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ZYG360.com rede cultura de comunicação em revista

PUBLICAÇÃO TRIMESTRAL DA FUNDAÇÃO paraense DE radiodifusão - ANO II - Nº 7 - OUT/NOV/DEZ DE 2009

Rádio Cultura OT renasce n Emissora de longo

alcance volta a transmitir para todo o Pará depois de 11 anos desativada.

EPISÓDIOS DO CATAlendas PARA VER E REVER n As histórias de Dona

Preguiça e Preguinho serão lançadas em DVD pelo selo Ná Music.

TV Cultura em mais de 60 municípios n Televisão pública

paraense fecha 2009 com 75% de suas retransmissoras já inauguradas.


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Índice rádio

Foto: Eliseu Dias/AGPA

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Presidente da Funtelpa Regina Lúcia Alves de Lima Diretor de TV Dimitri Maracajá Diretor de Rádio Antonio Carlos de Jesus dos Santos

n Rádio Cultura Ondas Tropicais volta a transmitir para todo o Estado

comunicação 12

Foto: Renato Araújo/ABR

Diretor de Comunicação Integrada Marcos Francisco Urupá Moraes de Lima Diretor Administrativo Financeiro Valdemir Chaves de Sousa Diretor Técnico Ulisses Weyl

n 1ª Confecom dá início aos debates sobre comunicação no Brasil

Reportagens e textos Andréa Mota (estagiária) Carlos Henrique Gondim Pablo Almeida (estagiário) Renata Biondi (MTb 1675-DRT/PA)

Foto: Durval de Souza Filho

abepec

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Foto: André Mardock Produção: Andrei Miralha

n Regina Lima é a nova presidente da Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais.

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artigo I 10 confecom 12 expansão da tv 16 portal pelo mundo 20 cultura brands 24 abepec 29 cultura fm 31 tv de cara nova 35 artigo II 39 entrevista 43 programação 48 arte em cartum 50

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Fotografia Agência Pará Arquivo Funtelpa Edição Carlos Henrique Gondim (MTb 1692-DRT/PA) Editoração e Tratamento de Imagens Osimar R. Araujo (osi_araujo@hotmail) Revisão Carlos Henrique Gondim FUNDAÇÃO PARAENSE DE RADIODIFUSÃO Avenida Almirante Barroso, 735 - Belém (PA) CEP: 66093-020 TEL: 55 (91) 4005-7759 ISSN 1982-5633

www.portalcultura.com.br CONTATO COM A REVISTA ZYG360.COM: comunicacao@funtelpa.com.br Out/Nov/Dez de 2009. Publicação trimestral da Fundação Paraense de Radiodifusão. Os conteúdos assinados desta revista são de inteira responsabilidade dos seus autores. Distribuição dirigida. Tiragem: 1.000 exemplares.


Ótimas perspectivas para 2010

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Rede Cultura de Comunicação encerra o ano de 2009 e inicia 2010 com belas perspectivas pela frente. O caminho que trilhamos ao longo de nossos três primeiros anos de gestão permitiu que criássemos uma estrutura inédita na história da Fundação Paraense de Radiodifusão. Através do projeto de reestruturação da Funtelpa, iniciado em 2007, chegamos a resultados importantes nos veículos que compõem a Rede Cultura. Na TV Cultura, saímos do zero para chegar à marca de 60 retransmissoras inauguradas, já que, até janeiro de 2008, o sinal da emissora pública paraense só alcançava a Região Metropolitana de Belém. A expansão é tema da reportagem que inicia na página 16. Em relação à rádio, 2009 ficará para sempre marcado como o ano em que a Rádio Cultura Ondas Tropicais (OT) voltou a transmitir para todo o Estado do Pará, depois de 11 anos desativada. A reinauguração foi possível graças a uma parceria entre a Funtelpa e a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que forneceu parte dos recursos necessários à aquisição dos novos equipamentos. A matéria completa começa na página 6. Falando em colaboração, a Funtelpa estabeleceu uma nova parceria, desta vez com o selo Ná Music, para a produção dos DVDs do “Catalendas”, programa infantil sucesso na TV pública paraense. A matéria está na página 24. Outra parceria, com a Aliança Francesa de Belém e a Embaixada na França no Brasil, possibilitou à TV Cultura a produção de um programa para aprendizado da língua francesa. Esta é uma das novidades da emissora para 2010, junto com o novo visual dos programas jornalísticos. Confira a matéria na página 35. Nesta edição, a ZYG360.com também destaca uma entrevista com o crítico e pesquisador Eugênio Bucci, um artigo sobre a importância das rádios OT na Amazônia, assinado pelo diretor da Rádio Cultura, Antônio Carlos dos Santos, um artigo do pesquisador Venício Lima sobre a Conferência Nacional de Comunicação e uma reportagem sobre os paraenses que moram no exterior e matam as saudades da terra natal por meio do Portal Cultura. A todos, uma ótima leitura.

Regina Lima

Presidente da Fundação Paraense de Radiodifusão (Funtelpa)


Foto: Eliseu Dias/AGPA

Os programas da Rádio Cultura OT alcançam todos os 144 municípios paraenses, além de outros estados e países

>> funtelpa <<

Rádio Cultura OT volta a transmitir após 11 anos de silêncio

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m outubro de 2009, depois de mais de 11 anos desativada, a Rádio Cultura Ondas Tropicais voltou a transmitir para todo o Estado do Pará. Primeiro veículo da Funtelpa, a Rádio Cultura OT foi inaugurada em 1977 e estava parada desde abril de 1998. A atual gestão da Funtelpa decidiu resgatar este veículo por ser um importante instrumento de comunicação para o interior do estado, já que as Ondas Tropicais têm uma capacidade de expansão muito maior do que as FMs (ondas curtas) e AMs (ondas médias). A rádio foi inaugurada no início do mês de outubro, em meio a uma cerimônia que contou com a presença da governadora Ana Júlia Carepa, do secretário de comunicação, Paulo Roberto Ferreira, e da presidente da Funtelpa, Regina Lima, entre outras autoridades. A rádio foi reativada a partir de uma parceria entre a Funtelpa e a Empresa Brasil de Comunicação (EBC). “Para um Estado de dimensões continentais, como o Pará, uma rádio como essa tem uma importância fantástica. Vamos conseguir levar comunicação, notícias relevantes para os municípios e uma programação musical de qualidade. A população tem o direito de saber o que está acontecendo no Estado. A informação é um

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direito do cidadão”, defendeu a governadora Ana Júlia Carepa, em seu discurso. A governadora ressaltou que os equipamentos adquiridos para a Rádio Cultura OT já estão prontos para receber o sinal digital, assim que iniciarem as transmissões através deste novo sistema. “Nossos transmissores estão preparados para o sinal digital e teremos uma transmissão de altíssima qualidade, assim que o sistema for aprovado pelo Ministério das Comunicações”, completou Ana Júlia. De acordo com a Regina Lima, presidente da Funtelpa, a reativação da Rádio Cultura OT tem um enorme significado para os paraenses que moram nas localidades mais distantes do estado. “É papel da rádio pública chegar aos lugares onde as emissoras comerciais não chegam. Comunicação é um direito do cidadão e é obrigação do estado chegar até lá, assim como ele faz com saúde, com educação”, considera Regina Lima. Em seu discurso, Regina Lima, lembrou que quando trabalhou pela primeira vez na Funtelpa, era funcionária da Rádio Cultura OT. “Para mim, a retomada da OT é uma emoção muito grande. Quando trabalhei na Rádio Cultura, eu trabalhava exatamente


fazendo conteúdo para a OT. Quando a gente elaborou o projeto que denominamos de Reestruturação da Funtelpa, a decidimos rastrear em que pé ficou a OT e decidimos retomá-la”, lembra a presidente. A reativação da Rádio Cultura OT representa um investimento de quase R$ 1,2 milhão, com recursos oriundos do Governo do Estado e de uma parceria estabelecida entre a Funtelpa e a Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Como contrapartida, a EBC poderá utilizar oito horas da grade de programação da Cultura OT. Luciana Couto, da Rádio Nacional da Amazônia, falou em nome da EBC: “É com muito orgulho que a EBC comemora essa parceria com a Funtelpa, que possibilitou a reativação da Rádio Cultura OT. Um dos diferenciais do rádio é alcançar populações que vivem em municípios distantes, carentes de infraestrutura básica, inclusive de informação, e não possuem outro meio de comunicação, a não ser o rádio”, enfatizou a representante da EBC. “Ao firmarem esta parceria, a Funtelpa e a EBC confirmam o papel social de levar cidadania por meio da informação à população brasileira. Aqui, mais especificamente, à população paraense e à população da Amazônia, aos ribeirinhos, aos quilombolas, aos extrativistas, aos pescadores”, completou. Para o diretor da Rádio Cultura, Antônio Carlos de Jesus dos Santos, a retomada da OT significa o resgate de um bem público, imaterial. “Estamos recuperando um bem público. Na atual estrutura, há uma dificuldade enorme para conseguir a concessão de canais de rádio e televisão. Abrir mão de um canal que se comunica com a população é abrir mão de um bem, que não é material, é imaterial. E este bem estava desprezado”, lembra o diretor. Segundo o diretor da rádio, mesmo com o advento da internet e da televisão via satélite, o rádio continua tendo uma importância crucial na Amazônia. “O rádio é, ainda hoje, e vai continuar sendo por muito tempo, o instrumento mais ouvido na região amazônica. O rádio ainda é o meio de comunicação referencial para que as pessoas saibam o que está acontecendo na capital e nas outras regiões do estado. E ainda hoje, na Amazônia, não há outra modalidade de rádio que se relacione tão bem com a

floresta que não sejam as OTs. Em determinado momento, a floresta impede a propagação do sinal das AMs e FMs. A OT não sofre esse tipo de impedimento”, explica Antônio Carlos. A Rádio Cultura Ondas Tropicais pode ser ouvida na frequência 5045 KHz. Inicialmente, são veiculados dois programas: “Nas Ondas do Rádio”, das 16h às 18h; e “Acorda, Pará”, das 6h às 8h da manhã. Estes horários foram escolhidos por serem os melhores horários de recepção da OT. Nos demais horários, a Rádio Cultura OT retransmite a programação da Rádio Cultura FM, 24 horas por dia. A Rádio Cultura OT diferencia-se pela proposta de atender principalmente o público do interior paraense, trazendo as notícias relevantes para o interior, comunicados e uma programação musical especial. Os programas da grade da Rádio Cultura OT são norteados por três princípios básicos: serviço, informação e música. A OT é uma ferramenta que se inclui na política de integração do estado defendida pelo governo Ana Júlia Carepa. A Rádio Cultura OT reinicia suas atividades com dois transmissores: o principal, de 10 KHz, e o reserva, de 1KHz. Nas primeiras semanas, a potência do transmissor foi avaliada e aumentada gradativamente, até alcançar sua potência máxima. Em sua potência máxima, o transmissor tem capacidade de alcançar todos os 144 municípios do estado do Pará, e até mesmo outros países da América do Sul e outros continentes, como a Europa (sobre o assunto, confira a entrevista do norueguês Tore Vik, no quadro ao lado). Já no primeiro mês de transmissão, a resposta dos ouvintes foi gratificante. Até o início de novembro, espectadores de 64 municípios paraenses haviam ligado para a Rádio Cultura informando que estavam ouvindo a rádio OT. Eles elogiaram a qualidade do sinal, que está apresentando uma excelente nitidez, reflexo dos equipamentos de última geração utilizados pela Rádio Cultura Ondas Tropicais. A Rádio Cultura Onda Tropical possui uma estrutura de transmissão, localizada em Marituba, na antiga Fazenda da Pirelli, e uma estrutura de estúdio, localizada no prédio sede da Funtelpa, em Belém. Em Marituba, estão localizados o transmissor e a antena, que são interligados ao estúdio através de links.

Foto: Eliseu Dias/AGPA

A governadora Ana Júlia reinaugura a Rádio Cultura Ondas Tropicais: “A informação é um direito do cidadão” zyg360.com

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O norueguês Tore B. Vik (à esq.) dedica-se há 57 anos ao hobby de DXista. Ele já ouviu entre 2.000 e 2.500 rádios internacionais

Rádio Cultura OT conquista ouvinte da Noruega Um mês depois de reinaugurada, a Rádio Cultura Ondas Tropicais recebeu um e-mail de um morador da Noruega, informando que havia ouvido a Rádio Cultura Ondas Tropicais. Com a experiência de quem já ouviu entre 2.000 e 2.500 rádios de todas as partes do mundo, o norueguês Tore Vik se disse impressionado pelo fato de os sinais da Rádio Cultura OT terem atingido o sul da Noruega, a mais de 9.000 km de distância do Brasil. Aos 71 anos de idade, o oficial aposentado Tore Vik é um DXista (ou dexista) – como são conhecidas as pessoas que têm como hobby ouvir transmissões de rádio oriundas de países distantes do local de recepção, utilizando um receptor de rádio tradicional. A sigla DX, do inglês, traduz-se como “distância X”, ou seja, uma distância desconhecida. Trata-se de um hobby que conquista cada vez menos adeptos, devido, entre outros motivos, à força das novas mídias, que permitem acessar, com maior facilidade e qualidade de som, a uma infinidade de rádios internacionais por meio da internet. Tore Vik não fala nem escreve em português. Mas pediu para um que um grande amigo seu, chamado Rudolf Grimm, que mora em São Paulo, traduzisse a carta que enviou à Rede Cultura. Nela, Tore Vik informa que, no dia 12 de novembro, recebeu os sinais da Rádio Cultura Ondas Tropicais, com um programa de bossa nova. “Meu hobby é captar emissoras latino-americanas e eu coleciono as identificações e confirmações das mesmas, as quais ouvi aqui na Noruega. Vivo no sul da Noruega, a cerca de 70 km ao sudeste de Oslo. Estou impressionado que os sinais 8

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de sua emissora tenham chegado a um local tão afastado, que fica a mais de 9.000 km de distância”, afirma o aposentado norueguês. Na entrevista a seguir, Tore Vik conta que seu interesse por rádio começou em 1952, aos 14 anos de idade. Nestes 57 anos como DXista, Tore Vik já perdeu a conta de quantas estações de rádio estrangeiras já ouviu, mas lembra que a emissora latinoamericana mais distante que captou foi a rádio Base Esperanza, que funciona na base argentina da Antártida, a região mais inóspita do planeta. Confira: Quando começou o seu interesse por ouvir rádios estrangeiras? Tore Vik - Comecei como DXista em 1952. Antes, preciso fazer um retrospecto. Temos que voltar um pouco no tempo, para abril de 1940, quando as tropas alemãs invadiram a Noruega. Para prevenir que os noruegueses obtivessem informação de fora, todos os receptores de rádio foram confiscados – isso foi na primavera de 1942. Alguns conseguiram esconder seus receptores e continuaram a ouvir. Se você fosse pego com um receptor, a pena poderia ser a morte. Então, quando a guerra terminou, em maio de 1945, a fome por informação era grande. Aqueles que tinham um rádio de repente tinham uma grande plateia em suas casas. Logo depois, veio a “guerra fria”, quando o rádio assumiu um papel muito importante, como intermediador da “verdade real”. Aos 14 anos de idade, comecei a ouvir no nosso aparelho de rádio, durante as horas que a Rádio Nacional da Noruega não transmitia.

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Atualmente, as pessoas preferem usar a internet para ouvir rádios estrangeiras, diretamente dos seus websites. Você ainda usa os equipamentos tradicionais, não é? Por quê? Tore Vik - Neste hobby, você tem que ouvir as ondas de rádio – não via internet. Eu uso um receptor tradicional, mas ele é mais sofisticado do que os receptores comuns que você encontra nas lojas de eletrônicos. Por quê? Humm... Boa pergunta. Acho que tem a ver com o fato de eu gostar de captar os sinais de rádio das ondas com “fades” e barulho. Eu não estou sozinho. Nos anos 60, havia mais de 10.000 DXistas nos países da Escandinávia. O número, com o passar do tempo, diminuiu para algumas poucas centenas, e a idade média é alta. Existem no Brasil dois ou três clubes de DX. A principal organização é o Clube DX do Brasil (www.ondascurtas.com).

n Que equipamento você usou para ouvir a Rádio Cultura

do Pará? Tore Vik - Usei um receptor produzido pela AOR chamado AR-7030. É um receptor muito bom, feito para DXistas e rádio amadores. Sou DXista desde 1952 e o desenvolvimento mudou as coisas dramaticamente – dos receptores analógicos para digitais, mas os sinais de rádio AM são os mesmos.

n Como estava a qualidade do áudio da Rádio Cultura? Tore Vik - Considerando a distância entre o Pará e o Sul da

Noruega, a qualidade estava boa. Os sinais de rádio de países muito distantes viajam um longo caminho antes de alcançar a antena do receptor. Não há apenas a distância física entre o transmissor e o receptor, mas também o sinal precisa ser refletido na ionosfera várias vezes. A energia que é induzida na antena é muito pequena e nós usamos receptores adequados para sinais fracos.

Você é um “colecionador de rádios estrangeiras”? Tore Vik - No início, foi pela informação e para aprender inglês. Hoje, você pode dizer que eu coleciono o som das identificações como ele é recebido aqui e escrevo para as estações de rádio na esperança de que elas venham a verificar se foi a estação de rádio delas que eu recebi.

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Quantas rádios você já “colecionou”? Tore Vik - Já ouvi entre 2.000 e 2.500 estações de radio de todo o mundo.

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Por que você escolheu a América Latina, especificamente? Tore Vik - Pela música. Eu me lembro dos anos quando havia muitas estações de rádio brasileiras em ondas curtas. Eu sentava lá nas últimas semanas de fevereiro ouvindo a música do carnaval de São Paulo e Rio de Janeiro. A primeira estação de rádio brasileira para qual escrevi foi a Rádio Bandeirantes de São Paulo – o ano era 1954.

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Quais são as suas rádios favoritas da América Latina? Tore Vik - A minha área de rádio favorita é o planalto das montanhas dos Andes.

