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uma articulação ético-estética de trabalho, no espaço intersticial entre o teatro, alguns conceitos ligados à filosofia contemporânea, a minha condição de mulher contemporânea ocidental, e princípios de matrizes taoístas. Pensar e trabalhar o encontro com o outro oriental como algo que aponte para uma uniformização entre as culturas é o vetor que tem sido responsável por grande parte das mazelas no mundo. Particularmente, o viés que nos mobiliza é aquele que percebe esses encontros entre diferenças como propulsores de novas e singulares configurações ético-estéticas. Investigações artísticas e filosóficas nessas fronteiras transculturais podem ser uma forma de migrarmos de perspectivas dicotômicas, como a de oriente-ocidente, dentre outros tantos dualismos excludentes, para novos agenciamentos, heterogêneses, ambivalência em contínuo movimento. Como salienta o indiano Homi Bhabha, seria no entre lugar intervalar “onde a diferença não é nem o Um, nem o Outro” (2005, 301), que se descortinaria um futuro intersticial, emergente no entre-meio entre as exigências do passado que não é originário e as necessidades do presente que não é simplesmente transitório: um futuro que se torna uma “questão aberta, em vez de ser especificado pela fixidez do passado” (2005, 301). O taoísmo é uma tradição de cunho filosófico e religioso, que exerce forte influência não somente na China, mas em todo extremo oriente e, cada vez mais, em outras regiões. Trata-se de uma tradição trimilenar com ressonâncias em várias áreas - médica, política, religiosa, social e cultural, o que já aponta para sua versatilidade, abrangência e consistência. Tomamos emprestados da sabedoria taoísta algumas práticas e aspectos de seu universo simbólico, como propulsores dos trabalhos criativos desenvolvidos. O encontro com essa matéria requereu um recorte. Assim, aplicamos princípios norteadores desse universo taoísta em processos criativos em teatro. Os princípios utilizados na pesquisa cênica foram contrastes associados aos emblemas yin yang, a relação das cinco energias em wu hsing, os aspectos arquetípicos dos trigramas do I ching e algumas práticas meditativas do chi kung. Além disso, trouxemos o estudo de algumas noções da sabedoria chinesa ancestral, e as relacionamos a conceitos e idéias da filosofia contemporânea.

Gipe cit 19 (tradução de artigo)  
Gipe cit 19 (tradução de artigo)  

Ciane Fernandes Tradução: Melina Scialom SEM PERDA DE MEMÓRIA: UMA EXPLORAÇÃO COREOGRÁFICA

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