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Edição 17 DEZ16/JAN/FEV 17

Concurso de fotografia: 144 imagens de inclusão na diversidade

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ÍNDICE

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Grande Entrevista com Ana Sofia Antunes Em entrevista à Plural&Singular, a secretária de Estado, Ana Sofia Antunes, fez um balanço de um ano de Governo de uma Secretaria dedicada à Inclusão das Pessoas com Deficiência. A governante abordou a mudança de paradigma que a prestação única para as pessoas com deficiência representa, medidas mais polémicas como é o caso da retirada de isenção do imposto de circulação automóvel e nem o “Orçamento de Estado para 2017” ficou isento de análise.

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Concurso de fotografia: 144 imagens de inclusão na diversidade O concurso de fotografia “A inclusão na diversidade”, lançado em 2014 pela Plural&Singular, em parceria com o Centro Português de Fotografia, conseguiu cumprir o desafio de ultrapassar a centena de “exemplares” de inclusão ou exclusão. Das 144 fotografias a concurso, este ano o júri, constituído por Sónia Silva (técnica do CPF), Paulo Pimenta (fotojornalista do jornal Público) e Álvaro Laborinho Lúcio (juiz conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça) distinguiu três fotos e atribuiu duas menções honrosas.

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CPP: Passado, Presente e Futuro Humberto Santos, de saída do Comité Paralímpico de Portugal, faz balanço positivo dos oito anos, que na realidade foram mais, de movimento paralímpico. “Foram momentos de transcendência, momentos de superação…Uma experiência que jamais irei esquecer. Neste espaço cresci imenso enquanto pessoa”, descreve num artigo que também serve de antevisão à I Gala desta estrutura dedicada ao movimento paralímpico.

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José Carlos Macedo – O atleta excelência! Logo na estreia em Jogos Paralímpicos, em Atlanta1996, José Carlos Macedo conquistou para Portugal dois ouros. Seguiram-se muitos outros troféus, o título de campeão Europeu e mais medalhas em Jogos, como a recentemente conquistada em Rio2016. O ‘Ronaldo’ do boccia, descrito por quem o rodeia como um atleta de excelência, tem ainda um sonho por cumprir: ser campeão do Mundo… Por Paula Fernandes Teixeira

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Índice 03 04 07

EDITORIAL A Plural&Singular completa o seu quarto aniversário. Com esta são 17 as edições que compilamos desde que, em dezembro de 2012, iniciamos a publicação trimestral de revistas digitais. O tema de capa da nossa edição pioneira foi “A deficiência em Portugal: ontem, hoje e amanhã”. Seguiram-se reflexões sobre turismo acessível, falamos sobre o regresso às aulas da Educação Inclusiva e sobre emprego como meta porque “igualdade” é a palavra de ordem. “O Implante Coclear: uma opção para quem quer ouvir!” ou “Festivais de música para TODOS os festivaleiros” – foram outros temas de capa, somando-se “Era uma vez…a sexualidade e os afetos no país das maravilhas” e debates, testemunhos, reflexões sobre a afasia, a inclusão no Ensino Superior ou no acesso ao voto em eleições, bem como um périplo pelas praias acessíveis de Portugal. “Aprender a viver depois da amputação” e “Vida Independente: A emancipação das pessoas com deficiência” – foram os mais recentes temas de capa. Pelo meio o “espaço nobre” da revista da Plural&Singular – aliás tal como hoje – emprestou-se ao concurso de fotografia “A inclusão na diversidade” organizado há três edições em parceria com o Centro Português de Fotografia. Mantivemos secções recheadas de histórias e lugares e retratos e galerias quer na Saúde, quer na Tecnologia, Desporto e Cultura… Os números não andarão muito distantes disto: 17 edições = 1.700 páginas dedicadas à área da deficiência porque a missão da Plural&Singular é e será sempre a mesma: colocar esta temática na rota da comunicação diária. Por isso é que decidimos restaurar-nos! E às vezes reestruturações também significam ambição. Decidimos publicar a nossa revista digital semestralmente a partir de 2017, de forma a que seja possível apostar também e com o mesmo empenho no nosso ‘site’, tornando-o mais acessível, mais diversificado, com conteúdos diferentes e atuais. Tudo com o lema de sempre: “Nada sobre vós, sem vós”.

