso, além de solucionar as principais limitações da observação visual, permite a identificação de um novo tipo de movimento mandibular composto em ruminantes, denominado mastigação-apreensão ou mastigação-bocado. O fornecimento de informações em relação à duração e intensidade de moagem da forragem pelos dentes, destacam os pesquisadores, são fundamentais para a distinção de alimentos e estimativa de ingestão de matéria seca. Também é possível estimar a eficiência do pastejo, o consumo de forragem em sistemas a pasto e avaliar diferentes tipos de plantas forrageiras, além de associar tais dados ao comportamento animal (estresse térmico, dentre outros indicadores de bem-estar). n

Sem conforto térmico, produtividade diminui” Eduardo Schmitt, Professor da Universidade Federal de Pelotas

É preciso validar a técnica para o gado de corte” Ana Karina Salman, pesquisadora da Embrapa Rondônia

DBO março 2021 2018 35 B DBOfevereiro




Capa

Abrindo porteiras Mulheres comandam apenas 4,85% dos sindicatos de produtores rurais no Brasil, mas elas já abrem caminho para as novas gerações de lideranças femininas. FOTO: JONER CAMPOS

Equipe afiada em Mato Grosso: Ida Beatriz Machado de Miranda Sá (ao centro), presidente do Sindicato Rural de Cáceres, com as diretoras da entidade Denise Dalmas Rodrigues (à esq.) e Beatriz Ferreira Tavares.

“N

ARIOSTO MESQUITA

ão demorei muito a me decidir; foi o tempo de ir à igreja, pedir uma benção e encarar de frente”. Assim Ida Beatriz Machado de Miranda Sá enfrentou o desafio de se candidatar à presidência do Sindicato Rural de Cáceres, município mato-grossense com rebanho de 1,1 milhão de cabeças e uma das pecuárias mais pujantes do Brasil. Mulheres determinadas como Ida estão ocupando cada vez mais espaço nas organizações classistas do setor. O movimento é lento, porém consistente, como na política. Em 1986, apenas 30 mulheres ocupavam cadeiras na Câmara Federal, hoje são 77 (15% do total de 513 vagas). No Senado, o percentual é muito semelhante: 14,8% (12 de 81 vagas). Ainda estamos bem distantes dos 30% estabelecidos como mínimos para a presença feminina nas duas casas, mas avança-se. Será necessário apertar o passo, pois o Brasil ocupa a 134ª posição, dentre 193 nações, no ranking de representatividade feminina no Parlamento, conforme dados da Organização das Nações Unidas (ONU). O governo atual tem apenas duas ministras (Tereza Cristina, da Agricultura, e Damaris Alves, da Mulher, Família e Cidadania). Nenhuma mulher ocupou, até hoje, a presidência da Câmara, e tivemos apenas uma mulher presidente da República, Dilma Rousseff. No universo rural, o cenário é ainda mais complicado, em função da herança patriarcal do setor. Lideranças

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femininas são minoria. O movimento está apenas começando. Um levantamento inédito feito por DBO, entre os dias 20 e 23 de fevereiro, com base na lista de sindicatos de produtores rurais disponível no site da CNA (Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil), identificou 89 mulheres presidentes, ou seja, 4,85% do total de 1.941 sindicatos com titulares listados. Segundo a CNA, a rede sindical dos produtores rurais do País compreende 1.979 unidades, mas 38 não foram incluídas na pesquisa pela DBO, devido à falta de informações. Movimento de base Evidentemente, 4,85% é um percentual bem ínfimo, mas, há três décadas, ele era quase zero. Nem sequer se considerava sindicato como “coisa de mulher”. A boa notícia é que a presença feminina nas entidades classistas está crescendo a partir da base. Não será surpresa se algumas dessas novas lideranças chegar a cargos estaduais, nos próximos anos. Hoje, as 27 federações de agricultura (que agregam os sindicatos por Estado) são comandadas por homens. Também não há mulheres na diretoria da CNA. Entre 2008 e 2014, a entidade foi presidida por uma pecuarista, a senadora Kátia Abreu, que, em seguida, se tornou ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, mas ela não chegou a formar “sucessoras”. A superintendente técnica adjunta da CNA, Fernanda Schwantes, admite que a participação atual de produtoras no comando dos sindicatos situa-se na faixa dos 5%, mas


ela diz ter certeza de que essa participação está crescendo. “Não temos estatísticas atuais ou projeções sobre mulheres gestoras e líderes no Agro, mas é visível a movimentação delas na busca por qualificação em nível gerencial, administrativo, técnico e financeiro”, salienta. Na Faculdade CNA, por exemplo, que oferece cursos superiores nas áreas de gestão ambiental, recursos humanos e processos, as mulheres representam 35% dos alunos matriculados. “Além dos sindicatos, a presença feminina também já aparece com destaque no comando de associações, cooperativas e instituições de crédito”, acrescenta. Garimpando lideranças A própria CNA abraçou a causa feminina em 2018, quando criou o Grupo de Trabalho (GT) das Mulheres do Agro, objetivando fortalecer sua representatividade no setor. “A gente percebia que as indicações das federações para as nossas comissões temáticas nacionais eram fundamentalmente masculinas. Quando surgia uma mulher, era invariavelmente uma profissional de assessoria técnica e não uma produtora”, conta Fernanda. O GT, que teve início com um grupo de 20 mulheres, registrou, em sua última reunião, cerca de 100 participantes. Ele funciona como uma espécie de garimpo de lideranças. “A ideia é mobilizar mulheres que já se caracterizam como líderes em seus municípios, mas que ainda não atuam dessa forma em âmbito estadual ou nacional”, explica. Para a superintendente adjunta, o perfil dessa liderança feminina envolve desempenhos pacificadores, agregadores e de busca pelo conhecimento. No entanto, admite que existem alguns “fatores inibidores no interior do País” que ainda freiam a participação feminina em maior escala. “As reuniões nas organizações, em sua maioria, acontecem entre homens. Não apenas especificamente no agronegócio, mas também em governos, seguradoras e financeiras. Quando há uma presença feminina, invariavelmente ela se sente sozinha e diferente no ambiente. Temos de trabalhar para que a mulher se sinta à vontade como líder. Quando ela se profissionaliza, por exemplo, torna-se mais segura para ocupar essa função”. Onde se avança mais No levantamento feito por DBO, alguns números saltam aos olhos. Em Rondônia, Amapá, Piauí e Distrito Federal (que juntos reúnem 50 sindicatos), o número de presidências femininas é zero (veja mapa). Em São Paulo, com 237 unidades sindicais espalhadas pelos municípios, o índice encontrado é baixíssimo: 0,84% (duas produtoras na presidência). Os maiores percentuais de mulheres no comando dessas instituições foram observados em Estados do Nordeste: Pernambuco (14,28%), Rio Grande do Norte (13,63%), Paraíba (13,33%) e Sergipe (12,5%). No levantamento de DBO, a maior quantidade de mulheres líderes foi encontrada em Minas Gerais (13), mas elas comandam apenas 3,37% do total de 385 sindicatos do Estado. No Rio Grande do Sul, são seis presidentes

Mulheres presidentes por região e percentual de sindicados rurais presididos

Sudeste – 24

Nordeste – 25

3,31%

6,98%

Centro-Oeste – 11

4,15%

Norte – 11 Sul – 18

6,21%

4,31%

Fonte: CNA. Pesquisa e elaboração DBO.

(4,38% do total de 137 sindicatos). O Paraná e a Bahia têm ambos seis mulheres em postos de comando; Mato Grosso do Sul, cinco e o Mato Grosso, quatro. Goiás conta com apenas duas (veja os demais Estados no mapa). Por região, a presença feminina é mais forte no Nordeste (25 mulheres), no Sudeste (24) e no Sul (18). O Centro-Oeste e Norte têm ambos 11 mulheres presidentes de sindicatos. Por trás dos números A pergunta que surge após a observação desses número é: por que a participação feminina nas entidades calassistas ainda é tão baixa? As causas são múltiplas. Por serem universos tradicionalmente masculinos, os sindicatos rurais começaram tardiamente a abrir espaço às mulheres e estimular sua vocação para a liderança. Além disso, Mapa da liderança feminina nos sindicatos rurais do Brasil

Sindicatos pesquisados* Mulheres presidentes Fonte: Pesquisa e elaboração DBO, com base em dados constantes do Portal da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em 23/02/2021. * Número de sindicatos usado na pesquisa desconsideram 30 sindicatos que não informam ao Portal CNA quem são seus presidentes: SP (10), GO (8), BA (3), PE (3), RR (2), AC (2), RN (2), RO (1), CE (1), MA (1), LG (1), PB (1) e PI (1). O número total de sindicatos no País é de 1.979.

DBO março 2021 39


Capa neiros pesados. há poucas mulheres na gestão direMurilo Paschoal, sócio-direta das fazendas, portanto, discutintor da Safras & Cifras, consultodo problemas inerentes ao negócio, ria agropecuária especializada em frequentando os sindicatos para isso planejamento sucessório, sediada e criando os vínculos necessários à em Pelotas, RS, informa que a resua participação em processos elealidade descrita por Yara vem mutivos. O estatuto das entidades tamdando. A transferência patrimobém é ultrapassado. “Ele exige que, nial para os filhos em detrimentos para assumir qualquer cargo diretidas filhas está ficando no passado. vo em uma federação, a pessoa tenha “Hoje, existe um tratamento iguafeito parte de uma diretoria sindical. litário entre os filhos, independenE para integrar um sindicato é necestemente de sexo e idade, até pelo sário comprovar que existe, em seu fato de que os processos de sucesnome, algum negócio relacionado ao Yara Suñe, da Farsul: “Mulheres são têm buscado preservar as facampo, mesmo que seja um arrenda- sofrem com resquícios de uma mílias unidas, permitindo que os mento, que gere uma contribuição estrutura patriarcal no campo” irmãos (homens ou mulheres) trasindical. Sabemos, no entanto, que colocar terras no nome das filhas ou incumbi-las da ges- balhem juntos no mesmo negócio”, explica. Paschoal se fundamenta em seus 30 anos de extão das fazendas não é procedimento generalizado nas famílias rurais brasileiras. Mulheres sofrem com resquícios periência na área: “Nossa estimativa é de que 60% de uma estrutura patriarcal no campo”, argumenta Yara das propriedades brasileiras trabalhem hoje com gesSuñe, diretora suplente da Federação da Agricultura do tão compartilhada e pelo menos 10% estejam sob o comando exclusivo de mulheres”. Sobre a liderança Estado do Rio Grande do Sul (Farsul). feminina junto às instituições agropecuárias, ele faz uma projeção. “O avanço das mulheres no comando Recolher é obrigatório Segundo a diretora (proprietária da Estância Que- classista tende a crescer em um ritmo mais acelerarência, em Lavras do Sul, RS), o caráter facultativo do do que o próprio agronegócio brasileiro, ou seja, da contribuição sindical não se aplica a quem preten- em taxas superiores a 10% ao ano. As barreiras estão de ocupar funções de diretoria. “Para assumir algum caindo uma a uma”, diz. Nesta reportagem, que marca o dia internacional cargo sindical, tem de recolher”, observa. Atualmente, Yara reside com a família em Bethesda, próximo da mulher, DBO se rende à determinação, compea Washington, EUA, de onde atualiza a Federação tência e espírito agregador da liderança feminina na com informações sobre o agronegócio internacional. agropecuária brasileira. Para saber mais sobre suas “Funciono como uma espécie de informante de ou- experiências, sobre as dificuldades que enfrentaram vidoria no Exterior”, diz. Enquanto não retorna em para galgar postos de comando e sua visão de futudefinitivo ao País (o que deve ocorrer até o final do ro, conversamos com várias lideranças, de diferentes ano), ela procura marcar presença periódica (a inter- partes do País. Elas nos contaram um pouco de sua valos de três a quatro meses) na propriedade, onde história, mostrando que, para ser líder, basta ter foco faz cria/recria, comercializando vacas gordas e ter- e comprometimento. Veja a seguir.

De diretora classista a líder política Quem acompanhou, nos anos 2001-2003, a gestão da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul), não esquece a mulher de posições fortes, contundentes e, ao mesmo tempo, de espírito conciliador que integrava a diretoria do ex-presidentre Léo Brito. Foi ali que começou a carreira de líder classista Tereza Cristina Correa da Costa Dias, que se tornaria, posteriormente, a atual ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

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A experiência de Tereza Cristina como diretora da Famasul foi fundamental para que ela se destacasse como representante do setor e construísse uma carreira

ascendente. Além de inúmeras funções classistas, Tereza transformou-se em liderança política de alta confiança do setor produtivo. Foi diretora-presidente da agência Estadual de Defesa Sanitária (Iagro), secretária de Desenvolvimento e Produção do MS, deputada federal, líder da bancada ruralista e desde 2019 despacha em Brasília. Tem servido de inspiração para que jovens produtoras participem mais dos sindicatos e se façam ouvir.


FOTO: JONER CAMPOS

Liderança sem “mimimi” Eu fui forjada para ser líder. Minha família tratava meninos e meninas da mesma forma. Viajei muito com peões em comitivas”

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m 2020, logo após ser eleita presidente do Sindicato Rural de Cáceres (MT), a carioca Ida Beatriz Machado de Miranda Sá teve de enfrentar uma extenuante luta contra o fogo na região pantaneira. Primeira mulher a comandar a entidade, que representa 300 produtores do maior município pecuário do Estado e um dos quatro maiores do Brasil (rebanho de 1,1 milhão de cabeças, segundo o IBGE), Ida não contava com os incêndios avassaladores e sem precedentes logo no início de sua gestão. “Cerca de 40% das pastagens de Cáceres foram queimadas, mas poderia ter sido pior, se não tivéssemos tomando providências”, garante. Aos 53 anos, talhada por sua experiência em gestão, ela articulou uma frente multifacetada para o combate às chamas nas propriedades, junto com as também pecuaristas Denise Dalmas Rodrigues, segunda secretária do sindicato, responsável por projetos de educação, e Beatriz Ferreira Tavares, diretora-secretária da presidência, que cuida da parte de comunicação. Juntas, montaram parcerias para monitorar o fogo nas fazendas, usando imagens de satélite e comunicação via redes sociais. Ainda conseguiram, com apoio de outros sindicatos, o remanejamento de R$ 180 milhões de recursos do Fundo Constitucional do Centro-Oeste (FCO) especificamente para mitigar o impacto do fogo no Pantanal. Foi um começo em grande estilo. Mesmo ciente de que a participação feminina no sistema sindical é baixa em função de preconceitos de gênero, ela diz não ter sofrido resistência de nenhum tipo pelo fato de ser mulher, mas lembra que chefiar um sindicato é tarefa difícil; exige a necessária doação por comprometimento. “Tive de fazer política pública e conversar com pessoas que não

conversaria em outras circunstâncias. Sempre fui bem tratada, tanto por homens quanto por mulheres”, garante. Indagada se, mesmo em uma região conhecida pelo tradicionalismo, não amargou preconceito em sua trajetória de líder rural, Ida frisou: “Sinceramente não, talvez por saberem quem eu sou. Meu pai ía muito nas reuniões do sindicato e eu acompanhava ele. Sempre gostei do ambiente, tanto que, em 2016, já ajudava no que fosse preciso, voluntariamente, ainda sem qualquer cargo”, justifica. Tradição pecuária Ida pertence à quarta geração de pecuaristas da família. Nascida no Rio de Janeiro, cursou administração rural na Escola Superior de Agricultura de Lavras (MG) e morou boa parte de sua vida em Campo Grande, MS, onde se dedicou ao fomento de tecnologias e do desenvolvimento regional. Na capital sul-mato-grossense, foi professora universitária, tocou incubadoras tecnológicas e presidiu a Fundação Manoel de Barros (2004/2006), instituição de promoção de desenvolvimento para o Pantanal, bioma que sempre esteve presente em seu cotidiano. Desde criança, passava as férias na propriedade do pai, a Fazenda Santa Fé do Machadinho (15.000 ha), em Cáceres, onde não havia moleza. “Com meu pai não tinha mimimi. Com 10 anos de idade eu trocava pneu de caminhonete, arreava e montava a cavalo e ajudava na vacinação do rebanho. Sempre acordava de madrugada, comia um quebra torto e saia para o trabalho com o gado. Bebia água de rio, colhida com o chapéu”, relembra. Em 2013, convenceu a família a deixá-la ajudar na gestão da fazenda e se mudou com o marido e os dois filhos para o Mato Grosso. Dois anos depois, com o falecimento do pai, Uberto Cézar de Morais Machado, assumiu uma parcela de 3.292 ha, que foi denominada de Fazenda Nossa Senhora do Machadinho, onde hoje mantém um rebanho de cria, com média de 1.300 cabeças, entregando em torno de 600 bezerros/ano. O carisma de Ida (emoldurado em um largo sorriso); sua experiência em gestão e uma facilidade natural de comunicação lhe abriram as portas da liderança no sindicato. No período 2017-2020, foi secretária-executiva na gestão do produtor Jeremias Pereira Leite. Seu desempenho nesse cargo e na administração da fazenda (onde implementou um projeto de tecnificação sustentável), lhe garantiram o convite para encabeçar a chapa única que assumiu o comando do sindicato. “A indicação foi por aclamação durante um evento grande, realizado em uma fazenda da região. Não demorei muito a decidir. Foi o tempo de ir à igreja, pedir uma bênção e encarar de frente. Fui forjada para ser líder. Minha família tratava meninos e meninas da mesma forma. Viajei muito com peões em comitivas sem precisar de irmão, primo ou pai para acompanhar. Além disso, trabalhei grande parte da vida com desenvolvimento regional, ciência e DBO março 2021 41


Capa tecnologia. Também adoro a área de fomento. Quando se tem conhecimento e resultados, as coisas fluem, independentemente de ser homem ou mulher”, relata. Ida diz se inspirar en três mulheres em especial: “A Ana Primavesi, que me marcou muito por ter lançado as bases da produção sustentável no País; a ministra Tereza Cristina e a presidente da Sociedade Rural Brasileira, Teka Vendramini”. Com quase dois anos de mandato pela frente, ela pretende cumprir algumas metas, como levar 100% dos cursos de qualificação para a zona rural; realizar uma feira mensal na

cidade com produtos oriundos de propriedades capacitadas via sindicato e ampliar a estrutura de suporte no combate a incêndios. Também está de olho no fomento à pecuária sustentável no Pantanal. “Quem sabe a gente não consegue trazer um braço da Associação Brasileira de Pecuária Orgânica para o Mato Grosso”, sugere. Indagada se pretende alçar voos mais altos, ela não titubeia: “Como liderança classista, sim. Havendo possibilidade, vou sempre oferecer serviço. Para quem tem perfil de liderança isso se torna uma obrigação como ser social”.