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n Você já tinha ouvido uma rádio de um país tão distante,

quanto a Rádio Cultura do Pará? Tore Vik - As estações de radio brasileiras são ouvidas regularmente. A rádio mais distante que já ouvi é a Base Esperanza, na Antártida. É uma estação de rádio na base argentina.

n Quantas horas por dia você ouve rádio? l Tore Vik - Ouço meu rádio pelo menos duas ou três horas por

dia. Às vezes mais, às vezes menos.

Em sua carta, você disse que não fala português. Você consegue entender alguma coisa que é dita no rádio? Tore Vik - Não, eu não falo nem escrevo em português – mas entendo algumas palavras aqui e ali, mas vocês falam tão rápido que é quase impossível entender. O que eu entendo é quando tem um gol em uma partida de futebol. Acima de tudo, eu gosto de ouvir música – esta é uma língua internacional. n

O que você sabe sobre o Brasil? Tore Vik - Música muito boa – especialmente a bossa nova. Fala-se com frequência sobre a devastação da floresta na região amazônica e como os nativos perdem terreno para os fazendeiros. Também que o Brasil tem uma economia que está crescendo rápido, principalmente na região em torno da costa do sudeste. Também as favelas ao redor das grandes cidades e a alta taxa de criminalidade. Que o Brasil venceu a disputa pelos Jogos Olímpicos de verão – o quê mais? Ah, sim, eu quase esqueci o futebol e que vocês importam bastante bacalhau da Noruega. Eu bebo um copo de suco de laranja toda manhã, de laranjas brasileiras, e café brasileiro. n

Tore Vik: “Estou impressionado que os sinais de sua emissora tenham chegado a um local tão afastado, a mais de 9.000 km de distância” zyg360.com

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>> artigo <<

Ondas Tropicais: as rádios que cobrem longas distâncias

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rádio ainda é a mídia mais imediata que temos, construindo uma relação direta entre o emissor e o receptor. Não à toa, a linguagem de rádio é direta e objetiva, sem textos rebuscados, sem interferências que a dificultem. Hoje existem três modalidades de rádio: As FM, que têm caráter mais urbano e são de pequeno alcance, porém com boa qualidade de som. As ondas médias, que têm um alcance razoável, mas que não passam por obstáculos grandiosos. Por fim, as rádios de ondas curtas, que se dividem em ondas curtas para o sul do país e ondas tropicais para o norte. É sobre este modelo de rádios ondas tropicais que vamos falar, em particular, da Rádio Cultura Ondas Tropicais. As rádios OT, como são chamadas, chegam a longas distâncias porque nesse tipo de rádio a onda é jogada direto na ionosfera, que a trata e a expulsa em forma de guarda-chuva, fazendo com que ao som chegue a enormes distâncias. Na Europa, as rádios OT são muito utilizadas, como a RDPI de Lisboa por exemplo, ou a Deutsche Welle, a Rádio Pública da Alemanha. Através da RDPI de Lisboa, programas em rádios OT são ouvidos em todo o continente africano. No Brasil, a maior potência de rádio nessa modalidade é a Itatiaia, com transmissor de 100 kW. Na Amazônia, atualmente a mais popular das rádios em ondas tropicais é a Difusora de Macapá, que está em pleno funcionamento.

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Foto: Renata Biondi

A Rádio Cultura Ondas Tropicais tem vida longa. Ela abre fronteiras em locais onde a televisão e nenhuma outra modalidade de rádio chega.

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Antônio Carlos de Jesus dos Santos

Em Belém do Pará, o Grupo Liberal, a RBA e a Marajoara têm rádios em ondas tropicais e uma quarta pertence a uma igreja evangélica. Este tipo de rádio é perfeita para a Amazônia, pois a floresta é uma grande barreira, principalmente para as rádios FM. Já as AM ainda conseguem passar, mas quanto mais densa a mata, mais difícil fica a propagação. Como a onda da OT trabalha rebatida na ionosfera, ela tem a capacidade de chegar aos lugares mais longínquos desse estado e até fora dele. É exatamente por isso que nosso trabalho trata da Rádio Cultura Ondas Tropicais. A IMPORTÂNCIA DA RÁDIO CULTURA DO PARÁ ONDAS TROPICAIS A Rádio Cultura do Pará Ondas Tropicais nasceu em 1977 e a partir de 1978 entrou definitivamente em operação. Os estúdios e o transmissor da emissora ficavam no município de Marituba, na região metropolitana de Belém. A emissora inaugurada pelo governo do Estado tinha um propósito: levar a informação, prestação de serviço e utilidade pública para todo o Estado do Pará. Com uma equipe mínima, mas disposta a desenvolver um grande trabalho, a Rádio Cultura OT, como era conhecida, chegava aos mais distantes municípios do Estado do Pará com uma extraordinária qualidade de som, pois seus transmissores eram os mais potentes e modernos do Estado do Pará. Mas o que o governo do Estado, naquela época, queria


A CULTURA ONDA TROPICAL SE CALA Em abril de 1998, a Rádio Cultura do Pará foi retirada do ar. Motivo: o governo do Estado precisou do terreno onde estava instalado o transmissor, e prometeu levar os equipamentos para um outro local, o que não aconteceu e não houve interesse por parte das autoridades. A Rádio Cultura se calou e com ela toda a população paraense que tinha uma voz. A decisão de retirar a emissora do ar causou tristeza e decepção entre ouvintes e funcionários que perderam um grande meio de comunicação, principalmente os ouvintes que não teriam mais como saber as notícias do Pará, do Brasil e do mundo. MAS A ESPERANÇA RENASCE DAS CINZAS Mas o que ficou calado durante 11 anos voltou a falar para a Amazônia, para o Brasil e para o mundo. A volta da Rádio Cultura do Pará Ondas Tropicais já é realidade. A partir de um trabalho árduo, de muita luta e pesquisa, o que parecia um sonho se tornou realidade. A OT voltou a funcionar em 2009, graças ao esforço da presidência da Funtelpa, Regina Lima, que conseguiu junto à Empresa Brasil de Comunicação (EBC) recursos para a compra de equipamentos. A população paraense voltou a contar com a presença da Rádio Cultura OT em todo o estado. A RÁDIO OT NÃO É UMA RÁDIO URBANA Com o advento das rádios FM, as rádios transmitidas por ondas tropicais se concentraram em atender a população que reside nas áreas rurais. No caso do Pará, as populações ribeirinhas habitam lugarejos conhecidos como igarapés e furos de rios. O cidadão urbano já não se dá conta de quanto de informação tem à disposição logo ao sair de casa, seja quando olha para o outdoor, os jornais na banca de revista, os serviços de autofalantes nos postes de feiras e mercados, sem falar nas infinitas possibilidades que a internet proporciona de acesso à informação.

A Rádio Cultura Ondas Tropicais é um bem público, praticamente perdido, e que foi recuperado, atendendo principalmente aqueles que têm pouco acesso à informação.

mesmo era fazer com que uma emissora de rádio da capital suprisse as necessidades das populações mais distantes, carentes de informação. Com uma programação diversificada, onde o forte era a Música Popular Brasileira e o Jornalismo, a Rádio Cultura Ondas Tropicais conquistou a simpatia dos paraenses e até de populações de outros Estados, como Maranhão, Amapá, Amazonas e outros, além de ouvintes de vários países. No início da década de 80, os estúdios da Rádio Cultura do Pará saíram de Marituba e passaram a funcionar no prédio onde funciona a Imprensa Oficial do Estado, na Avenida Almirante Barroso. Em Marituba, só ficou o transmissor da emissora. A Rádio Cultura chegava aonde não chegava a televisão e nenhum outro veículo de comunicação, a não ser a emissora oficial do Governo do Estado. A emissora sempre foi um veículo com o objetivo de auxiliar os ouvintes onde que eles estivessem.

No entanto, o cidadão ribeirinho, quando sai de casa se depara com o rio, com a mata e o acesso à informação para esse habitante da floresta se dá principalmente pelo rádio. Porém, a rádio que consegue ultrapassar a barreira natural de árvores da Amazônia é a transmitida em ondas tropicais. Não à toa, somos ouvidos em todo o Pará, em todos os estados da Região Norte e alguns da Região Nordeste, além de chegar em mais de 10 países. Rapidamente, estamos retomando o espaço deixado há mais de 11 anos, quando a Rádio OT foi retirada do ar. Cartas e telefonemas já são muitos e as pessoas começam a procurar a OT para achar parentes, mandar recados, fazendo com que ela retome também o papel de ser uma rádio de serviço à disposição da população. Preparada tecnologicamente para receber o sinal digital, a Rádio Cultura Ondas Tropicais tem vida longa. Abre fronteiras em locais onde a televisão e nenhuma outra modalidade de rádio chega. Temos o mais avançado equipamento dessa modalidade de rádio em Belém. Nosso transmissor foi montado usando a tecnologia de módulos, em estado sólido, sem a válvula central. Isso nos permite ter um som limpo, de qualidade, transmitido a enormes distâncias. A Rádio Cultura Ondas Tropicais é um bem público, praticamente perdido, e que foi recuperado, atendendo principalmente aqueles que têm pouco acesso à informação. Esta iniciativa demonstra que fazer comunicação pública é ter o cidadão como prioridade. É ter compromisso com a cidadania, com a integração de um estado que possui uma identidade geográfica peculiar e que a comunicação tem papel fundamental na cidadania plena do homem da Amazônia.

Antônio Carlos de Jesus dos Santos é diretor da Rádio Cultura do Pará zyg360.com

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Foto: Renato Araújo/ABR

Realizada em Brasília, a 1ª Conferência Nacional de Comunicação foi o ponto culminante de uma série de conferências regionais

>> mídia <<

Conferência discute políticas de comunicação 1ª Confecom estimula o debate sobre a democratização dos meios de comunicação

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dia-a-dia do brasileiro é assim: acorda, escova os dentes e assiste à televisão, enquanto toma caféda-manhã. Em direção ao trabalho, ele folheia a edição impressa do jornal. Durante o dia, acessa seu e-mail, recebe anúncios, campanhas publicitárias de toda natureza, lê a notícia “em cima da hora” e no final do dia, liga a televisão novamente. Cotidianamente, somos bombardeados de informações das mais variadas. Como mensurar o proveito de todo esse acúmulo de “quems”, “comos” e “porquês” na vida de um indivíduo? Qual a importância dos signos comunicativos em nossa vida? 12

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Já está na hora de começarmos a refletir coletivamente sobre isso. O movimento a favor deste debate já existia. Faz tempo que o setor alimentava a esperança de, enfim, travar um debate sobre a manutenção do que produzimos e consumimos, além de maturar as possibilidades inclusivas da comunicação social. Finalmente, em dezembro de 2009, a sociedade brasileira (em suas três esferas – sociedade civil, sociedade civil empresarial e poder público) assistiu e participou da 1ª Confecom, a Conferência Nacional de Comunicação.


Foto: Eunice Pinto/AGPA

Anunciada pelo presidente Lula durante o Fórum Social Mundial em Belém, a Conferência foi legitimada em 16 de janeiro de 2009, através de um decreto convocatório. Estava aberta a temporada das preparações. Para arregimentar esse espaço, pré-conferências municipais e estaduais em todo país levaram às mesas de discussão nacionais anseios e propostas de mudança nutridas por uma palavra de ordem: democratizar. Mas, como? Falar em democratização dos meios nos faz lembrar, automaticamente, da concentração dos mesmos. “A comunicação sempre foi tratada como um bem privado. A população assiste à TV, mas não sabe quem define os conteúdos da televisão nem o que é pautado pela mídia”, afirma Leslie Batista, integrante do Coletivo Brasileiro de Comunicação – Intervozes e representante da sociedade civil, que participou da realidade pré e pós-conferência. Para desenrolar o debate, a Confecom se construiu a partir do tema “Comunicação: meios para a construção de direitos e de cidadania na era digital”, regido pelos seguintes eixos temáticos: “Produção de Conteúdo”, “Meios de Distribuição” e “Cidadania: direitos e deveres”. Durante as etapas regionais, grupos de trabalhos foram formados a fim de propor caminhos para viabilizar a democratização com abrangência e marca nacional. Foto: Elza Fiuza/ABR

Delegados de todo o Brasil avaliaram as propostas para o campo da comunicação

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Ao final da Conferência, mais de 700 propostas foram aprovadas. “Todas as demandas históricas do movimento pela democratização da comunicação foram debatidas e em boa medida aprovadas”, salienta o presidente da TV Cidade Livre de Brasília, Beto Almeida, em seu artigo publicado no site www.proconferencia.org.br. Para Beto, a 1ª Confecom representou um significativo avanço no fortalecimento do movimento pró-democratização, que se opõe à monopolização dos veículos de comunicação, claramente contrários ao andamento das discussões. As proposições aprovadas na Conferência foram reunidas em um Caderno de Resoluções. Segundo entidades como o Observatório do Direito à Comunicação, este documento se tornou a ferramenta central para as organizações e movimentos sociais que lutam para fazer valer o direito à comunicação no país. Uma das conquistas da Confecom foi a indicação para se criar um novo Conselho Nacional de Comunicação. Com poderes deliberativos, a nova instância seria composta por membros das três esferas – federal, estadual e municipal, sendo distribuídos em caráter paritário. Entre suas atribuições, estão: a regulação de conteúdo, políticas de concessões, mecanismo de distribuição, entre outras atividades. Foto: Eunice Pinto/AGPA

Foto: Renato Araújo/ABR

Pós-conferência

O radialista Jonas Banhos, do Amapá, levou irreverência ao evento

No Pará, a 1ª Conferência Estadual de Comunicação aconteceu de 20 a 22 de novembro de 2009, em Belém. A sua realização foi antecedida por outras pré-conferências realizadas nos municípios de Marabá, Altamira, Santarém e Belém. Em cada uma delas, a discussão foi desenvolvida a partir da realidade amazônica. Devido à geografia natural da região, algumas localidades ainda apresentam como principal ou único veículo de comunicação o chamado “rádio antena”. Daí, por exemplo, a necessidade de se falar do local para o nacional. Com as propostas no braço, mais de 130 entidades com representantes de todo o país ocuparam, dos dias 14 a 17 de dezembro, as cadeiras do Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília (DF). Na programação, 15 grupos de trabalho fomentaram as discussões e destrincharam as propostas trazidas de cada canto do Brasil. Um total de 1.684 delegados, que saíram dos processos de conferências estaduais, foram distribuídos pelos grupos de trabalho, observados os critérios de distribuição dos segmentos na proporção de 40% para a sociedade civil, 40% para a sociedade civil empresarial e 20% para o poder público. Além dos GTs, foram montadas mesas compostas por representantes de outros países, “para que trouxessem experiências de outras realidades”, nas palavras do Presidente da Comissão Organizadora, Marcelo Bechara. 14

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Paulo Roberto Ferreira, secretário de Comunicação: “A Confecom é uma conquista da sociedade. É a primeira vez que ela é chamada para discutir comunicação”


Foto: Eunice Pinto/AGPA

Na Conferência Estadual, realizada no Parque dos Igarapés, as propostas foram debatidas de forma democrática

A comunicação sempre foi tratada como um bem privado. A população assiste à TV, mas não sabe quem define os

conteúdos nem o que é pautado pela mídia.

Leslie Batista, do Intervozes Além do Conselho, a Conferência aprovou modificações mais imediatas no conteúdo, tais como: uma nova configuração dos conteúdos regionais, sendo 50% do conteúdo local e regional e o restante para a produção nacional; incentivo à produção independente através de editais; a veiculação massiva de conteúdos de caráter educativo, cultural, informativo e ambiental de países latino-americanos, estabelecendo a política de integração com países da América Latina, entre outros. “Há ainda um leque de medidas de cunho estratégico aprovadas na Confecom, especialmente aquelas reiteradas reivindicações para que o governo promova, como política de Estado, um plano nacional de Banda Larga democrático, inclusivo, chegando aos grotões deste país”, considera Beto Almeida. Sobre isso, o coordenador da Telebrasil, Marco Aurélio Lopes, afirma que o Plano Nacional de Banda Larga representa uma das propostas afinadas com o processo de democratização do aparato comunicativo do país. “O estabelecimento do plano que apresente de forma clara a prioridade nacional quanto ao desenvolvimento de políticas públicas que promovam rapidamente a evolução do marco

legal, regulatório e de relações de consumo, com vistas a incentivar o investimento em redes, soluções e aplicações voltadas a utilização dessa tecnologia para otimizar a oferta de serviços à população brasileira”, ressalta Marco Aurélio, considerando a multiplicidade de caminhos por onde o plano poderia enveredar. Com a nova ferramenta em mãos, o que esperar para o futuro? Para Roseli Koffman, da Federação Nacional pela Democratização da Comunicação, “a conferência é uma oportunidade que os movimentos sociais criaram a partir da discussão da necessidade de fazer um contrato público no campo da comunicação e fazer vigorar pela primeira vez”. E serão essas mais de 30 mil pessoas, que participaram de todo esse processo de construção, aliado ao restante dos brasileiros, que têm o compromisso de criar, segundo Indira Amaral, representante da Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais (Abepec), uma unidade de força tal entre as esferas sociais, capaz de eliminar uma herança autoritária e fazer valer a participação popular em decisões importantes como os rumos da comunicação no país. Foto: Tamara Saré/AGPA

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>> funtelpa <<

TV Cultura em todas as regiões de integração do Pará Fotos: Tamara Saré/AGPA

Emissora pública paraense inicia 2010 com 60 retransmissoras

A governadora Ana Júlia Carepa e a presidente da Funtelpa, Regina Lima, inauguram a retransmissora de Juruti

I

niciado em janeiro de 2008, o projeto de expansão do sinal da TV Cultura do Pará se transformou em uma das mais importantes ações estratégicas e políticas da Fundação Paraense de Radiodifusão – Funtelpa. Mais do que levar um canal de televisão para milhares de pessoas que tinham pouca, ou nenhuma, opção de entretenimento, a expansal devolveu aos cidadãos o direito de ter acesso ao conteúdo da TV pública e educativa paraense, oportunizando à população do Pará a possibilidade de se conhecer e reconhecer através da programação da TV Cultura. “A única forma de sabermos o que acontece em Belém e no Pará é pela TV Cultura, porque os outros canais que sintonizamos pelo satélite só passam a programação de outras cidades, como Rio e São Paulo”. Esse depoimento, vindo de um cidadão bagriense, infelizmente não é exclusividade entre 16

