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1º Congresso de Humanização – Aliança Saúde

A importância da espiritualidade na saúde é inegável. A pessoa humana, ao buscar a saúde física, deve ser considerada integralmente. Os profissionais da saúde são chamados hoje a fazer da espiritualidade uma aliada; para isto, é necessário dar atenção ao pluralismo religioso em nossa sociedade. A Igreja Católica e o Instituto Marista, como aliados da saúde, querem contribuir nesta missão.


ESPIRITUALIDADE NA SAÚDE, Sob o olhar MARISTA A espiritualidade na saúde tornou-se, atualmente, um tema indispensável ao se pensar em evolução na qualidade de vida das pessoas. Não deixa de ser um assunto polêmico, sobretudo por ser, ainda, pouco explorado por parte de quem não está diretamente ligado ao âmbito das religiões. Muito facilmente se relaciona a espiritualidade com atitudes devocionais um tanto fundamentalistas. Na história não nos faltam exemplos que ilustram e apóiam essa forma de pensar. Talvez por isso o tema da espiritualidade tenha sido às vezes rejeitado por muitos profissionais da saúde, ou por pessoas ligadas às ciências em geral.

temos as respostas, resta-nos a angústia ou a busca de sentido. Mesmo que para alguns o “nada” parece ser o que há de mais coerente, ainda assim a afirmação dele não deixa de ser uma crença.

Parece-nos que temos um problema para se resolver. Temos a necessidade de espiritualidade e não temos mais grandes instâncias normatizadoras do espírito humano. Como poderemos desenvolver uma espiritualidade sadia? A essa pergunta muitas respostas se apresentam. De modo geral, busca-se redescobrir grandes princípios religiosos, até mesmo nas próprias religiões (fala-se em refundação); fala-se em A espiritualidade é própria do espírito que é parte espiritualidade entre os execuintegrante de todo o ser humano que é formado de tivos; funda-se, cotidianamente, novas formas de crenças e corpo, alma e espírito. Todos a têm pelo simples fato vidas religiosas etc. O tempo de existirem. A questão está em querer ou se dispor (ou o juízo humano amadurecia desenvolver esta dimensão intrínseca ao próprio do no tempo), acreditamos, irá ser. Assim como se busca desenvolver o intelecto se encarregaram de selecionar, ou o próprio corpo físico cujas finalidades e benefídiante das transitórias configucios são óbvios. O motivo, a razão de se desenvolver rações culturais, as proposições a dimensão espiritual, pode se resumir assim: a espimais sólidas e plausíveis. ritualidade leva a pessoa a transcender além da limitada capacidade perceptiva da razão - psique - e A presente reflexão pretende além da massa bruta material a ponto de perceber ser uma proposição a mais. No valores que dêem sentido à vida. entanto, colocando-se como

A pós-modernidade, no entanto, relativizou tanto o cientificismo como a religiosidade tradicionalista. A confiança na ciência ganha um lugar mais modesto ao se perceber as grandes questões humanas que precisam ser resolvidas e que, para além das ciências, dependem muito mais de convicções, atitudes éticas, morais, crenças e ideais: como sustentabilidade, ecologia, integralidade do ser humano, felicidade, dignidade, igualdade, paz etc. As grandes religiões tradicionais também sofreram um descrédito, não em relação a suas propostas religiosas, mas à forma como muitos dos seus “líderes” religiosos administram seus “bens espirituais” e normatizam o sagrado. Parece que a institucionalização do sagrado é que acaba sendo rejeitada em grande parte na atualidade. Há, fora da formalidade, uma verdadeira explosão por buscas de respostas no transcendente.

(Roberto Kerber)

uma proposta focada na identidade cristã e marista, fundamentada em princípios já comprovados na história, que são ao mesmo tempo convergentes aos ensinamentos das grandes religiões e às exigências éticas de nosso tempo. Buscamos “beber” na fonte da tradição, com fidelidade, e buscar, no hoje, novas formas de ler e transformar a realidade. Nessa proposição, queremos fazer o recorte de temas que sejam pertinentes à nossas práticas de promoção da saúde. Para tanto, as páginas que seguem buscarão fazer uma leitura do tema da espiritualidade nas grandes religiões, identificando a mística que as envolvem; fazer igualmente um recorte da religião cristã, católica, identificando alguns de seus grandes princípios; e, por fim, a abordagem da especificidade do carisma marista, dando ênfase a questões espirituais que julgamos pertinentes à nossa atuação na área da saúde.

Nesse contexto, a espiritualidade, independentemente das nuances atuais que vem ganhando, emerge como algo inevitável. Não há como rejeitá-la. Trata-se da questão do sentido de vida, da liberdade, da consciência, das razões profundas da existência, da fé, da esperança e do amor. Todos, ateus ou religiosos, somos espirituais, queiramos ou não. Lidamos com os limites inevitáveis como o sofrimento e a morte. Não 3


Mística e Espiritualidade

ESPIRITUALIDADE NO PENSAMENTO DAS DIVERSAS TRADIÇÕES RELIGIOSAS Algumas tradições religiosas, ainda, preferem acentuar a leitura da espiritualidade no cotidiano da vida. Promovem a busca de Deus, a qualquer hora, e acreditam ser possível encontrá-lo em qualquer lugar. Outras a consideram possível ao se traçar um caminho solitário, no qual nos vemos fracos e frágeis; incapazes de encontrarmos conforto e proteção em outro lugar que não seja em nossos corações, e luz nas nossas próprias consciências.

Cada religião apresenta um sistema de pensamento próprio, no entanto, todas caminham muito próximas e acabam se desdobrando para promover a mesma finalidade: a promoção da vida, a harmonia, a paz, a salvação, a justiça e a felicidade do ser humano. O cultivo, a origem e o sentido da espiritualidade nesse âmbito igualmente ganham muitas conotações, ao mesmo tempo em que se convergem num mesmo fim. Para os índios nativos estadunidenses, por exemplo, quando nascemos temos a primeira inspiração. O “in” significa dentro e “pirar” vem de espírito. Ao nascer, para essas civilizações tradicionais, colocamos o espírito para dentro e dali pra frente ficamos com ele durante toda a existência. Este espírito só passará quando dermos o último expiro, ou seja, quando colocarmos o espírito para fora.

Independentemente das variáveis que as compreensões possíveis sobre espiritualidade permitem, para entender o que de comum há sobre espiritualidade entre as diversas crenças é necessário compreender um outro conceito: a mística. Pois é justamente enquanto mística que as religiões farão da espiritualidade que adotam uma postura concreta e comum de vivência de fé.

Outras tradições religiosas buscam mais sua fonte de inspiração para a significação da espiritualidade ao aprender a ler as palavras de Deus no grande livro da Natureza, que está ao nosso redor, e em nós mesmos. Buscam decifrar as mensagens de Deus impressas nos astros, nas linhas das mãos, na íris dos olhos, no fundo do inconsciente, nos sonhos e daí por diante.

Esta abordagem merece um estudo mais aprofundado; no entanto, para nossa finalidade, é suficiente abordarmos de forma sintética palavras que nos ajudarão a compor sobre essa temática uma visão geral. 4

Ter Espiritualidade significa buscar o sentido da vida para além da vida; é abrir-se para a transcendência; é dar um passo para além do racionalismo filosófico e cientificista que predominou no mundo moderno. Ter mística consiste em fazer uma experiência concreta de fé, em comunidade. A mística não é somente uma idéia ou uma concepção de mundo. Ela é uma experiência pessoal, uma experiência religiosa, uma experiência de Deus na vida cotidiana.

