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unidade permanente do ser diante da pluralidade e mutabilidade das coisas particulares e transitórias. O filósofo chegou à compreensão de que apreensões duais do mundo não deveriam denotar oposições estanques, mas revelar a dinâmica não hierárquica entre aspectos de um mesmo fenômeno. Esta proposição é bastante afim à que explica os emblemas yin yang, a qual também apresenta as características de inter-transformação, interação, complementaridade. Entretanto, o rumo da filosofia ocidental foi ditado, com maior freqüência, pelas idéias derivadas do pensamento de outros gregos, em especial Sócrates e Platão, com a metafísica ocidental, aonde as oposições binárias vinham acompanhadas de um julgamento hierárquico de valor. Isso fixava um pólo do dualismo como a instância a ser superada, e o outro como a meta. A tradição judaico-cristã, o cientificismo, o racionalismo e o cartesianismo, por exemplo, vieram fortalecer essa dicotomia, que, via de regra, colocava a materialidade do mundo corpo, natureza, prática, etc. como algo a ser superado em prol de construções abstratas como a idéia, a religião, a ciência, a razão, etc. A noção taoísta de wu wei grosso modo “não ação” ou “agir sem coagir” traz uma perspectiva de espontaneidade, de deixar-se conduzir pelo ritmo natural da vida, sem forçar os acontecimentos, sem pré-ocupação, seguindo o fluxo de devires e sem finalidades a priori. Só se chega ao tao sem se tentar chegar ao tao. Esta ênfase no percurso não teleológico, expressa uma das aproximações da sabedoria chinesa com a noção de rizoma, metáfora de Deleuze e Guattari para uma perspectiva onde não se identifica, nem privilegia, pontos de partida ou de chegada (1995). O princípio taoísta wu wei pode ser relacionado também à idéia de devir, ou de um “entrar em devir”. Segundo o dicionário (Ferreira, 1975), devir é a transformação incessante e permanente pela qual as coisas se constroem e se dissolvem em outras; o vir-a-ser. Para Deleuze a idéia de devir - originalmente atribuída ao grego Heráclito - remete a um deixar de ser. Deixar de ser alguma coisa, mesmo que para se tornar outra, demanda um estágio que caracteriza um “não ser”, ou “ainda não ser”. Essa perspectiva - tão inadmissível para a filosofia grega dominante, baseada em paradigmas como centro, identidade e essência

Gipe cit 19 (tradução de artigo)  

Ciane Fernandes Tradução: Melina Scialom SEM PERDA DE MEMÓRIA: UMA EXPLORAÇÃO COREOGRÁFICA