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DAVID ALM0ND ~/

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o MEU PAl E UM . IDMEY-PASSARD ~

~ EDITORIAL PRESENCA

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I:E-

ra Ull1.amanha de Primavera, como tantas outras, no numero 12 de Lark Lane. La fora, os passaros chilreavam e piavam. 0 transito da cidade atroava e estrondeava e 0 despertador de Lizzie tinia e retinia. Ela saltou da cama, lavou 0 rosto, esfregou bem atras das orelhas, lavou os dentes, escovou 0 cabelo, vestiu 0 uniforme escolar, desceu, encheu a cafeteira electrica, ligou-a, pas pao na torradeira, pas a mesa com dois pratos, duas canecas, duas facas, leite, manteiga e geleia, e depois dirigiu-se para 0 fundo da escada. - Pail - chamou. - Paizinho! N enhuma resposta. - Paizinho! Sao horas de se levantar! Nenhuma resposta. - Se nao se levantar ja eu subo e ... Pisou ruidosamente 0 primeiro degrau e, a segmr, o segundo. - Vou subir! - gritou. Ouviu urn resmungo e urn gernido e, depois, nada.

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- Vou contar ate cinco. Urn ... dois ... dois e meio ... Paizinho! Li de cima chegou urn grito abafado. - Espera ai, Lizzie! Espera ai! Ouviu-se urn estrondo e outro gemido e, depois, ali estava ele, mal ajambrado num velho roupao e chinelos rotos, com 0 cabelo todo desgrenhado e a barba por fazer. - Desya, ande - disse Lizzie. Ele desceu aos tropeyoes. - E nao olhe para mim dessa maneira. - Nao, Lizzie. Com urn puxao, ela endireitou-lhe os do roupao. - Olhe para si! Esti num bonito estado. Que diabo esteve a fazer Ii em cima? Ele sorriu. - A sonhar - respondeu. - A sonhar! Que homem este. Agora sente-se a mesa. Sente-se direito. - Sim, Lizzie. Sentou-se na beirinha da cadeira. Tinha os olhos brilhantes e entusiasmados. Lizzie encheu-lhe uma caneca de chi. - Beba - disse, e ele bebeu urn golinho. - E coma essa torrada. - Ele mordiscou urn canto da torrada. - Coma-a como deve ser, pai. - Ele deu uma dentada maior. - E mastigue. - Ele Ill~sti(rOLl, durante uns InOlnentos. - E engula, paizinho.

Ele sorriu. - Sim, Lizzie. - Deu uma grande denl:lda, mastigou, engoliu e escancarou a boca para ela ver o sell interior. - Engoli tudo. Estis aver? Ela deu urn estalo com a lingua e desviou os olhos. - Nao seja tolo, paizinho. Endireitou-lhe 0 cabelo e penteou-o. Endireitou-lhe :t gala do casaco do pijama. Sentiu 0 restolho denso da I ~rba no queixo dele. - Tern de cuidar de si. Nao pode continuar dessa I naneira, pois nao? o pai abanou a cabeya. - Nao, Lizzie. Com certeza que nao, Lizzie. - Hoje quero que tome urn duche, faya a barba e se vista como deve ser. - Sim, Lizzie. - Muito bem. E quais SaGos seus pIanos para 0 dia? Ele endireitou-se na cadeira e fitou-a. - Vou voar, Lizzie. Como urn pissaro. A filha revirou os olhos. -Ah, vai? - Vou, sim. E vou participar no concurso. - No concurso? Que concurso? Ele riu-se, inclinou-se para a frente e agarrou-lhe 0 brayo. - 0 Grande Concurso do Homem-Pissaro, evidentemente! Nao ouviste falar nisso? Vem a cidade! Ouvi dizer isso ontem. Nao, anteontem. Ou naquele dia, fez na ultima terya-feira uma semana. 0 que interessa e que o primeiro a atravessar 0 rio Tyne a voar ganha millibras. E eu vou concorrer. E verdade, Lizzie. E, realmente, verdade. Vou ganhar! Vou, finalmente, mostrar 0 que valho. Levantou-se, abriu os brayos e agitou-os como se fossem asas.


- Os me us pes levantaram-se do chao? - perguntou. - Levantaram-se? Os me us pes levantaram-se do chao? Correu a agitar os brayos, como se voasse. - Oh, paizinho, nao seja pateta. Lizzie correu atras do pai, que continuava a dar voltas pela sala. Conseguiu, finalmente, alcanya-lo e voltou a alisar-lhe 0 cabelo e a endireitar-lhe 0 roupao. - Pois sim - disse-lhe. - Talvez consiga voar como um passaro, mas primeiro nao se esqueya de apanhar um pouco de ar e comer um bom almoyo, esta bem? Ele acenou afirmativamente. - Pois sim, Lizzie - concordou e, depois, agitou de novo os brayos e deu uma pequena gargalhada. - Ah, a tia Doreen disse que talvez passe por ci hoje. o pai estacou. 0 seu rosto desfigurou-se. - A tia Doreen? - perguntou. Franziu 0 rosto e suspirou. - Outra vez ela, nao! - Sim, outra vez ela. Vai faze-lo regressar a terra. Ele bateu 0 pe esquerdo. E bateu 0 direito. - Mas, Lizzie ... - gemeu. - N em mas Lizzie, ne~ meio mas Lizzie. A tia Doreen gosta de si, como eu gosto. E preocupa-se consigo, como eu me preocupo. Portanto, seja simpatico com ela. Os ombros dele descairam e os brayos penderam-lhe ao longo do corpo. Lizzie pegou na mala da escola e deu UlTl beijo no rosto do pai. Sorriu-lhe meigamente e abanou a cabeya. Parecia um rapazinho, ali parado. - Que vou fazer consigo? - Nao sei, Lizzie - murmurou ele. -13 hesitou.

- Nao sei se devo deixa-lo entregue a si proprio. Ele riu-se. - Claro que deves. Tens de ir para a escola, fazer as tuas contas de somar e os teus ditados. Tinha razao. Ela precisava de ir para a escola. Gostava da escola. Gostava das contas de somar, dos ditados e das suas professoras, assim como do director, 0 Sr. Mint, que fora tao bondoso com eIa e com 0 seu pai. - Esta bem, eu vou. Agora de-me um beijo de ate logo.


Ele beijou-a na face e abra~aram-se. Depois ela espetou 0 indicador: - Nao se esqueya... - Esta bem, Lizzie, nao me esque~o. Lavar-me. Fazer a barba. Comer um bom almo~o. Apanhar muito ar. E ser simpatico com a tia D. - Muito bem. E isso mesmo. - E nao me esquecerei de voar. - Oh, paizinho! Ele pas-Ihe a mao nas costas e conduziu-a a porta. - Vai - disse-Ihe. - Nao precisas de te preocupar com coisa nenhuma. Anda, vai para a tua linda escola. Ela abriu a porta e saiu para 0 jardim. Lan~ou-Ihe um ultimo olhar. - Adeus, Lizzie, ate logo. - Adeus, paizinho, ate logo. Atravessou 0 jardim ate ao portao e saiu para a rua. Parou um momento e olhou para tras, para ele. - vai, filha. Eu estou bem. Ela recome~ou a andar. Ele acenou-Ihe ate a perder de vista e depois fechou a porta. Agitou os bra~os, a rir baixinho. - Pio, pia - disse. -' Tirou um peda~o de torrada que tinha escondido debaixo da lingua e cuspiu-o. - Pio pio - disse de novo. - Pio pia, pia pio. Depois viu uma mosca a passear em cima da mesa. Lambeu os labios - iam, iam - e foi atras dela.

mosquinha era veloz de mais para ele. Levantou voo da mesa e zumbiu por cima da sua cabe~a. POlSOU I pernas para 0 ar no tecto enquanto ele soprava, ofegwa e agitava os bra~os na sua direc~ao. - Eu apanho-te, minha diabinha! - amea~ou. - Desce dai e engulo-te. Mas ela nao desceu e ele nao a engoliu. Sentou-se no 'hao, a recuperar 0 folego. Depois teve outra ideia e ome~ou a rastejar ao lado do rodape. Arranhou as tabuas do soalho com as unhas e encontrou pequenas baratas

A


pretas, pequenos insectos castanhos e pequenas coisas brancas rastejantes, desenterrou-as com as unhas e meteu-as na boca. - Jam iam! - murmurou. - De que servem torradas para urn homem como eu? Urn homem como eu pre'isa de vermes, moscas e centopeias. Sentou-se, a dar estalinhos com os labios e a suspirar d satisfa<;:ao.Levantou-se e agitou os bra<;:os.Parou a janela e olhou para 0 jardim. Nao viu Lizzie a espreitar, atras de uma arvore. - E urn homem como eu precisa de vermes! Tenham cuidado, viscosos vermezinhos! Jam iam! Nao tarda, volto para os apanhar! Depois calou-se, os seus olhos tornaram-se vidrados e ele sorriu muito profundamente. «Ah, se ela soubesse!», murmurou para consigo. «Se a adoravel Lizzie soubesse!» Levou a mao a algibeira do roupao, tirou uma chave e subiu a escada em bicos de pes.


oi para 0 quarto, tambem em bicos de pes, andou em bicos de pes aroda da cama e dirigiu-se em bicos de p ~s para urn armario que estava encostado a parede. Meteu a chave na fechadura, girou-a e, muito devagar, lI1uito cautelosamente, abriu a porta. Suspirou e sorriu d contentamento. - Venham ca para fora, minhas lindezas - disse. Meteu a mao no interior do armario e tirou urn par de asas de confee<;:ao caseira. - Sao deslumbrantes! Despiu 0 roupao e colocou-as por cima do pijama. Eram feitas de penas, cordel, peda<;:os de uma camisa velha, bocados de bambu, arame, cartao e penas, e penas, penas. - Sao absolutamente deslumbrantes! Esperem so que a minha Lizzie as veja. Pos-se em bicos de pes. Esticou os bra<;:os.Fechou os olhos. Sonhou que voava como uma andorinha, como urn gaviao, como urn falcao, la muito alto, por cima ciacasa. E, enquanto de sonhava, alguem come<;:oua gritar, no exterior. - Inscri<;:oes para 0 Concurso do Homem-Passaro! Todas as Inscriyoes para 0 Grande Concurso do Homem-Passaro! Ao principio, 0 pai nao ouviu, apesar de a voz gritar tao alto e, ate, de ecoar pela rua e de as paredes e os telhados repercutirem 0 seu eco.

F


Correu pela escada abaixo. Escancarou a porta e griII de novo: -EU! EU! EU! a homem baixinho e gorducho baixou 0 megafone. Entrou e avanyou pelo jardim com 0 quadro de madeira debaixo do brayo. Entrou na cozinha. Pas 0 megafone em ima da mesa. Levantou 0 quadro. Lambeu 0 bico do lapis olhou para 0 paizinho. a paizinho tremeu. As suas asas stremeciam de excitayao. Quase nao conseguia respirar. - Deseja, entao, participar no Grande Concurso do Homem-Passaro? - perguntou 0 homenzinho gorducho. - Sim. Quero dizer, sim, por favor. - Chamo-me Sr. Poop - disse 0 homem. - Sim, por favor, Sr. Poop, excelencia.

«Esperem s6 que a Lizzie veja», repetiu. «Sentir-se-a 60 orgulhosa!» A voz ecoou de novo, forte:

- TODAS AS ENTRADAS PARA 0 CONCURSO DO HOMEM-pASSARO! Correu para a janela. Do' lado de fora da cancela do jardim estava urn homem baixo e gorducho. Segurava urn pequeno quadro de madeira e falava por urn megafone.