A mística nas grandes tradições religiosas Cada Tradição Religiosa possui uma mística, um objetivo a ser atingido e que pretende ajudar as pessoas a serem mais perfeitas, mais humanas, mais idênticas àquilo que é a plenitude da vida, a vida para além da vida mortal. A idéia de mística, que pode ser entendida como a idéia de perfeição, tem sua origem no vocabulário chinês: Tão, que remete ao jeito de entender a vida, o mundo, o sofrimento, a morte; enfim, a existência.


No Judaísmo

ESPIRITUALIDADE NO PENSAMENTO

DO CRISTIANISMO CATÓLICO A espiritualidade no cristianismo está relacionada à concretização do amor a Deus e ao próximo em atitudes de perdão, acolhida, fraternidade, solidariedade, caridade, e outras tantas necessárias para se promover a vida. No entanto, isso só é possível pela graça de Deus, aliada ao empenho humano. O cristão, portanto, necessariamente é um seguidor de Cristo. Vive um discipulado. Dele aprende o que deve ser

No cristianismo No Hinduísmo

A liberdade e a vida segundo o Espírito No seguimento de Cristo, duas questões tornam-se primordiais para que uma autêntica espiritualidade cristã se desenvolva de forma sadia: a vida segundo o Espírito e o consentimento das coisas de Deus na liberdade.

a) A vida segundo o Espírito A vida segundo o Espírito compreende a vida no mundo, mas confirmada pelas coisas do alto. Sobre isso, é oportuno compreender a distinção feita na Bíblia entre o homem natural e o homem espiritual. Paulo, em I Cor. 2,14, diz que o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parece loucura; e não pode entendê-las porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido. Quando a Bíblia fala em homem espiritual ela está fazendo menção ao homem que é guiado pelo Espírito Santo de Deus, e não pela carne. Paulo, ainda, em Romanos 8,14, diz “Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus”.

No Islamismo

No Budismo

Em síntese, o homem espiritual segundo a Bíblia3 : • Foi crucificado em Cristo, e vive não mais ele, mas Cristo é quem vive na vida dele (Gl 2,20). 1

• Têm compromisso e é fiel a Deus (2Tm 2, 13). • Não se conforma com este mundo (Rm 12, 2). • Sua fé é eminentemente baseada em Cristo (Rm 3,26 e Ap14, 12). • Tem coragem de ser pesado na balança de Deus (Jo 31, 6). • Tem coragem de ser sondado por Deus (Sl 139, 23).

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feito e recebe as graças para bem realizá-lo. Segundo José Nivaldo, “o cerne da espiritualidade cristã está em seguir a Jesus. Quando decidimos conscientemente seguir o seu caminho, então a espiritualidade cristã começa a fluir em nós. O Pai, pelo seu Espírito, vai-nos transformando na imagem de seu Filho à medida que damos os passos no caminho. Fora do discipulado, não há espiritualidade cristã”2.


Mística

b) A liberdade dos filhos de Deus Sobre a liberdade que o cristão deve ter para que sua opção por Deus seja autêntica, é oportuno compreender um dos textos da Bíblia, a carta de São Paulo aos Gálatas, que afirma que somente quem opta pela autêntica liberdade se aventura no caminho espiritual: “Vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não abuseis, porém, da liberdade... Pelo contrário, fazei-vos servos uns dos outros pela caridade” (Gl 5, 13). Os frutos do espírito, que são o sinal do autocontrole e fazem entrar na verdadeira liberdade são os seguintes: caridade, alegria, paz, longanimidade, afabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e continência. Contra estes não há lei (Gl 5, 22 - 23). Aqueles que vivem estes frutos do espírito não têm mais lei porque são orientados pelo amor e quem ama jamais poderá fazer o mal, nem a si mesmo e nem ao próximo. São João da Cruz, na sua visão de liberdade e de plenitude da vida, ensina que quem chega ao cimo do monte encontra somente a honra e a glória de Deus, e que para o justo não há lei, a não ser a lei

Discipulado: A palavra discípulo e a palavra disciplina vêm da mesma raiz latina — discipulus, que significa aluno.

do verdadeiro o amor, que se faz doação. Este não lhe permite mais ser escravo de nada e de ninguém. Então, podemos dizer que são espirituais aqueles que podem dizer com sinceridade como Paulo apóstolo: "Não sou mais eu quem vivo, mas é Cristo quem vive em mim"4. A Lei do amor é o próprio Cristo. Portanto, fica claro que a vida exige crescimento e aperfeiçoamento. Todos são chamados à perfeição, ou seja, qualquer cristão é chamado a plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade que promoverá um teor de vida mais humano (LG 40). Deixando por hora de lado outras possíveis abordagens do termo, segundo Flávio de Castro, é possível considerar que a Espiritualidade Cristã Geral consiste na procura sistemática e livre do crescimento da caridade com Deus e da caridade fraterna. Crescer na vida sobrenatural é ser elevado por Deus a uma participação maior na vida divina, e ao mesmo tempo crescer na abertura e no cultivo do amor 5.

Salienta a prática e o exercício. No caso do cristianismo, o discípulo é aquele que esforça-se por seguir os ensinamentos

do Mestre, Jesus. É aquele que o segue por reconhecer nele a sua liderança, a coerência de suas palavras e ações.

Mística x Espiritualidade Na tradição cristã Como abordado anteriormente, a mística está relacionada ao dom e fogo que faz sair de si para sonhar, crer, lutar, caminhar e trabalhar. É a força que converte e convence o coração do sujeito. A espiritualidade é o sopro que movimenta, que faz questionar, que produz a mudança e faz compreender que os valores do espírito humano aproximam o sujeito do seu próximo, da natureza e de Deus.

é uma palavra que deriva de mistério, que vem do grego Mysterion que é igual a Múein, e quer dizer iniciar, instruir alguém nos mistérios. Mistério significa perceber o caráter escondido, não comunicado de uma realidade ou de uma intenção. Em seu sentido pessoal significa o ilimitado de todo o conhecimento. Na tradição bíblico-cristã a mística é entendida como iniciativa gratuita de Deus. É Ele quem atrai para si as criaturas, que num segundo momento se deixam cativar ou seduzir. O profeta Jeremias traduz tal experiência nos termos: “Seduziste-me Senhor e eu me deixei seduzir” (Jr 20,7). Mística, então, é um dom que leva a sair da acomodação, do pessimismo, para viver a esperança, a liberdade, o serviço. É o fogo que impulsiona a sonhar, a crer, a lutar, a caminhar, a trabalhar. Aquela dimensão que alimenta as energias vitais da pessoa e que vai além do princípio do interesse, dos fracassos e sucessos. O entusiasmo em favor da vida, da paixão pela missão, de ser um profissional eficiente de formar a nova geração na crença e nos valores, de passar para os outros a riqueza de vida e da experiência já adquirida. A mística tem a força de unir duas realidades que a sociedade moderna vem separando cada vez mais pelo seu acentuado indivi-

dualismo: Serviço e prazer. O serviço se refere ao outro. O prazer a si mesmo. Na atualidade valoriza-se muito o prazer percebido como satisfação das próprias necessidades. A mística cristã consegue também combinar a dor com o prazer, o sofrimento com a alegria, a labuta com o gozo. Ela nos revela o prazer do serviço ao irmão nas pegadas do Mestre. É o que São Francisco de Assis resumiu bem na oração: “Ó mestre, fazei que eu procure mais: consolar que ser consolado, compreender que ser compreendido, amar que ser amado. Pois é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado; e é morrendo que se vive para a vida eterna”. A mística nos remete para a missão. A experiência mística cristã termina, necessariamente, na missão. O apóstolo São João nos escreve na primeira epístola de modo direto e simples: “Se alguém disser que ama a Deus, e odeia seu irmão, é um mentiroso. Com efeito, quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (Jo 4, 20). Por isso, a experiência mística de Deus acontece quando a pessoa dá atenção ao que sucede ao seu redor e consigo mesmo. A mística não é, pois, privilégio de alguns, mas é uma dimensão da vida humana a qual todos têm acesso quando descem ao nível mais profundo de si mesmos e dão atenção aos acontecimentos, identificando as manifestações de Deus.