Índice e Editorial

Notícias

Grande Entrevista à secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência

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Um desfile de inclusão e de ternura

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Opinião APD Opinião Jorge Falcato, deputado do BE

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Quem é Paulo Jorge Ribeiro?

Saúde e Bem-estar Opinião APTO Opinião Psicóloga Marta Figueiredo A música é muito mais que um instrumento terapêutico

Capa Concurso de fotografia: 144 imagens de inclusão na diversidade Opinião Rui Machado

Tecnologia e Inovação SUPERA E CRID: Uma década a pensar na acessibilidade e na inclusão

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Desporto Campeonato do Mundo de Meia Maratona INAS, Évora

65 72

76 83 84

CPP: Passado, Presente e Futuro Escalada adaptada – paredes sem barreiras

Perfil José Carlos Macedo – O atleta excelência!

Opinião PCAND Opinião ANDDI

FICHA TÉCNICA

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Sede e redação: Avenida D. João IV, nº 1076, Blc C, 4.º Esq. 4800-534 Guimarães Tel.: 913 077 505 Email: geral@pluralesingular.pt Site: www.pluralesingular.pt Colaboradores: Catarina de Castro Abreu (geral@pluralesingular.pt), Paula Fernandes Teixeira (paulateixeira@pluralesingular.pt), Sofia Pires (sofiapires@pluralesingular.pt) Rita Machado Publicidade: Tel.: 913 077 505 Email: publicidade@pluralesingular.pt Webdesign: Pedro Teixeira (jpdteixeira@gmail.com) Design gráfico: Ricardo Oliveira (oliveira_315@hotmail.com)

Cultura Identidade Um livro para “suportar melhor tudo o que é maior que nós”

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Sugestão de Leitura

Lugar Hortas acessíveis – inclusão para TODOS

Plural & Singular Plural & Singular Uma comunidade que quebra barreiras e promove a integração

Foto de capa gentilmente cedida por Francisco Godinho

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NOTÍCIAS

Guimarães assinala “Dia Internacional das Pessoas com Deficiência”

No dia 21 de novembro pelas 10h30 foi apresentado na Biblioteca Raúl Brandão em Guimarães o programa das comemorações do Dia Internacional das Pessoas com Deficiência que se assinala todos os anos a 03 de Dezembro. Todas as pessoas têm direito à sua vida pessoal e digna, tenham ou não deficiência, por isso estas comemorações têm como lema “Por uma vida digna para todos “. O presidente da Câmara Municipal de Guimarães, Domingos Bragança, a vereadora da ação social, Paula Oliveira, Carina Guise da Cercigui e Sara Coutinho foram as pessoas responsáveis pela apresentação do programa de eventos que decorrem de 28 de novembro a 14 de dezembro, envolvendo várias entidades do concelho de Guimarães. PJL

APPC: projeto de nova sede e residência universitária procura parceiros e fundo

A Associação do Porto de Paralisia Cerebral (APPC) tem um sonho: construir uma nova sede que simultaneamente acolherá estudantes universitários com deficiência. O projeto está orçado em 1,7 milhões de euros e deverá ser candidatado a fundos europeus. A APPC está instalada desde 1974 num edifício na zona de Arca d’Água, no Porto, mas a associação aponta que o espaço, onde 25 pessoas frequentam um Centro de Atividades Ocupacionais (CAO), está degradado. O presidente da APPC, Abílio Cunha, admitiu que “a cada inverno sente-se o desconforto a aumentar” e revelou ter um sonho já com uma mão cheia de anos… Construir uma nova casa na Rua do Conde de Campo Bello, Paranhos, num terreno cedido pela câmara do Porto. O projeto aponta para três pisos e destina-se a sede mas não só pois a

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proximidade com uma zona de faculdades e equipamentos de ensino, bem como a lacuna de espaços para acolher estudantes com deficiência na cidade deram à APPC a ideia de ali instalar uma residência universitária. E no mesmo espaço haverá CAO com Abílio Cunha a avançar que este poderá também servir, depois do horário normal, a população sénior de Paranhos. Para que tudo isto seja uma realidade, a instituição deseja que o projeto seja mapeado como equipamento de interesse para a zona Norte ou nacional e candidato a fundos do Portugal 2020. Abílio Cunha já entregou o projeto na câmara do Porto para análise e desafia os politécnicos, a autarquia, a universidade, bem como a Área Metropolitana do Porto a serem parceiros.