-TODAS

AS ENTRADAS PARA 0 ...

a pai abriu a janela. - Eh! - gritou, a acenar com os brayos para 0 homenzinho gorducho. - Eu, senhor! EU! a homem parou, calou-se e olhou para Clma, para ;1 janela. - 0 SENH 0 R? - gritou, rib0111.bante. - Sim! Eu! Espere s6 urn momento!


o Sr. Poop olhou para 0 paizinho, para as suas asas,para o quarto. Voltou a lamber 0 bico do lapis. Encostou-o a urn formulario preso no pequeno quadro de madeira. - Nome? - perguntou. -Jackie - respondeu 0 paizinho. -Jackie que? o paizinho pestanejou. Pensou no assunto. Tentou lembrar-se. Depois respondeu: - Cham.o-me Jackie ... Crow. - Tern a certeza? - perguntou 0 Sr. Poop. - Tenho - respondeu 0 meu pai. - Quero dizer, tenho, sim, Sr. Poop. o Sr. Poop escreveu no seu quadro de madeira, e enquanto escrevia murmurou: - Jack-ie C-Crow. Ocupayao? o paizinho pestanejou de novo, pensou de novo e tentou lembrar-se. - Sr. Crow - insistiu 0 Sr. Poop. - Qual e a sua ocupayao? Que trabalho faz? - Sou urn homem-passaro - respondeu, sem hesitar. - Sim, sou urn homem-passaro. Creio que costumava fazer outra coisa qua~quer, mas agora nao consigo lembrar-me do que era. Sou urn homem-passaro! o Sr. Poop lambeu 0 bico do lapis. - Homem-Passaro -lnurmurou, enquanto escrevia. - Equal e 0 seu metodo de propulsao? o paizinho arregalou os olhos para de. 0 que e que o homem que ria dizer com ÂŤmetodo de propulsaoÂť? -0 que? - Qual e 0 seu metodo de propulsCio, Sr. Crow - expliau Sr. Poop. - Como vai voar? Finalm.ente 0 paizinho compreendeu, encolheu os oillbros e bateu as asas na direcc;:aodo tecto.

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Ora essa, com as rninhas asas, evidentemente. Nao S30 maravilhosas,Sr. Poop? Bateu as asasmais rapidamente. Correu a volta da sala. - Nia acha que sao maravilhosas?


Q

uando 0 meu pai parou e se endireitou, corado, ofegante e cansado, 0 Sr. Poop inspeccionou as .as. Tocou delicadamente nas penas. Fungou. Puxou. Ponderou. Suspirou. - Entao? - perguntou 0 meu pai. - Nao as acha l11agnifi cas? - Hmnlmmmmmnlnl ... - foi a 1mica resposta do Sr. Poop.


- Oh, bem sei - suspirou 0 paizinho. - Ainda nao 'ao perfeitas. Precisam de um pontinho aqui, um alfinete alem, um prego ali, um peda<;:ode cartao acola, mais algumas penas acola. Mas tirando isso... -Hmrmnrnnunmnmrmrrurunrrlllllnml111Tnmmrmnmm - repetiu 0 Sr. Poop. - E eu terei um bico e uma crista, evidentemente acrescentou 0 paizinho. o Sr. Poop andou a volta dele. Tocou. Fungou. Puxou. Suspirou. - Asas, bico, crista - disse, baixinho. o paizinho observava-o. Escutava-o. Sabia que 0 Sr. Poop se encontrava longe de estar convencido. - E tenho fe! - afirmou 0 paizinho. 0 Sr. Poop olhou para ele. - Fe, Sr. Crow? - Sim, Sr. Poop, fe. Sei que posso faze-lo, compreende? Acredito que posso. o Sr. Poop ponderou de novo. Deu uma palmadinha na bochecha. Lambeu a ponta do lapis. Deu umas palmadinhas na barriga gorducha. E depois falou: - A competi<;:aosera intensa, Sr. Crow. Vem de todos os cantos do mundo. Hi um tipo de Fran<;:aque aparafusou asas na sua bicicleta. Ha um rapazola do ]apao com uma vara de salto de tres metros de comprimento. Ha urn tipo do Brasil com urn chapeu-de-chuva na cabe<;:ae uma helice no traseiro. Vao trazer para-quedas, catapultas, centrifugadoras, cones de helices, molas gigantes e... - E eu tenho as minhas asas e a minha fe - afirmou o meu pal. - Hmmmmm - respondeu 0 Sr. Poop. - Tern onsciencia dos perigos? Pancadas na cabe<;:a,ossos par-

tidos, golpes e contusoes, afogamento no rio ... Cair do 'eu nao e aconselhavel, Sr. Crow. - Cair! - exclamou desdenhosamente 0 meu pai. - Deixe ver esse lapis. o Sr. Poop deu-lhe 0 lapis. E estendeu-lhe a placa de madeira. - Assine aqui, Sr. Crow. o meu pai assinou, com um floreado. - E aqui - pediu de novo 0 Sr.Poop. - E tambem aqui. o meu pai assinou outra vez, e mais outra. o Sr. Poop examinou 0 impresso de registo. Depois :lssinou-o por seu turno, com uma pequena e gorducha :lssinatura. - Inscri<;:aoaceite - declarou, e 0 meu pai ofegou I contentamento e estendeu os bra<;:ospara abra<;:ar0 Sr. i> op, que expeditamente se desviou. - Voltamos a ve-lo no proximo domingo. A partida " as dez horas da manha. Aconselho-o a usar urn capacete r'sistente. Adeus. Tirou 0 megafone de cima da mesa e meteu a pIaca d:1sinscri<;:oesdebaixo do bra<;:o.Saiu. 0 paizinho observou-o enquanto ele atravessava 0 jardim, saia pela canl' 路Ia e desaparecia na rua, do Iado de fora. Depois 0 meu pai observou os passaros, no ar. - Capacete! - exclamou. - Quem precisa de capac 路te? OIha aquele corvo, Ia em cima. Repara na maneira como paira no ar. Repara como bate as asas e voa tao Ill:lraviIhosae faciImente. E assim que se faz! Picou ali parado a sonhar e, sonhando, voou alto sobre I) j'lrdim, alto sobre a cidade, alto sobre 0 rio Tyne ... e II~ viu Lizzie esgueirar-se detras da arvore e ir direita a (.j '. E continuou sem reparar quando ela parou a sua It路 'nte e agitou a mao diante do seu rosto.


- Paizinho - chamou ela. - Paizinho. Ele estava ausente no seu maravilhoso sonho de voar. Voltou para dentro de casa, fechou a porta e nem percebeu que Lizzie se esgueirava la para dentro, ao lado dele.

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paizinho correu a volta da sala. Agitou os bra~os como se voasse. Piou, arrulhou, grasnou e assobiou. Lizzie estendeu a mao, quando ele passava velozmente por e1a. Ch amou-o. M as 0 pal. ~~~~o~i~on~::o o::~~a~la obserEstou no ar! - gritou ele. Os meus pes estao levantados do chao! Estao, sim! Riu-se de si mesmo. - Nao estao nada, rneu pateta -

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cabe~a de passarinho - disse. - Mas hao-de estar! Urn pouco , '\. mais de pratica. Mais algumas -~:F'W~. horas! Mais uns dias! Uiiii! Deu uns passos carnbaleantes e parou. Inclinou-se para a frente, extenuado e a ofegar. Inspeccionou as asas. Mexericou nas penas, nos cordeis, nos grampos e nas cavilhas. Sim, estavam longe da perfei~ao. Sirn, precisavam de uns ajustarnentos: urn apertozinho aqui, urn puxaozinho ali. Mas erarn pura magi a para os seus olhos. Eram melhores do que helices ou para-quedas, melhores do que catapultas ou varas de saltar. Seriam as asas que 0 fariam subir no ar como urn passaro, seriam elas que lhe


trariam a vitoria, a ele, Jackie Crow, morador em Lark Lane, 12. Abrayou-se a si mesmo, sonhando acordado com 0 dia do concurso. Viu os outros a debaterem-se no rio e a gritarem por socorro enquanto ele batia as asas, Ii muito em cima. E viu Lizzie ali em baixo, na margem do rio, a olhar para cima, para ele, e a acenar e a gritar para que todos ouvissem: ÂŤAquele ali e 0 meu paizinho! E Jackie Crow! 0 meu pai e um homem-passaro! E 0 melhor homem-pissaro do mundo e 0 paizinho mais formidivel que jamais existiu!Âť Ele riu-se e apanhou urn besouro do chao. Lizzie agoniou-se, quando 0 viu atiri-lo, com um piparote, para dentro da boca. - Hmm humm ... - murmurou, deliciado. Tirou as coisas do pequeno-almoyo da mesa e depois subiu para cima dela. - Nao, paizinho! - gritou Lizzie. - Urn! - disse ele. - Dois ... ! - Nlio, paizinho - gritou Lizzie e saltou para 0 salvar, mas tarde de mais. - Tres! Partida! Saltou rumo ao tecto e despenhou-se no chao. - Ai! gritou. Vi,. as minhas costas! Ai, aI, o meu joelho! - Ai, ai, a minha cabeya! - Pai. Oh, Paizinho! - exc1amou Lizzie. - Ainda se mata! Ele soltou uma pequena gargalhada, apesar da dor. - Quase consegui, Lizzie! Desta vez nao voei por pouco! Viste-nos? Os meus pes estavam ... Calou-se. Fitou-a de olhos arregalados. Que fazes aqui, pequena? Ela passou 0 brayo por baixo das asas dele e ajudou-o J sentar-se.

- Estou aqui porque estava preocupada E tinha razao. Podia ter partido as costas. - Partir as costas, eu? Nao sejas pateta. os ombros. Gostas das minhas asas, Lizzie? segredo delas. Queria que fossem uma grande para ti. Ela tocou nas asas e cheirou-as. - Bern. .. suponho que SaG encantadoras,

COnslg0. Meneou Guardei surpresa

paizinho,

mas ... - Qual suponho, qual que ... Estas asas VaG tornar-nos famosos e ricos! - Mas, paizinho ... - Seja como for, devias estar na escola. E as tuas contas de somar e os teus ditados? 0 que diri 0 Sr. Mint? Lizzie nao sabia 0 que 0 Sr. Mint diria, mas sabia que ficaria preocupado. Sabia que quereria saber 0 que estava a passar-se.


- 0 Sr. Mint e urn homem simpatico. Compreende que, as vezes, preciso de ÂŁIcar em casa. Continuou a observar as asas. Reparou que 0 cordel, as penas e os arames estavam cuidadosamente entretecidos. Tocou com a ponta do dedo numa pena isolada. Era tao macia, tao maravilhosamente formada. Tocou noutra, de urn negro carregado e reluzente. - Esta e de urn melro? - E, sim, Lizzie. Tirou as asas que produziram urn som roc;agante, quando as ergueu, como se fossem arvores, como se fossem coisas vivas. Apontou outras penas. Mostrou-lhe uma pena de pombo, uma de tordo e uma de pega. Mostrou-lhe como uma pena de corvo e grande e como sao fortes as penas de uma gaivota. Mostrou-lhe tambbn a pena minuscula e delicada de urn pintarroxo, a pena delicadamente colorida de urn pintassilgo e a bonita pena da carric;a femea. Lizzie sorria, enquanto ele Ihas mostrava. E suspirava com ele perante a beleza das penas e das asas. 0 seu pai fora sempre habil com as rIlaos. Soubera sempre fazer coisas, como a casinha de bonecas que Ihe dera no seu quinto aniversario, as marionetas e 0 teatro de marionetas que ÂŁIzera naquele Natal quando ela tinha seis anos. E 0 baloic;o no jardim, e a casinha de brincar que parecia uma cabana de urn conto de fadas. E livros feitos em casa, e bonecas. Mas estas asas eram uma coisa nova, uma coisa estranha, uma coisa maravilhosa. - Sao encantadoras, paizinho - murnlurou. - Sao do jardim - explicou 0 pai. - E surpreendente 0 que encontramos caido debaixo das arvores. Ha penas caidas por todo 0 lado.

- E tao inteligente - disse Lizzie, a abanar a cabec;a. - Mas tambem e tao pateta, paizinho. Urn homem nao pode voar s6 porque se cobre de penas. - Pode, sim! E uma questao de coordenar como deve ser 0 saltar e 0 bater das asas. Acredita nisso, e la vais a voar. - Depois suspirou. - Mas ha apenas urn problema. - Qual? Em resposta, 0 pai agarrou na barriga e bamboleou-a. Ela sorriu. Desde que se lembrava, ele fora sempre urn bocado gorducho. - 15to e 0 problema - respondeu 0 pai. - Olha para esta barriga, Lizzie. Sou demasiado gordo. E isso que esta a impedir-me. Alguma vez viste urn passaro gordo? Alguma vez viste urn passaro cambaleante? Lizzie pensou no assunto. Havia aqueles grandes e anafados perus do Natal que mal conseguiam andar, quanto


mais voar. Mas tarnbern nao se esperava que voassern. Esperava-se, sirn, que carninhassern a barnbolear-se, cornessern alirnentos ricos durante alguns rneses e depois [ossern parar, recheados, a urna mesa de Natal. E havia aqueles galinaceos atarracados naquelas minusculas gaiolas. E ... o pai adivinhou 0 que ela estava a pensar. - Algurna vez viste urna aye carnbaleante que [osse capaz de voar? Lizzie abanou a cabe<;:a. - E claro que nao viste! - E porque? Por causa do que elas cornern! Apanhou urn pequeno besouro do chao e atirou-o, com urn piparote, para dentro da boca. Lizzie soltou urn gritinho. - Eles cornern insectos, rnoscas, bagas, sernentes e vermes - disse 0 pai. - Nao cornern alirnentos ricos. Nao cornern torradas. E, decisiva e definitivarnente, nao cornern os jantares da tua tia Doreen! Engoliu outro insecto. E corne<;:oua piar: Pio, pio! Pio, pio! Urn passaro assobiou, no exterior. - Ouves? Esta a trabalhar. E corne<;:oua grasnar - ÂŤCau cau! Cau cau!Âť- como urna gralha, e urna gralha respondeu-lhe do exterior. - Estas aver? Serei urn verdadeiro hornern-passaro como deve ser. E tudo por ti, pequena. Vais orgulhar-te muito de nos. - Mas, paizinho - disse ela em voz rneiga, a segurar-lhe levernente no bra<;:o-, nao preciso de que seja 1Im homern-passaro. Preciso apenas de que seja 0 rneu p~lizinho. ) pai parou. Olhou Lizzie nos olhos.