Depoimento

Espiritualidade deriva da palavra espírito, do latim espiritus: sopro, vento; do grego pneuma: vento, força, mediador, pessoa, e do hebraico ruah, (palavra feminina): movimento; sem movimento não há vida. É o ar que se respira, é mais que o ar na sua composição química é a essência do ar, é a essência da vida que se move nas pessoas. A Bíblia, em seu primeiro capítulo, refere-se ao espírito como organizador do universo; o caos se transforma em cosmos. No livro do Gênesis encontramos a seguinte passagem: “A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas” (Gn 1, 2). Compreender a espiritualidade significa questionar paradigmas usuais, ver uma realidade diferente daquela de costume, encontrar formas menos sofridas de convivência, entender nossa interdependência e necessidade de ajuda mútua, ver o outro como uma totalidade incompleta.

seus limites. Como diz Leonardo Boff, “a Espiritualidade é aquilo que produz a mudança dentro da pessoa. O ser humano é um ser de mudanças, pois nunca está pronto, está sempre se construindo: física, psíquica, social e culturalmente”.

Psíquica

Social

Cultural

Física

ESPIRITUALIDADE CRISTÃ

A espiritualidade faz a pessoa dar um mergulho dentro de si mesma gerando transformação. Aproxima-a cada vez mais de si mesma, fazendo com que conheça cada vez melhor suas forças e

Como acho que nossa experiência fala mais do que palavras bonitas, gostaria de deixar aqui o que sinto na espiritualidade: Espiritualidade é desde a alegria de ter nascido até a respiração que faço agora. É descobrir a providência divina nas dificuldades diárias. É reconhecer a presença de Deus, quando o mundo a sua volta te apedreja. É ir dormir morrendo de cansaço, mas feliz por ter sentido Deus no serviço ao outro. É ter o privilégio de conseguir esquecer mágoas e transformá-las em aprendizado para nós mesmos. É afirmar: "Deus é Pai" em agradecimento e pedir quando em dúvida: "Seja feita a vontade de Deus". Enfim, ser espiritual é ser louco para o mundo e viver degustando pedacinhos do céu na realidade humana e acreditar. Perguntar no final do dia: Como senti Deus hoje? Ainda mais ter a resposta para tal pergunta...” (Maria de Lourdes Machado)

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A ESPIRITUALIDADE E O CARISMA

NO INSTITUTO MARISTA O carisma marista consiste no dom que Deus concedeu a Marcelino Champagnat e seus Irmãos de Maria de colocar as suas próprias vidas a serviço da educação das pessoas de sua época, sobretudo das crianças e dos jovens. Essa iniciativa frutificou e se perpetuou na história por meio das pessoas que

se identificam, movidas pelo Espírito, com essa mesma proposta, adaptando-a às necessidades dos dias de hoje. Durante sua vida, o fundador deixou seu legado por meio de uma vida inteira de doação ao próximo. O dom recebido por Champagnat foi interpretado por ele próprio e os primeiros Irmãos.

A Intuição de Champagnat Marcelino Champagnat nasce a 20 de maio de 1789, em Marlhes, aldeia montanhosa no centro-leste da França. A Revolução Francesa acaba de estourar. Ele é o nono filho de uma família cristã. Sua educação é essencialmente familiar. Sua mãe e sua tia – que é irmã religiosa e se abriga na casa dos Champagnat para fugir dos revolucionários – despertam nele fé sólida e profunda devoção a Maria. Seu pai, agricultor e comerciante, possui instrução acima da média; desempenha um papel político na aldeia e na região, transmite a Marcelino a habilidade para os trabalhos manuais, o gosto pelo trabalho, o senso das responsabilidades e a abertura às idéias novas. Quando Marcelino está com 14 anos, um padre o visita e o convida para a vida sacerdotal. Marcelino, de quase nenhuma escolaridade, vai se mover a estudar; muitos o desaconselham e procuram dissuadi-lo desta iniciativa, porém ele decide ir ao seminário. Os anos difíceis do Seminário Menor de Verrières (1805-1813) são para ele uma etapa de verdadeiro crescimento humano e espiritual. Impressionado pelo abandono cultural e espiritual das crianças da campanha, Marcelino sente a urgência de fundar uma Instituição para a educação cristã da juventude. Após sua ordenação sacerdotal, é enviado como ajudante na paróquia de La Valla. A visita a um adolescente de 17 anos, às portas da morte e sem conhecer Deus, o perturba profundamente, impelindo-o a empreender e a gestar um projeto majestoso.

A 2 de janeiro de 1817, apenas a 6 meses de sua chegada à cidade de La Valla, Marcelino reúne seus dois primeiros discípulos: a Instituição Marista nasce na pobreza e humildade, na total confiança em Deus, sob a proteção de Maria. Além de garantir seu ministério paroquial, Marcelino se dedica a formação de seus discípulos, e os transforma em educadores – “formava-os nas ciências e lhes dava a conhecer os melhores métodos de ensino”. Sem tardar, abre escolas. As vocações vêm, e a primeira casa, apesar de aumentada pelo próprio Marcelino, torna-se logo pequena demais. As dificuldades são numerosas, mas ele é persistente e não desanima. Marcelino, homem de fé profunda, vê em Maria, a "Boa Mãe", o "Recurso Habitual", a "Primeira Superiora". Sua grande humildade, seu senso profundo da presença de Deus, fazem-lhe superar, com muita paz interior, as numerosas provações. "Tornar Jesus Cristo conhecido e amado" é a missão Marista. A educação é o meio privilegiado para essa missão de evangelização. Marcelino inculca em seus seguidores o respeito, o amor às crianças e jovens, a atenção aos mais pobres. Aconselha a vivência da presença prolongada entre as crianças e jovens. A simplicidade, o espírito de família, o amor ao trabalho, o agir em tudo do jeito de Maria, são os pontos essenciais de seu empreendimento. Morre aos 51 anos de idade, a 6 de junho de 1840. Seu empreendimento contava com “280 irmãos e 48 estabelecimentos que atendiam cerca de 7000 alunos”. Hoje sua obra está presente em 79 países e atende aproximadamente 500 mil crianças e jovens.

O evento MONTAGNE Um acontecimento foi providencial para que Marcelino Champagnat fundasse o Instituto dos Irmãos de Maria. Chamado a confessar um jovem doente num povoado, pôs-se imediatamente a caminho, conforme seu costume. Antes de ouvi-lo em confissão, fez-lhe uma série de perguntas (...) estremeceu-se ao verificar que ele ignorava os principais mistérios, não sabendo nem

mesmo se Deus existia. Aflito (...) começou a ensinar-lhe os principais mistérios e as verdades essenciais da salvação. Depois de o ter confessado (...) deixou-o para atender a outro doente, na casa vizinha. Ao voltar, perguntou como estava o rapaz: “Morreu instante após sua saída”, responderam os pais em lágrimas. (Champagnat) Voltou todo

compenetrado destes sentimentos, cismando: “quantos outros meninos se encontram, todos os dias, na mesma situação, correndo o mesmo risco, por não haver ninguém que os instrua nas verdades da fé”. E, então, o pensamento de fundar uma sociedade de Irmãos, destinados à instrução cristã, perseguiu-o com tamanha insistência (...)

