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Não se trata de defender esta ou aquela abordagem de cena como melhor ou mais contemporânea. O fato é que, particularmente, me propus a experimentar uma determinada via de trabalho que, pelo processo e resultado, pareceu demonstrar grande vocação a uma recepção por devir, uma fruição menos estratificante. Talvez por que sua criação também foi sustentada pelo princípio do devir, de wu wei e do vazio. Esta espécie de fruição remete aos conceitos de “cadeia significante” em Jacques Lacan, e de “infinitização do discurso”, em Júlia Kristeva, referidos por Ciane Fernandes em sua análise do processo e obra de Pina Bausch (Fernandes, 2000, 26-38). Para a autora, Bausch explora justamente o não-repouso e a arbitrariedade do signo (2000, 32). Outra questão que se colocou durante o processo foi o uso das matrizes como sub-partitura. Uma motivação interna que não era traduzida em uma intenção presumível, como “raiva”, “desespero”, ou em algo como uma “memória emotiva”. Por vezes esse “forro-pensamento” era da ordem de uma memória muscular, como no contraste contraçãoexpansão. Por vezes operava uma memória da sensação, como nas sub-partituras paladar, olfato ou visão. Em outros casos o que animava o gesto ou a ação era uma idéia mais abstrata como cheiovazio, sombrioluminoso, entre outras. Esse grau de abstração contribuiu aí - da mesma forma que nas construções de movimentos - para intenções talvez mais conotativas que denotativas, sutis, ou seja, preservadoras de zonas de sombra. Com este processo, chegamos ao espetáculo Traços ou Quando os Alicerces Vergam, que mostra um dia na vida de uma mulher solitária cujo cotidiano parece não caber em sua presumível normalidade, ganhando contornos ora patéticos, ora fantásticos, ora trágicos, ora absurdos. Confinada e isolada em seu apartamento no alto de um prédio, ela gera, compulsivamente, um mundo imaginado. O zelador e a faxineira do prédio são os únicos personagens que parecem compartilhar sua existência presente. O silêncio é uma companhia difícil, ruidosa. A memória também. Em seus devaneios os tempos vividos e fabulados se misturam. Tudo parece confiná-la cada vez mais a uma solidão povoada de fantasmas. Ela quer uma casa nova, uma existência nova e luta, inutilmente, contra cada partícula de sujeira ou insetos que entram pela janela,

Gipe cit 19 (tradução de artigo)  

Ciane Fernandes Tradução: Melina Scialom SEM PERDA DE MEMÓRIA: UMA EXPLORAÇÃO COREOGRÁFICA

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