Pioneirismo meteórico Os dados de DBO vão nos ajudar muito. São surpreendentes. Eu acredito no caminho que essas mulheres estão abrindo”.

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os últimos cinco anos, se houve uma liderança feminina de ascensão vertiginosa, seu nome é Teresa (Teka) Vendramini. Paulista de Adamantina, socióloga e produtora rural, ela elege o ano de 2017 como marco inicial dessa trajetória. Na época, começou a ser chamada para formar grupos, fazer apresentações e estimular mulheres a serem protagonistas na agropecuária brasileira. Saiu em viagens por todas as regiões do País e, de lá pra cá, não parou mais. Naquele mesmo ano, seu trabalho no segmento ganhou destaque, a ponto de ela ser convidada a criar o Departamento de Pecuária da Sociedade Rural Brasileira (SRB), entidade centenária, surgida em 1919, em São Paulo (SP). Além de estruturar essse departamento, Teka o dirigiu por três anos, tornando-se o primeiro nome feminino nos quadros de direção da entidade. Em fevereiro do ano passado, mais um pioneirismo: foi eleita a primeira mulher presidente da “Rural”, nome pelo qual a instituição é intimamente tratada por seus membros. Nesta linha de frente, Teka, aos 61 anos, também in42 DBO março 2021

tegra, atualmente, três conselhos consultivos: o da Amazônia (criado pelos bancos Bradesco, Itaú e Santander); o da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e o do Fundo JBS pela Amazônia. Para completar, no dia 18 de setembro, quebrou mais um paradigma ao tornar-se a primeira mulher a assumir a presidência da Federação das Associações Rurais do Mercosul (Farm), existente há 24 anos e que congrega seis países. Tudo isso a obriga a ajustar uma agenda pesada entre a liderança, a família (tem uma filha e duas netas) e a Fazenda Jacutinga, em Flórida Paulista, SP, que comanda há 11 anos, fazendo ciclo completo, mais compra de bezerros. Teka conta ainda com duas propriedades em Mato Grosso do Sul, que toca junto com os irmãos. Cautelosa pelas funções de representação que hoje exerce, evita dar mais detalhes sobre sua atividade produtiva. “Prefiro ter a privacidade preservada neste aspecto”, avisa. Sua trajetória como liderança ocorreu, segundo ela, de forma espontânea. Por isso, ela valoriza esse avanço pessoal e dos grupos de produtoras dos quais participa. “Vejo que tanto a minha liderança quanto a organização das mulheres no Agro aconteceram de forma natural. Os dados levantados por DBO vão nos ajudar muito. São surpreendentes. Mas será que 89 nomes femininos na presidência de sindicatos é um número pequeno? Há 10 anos, isso certamente não seria registrado. Eu acredito no caminho que essas mulheres estão abrindo. É bom lembrar que foram necessários 100 anos para que a primeira viesse a presidir a Rural”. Logo depois que assumiu a SRB, Teka foi obrigada a ajustar o funcionamento e as ações da entidade às limitações impostas pela pandemia de covid-19. Mas essa nova situação acabou gerando novas demandas. “Uma das primeiras atitudes que tive como presidente foi o envio de um ofício a todos os governadores brasileiros pedindo a livre circulação de mercadorias. Naquele momento, estavam ocorrendo vários impedimentos ao trânsito de cargas. Foi muito importante. Recebemos diversos retornos e manifestações de apoio e pude enxergar o real tamanho do agronegócio brasileiro”, relembra. Neste primeiro ano, mesmo com ações presenciais


limitadas, Teka manteve a SRB como voz ativa em uma série de temas. Dentre outras coisas a entidade, participou do tratoraço contra o aumento de ICMS dos alimentos em São Paulo; criou uma cartilha com recomendações sanitárias relativas à cisticercose bovina; questionou movimentações que supostamente colocavam em risco a aplicação efetiva do Código Florestal Brasileiro e foi a público repudiar as declarações do presidente da França, Emmanuel Macron, que relacionavam a soja brasileira ao desmatamento na Amazônia. Bastante otimista, a presidente da Rural entende

que 2020 foi “de consolidação” para o agronegócio do País, ao fortalecer a imagem do Brasil como fornecedor confiável de alimentos para o mundo. Por outro lado, ela projeta desafios no restante de seu mandato (2021 e 2022). “Teremos de trabalhar muito para manter os níveis de exportação do Agro brasileiro, para que o País faça uma reforma administrativa; para que promova uma regularização fundiária e que seja estabelecida uma efetiva e funcional rede de conectividade no campo. Infelizmente, na grande maioria das fazendas brasileiras, ainda não se consegue falar ao celular”, diz.

Desbravando o oeste baiano

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pioneirismo atrelado à necessidade de sobrevivência da família, acabou fazendo com que a produtora gaúcha descendente de italianos, Carminha Maria Gatto Missio, cumprisse uma trajetória que, hoje, a deixa em uma condição de liderança feminina do agronegócio do Nordeste brasileiro. De 2015 a 2018, ela presidiu o Sindicato Rural de Luiz Eduardo Magalhães (LEM), no oeste baiano e atualmente é a vice-presidente da Federação da Agricultura e Pecuária da Bahia (FAEB), com mandato até 2022. “Não senti dificuldades como líder, talvez pelo reconhecimento do trabalho de nossa família na Bahia. Mas outras mulheres sofrem. Tenho trabalhado muito a ideia de gestão compartilhada no Agro, para tentar dar mais equilíbrio ao quadro. Nas fazendas, muitas vezes é a mulher quem está à frente de tudo: no financeiro, produtivo e comercial. Mas a palavra final é sempre do homem. Geralmente ainda é assim. Além disso, na hora de assumir e liderar sindicatos e associações, realmente contamos com poucas representantes”, diz ela. Como vice-presidente da FAEB, Carminha conduz um projeto de qualificação técnica no campo, que passa, inclusive, por subsídios de conteúdo à educação da criança nas escolas municipais. Uma de suas metas é a criação de um instituto para elevar o trabalho das mulheres na agropecuária a um alto nível de excelência. “Temos grande falta de dados. É fundamental saber, por exemplo, quantas mulheres estão à frente do negócio da família e quantas negociam diretamente com os bancos; tudo segmentado entre as atividades de pecuária e agricultura. Com mais clareza e transparência de dados, fica mais fácil obter recursos para aplicação em projetos”, justifica. Atualmente, ela reserva uma semana por mês para estar fisicamente presente na sede da FAEB, em Salvador. A história de Carminha e sua família dá um livro, que ela já está escrevendo, em homenagem aos pais, falecidos em 1998. Natural de Espumoso, RS, filha de pequenos agricultores (que tinham apenas 20 alqueires para cultivar), membro de uma família numerosa (ela e mais nove irmãos), Carminha mudou-se, recém-casada, para Ponta Porã (MS), em 1980, em busca de oportunidades. Três anos depois, o casal vendeu as terras no Sul para com-

Temos grande falta de dados. É fundamental saber quantas mulheres estão à frente do negócio da família, quantas negociam com os bancos...”

prar 500 ha em Luiz Eduardo Magalhães (BA). “Na época, LEM se limitava a uma casinha de sapé às margens da estrada que liga Brasília a Salvador”, relata a produtora. A região cresceu rápido, tornando-se um importante polo agropecuário e uma verdadeira “escola agrícola a céu aberto”. Carminha lembra que tudo era novo, difícil; o solo, considerado estéril. “A gente testava de tudo um pouco”, conta. Mas valeu o esforço. Em 2005, Carminha mudou-se para Luiz Eduardo, onde hoje mantém uma empresa em parceria com os irmãos (Agro Santa Carmem), que produz sementes (soja, milho, feijão, milheto e sorgo) em aproximadamente 18.000 hectares. Com o tempo, ela foi se integrando à comunidade, participando de reuniões no sindicado rural e tomando ciência das demandas da região. “Quando assumi a presidência do sindicato, tínhamos pouco mais de 1.000 associados, reunindo produtores que detinham de 500 a 50.000 hectares. Foi uma experiência interessante e desafiadora. Ouvir pessoas com opiniões diversas e formar uma única opinião, não é trabalho fácil”, salienta. DBO março 2021 43


Capa

Representação no Araguaia

A

os 57 anos, Maria Ester Fava (a Teia), natural de Lins, SP, divide seu tempo entre a Fazenda Estrela do Sul, em General Carneiro (MT); os negócios com eucalipto tratado; e os compromissos classsistas, como representante da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat) no Vale Médio do Araguaia, região com 16 municípios e um rebanho de 3,2 milhões de cabeças.Teia confessa que tem a fama de chamar pra si as responsabilidades mais diversas possíveis. “Tenho o hábito de tentar resolver até situações que não são de minha alçada”, brinca. Pela Acrimat, Teia se orgulha

de ter ajudado a implementar o Projeto “Fazenda Segura” (veja reportagem à página 30) e combater os incêndios rurais na região. “Mandamos confeccionar centenas de abafadores de fogo que foram doados aos fazendeiros e ao Corpo de Bombeiros. Foi uma ação simples, mas muito importante”, relata. Uma ideia que pretende amadurecer é realizar trabalhos educativos com crianças indígenas da região. “Os Bororos não colocam fogo no mato para caçar, mas os Xavantes, sim. E isso deixa sob risco as propriedades próximas. Eu, por exemplo, não posso nem pensar em ter fogo na minha fazenda. Estragaria todo o meu trabalho. Elaborar uma cartilha seria um projeto interessante”, adianta. A produtora não descarta a possibilidade de enveredar pela liderança sindical: “Na região, homens e mulheres já me disseram que, se eu for, eles vão junto”. Mas, quando a conversa descamba para questões de preconceito de gênero, ela torce o nariz: “As mulheres são menos aceitas como líderes não por causa dos homens, mas em função delas próprias. Muitas se queixam que carregam obrigações familiares, que isso seria um entrave. Quanto mais se falar sobre essa questão, mais as pessoas vão pensar que não temos espaço. Existe um ‘reclamômetro’ geral. Temos de levantar a bandeira do agronegócio, e não somente da mulher. Cigarrinha e percevejo dá em fazenda de qualquer um. Posso ser metralhada por isso, mas é o meu modo de pensar”.

Existe um ‘reclamômetro’ geral. Temos de levantar a bandeira do agronegócio e não somente da mulher”

CNA Jovem: 53% de mulheres

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om 20 anos de idade, Paloma Laís Pegoraro passou a dividir com o pai a gestão das quatro propriedades da família (total de 200 ha), em Brunópolis e Campos Novos (SC), mas, em 2019, recebeu um convite para participar do GT das Mulheres do Agro, da CNA, e hoje, aos 25 anos, é a liderança feminina do meio-oeste catarinense junto à instituição. “Estima-se que nossa região tenha 400 produtoras rurais; cabe a mim representá-las, estimulando sua permanência no campo, sua participação como gestoras e líderes. Ainda enfrentamos muito preconceito do homem. Boa parte não aceita o comando feminino”, diz. Uma de suas metas é realizar, ainda neste ano, um encontro presencial estadual com essas mulheres, se a pandemia deixar. Engenheira agrônoma formada pela Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC), Paloma procura conciliar suas funções de representante classista com os afazeres no campo. “Não temos funcionários. Quem trabalha duro a semana toda somos eu e meu pai. Cabe a mim cuidar da roçada, das cercas, do plantio e da operação de máquinas”, garante. 44 DBO março 2021

FOTO: THAÍS PARISE

Tudo indica que novas “Palomas” surgirão do programa CNA Jovem, que já está na quarta edição e conta com forte participação feminina. Segundo a assessoria da entidade, dos 3.742 jovens inscritos em junho do ano passado, 53% eram mulheres e 47% homens. n

Ainda enfrentramos muito preconceito do homem. Boa parte não aceita o comando das mulheres”



Genética

A supremacia da IATF Venda de protocolos para sincronização de cio cresceu 30% em 2020; indústria de fármacos fatura R$ 425 milhões/ano com a técnica

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carolina rodrigues

ano de 2020 foi um marco para a inseminação artificial em tempo fixo (IATF), que registrou alta de 29,7% no uso de protocolos em relação a 2019. Conforme estimativa feita pelo Departamento de Reprodução Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP), foram realizados 21,2 milhões de procedimentos para sincronização de cio no País (cálculo feito com base no número de dispositivos de progesterona vendidos e sua taxa de reutilização). Em 2019, o setor havia crescido 23,6%, em relação a 2018. O avanço da IATF já era esperado, em função do crescimento das vendas de sêmen no Brasil, que ultrapassou 23,6 milhões de doses comercializadas no mercado interno, alta de 25,3% na comparação com 2019.

Participação da IATF sobre o total de IA, nos anos 2002 a 2020 (90% das inseminações já são feitas com a técnica)

Fonte: FMVZ/USP

Para Pietro Baruselli, responsável pelos dados coletados pela FMVZ/SP, a pesquisa tem avançado rumo ao refinamento da técnica, principalmente no que diz respeito a fatores metabólicos que podem interferir na reprodução. “Hoje, temos muito mais domínio da IATF do que no passado”, observa. Baruselli calcula que esse mercado movimente diretamente R$ 425 milhões/ano com a técnica, considerando-se o valor médio de R$ 20 por protocolo. “É um gigante, de fato”, resume o professor. Nos primeiros anos de uso da técnica (2002 a 2006), constatou-se crescimento superior a 50%; depois, as taxas caíram, chegando ao menor nível em 2017 (3%) e, em seguida, voltaram a subir. Na média dos últimos 18 anos (2002-2020), o crescimento da IATF foi expressivo (34,7%), maior do que a registrada pelas vendas de sêmen no mesmo período (6,9%). Isso é compreensível, já que a técnica avançou ocupando espaço dentro do mercado de inseminação, que avança a passos mais lentos. Em 2020, 90% das IAs foram feitas em tempo fixo (veja gráfico). Márcio Nery, presidente da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia), garante que apenas 10% das inseminações são feitas com observação de cio. “A IATF permite um melhor aproveitamento da genética, seja pelo uso do sêmen adequado para o sistema de produção, seja pela potencialização da taxa de prenhez. Isso faz com que as ilhas de tecnologia, antes concentradas em alguns plantéis de seleção, comecem a se dispersar, com a IATF cada vez mais presente nos rebanhos comerciais que querem melhorar seus resultados”, diz Nery. Em 2020, a Asbia comemorou a inseminação de quase 20% das fêmeas em idade reprodutiva do País. Em 2001, ano em que a USP iniciou seu levantamento, esse percentual era de apenas 1%. n

QuizDBO: teste seus conhecimentos sobre pecuária através das reportagens da Revista DBO. Aponte a câmera do celular e acesse! www.portaldbo.com.br/quiz-dbo

46 DBO março 2021

QuizDBO


NOVILHAS PARA MELHOR GENÉTICA E MAIOR EFICIÊNCIA

• Sanidade. É fator básico para todas as categorias do rebanho. No caso específico de novilhas, o controle efetivo de parasitos tem contribuído para acelerar o crescimento dos animais. Ao mesmo tempo, a vacinação preventiva contra doenças reprodutivas tem mantido a gestação e melhorado tanto as taxas de prenhez quanto as taxas de nascimento. • Genética. Através de melhoramento genético, fêmeas mais férteis e precoces têm contribuído fortemente para os resultados reprodutivos das fazendas. As ferramentas genômicas para a identificação antecipada das melhores fêmeas de reposição (as mais férteis) vêm sendo aplicadas com elevado grau de acerto, o que faz com que essas características se perpetuem no rebanho. • Nutrição. Com estratégias de suplementação, o aumento do ganho de peso tem acelerado o crescimento das novilhas e antecipado a idade de puberdade, fator primordial para a obtenção de boas taxas de prenhez. • Protocolos de indução de puberdade. Junto com outras estratégias para antecipação do início do funcionamento sexual, esses tratamentos vêm sendo utilizados com grande eficácia. • Protocolos de Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF). A adequação dos protocolos para novilhas - categoria com particularidades de funcionamento de seu sistema reprodutivo possibilita melhores resultados, tais como: menor idade à primeira concepção e índices de prenhez como os do gráfico abaixo, bem como otimização da mão de obra, estação de monta mais curta e produção de bezerros de melhor qualidade.