O Carisma do Instituto MARISTA A intuição do carisma não é algo linear, diversos fatores e situações da comunidade influem no discernimento. Ser seguidor de Cristo, hoje, ao estilo de Champagnat, significa comprometer-se com a missão de tornar Jesus Cristo conhecido e amado,

partilhando a vida no dia a dia e fazendo da espiritualidade marista uma fonte de vitalidade. A espiritualidade é vivida na e para a missão; a missão cria e anima a vida partilhada; a vida partilhada é, por sua vez, fonte de espiritualidade e de missão 6.

a) Do Jeito de Maria

Duas grandes frentes, dentre outras possíveis, caracterizam o carisma marista: a) a dedicação à obra da educação do jeito de Maria; e b) a busca pela formação integral do ser humano.

b) Visão integral da pessoa

Para Marcelino Champagnat, Maria é um modelo de confiChampagnat, com toda sua herança familiar e sua formação sacerdotal da época, servindo a uma comunidade que sofria os ança e de abandono nas mãos de Deus. Dela aprendeu o efeitos da revolução francesa, da desorganização das instituições exemplo de acolhida, presença, humildade, perseverança e públicas e da assistência deficiente do estado, percebeu que era atitude de serviço ao próximo. Insistiu junto aos Irmãos preciso desenvolver uma ação Maristas a que a tivessem que de forma sólida pudesse como exemplo e que testemuCarisma, o que é? desenvolver o cidadão na dimennhassem essa devoção por No dicionário grego clássico, chárisma, charísmatos, são humana e espiritual; em sínmeio de obras concretas e recebe as seguintes versões: obséquio, benevolência, tese, desenvolver a personalidadom. A base do termo cháris, cháritos, versa os seguintes fecundas. de integralmente. O aspecto intesignificados: prazer, alegria, encanto exterior, beleza, Portanto, hoje, a adesão à espirespeito, benevolência, favor, desejo de agradar, condesgral ainda quer dizer adaptado cendência, reconhecimento, agradecimento, recompenritualidade marial, nesse conao sujeito em suas mentalidades sa e até mesmo salário. Colocamos isto em atenção à texto marista, não se trata de diversas, que a busca da verdade palavra de Platão, que se antecipou aos nossos tempos adesão a uma simples idéia ou seja facilitada de todos os modernos que, pensando ser original, fala em “poder da devoção. Contemplar e imitar modos, particularmente pelo palavra” ou word power. amor, pelo entusiasmo e com Maria deve traduzir-se no ofeQuando se fala em carisma se entende a ação esplenmétodos apropriados8. recimento do trabalho do diadente, superior, miraculosa ou misteriosa. Para comprea-dia, no serviço fraterno, na O ser humano se constitui em ender melhor o que se entende por carisma na mística acolhida e na ajuda às pessoas uma unidade que abrange o cristã é importante ler um trecho precioso de São Paulo com as quais se convive. No físico, o saber, os valores da no que se refere a este tema: atendimento ao próximo devevida, a consciência e a fé. Ele é “Acerca dos dons espirituais, não quero que sejais ignoranse procurar fazer com que se chamado a se desenvolver em tes. Vós bem sabeis que, como pagãos, éreis levados aos sinta feliz através de pequenos todos estes aspectos. Em todas ídolos mudos, segundo éreis guiados. Eis por que vos quero gestos e detalhes, e isso implica estas situações a missão marisfazer compreender que ninguém que fala pelo Espírito diz: em estar atento às necessidata procura servir e desenvolver o Jesus é anátema. Ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor des e descobrir algo de Deus no senão pelo Espírito Santo. Ora há diversidade de dons, mas ser humano. É o que se chama cotidiano. o Espírito é o mesmo. Há diversidade de ministérios, mas o de formação ou desenvolvimenSenhor é o mesmo. Há diversidade de operações, mas é o to integral da pessoa humaNão se pode ser Marista (Irmão mesmo Deus que opera tudo em todos” (1 Cor 12, 1-6). na. O programa para o cultivo ou Leigo) apenas de nome. Sê-lo da pessoa humana na sua intePortanto, Paulo lançou os primeiros fundamentos na comem verdade significa que a espipreensão teológica do termo carisma que nada mais é que gralidade parte sempre da conritualidade vivida por Marcelino um dom do Espírito Santo que nasce no meio da comunidacepção do humanismo cristão. modelou o coração daquele que de cristã por inspiração do Espírito Santo, para responder às quer ser “marista” de tal maneiPara que o um marista seja necessidades espirituais e sociais de cada época. ra que já não pode viver sem ela; capaz de dar atenção a todas as de tal maneira que ela reforma, áreas da personalidade é necesforma e transforma tornando-o um “ser marista” renovado sário viver o tanto quanto possível tais realidades para dar testal como Marcelino7. O Espírito transforma o coração e impele temunho de vida; para isto, todos os valores precisam ser tratapara a missão. Foi assim que aconteceu com Maria, e é assim dos a partir de um senso crítico sério: valores sociais, culturais, psicológicos e transcendentais 9. que deve acontecer com cada um de nós.

(Jean Baptiste Furet)

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que Deus aja por meio dos seguidores do carisma marista, buscando “fazer o bem sem barulho”. Sendo consciente das limitações e potencialidades, se está mais apto a compreender o outro, respeitando-o na sua dignidade e liberdade11.

necessidades espirituais e sociais da comunidade local, estendido a toda a Igreja, a serviço da humanidade. Seu núcleo consiste em realizar a missão de tornar Jesus Cristo conhecido e amado entre as crianças, os jovens e os adultos.

O espírito de família como ambiente de trabalho O espírito de família espelha-se no lar de Nazaré. É feito de amor e perdão, entreajuda e apoio, esquecimento de si, de abertura aos outros e de alegria (Cl 3,12-15). Esse espírito haure força e fervor no amor de Cristo. Impregna as atitudes e o proceder da família marista, de modo que irradia aos que a encontram12.

• O carisma marista envolve uma espiritualidade centrada em Cristo e ao mesmo tempo marial. Eis um lema marista: “Tudo a Jesus por Maria, tudo a Maria para Jesus”. • Marcelino Champagnat era um homem de coração grande. Seu empenho se abria ao mundo em forma de serviço à vida: Para ele, tornar Jesus Cristo conhecido e amado significa também ajudar ao próximo a se tornar um "bom cristão e virtuoso cidadão".

O grande desejo de Champagnat é que a relação entre Irmãos, leigos e pessoas que freqüentam as obras Maristas seja como entre membros de uma família que se ama13. Todos são desafiados a colocar em prática este desejo do fundador, mesmo nas obras mais complexas.

Os valores e a mística

da missão Marista Cada carisma tem seu distintivo, suas características e os acentos especiais na vivência da mística e da espiritualidade. Os principais aspectos do carisma marista estão centrados na visão integral da pessoa humana e na pedagogia que tem como modelo Maria, Mãe de Jesus. Desta visão e ambiente educativo decorrem os valores norteadores, que são: a presença, a simplicidade, o espírito de família e o amor ao trabalho. Eles emergem da vivência do carisma por parte do próprio fundador e se perpetuam na história, orientando as gerações.

meramente formais, cria-se a oportunidade do conhecimento mútuo em nível pessoal. Para Champagnat, a presença deveria ser significativa e se constituía num espaço para o testemunho de vida, o principal e mais eficaz meio para se educar. A simplicidade como estilo de vida A simplicidade deve expressar-se no trato com as pessoas, sobretudo por meio de uma relação autêntica e sincera, tomada despretensiosamente e sem duplicidade. A simplicidade é fruto da unidade entre espírito e coração, ser e agir, revelando sinceridade em relação a si mesmo e a Deus10.

A presença e o testemunho A presença junto às pessoas é uma demonstração de amizade e estima. Ao destinar tempo aos outros além das relações

À simplicidade se acrescenta a humildade e a modéstia, que constituem as “três violetas” da tradição marista, permitindo 12

• Para Champagnat, a espiritualidade marista implica em formar comunidade e partilhar a vida. O testemunho de vida, para ele, era o principal meio para educar. O ambiente em que Champagnat quis trabalhar se espelha no lar de Nazaré (ambiente de família), onde se dialoga e cada um procura fazer o melhor de si para que seja de entendimento e sabedoria (simplicidade), onde todos se esforçam para bem cumprir suas tarefas (espírito de trabalho), na seriedade dos compromissos, na constante atualização e no planejamento consciente das atividades.

