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OPINIÃO

Ana Catarina Candeias, Médica Interna de Medicina Geral e Familiar Andreia Rocha, Fisioterapeuta Cátia Candeias, Estudante de Fisioterapia

Paralisia Cerebral - da origem à internvenção “Nesta vida, pode-se aprender três coisas de uma criança: estar sempre alegre, nunca ficar inativo e chorar com força por tudo o que se quer.” Paulo Leminski A paralisia cerebral (PC) descreve um conjunto de défices permanentes do movimento e da postura, atribuídos a um distúrbio não progressivo que ocorreu no encéfalo durante o desenvolvimento fetal ou após o nascimento. Estas perturbações motoras interferem nas actividades de vida diária e são, frequentemente, acompanhadas por alterações sensitivas, da percepção, cognição, comunicação e comportamento, por epilepsia e por problemas musculo-esqueléticos secundários.1 Em termos epidemiológicos, a PC ocorre com uma prevalência de 2 para 1000 nados-vivos, tendo-se mantido estável nos últimos 30 anos.2 Em Portugal, a prevalência de PC em crianças com 5 anos é de 1,87 por cada 100.000 crianças.3 Embora a melhoria associada aos cuidados de saúde neonatais e obstétricos tenham contribuído, de forma significativa, para a redução da mortalidade infantil, não foram observadas alterações na prevalência da PC.4 O parto pré-termo é o factor de risco mais importante, correspondendo aproximadamente a metade do total de casos. Cerca de 10% dos casos de PC são explicados por asfixia durante o trabalho de parto. Outros factores de risco/causas são: infecções congénitas e perinatais, gestação múltipla, infecções intra-uterinas e alterações da função tiroideia da mãe.4 A PC pode ser classificada de acordo com a localização topográfica, nível de funcionalidade e pelo tónus muscular.5 Quanto à localização topográfica, esta pode ser classificada em hemiplégica (um lado afectado), diplégica (dois membros inferiores mais afectados do que os dois membros superiores) e quadriplégica (todos os membros afectados). O nível de funcionalidade na PC pode ser classificado de acordo com a Gross Motor Function Measure, que avalia o movimento voluntário, com ênfase para o sentar e o andar; apresenta 5 níveis, sendo o nível 1 o que apresenta menor severidade e o nível 5 o que apresenta severas limitações no controlo dos movimentos voluntários.5 No que respeita à clas36

sificação de acordo com o tónus muscular, a PC pode ser classificada em espástica (aumento do tónus muscular; a mais frequente), atáxica (5% do total de PC), discinésica (caracterizada por movimentos involuntários que se acentuam com o esforço) e mista, que corresponde a cerca de 10% dos casos de PC.6 Face a este cenário facilmente se compreende que a Paralisia Cerebral não se manifesta igualmente em cada pessoa, sendo o quadro clínico sempre singular. Esta diversidade leva-nos a afirmar que, no que diz respeito à PC, cada caso é um caso, cada criança apresenta características únicas, dificilmente generalizáveis, pelo que a intervenção do Fisioterapeuta terá de reflectir essa mesma unicidade. Ao longo das últimas décadas a intervenção da Fisioterapia na PC, e na área neurológica em geral, tem-se revelado bastante eclética, sendo comum usar vários princípios e metodologias para um tratamento bemsucedido.7 Contudo, e independentemente do método escolhido, a intervenção do fisioterapeuta será sempre guiada pela avaliação da criança onde serão observadas, medidas e registadas as potencialidades da criança, os seus gostos e tendências, as suas limitações funcionais, as actividades ou movimentos que desempenham com maior ou menor facilidade e as deficiências primárias e compensações que daí advieram; e será também tida em conta a vontade da criança e da família, isto é, a sua perspectiva sobre o que consideram ser objectivos a alcançar com as sessões de reabilitação.7 No final, o objectivo principal será sempre melhorar a função e a independência da criança, potencializando as suas capacidades e proporcionando, desta forma, condições para facilitar a sua educação, a participação social e melhorar a sua qualidade de vida.8 Citando ZONTA et al.9, a criança não aprende movimentos, mas antes vivencia a sensação dos movimentos, sendo esta a ideia-chave da intervenção da fisioterapia na PC. A introdução do conceito de neuroplasticidade veio alterar o paradigma sobre as potencialidades do Sistema Nervoso Central (SNC) e revolucionou, de certa forma, a abordagem terapêutica da PC. Citemos, como exemplo, o método neuroevolutivo de Bobath e a Terapia de Restrição do Movimento (ou do “uso forçado”) – Constraint-Induced Movement Therapy (CIMT). Ambos assentam as suas bases na ideia de que o SNC não é

5.ª edição da Plural&Singular  

A Plural & Singular é um projeto editorial dedicado à temática da deficiência que lançou a 1.ª edição no início de dezembro de 2012. A revis...

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