- A serio? - perguntou, como se tal pensarnento nunca Ihe tivesse passado pela cabe<;:a. E Lizzie recorne<;:oua [alar, mas [oi interrornpida por LImavoz do exterior. -Jack! Jackie! o pai encolheu-se. - Oh, nao! - gerneu. - Ela ja aqui esta! Levantou-se de urn pulo. Grasnou como urn corvo. Correu para 0 jardirn. Nada conseguiria dete-lo. - Ola, verrnesinhos! - charnou.


tia Doreen irrompeu peIa saIa. Trazia um aventaI verde com flores vermelhas. Tirou 0 chapeu amareIo. Bateu no chao com as reluzentes botas azuis. Pas um grande saco de compras axadrezado em cima da mesa. - Elizabeth! - chamou. - Viste aqueIe grande homem pateta Ii fora? - Que grande homem pateta? perguntou Lizzie. - N estasredondezas hi apenas um grande homem pateta, e nao sou eu e tambem nao es tu. Deve ser por causa daquele concurso pateta, nao achas? - Sim, Tia Doreen. A tia Doreen revirou os olhos. - Homem-pissaro, francamente! - exclaulou. - A cidade inteira esti a ficar maluca. Na minha opiniao, as pessoas deviam manter-se pessoas. Nao concordas, Elizabeth? - Sim, Tia Doreen. - Deviam manter os pes assentes na boa terra de Deus. Nao concord3S, Elizabeth? - Sim, Tia Doreen.

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- E

claro que concordas. A tia Doreen bamboleou-se pela sala a agitar os bra<;:os, a grasnar como uma ave e a olhar para 0 ceu para demonstrar como tudo era estupido. - Estas aver? Nao hi absolutamente nenhuma possibilidade. Passaros sao passaros e seres humanos sao seres humanos. Espero que te ten ham ensinado isso na ... Calou-se. Fitou Lizzie. - Por que nao estas na escola, minha menina? Lizzie baixou os olhos. Que diabo podia responder? - Nao me sinto bem - disse, por fim. - Po is a mim pareces-me suficientemente bem! o que se passa contigo? - D6i-me uma perna ... Nao, a cabe<;:a.Quero dizer, d6i-me a barriga. - Inclinou-se para a frente e levou as maos a barriga. - Aiii!, gemeu. - D6i-me a barriga. Aiii! A tia Doreen franziu os labios e semicerrou os olhos, e nao acreditou numa s6 palavra. - Com que entao, dor de barriga! Boa comida caseira, e disso que precisas. E e do que aquele calmeido idiota precisa, ele e todos. As coisas por aqui vao de mal a piOL Dois e dois quantos sao? - 0 que? - perguntou Lizzie. - Nao querias dizer ÂŤPerdao?Âť

- Perdao - corrigiu Lizzie. - Dois mais dois quantos sao? Preciso de ver em que medida estas a ficar para tras. - Quatro. A tia Doreen contou pelos dedos. - Certo! Pelo menos alguma coisa esta a correr bem. Desde que a tua pobre ma ... Desde entio, ele esta a ficar mais chalado do que 0 chao - Trope<;:ounas asas que estavam caidas no chao. - Que coisas sao estas? Lizzie baixou-se e levantou-as, para a tia Doreen as poder ver. - Sao as asas dele - explicou. A tia Doreen fitou-a de olhos arregalados. - As asas dele? Essa agora! E pior do que eu pensava! - Olhou para 0 jardim e viu 0 paizinho com urn verme pendurado defronte do rosto. Ofegou, assustada. - Que diabo esta ele a fazer com aquele pobre verme?


Lizzie olhou, tambem, e Vlram 0 verme desaparecer na boca do paizinho. - Parece que esta a come-lo, tia Doreen. A tia fez uma careta e abriu a boca, como se fosse vomi tar. -Jackie! - gritou. - Jackie, homem, deixa-o em paz, idiota! - Mas 0 paizinho pegou noutro verme e segurou-o a frente do rosto. - Oh, nao! Oh, valha-me Deus! Brrrrr! - Fechou os olhos e apertou a barriga. - Que raio de casa e esta? - E uma casa agradavel, evidentemente - respondeu Lizzie. - Foi, em tempos que ja la vao! - A tia Doreen agarrou-a e apertou-a contra 0 peito volumoso. - Oh, minha querida, minha pobre crian<;:a! - Eu nao sou uma pobre crian<;:a- protestou Lizzie, em voz abafada. - Ai, es, sim, e sabes que es. - Depois afastou Lizzie e pas-se muito direita. - Guarda aquelas estupidas asas - ordenou. Lizzie pendurou-as atras da porta. - Muito bem. Chegou a altura de par maos a obra! - declarou a tia Doreen. -"Ha urn pouco de gordura naquele saco de compras. Tira-a, sim, pequena. Do que aquele homem precisa e de urn pastel de carne!

tia Doreen lavou e esfregou bem a mesa. Lizzie tirou margarina, ovos e farinha do saco das compras. Encheu urn jarro de agua. Foi buscar colheres de pau e uma grande ta<;:amisturadora. Pas as coisas em cima da mesa, a frente da tia Doreen, que deitou tudo numa onnde tigela e comecou a misturar e a mexer. Mantinha b ' os olhos afastados da janela. - Voar, francamente! - exclamou. - Nada melhor do que urn prato de boa comida para trazer urn pouco de born senso a urn mundo idiota. Bolinhos de banha, nada melhor. Olha para aquelas deliciosas migalhas de gordura. Aqueles bocadinhos estaladi<;:os.Espera so que o delicioso cheiro da cozedura comece a sentir-se. Faz com que 0 mais pateta dos homens recupere, num abrir e fechar de olhos, a no<;:aoda realidade. Bater e amassar, Doreen! Bater, amassar e moldar em deliciosas bolinhas. Amassou um reluzente pastel branco e segurou-o no punho. Atirou-o ao ar e apanhou-o. Atirou-o de novo e deixou-o cair, com um baque, no chao. Sorriu. - Optimo. Aquele esta suficientemente solido. Fez outro.

A


- Agarra!- gritou e atirou-o a Lizzie.- Que tal, hem? E como urn matacao de chumbo. Perfeito! - Viu 0 pai, la fora, a subir por uma cerejeira. - Sai dessaarvore, homem! - gritou-lhe. - Ainda nos pae tao tarantas como ele. Fez outro d6nute recheado. Foi a porta e gritou: -Jackie, desce ja dessa arvore! Ele nao fez caso. Continuou a subir, a piar e a grasnar. A tia Doreen estendeu 0 brayo para tras e atirou-lhe o d6nute recheado. 0 pai nao deu por nada, quando 0 d6nute passou por ele e caiu na relva como uma bala de canhao. Ela gemeu e voltou a fechar a porta. - Rezo para que nao vas pelo mesmo caminho, Elizabeth. - Nao, tia Doreen, nao vou - respondeu Lizzie. A tia Doreen deu-lhe urn beijo repenicado no rosto. - Optimo. A tua mae teria orgulho de ti. Acabei de dizer ao teu director, 0 Sr. Mint. .. - 0 Sr. Mint? - repetiu Lizzie. - Sim, 0 Sr. Mint. Estava a dar-lhe uma palavrinha. A teu respeito e a respeito do tonto do teu... Ele disse que es uma boa menina bem-comportada. Trabalha sempre com afinco, disse-me. E sempre bem-educada. Boa menina. Como se escreve gato? - 0 que? - perguntou Lizzie. - Perdiio - corrigiu a tia Doreen - Perdao - repetiu Lizzie. - Diz como se escreve ÂŤgatoÂť. - G-A- T-O - disse Lizzie. A tia Doreen sorriu. - Isso mesmo. Vais sair-te muito bem. Mais d6nutes recheados! Recome<;:ou a trabalhar e, enquanto trabalhava, cOl11e<;:ou a cantar:

D6nutes! D6nutes recheados! Adoraveis d6nutes! Mis tu re, bata, amasse e torne a bater! Amolgue-os, coza-os, retire-os e escorra-os! D6nutes recheados, oh, deliciosos d6nutes recheados!

Enquanto cantava, Lizzie dan<;:avaao ritmo da cantiga. Levantou os brayos, agitou-os e abandonou-se ao sonho tonto de voar. A tia Doreen ferveu agua numa grande panela e foi deitando os d6nutes recheados, urn por urn. Quando estavam cozidos, colocou-os numa prateleira para fumegarem e arrefecerem e 0 seu aroma delicioso flutuou pela cozinha. Nisto, a porta escancarou-se de repente e 0 paizinho entrou a correr. Trazia na mao urn saco de compras dentro do qual alguma coisa se sacudia e sacolejava e grasnava e gritava. - Apanhei-a!- gritou de. - Apanhei-a, Lizzie! Vivaaa! \ i.t

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orreu a volta da sala como se estivesse a ser arrastado pelo saco que nao parava de saltar para 0 ar e despenhar-se de novo no chao. Ele segurava-o bem apertado. 0 cabelo esvoayava-lhe aroda da cabeca. Os seus olhos estavam estranhos, desvairados, agi~ados. A certa altura, parou e tentou olhar para dentro do saco, mas voltou a fecha-lo rapidamente, gritando: «Ui! Quieto, calma! Estou apenas a tentar ver-te!» E 0 saco arrancou de novo, desencabrestado, arrastando-o consigo. Parou de novo. Encostou 0 agitado saco ao rosto. «Calma, sossega», disse. «Queres uma lagarta?» Mas aquilo voltou a grasnar e a agitar-se e 0 paizinho voltou a ser levado a reboque. A tia Doreen parou defronte dos donutes recheados. Lizzie estava especada, imobilizada pelo espanto. - Que diabo estas a fa~er? - perguntou, por fim, a tia Doreen. - Apanhei a gralha! - gritou 0 paizinho. - Apanhaste a gralha? Nao me digas! Que ideia foi essa de apanhar uma gralha? - E para pesquisar. Quero examina-la e descobrir 0 que estou a fazer de errado. Quieto! Quietinho! Sossega, passaro idiota! - Solta-o, Jackie, solta-o, homem! Doreen. - E cruel, paizinho - disse Lizzie.

ordenou a tia

- Ora essa!Nao quero fazer-lhe mal nenhuni, Lizzie. - Levantou 0 saco e voltou a encosta-lo a cara. - Quero S 'I' teu amigo murmurou, mas a gralha nao queria ser ,1Inigadele. Comeyou as bicadas dentro do saco e 0 sell . rande bico cinzento furou-o e picou 0 nariz rosado do paizinho. Pas a cabeya toda de fora e olhou, zangada, com (S olhos pequenos e brilhantes que pareciam berlindes. - Ola, gralha. Eu so quero ... - Mas 0 passaro deu-lhe LImabicada na bochecha e guinchou. Grasnou e bateu as asas.A tia Doreen gritou, assustada. - Livra-te dele, homem! Solta-o antes que nos ataque a todos. o paizinho correu para a porta e atirou 0 saco e 0 passaro para 0 ar. Depois 0 saco caiu, aterrou na cabeya do paizinho e ficou Ii - Adeus, gralha - gritou ele. -Jackie - disse a tia Doreen. -0 que e? - Come urn donute recheado. -Hem?! Ela atirou-lhe urn. - Come um, homem! Ele pegou-lhe, olhou-o, cheirou-o e depois atirou-o pela porta fora. - Era urn lindo passaro - disse. - 0 que fez foi cruel - ralhou Lizzie. - Ele estava a olhar para mim como se quisesse ser meu amigo - justificou-se 0 pai. - Sorriu-me. - Foi cruel, paizinho - repetiu Lizzie. - Achas que foi, Lizzie? - Fez uma pausa, pensativo. - Ele nao pareceu muito zangado. - Donute recheado - repetiu a tia Doreen, atirando-lhe outro.