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os 20 mil habitantes do município, localizado na Região do Marajó. O auxiliar administrativo Carlos Castro conta que em Bagre poucos são os recursos que a população dispõe para ter acesso à informação. Partindo desde estações de rádio, passando por jornais impressos, televisão, chegando até a mais recente tecnologia, a internet, que, naquele município, só é possível ter acesso via modem de telefonia móvel. “Aqui no município somos muito carentes na área da comunicação. Antes tinha muita rádio pirata, mas que foram fechadas pela nova administração municipal. Hoje, só temos a Rádio Cipó e recebemos o sinal de três emissoras de rádio: a Rádio Breves FM, Rádio Clube do Pará e agora a Rádio Cultura Ondas Tropicais”, diz Carlos Castro. Historicamente, os problemas críticos de cidades de qualquer região do Brasil, ou mesmo de outros países, estão


A meta da Funtelpa é instalar outras 20 retransmissoras até o final de 2010, totalizando 80 repetidoras em todo o Estado

concentrados nas áreas de educação, saúde, segurança pública e saneamento. Entretanto, a população também precisa ser informada (e bem informada), ter opções de entretenimento quando estão em seus lares, assistindo à programação da televisão. A Funtelpa, fundação que administra as concessões de rádio e TV públicas do estado do Pará, traçou como meta estratégica, entre outras ações, fazer valer o direito do cidadão de ter, em pleno funcionamento, o canal de radiodifusão público e educativo, tendo com norte a difusão, com responsabilidade, de informação, cultura e entretenimento para aproximadamente 7,5 milhões de paraenses, distribuídos entre os 144 municípios do Estado. O primeiro passo foi retomar 13 retransmissoras que estavam sendo indevidamente exploradas pela TV Liberal, afiliada da Rede Globo no Pará, através de contratos/ convênios celebrados por antigos gestores da Fundação. A assinatura e sucessivas renovações do contrato celebrado por antigos gestores da Funtelpa com a TV Liberal, ocorridas entre setembro de 1997 a dezembro de 2006, consumiram da Fundação mais de R$ 35 milhões ao longo dos 10 anos de vigência. As 13 retransmissoras foram devolvidas em 2001, mas somente em 2007 elas foram efetivamente retomadas, reestruturadas e adequadas para o recebimento e transmissão do sinal da TV Cultura para os municípios do interior do Estado. Após a retomada dos canais, que são de direito da Funtelpa (o Ministério das Comunicações concedeu à emissora a utilização de 81 canais), a Fundação começou a levar a imagem e o som da TV pública para o interior do Estado. Passados dois anos após a primeira inauguração, ocorrida em 20 de janeiro de 2008, quando a Funtelpa levou ao município de Abaetetuba, nordeste do Estado, a retransmissora do sinal da TV Cultura do Pará, a Fundação Paraense de Radiodifusão comemora a superação de vários obstáculos. Até o final de dezembro de

No final de 2010, a Funtelpa já havia garantido a transmissão do sinal para todas as doze regiões de integração do Estado. 2010, a Funtelpa já havia garantido a transmissão do sinal para todas as 12 regiões de integração do Estado. Só em 2009, a TV Cultura instalou suas antenas em mais 39 municípios paraenses, chegando a marca de 60 localidades que retransmitem o sinal da TV Cultura do Pará, que, até 2007, era gerado somente para a Região Metropolitana de Belém. Diante de tantos desafios, hoje a TV Cultura do Pará ostenta a conquista de fazer chegar às residências de mais de 3,6 milhões de pessoas uma programação feita por e para paraenses, que atualmente reúne, por semana, mais de 25 horas de programação local, com programas como Jornal da Manhã, Jornal da Tarde, Direto da Redação (com três edições diárias), Esporte Cultura, Sem Censura Pará, Controvérsia, Cultura Paidégua, Sementes, 7 Set Independente, Cinerama, Moviola, Cena Musical e o infantil Catalendas, além de interprogramas como Invasão, VideoVerso, Sou Mais Cultura e França.PA. Até 2010, a TV pública do Pará reunirá 80 retransmissoras em todos os cantos do estado, exibindo uma programação de qualidade, com foco na cultura e na identidade do paraense. zyg360.com

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Foto: Eunice Pinto/AGPA

A chegada, O novo, A mudança Ainda que seja reconhecida a importância de um canal de televisão, o novo e a mudança, às vezes, despertam a desconfiança e o receio de aceitar a novidade. Passado o período de adaptação, a Cultura acabou se consolidando em muitos municípios, e, em muitas localidades, chega a ser o canal mais assistido. “Como cultura não faz parte da vida de todo mundo, acaba que são apenas pessoas seletas que assistem aos programas culturais. No início, teve um pouco de rejeição por parte da população de Ipixuna do Pará. Porque eles estavam acostumados a um tipo de programação que de repente mudou. Mas com o trabalho de divulgação e esclarecimento que fizemos no município, explicamos a importância da população assistir a um canal de TV que, além de programas de diversão, também passasse programas educativos. Tanto que hoje, o Canal 9 já é bastante assistido pela população”, garante Wanderley Souza, que trabalha há 18 anos com comunicação no município de Ipixuna do Pará. A situação não foi diferente em Cachoeira do Arari, município pertencente à Região de Integração do Marajó, distante 75 km de Belém. “A Globo já formou uma cultura na população de ser a grande fonte de informações e entretenimento. Mas a programação da TV Globo não traz benefícios, desenvolvimento e conhecimento, até porque eles não difundem e divulgam a 18

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Você ainda se lembra da história do nosso primeiro personagem dessa reportagem, Carlos Castro, morador da cidade de Bagre (que falou sobre a carência de serviços de comunicação no município)? Talvez essa carência não seja marcante para o leitor da ZYG360.com, que é uma revista em meio a tantas opções tecnológicas e informacionais, principalmente para aqueles que dispõem de vários recursos de comunicação, como telefonia fixa e móvel, livros, jornais impressos, revistas ou mesmo uma gama bastante variada de canais de TV (tanto no canal aberto, como fechado).

Nesse ano, graças à Cultura, pudemos assistir a trasladação, romaria, e a procissão de domingo. Dessa vez, a Nossa Senhora de Nazaré ficou mais perto de nós.

O sinal da TV Cultura alcança mais de 3 milhões de paraenses

nossa cultura, por exemplo do Marajó, eles só retransmitem uma programação que é nacional”, disse Antônio Muribeca, radialista que mora em Cachoeira do Arari. “Com a chegada da Cultura, foi quebrada essa barreira. A TV Cultura divulga a cultura paraense e as diversidades de cada município, que precisam ser respeitadas”, completa Muribeca, que também é escritor, poeta, historiador e agente multiplicador de turismo, um verdadeiro guarda-costas e defensor da cultura marajoara. Distante 253 quilômetros de Belém, Ipixuna do Pará, que recebe a programação da TV Cultura desde janeiro de 2009, foi a 22ª retransmissora instalada e a primeira, das 39 RTVs instaladas em 2009. Mas nem tudo são flores. Por alguns momentos, havia interrupções no recebimento e distribuição do sinal. “Às vezes a TV Cultura sai do ar, passa uns cinco minutos fora do ar e retorna a programação. Isso atrapalha. Às vezes estamos acompanhando uma notícia no Jornal e, de repente, sai do ar. Quando volta, aquela matéria já acabou e perdemos a informação”, lamenta Wanderley. O que, a princípio, seria tratado apenas como um problema, acabou por servir como um verdadeiro termômetro da receptividade do canal educativo e público no município, como afirma Wanderley. “Quando ficou ruim, aí que vimos quanto a população sentia falta da programação. Era mais quem reclamava. Ligavam para a Prefeitura pedindo informações e providências. Então falávamos com os técnicos em Belém, e eles resolviam o problema”. Saindo da região do Rio Capim e passando à Ilha do Marajó, distantes aproximados 330 quilômetros, a mudança que a chegada do sinal da TV Cultura do Pará trouxe à população do Marajó também surpreende. “Quando começou a mostrar as reportagens de expectativa da inauguração do sinal em Cachoeira do Arari, a cidade ficou em festa”, lembra Antônio Muribeca. A corrente se mantinha com a tradicional divulgação boca a boca. O vizinho avisava o comerciante, que avisava os parentes, que ligava para os amigos moradores de Belém para avisar que ele iria aparecer na televisão. “Os colegas de trabalho, donos de bares e restaurantes ficaram muito ansiosos, querendo logo saber quando as reportagens que tinham sido gravadas com eles iriam entrar no ar”, revela o radialista. A Cultura que chega para todos

Carlos Castro, sobre as transmissões do Círio de Nazaré


Foto: Tamara Saré/AGPA

Os moradores do interior paraense se reconhecem na tela da TV Cultura

Mas não podemos dizer que o mesmo acontece com todos os que recebem, independente do meio, informação através de um produto da comunicação, seja revista, programa de TV ou do som vindo dos programas de rádio. Para o auxiliar administrativo bagriense, pai de duas jovens estudantes, a caixa da televisão, com milhares de imagens projetadas pelo tubo de imagem, não se trata de um simples aparelho eletrônico que adorna o móvel da sala. O ano de 2009 foi mais que especial, tanto para Carlos, como para seus cerca de 20 mil conterrâneos. Pela primeira vez na história que os munícipes puderam acompanhar as festividades do Círio de Nazaré pela televisão. Em outros anos, era preciso a população de Bagre ir para Belém, com longas viagens de barco, para participar das homenagens à Nossa Senhora de Nazaré, padroeira do Pará, que chega a reunir mais de 2 milhões de pessoas em Belém. “A gente quer parabenizar o trabalho da TV Cultura pela transmissão do Círio de Nazaré. É um privilégio grande receber um sinal desse. Principalmente para os paraenses que não podem se deslocar até a capital para acompanhar as procissões, o movimento da cidade com a chegada do Círio de Nazaré”, relata Carlos. Bagre foi o sétimo município do arquipélago do Marajó a receber o sinal da TV Cultura, que já está presente também em Anajás, Breves, Melgaço, Portel, Santa Cruz do Arari, Soure e Gurupá. Carlos conta que os moradores assistiram à transmissão em suas residências, acompanhados do tradicional almoço do Círio, regado a muito pato no tucupi, maniçoba e outras delícias da culinária paraense. “Nesse ano, graças à Cultura, pudemos assistir à trasladação, à romaria e à procissão de domingo. Dessa vez, a Nossa Senhora de Nazaré ficou mais perto de nós”, diz Carlos, emocionado. Para garantir a transmissão do Círio para Belém e demais localidades que retransmitem o sinal gerado em Belém, é exigida uma grande ação de logística, planejamento, divisão de tarefas e engajamento dos funcionários da Funtelpa. A transmissão do Círio 2009, que teve como tema “Fé em nossa Cultura”, mobilizou mais de 250 funcionários da Funtelpa, em uma ação que teve o apoio da Prefeitura de Santarém e patrocínio do Governo do Estado do Pará. Competições esportivas, independente da modalidade, têm como uma de suas características a capacidade de reunir indivíduos de diferentes níveis sociais, culturais e intelectuais com um único propósito: torcer. Com o início das transmissões das partidas do Campeonato Paraense de Futebol pela TV Cultura, foi possível perceber a força não só do esporte, mas do cidadão-telespectador, que liga e envia mensagens multimídia (por e-mail e telefonia

móvel) criticando o técnico ou jogador, sugerindo o melhor esquema tático para o jogo, pedindo para que seja mandado o tradicional “abraço” para amigos, ou ainda, falando sobre a qualidade do sinal em determinado município. “O programa Esporte Cultura e as transmissões das partidas de futebol têm como ponto comum reunir a galera”, diz Antônio Muribeca, de Cachoeira do Arari. Carlos, de Bagre, conta que os programas Jornal Cultura e Esporte Cultura são a principal fonte de informação sobre o noticiário e cenário esportivo. “Hoje ficamos todos atualizados com as informações que acontecem em Belém. Meus colegas ficam muito ligados na programação do jornalismo e do esporte. Só assim a gente fica informado”. O investimento na TV Pública A aposta da Funtelpa foi investir não apenas em recursos tecnológicos ou compra de equipamentos, mas em reconstruir um veículo de comunicação. Com esse pressuposto é que foi reconstruída a espinha dorsal da TV educativa e pública paraense e que, após a retomada das retransmissoras, já é possível sentir a resposta do público. “Acho que foi uma medida acertada do governo. Isso já deveria ter sido feito há muito tempo. As administrações anteriores pagavam para a TV Liberal usar os canais da Cultura, mas a população não tinha o retorno em informação e qualidade de programação. Acho que hoje a Cultura cumpre o seu papel”, diz Wanderley, de Ipixuna do Pará. “Hoje as TVs perderam muito a sua identidade, porque elas querem vender, não importa o conteúdo que elas têm a oferecer para família. Às vezes, a programação das outras emissoras não é adequada para crianças. Eles deixam passar cenas inadequadas para crianças, até no horário da tarde. Por isso que acho as TVs comerciais muito pesadas. Meu filho gosta muito do Catalendas, que fala das lendas amazônicas... isso sim educa”, completa Wanderley, pais de dois filhos, de 4 e 7 anos de idade. Para os moradores de Cachoeira do Arari, a decisão do governo em investir na TV Oública, da mesma forma que também investe na saúde, educação e segurança pública, foi acertada. “O governo acertou no alvo. O Pará estava precisando disso. Se a gente tem uma TV que é nossa, do estado do Pará, logicamente que a gente tinha que fazer uma programação voltada para nossa população. É uma forma de mostrarmos nossa cara, nossa identidade e também de se ver pela tela de um aparelho de televisão, de ver nossa cultura, nossas raízes”, finaliza Antônio Muribeca.

Só em 2009, a TV Cultura instalou suas antenas em mais 39 municípios paraenses, chegando a marca de 60 localidades que recebem o sinal da TV Cultura do Pará. Até 2007, o sinal era gerado somente para a Região Metropolitana de Belém. zyg360.com

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Em março de 2007, Portal Cultura estreou sua segunda versão (foto). Em 2009, foi lançada a versão atual, chamada 3.0

>> internet <<

Portal Cultura pelo mundo Programação da Rede Cultura alcança o mundo inteiro por meio do Portal

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nteratividade. Imediatismo. Sem limites. Vários são os termos e denominações que hoje se tornaram mais do que definição, verdadeiros sinônimos para a rede mundial de computadores. Com os avanços tecnológicos da informática e a disseminação de pontos de acesso, seja via fibra óptica, por rádio, telefonia fixa ou móvel, a popularização da internet foi inevitável. Inevitável e irreversível. E, longe de ser um problema, surge como solução. A Funtelpa, através do Portal Cultura, lançou mão de investir no desenvolvimento de um site que retratasse não apenas a programação dos veículos que compõem a Rede Cultura de Comunicação, a Rádio e TV Cultura do Pará. A

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primeira versão foi criada em agosto de 2005, que, depois de um ano e meio no ar, sofreu a primeira reformulação. Lançado em março de 2007, o Portal Cultura 2.0 ganhou mais editorias e uma nova apresentação visual. Mas a grande mudança ocorreu em 2009, quando o duo “interatividade & informação” foi elevado à máxima potência, com a alimentação regular de informações vindas através de agências de notícias e também com a criação de conteúdo próprio, como matérias factuais, produção de vídeos e entrevistas. A versão 3.0 do Portal Cultura garantiu mais navegabilidade através de menus divididos por cores, o que possibilita uma linha de leitura mais inteligível e agradável para o internauta.


Morando em Paris, Miguel Imbiriba se conecta com o Pará através do Portal Cultura

concluiu os estudos iniciados no Brasil. Os anos fora de “casa” despertam vários tipos de saudade. Saudade da culinária, dos amigos, da música, do clima, da família. “Sem sombra de dúvida, durante todos esses anos vinha acompanhando online a programação de outra emissora daí e mais recentemente tenho acompanhado muito o Portal Cultura. Pela TV ao vivo assisti alguns momentos do Círio 2009, os festejos, alguns shows, culinária, entrevistas’’, conta Ângelo, que é o único brasileiro no seu trabalho, no Centro de Saúde Pintor Olivar. “Espero algum dia poder voltar pra casa, degustar o açaí, o vatapá, o tacacá e poder oferecer algo a essa gente tão lutadora e brilhante do Pará’’, diz o médico. Viagens a negócios, por estudo, transferência de lotação de trabalho, ou mesmo para aventurar, requer, além de coragem - e algum dinheiro no bolso -, muita disposição para deixar para trás amigos, amores, animais de estimação, contatos profissionais, emprego, casa, enfim, uma vida. Quando se perde tantas coisas, encontrar conhecidos, ou uma loja que venda produtos ‘‘Made in Brazil’’ já causa uma satisfação fora do normal. ‘‘Em todas as partes onde estive e sempre quando conhecia um conterrâneo, lhes comentava que era possível ver alguns programas legais ao vivo pela internet e dessa forma levantava o astral da galera quando batia a saudade”, revela Ângelo, que também já morou na Austrália e Rússia.

Sempre quando conhecia um conterrâneo, comentava que era possível ver alguns programas legais ao vivo pela internet.

