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extremamente complexo e ao longo de seu uso por pessoas especializadas vem ganhando constantes transformações e seus questionamentos não cessam. Ann Hutchinson-Guest foi a pessoa que mais aprofundou e publicou material sobre a Labanotation. Ela também fez um levantamento sobre outras propostas de notação de movimento, todas muito específicas. Parece que a preocupação em registrar aquilo que se diz efêmero mora na angústia de uma arte em cuja matéria, o corpo, habita o efêmero. O segundo seguinte a um dado movimento dilui o acontecimento anterior. Fica o registro mental do espectador e o sinestésico do intérprete. Esta efemeridade faz com que um movimento não possa ser descrito em palavras, pois elas não os traduziriam fielmente. (LABAN, 1976) Seria como descrever em palavras um timbre, uma nota musical... Foi seguindo o exemplo da música que muitos dos autores preocupados com registro histórico, disseminação e educação buscaram criar códigos gráficos para esta tradução. A iconografia pareceu ser mais possivelmente fiel do que a palavra. Independentemente deste questionamento, a necessidade de permanecer e contaminar foi sempre maior. A notação em dança teve certos êxitos nas tentativas de Beauchamps/Feuillet (França), Vladimir Stepanov (Rússia), Rudolf Laban (Alemanha) e Rudolf Benesh (Inglaterra) (VICARI, 2007). Laban criou seu sistema em meio a um século XX próspero. Fotografia, cinema e posteriormente o vídeo tornaram a questão da notação para dança ainda maior. A pergunta que a maioria dos praticantes de dança se colocam é: pra quê? Hoje em dia, “bastaria filmar para manter um registro” se a questão é registrar. Mas é esta a questão? Presente à XXV Conferência Bianual do Conselho Internacional de Kinetografia Laban ICKL12 este ano na Cidade do México pude conhecer senhoras que aprenderam técnicas de dança através da notação. Quase bizarro para a maioria dos bailarinos brasileiros. Como se pode aprender dança por um sistema de símbolos? A questão que se coloca diante da existência e permanência 12

O ICKL reúne notadores de kinetografia Laban com formação e conhecimento específico responsáveis por manter viva esta “língua” mantendo encontros bianuais onde se discute as utilizações desta linguagem e suas necessidades de adaptação e diálogo com proposições específicas discutidas caso a caso em cada encontro.

Gipe cit 19 (tradução de artigo)  

Ciane Fernandes Tradução: Melina Scialom SEM PERDA DE MEMÓRIA: UMA EXPLORAÇÃO COREOGRÁFICA