Ele desviou-se e 0 d6nute voou pela porta fora e saltou e ressaltou pelo jardim. Ela olhou para 0 paizinho, zangada. - Pronto, chega. Acabou-se. - Pas 0 chapeu. Sacudiu a farinha das maos. - Elizabeth, vai buscar 0 teu casaco. Vens comigo. Mas Lizzie ignorou as palavras da tia Doreen e foi para o lado do pai. - Podia observar apenas os passaros, paizinho. Podia olhar para eles, no jardim. Podia tomar apontamentos e fazer desenhos. Nao precisa, realmente, de os apanhar, pois nao? Ele baixou a cabec;:a. - Acho que nao - admitiu, em voz baixa. Lizzie apontou para 0 ceu, para uma gralha que voava alto, sobre 0 jardim. - Olhe para aquela gralha. Consegue ver aquelas penas espetadas como dedos na parte de tras das asas? Nao as tern nas suas asas, pois nao? - Nao, nao tenho. - Lizzie! - chamou, brusca, a tia Doreen. - Vem ci! Mas Lizzie nao estava a ouvi-la e apontou de novo para 0 ceu. - E olhe para aquela carricinha ... Oh, e escute como cantam, paizinho. Observaram e escutaram juntos. Havia passaros no ceu e nas arvores. Havia passaros nos telhados, nos muros e nos canos das chamines, o seu canto ouvia-se por todo 0 lado e era muito belo. - Nao sao encantadores?

- Sim, sao encantadores - respondeu 0 pai. Escutaram juntos e, depois, ele assobiou e urn passaro assobiou-lhe em resposta. Ele grasnou e urn passaro grasnou em resposta. - 0 paizinho e tao inteligente - murmurou Lizzie. - Elizabeth! - chamou de novo, aspera, a tia Doreen. - Veste 0 casaco, ja! - Oh, e olhe ... - continuou Lizzie. - Consegue ver aqueles dois pardalinhos? o pai sorriu. A tia Doreen limitou-se a olhar, sem saber 0 que dizer. - Olha - disse 0 pai -, mais outro! Tres pardalinhos. - Observaram os pardais a saltitar pelo jardim. - E uma familia inteira de pardais. - E olhe para aquelas andorinhas - disse Lizzie. - Repare nas pequeninas penas pontiagudas das suas caudas. Nao as tern, pois nao? o pai abanou a cabec;:a. - Se calhar s6 precisa de mais urn bocadinho de trabalho nas asas, paizinho. Torcer urn bocadinho aqui, acrescentar mais uma pena ali... e levanta voo e la vai. - Deu-lhe urn pequeno abrac;:o.- Olhe, paizinho, talvez eu possa ajuda-lo. o pai abriu muito os olhos. Sorriu. Estava muito alegre. - Queres realmente dar uma ajuda? Ela sorriu-lhe. E claro que queria. Seria como quando o ajudara a pintar a casinha de brincar, ou quando 0 ajudara a dar 0 retoque final nos fantoches. Seria como quando tinham plantado, juntos, 0 pequeno freixo no jardim e 0 pai dissera que formavam uma grande equipa.


- E claro que o pai riu-se.

quero.

E

0

meu paizinho, nao e?

- Formamos uma grande equipa - disse. Pegou em Lizzie e ergueu-a acima da cabeya. ComeyOUa correr a volta da sala, a seguri-la no ar como se ela estivesse a voar, e Lizzie riu-se, riu-se muito, e disse: - Os meus pes ji estao no ar? Estao! Estao! A tia Doreen bateu 0 pe. - Poe essa rapariga no chao! - gritou. - Mas, tia Doreen, e divertido! - exclamou Lizzie, a nr. A tia puxou 0 chapeu para baixo. Deu uma grande dentada num donute e dirigiu-se pesada e decididamente para a porta. - Oh - queixou-se Lizzie. - Nao vi, tia Doreen. - Vou sair deste manicomio, Jackie - ameayou a tia. - Elizabeth, esta e a tua ultima oportunidade, a ultima! Vem comigo, ji. o paizinho pas Lizzie no chao. Ela nao se mexeu. Nao queria que a tia Doreen se fosse embora zangada, mas nao podia deixar 0 seu paizinho. Abanou a cabeya. - Estis aver 0 que fizeste a essa rapariga? - perguntou a tia. Lizzie riu-se. - Eu estou bem. - Sorriu a tia Doreen e depois ao pai. - Talvez eu propria entre no concurso. Talvez faya asas para mim. - Entramos juntos! - disse 0 pai. - Seremos uma familia de pissaros humanos! - Vamos comeyar! - respondeu Lizzie, e correram os dois para 0 jardim. Come-

yaram a apanhar penas que estavam caidas debaixo das arvores. A tia Doreen saiu, zangada, pela porta fora. - Adeus, Titi Doreen! - gritou Lizzie. - Adeus, Doreen! - gritou 0 pai. - Eu e que lhes digo adeus! - replicou, irritada, a tia Doreen. Afastou-se pelo jardim fora, saiu e fechou a cancela, com forya. - Voltarei! - avisou. - E vou trazer alguem para te aparar as asas!


izzie e 0 pai trabalharam todo 0 dia e pela noite fora a juntar penas, cordel, linha, peda<;osde tecido, cabides, fitas, botoes e contas. Costuraram, cortaram e colaram. Na manha seguinte, as asas, 0 bico e a crista de Lizzie estavam praticamente prontos. Lizzie e 0 pai encontravam-se parados a porta, usando cada um as suas asas. Estavam cansados, mas tambem muito felizes e orgulhosos de si mesmos. Lizzie encostou-se ao pai e disse que ele tinha razao, que formavam uma equipa fantastica. Um solluminoso descia obliquamente sobre os telhados, infiltrava-se por entre as arvores e iluminava os rostos felizes e entusiasmados de ambos. A toda a volta, passaros piavam e assobiavam. 0 transito da cidade troava e estrondeava. 0 pai soltou uma pequena gargalhada ao pensar no que podiam fazer a seguir. - Precisamos de um ninho, Lizzie. -Um ninho? - Sim. Para ficar tudo como deve ser. Para nos tornarmos passaros como deve ser. Lizzie fitou-o nos olhos. - Faz isso - disse-lhe ele. - Sentir-me-ei feliz. Ela sorriu, encolheu os ombros e disse: - Esta bem, paizinho. Do que precisaremos? Bom, precisavam de erva, galhos, palha, folhas, cordel, panos de tabuleiro feitos em tiras, peda<;os de camisas, llLlsasvelhas, panos de po, peugas rotas, penas e cotao de

L

('lpetes. Levaram tudo quanto conseguiram reunir para a (' )Zinha, ajoelharam-se no chao e juntaram todas as coiS:IS, dando-lhes a forma de um ninho. Lizzie sorria e canl:lrolava baixinho enquanto trabalhavam. 0 pai piava, :Issobiavae grasnava. - Nao e maravilhoso? - perguntou. - Uma casinha C 11'10 deve ser para nos. Levou a mao a algibeira e tirou uma lagarta. Ergueu-a, slIspensa dos dedos, e depois meteu-a na boca e engoliLl-a.

- Queres uma, Lizzie? Ela abanou a cabe<;a. _ Prefiro isto - respondeu, e trincou alguns amenloins. o pai levantou-se, pos-se em bicos de pes, abriu as :isas,levantou-as bem e meteu a barriga para dentro. - Olha, ja estou a ficar mais magro! _ Nao pode ser! - exc1amou ela, a rir, mas quando lhou mais de perto pareceu-lhe que estava, de facto. 'rocou-lhe com os dedos e chamou-lhe costelas de lata. - Nao tarda, estarei leve como uma penal - exc1amou ele. Continuaram a trabalhar, moldando cuidadosamente 0 ninho de modo a formar um circulo com uma concavidade funda no centro. - Os passaros sao os melhores do mundo quando se trata de cuidar dos seus filhos, sabias? - disse 0 pai. _ Criam-nos bem e fortes. Protegem-nos de todos os pengos. Continuaram a trabalhar ate, finalmente, acabarem. I epois entraram e sentaram-se, com as suas encantadoras asas postas, no seu ninho de fabrico caseiro, ao canto da cozinha, e sorriram de contentamento.


izzie e 0 pai trabalharam to do 0 dia e pela noite fora a juntar penas, cordel, linha, peda<;:osde tecido, cabides, fitas, botGes e contas. Costuraram, cortaram e colaram. Na manha seguinte, as asas, 0 bico e a crista de Lizzie estavam praticamente prontos. Lizzie e 0 pai encontravam-se parados a porta, usando cada urn as suas asas. Estavam cansados, mas tambem muito felizes e orgulhosos de si mesmos. Lizzie encostou-se ao pai e disse que ele tinha razao, que formavam uma equipa fantastica. Urn solluminoso descia obliquamente sobre os telhados, infiltrava-se por entre as arvores e iluminava os rostos felizes e entusiasmados de ambos. A toda a volta, passaros piavam e assobiavam. 0 transito da cidade troava e estrondeava. 0 pai soltou uma pequena gargalhada ao pensar no que podiam fazer a seguir. - Precisamos de urn ninho, Lizzie. -Urn ninho? - Sim. Para ficar tudo como deve ser. Para nos tornarmos passaros como deve ser. Lizzie fitou-o nos olhos. - Faz isso - disse-Ihe ele. - Sentir-me-ei feliz. Ela sorriu, encolheu os ombros e disse: - Esta bern, paizinho. Do que precisaremos? Born, precisavam de erva, galhos, palha, folhas, cordel, panos de tabuleiro feitos em tiras, peda<;:osde camisas, hluSJS velhas, panos de po, peugas rotas, penas e cotao de

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t.lpetes. Levaram tudo quanto conseguiram reunir para J ozinha, ajoelharam-se no chao e juntaram todas as coisas, dando-Ihes a forma de urn ninho. Lizzie sorria e cantarolava baixinho enquanto trabalhavam. 0 pai piava, assobiava e grasnava. - Nao e maravilhoso? - perguntou. - Uma casinha omo deve ser para nos. Levou a mao a algibeira e tirou uma lagarta. Ergueu-a, uspensa dos dedos, e depois meteu-a na boca e engoliu-a. - Queres uma, Lizzie? Ela abanou a cabe<;:a. - Prefiro isto - respondeu, e trincou alguns amendoins.

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pai levantou-se, pos-se em bicos de pes, abriu as asas, levantou-as bem e meteu a barriga para dentro. - Olha, ja estou a ficar mais magro! - Nao pode ser! - exclamou ela, a rir, mas quando olhou mais de perto pareceu-Ihe que estava, de facto. Tocou-Ihe com os dedos e chamou-Ihe costelas de lata. - Nao tarda, estarei leve como uma penal - exclamou ele. Continuaram a trabalhar, moldando cuidadosamente 0 ninho de modo a formar urn circulo com uma concavidade funda no centro. - Os passaros SaGos melhores do mundo quando se trata de cuidar dos seus filhos, sabias? - disse 0 pai. _ Criam-nos bem e fortes. Protegem-nos de todos os pengos. Continuaram a trabalhar ate, finalmente, acabarem. Depois entraram e sentaram-se, com as suas encantadoras asas postas, no seu ninho de fabrico caseiro, ao canto da cozinha, e sorriram de contentamento.


o pai

riu-se e agitou 0 rabo. - Uiii! - disse. - Sinto urn ovo a sair. Pas urn ovo imaginario. Meteu a mao debaixo do corpo, pegou-lhe e ergueu-o no ar, entre os rostos deles. Lizzie tirou-lho das maos. Disse que era lindo, com a luminosa casca azul sarapintada de castanho. Depois devolveu-lho e e1e voltou a coloca-lo no ninho. - Agora vou sentar-me nele, ate chocar - disse, e fechou os olhos e concentrou-se. - Ven'l, vem, pintainho - murmurou, e levantou-se de repente. - Deu resultado! - Pegou no piritainho imaginario, aconchegou-o nas maos e encostou-o ao rosto. - Ola, pequenino. Nao e encantador, Lizzie? Lizzie olhou para baixo, para as maos do pai e sorriu. - E deslumbrante! - exclamou e, estendendo a mao, tocou no pintainho imaginario e fez-lhe festas. Depois 0 pai abriu as maos e levantou-as. - Ele ja esta a crescer - disse. - Vail Voa! - 0 passaro imaginario voou, afastando-se de1es. 0 pai apontou ,I roda da sala e fingiram que estavam aver 0 passaro II ovi nho em folha a voar ali aroda.

