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LUGAR

Quando eu me vi ao espelho fiquei…Foi estranho, mas ao mesmo tempo não foi surpresa porque já tinham passado sete meses, já nem sabia qual era a moto que tinha e nem me lembrava que tinha sido um acidente de mota sequer, não sabia que carro é que tinha, não sabia de nada. É como se eu tivesse nascido no hospital. Quando saí para fora do hospital comecei uma vida nova. A primeira vez que respirei ar fora do hospital parece que tinha nascido e que aquele era o meu primeiro dia de vida”. Nuno Raimundo ANTES DO ACIDENTE

DEPOIS DO ACIDENTE

Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão (CMRA). Depois de acordar do coma Nuno Raimundo foi transferido para o hospital da zona de residência onde os profissionais de saúde, apesar de despreparados, fizeram os possíveis para o ajudar. Afinal de contas as expetativas resumiam-se ao posicionamento adequado numa cadeira de rodas. “Quando dei entrada no Centro de Reabilitação de Alcoitão, para além de não falar, reagia como uma criança, eu só chorava, gritava, não reconhecia as pessoas, estava noutro mundo, não estava mesmo na realidade. Prepararam os meus pais para o pior”. Nuno Raimundo não colaborava. Para ele é como se não houvesse mundo para lá das paredes do hospital e, por isso, não se esforçava na recuperação. Ninguém lhe podia tocar, nem lhe dizer nada e estava sem noção da vida que tinha deixado em stand-by. Só queria dormir. “Quando ‘nasci de novo’ era a única realidade que eu conhecia. Não queria saber de um jantar com os amigos, de um jantar em família, não queria saber de nada. Desde que tivesse a comida todos os dias, o meu banho tomado e a cama para dormir no hospital, estava bem”, assume.

Dois meses depois de dar entrada em Alcoitão, é chegada a hora de passar o primeiro fim-de-semana em casa, de deixar de comer comida líquida e deliciar-se com os pratos favoritos preparados pela mãe, de rever familiares e amigos e… enfrentar o espelho. “Só passados sete meses é que eu olhei para o espelho para ver como é que eu estava. Enquanto estive no hospital, enquanto estive em tratamentos até ir a casa, nunca me tinha visto ao espelho sequer, eu não sabia qual era a minha imagem”, revela. Apesar da estranheza, não ficou surpreendido com o que viu refletido. A verdade é que depois de tanto tempo, pouco se lembrava da vida anterior ao coma. Essa vida que reconheceu no fim-de-semana em casa numa mesa farta de mimos e rodeada de amigos e de familiares. A ida a casa serviu para relembrar o que tinha à espera e que era necessário resgatar. “Quando cheguei na segunda-feira ao hospital, fui para a fisioterapia, virei-me para o meu terapeuta e disse: ‘Ricardo, a partir de agora pode fazer o que quiser comigo que nunca mais vou gritar aqui dentro. E até hoje, nunca mais gritei. Foi sempre a recuperar até agora”, revela com orgulho Nuno Raimundo.

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5.ª edição da Plural&Singular  

A Plural & Singular é um projeto editorial dedicado à temática da deficiência que lançou a 1.ª edição no início de dezembro de 2012. A revis...

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