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4) A visão de José Gil (2004) acerca da criação em dança a partir de vacúolos, fendas, buracos, dissolução dos espaços interno e externo: Comentando sobre a obra de Cunningham e seu uso do acaso, Gil fala que a própria noção de sujeito (de corpo-sujeito) tende a desaparecer, que há uma não-relação entre música e dança e que a ruptura que opera nas possibilidades do corpo abre uma outra ruptura dos modelos de coordenação dos movimentos, variando-os não-organicamente, como se múltiplos corpos coexistissem num só corpo. A confusão entre sujeito e mundo (ou o espaço que o engloba) demanda novas organizações. “O pensamento e o corpo dissolvemse um no outro” (idem: 41). Numa “interface interior-pele-exterior” (idem: 64), confundindo o dentro e o fora, o corpo torna-se uma banda de Moebius, aproximando-se bastante de como Laban pensava o movimento. Deste cruzamento de referências, concebi um trabalho para ser apresentado numa situação ou espaço de arena. O ideal seria... um poço, mas tal tipo de espaço não consegui encontrar. Seria um duo, dançado por mim e por Daniela Nistra, com muita experiência em outra área da dança, a de salão, porém nova na dança contemporânea. Percebi nela um grande potencial e me auto-desafiei a trabalhá-lo. As próprias explorações listadas abaixo foram como que escavações naquele e no meu corpo, fatiamentos de nossos corpos: 1. Explorar um tempo extremamente lento e ritmo contínuo, a partir de “dispersão” em Foster e “senso de irrealidade” em Jameson; 2. a) Explorar um tempo lento, mas com fluxo por vezes interrompido, descontínuo; b) Explorar completa imobilidade (como se estivesse preso no Poço). 3. Para a estruturação: “não-sincronismo, uma mistura de tempos diferentes” de Foster; “revezamento de antecipação e construções de eventos”, a partir de Freud. 4. Observar internamente o movimento dos órgãos, principalmente de algum que esteja incomodando; deixar o corpo responder a estes estímulos, a partir da “virada da parte interna para fora” tanto de Kristeva quanto de Gil. 5. O contrário do anterior, i.e. observar a condição espacial externa; deixar que o corpo responda aos estímulos, experimentar vários ambientes, com e sem

Gipe cit 19 (tradução de artigo)  
Gipe cit 19 (tradução de artigo)  

Ciane Fernandes Tradução: Melina Scialom SEM PERDA DE MEMÓRIA: UMA EXPLORAÇÃO COREOGRÁFICA

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