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Em outras palavras, aprendi a desconectar de minhas sensações corporais (peso) controlando o fluxo e assumindo um comportamento feminino estereotipado, expressando minha raiva apenas verbalmente. Este estereótipo de gênero tem seu paralelo na história da dança: [No balé clássico] ser feminina era ser a graciosidade encarnada; força/ação era o domínio único do masculino ... [na dança norteamericana dos anos de 1970] dançarinos em alguns repertórios tinham a oportunidade de serem mais macios, de dispor uma linha estética mais pronunciada. No entanto às mulheres ainda não era permitida a força. (DALY 1987/1988, 59, 64)

No fluxo contido, prendo minha respiração tanto quanto meu peso. Isto me faz sentir apertada, num espaço restrito e limitado. Este padrão é acompanhado de um sentimento de solidão e isolamento que eu freqüentemente experienciei desde a infância e estudando sozinha durante a adolescência. Como nos lembra Foucault (1977, 141): “Disciplina requer aprisionamento, a especificação de um lugar heterogêneo a todos os outros e fechado em si mesmo. É o local protegido da monotonia disciplinaria”.

O processo criativo Este projeto se desenvolveu inicialmente entre setembro e dezembro de 1993 através de diversas sessões de improvisação, mais seis sessões em grupo de “Movimento Genuíno”2. Tornou-se a busca e exploração de peso forte em meus movimentos, e sua relação com outras qualidades dinâmicas (Expressividade), bem como com as demais categorias do Sistema Laban/ Bartenieff - o Corpo, o Espaço e a Forma (estas categorias são escritas em maiúsculas). Este Sistema, atualmente denominado de LMA ou Laban/Bartenieff 2

Na técnica de Authentic Movement, que venho traduzindo como Movimento Genuíno, o grupo divide-se em duplas, nas quais os papéis de “observador” e de “realizador” é revezado durante as três horas de atividade. O realizador move-se de olhos fechados, escutando e seguindo os impulsos de seu corpo, muitas vezes imprevisíveis ou mesmo estranhos ao próprio realizador. O observador acompanha e protege o colega, porém sem interrompê-lo nem julgá-lo. Após mover-se, o realizador e seu observador trocam idéias, desenhos, poesias, etc., sobre a experiência. O processo então repete-se com papéis revezados. Ao final da aula, as duplas se juntam em um grande grupo para trocar idéias ou outras formas de expressão sobre as experiências.

Gipe cit 19 (tradução de artigo)  

Ciane Fernandes Tradução: Melina Scialom SEM PERDA DE MEMÓRIA: UMA EXPLORAÇÃO COREOGRÁFICA

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