- Ali esta ele! Olhem! Olhem! Olhem! Lizzie soltava pequenas gargalhadas. - Homem pateta - disse. - De qualquer maneir:l, SaGas maes que poem os ovos, nao os pais. - Sim, tens razao - concordou 0 pai, mas continuoL! a apontar e a acenar ate 0 passarinho imaginario se afastar e desaparecer. - Adeus - disse. - Adeus, encantador passarinho. Depois voltaram a sentar-se em siH~ncio no ninho, a tarde alongou-se e e1es dormitaram e sonharam os seus sonhos de voar. - Era capaz de ficar aqui sentado para sempre - disse o pai. S6 eu e tu. - No entanto, levantou-se, de subito. Mas nao ha tempo para isso e temos de pensar a esse respeito. Vamos despachar essas penas da cauda, esses bicos e essas cristas, Lizzie! Voltaram, portanto, ao trabalho. Lizzie observou 0 pai e, passados momentos, disse: - Pa ... papa ... - Sim? 0 que e, querida? - Bern ... Temos de compreender que, mesmo com as penas, os bicos e as cristas pode nao ... resultar. - 0 que? - perguntou 0 pai. Pestanejou, abanou a cabec;:a como se nao a cOlnpreendesse, ou como se nao a quisesse compreender. - Mas mesmo que nao resulte - continuou Lizzie - nao tera, realmente, importancia. Mesmo que tenham de nos pescar do rio nao tera realmente importancia, pois nao, paizinho? pai pestanejou de novo e fitou-a. Engoliu uma lagarta. Agitou as asas. - Pio, pio! - disse. Lizzie sacudiu-lhe 0 brac;:o.

o


- Compreende, nao compreende? - perguntou. - Pode nao funcionar. Mas, aconteya 0 que acontecer, te-lo-emos feito juntos, nao e verdade, paizinho? E isso que importa, realmente. o pai levantou-se de urn pulo e comeyou a correr a volta da sala, a bater as asas. - Pio pio! - gritou. - Pio pio! - Paizinho! - protestou Lizzie. - Nao esta a ouvir-me? Depois soou urn grito, vindo do exterior. - ULTIMAS INSCRIC;:OES PARA 0 CONCURSO DO HOMEM-pASSARO! Lizzie e 0 pai pararam, imoveis. 0 grito voltou.

MAIS ALGUEM QUER INSCREVER-SE PARA 0 GRANDE CONCURSO DO pAsSARO HUMANO?

o pai abriu

a porta. 0 baixinho e gorducho Sr. Poop estava do lado de fora da cancela com 0 seu megafone e a sua prancha de apontamentos.

MAIS ALGUEM QUER INSCREVER-SE PARA ... -

Pst! -

chamou

0

pai. -

Venha ca, Sr. Poop!

Sr. Poop olhou com atenyao para 0 paizinho. Passou pela cancela na direcyao da porta. - Mas ja 0 temos a si, Sr. Crow - disse. - Nao, nao se trata de mim - explicou 0 meu pai. - Trata-se desta jovem. Desviou-se para 0 lado e indicou Lizzie, aIi parada. - Ah! - exclamou 0 Sr. Poop. - Mas nao e muito jovem para uma aventura tao perigosa? - Eu olharei por ela. Os passaros sao os melhores do mundo quando se trata de cuidarem dos flihos. - Hmmmmmm - murmurou 0 Sr. Poop. o paizinho levou-o para dentro de casa. 0 Sr. Poop semicerrou os olhos, fitou Lizzie, deu urn estalinho com a lingua e abanou a cabeya. , - Ela e forte - afirmou 0 paizinho. - E corajosa. E a rapariga mais corajosa do mundo. Toda a gente 0 diz, nao e verdade, Lizzie? - Ah, sim? - perguntou 0 Sr. Poop. Lizzie encolheu os ombros. Pensou no que 0 Sr. Mint dissera a seu respeito, nas coisas que a tia Doreen as vezes dizia e nas que 0 seu pai sempre dizia. E pensou na sua maezinha, que diria que ela era corajosa, a mais corajosa de todos os corajosos. - As vezes - respondeu ao Sr. Poop. Os olhos dele suavizaram-se momentaneament

O


- Boa menina - murnlurou. - Depois levantou a prancha dos apontamentos e lambeu 0 bico do lapis. - Nome? - Elizabeth - respondeu Lizzie. - Eli-za-beth - soletrou 0 Sr. Poop. Elizabeth que? - Elizabeth Crow! - respondeu 0 pai. - Elizabeth que? - Crow - disse 0 pai. - Cau caul o Sr. Poop olhou ambos com aten<;:ao. - Tern a certeza? - Tenho - respondeu 0 pai muito depressa. - Nao e, Lizzie? - S-sim - confirmou ela, e deu consigo a imitar 0 pai e a grasnar como uma gralha. - Cau caul Cau caul o Sr. Poop tomou nota. - Ocupa<;:ao? - perguntou. Lizzie encolheu os ombros. -Sou apenas uma rapariga, acho eu. Ando na escola. - Nao - COf-

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rigiu 0 pai. - Es j mais do que isso! Es \l,~'illil.1 ;. uma Rapariga-passaro. 1'!/ 1 Eu sou urn Homem-Passaro, ela e u?'la Rapariga-Pas.. " H:i' . E d f '1' saro. e amI Ia. , ~Ii})'" y ,1' o Sr. Poop es.J " Ji 'I~'f crcveu lSS0,com a ~, sua letra redondi-":i2~; ,':s"{,,_

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nha. Fez uma pausa. Voltou a olhar para eles. Obscrvoll as asas de Lizzie. - Metodo de propulsao? Asas e fe, suponho? - Sim. Correcto. Asas e fe. E 0 bico e a crista. Mostra-lhe, Lizzie. Lizzie pas 0 bico e a crista. - Nao deve ter visto nada semelhante, pois nao? perguntou 0 pai. - E teremos penas de cauda, tal como urn passaro como deve ter. Foi a Lizzie que teve a ideia. Ela e urn genio em metodo de propulsao! o Sr. Poop observou Lizzie e 0 pai. Espreitou para dentro do ninho. Deu uma palmadinha na face. Lambeu o bico do lapis. - Hrnmm - murmurou. - Hmmmmmmmmmm. Friccionou a barriga gorducha. - Cada dia sac mais - comentou. - Ha urn campdo de salto em comprimento nurn navio vindo de Madagascar. Ha urn praticante de saIto a vara vindo de Srnolensko. Ha uma jovem trapezista de Malta, urn condutor de carros de mao de Cuba e sete rodopiantes dervixes de Tashkent. Ha saltadores em espiral, vaiadores, os que descem a pique e ao ataque e os que saltarn atraves de arcos. Ha urn tipo que tern urn milhao de pulseiras elasticas cor-de-rosa. Ha escorregas, fisgas e bestas com tres metros e ... - E ha os que sac como nos, com asas! - acrescentou o meu pal. - Pois ha - admitiu 0 Sr. Poop. - Infelizmente, ha. - Estendeu a prancha de apontamentos e 0 lapis


a Lizzie. - 0 rio esta muito molhado nesta altura do ano, Menina Crow. Assine aqui. E aqui. E tambem aqui. Lizzie assinou e sorriu. Ele estudou a assinatura. - Inscriyao aceite! - declarou, assinou, tambem, ele proprio, e meteu a prancha de apontamentos debaixo do brayo. - Tern asas de agua, Menina Crow? - perguntou 0 Sr. Poop. - Asas de agua! - troyou 0 paizinho. - Va-se embora, Sr. Poop, toca a andar. o Sr. Poop voltou a sair. - Ate domingo! - despediu-se. - A partida e as dez horas da manha! o meu pai fechou a porta atras dele. - Homem-Passaro e Rapariga-Passaro - comentou. - Seremos os maio res voadores que 0 mundo jamais viu. Uuuupi! - Desatou a correr a volta da sala e depois parou, a pensar. - Eu deixo-te ganhar, Lizzie - disse, por fim. - 0 que? - Deixo. Deixo-te ganhar. Quase no fim, abrando e tu podes ultrapassar-me. Podes passar por mim como uma flecha e atravessar a meta. E isso mesmo! Lizzie Crow, Passaro-Humano! Deem mil libras aquela pequena! Desataram as gargalhadinhas. Depois pararam. E escutaram. - Esta alguem no jardim - murmurou Lizzie. Dirigiram-se para a janela em bicos de pes. Espreitaram para 0 jardim. - Quem e? - perguntou 0 pai, num sussurro. Nao viam nada diferente do habitual, apenas as arvores as sombras a adensarem-se sob os ramos das arvores.

Mas havia urn ruido sussurrante e, agora, parccia l\lIl' ,II yuma coisa se movia atraves das sombras. 0 que scri:\? Lizzie espreitou fixamente, mais fixamente ainda, c d 'pois distinguiu urn vulto familiar. - Oh, e apenas a tia Doreen, outra vez - responI u, mas logo a seguir arquejou. - Oooh, e 0 Sr. Mint 'sta com ela! - Depressa! - disse 0 pai. - Para 0 ninho!


tia Doreen e 0 Sr. Mint hesitaram, a porta. Encostaram-lhe as orelhas. Nao se ouvia nada. 0 Sr. Mint teve urn calafrio. - Tern a certeza de que isto esta certo, Sra. Doody? - perguntou. - E claro que esta certo - respondeu a tia Doreen. - 0 homem e doido varrido. Temos de libertar a pobre rapariga das garras dele. Girou, devagarinho, a mac;:anetada porta e abriu-a, tambem devagarinho. - Mas entrar a socapa na casa de alguem ... - lembrou 0 Sr. Mint. - UlTl homem com a minha posic;:ao... A tia Doreen arrastou-o atras dela. - De que sao feitos os directores das escolas, hoje em dia? De plasticina? - perguntou. - No meu tempo eram mulheres e homens de ac;:o! Tirou urn d6nute da algibeira do avental e estendeu-lho. - Tome. Isto vai dar-lhe coragem. o Sr. Mint olhou para 0 estranho objecto. - 0 que e? A tia Doreen fitou-o, espantada. Seria possivel que ele nao soubesse 0 que era urn d6nute? - Ora essa, e urn d6nute recheado! - exclamou. - Mas eu nao gosto de d6nutes recheados - disse 0 Sr. Mint.

A


- E

claro que gosta. Toda a gente gosta de donutes recheados. Enfie-o pe1a goe1a abaixo! Puxou-o para dentro. Olhou em redor da sala. 0 Sr. Mint mordiscava 0 donute. - Sim, na verdade e uma coisa muito saborosa disse, surpreendido. E voltou a mordiscar. - E, realmente, deliciosa, Sra. Doody. - 0 que? - resmungou e1a. - 0 donute, Sra. Doody. E... e delicioso. A tia Doreen corou e baixou os olhos. - Acha, realmente, Sr. Mint? - Acho, Sra. Doody. - Doreen - corrigiu a tia Doreen. - Pode tratar-me por Doreen. Foi a vez de 0 Sr. Mint corar e baixar os olhos. - Obrigado, Doreen - respondeu e voltou a mordiscar 0 donute. - Sabe, hoje em dia nao se encontram donutes recheados como estes. Nao com urn sabor assim. Nao com ... esta consistencia. - Obrigada, Sr. Mint - agradeceu a tia Doreen. - Mortimer - murmurou e1e. - Mortimer Mint. - Mortimer Mint? - repetiu, como num eco, a tia Doreen. - Mortimer Mint? Parece uma especie de doce de horte1a-pimenta! - Era 0 que a minha mae costumava dizer. Costumava tratar-me por Docinho. Ou Chupa-Chupa. - Chupa-Chupa? o Sr. Mint mordeu 0 labio. - Nao diz as crianc,:as,pois nao, Doreen? Eu nao conscguiria suportar se a senhora dissesse as crianc,:ase elas J IlC chamassem Polo na escola e ... A tia Doreen ergueu urn dedo. Semicerrou as palpehr:ls C olhou em redor da sala.

