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interna de estados, que não estavam originalmente ligados àquelas formas corporais que agora animavam. Ou seja, em clara perspectiva de composição (Bonfitto, 2002), uma mesma ação física pôde ter o desenho de movimentos ligado a uma determinada matriz - experimentada em dada ocasião, e a sub-partitura ligada à outra. Na experimentação solta e desvinculada de contextos das matrizes, sentia meu corpo entrar em um estado de maior presença e concentração cênica. Este estado, fortemente favorecido pela imersão proporcionada pelo chi kung, era intensificado, talvez, pelo fato da criação não passar, nesses momentos, por uma busca racional de adequações, sentidos ou associações a um determinado contexto (ação ou texto predeterminado). O que parece é que, nessa experimentação não teleológica, cada corpo vai criar um acervo expressivo altamente singular, ligado tão somente às suas experiências em relação ao estímulo proposto matriz e ao seu momento particular, já que não há ancoragem no produto final. O resultado em termos de repertório expressivo nesse tipo de trabalho indica polifonia e polissemia: um amplo leque de discursos e possibilidades de leitura e aplicação cênica do material. É certo que a ponte entre a pura experimentação expressiva fornecedora de ritmos, corporeidades, e leituras variadas rumo à ação ou seja, à contextualização desses movimentos, sons e outros recursos gerou insistentes desdobramentos, adequações, re-alocações e derivações das células criadas. Entretanto, por terem surgido em pesquisa dissociada de sentidos unívocos ou direcionados até por que vários estímulos taoístas já tendem a certa abstração tais células parecem manter um caráter menos territorializado, parecem resistir à fixação em um contexto inequívoco. Em outras palavras elas geram atuação e cenas menos realistas, talvez mais metaforizadas e polissêmicas. Toda obra artística porta certa polissemia, e sempre contempla certo grau de recepção criativa e variada por parte do público. Afinal, nessa característica reside um tanto do que define algo como arte. Mas, da mesma forma que uma pintura figurativa tende a direcionar mais a fruição do que uma obra cubista, por exemplo, no que se refere ao grau de “ilustração” do tema por parte do artista, há viéses diferenciados na abordagem de uma obra. E é importante saber que estes têm conseqüências diretas sobre aspectos da recepção.

Gipe cit 19 (tradução de artigo)  

Ciane Fernandes Tradução: Melina Scialom SEM PERDA DE MEMÓRIA: UMA EXPLORAÇÃO COREOGRÁFICA