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um todo. A teoria de individuação de Jung abaliza a manifestação artístico-estética dos processos de criação individuais do artista de dança ao trazer a tona o valor da intuição que reside no inconsciente, parte fundamental do processo de criação do artista (IANNITELLI, 2000). Michel Foucault também colabora muito no encaminhamento destas reflexões, pelos relatos dos constantes movimentos a que o sujeito está sujeito! Somente o movimento parece dar conta de re-processar e re-locar no sujeito, suas constantes transformações, que estão a mercê de todas as suas percepções, conexões e polarizações inerentes aos contextos diversos de inserção de um ser humano. Outra questão extraída por Foucault da obra de Magritte, é a relação entre semelhança e similitude (FOUCAULT, 2007). Utilizo esta questão relacionada ao conceito de individuação para falar sobre a apropriação que cada dançarino faz, ou que cada momento de um mesmo dançarino provoca durante o processo de criação de movimento onde um mesmo estímulo é dado para a criação de movimentos. Na ausência de um padrão comum de movimentos, despontam as similitudes. Fenômenos são priorizados e as verdades absolutas se dissolvem. Deixamos de trabalhar com movimentos codificados onde todos dançam o mesmo movimento padronizado, insistindo na idéia sugerida por símbolo e como ela se desdobra para cada intérprete. No processo de trabalho do grupo, um método: escrever motif a partir de um movimento dado, de um poema, de algum estímulo compartilhado. O motif, uma vez escrito, não dá mais conta de ser reproduzido a partir da semelhança: ele é uma tarefa que cada dançarino vai mover a partir do seu corpo, da sua experiência, do seu ser criativo, e, sobretudo do seu momento de criação. Este momento pode fazer brotar uma seqüência incrivelmente diferente de outra, desenvolvida sobre o mesmo motif, inclusive pela mesma pessoa, mantendo aspectos similares. Jogar com estas similitudes tornou-se o processo de criação do grupo de risco.

A escrita da dança e o motif Como registrar aquilo que esvai no segundo seguinte ao da existência? Como lidar com a “impermanência”? Este é um problema que acompanha a dança desde sua existência e a pesquisa histórica em dança reconhece em alguns desenhos rupestres características expressivas da dança desenvolvida naquele contexto onde o desenho foi encontrado. Isso traz a idade da questão do

Gipe cit 19 (tradução de artigo)  

Ciane Fernandes Tradução: Melina Scialom SEM PERDA DE MEMÓRIA: UMA EXPLORAÇÃO COREOGRÁFICA

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