Durante a reformulação do espaço, ocorrida em 2009, foram criadas também editorias especializadas em Cinema, Cultura, Agenda Cultural e Música, além de uma exclusiva para os vídeos, o canal Multimídia. A seção Portal Entrevista tornou o Portal Cultura pioneiro na produção de vídeos exclusivos para a internet. Já as transmissões ao vivo abrangeram peças teatrais, jogos de futebol, palestras, programas da Rádio Cultura, fóruns e shows de música. Só que as mudanças de visual e conteúdo não foram apenas as grandes revoluções. Com uma maior divulgação do Portal, ele acabou por se tornar um referencial, tanto para residentes no Pará, como para quem mora fora do estado. Diariamente, são enviadas dezenas de mensagens à equipe do Portal Cultura, tendo como conteúdo infinitos temas: pedido de mais informações sobre matérias postadas; reclamações sobre o árbitro de apitou determinada partida de futebol (que foi transmitida via Portal Cultura); pedidos para mandar um “alô” para os amigos que moram em outras localidades; além das mensagens enviadas durante as transmissões de eventos especiais, como o Círio de Nazaré, festivais de música e ópera. O técnico em contabilidade Ronaldo Borges mora no Japão há 12 anos. Ele entrou em contato com o Portal Cultura para falar que acompanha as notícias da sua cidade-natal, Belém, pelo Portal Cultura. Casado e pais de dois filhos, um nascido no Japão e a mais nova nascida em Belém, ele agradeceu o contato feito por Andréia Rezende, funcionária da Funtelpa desde 2003, e colaboradora do Portal Cultura há quatro anos. “Fiquei muito feliz em receber seu e-mail. Estarei sempre acompanhando o desenvolvimento do Portal. Um abraço e até logo”, disse Ronaldo, em sua mensagem. Indo em direção ao centro do continente europeu, chegamos à província de Palência, na Espanha, onde mora o médico Raimundo Ângelo, nascido em Macapá (AP), mas que se diz paraense de coração. Formado em Medicina pela Universidade de Havana (Cuba) e Doutor em Biomedicina pela Universidade de Leon, Ângelo, hoje com 36 anos, morou apenas cinco anos em Belém, com sua família, mas, por motivo de trabalho, todos mudaram para Brasília. Depois de passar por Minas Gerais, Ângelo ainda foi para Havana, onde

Raimundo Ângelo, direto da Espanha

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No Japão há 12 anos, Ronaldo Borges acompanha o Portal Cultura

O Portal Cultura não é o único que ele usa para se manter atualizado sobre as notícias do Pará, confessa Ângelo. Mas também confidencia que a pluralidade da programação da Cultura é mais atrativo do que assistir apenas as mesmas coisas, ou reportagens que não falam sobre Belém. “A gente dança conforme a música! (risos). Sempre encontro algo para fazer, como ver a TV Cultura, pois a programação é super boa. Somos capaz de ver algo sobre o sertão e depois uma matéria falando sobre o Pampa Gaúcho! Esse tipo de variedade cultural que o público gosta de assistir. Ficar sabendo

sobre pacotes de viagem, rotas ecológicas, projetos de preservação ambiental com espaço aberto ao público... Essa é a política da TV Cultura”. O Portal Cultura, como está apresentado ao público, já evoluiu bastante desde o seu lançamento, em fevereiro de 2009, tanto na quantidade e qualidade do conteúdo, quanto na diversidade de produtos que estão livres para serem acessados pelos internautas. Além de uma produção própria de matérias, com séries de reportagens especiais, dicas sobre eventos artísticos, o Portal também disponibiliza os canais TV Ao Vivo e Rádio Ao Vivo, por onde os internautas do mundo inteiro podem ver e ouvir a programação, em tempo real, da TV Cultura do Pará e da Rádio Cultura FM. Depois que os programas vão ao ar, a equipe do Portal faz a captura dos programas e os transforma em arquivos digitais (.wmv para os programas da TV e .wma para os programas da Rádio Cultura), que ficam disponíveis aos usuários para acessarem a qualquer hora pelos links Vídeos e Pod Cast, no Canal Multimídia. Ângelo acompanha vários arquivos que estão no Pod Cast da Rádio. “Pelo horário da tarde e toda noite gosto de ouvir música orquestrada pela Rádio Cultura FM, como os clássicos do mestre Villas-Lobos”. E é assim que o Portal Cultura integra cidadãos do mundo através da internet, uma ferramenta rica de possibilidades criada, inicialmente, por razões bélicas. A “guerra” de hoje é fazer uso dela para encurtar distâncias, criar a sensação de proximidade, realizar atividades profissionais. Viajando novamente pelo globo, vamos a Paris. Os 9.162 quilômetros que separam a capital francesa do Brasil também separaram amigos, costumes e familiares do quadrinista Miguel Imbiriba. Mas, em busca do seu sonho, Miguel levou esposa e constituiu nova família em Paris. Em entrevista à ZYG360.com, Miguel confessou que está pronto para aventurar de novo. Destino? Trocar o gélido clima francês pelo calor de sua terra natal. Confira a entrevista na página ao lado.

Por meio dos canais TV Ao Vivo e Rádio ao vivo, internautas do mundo inteiro podem ver e ouvir a programação, em tempo real, da TV Cultura do Pará e da Rádio Cultura FM. Raimundo Ângelo e suas amigas do Centro de Saúde Pintor Olivar

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Um bate-papo com o quadrinhista Miguel Imbiriba n

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Por que decidiu deixar Belém e ir morar em Paris? Miguel Imbiriba: Bem, desde a adolescência sempre foi meu sonho trabalhar com quadrinhos. Então, num determinado ponto da minha vida, ficou claro que teria que fazer algumas opções radicais pra ir atrás deste sonho. Só existem três lugares no mundo onde se pode viver de quadrinhos: Japão, Estados Unidos e França. Como sempre fui mais próximo do tipo de quadrinho que se faz na Europa, a escolha foi clara. Além disso, eu já conhecia Paris, uma cidade que achava fascinante. Mas não foi uma decisão refletida, foi no “vai ou racha”.  Então, “foi ou rachou”? Imbiriba: Graças a Deus, o sonho se tornou realidade. Hoje trabalho desenhando quadrinhos para a editora Dargaud, a mais importante da França. Estou atualmente desenhando a série Le Dernier Templier (O Último Templário), uma adaptação do best seller homônimo de Raymond Khoury.  Você formou sua família aí? Imbiriba: Sim e não. Minha mulher foi comigo do Brasil, mas meu filhote, Gabriel, já nasceu em Paris. Ele fica torcendo pela França nos jogos de rúgbi e diz que eu é que sou brasileiro, ele é francês. E aí eu respondo: “Francês nada. Tu és um ‘caboco’ do baixo-Amazonas, como teu pai”.

Miguel Imbiriba e sua família: a mulher foi com ele do Brasil. O filho, Gabriel, nasceu na França

Por que você acessa o Portal Cultura e quais programas mais assiste?  Imbiriba: Ah, porque a saudade é muuuuuuuita. Muita mesmo. Como a diferença de fuso horário é grande, eu basicamente assisto ao Jornal Cultura 1ª Edição [Jornal do Meio-Dia] e o Sem Censura. De vez em quando, vejo alguém que eu conheço como convidado e aí a saudade explode. Não é fácil ser paraense longe do Pará. Além disso, assisto muitos Pod Casts do Portal. Sempre encontro algo interessante sobre quadrinhos ou outra coisa qualquer. O Portal Cultura é muito bem feito, digase de passagem. O Portal Cultura ajuda a matar um pouco a saudade da Cidade das Mangueiras. Do que mais sente saudade de Belém? Imbiriba: Honestamente, das pessoas. Antes, logo que fui embora, sentia saudade das comidas, tucupi, açaí e companhia. Mas, depois, estas vontades foram desaparecendo lentamente. Hoje o que me falta são as pessoas que amo e que me amam. Pessoas com quem posso falar sem preocupação. Não é que não tenha amigos franceses, mas tenho a sensação de que sempre falta algo, uma faísca na conversa, sei lá... Pra falar a verdade, estou pensando seriamente em voltar. Acho que está chegando o momento de tomar outra decisão radical.

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Foto: David Alves

A criançada poderá assistir às histórias do Preguinho e da Dona Preguiça quantas vezes quiser, a qualquer hora do dia

>> cultura brands <<

Funtelpa faz parceria para lançar DVDs do programa Catalendas Parceria marca o início do Catalendas Licenciamentos

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Fundação Paraense de Radiodifusão (Funtelpa) estabeleceu, no ano passado, uma parceria inédita com o selo Ná Music para o lançamento em DVD do programa “Catalendas”, programa infantil produzido desde 1999 pela TV Cultura do Pará. Por meio do contrato, a Loja Ná Figueredo passará a produzir, vender e distribuir os DVDs da série, inclusive para outros estados do Brasil. Um percentual das vendas será repassado a Funtelpa e será utilizado nos custos de manutenção da fundação. O idealizador do selo, Natalício Figueredo (ou apenas Ná Figueredo), e a presidente da Funtelpa, Regina Lima, assinaram 24 zyg360.com

o contrato em novembro de 2009. O acordo permitiu à Ná Music produzir uma tiragem de 1.000 DVDs contendo episódios do programa. O objetivo é lançar em DVD todos os episódios da série, de modo a ser comercializado entre os fãs do programa. “Nós vamos fazer o 1° DVD e ver o resultado. Nesse processo, a gente vai logo planejando o outro”, explica Ná. O produtor e empresário acredita que pelo potencial do programa será possível obter sucesso nas vendas e ressalta que um dos principais objetivos é fazer uma boa divulgação do material. Ele adianta que o lançamento está previsto para março de 2010. Os produtos estarão disponíveis nas lojas Ná Figueredo e a distribuição para o país será feita por meio de pedidos via internet.


Foto: David Alves

Foto: David Alves

A iniciativa faz parte de um grande projeto da Funtelpa, chamado Cultura Brands, que tem o intuito de estabelecer parcerias comerciais por meio de patrocínios culturais. Os alvos são iniciativas privadas e instituições públicas que poderão disponibilizar ao mercado produtos gerados a partir dos conteúdos produzidos pelas emissoras da Rede Cultura de Comunicação. Tais parcerias irão fortalecer a marca da Rede Cultura e trazer fonte de renda para a Funtelpa, além de estabelecer um diálogo constante entre o público e os veículos de comunicação da Fundação (TV Cultura, Rádios Cultura FM e OT e Portal Cultura). Regina Lima explica que a parceria com o selo Ná Music, por meio do projeto Cultura Brands, vai dar mais visibilidade aos conteúdos produzidos pela Rede Cultura. Segundo a presidente, o projeto surge da necessidade de dar continuidade a uma linha de produtos que já vinham sendo desenvolvidos pela Funtelpa, como bonecos, jogos, materiais escolares, roupas, entre outros. “Como não temos condições de dar continuidade a estes produtos, decidimos fazer parcerias com empresas do ramo, de acordo com o produto que ela trabalha”, explica Regina Lima. “O grande ganho é estar colocando na prática uma política de visibilidade. Estamos acostumados a divulgar nossas ações somente na TV, no rádio e na revista da Funtelpa, mas quando você coloca isso, por exemplo, em uma camisa, a possibilidade de tornar a marca mais conhecida é maior”, considera.

Os “causos” da Amazônia viram deliciosas histórias no Catalendas

Através do Catalendas, as crianças entram em contato com lendas de várias partes do mundo


Foto: David Alves

sendo exibido para todo o país por meio da TV Brasil. É o único programa da Região Norte nesta condição. Inspirada pela presença que o programa tem junto ao público infantil, a Funtelpa fez do Catalendas o carro-chefe da Cultura Brands, mas outros programas da grade da TV e da rádio também podem ganhar sua própria linha de produtos. É o caso do Regatão Cultural, da TV Cultura, que aborda a vida e a obra de grandes personalidades da história paraense. Criado em junho de 2007, o Catalendas Licenciamentos é um projeto que tem por objetivo a difusão do conteúdo do programa infantil, bem como de seus personagens, Dona Preguiça e Preguinho. O projeto visa ampliar o alcance das marcas Funtelpa e TV Cultura do Pará, além dos conteúdos educativos trabalhados no Catalendas. Vários produtos já foram criados pela própria Funtelpa a partir das histórias exibidas pelo programa. Materiais escolares, jogos, bolsas, bonés, camisetas, cosméticos, brinquedos e alimentos são alguns dos produtos disponíveis. A iniciativa já atingiu o público regional, mas a ideia é expandir as vendas para o território nacional. “Para estabelecer o processo de patentear essas marcas, a gente fez licenciamentos desses produtos. O Catalendas Licenciamentos é o projeto mais consolidado da instituição. Ele gera um conjunto de produtos associados a essa marca”, ressalta a presidente da fundação, Regina Lima. A Funtelpa tem todo o interesse de que outras empresas interessadas se associem à ideia, com infinitas possibilidades de produtos com a marca Cultura. Uma viagem ao mundo lúdico de Dona Preguiça e Preguinho

A sábia Dona Preguiça conhece as lendas da Amazônia e muitas outras

O CATALENDAS

Foto: Renata Biondi

Um programa que permite ao público mergulhar no ambiente mágico das narrativas amazônicas. Este é o Catalendas, no qual são usados recursos naturais da Amazônia para criar uma estética original, como plantas típicas amazônicas, o que faz de cada episódio uma curiosa surpresa. O programa é dividido em episódios com 15 minutos de duração em média. Os personagens interagem através das perguntas que o macaquinho Preguinho faz sobre a lenda escolhida para o episódio. O enredo das histórias é baseado nas lendas brasileiras e amazônicas conhecidas por todos. As histórias são recriadas para mostrar ao público uma forma simples de interpretar as lendas. No final de 2009, o programa Catalendas passou a integrar a grade de programação nacional da Rede Pública de Televisão, Ná Figueredo e Regina Lima assinam o contrato: uma parceria que renderá frutos para os dois lados Funtelpa e Ná Music

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Tudo começou em 1999, durante a Feira Pan-Amazônica do Livro. O programa foi viabilizado por meio de uma parceria entre TV Cultura do Pará e Companhia In Bust, grupo teatral


Em cada DVD, as crianças poderão ver e rever cinco episódios do Catalendas, entre os mais de 50 já produzidos Foto: David Alves

que utiliza bonecos para contar histórias e ilustrar contos e lendas brasileiras. O Catalendas é um programa infantil que utiliza o universo criativo do teatro de bonecos e trabalha o mundo mágico das narrativas populares. Apresentado por dois personagens típicos da floresta (Dona Preguiça, a contadora de estórias que representa a sabedoria) e o Preguinho (um macaquinho que faz o papel do telespectador), o programa é destinado a crianças de 4 a 12 anos. Mas o programa entra no seu 11° ano conquistando tanto as crianças como os adultos, por meio da linguagem simples e pelo visual inédito do teatro de bonecos na TV paraense. A ideia pioneira no Estado surgiu a partir da necessidade de fazer uma atração que ajudasse a divulgar a cultura da região. Além de ajudar a solidificar o conhecimento do público-alvo em relação às lendas amazônicas, a iniciativa ganhou reconhecimento tanto regional quanto nacional. Foi em setembro de 2000 que a Rede Pública de Televisão, por meio da TV Brasil, passou a transmitir o programa para todo o país. No ano de 2002, em São Paulo, cerca de 200 mil famílias paulistas sentavam em frente da TV para assistir às historinhas contadas por Dona Preguiça. No final de 2009 o Catalendas passou a compor definitivamente a grade de programação da TV Brasil. O Catalendas educa, diverte e prova que a nossa cultura está repleta de aventuras e personagens capazes de fascinar crianças e adultos. Um prova disso é o reconhecimento do programa pela Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais (Abepec). Em 2009, o programa veio com novos episódios, novas histórias e novos cenários. O Catalendas é exibido pela TV Cultura do Pará de segunda a sexta, às 11h45 e às 17h. Aos sábados, o programa vai ao ar às 11h45.

Materiais dos mais variados são usados na confecção dos bonecos

O Catalendas Licenciamentos é um projeto que tem por objetivo a difusão do conteúdo do programa infantil, bem como de seus personagens, Dona Preguiça e Preguinho. zyg360.com

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Foto: Glauber Queiroz/AGPA

Primeira representante do Norte a dirigir a Abepec, Regina Lima foi eleita para presidir a entidade pelos próximos dois anos

>> emissoras públicas <<

Abepec elege nova diretoria Regina Lima, presidente da Funtelpa, assumiu a presidência da entidade

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egina Lima, presidente da Fundação Paraense de Radiodifusão (Funtelpa), tomou posse da presidência da Associação Brasileira de Emissoras Públicas, Educativas e Culturais (Abepec). A cerimônia de posse da nova diretoria aconteceu, em Brasília (DF), no Salão Nobre da Câmara dos Deputados. Regina Lima exercerá a presidência da entidade no biênio 2009/2011. Além da presidente Regina Lima, que representa a TV Cultura do Pará, a nova diretoria da Abepec é composta pela Vice-Presidente de Programação, Indira Amaral (da Aperipê TV - Aracaju/SE); Vice-Presidente de Marketing, Ana Paula Gobbi (da TVE - Campo Grande/MS); Vice-Presidente de Tecnologia, Josimey Costa (da TV Universitária - Natal/ RN); Diretor Tesoureiro, Paulo Markun (da TV Cultura São Paulo/SP); e Diretor Secretário, Gilson Santos (da TV Palmas - Palmas/TO). A nova diretoria da Abepec foi eleita no dia 21 de setembro, para mandato de dois anos, permitida sua reeleição para mais um mandato. A Abepec reúne 21 emissoras geradoras de caráter educativo e cultural, não comercial. A enti-

dade, que tem personalidade jurídica de direito privado, sem fins lucrativos, foi criada oficialmente em 28 de outubro de 1998, durante assembleia geral, na sede da TV Cultura, em São Paulo, com presença de dirigentes de 20 emissoras de televisão educativas e culturais do País. No discurso de posse, Regina elogiou o trabalho desenvolvido pela antiga gestão da Abepec e ressaltou a necessidade de valorização dos trabalhos desenvolvidos pelas emissoras públicas brasileiras. Para ela, a comunicação é um direito do cidadão e um dever do Estado. A nova presidente defendeu a formação de uma rede de comunicação pública forte, para a qual serão também necessárias TVs públicas igualmente marcantes. A governadora do Pará, Ana Júlia Carepa, compareceu ao evento. Em seu discurso, ela frisou a importância que tem uma mulher do Norte do país assumir a presidência de uma instituição como a Abepec. “Isso demonstra que as mulheres estão ocupando cada vez mais cargos estratégicos na gestão pública e, mais do que isso, estão preparadas para exercer essas funções”, destacou Ana Júlia Carepa. A governadora zyg360.com

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Foto: Glauber Queiroz/AGPA

A governadora Ana Júlia compareceu à posse de Regina Lima e destacou a presença de uma mulher na presidência da Abepec

durante assembleia geral, na sede da TV Cultura, em São Paulo, com presença de dirigentes de 20 emissoras de televisão educativas e culturais do País. Atualmente, as emissoras da Abepec mantêm uma programação de debates, documentários, programas jornalísticos e infantis, produzidos por emissoras como TV Cultura de São Paulo, TV Brasil, TV Minas, TV Cultura do Pará, TV Cultura do Amazonas, TV Educativa do Rio Grande do Sul e TV Universitária do Recife, entre outras emissoras associadas da Abepec. A programação destas emissoras obedece rigorosamente aos princípios éticos, definidos pelos associados da Abepec, em respeito à sociedade brasileira, que merece assistir a uma programação de qualidade, com conteúdo que enriqueça seus conhecimentos e proporcione entretenimento e diversão saudáveis. Por ser uma concessão pública, a televisão tem como missão – conforme os preceitos básicos das emissoras associadas da Abepec e integrantes da Rede Pública de Televisão – educar, informar, entreter e divertir os telespectadores, observando os direitos das pessoas, principalmente das crianças, e os valores da solidariedade, fraternidade e igualdade.