Nos trabalhos do GERAR 2019/2020, foram analisados dados de mais de 270.000 novilhas e os resultados bastante satisfatórios evidenciaram que ações na gestão da reprodução dessa categoria valem a pena.

TAXA DE PRENHEZ IATF - CATEGORIAS DE NOVILHAS 61,4% 53,2%

47,8%

54,2%

51,1%

60,3%

59,1% 47,6%

44,9% 43,3%

49,9%

48,6%

15,4 m

13,6 m

25,0 m

23,4 m

Novilhas Precoces

Novilhas Precoces Induzidas

Novilhas

Novilhas Induzidas

Raça de Novilha

Cruz

Tau

Zeb

Média de idade da matriz

Um ponto que merece destaque nesse levantamento é que novilhas “precoces” - enxertadas aos 14-15 meses de idade, fruto de um bom processo de melhoramento genético - tiveram taxas de prenhez semelhantes às de novilhas com 25 meses (idade média de enxertia em sistema convencional). Isso comprova o forte impacto positivo da seleção no aproveitamento e na eficiência reprodutiva dessa categoria. No entanto, vale lembrar que o melhoramento genético deve ser acompanhado de diversas outras melhorias na fazenda, pois animais superiores necessitam de nutrição, sanidade e protocolos reprodutivos adequados para expressarem seu potencial. Sendo assim, ressaltamos que os índices de prenhez registrados foram obtidos também graças à aplicação de protocolos Zoetis e de conceitos técnicos definidos pelos estudos do Grupo GERAR, tais como: protocolo de 9 dias, antecipação da aplicação de Lutalyse e vacinação contra doenças reprodutivas (IBR/BVD) com CattleMaster e uso de MGA Premix. Antônio Chaker, diretor da consultoria Inttegra Métricas Pecuárias, reforça os efeitos positivos de ter fêmeas precoces em reprodução na fazenda: “Elas promovem uma nova arquitetura do rebanho de cria, permitem a redução de uma categoria animal na propriedade, ampliam a participação das matrizes sobre o rebanho médio e, principalmente, potencializam o total de quilos de bezerros desmamados em relação aos quilos de matrizes presentes na fazenda.” Segundo o consultor, esses fatores somados garantem um aumento direto de 20% na produtividade, com impacto de igual ou superior valor na rentabilidade da fazenda. “Fêmeas hoje consideradas precoces serão, em poucos anos, o padrão de operação nas fazendas que produzem bezerros com margem e lucratividade, um caminho obrigatório da pecuária profissional”.

zoetis.com.br

MM-12984 - Eficiência reprodutiva de novilhas para aumentar o aproveitamento do rebanho de fêmeas

Nos últimos anos, a reprodução de novilhas de corte vem ganhando destaque, tornando-se foco de muitas pesquisas para a geração de conhecimento sobre sua fisiologia e ganhos de eficiência. Isso se dá pelo fato de essa ser a categoria de melhor genética da fazenda, podendo contribuir de maneira decisiva para o aumento da produção de arrobas por hectare. Antecipar significativamente o momento do primeiro parto e aumentar a produção de bezerros desses animais é aproveitar ao máximo sua contribuição. Historicamente, a média de idade das novilhas ao primeiro parto no Brasil não é das mais eficientes, se comparada a de países concorrentes em produção e exportação de carne bovina. Enquanto aqui a média é de 36 meses (concepção entre 25 e 26 meses), nos Estados Unidos e na Austrália ela é de 24 meses (concepção entre 14 e 15 meses). Essa diferença de 12 meses impacta diretamente na lucratividade da fazenda, pois representa maiores custos e menor geração de receitas. Aproveitando o conhecimento adquirido em pesquisas recentes no planejamento da estação de monta, muitas fazendas têm otimizado o desempenho do seu plantel de novilhas, atuando em cinco pilares principais:


Genética

Novo protocolo de IATF eleva prenhez de vacas magras Estudo mostra que resultado em fêmeas com baixa condição corporal melhorou após aplicação de dose adicional de prostaglandina

Até agora, vaca magra com bezerro ao pé era prenúncio de problema.

Fármaco atua além da regressão do corpo lúteo das fêmeas” Isabela Marconato, mestre pela Unesp Botucatu

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Denis Cardoso

o momento inicial da estação de monta tudo o que o pecuarista não deseja ver no curral de inseminação são vacas magras com bezerro ao pé – um prenúncio de que a taxa de prenhez dessas fêmeas, inseridas em protocolos convencionais de Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF), não será satisfatória, pois os resultados de fertilidade têm alta correlação com a condição corporal de cada animal. Porém, um estudo de campo realizado pela médica veterinária Isabella Marconato revelou que é possível obter sucesso no trabalho reprodutivo mesmo quando há, nos bretes de inseminação, vacas magras paridas em anestro (ausência de manifestação de cio). Para isso, basta lançar mão de uma nova estratégia que contempla o uso de uma dose adicional de um fármaco hormonal já bastante adotado nos protolocos de IATF – a prostaglandina (PGF2α), que é utilizada para controlar a sincronização do cio, garantindo maior eficiência no programa reprodutivo. “O experimento comprovou que é possível melhorar significativamente [10 pontos percentuais a mais] a taxa de prenhez em vacas magras, no caso de aplicação de duas doses de prostaglandina (2,5 ml) durante o protocolo de IATF”, conta a autora do estudo, que recebeu orientação de José Luiz Moraes Vasconcelos (o professor “Zequinha”), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Botucatu, trabalho que culminou no título de mestre à pesquisadora. Normalmente, na maioria dos programas de IATF,

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aplica-se uma única dose de prostaglandina, seja ela antecipada no D7 (protocolo de quatro manejos) ou no D9 (três manejos), ou seja, sete ou nove dias após o início do protocolo, no D0 (quando se faz a introdução do implante de progesterona). “A prostaglandina é de extrema importância nos protocolos de IATF, pois induz a regressão do corpo lúteo (CL) e, consequentemente, diminui as concentrações de progesterona, estimulando a liberação de pulsos de LH (hormônio luteinizante), que, por sua vez, promove o crescimento final do folículo, ocorrendo, assim, a almejada ovulação”, explica Isabella. No novo protocolo sugerido pela médica veterinária, a dose de 2,5 ml de prostaglandina é utilizada em duas etapas – no D7 e também no D9 (veja ilustração na página seguinte). “Muitas fazendas já estão utilizando duas doses de prostaglandina, pois os resultados do estudo em rebanho de corte foram apresentados no ano passado”, festeja Isabella, acrescentando que, primeiramente, o mesmo protocolo foi validado em rebanho leiteiro, a partir de outro experimento realizado há dois anos. “Hoje, em fazendas de leite, o uso das duas doses nos programas de IATF já é rotina”, ressalta a pesquisadora, que também é consultora técnica da Alta Genetics, central sediada em Uberaba, MG. Antes, só para vacas ciclando Segundo Izaías Claro Júnior, gerente técnico da Zoetis – empresa que já propaga aos seus clientes o protocolo com duas doses de prostaglandina –, a aplicação da PGF2α já era recomendada para o uso no dia 7 do programa de IATF, mas somente para vacas que estivessem ciclando. “O estudo da Isabella nos mostrou que o uso de uma segunda dose em fêmeas em anestro resulta em maior prenhez em curto período de tempo”, ressalta Claro Jr. Mais: o custo adicional dessa dose extra é amplamente compensado pelo maior número de vacas prenhes. “Para cada real gasto a mais no processo, o retorno foi de R$ 28 por vaca”, informa ele. O anestro pós-parto é o intervalo entre o nascimento do bezerro e a primeira ovulação. A sua duração é influenciada por quatro fatores principais: balanço energético, presença do bezerro ao pé da mãe, estação do ano e número de partos, segundo os especialistas. “Infelizmente, muitas fazendas de corte no Brasil ainda se deparam com vacas magras no momento da in-


seminação, devido aos períodos de restrição alimentar na época mais seca do ano que antecede as parições”, relata o técnico da Zoetis. O estado nutricional das fêmeas e o ato da mamada são considerados os fatores que atuam de forma mais acentuada para o prolongamento do anestro. Dessa maneira, explica a pesquisadora Isabella, a perda de peso das vacas e da condição corporal, ocasionadas pela restrição na ingestão de nutrientes, reduzem a secreção de LH, fazendo com que o folículo dominante produza menos estradiol, prologando o anestro pós-parto em animais já sexualmente maduros. Na pecuária moderna, o encurtamento da estação de monta (período entre 60 a 90 dias, considerando vacas adultas) tornou-se uma das decisões mais importantes do manejo produtivo, pois tal estratégia, além de disciplinar outras atividades da fazenda, permite que o período de maior exigência nutricional das matrizes coincida com o de maior disponibilidade de forrageiras de melhor qualidade (estação das chuvas). Resultados práticos O trabalho coordenado por Isabella envolveu 934 vacas da raça Nelore (primíparas e multíparas) – todas inativas sexualmente (ausência de corpo lúteo) –, pertencentes à Fazenda Santo Antônio, localizada em Araguaiana, no Mato Grosso, a parceira do projeto. O experimento foi realizado durante a estação de monta 2018/2019, entre novembro e fevereiro. No início do projeto, todas as fêmeas foram distribuídas aleatoriamente para receber uma dose de prostaglandina (grupo controle, no D7) ou duas doses do hormônio (D7 + D9). Após essa distribuição e avaliação individual do escore corporal (ECC, considerando uma escala de 1 a 5), os animais foram separados em quatro grupos distintos: magras (ECC < 3) com uma dose recebida de prostaglandina; magra com duas doses; gordas (ECC > 3) com uma dose; e gordas com duas doses do hormônio. Após a inseminação, que contou com doses de sêmen de dois touros da raça Angus, o diagnóstico de gestação (DG) foi realizado 30 dias depois, seguindo o procedimento habitual realizado na maioria das propriedades de corte. “Nos lotes de vacas magras observamos aumento de dez pontos percentuais na taxa de prenhez do grupo que recebeu duas doses, em relação ao grupo controle (uma

dose), compara a pesquisadora, acrescentado que os resultados alcançados foram de 55,5% e 45,6%, respectivamente. A taxa de sincronização também foi maior no experimento com duas doses, de 81,4%, ante 72,1% no grupo controle. Por sua vez, observa Isabella, o uso de duas doses de prostaglandina no lote de vacas gordas (ECC > 3) não prejudicou a prenhez das matrizes, ou seja, os resultados finais foram similares ao do grupo controle.

Equipe da Fazenda Santo Antônio, em Araguaiana, MT, onde foi realizado o experimento. Ao lado, fêmeas com ECC menor do que 3: 10 pontos percentuais a mais na taxa de prenhez.

Descoberta científica Segundo Isabella Marconato, o mecanismo pelo qual a prostaglandina promoveu este aumento na taxa de prenhez das vacas magras em anestro ainda não foi elucidado completamente, mas os pesquisadores trabalham com a hipótese de que o outro possível mecanismo estaria relacionado ao processo de ovulação, através do aumento de LH e/ou aumento das metaloproteinases responsáveis pela degradação da parede folicular. “Contudo, ficou claro que a prostaglandina atua além da luteólise (regressão do corpo lúteo) nos protocolos de sincronização da ovulação”, observa a pesquisadora. n

Protocolo para vacas com escore corporal menor do que 3 Aplicação de benzoato de estradiol

Aplicação de 2,5 ml PGF2α (dinoprost)

Aplicação de 2,5 ml PGF2α (dinoprost) + cipionato de estradiol + eCG

Implante de progesterona D0

D7

Inseminação

D9 D11

Fonte: Isabella Marconato

DBO março 2021 49


Genética

A vez dos touros jovens Com o aval da genômica, cresce a contratação de touros jovens nas centrais, mas os técnicos recomendam testá-los antes do uso massivo no rebanho.

Émerson Lessi, da ServSêmen/ Cacoal, de Rondônia, faz testes com sêmen de touros jovens apenas em propriedades que têm bom manejo nutricional, para eliminar o efeito-ambiente dos resultados.

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Moacir José

ai a idade dos touros em coleta nas centrais e aumenta a velocidade de introdução de genética melhoradora nos rebanhos. O advento da genômica tem permitido que o sêmen de reprodutores selecionados para precocidade chegue à base do plantel nacional em termpo mais curto, após passar pelo crivo dos programas de melhoramento genético. Segundo Thiago Carrara, gerente de produto corte da Alta Genetics, com sede em Uberaba, MG, é crescente o alojamento de touros mais jovens na central. Ele estima que, na bateria de 270 touros Nelore da empresa, 45% sejam de machos com menos de cinco anos de idade, enquanto no Angus (274 touros) essa proporção sobe para 70% e no Holandês (raça que está mais avançada na genômica) para 85%. A rigor, touros jovens são animais de até dois anos de idade e eles também estão entrando nas centrais, em maior número. “Para ser posto em coleta, contudo, os machos dessa idade precisam ter DEP (diferença esperada na progênie) genômica, que tem maior acurácia [até 80%, ante 20% da DEP comum]”, informa Carrara. Esse também é, desde julho de 2019, o pré-requisito exigido pela CRV, de Sertãozinho, SP, informa o gerente de gado corte/zebuínos, Cassiano Pelle. Ele confirma que vem aumentando a presença de animais jovens da raça na Central Bela Vista (de Pardinho, SP, de propriedade da empresa), onde atualmente estão

50 DBO março 2021

em coleta de sêmen 92 touros Nelore/Nelore Mocho da CRV, 25 deles com menos de três anos de idade. Prestadora de serviço para outras centrais, a Bela Vista conta, hoje, com 260 touros Nelore, 112 deles (43%) com menos de três anos de idade, informa a zootecnista Adriana Zaia, da área de relacionamento com os clientes. Cassiano Pelle ressalva que, pessoalmente, crê que a DEP genômica ainda não pode ser considerada 100% e que ainda há o que melhorar. “Mas a acurácia avançou muito e hoje se consegue alto grau de acerto”, diz. Seu colega Delmiro Rodrigues, da área de taurinos, informa que 80% dos reprodutores Angus contratados pela CRV atualmente (22 alojados na Central Bela Vista e 10 na Crio Central Genética Bovina, de Cachoeira do Sul, RS, em sistema de parceria) são nascidos nos anos 2017 e 2018, ou seja, têm, no máximo, quatro anos de idade. “Ficarão em coleta até os cinco anos. Antigamente, era comum ficarem até os 10”, diz ele, lembrando que essa prática obedece ao seguinte pressuposto, caro à seleção: “quanto mais curto o intervalo entre gerações, mais veloz é o melhoramento genético”. Impacto da precocidade Um trabalho feito pelo veterinário Márcio de Oliveira Marques, sócio da consultoria paranaense Geraembryo, confirma isso. O estudo, realizado em uma fazenda acompanhada pelo consultor, permitiu demonstrar não apenas quão benéfico pode ser o uso de sêmen de touros melhoradores em protocolos de IATF (Inseminação Artificial em Tempo Fixo), mas também a vantagem de serem jovens. O resultado do trabalho está resumido nas duas tabelas que constam desta reportagem. A primeira é praticamente uma tabuada. Ela mostra a relação matemática entre a DEP para quilos de bezerro à desmama e o desempenho à IATF. Um reprodutor cujas filhas apresentem 60% de prenhez e cuja progênie desmama 20 kg acima da média garante 1.680 kg de bezerro a mais por lote de 100 vacas. Márcio Marques sempre propõe, às fazendas que assiste, a testagem de, pelo menos, dois touros jovens melhoradores na estação de monta. Eles são considerados “desafiadores” e têm seu desempenho comparado ao de um touro referência, comprovadamente de alta fertilidade. O sêmen dos três reprodutores é usado equitativamente (33%) em três lotes de fêmeas e se os “desafiadores” garantirem taxas de fertilidade superiores aos do touro referência, assumem seu pos-


UM SUPLEMENTO DESTINADO AOS BOVINOS DE CORTE DE QUALQUER IDADE

NOVAS TECNOLOGIAS NUTRIMAIS IND

NUTRIMAIS OFICIAL

NUTRIMAIS.IND.BR


Genética Tab. 1 - Efeito aditivo (mérito genético + alta fertilidade) do touro na produção de kg de bezerros em 100 vacas Taxa prenhez por IATF DEP à desmama (kg a mais )

