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pelos padrões. A Lemniscate é repetitiva numa forma transformadora. No processo de Sem Perda de Memória, quanto mais eu repetia os movimentos mais eles se desenvolviam em algo diferente. No padrão linear anterior, eu procurava (aparentemente) algo novo e na verdade acabava recorrendo a movimentos e comportamentos antigos. Em Sem Perda de Memória, explorei o passado registrado em meu corpo presente, chegando até mudanças naquelas qualidades “passadas”. Como parte deste processo “histórico” e “sempre em movimento” eu utilizei diferentes músicas ao formatar a obra. Toda vez a música provocaria o desenvolvimento da obra até o ponto em que esta se tornaria totalmente adequada a música. Em torno de cinco vezes cheguei a pensar: “É isto. Esta é a obra final. Sinto que está pronta”. E mudaria nos próximos dias. É assim que é um processo: cada minuto parece ser o instante final. Uma música e um efeito sonoro foram particularmente relevantes para o trabalho com as dinâmicas da peça: Concierto para Quinteto (tango) de Astor Piazzola, inspiraram muitos impulsos apaixonados; um metrônomo musical marcando precisamente um tempo muito, muito lento, evocou impulsos mágicos e me impediu de acelerar nos movimentos. Pouco a pouco os dois impulsos foram integrados na obra sobrepondo o tango e o metrônomo. Foi uma experiência interessante seguir um deles e sentir o contraste com o outro e vice-versa. Por exemplo, momentos rápidos foram acentuados pelo contraste com o pulsar regular do metrônomo. O tempo contínuo se tornou mais expressivo em contraste com o ritmo intenso do tango. Foi como se eu não pudesse me tornar intensa, o que implicou em dor e venerabilidade (estado onírico). Ou foi como se simplesmente eu não precisasse estar no impulso apaixonado, pois era muito meditativo e vivo espiritualmente. A canção escolhida para a obra - Doom. A Sigh (1989), de Istvan Marta implica no passado dentro do presente. Em 1973 Istvan Marta visitou o grupo folclórico romeno Csangos que vivia isolado da civilização e falava húngaro arcaico. Doom. A Sigh é baseado em duas canções cantadas por duas velhas mulheres Csangos, sobrepondo com uma composição contemporânea para cordas (interpretada pelo quarteto Kronos). A primeira canção, cantada pela Sra. Pieter Benedek, de 58 anos, evoca seus parentes falecidos e a segunda, cantada pela Sra. Gergel Imre, de 46 anos, retoma a cena de uma batalha sangrenta. Existe

Gipe cit 19 (tradução de artigo)  

Ciane Fernandes Tradução: Melina Scialom SEM PERDA DE MEMÓRIA: UMA EXPLORAÇÃO COREOGRÁFICA