Isso demonstra que as mulheres estão ocupando cada vez mais cargos estratégicos na gestão pública e, mais do que isso, estão preparadas para exercer essas funções. Ana Júlia Carepa, Governadora do Pará

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acrescentou que a comunicação pública é o espaço mais democrático para a livre expressão de ideias e manifestações sociais, pois está comprometida com a transformação para a cidadania e a construção de uma identidade coletiva. Tereza Cruvinel, presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), destacou a importância da Abepec para o fortalecimento e a construção da rede pública de televisão. “A TV Brasil tem nas emissoras da Abepec grandes parceiras. Somos parceiros de mão dupla”, reiterou. Regina Lima é graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal do Pará (1983), tem mestrado em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1995) e doutorado em Comunicação e Cultura também pela UFRJ (2001). É professora adjunta III (licenciada) da UFPA e do programa de pós-graduação do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA). Exerceu o cargo de chefe de departamento do curso de Comunicação Social da UFPA, no período de 2002 a 2004. A Abepec congrega hoje 21 emissoras geradoras de caráter educativo e cultural, não comercial. A entidade, que tem personalidade jurídica de direito privado, sem fins lucrativos, foi criada oficialmente em 28 de outubro de 1998,


>> rádio <<

24 anos de cultura no ar Programação comemora aniversário da Rádio Cultura FM e reúne antigos gestores, artistas, músicos, personalidades da comunicação paraense e comunidade estudantil

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ais um ano de vida. Acha pouco? Que tal, então, 525.600 minutos de programação no ar? Ainda não foi suficiente? E 12.614.400 minutos de música, transmissões ao vivo, notícias do esporte, da sétima arte, do teatro, de política, de cidadania, de entretenimento, de prestação de serviço para a população? Para você chegar a essa marca, precisaria viver, exatos e intensos, 24 anos, sem direito a um cochilo sequer. Essa é a idade nova que a Rádio Cultura do Pará comemorou em 2009. Desde o longínquo 11 de outubro de 1985, quando a Rádio Cultura do Pará começou a fazer suas transmissões através da sintonia 93,7 FM, o papel da rádio pública e educativa do estado do Pará vem sendo cumprido e, ano após ano, sendo reforçado e melhor trabalhado. Durante esses 24 anos de história, a Cultura FM melhorou a qualidade de transmissão do seu sinal, investiu na profissionalização da equipe de jornalismo, produção, técnica e operacional, tendo Foto: Arquivo

sempre como norte a premissa de oferecer aos ouvintes a boa informação e programação com qualidade técnica e de conteúdo. Para comemorar essas mais de duas décadas de história, a Rádio Cultura FM presenteou os ouvintes da 93,7 FM preparando uma programação especial. Foram quatro dias de intensa programação, cuidadosamente preparada pelos produtores, apresentadores e equipe técnica. Diferente dos anos anteriores, em que a estrutura da rádio era levada para além dos muros do prédio da Fundação Paraense de Radiodifusão, em 2009 a diretoria da rádio resolveu inovar: trouxe os convidados, atrações musicais e culturais, personalidades do rádio e jornalismo paraense para dentro do espaço Café Cultura. O programa Matéria Prima, veiculado de segunda a sexta-feira, sempre das 8h às 11h, transformou-se em um verdadeiro caldeirão musical, indo da música popular


Foto: Renata Biondi

O Grupo de Carimbó Sancari foi uma das atrações da programação especial de aniversário, no Café Cultura

paraense, passando por ritmos latinos, pela cadência do reggae, chegando às plumas e paetês do samba, o que retrata a pluralidade de sons que tocaram na rádio pública paraense desde a década de 80. Durante os quatro dias de comemorações, a Funtelpa ainda abriu as portas de suas instalações para receber estudantes de escolas públicas, que vieram conhecer os bastidores da transmissão ao vivo de um programa de rádio. Ícone da cultura paraense no cenário artístico e musical, o sambista Herivelton Martins, também participou do programaa, contando sobre a sua trajetória musical. “A Cultura FM foi o espaço onde muitos músicos e artistas puderam começar suas carreiras. Ela é a culpada (risos) pelo sucesso de muitos artistas nossos que hoje estão no topo. Graças!”, reconhece o sambista paraense. Francisco Cezar, primeiro diretor da Rádio Cultura FM, e Orlando Carneiro, primeiro presidente da Funtelpa, falaram dos desafios em iniciar, estruturar e dar vida a uma rádio pública de caráter educativo e cultural no Pará. “Vim para a Funtelpa para ser diretor da rádio, a convite do então governador do estado, em uma época em que a Funtelpa se resumia a repetidoras instaladas na zona bragantina e à Rádio Ondas Tropicais. Em 10 meses, implantamos a produção, criamos o jornalismo da OT e colocamos a programação no ar”, lembrou Francisco Cezar. Foto: Arquivo

Além das atrações musicais, a programação também contou com a participação de Paulo Roberto Ferreira, secretário de Estado de Comunicação, que parabenizou a gestão da Funtelpa por levar cultura, entretenimento e informação para a população paraense. “É uma imensa alegria poder participar de mais um ano de sucesso da Rádio Cultura e, principalmente, neste momento quando a primeira emissora, a Rádio Cultura Ondas Tropicais, é reinaugurada. Ela presta um serviço inestimável para esse Estado”, disse Paulo Roberto, que também foi diretor da TV Cultura nos anos de 2007 e 2008. O governo do Estado, desde o início, definiu a comunicação como uma política pública. Um exemplo disso foi a expansão do sinal da TV Cultura do Pará, antes restrita à Região Metropolitana de Belém, que hoje se faz presente em 60 localidades do interior e a meta é chegar aos 80 canais dos quais a Funtelpa possui concessão. Paulo Roberto lembra, ainda, que a expansão da comunicação pública não se restringe às emissoras estatais de rádio e TV. “Temos um programa de inclusão digital como o NavegaPará, que está chegando em centros comunitários, sindicatos de trabalhadores rurais, colônias de pescadores e orlas de cidades, como Abaetetuba, Altamira, Marabá, que permite o acesso livre, sem custos, à internet de alta velocidade”, completou o secretário. O tradicional grupo cultural paraense Arraial do Pavulagem encerrou as comemorações dos 24 anos da Rádio Cultura FM. “É com muito prazer que participo dessa festa, pois a rádio ensina, informa e diverte. Nós do Arraial já somamos 23 anos,  e sempre contamos com essa rádio que é a cara do Pará”, comentou Junior Soares, vocalista e compositor do Arraial do Pavulagem. Um dos programas mais antigos da Cultura FM, o Balanço do Rock também comemorou aniversário


Foto: Rodolfo Nogueira

Outra banda que agitou o Café Cultura foi a Jaafa Reggae. Para o seu vocalista, Acy Ayres, a Rádio Cultura FM não é apenas mais uma das várias emissoras de rádio do Pará. Ela é uma importante ferramenta para que os artistas e músicos que não teriam espaço nas emissoras comerciais divulguem sua produção. “Me sinto em casa quando chego na Rádio Cultura, porque, além de ser bem tratado, ouço música de qualidade que chega para todos do Pará e do Brasil. Vocês nos dão a oportunidade de conhecermos outras culturas e também levam o nosso som para o mundo inteiro”, disse. Outro ponto diferencial neste ano foi a convergência das mídias da Rede Cultura de Comunicação. Os veículos de Rádio e TV fizeram matérias especiais sobre o aniversário. E o Portal Cultura foi mais além: transmitiu, ao vivo, toda a programação de aniversário, com som e imagem, pelo serviço de streaming do Portal Cultura, possibilitando que internautas do mundo inteiro pudessem acompanhar as comemorações dos 24 anos da Rádio Cultura. A importância da rádio como prestadora de serviços

Ex-diretor da rádio, Edgar Augusto está há mais de 20 anos na Cultura

É com muito prazer que participo dessa festa, pois a rádio ensina, informa e diverte. Junior Soares, do Arraial do Pavulagem

Há quem diga que a era do rádio já acabou. Outros afirmam que com a chegada da internet e as novas tecnologias é apenas questão de tempo para o rádio virar coisa do passado e deixar de existir. Porém, algumas pessoas apostam que o rádio continuará sobrevivendo a qualquer novidade. Um dos motivos para que isso continue sendo verdade é que ele ainda é um dos veículos mais rápidos e práticos para se obter informação em tempo real, especialmente quando se fala na prestação de serviços públicos. Assim, na hora de informar que a energia elétrica será interrompida em determinados bairros ou divulgar pedidos de doação de sangue, campanhas de vacinação, entre outras coisas, o rádio ainda é o veículo ideal. A interrupção do funcionamento de serviços essenciais, como água e energia, sempre causa transtornos aos usuários. Uma forma

Foto: Rodolfo Nogueira

No Café Cultura, funcionários antigos e atuais trocaram experiências sobre o que é fazer o dia-a-dia de uma rádio pública zyg360.com

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Fotos: Rodolfo Nogueira

Nos quatro dias de comemoração, a música, do pagode ao chorinho, foi presença constante na programação

através da sua profundidade emocional em certos casos, ou com o tom impactante, devido à sua transmissão. “Podemos perceber pela quantidade de pessoas na sociedade atual que ouvem rádio de forma portátil, que este meio sofreu grandes mudanças, mas jamais perdeu sua credibilidade. Com seus conteúdos passados de forma única consegue fixar mais as informações e suas ideologias do que um livro”, assegura. Hamilton destaca ainda que mesmo as rádios de caráter comercial têm sua seção para a prestação de serviços, que ainda hoje tem grande procura.

O rádio sofreu grandes mudanças, mas jamais perdeu sua credibilidade. Hamilton Pinheiro, gerente de Jornalismo

encontrada pelas empresas fornecedoras desse serviço é comunicar a população através do rádio. Concessionárias de energia elétrica e de abastecimento de água lançam mão da rádio para veicular seus comunicados sobre interrupção do fornecimento de seus serviços. Da mesma forma com montadoras de veículos, que também fazem uso das ondas do rádio para convocar os usuários de automóveis a comparecer às montadoras ou concessionárias de veículos a fim de fazer um serviço ou troca de peças do veículo, recurso comumente chamado de recall. Antes do surgimento dos modernos meios de comunicação o rádio já era usado como transmissor de mensagens e recados. Hoje, mesmo diante da abundância de meios de comunicação, o rádio ainda é muito utilizado para serviços como: dados sobre o trânsito, previsão do tempo, serviço de achados e perdidos, anúncio de pessoas desaparecidas. Quem não conhece a história deste veículo se pergunta: afinal de contasm por que diante de tantos meios mais modernos o rádio ainda faz tanto sucesso? O rádio é um instrumento que pode ser ouvido em qualquer lugar, além de ser um aparelho barato, ou seja, pessoas das mais variadas classes econômicas têm acesso a ele. Para o Gerente de Jornalismo Hamilton Pinheiro, um dos mais antigos e experientes funcionários da Rádio Cultura, o rádio possui uma grande capacidade de envolver as pessoas,

Nestes 24 anos, a Rádio Cultura FM conseguiu conquistar todos os públicos: jovens, adolescentes, crianças, adultos e idosos

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TV Cultura investe em novos conteúdos

Emissora pública paraense traz novidades em 2010, com reformulação de programas e novas atrações na grade

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TV Cultura do Pará inicia o ano de 2010 com novidades na grade de programação. Os programas jornalísticos que são o carro-chefe da emissora passaram por uma reformulação visual completa, com novos cenários e vinhetas de abertura. O Jornal Cultura 1ª e 2ª Edições passam a se chamar Jornal do Meio-Dia e Jornal da Noite e, junto com Sem Censura Pará e o Esporte Cultura, iniciam o ano de cara nova. Além disso, a grade de programação vem com novidades, incluindo um telecurso de francês e uma nova temporada do “Invasão”, o mais recente programa da emissora.

Uma parceria entre a Fundação Paraense de Radiodifusão (Funtelpa), Embaixada da França no Brasil e Aliança Francesa de Belém permitirá que os paraenses aprendam a língua francesa por meio da televisão. Pela parceria, a embaixada francesa disponibilizará os vídeos do site Francoclic (www.francoclic.mec.gov.br), voltado ao aprendizado da língua francesa. O site, por sua vez, é resultado de uma parceria entre a Embaixada da França no Brasil e o Ministério da Educação (MEC).

Foto: Pablo Almeida

>> televisão <<


Foto: Rodolfo Nogueira

O Sem Censura Pará é um dos quatro programas que ganharam cenários novos para 2010, criados pelo designer Andrei Miralha

Concebido especialmente para o público brasileiro, o método Francoflic é composto por cinco módulos: “RefletsBrésil” (de auto-aprendizagem), “Br@nché!” (de utilização em sala de aula), “Agriscola” (de especialidade agrícola), “Le monde francophone d’un clic” e “Images de France” (ambos voltados à descoberta da cultura francesa). Na TV Cultura, o público poderá assistir a vídeos em formato de vídeo-aula, incluindo uma pequena novela de 24 capítulos, na qual, ao final de cada capítulo, o aluno aprende uma lição. A partir do material disponibilizado pela Embaixada da França, a TV Cultura irá inserir um apresentador a fim de adequar o conteúdo à linguagem televisiva. O apresentador vai se apropriar do universo da língua francesa para expor ao público a temática do episódio a ser exibido. O diretor da TV Cultura, Dimitri Maracajá, adianta a possibilidade de o programa ser exibido em para todo o Brasil. “Este é o primeiro piloto que possivelmente vai invadir a grade das TVs públicas do Brasil. Se esse formato der certo, vamos mostrá-lo para as demais emissoras públicas, por meio da Abepec, pois é um conteúdo que vale à pena ser exibido em rede nacional”, avalia. Em 2009, foi comemorado o Ano da França no Brasil. Ao longo de todo o ano que passou, a Aliança Francesa manteve uma relação bem próxima com a TV Cultura do Pará. “Desde o início de 2009, a Aliança Francesa foi uma parceira nossa, em termos de conteúdo, fornecer ideias, informações”, lembra Dimitri. O programa de vídeo-aula é um dos resultados desta parceria. 36

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O público paraense poderá aprender francês por meio do Francoclic, que estreia na tela da TV Cultura em 2010 Foto: C.H.Gondim

Gleyse Menezes apresenta o Jornal da Noite


É possível ser universal, respeitando algumas questões da TV. O novo projeto deixa o telespectador confortável. Dimitri Maracajá, diretor da TV Cultura

cor. E televisão é padrão. Não um pensamento padronizado, mas um mínimo de padronização do corpo de informação da emissora é importante. Nós arrumamos isso e agora estamos partindo para um outro estágio. Estamos fazendo um refinamento de toda a identidade visual do jornalismo, que vai dar uma outra cara para os programas”. Gradativamente, as inovações que iniciaram pelo jornalismo vão se estender para toda a grade de programação da TV Cultura. “Aos poucos, de acordo com a nossa disponibilidade financeira, vamos fazer essas mudanças. Vamos começar pelo jornalismo e passar para toda a programação”, adianta o diretor. O diretor ressalta que o telespectador também pode esperar por uma mudança conceitual nos programas da emissora. “Nos jornais, queremos fazer algumas interferências ao vivo, externamente. Teremos um repórter ao vivo, com um link para o estúdio, mostrando como está o trânsito, o clima. Isso não é nenhuma novidade, várias emissoras fazem isso. Mas queremos dar uma aquecida no jornal, sair do lugar-comum”, ressalta o diretor. O Sem Censura Pará vai ganhar um chat ao vivo, que permitirá que os telespectadores e internautas se comuniquem diretamente com a apresentadora e os entrevistados do programa.