O amor ao trabalho e constância como dedicação ao Reino de Deus Marcelino Champagnat era homem de trabalho, enérgico, inimigo da preguiça. Ele próprio formou-se com esforço tenaz e total confiança em Deus, e com essas características impregnou o seu ministério paroquial, fundou a sua família religiosa e empreendeu todos os seus projetos14. Marcelino Champagnat, como construtor, mostra a importância de estar disposto a “arregaçar as mangas”, preparado para fazer o que for necessário à realização da Missão. Quem quiser ser seu discípulo deve seguir o seu exemplo, sendo generoso de coração, constante e perseverante no trabalho cotidiano, bem como nos esforços empreendidos na própria formação permanente.

• Na pedagogia proposta por Champagnat, para bem educar é preciso antes de tudo amar, e amar a todos igualmente. • Champagnat deseja que seus companheiros estejam próximos das pessoas (presença), isto implica em grande possibilidade de animar e capacitar aspectos positivos, desenvolvendo a maturidade afetiva em clima de confiança e amizade, e desfazer tensões e desavenças. Enfim, estar presente como exemplo voluntário e gratuito de integração, desenvolvendo e realizando a dimensão da paternidade ou da maternidade junto às pessoas.

O amor ao trabalho deve ser desenvolvido nos diversos ambientes das obras por meio de uma cuidadosa preparação dos projetos, planejamento e avaliação das atividades, programas e acompanhamentos15. Para dar conta desta exigência é preciso ser prospectivo e decidido a desenvolver respostas criativas às necessidades das pessoas.

• A Igreja reconhece que a intuição de São Marcelino continua viva hoje e é um presente de Deus para o mundo16. A missão marista é chamada a multiplicar-se, até abranger todas as dioceses do mundo . O leigo marista acredita que Deus o convoca a prolongar essa intuição na história, como seguidor de Cristo17.

Sintetizando alguns aspectos relevantes do carisma marista • O carisma (dom do espírito) de Champagnat é um novo modo de viver o Evangelho, uma resposta concreta às 13


ESPIRITUALIDADE, SAÚDE E O CARISMA MARISTA Espiritualidade na saúde A questão da espiritualidade vem ganhado espaço no âmbito da saúde. Há basicamente duas grandes tendências em andamento que justificam esse avanço:

Nunca se buscou tanto como agora no campo científico a compreensão do processo de cura desencadeado ou fortalecido pela fé, pelo cultivo da espiritualidade. A Neuroteologia, por exemplo, aponta resultados de pesquisas que impressionam quando o assunto é a influência da espiritualidade na longevidade, no sistema imunológico, no processo de psicossomatização, de prevenção, entre outros. Sobre esse assunto, é oportuno ouvir os Doutores Andrew Newberg e Harold Koening, conforme indicação do vídeo anexado18.

Uma é já bastante difundida e está relacionada à necessidade que as pessoas têm, sobretudo em estado de saúde debilitada, de encontrar sentido para os fatos que predominam e ocorrem em sua própria vida. Neste âmbito, há, por um lado, as diversas perspectivas teóricas e práticas oferecidas pelas religiões ou mesmo por formas de crenças latentes; e, por outro lado, há também a subjetividade do indivíduo que busca as suas próprias razões para suas crenças e experiências (que envolve a dimensão afetiva, inclusive) religiosas que acaba por desenvolver.

Já no campo das ciências teológicas e filosóficas (e afins) vem se desenvolvendo uma abordagem mais elaborada em linguagem atual sobre a compreensão do ser humano em sua integralidade, concebendo-o como um ser de mente (inteligência), corpo (física), emoções (coração) e, sobretudo, de consciência (espírito). Autores clássicos, como Agostinho de Hipona, por exemplo, desenvolveram essa forma de compreender o ser humano há séculos; no entanto, percebe-se uma redescoberta dessa compreensão a partir de autores atuais, que buscam estabelecer pontes entre suas especialidades e as diversas formas de pensar e crer. Para muitos desses autores, a espiritualidade é o centro referencial e responsável por harmonizar e potencializar todas as dimensões do ser humano. Para a saúde, que busca tratar o ser humano como um ser integral – e isso é ponto pacífico – ignorar a espiritualidade seria um erro. Ao mesmo tempo, terceirizar esse assunto somente para as religiões seria comodidade ou talvez ignorância. É chegado o tempo de redescobrir caminhos entre espiritualidade e saúde.

Neste contexto, o respeito às propostas objetivas das religiões bem como às livres adesões pessoais torna-se algo sagrado. No entanto, não absoluto. Se o que as religiões têm em comum é a mística de envolver o ser humano em ações que promovam a vida, jamais qualquer crença deverá se justificar se não promover de fato a vida. Neste ponto, a ética acaba por ser a grande guardiã da relação espiritualidade e saúde. Ao mesmo tempo em que o campo das crenças é sublime, a ética torna-se a ferramenta indispensável para que ela de fato seja coerente e sadia. Outra tendência que promove o avanço da relação espiritualidade x saúde está mais relacionada ao campo científico. Independentemente da questão do respeito às crenças e à normalização ética para que esse procedimento – espiritualidade x saúde – seja sadio, há o dado científico que abrange tanto a área da saúde como das ciências teológicas/filosóficas.

Risco – O médico toca em um ponto importantíssimo. Quando a religiosidade toma o lugar da medicina, as coisas se complicam. Quem leva a fé a ferro e fogo e decide depositar tudo nas mãos de Deus corre o sério risco de perder a vida. Um estudo feito pelo médico Riad Yunes com

três mil pacientes de câncer de mama no Hospital do Câncer de São Paulo mostra o quanto essa possibilidade é real. Segundo o trabalho, 20% das mulheres preferiram fazer tratamentos espirituais antes de se submeter à cirurgia e tomar os medicamentos indicados pelos médicos. “Quando 14

voltaram ao hospital, três ou quatro meses depois, os tumores tinham dobrado de tamanho”, diz Yunes. Como se vê, o equilíbrio entre as necessidades da alma e as do corpo é um dos segredos de uma boa saúde. (Celina Côrtes, Cilene Pereira e Mônica Tarantino, Revista IstoÉ 01/06/2005)

Espiritualidade e saúde, um encontro inevitável Já são muitos os médicos que fazem essa constatação no dia a dia. O oncologista Riad Yunes, do Hospital do Câncer de São Paulo, é um deles. “Os pacientes que têm religiosidade parecem suportar mais as dores e o tratamento. Também lidam melhor com a idéia da morte”, observa. Esse tipo de informação já aparece em diversas pesquisas. Muitas estão sendo feitas sob a batuta do médico Harold Koenig, da Universidade de Duke (EUA). Entre seus achados estão resultados interessantes. Pessoas que adotam práticas religiosas ou mantêm alguma espiritualidade apresentam 40% menos chance de sofrer de hipertensão, têm um sistema de defesa mais forte, são menos hospitalizadas, se recuperam mais rápido e tendem a sofrer menos de depressão quando se encontram debilitadas por enfermidades. “Hoje há muitas evidências científicas de que a fé e métodos como a oração e meditação ajudam os indivíduos”, afirma Thomas McCormick, do Departamento de História e Ética Médica da Universidade de Washington (EUA). Estimulados por essa realidade, os cientistas procuram respostas que elucidem de que modo esse sentimento interfere na manutenção ou recuperação da saúde. Há algumas explicações. Uma delas se baseia numa verdade óbvia: a de que quem cultiva a espiritualidade tende a ter uma vida mais saudável. “Os estudos comprovam que a religiosidade proporciona menos comportamentos auto-destrutivos como suicídio,

