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superficial e delicada (modo defensivo: “fazer bonito”) e atingisse seu fluxo controlado oculto. No chão, comecei a realizar movimentos com tensão extrema, sentindo-a em todo meu corpo, especialmente nos membros, pescoço e tórax (costelas e diafragma), curvando-me no plano sagital em direção ao centro (côncavo). A face, os pés e as mãos também ficaram tensos. Associei esta contensão excessiva com a imagem de uma mulher idosa, tendo tudo sob controle. Ela tinha pernas rígidas e curtas. Seu tronco era igualmente rígido, imóvel e curvado para frente (junto com sua cabeça bem para frente). Ela queria tudo feito de maneira correta, perfeita e imediatamente. Tudo deveria estar em ordem. Eu não deveria parar e deveria obrigar os outros a fazer o mesmo através da reclamação constante. Assim estaria “certa”. Outro movimento importante com fluxo controlado, recorrente durante as sessões, foi um balançar rápido da cabeça de um lado para o outro durante longo período, até me sentir menos “presa ao espaço” (menos foco direto), também abrindo para a dimensão horizontal (fora da vertical). Nas sessões seguintes, a forma fluida inicial, a respiração, a sonorização e a pré-expressividade leve (modo de aprendizado: “com facilidade”) gradualmente se desenvolveram em fluxo livre, me permitindo experimentar meu peso forte, tirando minha cabeça fora do alinhamento vertical com impulso apaixonado (fluxo, peso e tempo sem foco) e em sessões posteriores expressar a raiva com a parte inferior do corpo no impulso de ação “socar” (forte, direto e acelerado). Através destas experiências de movimento, percebi que meu peso leve anterior é relacionado à minha personalidade (de ser educada agradável e “boazinha”), enquanto meu peso forte está relacionado com o sentimento de culpa em dizer “não”, em deixar de ser educada e “boazinha” e começar a valorizar minhas intuições e necessidades. Minha leveza e minha contenção refletem minha preocupação com outras pessoas, sendo discreta e contida, sem nunca demonstrar disparidade. Estas qualidades se referem a uma “consciência espacial extrema”, estando consciente e preocupada com a opinião e limites alheios. Em outras palavras, minha sensação de peso é de alguma forma um reflexo da maneira de me relacionar com o ambiente. Implica em uma dinâmica do relacionamento interno-externo que posteriormente foi explorado na tarefa da Escala Pessoal. Este tema internoexterno tornou-se central neste projeto, simbolizado pelo Anel de Moebius ou Figura

Gipe cit 19 (tradução de artigo)  

Ciane Fernandes Tradução: Melina Scialom SEM PERDA DE MEMÓRIA: UMA EXPLORAÇÃO COREOGRÁFICA

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