NOTÍCIAS

Paredes: “Nos Trilhos da Inclusão: Conhecer para intervir” A câmara de Paredes quer atualizar o diagnóstico da população com deficiência através da atualização de um trabalho realizado há quatro anos, indicou a vereadora da Ação social que participou no final de outubro na iniciativa “Nos Trilhos da Inclusão: Conhecer para intervir”. A autarca, Hermínia Moreira, tem expectativa de com este projeto – que deverá envolver várias instituições do concelho, enquanto voluntários receberão formação para o trabalho no terreno –, conseguir maior abrangência para determinar

estratégias eficazes nesta área. O objetivo é identificar e caracterizar as pessoas com deficiência e incapacidade profissional, escolar, familiar, económico e social. Hermínia Moreira estima que em Paredes 150 a 200 pessoas com deficiência tenham acompanhamento especializado de instituições locais, mas “existem outras”, como disse a autarca. Paredes tem quatro instituições a desenvolver atividades nesta área e escolas que acolhem alunos com necessidades educativas especiais.

Câmara de Viana do Castelo inclui 36 jovens com deficiência em atividades A câmara de Viana do Castelo lançou recentemente o projeto “Náutica para todos”, integrado num programa mais vasto que tem o nome de Náutica nas Escolas” e que visa integrar nos estabelecimentos de ensino atividades náuticas na disciplina de educação física. Nota publicada no site da câmara de Viana do Castelo dá conta de que o novo projeto-piloto, que envolve dois agrupamentos de escolas (Abelheira e Monte da Ola), beneficia 36 alunos com necessidades especiais que passam a poder praticar aulas de surf, canoagem, remo e vela enquanto atividades curriculares. A câmara recorda que o “Náutica nas Escolas” tem sido alvo de diversos prémios e menções, designadamente o “Melhor Município

para Viver”, Categoria Economia em 2013, o Prémio Desportivo 2014 “Personalidade do Ano” da Gala de Desporto e, já em 2015, o Prémio Athletice Mare 2015 dos Prémios Excellens Mare da PwC e o Prémio de Boas Práticas “Maia Cidade Europeia do Desporto”. Neste momento, o projeto “Náutica nas Escolas” implica um investimento a rondar os 250 mil euros por parte da câmara. No atual ano letivo o projeto envolve 1.700 alunos, mais sete turmas e mais 200 alunos face ao ano passado. O alargamento a jovens com deficiência implicou a assinatura de um protocolo com a Associação Portuguesa Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental.

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EPAL lança nova campanha de promoção do serviço de faturas em braille

A Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) e a EPAL – Grupo de Águas de Portugal anunciaram que pretendem dar continuidade à parceria que permite a todos os clientes com deficiência visual ler a sua fatura da água em braille. Uma nota publicada no site da EPAL recorda que basta aos interessados solicitarem este serviço à empresa e este anúncio surge a propósito do Dia Mundial da Bengala Branca que se assinalou a 15 de outubro. “A EPAL pretende dar continuidade à sua estratégia de inclusão social e melhorar a comodidade dos seus clientes, valorizando a sua autonomia. Por isso, juntamente com a ACAPO, lança uma nova campanha de promoção deste serviço gratuito de emissão de faturas em braille com o intuito de chegar aos residentes de Lisboa com deficiência visual”, descreve a nota. Para receber a fatura em braille, basta contactar a EPAL através da Linha de Atendimento a Clientes (213 221 111), do site ou das lojas. Ao solicitar este serviço, para além de receber a fatura em braille, continua também a receber fatura a negro. O Dia Internacional da Bengala Branca comemorou-se com várias ações simbólicas representativas da independência, liberdade e confiança das pessoas com deficiência visual.