abuso de drogas e álcool, menos stress e mais satisfação. A sensação de pertencer a um grupo social e compartilhar as dificuldades também contribuiria para manter o paciente amparado, com melhor qualidade de vida”, explica o psiquiatra Alexander Almeida, do Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Religiosos do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP). Para os cientistas, essa explicação é só o começo. O que se quer saber é o que se passa na intimidade do organismo quando as pessoas oram, lêem textos sagrados e qual o impacto disso na capacidade de se defender das doenças. Embora não existam estudos conclusivos, acredita-se que esse plus esteja relacionado a mudanças produzidas pela fé na bioquímica do cérebro. “Setores do sistema nervoso relacionados à percepção, à imunidade e às emoções são alteráveis por meio das crenças e significados atribuídos aos fatos, entre outros fatores. Assim, um indivíduo religioso tem condições de atribuir significados elevados ao seu sofrimento físico e padecer menos do que um ateu ou agnóstico”, explica o psicólogo e clínico João Figueiró, do Centro Multidisciplinar da Dor do Hospital das Clínicas (HC/SP). Para aprofundar as investigações, está surgindo até um novo campo de conhecimento, chamado de Neuroteologia. (Celina Côrtes, Cilene Pereira e Mônica Tarantino, Revista IstoÉ 01/06/2005)

Diferentemente do QI, encontrado nos computadores, e do QE, que existe nos mamíferos superiores, o QS (inteligência espiritual) é exclusivamente humano e o mais fundamental das três inteligências. Ele se relaciona com a necessida-

de humana de significado, uma questão muito presente na mente dos homens... O QS é que utilizamos para desenvolver nosso anseio e capacidade de sentido, visão e valor. Permite-nos sonhar e progredir. Ele está 15

nas coisas em que acreditamos e no papel que nossas crenças e valores desempenham nas ações que empreendemos. É, essencialmente, o que nos torna humanos. (Danah Zohar)


HORIZONTES MARISTAS NA SAÚDE Por ser a sadia vivência da espiritualidade algo tão relevante no âmbito da saúde, o Instituto marista se vê desafiado a buscar integrar em suas ações formais nos hospitais um processo dinâmico que dê espaço e potencialize a vivência saudável da espiritualidade. Neste contexto busca-se potencializar somente iniciativas que estejam plenamente harmonizadas com a ética e seus princípios, bem como com as ciências (Humanização). A missão marista de Tornar Jesus Cristo conhecido e amado, herdada do fundador, pode ser compreendida hoje como uma oportunidade de tornar reais as atitudes próprias de Jesus no cotidiano hospitalar: acolhida, atenção, cuidado, serviço, o viver em comunidade, o perdão, a cura, a solidariedade, a fraternidade, dentre outras. Tudo isso, tendo em mente seus anseios mais profundos: a dignidade dos seres humanos, por serem filhos de Deus; a visão integral do ser humano; a busca da verdade e construção de um mundo mais justo e fraterno. A partir desses imperativos evangélicos e de missão, algumas grandes linhas devem nortear o trabalho marista na área da saúde:

a) Atendimento integral, qualificado e humanizado ao paciente O atendimento qualificado ao paciente é a razão maior de todos os nossos esforços na área da saúde, e busca harmonizar as dimensões física, psíquica, social e espiritual. Realizado com a preocupação de considerar o ser humano em sua integralidade, é também um ação educativo-pastoral e está focada na dignidade humana: autonomia, liberdade e consciência. Assim, esse deve ajudar o indivíduo a ampliar a compreensão sobre si mesmo e conduzi-lo à responsabilidade e ao cuidado sobre sua própria vida e a dos demais.

b) Constituição de comunidade hospitalar baseada nos valores humanos, cristãos e maristas Condição indispensável para o atendimento qualificado e integral ao paciente é a constituição de uma comunidade hospitalar na qual predomine a humanização nas relações, nos processos e procedimentos. É importante o cultivo das relações humanas no cotidiano e ao mesmo tempo a atenção especial desta temática no treinamento e desenvolvimento do pessoal. Nesse sentido, os valores humanos, cristãos e maristas são permanentemente traduzidos em comportamentos, constituindo-se em diferenciais em nosso jeito de cuidar, gerir e educar.

c) Constituir-se num espaço de pesquisa, educação e debate sobre Bioética e Humanização O serviço da saúde unido ao da educação, em nossa Instituição, carrega em si mesmo uma responsabilidade: ao lado dos conhecimentos consolidados na formação e nas ações de nossos profissionais, são promovidas permanentes pesquisas, debates e ocasiões sistemáticas de ensino sobre questões relacionadas à bioética nas quais os elementos do cristianismo sejam considerados como meios de promoção da vida. Como hospitais escola, a atenção aos acadêmicos e à formação dos profissionais da saúde deve fazer parte de nosso cotidiano. Essas atividades e conteúdos devem fazer parte de nossa cultura interna e são estendidos à sociedade e à Igreja.

d) Dedicar-se ao serviço da educação em prevenção e promoção da saúde O carisma marista nos impele a desempenhar um serviço de prevenção em saúde junto à sociedade, com caráter educativo. Quando os conhecimentos construídos por nossos profissionais da saúde são partilhados com a população, sobretudo às pessoas que se encontram em situação de vulnerabilidade, além de ser um serviço de prevenção em saúde é também promoção da cidadania.

Níveis de adesão e compromisso dos leigos Maristas No Instituto Marista, todos os colaboradores são convidados a harmonizar-se com os princípios herdados do fundador, Marcelino Champagnat. No entanto, há três níveis de engajamento e todos eles são respeitados e valorizados na Instituição19:

a) Algumas pessoas vivem identidades diferentes da marista, porque fizeram opções de vida distintas da cristã; outras, por já terem encontrado seu próprio lugar na Igreja. A Instituição acolhe e respeita as diferentes opções e caminhos. b) Outras pessoas são atraídas pelo testemunho dos Irmãos. Admiram o seu modo

de vida e desejam vincular-se à sua espiritualidade e à sua missão, sem entender isso como vocação partilhada. c) Há um terceiro grupo que, a partir de um processo pessoal de discernimento, decide viver sua espiritualidade e sua missão cristãs do jeito de Maria, seguindo a intuição de São Marcelino Champagnat.

Competências e valores Maristas A partir da Identidade e missão maristas, propomos uma tradução dos valores referenciais numa linguagem adequada a nossa realidade corporativa. Ao mesmo tempo, colocamos algumas sugestões de comportamentos possíveis relacionados aos referidos valores. A finalidade destes é de orientar a nossa caminhada.

SIMPLICIDADE Esforçamo-nos por ser íntegros, autênticos e transparentes. Assim, nossa simplicidade é fruto da unidade entre ser e agir e se expressa no trato com as pessoas. Está ligada à humildade e à modéstia que nos ajudam a compreender melhor nossas potencialidades e limitações, e nos fazem aptos a aceitar os outros, respeitando-os em sua dignidade e liberdade.

Garantir seu desenvolvimento profissional por méritos próprios sem sobrepor-se aos outros. Compartilhar seus conhecimentos e talentos.

Algumas posturas que cada profissional pode cultivar no dia a dia do ambiente de trabalho:

Esforçar-se para reconhecer e corrigir as suas próprias limitações, estando aberto a opiniões e sugestões. Procurar ser transparente nas relações humanas e na realização do trabalho, para que suas qualidades sejam repartidas e suas fraquezas sanadas.

Mostrar-se sociável no relacionamento com os colegas de trabalho. Reconhecer seus potenciais e suas limitações propondo-se a ajudar e a aprender com a ajuda das outras pessoas. Tornar-se descomplicado com as pessoas, fazer-se próximo. Realizar suas atividades sem ostentação. Buscar adequar a linguagem às pessoas com quem se relaciona.