- Chiu! - ordenou, sibilante. - Escute! E lIJ11.1 especie de flip-jlap. Uma especie de sussurro. Um rcsto llur. .. Urn assobiar baixinho. Olhou de novo em redor da sala. Ficaram a escut:l. Ouviam 0 adorave1 canto dos passaros vindo do exterior, o transito distante, 0 estrepito e 0 estrondear longinquos da cidade. Ouviam a propria respirac,:ao.0 bater cadenciado e forte dos seus corac,:oes. Estavam parados em silencio, meio extasiados. 0 Sr. Mint sorriu. Assobiou baixinho, com os passaros. Ergueu os brac,:os,como se estivesse prestes a voar. - Sao apenas os passaros, Doreen. A tia Doreen deu urn estalinho com a lingua. - Apenas os passaros? E ai, precisamente, que bate 0 ponto, Sr. Mortimer Mint. Estao a acontecer coisas estranhas nesta casa. Coisas estranhas, coisas peculiares. Trapalhadas com penas, bicos e asas. E eu nao tolero isso! - Passou qualquer coisa, zumbindo, pe1a frente do seu nariz. Deu urn saIto. - Oh, apre! 0 que foi aquilo? - Uma mosquinha, apenas uma mosquinha - respondeu 0 Sr. Mint, dando uma leve palmada no brac,:o da tia Doreen. - Nao vai contar, pois nao? A tia Doreen pestanejou. - Contar a quem? - As crianc,:as.A respeito do Polo - disse, baixinho. - Nao seja tao parvo, Mortimer. 0 que temos de fazer e encontrar aque1a pobre rapariga. Veja a barafunda em que e1a vive. Olhe para aque1e monte de lixo no chao! Deu a volta a sala em bicos de pes e aproximou-se mais do monte de lixo. Era 0 ninho, evidentemente. Os olhas da tia Doreen arregalaram-se. Apontou para 0 ninho. Lizzie e 0 pai estavam ali sentados, absolutamente imov -is, com as asas cruzadas por cima das respectivas cabeyas.


- Eu nao disse que havia trapalhadas? - perguntou, esgani<;:ada. Aproximou-se mais, em bicos de pes. Inclinou-se para baixo. 0 Sr. Mint foi atras dela. Inclinou-se tambem. De subito, 0 pai levantou-se de urn saIto, bateu as asas e grasnou: ÂŤCau caul Cau cau!Âť E 0 Sr. Mint desatou a gritar esgani<;:adamentee correu na direc<;:aoda porta.

tia Doreen agarrou-o pelo colarinho e puxou-o para dentro. 0 meu pai agitou os bra<;:ose grasnou a frente deles. - Eis 0 culpado! - exclamou a tia Doreen -:E ele que tern andado a desencaminhar 0 seu aluno! 0 Homem-Passaro e ele! o Sr. Mint estendeu a mao e disse: - Muito prazer em ve-lo de novo, Sr. .. - Cau! Cau! - disse 0 paizinho. - Caul Caul Estendeu 0 bico para 0 Sr. Mint, que se dirigiu de novo para a porta. - Mortimer! - gritou a tia Doreen. - POLO! o Sr. Mint parou. Baixou os olhos para 0 chao. - Diga 0 que pensa ao pai de Lizzie. o Sr. Mint esfregou os olhos e nao disse nada. - Vamos, homem - insistiu a tia Doreen. - Diga-lhe por que esta aqui. Com a breca! :E urn director escolar, homem! Lizzie abriu as asas e saiu do ninho. Dirigiu-se, devagar, para eles. - Elizabeth,vem ca- chamou a riaDoreen. - Temos de te afastarde tudo isto. Mortimer, encarregue-se da sua alunJ. Lizzie bateu as asas. - Cau cau! - gritou. - Olhe para ela! - exclamou a tia. - OUp-J. 1"li zabeth! Quantos sao sete mais dois mais seis IllJis oilo

A


mais cinco? Esta aver? Nao responde. A rapariga v:li .1 caminho da destruiyao. ÂŤDiz como se escreve Checos/o vaquia.Âť Esta aver? Nao responde. A rapariga vai a GIIIII nho da desgraya e da destruiyao. - Cau caul - disseLizzie.- Cau cau cau cau cau C111! Fingiu correr para 0 Sr. Mint, mas parou e sorriu-Jlll'. Tinha a certeza de que ele compreenderia. Depois disse, baixinho: - S6 estou a faltar a escola para poder olhar pelo mell pai, Sr. Mint. - Olhar por ele? - perguntou esganiyadamente a 6:1 Doreen. - 0 homem precisa e de ser internado! - Nao faya caso da tia Doreen - pediu Lizzie. - Ela as vezes e urn pouco tonta. - Ela e 0 que? - guinchou a tia. Lizzie dirigiu-se para ela, a agitar os brayos, e deu-Ihe urn beijo na face. - Mas na realidade e adoravel. - Sorriu, quando a tia abriu a boca, espantada, e dirigiu-se de novo ao Sr. Mint. - Volto para a escola na pr6xima segunda-feira, depois do concurso.

pai tirou 0 bico. - Assim e que se fala, Lizzie - disse. - Vai, DorCCIl. WI Sr. Mint. Vao, vao! Sr. Mint sorriu e voltou-se para sair. A tia Doreen (lbservava-o, pasmada. - Entao e assim? - gritou. - Nao tern, realmente, Illais nada para lhes dizer? 0 senhor e urn homem disLinto. Urn homem com autoridade. Urn homem que s:1becontrolar uma situayao! o Sr. Mint suspirou. E ponderou. Deu uma palmadiIIha na cabeya e afagou 0 queixo. Voltou para tras. Exal11inoucuidadosamente as asas do paizinho e as de Lizzie. . Llspirou e ponderou de novo. Ficaram todos a espera. - Acha que funcionara? - perguntou. - 0 que? - guinchou a tia Doreen. - E claro que sim - respondeu 0 paizinho. - Estas asas que fizemos SaGmaravilhosas, Sr. Mint. o Sr. Mint continuou a ponderar. - Creio que ... - murmurou - ...se correr suficientemente depressa e saltar suficientemente alto e bater as asas com forya suficiente ... Trotou aroda da sala. Deu pequenos saltos e tentou bater com os brayos como se fossem asas. - A ideia e essa - disse 0 paizinho. - Quer par as minhas asas e experimentar? - Mortimer! guinchou a tia Doreen e atirou-Ihe urn d6nute que nao the acertou, seguiu em frente, bateu na parede e ficou Ii colado. - Tambem vamos ter penas de cauda - disse 0 paizinho. - A ideia foi da Lizzie. - Ah! - exclamou 0 Sr. Mint. Optima idei::l, Elizabeth. Ela e uma menina muito esperta, sabem? Meditou profundamente. - Sao os ossos, nao sao? Os


ossos dos passaros sao muito mais leves do que os nossos. Por isso, para compensar, temos de ... - MORTIMER! - gritou, zangada, a tia Doreen. - POLO! - 0 Sr. Mint nao fez caso. - E claro - prosseguiu - que ha exemplos de criaturas pesadas que sao capazes de planar ou voar ... - Descolou 0 d6nute da parede. Atirou-o para cima e para baixo, para avaliar 0 seu peso. - Interessantes problemas, Sr. .. Crow. Desconfio de que estas a aprender muito, Elizabeth. Sopesou 0 d6nute. - Se conseguissemos descobrir uma maneira de sermos arremessados com forya suficiente ... Inclinou-se para tras, recuou 0 brayo e arremessou 0 d6nute pela sala fora. 0 bolo passou, com urn silvo, pela cabeya da tia Doreen e embateu de novo na parede. 0 Sr. Mint sorriu. - Ainda e possivel participar no concurso? claro que sim - respondeu 0 paizinho. - 0 tipo esteve aqui esta manha. Inscreva agora 0 seu nome, Sr. Mint.

- E

o

Sr. Mint acenou com a cabeya e reflectiu. A tia Doreen agarrou-lhe 0 brac;:o e puxou-o para a porta.

- Adeus, tia Doreen! Gostei muito de a vel'. AcklIS, . r. Mint. Verno-nos na segunda-feira. - Ou ate mesmo no domingo! - respondeu 0 Sr. Mint. - Isso seria formidavel! - exclamou Lizzie. - 0 director escolar voador! - disse 0 pai. A tia Doreen suspirou. - 0 mundo esta louco - gemeu. Lizzie lembrou-se, de subito, do que a tia Doreen lhe perguntara. - Oh, tia Doreen ... -0 que? - Sao vinte e oito - respondeu Lizzie. A tia fitou-a, com os olhos muito abertos. - Sete mais dois mais seis mais oito mais cinco disse Lizzie. - A resposta e vinte e oito. E Checoslovaquia. E: C-H-E-C-O ... - Certo! - confirmou 0 Sr. Mint. - Linda menina, Elizabeth! Mas a tia Doreen limitou-se a tapar os ouvidos com as maos. - E verdade - disse. - 0 mundo enlouqueceu!


Entao ficara escuro Como 0 interior da barriga do tubarao. E depois dormiremos Com os cordeiros do agricultor E seremos felizes Como uma fralda acabada de lavar.

pai e Lizzie observaram 0 Sr. Mint enquanto ele saia do jardim. Depois fecharam a porta. - Coitada da tia Doreen - disse Lizzie. - Sim - concordou 0 pai. - Coitada da tia Doreen. o Sr. Mint e urn tipo simpatico, nao e? - E - concordou Lizzie. - Depois deu uma gargalhadinha e levou a mao a boca. - Polo Mint! - murmurou. - Polo Mint! - exc1amou 0 pai. o dia comec;:avaa escurecer. Olharam pela janela na direcc;:aodo par-do-sol que brilhava, incandescente, por entre as arvores e sobre os te1hados da cidade. - 0 tempo voa - disse 0 pai, sorrindo e apontando para 0 ar. - La esta ele, a fugir para longe! Agarra-o! - Deu urn salto, segurou 0 tempo entre as maos e mostrou-o a Lizzie.Ela pegou-lhe e atirou-o de novo para 0 ar. - La vai e1e! - gritou. - Adeus. Adeus, tempo! Ficaram os dois a olhar. 0 ceu comec;:oua arder, em tons fortes de vermelho, amare10 e laranja, e tornou-se muito belo. o pai cantou:

O

o anoitecer vem

a{ Como um delicioso scone com manteiga. A noite nao tarda a aparecer Como a barbatana de um peixinho.

Lizzie bateu palmas, baixinho. - E lindo, paizinho - sussurrou. Juntou-se a ele e cantaram de novo a canc;:ao. - Fui eu mesmo que a fiz - disse 0 pai. - Es urn paizinho muito inteligente. o sol nao tardou a desaparecer por completo, a escuridao foi alastrando pelo ceu cor de tinta e as estrelas comec;:arama brilhar. Piou urn mocho, e depois outro. - Adoro a noite - disse Lizzie. - Tambem eu. E tu tens razao, sabes? -Em que? - Tens razao - repetiu ele. - Nao importa se voamos ou caimos. Temo-nos urn ao outro. Fazemo-lo juntos. E so isso que importa. Lizzie sorriu. - Sim - disse baixinho. - E so isso que importa. o luar prateado inundou, brilhante, a sala. Os mochos piaram e, algures, uma ave nocturna cantou. Lizzie e 0 pai voltaram a cantar e danc;:aramao ritmo da propria canc;:aoe do canto dos passaros. Andaram devagar, silenciosamente. Ergueram os brac;:os,bateram as asas, cantaram, assobiaram e arrulharam; de vez em quando, tinham de olhar para baixo, para terem a certeza de que os seus pes nao estavam, realmente, levantados do chao. E depois adormeceram e sonharam os sonhos dos passaros.


*

*


-

9ue dia

e

hoje? -

perguntou Lizzie.

-E 0 DIA DO GRANDE CONCURS() DO HOMEM-pASSARO! - gritou 0 Sr. Poop.

ATAPLANl RATAPLAN!

R

CHEGOU A HORA DO GRANDE CONCURSO DO HOMEM-pASSARO! A voz do Sr. Poop ecoou pelas mas fora, ressaltou das paredes e dos telhados, ecoou pela cidade inteira. - RATAPLAN! RATAPLAN! o paizinho e Lizzie dormiam profundamente. A voz do Sr. Poop vibrou e ecoou nos sonhos deles. - RATAPLAN! RATAPLANl - 0 que e aquilo? - perguntou 0 paizinho.

- Oh, nao! - exclamou 0 paizinho. - Nao estamos prontos! - exclamou Lizzie. Dirigiu-se, com passo incerto, para a janela. La forJ, na rua, estava 0 pequeno e gorducho Sr. Poop com 0 sell megafone. - Vieram do Atol de Bikini e de Baton Rouge! Vieram de Chattanooga e de Chateauneufl Olha! Ali esta a Mulher Libelinha do Dubai! E 0 Helic6ptero Humano, Hubert Hall! - Paizinho! Vamos chegar atrasados! Atarefaram-se a ajustar as asas. Puseram os bicos, as cristas e as caudas.