Foto: Rodolfo Nogueira

Os programas jornalísticos da TV Cultura iniciam o ano renovados. Os programas Jornal Cultura 1ª e 2ª Edição, Sem Censura Pará e Esporte Cultura ganharam uma nova identidade visual, que inclui a mudança completa de cenários e vinhetas de abertura. O Jornal Cultura mudou também de nome, passando a se chamar Jornal do Meio-Dia (1ª edição) e Jornal da Noite (2ª edição). A nova identidade visual dos programas foi elaborada pelo Coordenador de Criação e Arte da TV Cultura, Andrei Miralha. “Ele trouxe uma abordagem bastante sofisticada para esse novo momento”, avalia Dimitri. Os programas jornalísticos da TV Cultura ganharam um ar moderno, mais apropriado a uma televisão que quer se aproximar cada vez mais do telespectador. É um estilo que foge do regionalismo exacerbado de leituras anteriores, que se apropriavam diretamente de elementos da cultura amazônica, como o miriti. Ainda assim, o telespectador poderá perceber referências sutis da cultura amazônica na cenografia e nas vinhetas elaboradas por Andrei Miralha. “A cenografia do jornal era algo híbrido, um estilo regionalista com pinceladas de tecnologia. E não havia diálogo entre essas referências. O Andrei desenvolveu uma proposta cenográfica moderna, que ao mesmo tempo, preserva essa noção não regionalista, mas amazônica, com detalhes muito sutis, quase minimalistas”, avalia o diretor da TV. A nova leitura cenográfica busca se adequar à linguagem própria da televisão. “É possível ser universal, respeitando algumas questões da TV. O miriti, por exemplo, não funcionou. Ele não dialoga na televisão e cansa o telespectador. O novo projeto traz uma mudança radical. Possui uma visualidade que deixa o telespectador confortável. E queremos ver e fazer a televisão da melhor maneira. Não é porque somos públicos que vamos fazer televisão da pior maneira”, defende Dimitri. O diretor da TV Cultura, Dimitri Maracajá, ressalta as mudanças visam estabelecer uma padronização de estilo nos programas da emissora: “Antes, havia uma ausência total de padrão. Cada programa tinha uma assinatura institucional de uma

TV Cultura de cara nova

Apresentado por Diogo Puget (dir.), o Esporte Cultura conta com a participação de Plácido Ramos e esportistas convidados zyg360.com

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Foto: Rodolfo Oliveira

Voltado para o público jovem, o programa Invasão é apresentado por Robson Fonseca e André Mardock, como o personagem Men

“Invasão” na tela da Cultura Com 15 minutos de duração, o “Invasão” é o mais novo programa da TV Cultura do Pará. Apresentado por Robson Fonseca e André Mardock (como o personagem “Men”), o interprograma é exibido de segunda a sexta. A cada semana, estreia um programa novo, que fica se revezando com as edições anteriores. “É um programa para a juventude, sem padrão previamente estabelecido, respeitando a linguagem de que esse público gosta, se interessa”. Com o sucesso das primeiras edições, a proposta é expandi-lo em 2010. “Queremos criar novos quadros para insertar no programa, com entrevistas de estúdio, outras referências, banda, coisas ligadas ao público jovem. Tudo de maneira muito descontraída, como ele já é. Descompromissado de um formato institucionalizado ou qualquer coisa assim”, avalia Dimitri. Além de reportagens sobre tribos urbanas, cultura pop e entretenimento para o público jovem, o programa traz videoclipes produzidos pela própria TV Cultura. “Começamos com uma linha de produção de videoclipes para o Cultura Paidégua. Pegamos os clipes que têm um perfil mais jovem e inserimos no programa”. Os demais videoclipes podem ser vistos nos intervalos da programação. Para o diretor da TV Cultura, até pouco tempo atrás o público jovem não se sentia representado nos programas da emissora. “A gente percebeu que a TV Cultura, nesses anos todos, sempre teve uma grande presença em dois públicos 38

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distintos: infantil e adulto. Ela era considerada uma TV para criança e para velho. O público jovem não tinha espaço, não se via representado, e não assistia praticamente à TV porque os programas não lhe interessavam”, considera Dimitri. Neste sentido, o “Invasão” também significa uma inovação na grade da TV Cultura. “O programa é um pouco uma transgressão nesse sentido. É uma quebra um paradigma também para a gente, que está acostumado com programas mais pesados. A ideia é dar uma descontração na programação, um pouco de bom humor, que é o que sempre faltou, na minha avaliação”. O programa surgiu a partir de uma proposta de Robson Fonseca, que apresentou a ideia à diretoria da TV. O nome “Invasão” se deve a uma característica peculiar do programa, que se apropria dos cenários de outros programas e áreas da emissora para realizar transmissões “clandestinas” a partir de um notebook. Em um dos programas, Robson e Men transmitiram diretamente do elevador da Funtelpa. “O programa invade departamentos da TV e da rádio como se fosse uma transgressão no veículo de comunicação. Tem essa coisa de estar em todos os espaços, sem a preocupação de ser jornalisticamente correto. É despojado, descompromissado, mas sem perder o compromisso”. O programa “Invasão” é exibido de segunda a sexta, das 17h15 às 17h30, pela TV Cultura do Pará. Aos sábados, o programa entra no ar às 12h40. No domingo, vai ao ar à meianoite.


>> artigo <<

A grande mídia e a segunda Confecom Foto: Marcello Casal Jr./ABR

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oncluída a 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), que aconteceu em Brasília, de 14 a 17 de dezembro, com a participação de mais de 1.600 delegados, democraticamente escolhidos em conferências estaduais realizadas nas 27 unidades da federação, representando movimentos sociais, parte dos empresários de comunicação e telecomunicações e o governo – independentemente da avaliação de suas deliberações – é hora de tentar compreender as razões que levaram os principais grupos empresariais brasileiros de mídia a boicotarem o evento. O anúncio público da retirada das seis entidades empresariais da Comissão Organizadora da 1ª Confecom se deu após reunião realizada entre elas e os ministros das Comunicações, Hélio Costa, da Secretaria de Comunicação Social, Franklin Martins, e da Secretaria-Geral da Presidência, Luiz Dulci, no dia 13 de agosto. Os membros da Comissão haviam sido designados em 25 de maio e a primeira reunião havia se realizado há pouco mais de dois meses. Estava-se, portanto, apenas no início de um longo processo. Uma nota divulgada logo após a retirada e assinada conjuntamente pela Abert - Associação Brasileira de Emissoras de Radio e Televisão; Abranet - Associação Brasileira de Internet; ABTA - Associação Brasileira de TV por Assinatura; Adjori-Brasil - Associação dos Jornais e Revistas do Interior do Brasil; ANER - Associação Nacional dos Editores de Revistas e ANJ – Associação Nacional de Jornais, afirmava, dentre outros pontos, o seguinte: Por definição, as entidades empresariais têm como premissa a defesa dos preceitos constitucionais da livre iniciativa, da liberdade de expressão, do direito à informação e da legalidade. Observa-se, no entanto, que a perseverante adesão a estes princípios foi entendida por outros interlocutores da Comissão Organizadora como um obstáculo à confecção do regimento interno e do documento-base de convocação das conferências estaduais, que precedem a nacional. Deste modo, como as entidades signatárias não têm interesse algum em impedir sua livre realização, decidiram se desligar da Comissão Organizadora Nacional, a partir desta data. É importante registrar que permaneceram na Comissão Organizadora duas entidades empresariais: a ABRA Associação Brasileira de Radiodifusores, uma dissidência da Abert fundada pelas redes Bandeirantes e Rede TV!, em maio de 2005; e a Telebrasil - Associação Brasileira de Telecomunicações, criada em 1974, que tem como missão

É hora de tentar compreender as razões que levaram os principais grupos empresariais brasileiros de mídia a boicotarem o evento.

Venício Lima

“congregar os setores oficial e privado das telecomunicações brasileiras visando a defesa de seus interesses e o seu desenvolvimento”. Controle social e censura A realização da Confecom – a última conferência nacional a ser convocada de todos os setores contemplados pelo “Título VIII - Da Ordem Social” na Constituição de 88 – sempre encontrou enormes resistências dos grandes grupos de mídia. Não seria novidade, portanto, que na medida mesma em que avançassem as difíceis e complexas negociações, e antes mesmo do desligamento das seis entidades empresariais, surgissem também os “bordões de combate” à sua concretização, reiterados na narrativa jornalística (cf. OI n. 550, Controle Social da Mídia – Por que não discutir o assunto?). O que foi inicialmente identificado na nota dos empresários como uma divergência interna em torno dos “preceitos constitucionais da livre iniciativa, da liberdade de expressão, do direito à informação e da legalidade” na Comissão Organizadora, foi aos poucos se transformando em insinuação permanente de que até mesmo a simples realização da conferência se constituía em grave ameaça à liberdade de expressão. Seu foco, dizia a grande mídia nas raríssimas ocasiões em que o tema foi pautado, era o ameaçador controle social da mídia, isto é, o retorno aos tempos do autoritarismo através da censura oficial praticada pelo Estado. No dia de abertura da 1ª Confecom, 14 de dezembro, o Jornal Nacional da Rede Globo, que até então silenciara sobre sua realização, deu uma nota que exemplifica a postura da grande mídia: questiona a representatividade do evento e insinua que seu foco seria o controle social da mídia, equacionado sem mais com a censura que cerceia a liberdade de expressão e o direito à informação. Vale conferir: zyg360.com

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APRESENTADORA FÁTIMA BERNARDES: “Começou hoje, em Brasília, a primeira Conferência Nacional de Comunicação, que pretende debater propostas sobre a produção e distribuição de informações jornalísticas e culturais no país. Entre as propostas estão o controle social da mídia por meio de conselhos de comunicação e uma nova lei de imprensa. O fórum foi convocado pelo Governo Federal e conta com 1.684 delegados, 40% vindos da sociedade civil, 40% do empresariado e 20% do poder público.” APRESENTADOR WILLIAM BONNER: “Mas a representatividade da conferência ficou comprometida sem a participação dos principais veículos de comunicação do Brasil. Há quatro meses, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, a Associação Brasileira de Internet, a Associação Brasileira de TV por Assinatura, a Associação dos Jornais e Revistas do Interior do Brasil, a Associação Nacional dos Editores de Revistas e a Associação Nacional de Jornais divulgaram uma nota conjunta em que expõem os motivos de terem decidido não participar da conferência. Todos consideraram as propostas de estabelecer um controle social da mídia uma forma de censurar os órgãos de imprensa, cerceando a liberdade de expressão, o direito à informação e a livre iniciativa, todos previstos na Constituição. Os organizadores negam que a intenção seja cercear direitos. A conferência foi aberta com a participação do presidente Lula.” A reclamação do presidente e a resposta dos empresários Na abertura da 1ª Confecom o presidente Lula fez uma queixa pública em relação à ausência das entidades empresarias e manifestou desconhecer as razões que teriam levado a tal comportamento. Disse ele: “Lamento que alguns atores da área da comunicação tenham preferido se ausentar desta Conferência, temendo sabe-se lá o quê. Perderam uma ótima oportunidade para conversar, defender suas ideias, lançar pontes e derrubar muros. Eu, que sou um homem de conversa e de diálogo, volto a dizer: lamento. Mas cada um é dono de suas decisões e sabe onde lhe aperta o calo. Bola pra frente, e vamos tocar nossa Conferência”. Dois dias depois, matéria publicada no jornal O Estado de São Paulo ouviu representantes de duas das seis associações que se retiraram da Confecom sobre a reclamação do presidente e sobre quais teriam sido as razões da retirada. Eles insistem em que o problema foi a ameaça do controle social da mídia. Roberto Muylaert, presidente da ANER, afirmou: “Não temos nada contra os movimentos sociais, mas os representantes das empresas ficaram em minoria, em grande desvantagem”. “Um controle (social da mídia) pressupõe uma mudança da Constituição, que atualmente assegura a livre-iniciativa”. Já Miguel Ângelo Gobbi, presidente da Adjori-Brasil disse: “Queríamos ter voz ativa, mas éramos voto vencido” (...) (participamos) “de quase 45 horas de reuniões sem conseguir avançar”. “Controle social da mídia é algo que arrepia todo mundo”. 40

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Lições para o futuro No nosso país, não há tradição de debate democrático entre os atores dominantes (governo e grupos privados de mídia) e a sociedade civil na definição das políticas públicas do setor de comunicações. Em outras ocasiões, tenho chamado de “não-atores” os movimentos sociais que lutam historicamente pela democratização da comunicação. O processo constituinte de 1987/88 talvez tenha sido o exemplo mais acabado de como os atores dominantes conseguem articular e fazer prevalecer seus interesses ignorando as reivindicações da sociedade civil ou fazendo concessões aparentes que se transformam em letra morta, simplesmente porque não regulamentadas pelo Legislativo. A incapacidade crônica de se avançar em relação, por exemplo, à regulação das rádios e televisões comunitárias e a lamentável situação do Conselho de Comunicação Social falam por si só (cf. OI 565, CCS: Três anos de ilegalidade). Por tudo isso, a 1ª Confecom é a realização de uma reivindicação histórica dos movimentos sociais e constitui um avanço democrático com o qual os grupos privados de mídia, atores historicamente dominantes no setor, não souberam lidar. Apesar de interessar a todos os atores um marco regulatório atualizado para as comunicações, os empresários privados parecem acreditar que as políticas públicas continuarão sendo indefinidamente estabelecidas com a exclusão da cidadania. Não só porque, de outra forma, seus interesses correriam riscos, mas também porque não estão acostumados a negociar com a sociedade civil, a levar em conta o interesse público que se manifesta de forma organizada e, sobretudo, democrática. Não é difícil compreender, portanto, porque, mesmo afirmando que sua retirada da Comissão Organizadora “não (impediria) que os associados decidam, individualmente, qual será sua forma de participação – uma demonstração cabal de nosso ânimo agregador e construtivo em relação a este evento” a grande mídia tenha sistematicamente insinuado – apesar de saber, por óbvio, que as conferências são fóruns propositivos e não deliberativos – que a ameaça da 1ª Confecom era a restauração da censura através de um controle social da mídia definido a priori como autoritário. Está com razão o presidente Lula ao conclamar na abertura da 1ª. Confecom: “O País precisa travar um debate franco e aberto sobre a comunicação social. Não será enfiando a cabeça na areia, como avestruz, que enfrentaremos o problema. Não será tampouco fechando os olhos para o futuro ou pretendendo congelar o passado que lidaremos corretamente com a nova situação.” Isso vale para todos nós: governo, empresas de comunicação e de telecomunicações, trabalhadores, movimentos sociais, leitores, ouvintes, telespectadores e internautas. É chegada a hora de uma nova pactuação na área da comunicação social que resgate os acertos do passado, mas também corrija seus erros, e seja capaz de responder às enormes interrogações e às extraordinárias oportunidades que temos diante de nós. Espera-se que as seis entidades empresariais que se retiraram da Comissão Organizadora da 1ª Confecom, sempre tão zelosas na defesa da liberdade de expressão e da democracia, revejam suas posições e participem ativamente da organização e dos debates da 2ª Confecom.


Fotos: Divulgação

A criançada ganha novas opções de diversão na nova grade de programação da TV Brasil, como o “ABZ do Ziraldo”, aos domingos

>> tv pública <<

TV Brasil estreia nova programação Rede pública lança 32 novos programas para todos os públicos

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m setembro de 2009, a TV Brasil lançou uma nova programação, voltada para a família brasileira. São 32 novos programas recheados de cultura, entretenimento, informação e reflexão. As estreias renovam 25% da grade da emissora, trazendo novo conteúdo para todos os telespectadores, especialmente o público infanto-juvenil. A presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Tereza Cruvinel, considera que a renovação da programação reitera o compromisso da emissora de construir uma TV pública de qualidade, debatido com o Congresso Nacional e com a sociedade civil. “A TV Brasil é uma realidade. A nova programação aponta os rumos, os caminhos que estamos trilhando, sempre com foco na cidadania”. As produções regionais têm espaço na nova programação, incluindo programas feitos pela TV Cultura do Pará (a exemplo do infantil “Catalendas”) e pela Rede Minas. Representante do Conselho Curador da EBC e presidente do Olodum, João Jorge Rodrigues elogiou a diversidade da programação da emissora e destacou o papel social da TV pública. “Somos um tambor para produzir ressonâncias, para que o Brasil se desenvolva de forma mais justa”, afirmou. Incentivar a leitura é o grande objetivo do programa apresentado pelo criador do Menino Maluquinho

Um dos destaques são as co-produções, realizadas em parceria com produtoras independentes: “Nova África”, “Papo de Mãe”, “Paratodos” e “ABZ do Ziraldo”. Exibido às terças-feiras, “Papo de Mãe” aborda questões relacionadas à maternidade e à educação dos filhos, sempre com a presença de especialistas e de pessoas com boas histórias para contar. Já o programa “Nova África”, exibido às sextas-feiras, atravessa o Atlântico e desvenda os costumes e a cultura de 46 países africanos. “Paratodos” agita as noites de sábado trazendo

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Foto: Adriana Elias

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Mariana Kotscho e Roberta Manreza apresentam o Papo de Mãe

As co-produções, realizadas em parceria com produtoras independentes, são destaque na nova grade da TV Brasil Foto: Adriana Elias

manifestações artísticas e fatos inusitados em uma revista cultural eletrônica voltada para o público jovem. Aos domingos, “ABZ do Ziraldo” é apresentado pelo escritor e criador de personagens como o Menino Maluquinho e a Turma do Pererê. Os telespectadores mirins ganham seis horas diárias de programação, formada por produções educativas de qualidade. Nas manhãs de segunda a sexta, a diversão fica por conta dos desenhos “Angelina, a Bailarina”, “Thomas e Seus Amigos”, “Os pezinhos mágicos de Franny” e a animação “Poko”. As tardes estão repletas de aventuras e informação, com “Barney”, “S.O.S Sônia”, “Assim que Funciona”, “Natureza Sabe Tudo” e o “Catalendas”. A faixa de 17h30 é um espaço dedicado aos jovens. A eles são direcionados os programas “Rede Jovem Cidadania”, às segundas; “Alto Falante”, às quartas; e “Diverso”, às sextas. Em seguida, às 18h30, vem a série “Snobs”, que mostra, através da história de duas crianças, o valor da amizade mesmo quando existem diferenças culturais. Às 19h30, a TV Brasil apresenta “Uma Novaiorquina na África”, sobre a vida de Jennifer Scout, de 13 anos, que vê sua vida mudar de cabeça para baixo depois que sai de Nova York e vai morar na África do Sul. Nas sextas e sábados, “Segue o Som” apresenta todos os tipo de música, artistas e sonoridades e ainda atende os pedidos do público. A família inteira poderá se reunir em volta da telinha a partir das 20h para acompanhar “Ciência Nua e Crua”, “A TV Que se Faz No Mundo” e os filmes do “Média Nacional”, que traz a produção cinematográfica brasileira de média-metragem. Às segundas e sextas (20h30), o “Ciência Nua Crua” acompanha as viagens de cientistas e aventureiros e traz dicas de como aproveitar o que a natureza oferece. E, para conhecer os destaques das TVs mundiais, basta conferir a série de documentários “A TV Que se Faz No Mundo”, às quartas, 20h30.