40%

45%

50%

55%

60%

5

320

349

375

399

420

10

640

698

750

798

840

15

960

1.047

1.125

1.197

1.260

20

1.280

1.396

1.500

1.596

1.680

Fonte: Geraembryo. Adaptado de estudo feito por Gabriel Crepaldi, 2014

Melhor genética tem de vir acompanhada de nutrição adequada” Márcio Marques, da Geraembryo

to no ano seguinte. A tabela 2 mostra o ganho econômico obtido em uma das fazendas assistidas por Marques. Os dois touros jovens (A e B) garantiram, respectivamente, R$ 5.568 e R$ 2.508 a mais de lucro, em comparação com o referência (touro C), em cada lote de 100 vacas. Émerson Alessandro Lessi, sócio da ServSêmen/Cacoal, empresa prestadora de serviços reprodutivos com atuação em Rondônia e Mato Grosso, também faz esse tipo de teste, mas adotando tática um pouco diferente. Como trabalha bastante com cruzamento industrial, usa sêmen de touros Angus “debutantes” (primeiro uso) nas multíparas, comparando sua progênie com a de “veteranos” reconhecidamente de alta fertilidade. Nas novilhas e nas primíparas, usa sêmen de touros jovens testados na estação de monta anterior, sempre em comparação com os “veteranos”. Todos os anos, o técnico introduz no plantel das fazendas assistidas novos touros jovens, que devem ser sempre melhores do que os antecessores. “Faço esse tipo de teste apenas em propriedades que têm controle sanitário adequado e fêmeas com bom escore corporal, para evitar distorções do efeito do ambiente nos resultados”, explica Lessi, afirmando que, assim, consegue, no lote, taxa de fertilidade acima de 65%. O sêmen é sempre de touros Angus norte-americanos, provados para características como peso à desmama, peso ao sobreano, peso de carcaça e “US$ beef” (retorno econômico), além de habilidade materna. Qual referência adotar? Marques e Lessi levam em conta dados sobre fer-

tilidade dos touros na IATF fornecidos por algumas centrais genéticas, mas consideram que são apenas indicativos, probabilidades, não uma certeza. Além disso, nem sempre, um touro “certificado” para essa característica gera bezerros mais pesados à desmama. “É preciso trabalhar as duas coisas ao mesmo tempo. Às vezes, na escolha dos touros, se a fazenda não tem vacas capazes de garantir o desempenho dos bezerros de melhor genética, é preferível usar um touro mais barato, com DEP à desmama menor. Se a fazenda tem taxa de concepção de 40%, por exemplo, é sinal de que ela não tem comida nem para as vacas, quanto mais para os bezerros”, exemplifica Lessi. Edmundo Rocha Vilela, proprietário da Lageado Biotecnologia e Pecuária, de Mineiros, GO ‒ que atende a 210 propriedades do Brasil Central, além de PA, RJ e SP, com 200.000 inseminações na estação de monta 2019-2020 ‒, concorda com Lessi e vai além na questão dos touros. “Às vezes, sêmen de animais sem a certificação das centrais como indicado para IATF pode dar melhores resultados em determinado plantel. Por isso, recomendo que se tenha um banco de dados próprios, um software de gestão de IATF”, sinaliza. Ele também testa a fertilidade do sêmen dos touros por lotes e por categoria, um ou dois com histórico conhecido da fazenda e um novo, que ele chama de “aventura”. O material genético desse tipo de animal é negociado com a central de maneira diferenciada, considerando-se eventual devolução, caso o resultado não corresponda ao esperado. Na estação de monta 2019-2020, a Lageado comprou 10.000 doses de um touro jovem Angus, com prova considerada muito boa, mas que, após a inseminação de 800 vacas e avaliação por amostragem de 300 delas um mês após a IATF, acusou taxa de prenhez no ultrassom de apenas 35%, 15 pontos percentuais abaixo da média aceitável. “Suspendi imediatamente o uso do touro”, informa o consultor. Segundo ele, a devolução de sêmen não é incomum, pois a Lageado testa partidas de todo o material que compra (250.000 doses/ano), para garantir que o índice de prenhez não seja afetado por aspectos fisiológicos do sêmen (motilidade, vigor etc). Vilela considera o diagnóstico precoce da prenhez essencial para se corrigir problemas no início da estação de monta e agilizar o processo de ressincronização de cio das fêmeas para a segunda IATF, visando os “bezerros do cedo”. n

Tab 2 - Touros jovens (A e B) garantem maior retorno econômico do que o erado (C) Taxa prenhez 1a IATF (%)

Perdas gestacionais (%)

Peso

Peso

Peso total

Peso total

Total +

Kg a mais

R$ a mais

Touro A

61,3

3,3

278,5

268,3

11.698

11.268

22.967

905

5.568

Touro B

60,3

2,9

270,9

264,1

11.377

11.092

22.469

407

2.508

Touro C

57,8

1,6

267,1

258,2

11.217

10.844

22.061

0

0

Simulação com lote de 100 vacas, 3 protocolos de IATF (touros Angus), considerando total de 84 bezerros desmamados, 42 machos e 42 fêmeas, tendo o touro C como referência (erado) e os touros B e A como “desafio” (jovens). Taxas de prenhez obtidas por ultrassom, 30 dias após a 1a IATF e 64 dias após o término da estação de monta. Peso de 112 bezerros e 122 bezerras ajustado para 240 dias. Fonte: Geraembryo, a partir de dados de fazendas da Agropecuária Loman, Santo Antônio da Platina, PR, fevereiro/2018. Elaboração: DBO

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Pastagens

Controle de plantas infestantes de pastagens – parte 1 Adilson de Paula Almeida Aguiar é zootecnista, professor em cursos de pósgraduação da Rehagro e das Faculdades Associadas de Uberaba (Fazu); consultor associado da Consupec (Consultoria e Planejamento Pecuário), de MG, e investidor nas atividades de pecuária de corte e leite.

D

esde a edição de junho de 2019, eu venho escrevendo com ênfase sobre a necessidade de o pecuarista “fazer o básico bem feito” como fundamento para ele alcançar seus objetivos e metas, mas, principalmente, tornar sua atividade competitiva do ponto de vista econômico. A maioria dos pecuaristas brasileiros, contudo, não tem feito o básico bem feito e uma das consequências dessa atitude é ter suas pastagens infestadas por plantas nativas ou naturalizadas, conhecidas como “invasoras”, ou seja, espécies indesejáveis em uma cultura específica. A definição de invasoras é, até certo ponto, complexa, por causa da dinâmica dos sistemas agropastoris. Por exemplo, forrageiras são desejáveis em pastagens, mas não em lavouras de grãos, canaviais, seringais, reflorestamentos etc. Entretanto, mesmo em explorações pecuárias, uma planta forrageira pode ser classificada como infestante por ser indesejável em determinadas situações, como as gramíneas do gênero Brachiaria sp em campos de produção de feno ou em piquetes formados com gramas do gênero Cynodon sp (Estrela, Coastcross, Tifton) destinadas à alimentação de equinos. Plantas indesejáveis são identificadas não apenas como invasoras, mas também daninhas (ambos termos técnicos), inços (termo regional usado no Sul), juquira (termo regional usado no Norte), capoeira (termo regional empregado no Sudeste e Nordeste) e “pragas” (termo incorreto, porque pragas são insetos e nematóides). Basicamente, elas são classificadas em dois grupos. O primeiro é o das dicotiledôneas ou fabáceas ou

Plantas infestantes podem reduzir a produção de massa forrageira nas pastagens em até 68%

54 DBO março 2021

latifoliadas ou folhas largas, que têm hábitos de crescimento variados e portes indo do herbáceo, subarbustivo e arbustivo até o arbóreo. O segundo grupo é o das monocotiledôneas ou poáceas ou gramíneas, popularmente conhecidas por capins: plantas de folhas estreitas. Causas e prejuízos As causas do aparecimento de plantas infestantes em pastagens são bem conhecidas, pois consistem nos mesmos fatores que levam à degradação dessas áreas e do solo. O papel das plantas infestantes como “indicadoras” da degradação de pastagens é tão evidente que alguns estudos têm tentado caracterizar os vários estádios de produtividade das pastagens com o percentual relativo da biomassa dessas invasoras. Elas estariam correlacionadas, por exemplo, ao plantio de espécies forrageiras não adaptadas às condições climáticas e de solo da região ou estabelecimento incorreto da pastagem, com erros cometidos no preparo do solo, compra de sementes de baixo valor cultural e erros na semeadura. A forte presença de invasoras também pode indicar manejo incorreto da pastagem (superpastejo ou subpastejo); queima frequente; falta de diversificação de espécies, que provoca desenvolvimento rápido de pragas e doenças; cultivo da pastagem em solos com baixa fertilidade natural ou solos antes férteis, mas já esgotados. Todas essas causas levam à diminuição do vigor da pastagem e à abertura de espaços que passam a ser ocupados pelas plantas infestantes. As consequências da presença dessas plantas na pastagem também são bem conhecidas. Elas competem com as forrageiras por fatores de crescimento: na parte aérea, por dióxido de carbono, luz solar e espaço; na parte subterrânea, por água e nutrientes minerais. Muitas infestantes excretam substâncias alelopáticas que inibem ou impedem o crescimento da planta forrageira. As infestantes de folhas largas conferem menor proteção ao solo contra o impacto das chuvas, radiação solar, pisoteio de animais e máquinas, devido aos seus hábitos de crescimento e morfologia de sistema radicular, favorecendo o adensamento e compactação do solo. Em consequência desta competição, ocorre uma redução média de 55% na produção de forragem por ocasião do estabelecimento do capim e entre 38% a 68%, nos pastos já estabelecidos. Mesmo em solos corrigidos e adubados, a presença de plantas infestantes reduz a resposta das forrageiras à adubação. A produção de massa em pastagem sem presença de plantas infestantes é de 21,57% a 66% mais alta do que naquelas com baixo, médio e alto níveis de infestação. Devido à redução na produção forrageira e à impossibilidade de os


animais colherem o capim que está sob ou dentro das moitas de invasoras, principalmente quando estas possuem espinhos, a capacidade de suporte do pasto em unidades animais (UA) por hsa cai significativamente. Efeito sobre o desempenho O desempenho animal é reduzido por causa da menor qualidade da forragem disponível no pasto (empobrecimento de sua composição química, queda de sua digestibilidade e redução de sua disponibilidade), em decorrência da competição das plantas infestantes com as forrageiras por fatores de crescimento. Em consequência da menor capacidade de suporte e do desempenho animal, tem-se redução na produtividade por hectare (arrobas/ha) e redução na receita da atividade. Ao mesmo tempo em que o faturamento da fazenda cai ano a ano, os custos de produção vão aumentando, devido às tentativas de se controlar as plantas infestantes, com frequentes casos de insucessos e frustrações, na maioria das vezes por causa da falta de orientação técnica e adoção de métodos de controle inadequados. Com o passar do tempo, o aumento da presença das plantas infestantes leva à desvalorização do preço da terra acima de 50% do valor do patrimônio. Ainda aparecem consequências indiretas, tais como o ferimento dos animais (olhos, boca, pele, úbere etc) e a perda de animais devido ao consumo de plantas tóxicas. Segundo um trabalho de 2012, coordenado pelo pesquisador Carlos Tokarnia, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e grande especialista em plantas tóxicas (falecido em 2015), o número de animais vitimados pela ingestão desse tipo de planta é alto no Brasil. Quando o País tinha um rebanho de 160 milhões de bovinos, perdia-se anualmente 1,12 milhão de animais intoxicados. As invasoras ainda favorecem a multiplicação de ectoparasitos (berne, carrapato, moscas), que se abrigam na folhagem das plantas infestantes; e dificultam a colheita mecânica de forragem para conservação (ensilagem, fenação etc). Dentre as plantas de folhas largas, as de controle mais difícil são aquelas que alcançam portes subar-

bustivos, arbustivos e arbóreos porque têm características morfofisiológicas que dificultam seu controle, tais como: folhas espessas, impregnadas por ceras e resinas, caules lenhosos (lignificados, duros) com casca suberizada (composta por um tecido morto, a suberina) e raízes muito desenvolvidas em diâmetro e em profundidade, com acúmulo de muitas reservas. Já as plantas infestantes de porte herbáceo têm seu controle facilitado, porque não apresentam estas características. Dentre as plantas de folhas estreitas, ou seja, capins infestantes, as de controle mais difícil são as que produzem grandes quantidades de sementes, que se acumulam no solo e apresentam grande longevidade, ou seja, são capazes de germinar décadas após terem caído no pasto. Para piorar, ainda são plantas pouco aceitas ou recusadas pelos animais, por serem muito fibrosas e/ou secretarem substâncias de baixa aceitabilidade. Na próxima edição, escreverei sobre métodos de controle das plantas infestantes da pastagem – aguarde. n

Pastagem infestada por invasoras de folhas largas (detalhe na foto à esq), cujo controle é mais fácil

Adilson Aguiar em área infestada por invasoras de folhas estreitas, um desafio cada vez maior no Brasil.

DBO

março 2021

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Pastagem

Por que o planejamento forrageiro é importante Ainda pouco usado pelos produtores, ele ajuda a evitar problemas de oferta de pasto e a projetar melhor os investimentos da fazenda Larissa Vieira,

S

Pasto de aveia branca em fazenda do Grupo Koelpe em Jaguariaíva, PR: fartura de comida no inverno

de Uberaba, MG

eu rebanho vai aumentar e, com ele, a necessidade de comida? Esperar para ver como é que fica não é uma prática viável para o Grupo Koelpe, que tem três fazendas na região leste do Paraná, uma delas de seleção da raça Senepol (em Piraí do Sul), outra de cria de cruzados dessa raça com Angus, Murray Grey e Canchim (em Jaguariaíva); e uma terceira de recria/ engorda de cruzados e de venda de touros (em Castro). A meta do grupo é chegar a 1.000 matrizes até 2023, mas sem abrir novas áreas de pastagem. Atualmente, são 700 matrizes (200 Senepol e 500 cruzadas), de um rebanho total de 1.400 cabeças, 350 delas de Senepol puro de origem. Como será um crescimento significativo (mais de 40%), o grupo trabalha com o conceito de planejamento forrageiro, pois precisa garantir pasto de qualidade para todo o rebanho. A zootecnista Gabriela Camargo, coordenadora de pecuária do grupo, informa que houve uma adaptação no projeto inicial e que a opção foi fazer ajustes necessários nas pastagens, reduzindo, no curto prazo, o ritmo de crescimento no número de matrizes. “Com isso, evitamos surpresas desagradáveis na produção e conseguimos obter resultados positivos”, avalia ela. Para atender às particularidades climáticas da região Sul, o planejamento é dividido em dois períodos: um para as pastagens de inverno, que é elaborado no início do verão; outro para as pastagens de verão, feito no início do inverno.

56 DBO março 2021

“Fazemos 100% da cria e recria a pasto; por isso, precisamos garantir a quantidade suficiente de forragem para esses animais. O planejamento forrageiro nos ajuda a controlar a situação e também conseguimos nos programar com o cronograma de serviços das fazendas, para que não fique em atraso nenhuma adubação ou plantio”, assegura. A prática do Grupo Koelpe é aprovada por quem entende do assunto. Mestre e doutora em Ciência Animal e Pastagens, a pesquisadora Patrícia Menezes Santos, da Embrapa Pecuária Sudeste, de São Carlos, SP, explica que o planejamento forrageiro não significa apenas garantir oferta de alimento para o gado o ano inteiro, é também uma ferramenta estratégica de gestão. “Quando o pecuarista não faz o planejamento com antecedência, corre o risco de elevar bastante seus custos de produção. Se faltar comida por causa de uma seca, ou de outro problema, terá de comprá-la no mercado em uma época de preços mais altos ou vender animais por valores não tão interessantes. Assim, ele perde a oportunidade de ter uma atividade mais rentável”, alerta a pesquisadora. Para auxiliar os pecuaristas nessa tarefa, a Embrapa Pecuária Sudeste desenvolveu uma série de vídeos explicativos sobre o tema, com planilhas para ajudar na montagem do planejamento forrageiro(veja link www.embrapa.br/pecuaria-sudeste/videos). Por onde começar O primeiro passo é definir as características do sistema de produção da fazenda, tais como: tipo de animais produzidos, número de cabeças vendidas/compradas no


ano e índices zootécnicos (peso médio da compra, ganho de peso e volumoso utilizado). Se o sistema for de cria, nascimentos e mortes. A etapa seguinte é desenvolver uma tabela de evolução do rebanho e estimar a demanda de forragem. Aqui, entram dados das categorias animais (descritas por peso ou idade, em meses), o rebanho inicial e as ocorrências mês a mês. Essas ocorrências podem ser saídas de animais (morte, evolução para outra categoria, venda) ou entradas (nascimento, compra e evolução). É preciso sempre somar a quantidade do mês anterior com a do mês em curso. Por exemplo: se a fazenda comprou 50 animais em maio e outros 50 em junho, deve colocar a quantidade de 100 animais em junho, representando o rebanho naquele período. Para calcular a demanda por alimentos, o pecuarista pode utilizar modelos matemáticos para estimar o consumo de matéria seca dos animais ou o conceito de unidade animal (UA, 450 kg). Patrícia Menezes considera o cálculo utilizando UAs mais simples e de bom resultado para sistemas exclusivamente a pasto. “Sabendo o número de cabeças e o peso médio de cada categoria, o pecuarista consegue estimar o número de UAs que precisará alimentar ao longo do período de planejamento”, explica a pesquisadora. Calculando a lotação A partir desses dados, é possível montar uma tabela de composição do rebanho em UAs, separada por categorias e meses do ano, especificando o total no pasto e no confinamento (no caso de sistema de engorda). Esses dados possibilitam estimar o rebanho médio do pasto no verão e no inverno. Nas planilhas oferecidas pela Embrapa, é possível calcular a taxa de lotação em UAs no inverno, no verão e no confinamento. Esse planejamento também pode ser feito considerando-se o estoque inicial de forragem, a taxa de acúmulo mês a mês e a variação mensal do estoque total da propriedade. Mas isso exige maior conhecimento de características de produção da região e maior habilidade para lidar com os cálculos na planilha. O último passo é montar uma tabela para determinar os setores de produção de forragem da propriedade e, assim, atender à demanda por alimentos projetada. O pecuarista deve especificar cada setor. Por exemplo: pasto extensivo; pasto diferido com adubo ou sem adubo e momento da vedação; pasto adubado (separado de acor-

