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dobrando-se sobre estes. Temos aí cenas, corpos e imagens que criam dobras no tempo e no espaço, imprimindo outras possibilidades de significação em constante repetição e transformação5. Como se vê, a cena, assim como o processo, acabou impregnada pelos princípios do tao. Chamo atenção para a característica de impermanência6 que se observa nas dinâmicas do cenário, dos objetos, dos estados da personagem, do som e das ações físicas na peça. O fluxo e a mutabilidade desses elementos em cena seguem uma lógica do devir, do wu wei, ainda que isso não tenha sido buscado de forma forçosa como, aliás, pede a sabedoria: agir sem agir, ação sem coação, co-ação, sem coação. Penso que chegamos a um trabalho onde não se fala sobre o tao, ou sobre as matrizes taoístas, mas que está prenhe desses princípios, muito mais do que poderíamos supor quando nos propusemos a essa investigação. Princípios do tao, furtiva e intensamente, sem que tentássemos agarrá-los, se incorporaram e nortearam, além do processo criativo, a nossa própria encenação.

REFERÊNCIAS BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 2006. Tradução: Myriam Ávila. BONFITTO, Matteo. O ator-compositor as ações físicas como eixo: de Stanislavsky a Barba. São Paulo: Perspectiva, 2002. DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Mil platôs - capitalismo e esquizofrenia. Vol. I. Rio de Janeiro, 34, 1995. Tradução: Aurélio Guerra Neto e Celia Pinto Costa. Ana Lúcia de Oliveira, Lúcia Cláudia Leão e Suely Rolnik.

5

Sobre a idéia de repetição e transformação, conferir o estudo sobre a perspectiva de trabalho de Pina Bausch, de Ciane Fernandes (2000).

6

Noção do Budismo, que se relaciona com o caráter cíclico da vida, com os movimentos de existência e transformação ou finitude de todos os fenômenos. E, assim, se relaciona com a idéia chinesa de wu wei, e com a noção filosófica de devir.

Gipe cit 19 (tradução de artigo)  

Ciane Fernandes Tradução: Melina Scialom SEM PERDA DE MEMÓRIA: UMA EXPLORAÇÃO COREOGRÁFICA

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