- Esta ali Benny, 0 Rapaz Zangao, vindo de muito longe, de Burramurra! - gritou 0 Sr. Poop. - Vamos! o concurso esta quase a comeyar! Rataplan! RATAPLAN! - Estamos prontos! - exclamou 0 paizinho. - Lizzie, poe as tuas asas como deve ser! As minhas esrao bem? Abriu a porta e voltou a gritar: - Estamos quase prontos, Sr. Poop! - Enrao venham, VENHAM! - gritou 0 Sr. Poop. - E verdade? - quis saber Lizzie. - E verdade que vieram todas aquelas pessoas de todos aqueles lugares? o Sr. Poop pareceu surpreendido com a pergunta. - E claro que e verdade! - respondeu. - Nao tern a sensayao de estar a sonhar? Olhe, ali vai 0 Eddie Elastico de Elsmere Port! E Danny, 0 Dardo de Donegal! Winnie Gira-Gira de Wye! Venham ver Bess Bern-Bonita de Baffin Bay! Sid Sobe-Sobe de ... Venham! Despachem-se! Juntem-se a nos! - Esta pronto, paizinho? perguntou Lizzie. - Prontinho, Lizzie. - Como estou eu? - Perfeita - respondeu 0 pai. - E eu? - Esta como urn Hornem-Passaro. Abrayararn-se. - Irnagina ... Se a tua rnaezi nha nos pudesse ver agora!

Bateram as asas. Acenaram para 0 ceu. - Ola, maezinha! - disseram baixinho. - Ola, que ridal Depois respiraram fundo, voltaram a abrayar-se e sairam a correr pela porta fora.


AO

N

FA\=AS ISSO!

Era a titl Doreen, samdo a trote pela cancela. - Oh, Doreen, nao sejas ta~ assustadi\=a! - Nao fa\=asisso, Lizzie - repetiu a tia Doreen. - Ele e pateta como urn d6nute! - Nao e nada - protestou Lizzie. - E maravilhoso. - Beijou a bochecha da tia Doreen. - E a tia tambem e maravilhosa.

-Jackie, homem! Lizzie! Como se escreve pneullI:Itiza\=ao?Quantos SaGvinte mais oito, mais sete, mais trcs e mais seis? Estas aver? Nenhuma resposta! 0 teu cerebro est} todo baralhado! Nao fa\=asisso, menina! Lizzie e 0 paizinho desataram a rir e passaram por ela a correr, direitos ao Sr. Poop. - Ca estao elas! - gritou 0 Sr. Poop. - Abram caminho para as Gralhas! Ca estao elas, Lizzie Saltadora e Jack Saltitao, os seres voadores la de baixo! 0 Concurso do Homem-Passaro! ESTA NA HORA DO GRANDE CONCURSO DO HOMEM-pASSARO! - Ah, os parv6ides, os cabe\=asde amendoim - disse a tia Doreen. Abriu a boca, ofegante, quando viu 0 Sr. Mint sair pela cancela a correr, com fogo de artiflcio amarrado ao traseiro e 0


barrete bicudo na cabec;:a.Soprou-lhe urn beijinho, quando passou por ela. - E 0 altaneiro professor principal, Missil Mint! - gritou 0 Sr. Poop. - Deixem-no passar!Abram caminho! Abram caminho! o Sr. Poop viu a tia Doreen ali parada e dirigiu-se para a cancela do jardim. - Algumas inscric;:5esde ultima hora? - perguntou, abrindo muito os olhos. - E a senhora? - Eu? - disse a tia Doreen, com voz roufenha. - Sim, a senhora. Venha, junte-se a nos. Diga-nos como se chama equal e 0 seu metodo de propukio! Nao hesite. Suba com os outros para 0 ceu. A tia Doreen meteu a mao na algibeira do avental. Atirou urn bolinho ao Sr. Poop, que se baixou e deu uma gargalhada. - Ah! - gritou. - E a Dumpling Dora de Dungness? Ela atirou-lhe outro bolinho e depois correu para dentro de casa. Tirou a sua gordura, a sua farinha, os seus ovos, a sua agua. Pas tudo numa grande tigela e comec;:ou a misturar, a mexer, a bater e a cantar. - Bolinhos, bolinhos, deliciosos, oh, deliciosos bolinhos ... La fora, iniciou-se 0 concurso. - 0 NOSSO PRIMEIRO CONCORRENTE! gritou Sr. Poop. - Woodpecker Wallie, vindo da distante Whitley Bay! A tia Doreen parou e escutou. - E de loucos - disse. - E impossivel. Ninguem seria capaz de ... -CINCO! - gritou 0 Sr. Poop. - QUATRO ... 1RES ... DOIS ... UM! - La vai ele, minha gente!

Rufou urn tambor. A multidao gritoLl estroIHlo,',1 mente. A tia Doreen fechou os olhos e rezou. - Forc;:a,Wallie! - incitou-o 0 Sr. Poop. - Oil, SIM ... ! OH, SIM ... ! Oh, nao..! Ouviu-se urn grande, urn tremendo chapel - Deixe la, Wallie! - gritou 0 Sr. Poop. - Quelll se segue na fila?


tia Doreen misturou, rnexeu e bateu. - Bolinhos fofos! cantarolou.

A

Saborosos,

deliciosos bolinhos fofos ... Ia fazendo pausas e batendo. - 0 rneu cerebro da voltas e reviravoltas disse. 0 rneu pensarnento torce-se e retorce-se. 0 rneu cora<;:ao protesta e galopa. Oh, trolaro-laro ... Mas os seus olhos estavarn a ser atraidos para a janela, para 0 concurso. Os seus ouvidos estavarn a ser arrastados pela voz do Sr. Poop. - Que rnaquina rnaravilhosa! exc1arnava 0 Sr. Poop. Que cria<;:ao, que inven<;:ao, que rnecanisrno! A tia Doreen nao conseguia ver nada. Bern se punha em bicos de pes, mas nao via nada a nao ser arvores e ceu vazio. - Esta pronta? - gritou 0 Sr. Poop. Ela nao se conteve. Correu para fora de casa. Arnarinhou por urna cerejeira. - Pedale depressa, rninha senhora! gritou 0 Sr. Poop. - Pedale depressa! A tia Doreen fez urn esfor<;:oe subiu rnais alto. Olhou na direc<;:ao do ceu, sobre 0 rio. - Pedale rnais depressa! gritou novarnente 0 Sr. Poop. - Pedale rnais depressa! Mais depressa! Mais depressa! La vai ela! E, sirn, ali estava urna bicic1eta com asas a voar pelo cell fora! E, nela, urna rnulher a pedalar tao velozrnentc

que nern se the vi am os pes. Urna rnultidao gritava, ovacionava, berrava. - Mais depressa! - gritou 0 Sr. Poop. - Mais rapido do que isso, rninha senhora! E esse 0 estilo! OH, SIM!. .. Mas a bicic1eta ziguezagueou, ressaltou e caiu com urn trernendo estrepito, urn grande estardalha<;:o e urn alarido decepcionado da rnultidao. - OH, NAO! gritou 0 Sr. Poop. - Tirern-na dali, rapazes! Melhor sorte para a proxima vez, rninha senhora. E agora, olhern! E 0 Eddie Elastico! La vern ele! Houve urn ofegar de excita<;:ao, urn rnurrnurio, urn s11encio, 0 rufar de urn tarnbor. A tia Doreen conseguiu subir urn pouco rnais. FinalI1lente podia ver ate ao rio. Via as rnultidoes aglorneradas 'm cada rnargern. E viu Eddie Elastico com 0 sell fato d' borracha azul e 0 seu capacete arnarelo. Viu-o aCCl1;lr a l11ultidao e depois encostar-se, para descansar as COSI:IS,


a uma enorme catapulta feita de urn milhao de bandas de elastico. Viu os auxiliares puxarem a catapulta para tras e estica-Ia ate ficar tensa, cada vez mais tensa. - E assim mesmo, rapazes! - exc1amou 0 Sr. Poop. - Estiquem bem esses elasticos. Puxem com mais fon;:a. Estas bern, Eddie? Estas pronto, Eddie? Eddie ergueu os polegares, em sinal de resposta. Recuou, recuou, ao mesmo tempo que a catapulta se ia esticando atras dele. - Excelente! - gritou 0 Sr. Poop. - Afastem-se, senhoras e senhores. Muito bern, rapazes. Cinco, quatro, tres... Ainda nao! Ainda nao! - Mas os rapazes nao con-

seguiram suportar 0 esforyo e largaram cedo de malS. - Aguenta, Eddie! - gritou 0 Sr. Poop. Mas Eddie soltara-se e, descontrolado, voava as cambalhotas pelo ar. - Uiii! - gemeu a tia Doreen. - Oiii! - gemeu 0 Sr. Poop. - OH, NA.O! Ouviu-se urn gemido, urn estrepito e urn enorme chapel, e 0 Sr. Poop gritou: - Azar, Eddie! Bern, pesquem-no dali para fora! E agora, Lenny, 0 Saltador, a Pulga Humana! A tia Doreen olhou para baixo. Tremeu. Subira demasiado alto. Como conseguiria, alguma vez, descer dali? - Se alguem e capaz de 0 fazer, e 0 Lenny! - gritou 0 Sr. Poop. - Nao fayas isso! - gritou a tia Doreen. - E urn disparate! E uma loucura. E imposslvel! Tirem-me daqui!


- Li vais tu, rapaz! Salta, Lenny, salta! Lindo menino! Mais alto! MArS ALTO! Salta para a ... Ora bolas! Grito e gemido, chapinhar e esbracejar, e ÂŤPesquem-no dali, rapazes! Azar, Lenny! Quem se segue?Âť E a tia Doreen, sozinha em cima da cerejeira, gritava: - Socorro! Socorro! Tirem-me daqui!


-

izzie e 0 pai esperavam no declive para 0 rio. Tremiam de nervosismo. Davam gritos de encorajamento e ofegavam decepcionados. Nao paravam quietos e treinavam pequenos saltos e corridas. Batiam as asas. Acenavam a multidao. Benny, 0 Zangao, zumbia por cima das suas cabe<;:ase para baixo, para 0 rio. Winnie girava 0 seu moinho de papel e saltou em parafuso para a agua. Bess Salta-Pocinhas desceu a saltitar, dentro de uma enorme bola, por uma ingreme e comprida rampa e caiu a pique na agua. Sid, 0 Planador, planou do alto de um campanario, deu tres cambalhotas e atirou-se ao Tyne com um perfeito mergulho de andorinha. 0 Helic6ptero Humano Hubert Halllanc;:ou-se de um telhado, pairou no ar enquanto as laminas de fabrico caseiro do helic6ptero zumbiram a roda da sua cabec;:adurante dois segundos e depois caiu como uma pedra. E durante todo esse tempo a multidao gritava, ladravam caes, miavam gatos, guinchavam gaivotas e 0 Sr. Poop, de pe em cima de um escadote alto e com um megafone junto da boca, gritava uma serie i nfindavel de conselhos.

L

Mais alto! Mais alto! Mais Rapido Mais Ousado! Isso! Isso! Finalmente! Iupi! Ai Jesus! Oh, nao! Oh, diabo! Pesquem-no dai para fora! Pesquem-na! Quem se segue? Maravilhoso! Inacreditavel! '. Surpreendente! ~~ Isso e que e estilo! ~ Oh, diabo! sim! Oh, nao! ~ Que categona! ~ "" Oh, diabo! ~ . na~o'. I'" Oh , nao, ura, I ~ 'j..

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des mergulhos, c gritos e als, ate,

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gritou 0 Sr. Poop. - Chegou a vez das gralhas! f Abram caminho para 0 pai ~ emplumado e para a sua saltitante filha!

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- Venha! - gritou a multidao. - Venha! - gritaram os outros concorrentes. - Venha! - disse Lizzie ao pai e comeyou a correr direita a casa. - De-nos dois minutinhos! - gritou 0 pai ao Sr. Lizzie e 0 pai levantaram-se de urn pulo. A multidao rugiu. - Reparem no trabalho que aquelas asas exigiram! - gritou 0 Sr. Poop. - Quanta invenyao! Quanto engenho! Conseguirao? Gritem para que avancem, senhoras e senhores! Gritem para que subam! Mas Lizzie hesitou. - E a tia Doreen? - perguntou. - A tia Doreen 0 que? - Nao podemos fazer isto sem deixar que a tia Doreen veja - explicou a menina. Olharam ambos para tras, na direcyao da casa. - Tia Doreen! - gritou Lizzie. - TIA DOREEN! E A NOSSA VEZ! Mas a tia Doreen sabia que era a vez deles e estava a tremer na arvore, com os olhos fechados com forya e as maos a tapar as oreIhas. - Venha! - chamou 0 Sr. Poop. - A sorte favorece os corajosos!