do com o nível de nitrogênio utilizado), confinamento, se houver. Deve incluir na planilha, também, a lotação total a pasto (em UAs), meta a pasto, lotação total no confinamento (também em UAs) e a meta do confinamento, além da área total a ser utilizada. Para cada um desses setores, deve informar a área e a taxa de lotação, tanto no inverno quanto no verão. Forrageiras em aplicativo Todos os dados citados acima são importantes, mas na hora de montar o planejamento é preciso conhecer as características climáticas da região e os impactos sobre o desenvolvimento do capim, visando reduzir os riscos do período de seca. “Na escolha da cultivar, o produtor pode utilizar o aplicativo ‘Pasto Certo’, desenvolvido pela Embrapa”, sugere Patrícia. Nos municípios de Piraí do Sul, Jaguariaíva e Castro, onde estão as fazendas do Grupo Koelpe, o clima permite estabelecer ótimas pastagens de inverno, com adubação de base e, se necessário, aplicação de ureia (já usada na formação das pastagens de verão). Quanto às forrageiras, são bem variadas, mas escolhidas conforme as características da região. Gabriela Camargo informa que, no inverno, são estabelecidas, em todas as fazendas, pastagens de aveia branca (IPR Esmeralda e IPR Suprema) e azevém. No verão, as fazendas de cria contam com as braquiárias ruziziensis, piatã, MG 5 Vitória, MG 12 Paredão, hermártria e pasto nativo. Na de propriedade de recria, braquiária ruziziensis, festuca e quicuio. “Ali, o planejamento forrageiro ainda leva em consideração a área de integração lavoura-pecuária, que consorcia pastagem com soja e milho. Uma pequena parte do milho é usada para produção de silagem, assim como resíduos do secador (quirera)”, conta a coordenadora de Pecuária do Grupo Koelpe. A produção de silagem de milho também é prevista no planejamento e visa atender principalmente o confinamento. Patrícia Menezes, da Embrapa, ensina que o “pulo do gato” é realmente combinar as muitas alternativas tecnológicas existentes atualmente para se ter sucesso na produção de forragem e de outros alimentos. Segundo ela, é preciso definir quais opções são as mais adequadas para a propriedade; depois, combina-se estas alternativas com a demanda de alimentos projetada para o ano todo. “Sem atropelo, sem sufoco. E não se deve esquecer de revisar sempre o planejamento, ajustando-o conforme a necessidade”, finaliza a pesquisadora. n

Na foto da esquerda, matrizes cruzadas em pasto de braquiária ruziziensis; acima, touros Senepol puros em pasto de azevém.

Com planejamento, atividade fica mais rentável” Patrícia Menezes, pesquisadora da Embrapa Pecuária Sudeste

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Nutrição

Os 10 mandamentos da boa suplementação Matheus Moretti é zootecnista e gestor técnico de bovinos de corte na Agroceres Multimix

N

a “cesta” de tecnologias que garantem ganhos de produtividade, certamente a nutrição tem lugar de destaque, tanto para intensificação da cria quanto da recria/engorda. Para obter bons resultados, contudo, é preciso avaliar e definir a estratégia de suplementação adequada à realidade de cada fazenda, além de saber implementá-la, ajustá-la e monitorá-la, para tudo o que foi planejado saia de fato do papel e aconteça na prática. Seguindo o ciclo PDCA (sigla de Plan, planejar; Do, executar, Check, checar e Act, agir), ferramenta de gestão de grande utilidade, é possível listar 10 mandamentos para uma boa suplementação:

1. Suplemente com base em metas

Primeiro é preciso planejar. Defina qual resultado anual você deseja obter por ha (lucro e margem) e escolha uma estratégia nutricional para atingir essa meta. Busque referências sobre o ganho médio diário (GMD) esperado para aquela estratégia e veja se ela suporta a meta estabelecida. Procure adotar planos nutricionais crescentes.

2. Planeje o fluxo de caixa

Cada estratégia nutricional tem uma necessidade de caixa (em R$/cabeça/mês). Não se esqueça de avaliar se o desembolso proposto está ajustado ao orçamento com nutrição. Defina um percentual do custo cabeça/dia que poderá ser atribuído à suplementação (por exemplo: 20% a 30% da diária do animal).

3. A juste o suplemento à qualidade do pasto

Lembre-se de que a composição da forragem muda ao longo do ano e isso demanda ajustes na formulação do suplemento, principalmente em relação à quantidade e perfil de proteína da fórmula. Pasto seco irá demandar mais proteína na formulação do que pasto de águas.

4. Utilize aditivos promotores

Já existem inúmeros estudos apontando o incremento do GMD com o uso de aditivos promotores (monensina, salinomicina, flavomicina, virginiamicina, dentre outros). Estas moléculas em uso combinado ao suplemento apresentam efeito sinérgico, onde, 1+1 é maior do que 2.

5. E stabeleça uma rotina de fornecimento

Concluído o planejamento, capriche na execução, estabelecendo uma rotina correta de fornecimento. Se usar suplemento com regulador de consumo (reposição de duas a três vezes por semana), não deixe faltar produto no cocho. Se o suplemento for de distribuição diária, faça o trato sempre no mesmo horário. Caso se trate de produto de alto consumo, escolha dos horários mais quentes do dia.

6. Garanta o espaçamento de cocho correto

Certifique-se de que você está usando o espaçamento de cocho correto para a estratégia nutricional escolhida. De nada adianta “dar comida” aos animais se eles não tiverem acesso ao “prato”. Quando se fornece suplemento de maior consumo (trato diário), que os bovinos ingerem imediatamente após sua distribuição, é preciso garantir acesso de todos os indivíduos do lote ao cocho, simultaneamente. Na prática, se o número de animais de cada lado do cocho for semelhante, está quase faltando espaço. Normalmente, no caso de suplementos de menor consumo, trabalha-se com 8 a 10 cab/metro de cocho e, nos de maior consumo, com 4 a 5 animais.

7. M onitore o consumo dos animais

Definidos os parâmetros de realização do trato, é fundamental estabelecer um protocolo de checagem de consumo do suplemento, para avaliar se este está de acordo com a meta. Caso foque acima ou abaixo, reveja a formulação para ajustar os níveis nutricionais.

8. Avalie o escore de fezes

Assim como no confinamento, o escore de fezes é uma forma indireta de avaliar o processo de fermentação no rúmen do animal. Fezes muito secas ou aneladas são um alerta de que o rúmen não está funcionando bem e o suplemento está desbalanceado.

9. V erifique se GMD foi igual ao planejado

Ao final de etapa, pese os animais para aferição do GMD e compare-o com a meta proposta. Busque aprender com os erros (GMD abaixo da meta) e acertos (GMD acima). Questione-se sobre o porquê das coisas e defina ações corretivas para o próximo ciclo produtivo (4ª etapa do PDCA), visando melhoria contínua.

10. Lembre-se, a base do sistema é o pasto

O suplemento deve apenas complementar o que falta na pastagem. A premissa básica de um bom programa de suplementação é potencializar os processos fermentativos no rúmen e o consumo de forragem pelo animal. Nunca se esqueça: o sucesso da boa nutrição mora no pasto. n 58 DBO março 2021



Manejo

Vida de guacho Bezerro órfão ou rejeitado pela mãe precisa de tratamento especial. Veja como fazer o primeiro atendimento e estratagédias para criação. ção especial nos primeiros meses de vida, mas acabaram crescendo fortes e desenvoltos. Essa história ilustra a importância do cuidado com os guachos, não apenas para reduzir o índice de mortalidade na fazenda, mas também para garantir o bom desempenho desses animais. O termo “guacho” frequentemente é usado como sinônimo de animal fraco, mirrado, fundo de boiada, porque muitas fazendas não lhe dão tratamento correto na “infância”, com reflexos negativos sobre sua “adolescência” (recria) e vida adulta. “Se o bezerro não tiver bom desenvolvimento ósseo nos primeiros dois a três meses de vida, dificilmente será bom ganhador de peso ou fornecerá carcaça de qualidade. Ele se transforamará em um ‘boi bolinha’, que engorda, mas não cresce”, explica Enrico Ortolani, professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP), e colunista de DBO.

Theo e Biné brincando com Juninho, cachorro da Fazenda Estrela do Sul. Os dois bezerros foram criados na mamadeira, sempre juntos, e se tornaram inseparáveis.

Renato Villela

“A

renato.villela@revistadbo.com.br

cena foi mesmo inusitada”, conta a produtora Maria Ester Fava (a Teia), proprietária da Fazenda Estrela do Sul, em General Carneiro, MT. “Os vaqueiros estavam conduzindo um lote de animais desmamados recém-vendidos, para embarcá-los no curral, e, no meio deles, estava um bezerro Nelore chamado Theo, bonito e forte, filho de vaca e touro PO, que o cliente selecionara a dedo. Enquanto o grupo caminhava pelo corredor, outro bezerro Nelore, contemporâneo de Theo, mas sem a mesma estirpe genealógica, refugado na venda por um defeito no quarto traseiro, começou a apertar o passo no piquete ao lado. Parecendo angustiado, começou a berrar, como se quisesse chamar a atenção do companheiro e impedir sua partida. Ao ver aquela cena, meu marido se comoveu e não deixou o Theo ser vendido. Me convenceu a colocar outro tourinho em seu lugar”, relata Teia. Essa história comovente é mais comum do que se pensa e faz parte da “vida dos guachos”, como são chamados os bezerros órfãos ou abandonados pela mãe. Theo e Biné eram “irmãos de criação”, mantidos juntos desde o nascimento, alimentados na mamadeira, o que acabou gerando laços afetivos entre eles. Theo foi rejeitado após a parição e Biné, preterido em favor do irmão gêmeo. Sem os cuidados maternos, necessitaram de aten-

60 DBO março 2021

Atendimento inicial Que cuidados, porém, são esses? Que fazer quando um bezerro fica órfão ou é abandonado pela mãe? “A primeira providência é recolhê-lo do pasto. Se ele estiver desidratado, aplique soro fisiológico contendo vitaminas, principalmente A, D e E. Caso seja recém-nascido e tenha sido rejeitado logo após a parição, tente levar a mãe para o mangueiro e prendê-la para que o bezerro mame o colostro”, orienta Ortolani. A ingestão desse primeiro leite é fundamental para garantir a imunidade do recém-nascido. Se isso não for possível, tente encontrar esse alimento em outro lugar. “O ideal é que o produtor tenha um banco de colostro na fazenda. Como última opção, pode-se fornecer colostro em pó”, recomenda Fernanda Macitelli, professora da Universidade Federal de Mato Grosso. Dica importante: quando fizer um banco de colostro, lembre-se de armazenar a primeira retirada. “O nível de imunoglobulinas (tipo de anticorpos) do colostro cai à medida em que a vaca vai sendo ordenhada”, explica Ortolani. Sua administração requer bastante atenção, a começar pelo descongelamento. O ideal é o colostro ser fornecido à temperatura de 37o C, que pode ser medida com ajuda de um termômetro. Na ausência desse aparelho, use o tato. “Temperaturas acima de 50o C podem destruir os anticorpos contidos no colostro, além de queimar a língua do bezerro. Muito gelado, o líquido provoca danos ao aparelho digestivo do animal”, salienta Ortolani. Forneça o colostro (e, posteriormente, também o leite, se necessário) em mamadeiras. Mas, atenção! Não


“Vestir” o guacho com o couro de um bezerro morto facilita sua adoção pela vaca que perdeu o filho

deixe o furo do bico muito largo. “Geralmente isso é feito para que o bezerro mame rapidamente, mas é um erro, pois se o fluxo for maior do que a capacidade de deglutição do animal, o leite pode ir parar em seu pulmão e causar pneumonia”, alerta Fernanda. A cabeça do bezerro deve estar voltada para cima, na mesma inclinação que ele mama na mãe. “Assim a goteira esofágica será formada e o leite irá direto para o abomaso, que é o estômago verdadeiro, onde se inicia a digestão”, explica a professora. Mamar de cabeça abaixada não é recomendado, principalmente se o bezerro for muito novo, pois tal posição não favorece a formação da goteira esofágica. “Sem ela, o leite cai diretamente no rúmen, o que pode causar putrefação, pois o bezerrinho ainda não tem as bactérias necessárias para digerir esse alimento”, explica Ortolani. Um alerta: é muito comum os produtores darem leite misturado com ovos para os guachos. Isso não é recomendado. “O ovo tem muitas imunoglobulinas, porém específicas para o sistema imune dos pintinhos. Trata-se de um alimento rico em proteína e energia, mas que não confere imunidade aos bezerros, ou seja, não substitui o colostro”, esclarece Fernanda. Além de alimentar o recém-nascido órfão ou abandonado, não se esqueça de curar seu umbigo e aplicar os medicamentos indicados no protocolo sanitário da fazenda. Santas guaxeiras Realizados os primeiros socorros, é necessário decidir como o guacho será criado. Nos casos de abandono, ainda cabe uma última tentativa, especialmente se forem novilhas de primeira cria. A veterinária Cíntia Oliveira, da Precoce Reprodução Animal, de Barra do Garças, MT, explica que, além da insegurança e imaturidade, é muito comum que essas mães de primeira viagem experimentem uma sensibilidade maior nas glândulas mamárias, especialmente se os tetos estiverem cheios após a parição, o que traz desconforto ao ama-

mentar, daí a rejeição da cria. “O recomendado é que o vaqueiro, após o bezerro mamar, esgote o leite dos tetos para diminuir essa sensibilidade”, afirma. Se o abandono do animal for consumado, o produtor deve, preferencialmente, tentar “amadrinhá-lo”, ou seja, encontrar uma vaca disposta a acolhê-lo. É o que Teia faz na Fazenda Estrela do Sul. Quando tem algum animal órfão ou rejeitado primeiro se recorre às “amas de leite” ou “santas guacheiras”, como prefere chamá-las. A produtora usa quatro a cinco vacas produtoras de leite (destinado ao consumo doméstico) para desempenhar essa função. “Sempre tentamos colocar os bezerros para mamar nessas matrizes. Se elas aceitam, nem os trazemos de volta”, diz Teia. “Não é difícil encontrar guacheiras que criam dois ou três bezerros. O importante na escolha é que essas vacas sejam boas produtoras de leite”, lembra a veterinária Cíntia. E se o produtor não dispuser de vacas leiteiras na fazenda? A saída, neste caso, pode estar dentro de seu próprio plantel. Mas é preciso prestar atenção no comportamento dos animais para identificar as fêmeas com vocação para guacheira. Quando as matrizes Nelore da Fazenda Estrela do Sul (hoje um total de 650) estão amamentando seus bezerros, Teia observa o comportamento das crias, de olho nos “bezerros la-

Como evitar guachos na fazenda 1. A pós o parto, deixe a mãe cheirar e lamber o bezerro, reconhecendo-o como sua cria e criando um vínculo materno-filial. Isso deve ocorre enquanto o hormônio ocitocina [o hormônio do amor] está alto. 2. Se o parto não for distócico, o vínculo materno-filial estará criado em seis horas. Pegar o bezerro que acabou de nascer para curar seu umbigo é um grande erro, pois atrapalha esse processo. Os animais nascidos de manhã devem receber os cuidados à tarde e os nascidos à tarde, no outro dia pela manhã. 3. Visite o pasto maternidade pelo menos uma vez por dia. Ao constatar que um bezerro não mamou, tente auxiliá-lo. Se não conseguir, leve a dupla para um piquete de fácil acesso ou para o curral, onde se possa retirar o colostro da vaca para fornecimento na mamadeira ao bezerro. É fundamental que ele comece a mamar de duas a cinco horas após o nascimento e mame por 10 a 15 minutos. 4. Se possível, mantenha as novilhas apartadas das vacas, porque seus bezerros demoram mais para ficar de pé e mamar. A porcentagem de novilhas que deixam outra fêmea tocar suas crias é maior, o que pode atrapalhar a criação do vínculo materno-filial. Novilhas também podem sentir mais dor ao amamentar pela primeira vez, aumentando a chance de rejeição. Se estiverem separadas e em lotes menores (60 a 100 cabeças), o materneiro pode observá-las melhor. 5. Fêmeas com baixo escore corporal tendem a produzir mais bezerros guachos, então capriche no manejo nutricional. 6. Seleção genética de fêmeas para habilidade materna e apresentação de bom aparelho mamário (tetos finos) também é essencial.