Papo de Mãe aborda questões relacionadas à maternidade e à educação dos filhos sempre com a presença de especialistas


>> entrevista <<

Independência ou morte “A independência é o maior desafio da TV pública”, afirma Eugênio Bucci

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os 50 anos, o jornalista Eugênio Bucci é um dos maiores especialistas em televisão no Brasil. Entre os livros que publicou sobre o tema, estão “O Brasil em tempo de TV”, “A TV aos 50: criticando a televisão brasileira no seu cinquentenário” e “Videologias”. Não por acaso, o veículo de comunicação que mais influencia a vida dos brasileiros também foi assunto de sua tese de doutorado em Ciências da Comunicação pela USP, sob o título “Televisão objeto: a crítica e suas questões de método”. Eugênio Bucci foi presidente da Radiobrás e secretário editorial da Editora Abril. Atualmente, integra o Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta (TV Cultura de São Paulo) e escreve quinzenalmente para o jornal O Estado de S. Paulo e para o site Observatório da Imprensa. Formado em jornalismo e direito pela Universidade de São Paulo, Eugênio Bucci esteve em Belém em outubro para participar da IV Conferência Internacional de Direitos Humanos, realizada no Hangar pela Ordem dos Advogados do Brasil Seção Pará (OAB-PA). No evento, Bucci falou da relação entre os direitos humanos e os meios de comunicação, em especial, da televisão. Aproveitamos a oportunidade para conversar com ele sobre televisão, inovações tecnológicas, as diferenças entre TV pública e privada, entre outros assuntos. Confira:

Foto: Antônio Milena

n Soube que o senhor passa o dia inteiro com a TV ligada. É verdade? Eugênio Bucci - Durante muito tempo, isso foi verdade. Eu era diretor de redação de revistas mensais e fazia críticas de televisão regularmente, e tinha o hábito de manter na minha sala a TV ligada o tempo todo – o tempo todo. E em casa também. Depois, eu fui para Brasília, trabalhei cinco anos, e lá, evidentemente, a televisão não ficava ligada o tempo todo. Muitas vezes estava ligada nos canais da própria Radiobrás e, hoje, eu trabalho no meu escritório, em São Paulo, onde também tenho uma TV na sala mas ela tem permanecido desligada a grande parte do tempo. Eu tenho me dedicado mais a ler. Mas durante muito tempo, isso foi verdadeiro.

Eugênio Bucci

Aspectos da sociedade que não têm lugar na TV comercial aparecem com força na televisão pública.

n Quais são seus hábitos em relação à TV? O senhor costuma “zapear”? Bucci - Eu costumo “zapear” bastante, como qualquer pessoa. Eu tenho tido uma rotina menos intensa com a televisão. Mas um dos programas sagrados para mim, que eu considero uma das melhores, mais bem acabadas, mais bem encontradas fórmulas da televisão brasileira, para surpresa de muita gente, é o Jornal Nacional. Eu considero o Jornal Nacional um bom programa, um dos melhores da TV brasileira. É claro que podemos encontrar pontos em que há diferença de interpretação, há problemas, mas o que mais me chama atenção no Jornal Nacional hoje é diferente do que me chamava a atenção no passado. No passado, é evidente que a liderança e a predominância dos programas da Globo e sobretudo jornal – que é o carro-chefe, “ensaduichado” entre as duas novelas em sua fórmula original –, era a situação da infraestrutura da comunicação no país, constituindo de fato, talvez não de direito, uma situação de monopólio da Rede Globo. E isso explicava em parte a liderança do Jornal

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Nacional. De uns tempos para cá, nós temos verificado que existe sim competição entre as principais redes. É claro que ainda, em algumas regiões do país, nós temos distorções, que tanto podem ser a propriedade cruzada dos meios de comunicação em uma única empresa, como podem ser as afiliadas da Globo vinculadas a oligarquias mais do que atrasadas, violentas em determinadas regiões do Brasil. Isso são fatos conhecidos, e muitos deles ainda precisam ser resolvidos e ultrapassados. De outro lado, o que me chama a atenção, hoje, no Jornal Nacional, é que no regime em que já existe competição entre as redes, ele se destaca e consegue ser o principal veículo jornalístico do Brasil. Veja bem: não é que ele é o principal noticiário. Ele é um programa diário que fala com cerca de 30 milhões de pessoas todos os dias, de forma nacional, abrangendo todo o espaço continental do nosso país. Isso faz com que ele ainda continue dando a agenda da discussão dos temas de interesse público no Brasil e eu gosto muito de assistir ao Jornal Nacional, mesmo quando eu não gosto do enfoque que ele dá para uma notícia ou para outra. Mesmo assim, eu acho que se compararmos o Jornal Nacional com o que ele era há 10 ou há 20 anos, nós vamos localizar uma trajetória no rumo de ser um jornalismo mais independente, mais compatível com a exigência de uma sociedade que vem amadurecendo democraticamente, ele é menos “Diário Oficial”, é menos chapa branca, e tudo isso reveste esse programa de um grande interesse, pelo menos aos meus olhos. Para não sair da Rede Globo, eu estou gostando muito da novela do Manoel Carlos, “Viver a Vida”. Estou assistindo diariamente essa nova novela. Tem ali algumas dificuldades com o papel da Taís Araújo, mas acho que pode funcionar. Acho que a telenovela no Brasil tem um problema de roteiro sério. Problema na construção dos diálogos, no andamento, tudo ficou meio preso ao convencional, mas eu acho que ainda sim a telenovela no Brasil dá uma síntese dos costumes, das tensões da vida privada, que é incrível como ainda hoje funciona, e funciona tão bem. Gosto do CQC, da Band. Gosto do programa Pé na Rua, programa de jovens na TV Cultura, da televisão pública, uma coisa interessante. O Roda Viva, quando existe entrevistados mais polêmicos, consegue um diálogo entre jornalistas que só é possível na TV pública, porque nenhuma outra emissora deixaria os jornalistas do seu grupo econômico irem na casa do concorrente conversar com jornalistas de outros veículos. A TV Cultura, por ser uma TV pública, propicia este tipo de diálogo, que faz muito bem à televisão. Agora tem essas telas grandes de TV. E na minha casa, tem um lugar muito gostoso, às vezes eu gosto de ver uns filmes por ali, até uns canais não brasileiros. Mas nós ainda temos o lastro da televisão do Brasil na TV aberta, não só porque a TV por assinatura não alcançou muitos lares, mas paradoxalmente, nós temos uma qualidade interessante na TV aberta. n Tem algum tipo de programa que o senhor não assiste de jeito nenhum? Bucci - Acho que não. Até esse Zorra Total, o Pânico. Aliás, o Pânico é um programa que chama a atenção. Claro que tem muita coisa de mau gosto, mas isso é fácil de dizer. O negócio é que eles estão conseguindo um rearranjo da linguagem menos civilizada, que sempre foi a linha da extravagância e da irreverência na televisão, e isso já teve Chacrinha, nos Perdidos na Noite (que era o programa do Fausto Silva antes de virar o Faustão), tudo isso tem uma

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recombinação, uma releitura, uma coisa meio anárquica, selvagem, que dá ao Pânico uma nota diferente. Ele não é apenas uma página da baixaria na TV brasileira, embora também seja isso. Tem mais coisa ali. Às vezes eu vejo o Pânico. Mas acho que não tem nada que eu não veja de jeito nenhum. Até o Padre Marcelo rezando o terço eu vejo. Não tenho algo que eu diga: “isso não, de jeito nenhum”. n Na sua opinião, a TV comercial é um mal necessário? A gente pode usar essa expressão? Bucci - Não. Acho que não deve usar essa expressão. A TV comercial é necessária. Isso é uma coisa que dá até um pouco de preguiça na gente quando precisa voltar ao assunto todo, mas, infelizmente, mesmo as pessoas que trabalharam muito tempo, como eu, na TV pública – e até hoje eu sou do conselho da TV pública com muita alegria –, não entenderam bem. Uma democracia não existe sem TV comercial. Ela é necessária. Não se pode imaginar que hoje, uma democracia, uma sociedade democrática, funcione, sem que uma parcela das ondas eletromagnéticas seja explorada por empresas que têm como objetivo o lucro. Isso dá vibração, uma movimentação autêntica de uma sociedade de mercado. Não é razoável nós imaginarmos que a totalidade das emissoras sejam públicas ou estatais. Não é nem atraente uma coisa dessa. A televisão comercial é indispensável para uma fórmula democrática. E me desagrada muito quando alguém diz que a televisão comercial só produz coisa ruim. Especialmente no caso brasileiro, isso não é verdade, de jeito nenhum. Se você pensar no que foi o “Sítio do Picapau Amarelo”, por exemplo, que falava da democracia grega nos tempos da ditadura militar no Brasil, se você pensar no Guarnieri, Dias Gomes, Jorge Amado, todos eles abrigados na TV Globo, que começa a desenvolver uma fórmula de novela que é hoje responsável por uma das referências estéticas na televisão mundial. Muitas e muitas invenções da linguagem de televisão vieram da TV comercial no Brasil. A escola de televisão deve muito à TV comercial no Brasil. O que acontece é que a TV comercial, por outro lado, não responde por todas as necessidades da comunicação na esfera da sociedade democrática. É necessário também que exista a TV pública, aquela que não tem por objetivo o lucro e que, por isso, consegue ordenar seu conteúdo segundo outros critérios. Agora, o lucro não é um critério mau, não é um critério ruim, é um critério legítimo, necessário, saudável. Só que ele não resolve tudo. E, do outro lado, a TV pública não é boa. Pelo contrário, se nós pegarmos a TV pública no Brasil, ela é um deserto de qualidade. Às vezes, a gente fica desesperado de olhar. Tem muita coisa muito ruim na TV pública. Mesmo assim, ela continua sendo necessária. Porque é preciso que uma parcela da comunicação na televisão se estruture segundo critérios não comerciais. Só assim, aspectos da sociedade que não têm lugar na TV comercial aparecem com força na televisão. Na televisão pública, elas podem inclusive influenciar positivamente a televisão comercial. Nós já tivemos casos como esse. O Sergio Groisman faz a sua carreira a partir da TV pública. A programação infantil começa com muita força na televisão pública e depois foi para a TV comercial. Existem vários exemplos desse tipo. Agora, a nossa televisão comercial também tem uma passagens lamentáveis, deploráveis, e a nossa TV pública tem momentos de qualidade, mas tem muito mais momentos deploráveis. O maior deles, o mais grave deles, é a subserviência das


televisões públicas em relação aos governos – aos governos estaduais e ao governo federal. Pouquíssimas conseguem escapar disso, pouquíssimas. E, mesmo assim, não conseguem escapar disso o tempo todo. As televisões públicas que nós temos hoje, como regra geral, são palanques para promoção de autoridades, seja autoridades de esquerda ou de direita. Tanto faz, o problema é o mesmo. Isso é uma instituição pública, financiada com verba pública, para atender a uma necessidade de comunicação, que não pode ser utilizada para finalidade privada, e a finalidade partidária é uma finalidade privada. Um governo que admite que as suas emissoras públicas fiquem bajulando autoridades é um governo que pratica o patrimonialismo, porque não apenas o governo não deve solicitar que isso seja feito. Ele não deveria permitir que isso seja feito. Ele deveria combater. Esse é um atraso brutal que nós temos no país e que ainda será resolvido. É inaceitável e não é provável que esse tipo de distorção permaneça mais adiante. Nós já tivemos patrimonialismo no campo da educação, no campo da saúde. Hoje, a sociedade democrática não admite mais que o governante use um hospital como se fosse o quintal do partido político dele. Mas já aconteceu no passado. Os governantes punham para trabalhar nos hospitais, escolas, os seus parentes. Isso não existe mais, ou existe muito pouco. Então, para responder a sua pergunta: a TV comercial não é um mal necessário. Ela pode ser um mal e pode ser um bem. Mas ela é necessária. E a TV pública também, pode ser um mal e pode ser um bem. Mas ela também é necessária. Nós estamos muito mais atrasados na televisão pública do Brasil do que na televisão comercial. Na média, a TV comercial é muito mais eficiente, muito mais inovadora do que a televisão pública no Brasil. n Hoje, de maneira geral, a televisão brasileira está melhor do que há 50 anos? Bucci - Se contar que a primeira transmissão de televisão brasileira aconteceu em 1950, nós estamos muito melhor. Muito melhor. Nós estamos melhor, hoje, do que foi a TV dos anos 60, dos anos 70. A nossa televisão é melhor do que já foi. Claro que nós temos problemas novos. Alguns problemas velhos e alguns problemas novos. Um dos problemas novos, muito preocupantes, é a fusão entre igrejas e radiodifusão. Está muito complicado, num nível muito preocupante. Veja só: nós ainda temos o problema das propriedades cruzadas dos meios de comunicação? Temos. O problema de famílias que são oligarcas, de regiões brasileiras que também são donas de afiliadas de grandes redes? Temos esses problemas. Essas famílias usam a televisão para fazer promoção? Usam. Isso está errado? Está errado, porque televisão é concessão pública. Isso não é aceitável, é um problema grave. Mas esses problemas são antigos. Um problema novo, que vem preocupando, é a condução de emissoras de TV segundo visões que seriam da órbita da igreja. A religião tem um tipo de relação com o Estado. Uma emissora de TV é uma concessão pública, tem outro tipo de relação com o Estado. Essas duas esferas, das igrejas e das empresas que exploram radiodifusão, jamais deveriam se misturar, jamais deveriam se confundir. E nós estamos tolerando, além da medida, essa confusão no Brasil. Isso vale tanto para as igrejas evangélicas quanto católicas. É um ponto para o qual nós devemos prestar atenção, senão vem mais distorção pela frente, que seria as igrejas ecoando interesses partidários, ou as televisões difundindo interesses

religiosos, ou partidários. Esse triângulo partido (interesse político), igreja (religiões) e radiodifusão não deveria ser formado. Essas coisas têm que conviver em uma democracia cada uma no seu lugar devido. Esse é um problema novo. Mesmo assim, nossa televisão é melhor hoje. As pessoas ficam irritadas quando eu falo isso porque supõem que o passado idílico fosse melhor, mas não é verdade. A televisão, assim como a própria imprensa no Brasil, já foi muito pior, já foi muito mais limitada, muito menos inclusiva. Nesse sentido, quando a gente põe na linha do tempo, ela tem melhorado. Apesar de tudo, mas tem melhorado. n A internet, com ferramentas como o Youtube, mudou a nossa maneira de ver TV? Influenciou de alguma maneira? Bucci - É claro que mudou. Uma das coisas mais brilhantes na internet é que você pode fazer uma emissora de televisão ou de rádio na internet e para isso você não precisa de concessão pública. Porque a concessão pública é necessária para distribuir de forma equilibrada o espectro de frequências de ondas eletromagnéticas, que são limitadas, mesmo com a tecnologia digital. Hoje, com a tecnologia digital, você consegue acomodar mais emissoras em uma mesma cidade, mas mesmo assim o número não é ilimitado. É um número pequeno, se comparado com o apetite do mercado. É necessário haver um tipo de concessão pública para regular esse tipo de exploração. Elas devem atender ao interesse público, por isso a Constituição define a radiodifusão como interesse público. As empresas que exploraram esse serviço devem fazer mediante certas exigências naturais, legítimas, que o Estado pode e deve fazer. Nada que implique interferência nos conteúdos, na linha de censura, porque isso é inaceitável em todos os sentidos. Mas uma concessão pública pode querer privilegiar a programação infantil, pode querer privilegiar programas educativos, produções regionais, programas analíticos, e tudo isso que está estabelecido no termo de uma concessão. Agora, dentro dessas determinações, o que uma emissora vai pôr no ar vai por conta da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa. Não há como aceitar que o estado vai ficar fazendo filtragem, o que seria uma violência. Na internet, você não precisa ter concessão. Isso é muito interessante. Ou seja, o Estado não teria mais que se preocupar com esse tipo de assunto, porque todo mundo poderia fazer a sua emissora, inclusive as autoridades, inclusive os poderes da República podem fazer a sua comunicação pela internet e é desejável que o façam cada vez mais. Agora, outra coisa – e aí para a televisão pública isso é muito interessante –, é que a tecnologia digital permite a multiprogramação. Coisa que a TV Cultura já vem fazendo em São Paulo. Significa: você põe mais de um canal ao mesmo tempo e isso cabe na mesma frequência. Onde antes era apenas um único canal, hoje você pode transmitir dois, três ou quatro. Isso é uma inovação que vem com a tecnologia digital. E a outra coisa da internet propriamente dita é que o público pode participar muito mais. Pode incluir na escolha dos programas, debater temas de interesse público. Não apenas debater se a moça vai usar um vestido vermelho ou azul no último capítulo da novela. Ou debater se o filme vai ser A ou B. Debater até assuntos relacionados à concessão de ondas eletromagnéticas de frequência de emissoras. Debater temas de interesse da cidadania, não apenas os temas do consumo. Isso é uma grande oportunidade para as emissoras públicas.

