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Quer dizer, o termo unidade não parece se referir a um modelo arborescente onde um centro, hierarquicamente superior, se ramifica, ou para onde tudo converge. Antes, parece sustentar a imagem de uma força pulverizada, contaminadora, disseminada, concernente a toda e qualquer vida. Força esta responsável ainda pela interação que se opera entre os corpos, gerando constantemente novas configurações, mas caracterizando a formação de um elo entre esses corpos, o que remonta à idéia de unidade. Em outras palavras, o tao é uno e múltiplo. O que adere a outra perspectiva deleuziana, a do elogio do e, somatório e inclusivo, substituindo o ou excludente (1995). No que toca à questão da essência, para os taoístas esta estaria justamente na qualidade fluídica e dinâmica do universo, e, até por isso, se manifestaria também no jogo das aparências que tomam os corpos em transformação, na multiplicidade de faces pela qual o tao se manifesta, se dá a conhecer. Para a filosofia clássica, de um modo geral, essência nos remete à constância, à imutabilidade e a algo que subjaze à superfície. O antagonismo deleuziano se refere a esta noção de essência. Parece então que estas também podem ser contradições forjadas. Por um lado pelas especificidades das linguagens oriental e ocidental, incluindo as dificuldades de tradução. Por outro, pela insistência de abordagens dicotômicas por parte do pensamento ocidental, mesmo aquele que, teoricamente, se opõe vigorosamente a estas. Deleuze e Guattari, apesar de terem construído um discurso em que buscavam romper com dualismos antagônicos, acabaram caindo inúmeras vezes no mesmo dilema, ao contrapor, por exemplo: rizoma x raiz, memória curta x memória longa, unidade x multiplicidade, essência x aparência, micro-política x macro-política, molar x molecular, decalque x mapa, etc. No pensamento taoísta as paridades não são, em si, dicotômicas, já que todos os opostos são princípios inextricáveis no tao. O que difere é que ali o olhar sobre o duplo não está fixado, nem carregado de hierarquia e exclusão. As metas de reforço ou atenuação de um dos aspectos de qualquer duplo não estão engessadas, são mutantes e relativas a cada configuração. Trazemos a idéia de ambivalência, como um passo para a superação da dicotomia, ao invés de puramente negar o dual, e, eventualmente, acabar caindo nele. Para isso é importante frisar que o que é dual não é necessariamente dicotômico.

Gipe cit 19 (tradução de artigo)  

Ciane Fernandes Tradução: Melina Scialom SEM PERDA DE MEMÓRIA: UMA EXPLORAÇÃO COREOGRÁFICA