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Manejo Quando não se consegue uma vaca para adotar o bezerro, o jeito é criá-lo na mamadeira

drões”, aqueles que mamam em outra vaca, além de sua mãe. Ao flagrá-los, a produtora identifica a matriz e anota o número do brinco. “Geralmente essa vaca é mais mansa e aceita um segundo bezerro. Então, é nela que colocamos o guacho, na expectativa de que seja amadrinhado”, conta. Mesmo se o produtor não descobrir uma mãe com esse perfil no plantel, ainda assim existem estratégias que auxiliam na adoção dos guachos, como descrito a seguir. Cheiro de filho O materneiro João Maria Pereira da Silva, da Fazenda Agrícola Ana, no município de Martinópolis, próximo a Presidente Prudente, no oeste paulista, perdeu as contas de quantos guachos já cuidou na vida. Com mais de 20 anos de experiência lidando com cria, não lhe faltam métodos para conseguir que uma vaca adote um guacho. Uma delas é fazer com que uma fêmea com cria ao pé desempenhe esse papel. Funciona assim: os dois bezerros (o filho natural e o futuro adotivo) são mantidos juntos em um cercado dentro do piquete, em contato visual com a mãe, mas apartados dela. Duas vezes ao dia, de O ideal é ter manhã e à tarde, seu João solta os animais para mamar. um banco de “Depois de dois a três dias, a vaca já está acostumada colostro na com o guacho e eles podem ser soltos no pasto”, conta. fazenda” Outro estratagema é esfregar no pelo do guacho os restos placentários de uma matriz recém-parida. “Tem Fernanda Macitelli, de passar na cabeça, porque é onde a vaca gosta de professora da cheirar o bezerro”, ensina. A estratégia já foi empregaUniversidade da com sucesso diversas vezes por Evandro Marques Federal do Mato da Silva, da Fazenda Tarumã, em Redenção, PA. AtaGrosso refado com a estação de monta da propriedade, onde 18.000 matrizes estão sendo inseminadas nesta estação, o materneiro encontrou um tempinho para conversar com DBO e explicar a técnica. “Com uma luva para procedimentos, ele coloca um punhado de sal nas mãos, retira o muco vaginal da vaca parida e passa no guacho. É raro não dar certo”, garante. O sal funciona como palatabilizante, estimulando a fêmea a lamber o bezerro. O olfato é um dos sentidos mais importantes na identificação entre mãe e cria. Quando uma vaca perde um be62 DBO março 2021

A melhor opção é encontrar uma vaca do próprio rebanho que aceite o bezerro órfão ou rejeitado

zerro, por exemplo, um dos recursos usados nas fazendas é retirar o couro do animal morto e usá-lo para “vestir” o guacho. Em artigo publicado na DBO em dezembro de 2016, o professor Ortolani deu dicas a respeito. “Lave o dorso e o costado do órfão ou rejeitado com água e detergente para eliminar seu cheiro natural. Em seguida, retire a pele do bezerro morto até o rabo e recubra o guacho. Caso não consiga, esfregue o couro no dele para impregná-lo com o novo cheiro”, escreveu. Mamadeira, última opção Quando nenhuma das estratégias de adoção mencionadas dão certo, o jeito é recorrer à mamadeira. “Isso dá trabalho. Não pode ter preguiça”, avisa o materneiro João Maria. Preguiça foi o que não teve Leonice Maria de Jesus, esposa de um dos funcionários da Fazenda Lírio do Vale, em Nova Andradina, MS. No início do ano passado, uma descarga elétrica matou 14 animais da propriedade, deixando 12 bezerros órfãos. Para não perder animais, o proprietário da fazenda, Antônio Roberto Alves Correa, fez uma proposta a Leonice: “Cuide bem dos bezerros que, de cada seis desmamados, um será seu”. Dona Nice, como é mais conhecida, topou a empreitada. Seguindo à risca a recomendação de fracionar o fornecimento de leite, dividiu o volume diário em três vezes. “Dava 1,5 litro de manhã, 1 litro na hora do almoço e mais 1 litro no período da tarde”, conta. Os bezerros, que na época estavam com dois meses, também já comiam ração. Com seis meses de idade, todos desmamaram. “Quando são tratados na mamadeira, os bezerros crescem mansos e carinhosos com a gente”, diz. Não é difícil constatar que a proximidade gera comportamento mais dócil. Dona Nice vive abraçada à “Menina”, uma das novilhas que ela criou na mamadeira e é mansa como um bichinho de estimação. n



Saúde Animal

Isolando o carrapato Embrapa apresenta o Lone Tick, sistema de manejo de pasto que promete reduzir infestações da praga para níveis não danosos, sem controle químico.

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Lote de animais Senepol usado para testagem do sistema Lone Tick, para controle do carrapato sem uso de acaricidas.

Ariosto Mesquita

m modelo de controle do carrapato do boi (Rhipicephalus microplus) sem o uso de carrapaticidas, que chegou a ser anunciado em 2016, foi finalmente testado e validado pela Embrapa, entre 2019 e 2020. O anúncio oficial foi feito no último mês de fevereiro. Batizado originalmente como Sistema Lone Tick (carrapato solitário, na tradução para o português), o método é baseado exclusivamente no manejo de pastagens, por meio de um esquema de pastejo rotacionado planejado para se contrapor ao ciclo parasitário da praga. Assim, quando as larvas do aracnídeo, presentes no capim, estiverem prontas para subir nos hospedeiros (bovinos), estes já terão trocado de piquete. Ao final do giro, quando os animais retornarem ao pasto inicial, encontrarão uma população mínima de carrapatos, pois grande parte já terá finalizado seu ciclo de vida. Essa alternativa sustentável de controle ganha importância quando se avalia o impacto econômico negativo que o carrapato provoca na pecuária brasileira. Estimativa feita em 2013, durante um evento internacional sobre o parasita, realizado pela Embrapa Gado de Corte (Campo Grande, MS), indicava um prejuízo anual da ordem de US$ 3,2 bilhões, considerando-se, dentre outras coisas, perdas de peso individuais, queda na produção de leite e no rendimento da carcaça, uso de medicamentos, definhamento do rebanho e mortes, sobretudo provocadas pela tristeza parasitária bovina (TPB), um complexo de doenças transmitidas pelo carrapato.

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A avaliação do sistema Lone Tick foi realizada em uma área de 32 hectares (ha) do setor de sanidade animal da Embrapa Gado de Corte, dividida em quatro piquetes de oito ha cada, formados com Marandu e tendo um bebedouro ao centro, comum aos quatro piquetes. O trabalho foi conduzido entre outubro de 2019 e setembro de 2020, pelo pesquisador, Renato Andreotti, que há 21 anos estuda formas de minimizar o impacto da praga na pecuária brasileira. Ele usou 37 animais da raça Senepol, todos desmamados, machos castrados e com infestação natural de carrapato. Durante o período, eles receberam sal mineral à vontade. A taxa de lotação foi de 0,83 UA/ha. Teste em taurinos “Escolhemos o Senepol por alguns motivos. Em primeiro lugar, trata-se de um gado taurino suscetível à praga. Estudos anteriores constataram média de infestação de 300 carrapatos por bovino. No Nelore, este número é de 10”, explica Andreotti. “O segundo motivo é que tínhamos esses animais disponíveis no rebanho da Embrapa. O terceiro motivo é que, em 2017, apresentei uma palestra durante o 1º Seminário Técnico Internacional do Senepol, realizado em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, e notei que muitos produtores não tinham a percepção de que o carrapato é um problema para a raça”, acrescenta. Durante o período de avaliação do sistema, foram feitas contagens de carrapatos nos animais a cada 28 dias, constatando-se média de 10 indivíduos por bovino. Esse número, segundo Andreotti, ficou bem ao nível de infestações em animais Nelore (menos sensíveis à praga), portanto insuficiente para provocar queda de desempenho, dano sanitário e/ou econômico. “Nestes níveis, a população de carrapatos ainda funciona como uma espécie de vacina. Portanto, a baixa infestação não espolia, não causa prejuízo econômico e oferece um grau de imunidade ao animal, ao mesmo tempo que elimina o risco à TPB”, observa o cientista. A opção por um modelo sem uso de defensivos é justificada, segundo ele, pela gradual perda de eficiência dos acaricidas: “O controle estratégico, que envolve o uso de compostos químicos, se mostra esgotado, em função do comprovado desenvolvimento de resistência por parte do carrapato. Além disso, o uso desses produtos sem orientação técnica adequada, como vem ocorrendo, é uma séria ameaça ambiental”.


Carrapatas adultas depositando ovos, que viram larvas e migram para as folhas do capim, de onde passam para os bovinos. Proposta é quebrar esse ciclo.

Como funciona o Lone Tick Para “quebrar” o ciclo reprodutivo do carrapato, Andreotti trabalhou (no módulo de quatro piquetes), com 28 dias de ocupação por pasto, o que possibilitou aos animais retornarem ao primeiro piquete pastejado somente após 84 dias, intervalo superior à média de vida das larvas, que, segundo Andreotti, é de 82 dias. Durante a recria (327,5 dias), os animais Senepol ganharam 425g/cab/dia (peso médio de 190,8 kg na entrada e 330 kg na saída). “Neste modelo que propomos, a larva fica sozinha, longe do hospedeiro, sem conseguir acompanhá-lo. Por isso, chamamos o sistema de carrapato solitário ou lone tick na expressão em inglês. Em 2016, já projetávamos este trabalho e os números confirmaram o que já prevíamos”. Andreotti se refere ao documento 214 da Embrapa – “Proposta de controle de carrapatos para o Brasil Central em sistemas de produção de bovinos associados ao manejo nutricional no campo”, datado de setembro de 2016. Nele, consta a metodologia que serviu de base ao experimento três anos depois, melhor detalhada no subtítulo “Proposta de manejo intensivo da pastagem com controle de carrapato”. O documento também apresenta informações sobre a influência do Line Tick na pastagem. Andreotti admite que, devido ao período mais longo de descanso por piquete, a forragem perde um pouco de qualidade nutricional, mas o produtor avança na guerra contra o carrapato. “É preciso avaliar cada contexto”, diz o pesquisador, acrescentando que o sistema pode ser usado de forma estratégica, visando à redução da população do parasita (veja mais informações em http://old.cnpgc.embrapa.br/publicacoes/doc/ DOC214.PDF). A escolha de animais de recria para testagem do Line Tick baseou-se em referências científicas. “Existem estudos com animais Brangus a campo que mostram uma alta carga de carrapato em bezerros em início de recria. Isso acontece por vários aspectos gerados no desmame, como o estresse pela separação da mãe e por disponibilidade de comida ainda baixa para essa categoria, uma vez que, na entrada das águas, quando geralmente aumenta a população de carrapatos, os pastos ainda estão secos”, explica o pesquisador.

Andreotti prefere não indicar, pelo menos por enquanto, a possibilidade de replicar o modelo em outras condições e sistemas de produção. “Futuramente, poderá ser ajustado para a pecuária leiteira, por exemplo, mas este estudo que finalizamos recomenda o controle em animais da raça Senepol, na fase de recria a pasto e no bioma Cerrado”, avisa. Desafio com o Angus Após o final desta avaliação, o pesquisador da Embrapa iniciou (em outubro de 2020) o mesmo teste com animais puro sangue Angus. O objetivo é aumentar o nível de desafio do controle através do manejo de pasto. “São bovinos pelo menos duas vezes mais sensíveis ao carrapato do que o Senepol”, sinaliza. Este experimento reúne 40 animais e a previsão é de que ele seja concluído em setembro deste ano com a apresentação dos resultados em novembro. Os primeiros números já deixaram Andreotti animado. Segundo ele, até o dia 15 de fevereiro, o animal que mais registrou carga parasitária somou 20 carrapatos. De acordo com o pesquisador, a validação deste sistema de controle do carrapato por meio do manejo de pasto, e sem carrapaticidas, foi motivada pela crescente adoção do cruzamento industrial do Nelore com raças europeias no Brasil Central. “Converso muito com quem trabalha com Angus e a informação é de que a venda de sêmen da raça no Brasil ultrapassou 5 milhões de doses/ano. Portanto, há um incremento muito forte na reprodução de animais com sangue europeu e eles são sensíveis à praga. E quem trabalhar com raças geneticamente mais produtivas, e não se cuidar, vai virar produtor de carrapato”. Outra vantagem que Andreotti vê no sistema Lone Tick é sua característica sustentável: “Caso a gente consiga aumentar a produtividade no Cerrado – não só contendo o carrapato, mas também adotando outras práticas como, a reforma de pastagens, por exemplo – poderemos fortalecer a pecuária no bioma e diminuir a pressão sobre a Amazônia. Uma lógica de produção sustentável tende a agregar mais valor à carne brasileira, aumentando a rentabilidade do produtor”. n

´Sistema foi validado, por enquanto, somente para a raça Senepol, em animais de recria, mantidos a pasto na região de Cerrado” Renato Andreotti, pesquisador da Embrapa Gado de Corte

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Fatos & Causos Veterinários

Enrico Ortolani

Raiva: um pouco de sua história

Professor titular de Clínica de Ruminantes da FMVZ-USP ortolani@usp.br

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m dos assuntos mais intrigantes com os quais me deparei em minha carreira foi a relação parasito-hospedeiro, sendo considerado parasita quaisquer agentes infecciosos ou parasitários que agridam os animais. O parasita ideal é aquele que se nutre ou usa o hospedeiro para sua sobrevivência, sem matá-lo. Hoje, com as técnicas moleculares, sabe-se mais precisamente quando tem início o ataque dos parasitas aos animais. Aparentemente, quanto mais velha é essa relação mais esperto vai ficando o parasita na arte de parasitar sem matar; já relações novas tendem a ser catastróficas para o hospedeiro, vide o novo coronavírus para o homem. O protozoário Cryptosporidium, importante causador de diarreia na bezerrada, parasita estes animais há pelo menos 500.000 anos e raramente os mata. Já o vírus da raiva acomete os bovinos há cerca de 8.000 anos e até hoje os massacram sem piedade, por continuar a ser muito agressivo, deixando de aproveitar o máximo do hospedeiro. Estudos recentes indicam que a história da transmissão do vírus rábico é peculiar. Nos primórdios ele parasitava, sem grandes problemas, certos insetos. Daí o vírus passou para os morcegos insetívoros, cujo prato principal eram esses “saborosos artrópodes” infectados com o vírus rábico. Na Ásia e na Europa, esses morcegos passaram a infectar cães, que transmitiram o patógeno para animais silvestres, como raposas, lobos e ocasionalmente gatos. Bovinos entravam na lista quando eram mordidos por animais silvestres raivosos. A primeira descrição de raiva em humanos ocorreu na Babilônia, hoje pertencente ao Iraque, no tradicional “Código de Hamurabi”, há 2.300 anos antes de Cristo. O Código dizia que os transmissores ao homem eram os cães loucos e que os donos destes deveriam indenizar a família das vítimas.