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n Qual a influência que a TV exerce em um país onde quase 80% da população, de acordo com o Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional, não consegue compreender um texto simples? Bucci - Não tenho muita intimidade com essa estatística, não sei se é exatamente isso. Mas tem alguns textos que eu mesmo não consigo entender. Porque são textos mal escritos. Acho que o nosso maior problema hoje não é que as pessoas não conseguem entender, mas é que a gente não consegue

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Se você me perguntasse uma única palavra para dizer qual é o maior desafio (da TV pública), eu diria: independência.

n Existem outras mudanças que já estão chegando com a TV digital? Bucci - Eu acho que essas novas tecnologias devem ser vistas, do lado da TV pública, na perspectiva de elas ampliarem os canais de participação política, os canais de educação, de formação, de esclarecimento, de informação, de acesso aos meios de produção de conteúdos audiovisuais,.Tudo isso está sendo facilitado e isso dá mais efervescência para a vida social e mais dinamismo para a participação política. A campanha do Obama se beneficiou largamente desses novos canais abertos pela era digital. E isso foi bem usado pela campanha do Obama porque não foi usado para propagação de ideias prontas, ou de slogans, ou de palavras de ordem, enfim, dessa propaganda eleitoral mais tacanha. Esses novos meios foram usados também para convidar a comunidade que tinham pouca participação política a apresentar suas demandas, seu modo de fazer, seu próprio discurso, e isso cria a famosíssima via de mão dupla e abre caminhos para a participação política. De resultado, nós tivemos a participação do eleitorado na eleição americana, que é voluntária, não é obrigatória, foi marcadamente muito alta. As pessoas estavam mobilizadas, estavam oito horas na fila para votar e não desistiam, porque viram que havia novos caminhos de participação política. Isso não é produzido pela tecnologia, mas pode ser muito apoiado por ferramentas dessa nova tecnologia. O que produz isso é mobilização política. E mobilização política nós temos na era do telefone e temos mobilização política na época em que a única tecnologia era o gogó, no tempo da democracia grega. Não havia telefone, internet, fax, jornal impresso, não havia nada disso. Mas as pessoas debatiam politicamente na assembleia – os cidadãos, os que eram admitidos ali, que eram poucos, mas enfim. Havia mobilização política. Hoje, existe mobilização política e a tecnologia fornece mais ferramentas. Mas veja bem: a tecnologia não fabrica mobilização. Ela pode ajudar, encurtar caminhos, aumentar velocidades, pode facilitar. Eu acho que nesse ponto de vista nós temos muita coisa a aprender com as novas tecnologias. Nada disso confunde com a postura de deslumbramento que tem muita gente por aí falando. Não é nada disso. É usar a tecnologia, aproveitar as potencialidades dela dentro do projeto da televisão pública. Mas eu prefiro um gestor de televisão pública que entenda dos direitos da sociedade e seja independente, que saiba ter uma linguagem arrojada, mesmo quando não disponha de meios, do que emissoras públicas altamente equipadas, cujos administradores são vassalos da autoridade. Estes aí não são só desnecessários como são perniciosos. A tecnologia não produz a independência. A independência é uma questão de postura política, de quem governa e de quem administra.

falar com essas pessoas. A gente não consegue escrever ou editar conteúdos para essas pessoas. Nesse sentido, eu volto ao Jornal Nacional. Ele consegue tratar de temas complicados, de forma clara, para públicos muito amplos. Presta-se muito pouca atenção nisso aí. Acho que ali existem soluções muito interessantes de clareza, de concisão, que conseguem passar o fundamental. Nós temos uma escola, do ponto de vista de exercício de texto, a ser observada no Jornal Nacional. Na minha opinião, é que mais tem eficiência para vencer esse tipo de desafio. A importância da televisão é como o mastro central de um circo. Se tirar, a comunicação no Brasil acaba. Se tirar o mastro do circo, a lona cai. Até hoje, a televisão é o centro do espaço público nacional. É ela que indica o que pertence e o que não pertence ao debate público no Brasil. Essa importância continua inalterada. É claro que os meios eletrônicos vão crescendo em cima. Há uma migração da televisão para canais por assinatura, vai haver também uma migração para outras tecnologias e os meios de comunicação não de massa vão ampliar muito a sua participação, como já ampliam. Não obstante, é necessário, do ponto de vista estrutural, para a existência de uma nacionalidade de um espaço público, a existência da comunicação que fala para muitas pessoas ao mesmo tempo. Essa arena central não vai desaparecer, nem pode. Existe a arena na Ágora grega, existe a arena dada pelos grandes jornais a partir do século XIX, países da Europa, Estados Unidos, existe depois essa Ágora no rádio, a partir dos anos 40 no Brasil, a Rádio Nacional era muito forte. Hoje a televisão vai ganhando mais páginas, mais programações simultâneas, mas um campo de domínio comum, de acesso comum, continua. E a televisão ainda é centro do espaço público nacional. n Em relação à TV pública, qual o grande desafio das TVs públicas e educativas brasileiras? Bucci - O que eu já falei indica. O grande desafio é a independência. O grande desafio não é orçamento. O grande desafio não é número de funcionários. As televisões públicas, em geral, estão cheias de funcionários, e funcionários que não trabalham. Normalmente, gente protegida de gente protegida de gente protegida do governador. Essa é uma situação lastimável. O maior desafio da televisão pública é uma gestão independente. Uma gestão profissional segundo os princípios da televisão pública, é claro que sim. Não é uma gestão profissional para ficar imitando a TV comercial. A televisão pública tem que ser diferente, tem que ser outra linguagem, outra forma de administrar inclusive. Mas o maior desafio não


é falta de recursos, não é falta de funcionários. É uma gestão profissional, competente, com clareza da função e da missão da televisão pública, independente. Se você me perguntasse uma única palavra para dizer qual é o maior desafio, eu te diria: independência. n Ainda falando de TV pública, a questão da audiência é relevante? Bucci - É claro que é relevante, ora essa. É preciso ter audiência. E quanto mais, melhor. A televisão pública deve sim pretender alcançar audiências cada vez maiores. A questão é que, na lógica da televisão comercial, audiência é tudo, porque o negócio da TV comercial é vender a atenção dos seus telespectadores para vender aos seus anunciantes. Precisa agregar os telespectadores para vender aos anunciantes. A audiência para eles é tudo, em quantidade ou qualidade. Ele pode operar com índices menores de audiência desde que o público tenha grande valor de mercado. Ele está falando naquele momento com jovens classe A, que fazem não sei o quê e que são consumidores desse ou daquele produto. E isso vale muito dinheiro. Então, televisão comercial, como vive de vender os seus públicos aos anunciantes, depende da audiência nesse sentido. A televisão depende da audiência em outro sentido. Ela precisa fazer com que os públicos compreendam a abertura que ela quer produzir entre esses públicos e a cultura de uma maneira ampla. Então, ela precisa ser eficiente para dialogar com esses públicos. Não adianta ela colocar um programa ótimo, em russo. Algumas fazem quase isso. Põem uma ótima peça de teatro em russo. Quer dizer, só quem sabe russo vai entender esse negócio. É possível que algum programador de TV pública diga assim: “Ah, eu estou pondo coisa de qualidade mas o público não entende”. É claro que o público não entende, não fala a língua do público. Então, muito incompetente da TV pública de hoje se esconde atrás dessa desculpa esfarrapada. Dizendo que coloca coisa de qualidade mas o público infelizmente não entende. Não, não é assim. É claro que a TV pública tem o dever de desafiar o público, de colocar no ar coisas que desafinam do senso comum. Mas elas têm que fazer isso com competência, sabendo colocar conteúdos que atraiam pessoas, que as pessoas consigam identificar com uma coisa de valor. Nesse sentido, a audiência é importante para a TV pública. n Mas é possível fazer essa combinação perfeita entre qualidade e audiência? Bucci - Combinação perfeita é difícil, porque combinação é difícil, a perfeição é mais difícil ainda. Mas a história da TV Cultura, por exemplo, está cheia de exemplos que demonstram que isso é possível. Dou aqui o caso da programação infantil, que atingia índices, em São Paulo, acima de 10% no Ibope. E já foi mais. Claro que é possível, é evidente que é possível. E está cheio de programa bom, na TV comercial, que faz sucesso. Claro que audiência e qualidade são compatíveis. Só os cínicos dizem que não. Está cheio de jornal bem feito que vende bem, está cheio de revista bem feita que vende bem, cheio de livro bem editado que vende

bem, e cheio programa bom de televisão que dá audiência. Os ruins também dão audiência. E a própria televisão pública tem exemplos de qualidade que deram audiência. Veja só: eu digo aqui que, para a televisão pública, audiência não é tudo. Muitas vezes, para a televisão pública, se você tem um público pequeno, assistindo uma coisa de grande interesse, ou de grande capacidade de informação, está tudo bem, porque esse público pequeno se beneficiando daquilo já é um ganho social importante. Então, audiência em televisão pública tem todas essas relativizações. Audiência não é tudo, nós podemos dizer isso com segurança. Mas isso não significa que os gestores da televisão pública estão autorizados a dar as costas para a audiência. n A regionalização da programação, que está prevista desde a Constituição de 1988, até hoje não foi regulamentada. Qual sua opinião sobre isso? Bucci - A regionalização é muito desejável e muito importante. Mas de novo eu peço cuidado. Porque é preciso ver se quem está falando pela regionalização é quem tem compromisso com a qualidade e com o interesse público. Porque, muitas vezes, surgem oportunistas no caminho. Não tem qualidade para mostrar, não tem obra para mostrar, e quer se beneficiar de alguma reserva de regionalização. Não é assim. É preciso que isso emerja de manifestações culturais vitais, que tenham inserção autêntica na cultura nacional. É preciso que as pessoas ligadas a isso não queiram buscar um atalho, mas enxerguem com respeito e com dedicação a cultura que podem produzir ou revelar. Sem dúvida nenhuma, é fundamental que a gente dê canais de expressão para as múltiplas identidades nacionais. O Brasil não é um país de uma identidade nacional. É um país de múltiplas identidades. É incorreto nós falarmos a identidade nacional no Brasil. Nós somos obrigados, se nós quisermos ser democráticos, a dizer as identidades nacionais. E aí nós precisamos de múltiplas expressões, que têm que estar à altura do que o Brasil pode realizar em qualidade audiovisual. Existem tentativas muito interessantes, o DocTV, no Ministério da Cultura, consegue viabilizar discursos alternativos e de qualidade. Mas a regionalização não é uma quota, não pode ser vista como uma reserva de mercado para pôr coisa ruim no ar. Ela é um norte no sentido de dizer que nós não somos apenas o eixo Rio-São Paulo. Agora, Belém precisa ser capaz de produzir um conteúdo de qualidade compatível com a do eixo Rio-São Paulo. Isso precisa ser encarado menos como uma prerrogativa, menos como uma garantia – “Ah, qualquer coisa que eu colocar no ar vai ser exibido, porque é da quota da minha região”. Isso seria um desastre. Isso precisa ser encarado muito mais como um desafio: “Agora eu terei que produzir alguma coisa de altíssima qualidade, com a maior qualidade que eu sou capaz de produzir”. E conquistar o público. Mas, sem dúvida, nós temos que ter regionalização sim. É preciso que a multiplicidade do Brasil não apenas apareça como não seja sufocada por modelos centralizados de grandes polos urbanos.

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>> programação <<

TV Cultura do Pará Jornal do Meio-Dia A cobertura completa dos acontecimentos do estado do Pará, no primeiro noticiário do dia. De segunda a sábado, às 12h

7 Set Independente O “lado B” da produção artística brasileira. Cinema, música, vídeo, moda e outras comunidades de criação direto da fonte. Sábado, às 21h30. Reprise no domingo, às 21h

Jornal da Noite A atualização dos principais acontecimentos do dia, nas mais diversas áreas. De segunda a sábado, às 19h

Catalendas O criativo universo do teatro de bonecos se mistura com o mágico mundo das narrativas populares brasileiras. De segunda a sábado, às 11h45 e 17h

Moviola Informações sobre cinema e o melhor da produção audiovisual nacional e regional. Terça-feira, às 20h

Cena Musical A experiência do rádio na TV. Artistas convidados falam sobre sua carreira e apresentam pequenos números musicais. Sábado, às 15h. Reprise no domingo, às 11h

Regatão Cultural Personagens e assuntos ligados às artes, política e cultura popular que marcaram história na cultura paraense. Terça-feira, às 19h30. Reprise no domingo, às 13h30

Cinerama Produções cinematográficas nacionais, com exclusividade, na tela da TV Cultura. Domingo, às 22h

Sem Censura Pará O mais tradicional programa de entrevistas da TV paraense, no ar há 21 anos. De segunda a sábado, às 13h30

Controvérsia Dois debatedores, dois pontos de vista, um único tema. Segunda-feira, às 20h30

Sementes Ciência, tecnologia e inovação das populações amazônicas e as pesquisas desenvolvidas por instituições no estado. Quarta-feira, às 19h30. Reprise no domingo, às 8h

Cultura Paidégua Revista cultural eletrônica, mostra a produção artística paraense. Sexta-feira, às 21h. Reprise no domingo, às 20h

Direto da Redação

Timbres A música instrumental, erudita e popular, em transmissão ao vivo, da Capela do Espaço São José Liberto. Domingo, às 18h. Reprise na quarta-feira, às 20h

Direto da Redação As notícias de última hora, diretamente da redação da TV Cultura, em três edições diárias. De segunda a sexta-feira, às 9h55, 16h55 e 20h55.

Varadouro: Caminhos na Amazônia Uma radiografia dos principais assuntos da região, retratando o homem amazônico pela sua própria ótica. Domingo, às 14h

Esporte Cultura A cobertura das diversas modalidades esportivas, tanto profissionais quanto amadoras. De segunda a sexta-feira, às 12h40

Interprogramação Belém Tem Disso Brasil da Diversidade Contos da Amazônia Cultura Cidadã França.PA Invasão Mapa da Gente Videoclipes VídeoVerso Tubo de Ensaio Sou Mais Cultura l

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Rádio Cultura OT

Rádio Cultura FM Abracadabra Um universo encantado de brincadeiras e adivinhações, de historinhas e cantigas de roda. Domingo, às 9h

Cultura Reggae O suingue jamaicano em suas várias tendências e sotaques nacionais e internacionais. Sábado, às 18h

Alta Fidelidade Uma viagem sonora através do túnel radiofônico do tempo, com artistas da época de ouro do rádio. Domingo, às 6h

Discoteca Cultura e Especial Cultura Os grandes nomes da música brasileira e mundial em seleções especiais e exclusivas. De segunda a sábado, às 22h

Balanço do Rock Os clássicos e as novidades da cena roqueira do Pará, do Brasil e do mundo. Sábado, às 16h Bossa Nova, Novas Bossas Todo o charme e a elegância de um dos mais importantes ritmos brasileiros. Quinta-feira, às 21h Brasileiríssimo Um retrato do tradicional chorinho, em performances inesquecíveis de seus mestres e dos novos chorões de todo o país. Segunda a sábado, às 6h Bravo! Dedicado aos amantes da música erudita. Grandes orquestras, renomados regentes e os mais importantes temas da história da música mundial. Terça-feira, às 21h Canta Pará Entrevistas e apresentações ao vivo, em estúdio, com o melhor da música paraense, em versões exclusivas. Domingo, às 14h

Estação Turismo Informações turísticas do Pará, temperadas pela música popular paraense. As atrações de cada município, como chegar, onde ficar e os eventos no calendário do interior. Domingo, às 8h Feira do Som Das relíquias aos mais recentes lançamentos, o programa é uma grande feira de arte com os principais shows, eventos e demais programações que acontecem em Belém e no interior paraense. De segunda a sexta-feira, às 12h Fonograma A música pop do Pará, do Brasil e do mundo numa seleção de muito bom gosto. Traz ainda a agenda cultural de Belém e do interior. De segunda a sexta-feira, às 14h

Cena Musical Bandas e artistas consagrados, novos talentos e a produção cultural independente de todo o estado. Sábado, às 15h

Jornal da Manhã Um referencial de informação nas manhãs do Pará, com notícias locais, nacionais e internacionais, além de flashes ao vivo sobre os acontecimentos do cotidiano do estado. De segunda a sábado, às 7h

Cine Cultura Um passeio musical pela 7ª arte, com lançamentos, raridades e as trilhas sonoras, além de dicas de cinema. Sábado, às 11h

Jornal da Tarde Os principais acontecimentos do dia e as notícias de todo o estado do Pará. De segunda a sexta-feira, às 17h30

Clube do Samba Todo o suingue e a alegria do samba, em uma seleção musical com nomes tradicionais ao lado das novas vozes do ritmo. Sábado, às 12h

Matéria Prima Uma revista radiofônica com entrevistas, música, cinema, literatura, notícias e reportagens especiais. De segunda a sexta-feira, às 8h

Nostalgia A tradicional música romântica brasileira de um período de ouro do rádio, na voz dos grandes intérpretes de nossa música, em gravações históricas. De segunda a sexta-feira, às 5h Notícias Cultura Boletins informativos com notícias locais, nacionais e internacionais. De segunda a sábado, de hora em hora Gol de Placa A resenha esportiva semanal, com os resultados dos jogos, entrevistas nos estádios e participação de convidados. Nos dias de jogo, antes do futebol Raridades da MPB Os discos fora de catálogo, gravações únicas, acervo de colecionadores, grandes espetáculos registrados em disco e raridades da música paraense jamais lançadas em disco. Domingo, às 21h Rotatividade Rock, música negra, música eletrônica e experimentações sonoras em conexão direta com o mercado fonográfico independente. Sexta-feira, às 21h Som na Caixa O ouvinte da Rádio Cultura FM apresenta a programação da sua rádio, fazendo seu pedido no ar, por telefone. De segunda a sexta-feira, às 11h Timbres A música instrumental, erudita e popular, em transmissão ao vivo, diretamente da Capela do Espaço São José Liberto, em Belém. Domingo, às 18h Toque de Classe O melhor da música instrumental paraense, brasileira e mundial, acompanhado de informações sobre os artistas e suas performances. De segunda a sexta-feira, às 18h

Jornal da Manhã Um referencial de informação nas manhãs do Pará, com notícias locais, nacionais e internacionais. De segunda a sábado, às 7h Nas Ondas do Esporte As atividades esportivas no interior e na capital, tendo como carro-chefe o futebol profissional paraense. De segunda a sexta, às 18h Pará Caboclo Programa com perfil estilo revista, voltado para as donas de casa, incluindo receitas caseiras, dicas sobre prevenção de doenças etc. De segunda a sexta, às 5h Pará Pai d’Égua A realidade das regiões do estado, suas peculiaridades, potencialidades, cultura, feiras e festas importantes e informações gerais. De segunda a sexta, às 15h Musical OT A música que paraense gosta de ouvir: brega, bolero, lambada, música sertaneja e regional. De segunda a sexta, às 12h35 Amazônia Brasileira (EBC) Traz quadros educativos e de serviços relacionados à história e cultura da Amazônia. O ouvinte participa do programa por meio de cartas, dando sugestões, fazendo perguntas e pedindo músicas. De segunda a sábado, às 8h Ponto de Encontro (EBC) O programa tem boletins informativos sobre a Amazônia Legal, com participação de repórteres da região. Oferece espaço para os ouvintes divulgarem seus recados e encontrarem familiares. De segunda a sábado, às 10h Repórter Nacional (EBC) Radiojornal com notícias nacionais e internacionais de impacto na vida do cidadão. De segunda a sexta-feira, às 12h Jornal da Amazônia (EBC) Os principais acontecimentos da Amazônia Legal. De segunda a sexta, ás 12h20 (1ª edição) e às 18h45 (2ª edição) zyg360.com

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>> humor <<

Arte em cartum

“O Som da chuva quando cai” - Menção honrosa no II Salão de Humor da Amazônia - Ecologia no Traço

Cartum para o tema “Medo”, do Iran Cartoon


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