Empenhar-se em se fazer próximo e acessível aos pacientes / clientes, atendendo-os com alegria, respeito e eficiência. 17


PRESENÇA SIGNIFICATIVA Acreditamos que o exemplo de vida é o meio mais eficaz na construção de um ser humano pleno. Por isso, buscamos estar próximos das pessoas, inculturando-nos em suas realidades, valorizando e cultivando os laços de cuidado e ternura, solicitude e afabilidade, e construindo uma sólida relação de confiança marcada por uma presença atenta e acolhedora.

Algumas posturas que cada profissional pode cultivar no dia a dia do ambiente de trabalho:

AMOR AO TRABALHO A exemplo de Marcelino Champagnat, somos constantes e perseverantes no trabalho cotidiano. Realizamos as tarefas que nos cabem com disposição, generosidade e espírito cooperativo. Esforçamo-nos para promover a nossa própria formação permanente e para fornecer respostas criativas aos desafios da realidade. Pelo exemplo, ensinamos que o trabalho é meio de realização pessoal e contribuição para o bem-estar da sociedade.

Algumas posturas que cada profissional pode cultivar no dia a dia do ambiente de trabalho:

Utilizar adequadamente os recursos (materiais, humanos, financeiros) que estão a sua disposição com a finalidade de cumprir o trabalho que lhe foi solicitado. Adotar uma postura em evitar desperdícios e gastos supérfluos.

Realizar seu trabalho de forma que contagie o ambiente hospitalar, tornando-o um lugar agradável.

Basear suas decisões com imparcialidade, sem se valer de simpatias ou antipatias. Ser ético na condução das suas atividades. Pautar suas ações no principio da equidade.

Apesar dos obstáculos ou desafios diários, concentrar-se na sua vocação de promover a saúde. Nada ou ninguém prejudica esse ideal pessoal.

Ter consciência de que, nas relações de trabalho e na vida em sociedade, os deveres e obrigações caminham sempre juntos. Procurar conciliar um caráter íntegro com as devidas competências.

Buscar melhoria continua na realização do seu trabalho. Buscar formação própria, atualização constante.

Criar clima de entusiasmo e envolvimento no ambiente de trabalho, exercendo efeito energizador sobre os demais. Ser otimista, buscar potencializar os pontos positivos. Quanto à necessidade de crítica, saber ser firme nos princípios e suave com as pessoas.

Envolver-se com o trabalho por mais simples que possa parecer a atividade, independentemente de seu cargo. Ser proativo, não ficar preso a status ou cargo. Envolver-se com todos e se colocar em espírito de aprendizagem e serviço.

Ser verdadeiro em suas atitudes e palavras estabelecendo uma relação de confiança e transparência. Ter postura educadora (exemplo, coerência de atitudes), auxiliando as pessoas em seu desenvolvimento pessoal e profissional. Acolher as pessoas no ambiente de trabalho fazendo com que se sintam estimados e valorizados. Orientar as pessoas de maneira discreta e no momento oportuno. Praticar a escuta ativa, estabelecendo o diálogo harmonioso.

Uma experiência de Champagnat Um dia chamaram-no para um doente. Apressa-se em visitá-lo e encontra um homem coberto de chagas, na maior miséria, tendo apenas alguns trapos a cobrir-lhes a nudez e as úlceras. Profundamente movido de compaixão à vista de tantas dores e tanta miséria, dirige-lhe, primeiramente, palavras de conforto. Depois, corre para casa, chama o Irmão ecônomo e ordena-lhe que leve imediatamente colchão, lençóis e cobertores ao infeliz que aqui acabava de visitar.

Auxiliar as pessoas a encontrar soluções para seus problemas cotidianos. Encorajá-las a expressarem suas idéias. Cultivar o desenvolvimento da competência, da transparência e da credibilidade, buscando criar um clima de confiança no ambiente de trabalho / hospital. Reconhecer que, pela presença significativa no ambiente hospitalar, torna-se estímulo / motivação para que os pacientes encarem seu processo com otimismo e esperança.

-Mas, Padre, não temos nenhum colchão sobrando. -Como! Não encontra nenhum colchão na casa? -Não, nenhum. Deve lembrar-se que dei o último faz alguns dias. -Pois bem! Retire o colchão da minha cama e leve-o agora mesmo ao pobre do homem.

Compreender que presença significativa envolve, além da escuta e da orientação, cuidar das pessoas para que não sofram danos materiais, físicos e morais.

(Jean Baptiste Furet)

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ESPÍRITO DE FAMÍLIA SENSIBILIDADE COMUNITÁRIA Construímos entre as pessoas uma relação de parceria ativa, acolhendo-as e compreendendo-nos como diferentes e complementares. Valorizamos a construção coletiva, a autonomia responsável, a flexibilidade, a ajuda mútua e o perdão. Ousamos construir comunidade, com alegria, e fazer dela fonte de vida. Privilegiar o trabalho em equipe na realização das suas atividades e partilhar seus conhecimentos em benefício do bem comum. Empenhar-se em promover a harmonia no ambiente de trabalho.

Algumas posturas que cada profissional pode cultivar no dia a dia do ambiente de trabalho:

Respeitar as diferenças pessoais. Acolher a diversidade. Empenharse em promover o bom êxito em benefício de todos.

Tratar as demais pessoas de maneira cordial, independente de classe social, raça, religião, gênero, função e/ou cargo ocupado.

Promover a sinergia entre os membros de sua área de atuação e de todos na organização. Celebrar as conquistas das pessoas e da Instituição.

Inquietar-se com a aflição ou a tristeza alheia e oferecer a ele seu acolhimento e compreensão. Ao mesmo tempo, saber manter o equilíbrio entre o profissional e o pessoal nas relações com os pacientes e colegas de trabalho.

Saber dar e receber feedback, acolher os apontamentos que lhe são feitos em vista de seu crescimento e desenvolvimento pessoal e profissional.

Utilizar palavras e adotar atitudes educadas nos relacionamentos, buscando o diálogo como forma de proporcionar o crescimento das pessoas.

Praticar e promover a comunicação pessoal que é transparente, verdadeira, assertiva e afetiva. 20

ALGUNS RELATOS QUE MERECEM DESTAQUE: Religião x Ciência Se os médicos estão se valendo de práticas religiosas talvez isso seja um indicativo de que afinal existe algo acima do conhecimento humano que o cientificismo puro não consegue explicar. Talvez seja também um dos nós de encontro entre ciência e religião. A ciência não pode mais se arvorar direito de ser expressão máxima dos fatos, nem a religião pode se escorar em dogmas, creditando todos os fenômenos ao sobrenatural. Há um ponto em comum entre essas duas vertentes, resgatadas, por exemplo, por expoentes da ciência como Albert Einstein, Niels Bohr e

Wolfgang Pauli que perceberam que a ciência chegara a um ponto em que lhe era impossível abordar toda a complexidade de fenômenos que assolam o ser humano. Tanto que, em 1986, uma declaração conjunta assinada por alguns intelectuais de peso como o paquistanês Abdus Salam (Prêmio Nobel de Física) e o francês Jean Dausset (Prêmio Nobel de Medicina) afirmava que a ciência e as tradições espirituais são complementares e não contraditórias e que o intercâmbio entre elas "abre as portas para uma nova visão da humanidade"20. (José Antônio Mariano)