A saliva do morcego hematófago contém uma substância anestésica que diminui a dor na hora da mordida e um anticoagulante para que possa sugar o sangue com mais facilidade

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A história da raiva para os bovinos da América Latina é outra. Os morcegos insetívoros e frugívoros convivem, há milênios, nas mesmas cavernas com seus primos morcegos hematófagos (hemato= sangue; fagos = ingerir, comer), que só existem na América Latina e algumas ilhas do Caribe. Os insetívoros e frugívoros albergam mais vírus rábico que os hematófagos. Acredita-se que os morcegos não-hematófagos transmitem o vírus rábico aos hematófagos pelo ar ou por mordidas. Nos primórdios não existia o “santo” boi nas Américas, que foi trazido pelos colonizadores no século XVI. Mas, naquele século foi descrita uma doença nervosa em bovinos, na Guatemala, que só em 1945 foi identificada como raiva. Raiva no Brasil O primeiro diagnóstico confirmado de raiva em bovinos na América Latina ocorreu no Brasil e sua história merece ser contada. Entre 1906 e 1910 surgiu uma doença misteriosa, na região de Blumenau (SC), que dizimou cerca de 4.000 bovinos e 1.000 equinos. Os animais bambeavam as cadeiras, caíam e ficavam deprimidos até a morte. Frente à grave epizootia (epi = sobre; zootia = animais), que é como se chama a epidemia em animais, o governo federal mandou veterinários militares cariocas para avaliar o problema. Eles concluíram, erroneamente, que se tratava de “peste bovina”, que nunca tinha ocorrido em nosso continente. Foi um auê, pois essa peste não ataca cavalos e os sintomas são bem outros. Curiosamente, os especialistas fardados mandaram sacrificar todos os cães da região, mais de 3.500, providência que foi seguida à risca. Mesmo assim, as mortes cresciam em número. Todos estavam perdidos num mato, literalmente, sem cachorro! Frente à continuidade da epizootia, em 1910 a Se-


Os morcegos têm maior resistência ao vírus da raiva, mas também podem morrer dessa doença. Seu principal habitat são cavernas, galerias e locais escuros.

cretaria de Agricultura de São Paulo mandou Antônio Carini estudar o caso catarinense. Ele era médico e trabalhava no Instituto Pasteur, especializado em raiva humana. Atento aos constantes comentários dos caboclos locais, Carini confirmou que os doentes eram sempre atacados anteriormente por morcegos hematófagos. Ele também achou, no cérebro dos bois e cavalos doentes, os chamados corpúsculos de Negri, que só aparecem em casos de raiva. Corajoso e audacioso, Carini escreveu um trabalho, publicado em revista francesa especializada, descrevendo os casos e os relacionando pela primeira vez ao ataque de morcegos hematófagos, visto que, na região, a presença de cães raivosos era rara, principalmente depois da mortandade generalizada da população canina regional. Complexo de vira-lata Embora o artigo fosse aceito para publicação, os especialistas europeus classificaram o relato como um tipo de “fantasia ou delírio tropical”, pois a “ciência” acreditava na época que só o cão ou alguns animais silvestres e o gato pudessem transmitir a raiva, jamais um morcego. Hematófago ainda, nem pensar. Aí entra o complexo do cachorro vira-lata, descrito pelo jornalista Nelson Rodrigues, para expressar o desprezo que temos por nós mesmos. Dois anos depois, o governo de Santa Catarina contratou dois veterinários alemães, Haupt e Rehaag, para estudar melhor o assunto. Os dois pesquisadores teutônicos confirmaram o diagnóstico de Carini e verificaram também a presença de corpúsculos de Negri em morcegos hematófagos capturados, matando a cobra e mostrando o pau. Bem, isso confirma a premissa que já existia e existe, em abundância, vida inteligente abaixo da linha do equador, contrariando presunções de alguns malucos europeus e norte-americanos da época, que se achavam superiores. Ou seja, temos de confiar mais em nosso taco! Em tempo, os morcegos, além de transmitir a raiva, podem também morrer desta doença, só que a capacidade de resistência à enfermidade deles é maior, podendo assim disseminar o vírus para mais

animais. Descobriu-se ainda que o vírus rábico nos morcegos, diferentemente de todos os outros animais, não precisa do sistema nervoso para se multiplicar, se proliferar nos tecidos da pele. Ou seja, o morcego pode infectar o homem e outros animais sem estar doente de raiva. Ataques a humanos Tem aumentado em nosso meio o número de casos humanos oriundos de mordidas de morcegos, boa parte deles não hematófagos. Por sinal, um grande estudo paulista (4.400 morcegos) identificou que o vírus rábico é mais encontrado em morcegos insetívoros e frugívoros (1,9%) do que nos hematófagos (1,4%). Na esmagadora maioria dos casos, as pessoas encontram um morcego caído no chão, ainda vivo, e o pegam por razões humanitárias, tentando ajudá-lo, mas o morcego (raivoso ou não) reage e morde essa pessoa. Aí o banzé está feito. Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2017 foram tratadas, preventivamente, 2.761 seres humanos mordidos por morcegos e três bateram as botas. Saí para lá! O morcego hematófago pode também se alimentar de sangue humano e transmitir a raiva. O pesquisador paulista, Moacir Rossi Nilson, descreveu mais de 300 ataques e, no seu estudo, até ele foi mordido por “ratos alados”. Numa das pobres choupanas do vale do Ribeira, em São Paulo, onde viviam 13 pessoas, o morcego sempre atacava o mesmo indivíduo, que nem percebia e só acordava de manhã com uma grande mancha de sangue em sua cama. Tal qual o boi atacado, a vítima escolhida é geralmente a que reage menos à mordida do morcego. A natureza é sábia e fez com que a saliva do morcego hematófago contivesse duas substâncias: uma anestésica, para diminuir a dor na hora da mordida, e outra com substância anticoagulante, para que o sangue da ferida não talhe e saia com mais facilidade, permitindo que o mamífero alado possa lamber o sangue por mais tempo. Nos próximos artigos, vamos falar especificamente sobre a raiva bovina e como os quirópteros (quiro =mão, pteros = asa) atacam a boiada. Você é meu companheiro de jornada. Até lá! n DBO março 2021 67


Memória

O legado de Renato dos Santos Renato Villela

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bem-estar animal perdeu um de seus maiores defensores e entusiastas. Falecido no dia 15 de fevereiro, vítima de uma parada cardíaca, o veterinário Renato dos Santos dedicou boa parte de seus 40 anos de vida profissional ao manejo racional. Ministrando palestras, dando cursos no campo ou na universidade, ajudou a forjar uma nova geração de profissionais disposta a mudar a forma de se relacionar com os animais. “O Renato tinha muito conhecimento técnico e o transmitia de forma simples para o vaqueiro entender, mas era também muito direto e sincero. Quem não o conhecesse, poderia achar seu jeito rude”, conta a veterinária Larissa Milani Zem Dionysio, que foi estagiária de Renato. Como repórter, eu, Renato Villela, fui testemunha dessa franqueza didática. Em abril de 2013, viajei com ele para uma matéria sobre currais, que seria a capa do Especial de Instalações do mês seguinte. Atencioso, ele percorreu comigo todos os compartimentos do curral, ensinando como deveriam ser construídas essas instalações e apontando os erros

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cometidos no campo. A certa altura, pensando na conservação do piso, perguntei se não era uma boa ideia colocar cacos para evitar a formação de lama. Ele me respondeu com outra pergunta: “Você já tirou a bota e caminhou descalço pisando em cima de caco de telha?”. A intenção não era constranger. Renato queria que seu interlocutor, fosse ele vaqueiro ou um repórter, olhasse para as instalações a partir das reações e do comportamento dos animais. Uma forma de ensinar por meio da empatia, sentimento tão em voga – e em falta – nos dias de hoje. O tronco de contenção individual também foi alvo do seu crivo.

José Carlos Beckhauser, fundador da Beckhauser, onde Renato trabalhou como consultor por muitos anos, conta que ele teve participação fundamental na adequação dos equipamentos da empresa ao conceito de manejo racional, em meados dos anos 90, validando ou recomendando alterações nos projetos. “Foi uma luz para a empresa”, diz. O hábito de andar descalço, inclusive ao ministrar palestras, o costume de moldar flores em guardanapos para presentear quem estivesse ao lado, foram lembradas por quem conviveu mais de perto com Renato. “Rimos várias vezes das mesmas histórias”, conta Beckhauser. Não posso deixar de registrar também a coragem e destreza de Renato na lida com os animais, ou sua perspicácia para descortinar a origem de problemas no curral, muitas vezes oriundos das intrincadas relações humanas. Quero ressaltar ainda o depoimento do empresário e produtor José Antônio Júnior, da Oxen Currais, de Goiânia, GO: “Tinha um grande respeito pelos animais. Fez a diferença por onde passou”. Talvez esta tenha sido sua missão. Talvez este seja o legado de Renato dos Santos. n


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Bem-Estar

Árvores para o conforto animal O gado agradece com maior produção. Veja quais espécies escolher e como cuidá-las.

Renque de árvores plantadas na área de lazer da Fazenda Orvalho das Flores, MT

Renato Villela

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renato.villela@revistadbo.com.br

ombra no pasto é essencial para o bem-estar dos bovinos e consequente melhoria de seu desempenho produtivo. Tendo abrigo da insolação nos dias mais quentes, os animais mantêm a frequência de pastoreio, ingeriram maior quantidade de forragem e ganham mais peso. Caso não tenha árvores no pasto, o pecuarista pode plantá-las ou recorrer ao sombreamento artificial. A primeira alternativa, apesar de mais trabalhosa, tem sido bastante recomendada por pesquisadores, porque a sombra fornecida pelas árvores é mais eficiente na redução da temperatura ambiente, além de melhorar a umidade relativa do ar, gerando um microclima agradável para os animais. A questão é: quais espécies plantar.

Há 13 anos, a produtora Carmen Perez planta árvores para garantir sombra ao gado em sua Fazenda Orvalho das Flores, que fica em Araguaiana (MT) e é referência em bem-estar animal. Ela já usou nativas, como o oiti (Licania tomentosa), ipês (Tabebuia spp) e a manguba (Pachira aquatica), mas tem preferido a espécie de mogno africano bom de sombra (a Khaya senegalensis), que esgalha bastante e tem folhas mais largas. “Além disso, é mais resistente às doenças e cresce rapidamente”, diz. Reforma necessária Carmen está reformando as pastagens da Orvalho das Flores (especializada em cria) e aproveitou esse momento para plantar mais árvores nos pastos. Cerca de 120 ha estão sendo estruturados em dois módulos de pastejo rotacionado, subdivididos em quatro piquetes, com uma área de lazer quadrada, também fracionada em quatro partes (uma para cada piquete), ficando o bebedouro ao centro (uso comum). Cada fração dessa área de lazer está recebendo um renque de árvores alinhadas no sentido norte-sul (veja foto). O espaçamento entre as árvores é de 3,5 m. Para protegê-las enquanto crescem, Carmen usa uma cerca provisória, em paralelo à da área de lazer, aproveitando lascas de descarte. A largura de 3,5 m entre as cercas é suficiente para isolar as plantas, que ficam longe do alcance dos animais, especialmente na seca, quando se tornam mais atrativas. O primeiro ano é sempre mais delicado para as mudas, exigindo cuidados extras. Além do calcário para correção do solo, são feitas quatro adubações. A primeira no pós-plantio, com uma fonte de fósforo (80 g de MAP/ planta). “Faço a coroa ao redor da muda e espalho o adubo”, ensina. Depois de 30 dias, são aplicados 50 g de 2005-20 (NPK). Com 60 dias de plantio, cada muda recebe 80 g da mesma composição e a dose é repetida após 90 dias. Nos sábados pela manhã, é feita uma “ronda” para controle de formigas cortadeiras. “Depois de três anos, as árvores já estão com bom porte, dando sombra. Daí a cerca de proteção já pode ser retirada”, ensina Carmen. n

Orientações da pesquisa A escolha da espécie arbórea deve respeitar, antes de tudo, sua adaptação às condições de solo e clima da região. Outro ponto a se atentar é a finalidade do plantio. “Se a intenção é explorar a madeira, o produtor pode optar por espécies exóticas, como o eucalipto (Eucalyptus spp), teca (Tectona grandis) e a grevílea (Grevillea robusta)”, sugere José Ricardo Macedo Pezzopane, pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste, de São Carlos, SP. Nativas também podem ser plantadas para fins comerciais, desde que fiquem fora de áreas de preservação permanente

70 DBO março 2021

(APP) e tenham plano de manejo para exploração, o que costuma desestimular o plantio. “Se o objetivo for apenas favorecer o sistema produtivo, pode-se usar espécies da nossa flora, a exemplo do angico (Anadenanthera macrocarpa), da canafístula (Peltophorum dubium) ou do baru (Dipteryx alata)”, enumera. O pesquisador lembra, contudo, que espécies nativas costumam demorar mais para crescer quando comparadas às exóticas. Escolhida a espécie, o próximo passo é determinar o modelo de plantio. São três possibilidades: agrupado, espalhado ou

em renques. O primeiro não tem sido mais recomendado, pois, na formação em bosque, o terreno tende a ficar mais úmido, o que favorece problemas de casco. O plantio de árvores dispersas pode ser inconveniente em sistemas mais intensivos, onde se usa mais maquinário para adubação, por exemplo. Segundo Pezzopane, o mais indicado é o plantio em renques, devido à maior facilidade para isolamento e manejo das mudas. Em terrenos declivosos, essas mudas devem ser plantadas no sentido contrário ao da água da chuva, para não favorecer a erosão.


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Instalação

Apartação simplificada Com sistema de puxadores, um vaqueiro no tronco aparta sozinho os animais

Barras de ferro com puxadores em “L” atravessam uma das laterais do apartadouro e se fixam nas porteiras do lado de dentro, permitindo ao vaqueiro abri-las e fechá-las.

E

Renato Villela renato.villela@revistadbo.com.br

nquanto um vaqueiro aciona o comando da pescoceira do tronco de contenção individual para liberar o animal, outra pessoa, na plataforma lateral externa, se apressa em puxar a haste que mvimenta a porteira, para encaminhar o boi à manga desejada. Essa descrição retrata a triagem de bovinos em apartadouros do tipo “ovo” (exagonal). Toda essa movimentação, entretanto, pode ser simplificada, economizando-se estrutura e mão de obra. Com alterações na posição dos mecanismos de movimentação das porteiras, o mesmo vaqueiro que manuseia o tronco consegue abri-las ou fechá-las ao nível do solo, eliminando-se a plataforma externa. Melhor ainda: sem a necessidade de ajuda de uma segunda pessoa para concluir a operação. Essa modificação foi feita com sucesso na Fazenda Canaã, em Ariquemes, RO. A separação dos animais, logo após sua saída do tronco de contenção, era realizada com o auxílio de varas de metal (uma para cada porteira), exigindo que o vaqueiro se posicionasse na parte

72 DBO março 2021

superior do apartadouro (plataforma), de onde ele manuseava as porteiras para direcionar os animais rumo a uma das quatro mangas. “A primeira coisa que foi eliminar a plataforma. Depois, mudamos os puxadores de porteirda de lugar. Eles foram instalados na parede lateral do embarcadouro ligado ao tronco (veja foto). As hastes atravessam essa parede, por meio de furos, e vão se fixar, do lado de dentro do embarcadouro, em suas respectivas porteiras. Assim, o funcionário posicionado no tronco pode abri-las ou fechá-las, segurando o puxador da haste, em formato de L”, explica Arthur Gonçales dos Santos Cezar, consultor da Boviplan, de Piracicaba, SP. As hastes operam três das porteiras de apartação. “A quarta, fica ao lado do vaqueiro, ele consegue empurrar com as mãos. Puxando uma cordinha, ela volta para o lugar”, completa. Como o vaqueiro trabalhando no tronco não enxergava o que ocorria no apartadouro tipo “ovo”, cujas paredes são totalmente fechadas para facilitar o fluxo de animais, retirou-se uma das tábuas superiores (ao nível do olho) para possibilitar sua visão. “Assim, ele pode acompanhar, sem dificuldade, se o animal está indo para a manga correta”, explica Cezar. Segundo ele, ao fazer o manejo, o ideal é que o vaqueiro abra primeiro a porteira do apartadouro e somente depois libere o animal do tronco de contenção. Caso contrário, ele pode ficar rodando dentro do “ovo”e se estressar. A abertura das porteiras também pode ser feita com sistemas de roldanas e contrapesos, que, segundo o consultor, são mais adequados para apartadouros “em linha”. Esse modelo, presente nos currais mais modernos, caracteriza-se por ser um corredor com duas a quatro porteiras laterais, que abrem para dentro, dando acesso às mangas. Pela disposição em paralelo das porteiras, há menos risco de as cordoalhas das roudanas se “enroscarem” ao serem acionadas para abertura ou fechamento. “Já o manuseio de hastes ou varões é mais complicado nesse tipo de apartadouro”, complementa. n


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Direito e Legislação

Como fica a reserva legal de um imóvel fracionado?

Paulo Murilo Galvão é advogado, escritor, professor de Direito Penal e pós-graduado em Direito Ambiental. É, também, pecuarista em Goiás. Cartas para o e-mail pmgg@terra.com.br

T

odo mundo sabe que os imóveis rurais precisam ter uma quantidade mínima de reserva legal, nos termos do artigo 12 da lei 12.651 (o famoso Código Florestal Brasileiro, que entrou em vigor em maio de 2012). Essa lei determina os percentuais de vegetação nativa que se deve manter na propriedade conforme a região, podendo variar de 80% (áreas de floresta da Amazônia Legal) a 20% (cerrado fora da Amazônia Legal, por exemplo). Inúmeras dúvidas surgem, entretanto, quando se observam casos reais, frequentemente mais complexos do que o disposto em lei. Como fica, por exemplo, a reserva legal em caso de fracionamento de imóveis por compra/venda ou divisão por herança? Vamos usar um exemplo hipotético para facilitar a análise dessa questão. Digamos que Juca, um produtor de Goiás, onde a lei determina que se tenha 20% de reserva legal, possua uma fazenda de 1.000 hectares, dos quais 200 ha são ocupados por mata nativa. Tudo certo, sem problemas. Juca está em consonância com a lei e não possui passivos ambientais. Mas um belo dia, ele junta um dinheirinho e resolve comprar uns 100 ha que seu vizinho, Caio, está lhe oferecendo por bom preço. Terra formada com pastagens de qualidade, cerca nos trinques. Realizado o negócio, Juca passou a ter 1.100 ha de área total, sendo 900 de pasto e 200 de mata (18,18% de reserva). E agora?

