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provavelmente está, entre outras coisas, relacionado à imagem do camaleão (cujo ideograma arcaico pode ter originado o ideograma I), remetendo à noção de movimento (agilidade) e mutação (mimetismo) (Wilhelm, 1956, xi). Essa imagem traz de forma reforçada a idéia da transformação e do fluxo, como princípios organizadores e desorganizadores e reorganizadores - da vida, idéia marcante no pensamento chinês. Não há muito consenso em relação às datas, mas as bases que nortearam grande parte das vertentes chinesas de pensamento parecem advir de uma forte história de tradição oral a qual remontaria a mais de mil anos antes de Cristo. Nos mais antigos textos escritos do I ching observam-se referências de cerca de 700 anos a.C. Mais que um jogo divinatório, essa obra tem sido estudada como um tratado de situações humanas arquetípicas, a ser consultado por meio de instrumentos como varetas ou moedas. Além disso, é considerada como uma das mais importantes fontes da genealogia do pensamento chinês. É no I ching que se observam também as primeiras referências à idéia de yin yang, inicialmente ligadas a um par de linhas mestras. A yang, representada por um traço contínuo (_____) e a yin, simbolizada por uma linha cortada (__ __), significavam, na versão mais remota do jogo, sim e não respectivamente. Posteriormente as respostas foram se tornando mais complexas, com duas, três, até chegar às seis linhas que formam os hexagramas como hoje os conhecemos. Cada hexagrama é composto por um par de trigramas, que, combinados, simbolizam uma determinada situação humana. Os oito trigramas são compostos por um conjunto de símbolos que remetem a um determinado arquétipo, como será mostrado adiante. Outra obra à qual estão atribuídas bases do taoísmo é o Tao-te-ching, cuja tradução mais corrente seria “Tratado do caminho e da virtude”. Trata-se de uma espécie de escritura sagrada e poética, cujos provérbios vêm inspirando religiões e pensamentos há cerca de 2600 anos. É interessante observar que Lao-Tsé, autor do Tao-te-ching, é praticamente contemporâneo ao grego Heráclito, cujas proposições têm pontos em comum com o taoísmo. Heráclito também partilhava da noção de fluxo constante e ciclos de mudança, como motores do universo e suas manifestações. Assim ele abordou o problema da

Gipe cit 19 (tradução de artigo)  

Ciane Fernandes Tradução: Melina Scialom SEM PERDA DE MEMÓRIA: UMA EXPLORAÇÃO COREOGRÁFICA

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