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A importância de Deus no tratamento dos dependentes Não existe pesquisa a respeito, mas pode-se avaliar a importância do vínculo espiritual para o dependente, a partir dos seus testemunhos de vida sobre como deixaram a droga. De cada dez, pelo menos nove falam em Deus - como O entendem - como fundamental no seu processo de recuperação. Em seguida, vem o cônjuge, a família, os amigos. Disso se infere que, seja qual for à estratégia terapêutica adotada, se Deus não estiver presente, o dependente pode até abandonar

a droga, mas isso não quer dizer que esteja recuperado. Deus é importante tanto no processo de recuperação em si, como no pós-tratamento, essa sim a fase mais difícil. Os grupos de mútua-ajuda não abrem mão de Deus, nomeando-o democraticamente como Poder Superior, desvinculando-O de rótulos e emblemas. A espiritualidade é importante. E“a religião não precisa da ciência para justificar sua existência 21 ou seu encanto" . (José Antônio Mariano)

NOTAS 1 - Cf. Moggi, Jair. A Espiritualidade é o Grande Capital desta Era. Site: http://br.hsmglobal.com/notas/41773-a-espiritualidade-e-ogrande-capital-desta-era (Acesso em: 12-03-2010 – 18h). 2 - Cf. Nivaldo, Pr. José. A Espiritualidade do discipulado - Outros destaques. Site: http://www.betesdaanapolis.com.br/aespiritualidade-do-discipulado/ (Acesso: 28-02-2010 -16h). 3 - Cf. Milomem, Valmir Nascimento. Por dentro da espiritualidade moderna. Site: http://comoviveremos.com/2007/08/02/por-dentroda-espiritualidade-moderna/ (Acesso: 28-02-2010 -17h). 4 - Gálatas 2, 20. E Cf. Movimento cristão do COLTEC (RCC). Espiritualidade. Site: http://www.coltec.ufmg.br/~mcc/index.htm (Acesso: 28-02-2010 - 11h25). 5 - Cf. De Castro, Pe. Flávio Cavalca. A Espiritualidade Conjugal e os Compromissos na ENS. Site:

Impacto da Espiritualidade na Qualidade de Vida de Pacientes Oncológicos O diagnóstico do câncer pode afetar a espiritualidade do paciente tanto de forma positiva quanto negativa. Por exemplo, uma pessoa ao receber o diagnóstico pode aproximar-se mais de Deus, apoiar-se em pessoas religiosas e buscar coragem e otimismo para enfrentar a doença e tratamentos. Outras podem questionar e se revoltarem contra tudo em que ou quem acredita. Surgindo então perguntas como: Por que isso está acontecendo comigo? O que eu fiz ou deixei de fazer para merecer passar por tudo isso? Espiritualidade refere-se a crença em algo superior, uma força, uma energia, comumente chamada de Deus. E a crença nessa força superior daria sentido à vida e à morte. A conexão com Deus, ou como queira chamar, proporciona esperança, confiança e fé para o enfrentamento de acontecimentos estressantes e dolorosos. Uma pessoa que compartilhe desse conceito não precisa participar de nenhuma religião organizada ou institucionalizada.

http://www.magnificat.srv.br/adm/upload/Espiritualidade%20Conjugal%20e%20ENS%20-%20Pe.%20Cavalca.pdf; (Acesso: 28-022010 - 16h).

A espiritualidade pode ajudar proporcionando sentimentos de confiança, esperança e proteção. Crendo que existe uma força superior, Deus que está acima de tudo, de todos e que tudo pode, tudo provê. Por pior que seja o prognóstico, Seu poder, Seu amor podem curar.

6 - Cf. Instituto dos Irmãos Marista. Em torno da mesma mesa. A vocação dos leigos maristas de Champagnat. Roma. Ed.: C.S.C. GRÁFICA. 2009. pág. 34, nº 34. 7 - Cf. Minga, Ir. Teófilo. O que é o ano da Espiritualidade. Site: http://www.google.com.br/search?hl=ptBR&q=Espiritualidade+Marista,+afinal+o+que+%C3%A9%3F&start=20&sa=N (Acesso: 28-02-2010 - 18h45). 8 - Cf. Escorihuela Pujol, Josep Maria; Moral Barrio, Juan e Serra Llansana, Lluís. O Educador Marista. Sua Identidade seu Estilo Educativo; EDELVIVES (Editorial Luís Vives), Zaragoza, Espanha, 1985, pág. 83. 9 - Cf. . Escorihuela Pujol, Josep Maria; Moral Barrio, Juan e Serra Llansana, Lluís. O Educador Marista. Sua Identidade seu Estilo

Para ajudar um paciente oncológico é importante refletir qual foi a importância da crença em Deus ao longo da vida. Essa crença trouxe esperança, vontade de lutar diante das dificuldades? Tornou a pessoa mais forte? Caso sim, a melhor dica talvez seja ela ter a coragem de falar para Deus toda sua revolta. Todas as suas dúvidas e medos. Afinal, a gente só briga com quem a gente se importa e acredita que vale a pena resgatar a amizade e confiança. E, finalmente, dizer como é importante a presença Dele durante todos os tratamentos22.

Educativo; EDELVIVES (Editorial Luís Vives), Zaragoza, Espanha, 1985, pág. 80. 10 - FURET, Jean-Baptiste. Avis, Leçons, sentences et instructions de Vénérable Père Champagnat. Paris/Lyon, Librairie Catholique Emmanuel Vitte, 1927. Pág. 425. 11 - Ir. Charles HOWARD. Espiritualidade Apostólica Marista, Circulares, v. XXIX, p. 459. 12 - Regles Comunes, 1852, 2.ª p. XI,2; V 464ss. 13 - FURET, Jean Baptiste. Vida de São Marcelino José Bento Champagnat. São Paulo: Loyola; SIMAR. 1999. Pág. 223. 14 - FURET, Jean Baptiste. Vida de São Marcelino José Bento Champagnat. São Paulo: Loyola; SIMAR. 1999. Pág. 193. 15 - SILVEIRA. Irmão Luiz, FMS. II Capítulo Geral do Instituto dos Pequenos Irmãos de Maria: 1852 – 1853 – 1854. Anexo 2: Guia das Escolas, p. 204. 16 - Cf. Caderno 4 do Pe. Champagnat. AFM 132.4, p. 33, nº 6. 17 - Cf. Instituto dos Irmãos Marista. Em torno da mesma mesa. A vocação dos leigos maristas de Champagnat. Roma. Ed.: C.S.C. GRÁFICA. 2009. Pág. 33, nº 33. 18 - Programa Globo Repórter – Ciência e Fé. Direção: Denise Cunha. Exibido em 09 de abril de 2004.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

19 - Cf. Instituto dos Irmãos Marista. Em torno da mesma mesa. A vocação dos leigos maristas de Champagnat. Roma. Ed.: C.S.C.

· A espiritualidade não pode e não deve ser utilizada de forma mercantilista. nós · Vivemos em um mundo pluralista (esta mudança é recente) e muitos de nos formamos em um mundo “uniforme cristão”; portanto, precisamos nos informar para poder ajudar aos pacientes a viver em plenitude. · As nossas instituições têm uma orientação cristã e marista, como vimos no decorrer do nosso texto, mas cultivamos o ecumenismo e respeitamos as outras denominações religiosas.

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GRÁFICA. 2009. Pág. 26, nº 8, 9 e 10. 20 - Cf. Mariano, José Antônio; Espiritualidade em alta, Site: http://adroga.casadia.org/tratamento/espiritualidade_em_alta.htm. (Acesso: 28-02-2010 - 11h35). 21 - Cf. Mariano, José Antônio; Espiritualidade em alta, Site: http://adroga.casadia.org/tratamento/espiritualidade_em_alta.htm. (Acesso: 28-02-2010 - 11h35). 22 - Cf. Gonçalvez Gimenes, Maria da Gloria; Impacto da Espiritualidade na Qualidade de Vida de Pacientes Oncológicos, Site: http://www.oncoguia.com.br/site/interna.php?cat=129&id=2228&menu=54. (Acesso: 28-02-2010 - 16h45).


Revista Congresso de Humanização  

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