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muito intuitiva e o acaso foi grande parceiro. Isso se deu ao novo uso que encontrei para a Fluência em meu processo de criação: deixar usar, sem muito explicar, aquilo que eu enxergava como “similares” nas seqüências de dois bailarinos misturados ao grande grupo, para experimentar combinações de duos, as vezes trios. Por vezes, ao propor uma mudança de direção na posição inicial de um dos bailarinos, combinava todo um processo de significações nunca antes preparado, e que parecia fazer muito sentido com o todo que se construía. Reconhece? título também ambíguo, trazia esta dupla pergunta sobre uma brincadeira: re conhece o Mario? Mas que na verdade pergunta também: reconhece a mesma coisa? As mensagens são muito subliminares. O processo da obra não estava alí evidenciado e título e utilização de Quintana não ajudavam o “apetite semiotizante do espectador” (FEBVRE, 1995). Embora o processo tenha se dado numa construção muito justa entre música e dança, onde a composição musical acompanhou alguns procedimentos da composição de movimentos, e dividiu conhecimentos do sistema com o movimento, uma vez que o músico, o mesmo do Risco de Vida, passou a integrar o elenco do grupo desenvolvendo uma pesquisa interdisciplinar que o levou ao programa de mestrado da UFBA, os elementos ainda pareciam andar por universos diferentes. Cenário, figurino e iluminação também tiveram sua colaboração no processo, mas foi difícil achar o caminho da unidade da interlocução. O figurino manteve a ilustração da poesia, com toques de individuação na medida em que cada dançarino construiu seu próprio figurino, passando por processos de tintura e costura de seu elemento petit poit. Achar esta estrutura de construção em colaboração num processo tão imerso num esquema de construção coreológico vem sendo uma caminhada e a cada passo uma descoberta. Numa medida pode-se considerar que Outros Quintanas, o segundo espetáculo construído com o mesmo procedimento, foi um retrocesso no processo de criação do grupo. Mas foi preciso voltar um pé atrás pra poder organizar alguns destes elementos, expondo ao público este processo de trabalho e criação. Nesta obra, a palavra aparece através da poesia e através do resgate da voz de comando, colocando lado a lado a narração e a estrutura de movimento contida no motif que origina as seqüências dançadas. Enquanto uma pessoa se move escutando a

Gipe cit 19 (tradução de artigo)  

Ciane Fernandes Tradução: Melina Scialom SEM PERDA DE MEMÓRIA: UMA EXPLORAÇÃO COREOGRÁFICA

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