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Abril de 2016 - O Ponte Velha -

A importância do Curso de Letras “O primeiro curso de Letras no Brasil foi criado na Universidade de São Paulo em 1934. Entre seus

objetivos: preparar candidatos ao magistério do ensino secundário, normal ou superior.”Antes de sua criação, porém, falava-se um bom português e cantava-se o hino nacional em bom português. Escrevendo sobre a dimensão política da língua, o professor Correa Neto chama atenção para o sentido estratégico dos cursos de letras. O curso de Letras, com objetivos, entre outros, de formação de professores do idioma falado em nossa Nação, pode e deve ser considerado como um curso prioritário, pois, na nossa visão e na de muitos outros, é um dos fatores que fortalece os fundamentos do Estado brasileiro, em particular, a cidadania e a dignidade da pessoa humana. Assim o entendemos, pois a língua, como um meio de comunicação oral e escrita, favorece o entendimento e a união entre os seres humanos. Desenvolvem atitudes, valores e o sentimento cultural da nacionalidade pela aceitação das diversidades. Fortalece a coesão de um povo, maior riqueza da democrática Nação brasileira. Com o uso e o aperfeiçoamento da língua herdada dos portugueses, enriquecida pelos índios, negros e outros construiu-se essa destacada nacionalidade. A língua de Camões, Fernando Pessoa, Machado de Assis e outros tantos, com sua riqueza histórica e cultural, da qual não podemos dissociá-la, é por nós revisada e favorece a aceitação das diversidades, desenvolvendo com criatividade a percepção humana, sobretudo o sentimento nacional de liberdade. Por isso foi aceita sem traumas a nossa independência, estabelecendo uma norma para os notáveis momentos de evolução histórica. A aceitação inicial da destacada importância do curso de Letras e da atuação dos profissionais envolvidos no processo de aprendizagem, da valorização, de aperfeiçoamento da língua em suas múltiplas utilizações permite que sejam sugeridas estratégias para atingir e fortalecer as metas anteriormente apresentadas. Estabelecer objetivos para fortalecer o nosso idioma é imprescindível, por ser a língua portuguesa a língua oficial do Brasil (Cap. III – art.13 da Constituição Federal), reque-

Luis Vaz de Camões 1524-1580

rendo, em primeiro lugar, a formação de professores para o ensino e o aperfeiçoamento do idioma em toda e qualquer interação entre os integrantes do “povo”, para que este, em magnitude, possa exercer o seu poder, como previsto no parágrafo único do titulo I, art. I da Constituição Federal: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos...” Professores estimulam e motivações surgem aflorando vocações que superam óbices inerentes a toda e qualquer profissão ou atividade humana. Inúmeras são as formas de reconhecer méritos, dedicação e valores, encobertos nas singelas e discretas atuações educativas. Unem educador e educando este imprescindível processo que, como resultado, “garante” o desenvolvimento nacional (Art. 3º, Título I). Em síntese, sem esse casamento de necessidades e missões não se pode alimentar a imensa Nação com profissionais que ensinem a língua, ressaltando sua beleza, musicalidade com palavras que permitem que a usemos afetivamente na comunicação com outros filhos do mesmo Criador. Uma nação evolui com a evolução da sua língua e seu infindável uso científico,

poético e sobretudo, afetivo de amor à Pátria. “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.” Prover a sociedade com docentes é a principal medida para atingir os objetivos mencionados na nossa Constituição. A premência da divulgação deste texto justifica a razão do não aprofundamento no tema que, por ser de elevada importância, merece estudos e reflexões por parte de todos e, principalmente, daqueles que são cônscios das pessoais responsabilidades como integrantes do valoroso povo brasileiro. Valorizam os feitos, os méritos de nossos antepassados, a nossa história, a riqueza intelectual e moral devem ser retransmitidas por todos, através da língua que falamos e que temos por obrigação aperfeiçoar, exercendo a cidadania em plenitude. Estevão Alves Correa Neto estevaon@ig.com.br Psicólogo e mestre em educação

A viagem do Dr. Ulisses

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Marcos Cotrim

A volta de Ulisses (Odisseu) a Ítaca, sua Pátria, e a sua amada Penélope tem sido usada como emblema para ilustrar diversos tipos de “viagem”. Uma “Odisseia” indica uma viagem difícil como a do idealizador do cavalo de Troia. Odisseu, homem de “curvo pensar”, aprendeu arduamente a lidar com as margens, as exceções, os mistérios que humilham a razão; não substituindo o pensamento pela vontade ou pelas paixões, mas alargando sua abrangência com o apelo ao sagrado. Numa dessas viagens uma prosaica viagem entre Resende e Rio de Janeiro certo amigo deparou-se com um acidente, em que a vítima estava perdendo sangue, tendo uma artéria se rompido. Ao lado, um médico estava imobilizado pelo dilema científico: ou seguia as leis que aprendeu na universidade, que lhe impunham assepsia para qualquer intervenção, ou estancava a hemorragia com o que tivesse em mãos. Meu amigo tomou o que estava mais à mão, o dedo, e ficou segurando até chegar o socorro. Foi “contra” a lei? agrediu a norma? fugiu à regra? Conheci uma pessoa que adorava matemática e detestava português porque a regra tinha muitas exceções; as normas gramaticais eram insuportavelmente “falíveis”. Isso me ajudou a compreender que certas esferas da realidade não podem ser tratadas cientificamente; também percebi que falar uma língua, cultivar sua norma culta (perdão pelo truísmo), é um gesto político. Tem a ver com as fronteiras da realidade e a soberania nacional! O termo sertão deriva de desertão. Nossos sertanistas, quando empurraram a fronteira de Tordesilhas para o poente, definiram limiares de língua, cultura e nacionalidade. Tordesilhas era tão artificial quanto os limites do Parque Estadual da Pedra Selada, desenhados pelo olho onisciente do Google. Concluí que o tal amigo detestava a língua por-

0101001000111 1000110101100 1000011110011 0001011001100 1101010001011 0111000101010 1110010100010

tuguesa e amava a matemática porque tinha nojo da vida. E tudo que vive nasce... isto é, tem a ver com natureza e suas imprecisões. Ora, nada mais misterioso, diverso e surpreendente que a natureza. É preciso ter olhos para ver, e não GPS Não por acaso, o cego Tirésias orientou Odisseu na viagem de retorno. Os gregos amavam as leis, e se defrontaram com duas formas antagônicas de produzi-las: ou deriva-las de uma lei maior “não escrita”, natural; ou concebê-las por convenção ou arbítrio. Célebre é a tragédia Antígona, de Sófocles que expõe as opções envolvidas na questão de justiça, que exige interrogar a realidade, e não os manuais de legislação. Benditos os que aprendem a retornar... Por mais pródigos que sejam, a linguagem da realidade os purifica da hybris, da fuga à escala humana, feita para ouvir as musas, filhas de Zeus e Memória. Mas o Estado Democrático de Direito não tem memória; sucateia nossas referências políticas de anteontem! É a destruição da política real pela hybris legal. Desde a Constituição de1988, a do Dr. Ulisses, o jogo esquerda/direita não enxerga mais a realidade, só leis escritas. As palavras não mais significam coisas reais. O sangue jorra, mas discute-se o “devido processo legal” e os “trâmites burocráticos”, factóides democráticos que falam mais alto que as necessidades mais contundentes da nação. O conceito de nação remete a natureza também. Indica onde se nasce e para onde se volta; é a primeira camada de solidariedade, que se realiza na família e na língua pátria. Nossa corrupção política seria espelho da corrupção da linguagem?

O Ponte Velha | Abril de 2016  
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