Dúvidas comuns O primeiro questionamento que surge é: Juca ficou com um passivo ambiental? A reserva legal dos 100 ha adquiridos (20 ha) permaneceram na fazenda do vizinho; então, como fica isso? Quem é o dono dessa mata: o Juca (comprador) ou o Caio (vendedor)? Todos os dias, ocorrem casos concretos como este no campo, deixando as pessoas confusas, mas a legislação é clara. Conforme o artigo 15, parágrafo 1º da Lei 12.651/12 (Código Exemplo hipotético de reserva legal em imóvel fracionado

Juca

Caio Reserva legal da área adquirida permanece na matrícula “mãe”, com Caio

Reserva legal (200 ha) Pastagens antes da compra 800 ha

74 DBO março 2021

Área de pasto comprada por João do vizinho (100 ha)

Florestal), em caso de fracionamento do imóvel rural, a qualquer título, inclusive para assentamentos pelo Programa de Reforma Agrária, será considerada, para fins de exigência de reserva legal, a área do imóvel antes do fracionamento. Assim, a cota de reserva legal daquela gleba adquirida por Juca continuará na matricula “mãe”, lá no imóvel do vizinho que vendeu a área. Será legalmente de Caio, mas corresponderá à reserva dos 100 ha adquiridos por Juca. O mesmo ocorre quando a propriedade rural é dividida entre herdeiros. O raciocínio é o seguinte: se o imóvel antes da divisão possuía área de reserva legal disponível para o todo, logo possui para uma fração dele desmembrada. Ou seja, a mata deve ser mantida intacta. Desdobramentos Vamos complicar um pouco o nosso exemplo. E se Caio (vendedor) decidir desmatar os 20 ha correspondentes à reserva de Juca ou se, no ato da compra, ele já não tiver mais o percentual exigido pela lei? Aqui mora o perigo. Nos termos do artigo 2º, parágrafo 2º do Código Florestal, toda pessoa que adquire um imóvel rural recebe de “presente” seu passivo ambiental, se responsabilizando por ele, a ponto de ter de recompor áreas desmatadas ilegalmente, seja aumentando a reserva legal ou acrescentando-a nas áreas de preservação permanente (APP) – novidade essa do novo Código Florestal. Isso mesmo, o novo Código possibilita usar áreas de APP para compensar o que não se tem mais de reserva legal (artigo 15). Boa alternativa para resolver passivos. Há ainda, a possibilidade, em caso de parcelamento de solo, de se agrupar a área de reserva legal em regime de condomínio. Falaremos disso em um próximo artigo. Seja como for, é recomendável que, ao se adquirir uma área rural, o comprador se certifique de que a reserva legal daquela área está íntegra, conforme alocado na escritura original. Do contrário, poderá receber todo o passivo ambiental do vendedor e a obrigação de recompor o que exige a lei, restando-lhe como alternativa ingressar com ações judiciais de regresso contra o antigo proprietário da terra, talvez, o verdadeiro causador daquele desacerto ambiental. Voltando ao nosso exemplo hipotético, se Caio desmatar os 20 ha que correspondem à reserva de Juca, este ficará com um passivo ambiental. Para evitar qualquer tipo de insegurança, ele teria de negociar diferente (exemplo: 100 ha, mais 20 de reserva legal, totalizando a compra de 120 ha, 100 de pasto e 20 de mata). Entretanto, quem faz isso hoje, com o preço alto da terra? O comprador prefere ficar no risco. n



Leilões

Demanda por fêmeas ganha força no mercado Foram vendidos 1.417 lotes dessa categoria animal, um crescimento de 88,7% em relação ao primeiro bimestre de 2020 Gualberto vita

Oferta

+ 31,2% Receita

+ 212% Média

+ 137,9%

gualberto.vita@midiadbo.com.br

A

pós os resultados históricos de 2020, que somaram a oferta de quase 95.000 animais e movimentação financeira de R$ 1,2 bilhão, o mercado de leilões de bovinos de corte com alta genética retomou suas atividades e já apresentou resultados positivos no primeiro bimestre de 2021, sinalizando boas perspectivas para os negócios ao longo do ano. Até o dia 1° de março, data do fechamento deste balanço, foram realizados 17 remates, com a comercialização de 2.923 lotes, quantidade 31,2% superior à negociada nos dois primeiros meses de 2020. Em receita, a valorização deu um expressivo salto de 212%, contabilizando R$ 31,7 milhões em vendas totais. De acordo com o Banco de Dados

17 remates de bovinos de genética para carne Pistas de janeiro e fevereiro registram média geral de R$ 10.856 Raças

Lotes

Leilões

Renda (R$)

Média

Máximo

Nelore

2.350

10

25.820.850

10.987

-

Brangus

259

2

1.878.690

7.254

-

Senepol

232

4

3.316.810

14.296

-

Angus

82

1

715.760

8.729

-

Total

2.923

15

31.732.110

10.856

-

Critério de oferta.(-) Dados das leiloeiras Programa Leilões. (-) Quantidade de remates em que a raça dividiu pista com uma ou mais raças. Elaboração DBO.

76 DBO

março 2021

DBO, a média geral chegou aos R$ 10.856 e cresceu 137,9% sobre o valor médio geral obtido no bimestre anterior (R$ 4.563). A oferta de machos selecionados apontou queda de 24,5%, descendo de 463 para 350 exemplares, à média de R$ 18.704 (alta de 160,5%). Dentro da categoria fêmeas, foram apresentadas nas telas 1.417 bezerras, novilhas e matrizes, o que representou um acréscimo de 88,7% em relação à oferta do primeiro bimestre de 2020. O faturamento mais do que triplicou (+375%) e bateu em R$ 22,4 milhões, registrando valor médio de R$ 15.540 por animal. Segundo o Banco de Dados da DBO, a maior oferta de fêmeas ocorreu durante a “Liquidação Total Genética Fazenda Pontal”, promovida em rodada tripla nos dias 26, 27 e 28 de janeiro pelo criador Angelo Del Papa. Com lotes Nelore PO filmados na propriedade, em São Miguel do Araguaia, GO, o balcão eletrônico do criatório com quase 40 anos de seleção comercializou 541 novilhas e vacas paridas e prenhas, avaliadas pelo Programa de Melhoramento Genético de Zebuínos (PMGZ), da ABCZ. A renda total foi de R$ 5,9 milhões. Já a maior média da categoria foi computada no “Leilão Nelore Ibaneis e Convidados Especiais”, que integrou a programação oficial da Expoinel Minas (Uberaba, MG). Promovido na noite de 5 de fevereiro por Ibaneis Rocha, o pregão de elite negociou 14 novilhas e doadoras de famílias consagradas na raça Nelore, por R$ 187.721, em média. No total, foram arrematados 20 lotes qualificados por R$ 3,7 milhões. n


Leilões Cabanha Nova Aurora fatura mais de R$ 600.000 A Cabanha Nova Aurora, premiado criatório gaúcho das raças Corriedale e Ideal – pertencente ao Condomínio Pedro Osório de Medeiros e administrado por Marcelo Bravo de Medeiros – promoveu, na noite de 3 de fevereiro, mais uma edição do “Remate Anual de Produção Cabanha Nova Aurora”. A Estância Santa Virgínia (Quaraí, RS) foi convidada e também ofertou no leilão. O tradicional evento da 43ª Feira de Ovinos de Verão de Sant’Ana do Livramento (RS) comercializou 176 lotes de genética apurada da raça Corriedale, pela média de R$ 2.485, além de 145 reses Ideal, a R$ 1.128. Foram vendidos 321 ovinos selecionados, gerando renda de R$ 601.050. Um dos destaques foi a comercialização da cota de 50% do carneiro Corriedale PO, TAT 6117. O macho da geração 2018 e CE 49 teve metade de sua propriedade adquirida pelo criador Theo Obino, da Estância da Fumaça (Taquara, RS), por R$ 15.000.

Fêmeas Senepol saem à média de R$ 20.000

Nelore Vitória estreia em Uberaba

Lotes de matrizes prenhes e paridas, além de reprodutores selecionados na Fazenda Santa Inês (Barretos, SP), formaram as ofertas de genética apurada exibidas pelo Canal Rural no “Leilão Virtual Matrizes Senepol 3G”, promovido por Neto Garcia. Nas negociações eletrônicas da noite de 8 de fevereiro, foram arrematadas 17 fêmeas à média de R$ 20.009, além de 13 touros por R$ 20.020 cada, valor equivalente a 67,7@ de boi gordo, para pagamento à vista na praça paulista (R$ 295,5/@). A movimentação financeira total atingiu R$ 600.410.

A primeira edição do “Leilão Elite Nelore Vitória & Convidados”, realizada na noite de 4 de fevereiro no Parque Fernando Costa, em Uberaba (MG) colocou em pista no centro de eventos Rômulo Kardec de Camargo, bezerras, novilhas, doadoras e prenhezes, além de um touro Nelore PO, que saiu por R$ 71.000. Os selecionadores Leônidas Freire Silva e Emanuel Adrian Cesar Araújo Silva, titulares da Nelore Vitória, negociaram de forma virtual e presencial 27 exemplares do time de pista do plantel, obtendo receita total de R$ 1,8 milhão. O remate, chancelado pela Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB), fez parte da programação oficial da Expoinel Minas. O criatório Nelore Vitória desenvolve há 10 anos um trabalho de seleção e melhoramento genético com a raça zebuína, produzindo touros e matrizes em propriedades localizadas nos municípios de Piripiri, no Piauí, e em Uberaba.

DBO março 2021 77


Empresas e Produtos Toledo lança balanças com tecnologia para maior controle do rebanho A Toledo do Brasil atualizou as configurações da linha MGR 4000. Mais robusta e com nova tecnologia embarcada, a balança dispõe de operação intuitiva e simplificada, o que confere maior eficiência no gerenciamento e rastreamento eletrônico do rebanho. Segundo Karina Saraiva Dametto, gerente de mercado industrial/análise de produtos para o setor pecuário da Toledo

do Brasil, a MGR 4000 é uma balança ideal para fazendas mais tecnificadas. “Ela informa, em tempo real, o peso (médio e total) do animal, a data de vacinação, a quantidade de animais pesados e o valor em arrobas, por exemplo. Tudo isso permite obter maior precisão e velocidade na pesagem, reduzindo erros”, destaca. Outra inovação da linha é a balança MGR-4000 CAMPO que re-

aliza a pesagem e transferência das informações para o aplicativo MGR (disponível para Android e IOS). Mais informações no site www.toledobrasil.com

DSM apresenta nova linha de suplementos minerais

CRV Lagoa investe R$ 12 milhões e quer crescer 30%

A DSM lançou uma linha de suplementos nutricionais com a tecnologia Hy-D® (metabólito específico de vitamina D3), que garante absorção mais rápida e eficiente dos macrominerais (cálcio, magnésio e fósforo), melhorando a resposta imune, além de estimular o desenvolvimento de fibras musculares. Em sistemas de confinamento, o produto impacta diretamente no ganho de peso e no rendimento de carcaça. “Pesquisas indicam que aditivo aumenta o ganho de peso diário em 8% quando usado em produtos como o Fosbovi Confinamento Crina® e o RumiStarTM”, informa Marcos Baruselli, gerente de confinamento da DSM. Baruselli explica que o uso de Hy-D® traz benefícios porque atua de forma positiva no metabolismo dos macrominerais. “Ao acrescentar HyD® na ração, melhoramos os índices zootécnicos e os resultados econômicos do sistema de produção”, completa.

A CRV Lagoa, de Sertãozinho, SP, passará a se chamar apenas CRV, acompanhando uma reformulação mundial da marca da empresa, que tem sede na Holanda e que atua em 60 países. O novo nome foi anunciado junto com um plano de expansão para 2021 que exigirá R$ 12 milhões em investimentos. “Crescemos com lucro nos últimos dois anos e queremos crescer 30% em 2021”, explica Rudi den Hartog, presidente do Grupo CRV no Brasil. O ano de 2021 começou de forma muito positiva para a empresa. As vendas de sêmen com a marca CRV cresceram 75% em relação ao mesmo mês de 2020. Outra mudança prevista para este ano o incremento da força de vendas, que contará com novas frentes comerciais, maior capacitação de representantes comerciais e novas ferramentas de atendimento ao cliente. Uma das novidades será a venda por e-commerce, que já passou por uma fase piloto e será acelerada.

Biogénesis amplia Programa Na estrada

MSD recebe prêmio da Animal Pharm

Nitro anuncia compra da Biocontrol

Lançado em 2018, o Programa Na Estrada 4.0 conta com uma frota que já percorreu mais de 6 milhões de quilômetros com a proposta de levar a extensão rural a revendas e cooperativas de todo o País. Em 2021, esse atendimento será mantido, mas o projeto também deverá ser levado para dentro da porteira das fazendas. Serão fornecidos aos produtores mini-cursos sobre boas práticas de vacinação, silagem, IATF, uso de antiparasitários e aplicação de medicamentos, com o objetivo de capacitar as equipes que lidam com os animais.

A MSD Saúde Animal foi premiada pela Animal Pharm, uma das mais prestigiosas publicações da indústria de saúde animal. O executivo Richard DeLuca, presidente global da empresa, recebeu o prêmio como Visionário CEO/2020, por sua visão e liderança dos negócios de saúde animal da empresa nos últimos sete anos. “O que torna o setor de saúde animal único é sua capacidade de oferecer aos clientes produtos, serviços e soluções para melhorar os resultados de saúde e bem-estar dos animais”, disse o executivo ao receber a homenagem.

O Grupo Nitro, fabricante de agroquímicos e insumos, anunciou a compra da Biocontrol, empresa especializada na produção de fungos. Com a aquisição, o grupo consolida sua atuação no segmento de biodefensivos no Brasil. A empresa, 100% brasileira, superou R$ 1,1 bilhão de receita líquida em 2020. “Ficamos felizes com mais uma aquisição de sucesso. Com a Biocontrol, reforçamos nosso compromisso de longo prazo no Agro e seguiremos trabalhando para fornecer produtos de alta qualidade”, comentou Marcos Cruz, CEO da Nitro.

78 DBO março 2021


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80 DBO março 2021


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DBO 81


Sabor da Carne

Acém na churrasqueira? Conheça o Denver Steak

Aline Marinho e Joana Angélica são fundadoras do “Churrasdelas” (churrasco feito por mulheres) e integrantes do grupo “As Braseiras”, de mulheres assadoras.

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O acém completo é composto por diversos músculos e um deles – o serratus ventralis – é o que compõe a peça do Denver Steak. Apesar de o primeiro nome do corte se referir à capital do Estado do Colorado, centro-oeste dos Estados Unidos, não há comprovação de que tenha sido ali desenvolvido pela indústria norte-americana. Mas trata-se de um corte recente: foi lançado em 2009. E o que importa é que, apesar de ser do dianteiro bovino, ele tem uma maciez surpreendente! É claro que essas questões estão diretamente relacionadas com a origem e o manejo animal, bem como com seu processamento no abate, na desossa e na comercialização. Quando falamos de origem e manejo do animal, estamos nos referindo aos cuidados que o pecuarista deve ter porteira adentro e que formam o famoso tripé genética-nutrição-sanidade. Na genética, determinadas raças possuem mais precocidade e maior deposição de gordura, o que faz com que os cortes possam ser mais macios e ter mais marmoreio. No manejo nutricional, dietas mais ricas em energia, fornecidas em confinamento, são de extrema importância para se ter uma maior deposição de gordura. E a sanidade, tanto na fazenda quanto na indústria, assegura a qualidade dessa carne. Só para dar um exemplo: uma vez fizemos um Denver Steak de um acém proveniente de um animal que não tinha seleção genética; mesmo no ponto correto, estava duro e com um sabor bem fraco. Portanto, o corte, por si só, não é garantia de qualidade; é preciso saber onde comprá-lo. Hoje, existem várias butiques de carne que são especializadas em cortes diferenciados. Algumas até já embalam o Denver Steak, cortado em bifes altos, para fazer na grelha.

Revista DBO sempre foi uma referência quando o assunto é produção animal. Os artigos desta seção nos guiam desde antes de pensarmos em fundar uma empresa especializada em técnicas de cocção de proteínas de origem animal. Nossa história com o churrasco é antiga, mas o “Churrasdelas” começa quando, em 2016, nos conhecemos e vimos que faltavam mulheres no comando das churrasqueiras. Como temos formação acadêmica em medicina veterinária e zootecnia, conhecemos os procedimentos dentro da fazenda, bem como nos frigoríficos e entrepostos. Com essa experiência, fica mais fácil selecionar as carnes com nível de qualidade superior e isso também nos estimulou a nos especializar em métodos de cocção para cada corte bovino, para que o consumidor final possa sentir, no sabor da carne, todos os processos envolvidos na produção daquele steak. Isso também é uma forma de valorizar a cadeia produtiva bovina, fazendo com que os consumidores, principalmente, entendam por que carnes com qualidade superior custam mais, em termos financeiros, e valem mais, em termos gustativos.

Arquivo Churrasdelas

Extraído do acém, o corte tem sabor e suculência realçados quando mal passado

82 DBO março 2021

Arquivo “O território da carne”

Maciez surpreendente Outro aspecto interessante é ter responsabilidade em instruir e orientar os consumidores em relação a novos cortes e a métodos para seu preparo adequado. É o que fazemos nos cursos de churrasco que ministramos pelo Brasil afora: levamos informação e ensinamos como preparar cortes menos usados no churrasco do brasileiro. Um desses cortes menos comuns é o Denver Steak. Ele é retirado do miolo do acém, um corte do dianteiro do bovino normalmente preparado na panela de pressão.

Dicas de preparo Partindo do princípio de que você cortará a peça contra as fibras, com uma altura de mais ou menos dois a três dedos, obtendo steaks de formato adequado para churrasco (como os adquiridos nas butiques de carne), você pode grelhá-los na churrasqueira a uma distância de 10 a 15 cm da brasa incandescente, por dois a três minutos de cada lado. Depois, deixe-os “descansar”, por mais seis minutos, na brasa média, ou seja, a uns 30 cm de distância. Esse corte pode ser apreciado desde mal passado até ao ponto, mas nós o preferimos mal passado, pois isso deixa o steak mais suculento, propiciando todos os sabores desde a primeira mordida. Fica, então, nossa dica para o Denver Steak, um corte diferente, macio e saboroso. Uma novidade que vai surpreender o seu paladar! n