Poop. Correram para a cancela, entraram no jardim, transpuseram a porta e chegaram a cozinha. Nao estava la ninguem! Abriram a boca, ofegantes e surpreendidos. Procuraram. Gritaram por ela. Onde estava a tia Doreen? Ouviram, entao, urn grasnido esquisito, vindo do exterior, e olharam. A tia Doreen estava na cerejeira! Sairam a correr e pararam por baixo dela. 0 pai olhou para cima, estupefacto. - Doreen! Que estas a fazer ai na cerejeira? - Nao se importe com isso agora - disse Lizzie. - E a nossa vez, Titi Doreen! Tern de descer dai e ver-nos voar! A voz do Sr. Poop ecoou sobre os telhados. . -AS GRALHAS! 0 QUE ACONTECEU AS GRALHAS? TEM DE VOLTAR, CASO CONTRARIO SERAo DESQUALIFICADAS! - Por favor, Titi Doreen! Por favor! - suplicOtJ Lizzie. - Mas e tudo ... - disse a tia. - Nao se importe com 0 que podera ser, Titi. Sc Il~O volta agora e nao vem connosco estara tudo perdido!


- LIZZIE! JACKIE! - gritou 0 Sr. Poop. - ONDE DIABO ESTAO AS GRALHAS? - Por favor! - pediu 0 paizinho. - Por favor! - repetiu Lizzie. - PERDERAM A CORAGEM? - gritou 0 Sr. Poop. A tia Doreen olhou para baixo, para eles. - Mas eu nao posso descer - disse, baixinho. - LIZZIE! JACKIE! VOLTEM JA! - Salte - disse Lizzie. - Salte, Titi Doreen, salte! - SE CORAJOSA! - gritou 0 Sr. Poop. E a tia Doreen respirou fundo, murmurou uma breve OrayaO,saltou ... e caiu como urn bolinho recheado ao lado deles.

0ltaram para tras, a trote e a correr a toda a veloci dade, para 0 rio. A multidao soltou urn enOrJllC grito de allvio e contentamento. - MUlTO BEM! - gritou 0 Sr. Poop. - EU SABIA QUE NAO NOS DElXARIAM FICAR MAL. AFASTEM-SE! ABRAM CAMINHO PARA AS GRALHAS! Lizzie e 0 pai deram as maos, prontos para comeyarenl. - Deseje-nos sorte, tia Doreen - pediu Lizzie. - Diz-nos que esperas que corra bem - pediu 0 pai. -JACKIE! - gritou 0 Sr. Poop. - LIZZIE! - De-nos urn abrayo - pediu Lizzie. - Da-nos urn beijinho - pediu 0 pai. - Diga que nos ama e espera que nos saiamos bem. - VENHAM! - gritou 0 Sr. Poop. o paizinho e Lizzie olharam para a tia Doreen. A tia Doreen olhou para eles. - Ai! - murmurou. - Adoro os dois e espero que se saiam bem - Estamos preparados, Sf. Poop! - gritou 0 paizinho. -PRONTO, FINALMENTE AS GRALHAS ESTAO PRONTAS! COLOQUEM A RAM P/\, RAPAZES! Os ajudantes ergueram uma rampa a beira do rio. III tambor comeyou a rufar. A multidao murmUC.lV:l,:1 ,路i(:1i1.1.

V


- Agora deem-Ihes espayO suflciente - pediu 0 Sr. Poop, em tom mais brando. - Afastem-se! Asas e Jef murmurou pe10 megafone. - Nada de extravagante par:) as gralhas. Nada de maquinas, ou motores, ou flsgas, ou bandas de elastico. Asas, fe, esperanya e... atrevo-me :1 dize-Io? .. amor! A rampa estava pronta. Inc1inava-se para cima. A sua extremidade pairava sobre a agua. 0 paizinho e Lizzie subiram para e1a, preparados para correr. A tia Doreen

espreitava por entre os dedos. 0 seu corayao batia com forya, a galope. 0 seu cerebro temia e tremia pe10s dois. - Reparem na expressao dos olhos de1es - murmurou 0 Sr. Poop. - Reparem naque1es corajosos sorrisos. Trabalho arduo, concentrayao, asas e conflan<;:a! E amor, senhoras e senhores. Amorf Se alguem merece CSl(: premio, as Gralhas merecem-no, sem duvida nenbulll:I. - Por favor - sussurrou a tia Doreen, com os pll nhos cerrados e os olhos fechados com forp. - 1'<) I favor, Jackie. Por favor, Lizzie. Avancem. Voem!


- Estao prontos? - gritou 0 Sr. POOp. - Estao firmes? o paizinho ergueu os polegares. Lizzie imitou-o. Sorriram urn ao outro. - Dez - disse 0 Sr. Poop. nove . oito sete ... selS ...

cinco ... Estamos com voces a cern por cento, Jackie! Bon voyage, Lizzie! A multidao gritou e ovacionou. 0 tambor rufou. -EM FRENTE! - gritaram. - AVAN<;A, JACKIE! AVAN<;A, LIZZIE! - 0 ceu e 0 limite! - bradou 0 Sr. Poop. - QUATRO ... TRES ...

DOIS ... UM ...

PARTlRAM! Lizzie e 0 pai come<;:arama correr na direc<;:aodo rio, muito depressa, muito afincadamente, cheios de coragem e esperan<;:a.Bateram as asas ao aproximarem-se do fim da rampa. Ergueram os bra<;:ospara 0 ceu. Saltaram. E foi 60 fantastico, 60 ousado, tao maravilhoso! Lizzie olhou para 0 pai, que saltava ao seu lado. Olhou para 0 vasto ceu azul e para a cidade que se estendia a toda a volta deles. Bateram as asas e riram estrepitosamente do jubilo e da loucura daquilo.

A Titi Doreen nao foi capaz de ver. Fechou os olhos. - FOR<;A! - gritou 0 Sr. Poop. - ISSO, FOR<;A! - gritou em coro a multidao. -SIM!

SIM!

SIM!


-AAAAIII!

_..

gritou 0 Sc\'\\ POOp quando 0 paizinho hesitou, ao saltar. Mas Lizzie riu-se ainda mais e bateu palmas, cada vez com mais forya. " - Nao tern importincia, paizinho! - gritou. - Vai sozinha, Lizzie! - gritou-lhe ele em resposta. - Continua. Voal Mas depois a propria Lizzie comeyOUa calf. - AAAIIII! - gritou 0 Sr. Poop. -OH, NAO! - OH, NAO! gritou a turba. E ela caiu no rio com Unl tremendo chapel

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...

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- Oh, meu Deus! - gritou 0 Sr. Poop. - Paciencia. Melhor sorte para a proxima vez, Gralhas. Tirem-nos de la. Quem se segue? Na margem do rio, a tia Doreen bateu os pes. - Pumba, catrapumba, pumba! - exclamou. - Zas, catrapaz, paz! Deixou-se £Icar urn momento. Observou Lizzie e 0 paizinho que voltaram a nado para terra e depois regressou a trote para a cozinha e para os seus bolinhos.

tia Doreen fez urn tabuleiro cheio de macios, brancos, luzidios e fumegantes bolinhos. Eram os melhores que jamais £Izera, brancos como neve, pesados como chumbo. Estavam em cima da mesa da cozinha, a espera que Lizzie e 0 paizinho regressassem a casa. «Vao acalma-los», disse para consigo. «Vao faze-los voltar a realidade.» Limpou uma lagrima. Ergueu os bra'(os para 0 ceu e depois baixou-os lentamente. «Oh, pobres almas!»,murmurou. Nao passara ainda muito tempo quando ouviu a cancela abrir-se e, depois, passos no jardim. Lizzie e 0 pai entraram, todos molhados, encharcados, com as asas a escorrer agua pesadamente caidas aos seus lados. - Ola, Titi Doreen - saudou Lizzie. - Ola, Doreen - disse 0 pai. - Voltamos. - Entrem - disse a tia Doreen. - Despachem-se, tirem essas asas molhadas. Ajudou-os a tira-las e pendurou-as cuidadosamente na parte de tras da porta da cozinha. - Olhem, tenho aqui uns belos bolinhos acabados de fazer para voces. - Delicioso - disse 0 paizinho. - Delicioso - repetiu Lizzie. A tia pos-lhes toalhas nos ombros, sentaram-se todos a mesa e foram mordiscando os bolinhos. La fora, 0 di:l

A


estava a escurecer e tar a sua canc;:ao.

0

paizinho e Lizzie comec;:arama can-

o

entardecer chega Como um delicioso scone com manteiga. A noite nao tardara a espreitar Como a barbatana de um peixinho. Entao ficara tudo escuro Como a barriga do tubarao. E dormiremos todos Com as ovelhas do lavrador E seremos Jelizes Como uma Jralda acabada de lavar.

- Essa e uma bonita canc;:ao- e1ogiou a tia Doreen. - Obrigado - agradeceu 0 paizinho. - Fui eu que a fiz. - Es urn homem muito inteligente. Lizzie murmurou sonhadoramente: - Quarenta e quatro. - Quarenta e quatro que? - E a conta de somar que me deu: vinte, mais oito, mais sete, mais tres, mais seis... E igual a quarenta e quatro. E pneumatizac;:ao escreve-se P-N-E-U-M ... - Esta certo - declarou a tia Doreen. - Bern, penso que esta. Es uma rapariguinha muito inteligente. Continuaram a comer e a cantar e depois 0 pai recostou-se na cadeira. - Estes sao... Hmmm! Doreen, estes bolinhos sao, de facto, deliciosos. - Oh, Jackie! - exclamou a tia. - Es, realmente, urn rapaz adoravel. Toma mais urn. Lizzie e 0 paizinho tornaram-se mais calorosos e felizes. Suspiraram e sorriram e, por fim, Lizzie nao pode conter-se l11ais.

- Oh! - exclamou, ofegante. - Foi tao encantador! Foi tao ... Oh! - Foi maravilhoso! - disse 0 paizinho. - Foi formidavel! Foi tao ... - Oh, corremos tllo depressa! - disse Lizzie. - E saltamos tllo alto! - E batemos as asas com tanta for~a! - E 0 ar estava tllo lÂŁmpido! - E tllofresco! Olharam, contentes, uns para os outros. Lembraranl, com alegria, as suas recordac;:oese os seus sonhos. - E nllo teve importancia! - declarou 0 pai. - Nao teve imporrancia quando eu cai! - Eu ri-me! - exclamou Lizzie. - Nao teve importancia quando eu cail - Eu ate me ri - confessou 0 pai. - Oh, e a agua ... - Tao molhada! - disse Lizzie, a rir. - Tao fria! - Tao ... Levantaram-se de urn salto das cadeiras. Comec;:aram a imitar uma danc;:ade passaros aroda da mesa. - Anda, Doreen! - chamou 0 pai. - Fac;:a-noscompanhia, tia Doreen! - pediu Lizzie. A porta abriu-se e 0 Sr. Mint apareceu e parou, tambem e1e todo encharcado e com os fundilhos das calc;:as queimados e todos rotos.


_

Mortimerl - exc1amou surpreendida a tia Doreen. - Tambem tu? - Sim, tambem eu, Doreen. Dirigiu-se para eles, a pingar e a abanar a cabe<;:a. - Mas, oh! - exclamou. - Foi tao maravilhosol Foi tao magnifico! Flap flap chapel Flap flap chapel Soltou uma pequena gargalhada. - Come urn bolinho - ofereceu a tia Doreen. - Que born - elogiou ele. - Delicioso, Doreen! - Estamos a dan<;:ar- disse Lizzie. - Venha. Junte-se a nos! E 0 Sr. Mint comeu 0 seu bolinho e juntou-se a dan<;:a a volta da mesa. - Anda, Doreen - disse, estendendo 0 brac;:opara a sua mao. - Mas os bolinhos estao a arrefecer - alegou ela. o Sr. Mint puxou-a mais para si. - Vais adorar, quando come<;:ares- disse-lhe. Por fim, a tia Doreen afastou-se da mesa e juntou-se a eles. - Assim e que e, Titi Doreen! - exclamou Lizzie. - Assim mesmo e que se faz!- corroborou 0 paizinho. Doreen comec;:ou a danc;:armais depressa e cOin ll1~lis entusiasmo, dando pequenas gargalhadas e rindo. - Estas formidavel! - elogiou 0 Sr. Mint. - l~st:ls adoravel!


- Os meus pes estao levantados do chao? - gritou a Titi Doreen. - Os meus pes estao levantados do chao? - Estao! - gritou Lizzie. - Estao, Titi Doreen! Estao, a serio!

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O meu pai é um homem pássaro