NOTÍCIAS

Voto de Louvor para Missões Olímpica e Paralímpica

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, concedeu o título de comendador da ordem de mérito aos atletas portugueses medalhados nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio2016. A cerimónia decorreu no Museu dos Coches, em Lisboa a 9 de novembro. Antes, também a Assembleia da República tinha aprovado um voto de louvor, subscrito pelo presidente Eduardo Ferro Rodrigues e por todos os partidos políticos, às missões portuguesas. A decisão foi feita por unanimidade e é justifica-se pelo facto das missões “terem honrado e dignificado o desporto português ao mais alto nível”. “Os atletas portugueses souberam ser uma vez mais fiéis aos valores da excelência, da amizade e do respeito, e também da coragem, da determinação, da inspiração e da igualdade, os valores que regem os movimentos olímpico e paralímpico. Para além do empenho e brio que todos os atletas colocaram nas suas prestações, merecem destaque as cinco medalhas de bronze e os trinta e cinco diplomas obtidos pelas missões nacionais” refere o documento que descreve este voto de louvor.

Site da Presidência da República com conteúdos acessíveis à comunidade surda

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, anunciou que o site da Presidência passará a estar mais acessível a pessoas com deficiência auditiva. O anúncio foi feito a 15 de novembro, Dia Nacional da Língua Gestual, quando o chefe máximo português recebeu no Palácio de Belém a Federação Portuguesa das Associações de Surdos. Na cerimónia também estiveram presentes membros do Governo como o ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social e a secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência. A receção foi abrilhantada pelo grupo “Mãos que cantam”, um projeto musical desenvolvido pelo maestro Sérgio Peixoto com alunos surdos da

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Universidade Católica Portuguesa. “15 de novembro é o Dia Nacional da Língua Gestual Portuguesa por isso, a partir deste 15 de novembro o sítio da Presidência da República passa a estar mais acessível à comunidade surda. Todas as semanas vamos selecionar um vídeo onde a intervenção do Presidente da República é legendada e conta com tradução para Língua Gestual Portuguesa”, descreve um vídeo publicado na página oficial da Presidência. No vídeo é adiantado que alguns dos discursos mais marcantes de Marcelo Rebelo de Sousa estão já disponíveis neste formato, por exemplo a intervenção na abertura do ano letivo ou a que assinalou as celebrações do dia 5 de Outubro.


NOTÍCIAS

Governo promete “fazer tudo” para que LGP seja “efectivamente promovida” No dia em que se assinalou o Dia Nacional da Língua Gestual, 15 de novembro, a secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência, Ana Sofia Antunes, prometeu que o Governo vai “continuar a fazer tudo” para que a Língua Gestual Portuguesa seja “efetivamente promovida”. “Queria apenas reforçar o nosso compromisso enquanto XXI Governo Constitucional para com a comunidade surda de continuarmos a fazer tudo para que a língua gestual portuguesa seja efetivamente promovida e que todas as pessoas possam ter acesso a ela”, afirmou a governante na mensagem divulgada no ‘twitter’ do ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social e no ‘youtube’ da República Portuguesa.

Ana Sofia Antunes recordou o que foi feito neste mandato, frisando a criação dos Balcões da Inclusão e o atendimento de emergência para pessoas surdas e adiantou que estão a ser finalizados os trabalhos relativos à aplicação 112 Atendimento de Emergência para pessoas surdas. “Deixo-vos o nosso compromisso de estarmos convosco e estarmos a fazer tudo para que a língua gestual portuguesa seja cada vez mais uma das nossas línguas oficiais em Portugal”, acrescentou. Segundo se lê na página da Associação Portuguesa de Surdos em Portugal, estima-se que existam cerca de 120.000 pessoas com algum grau de perda auditiva e cerca de 30.000 surdos falantes nativos de LGP.

7 de outubro foi um dia “histórico” na acessibilidade da Assembleia da República O deputado do Bloco de Esquerda, Jorge Falcato, cerca de um ano depois de ser eleito, discursou, a 7 de outubro, no hemiciclo da Assembleia da República (AR), graças à rampa de acesso instalada. Em declarações à Plural&Singular, Jorge Falcato classificou o dia como “histórico” porque “no fundo tratouse da primeira vez que alguém com diversidade funcional a falou da tribuna da Assembleia”. “Se eu não tivesse sido eleito as coisas continuariam a ser iguais ao que estavam. Um dos problemas da acessibilidade é que pensa-se nela quando há alguma necessidade concreta e não se pensa nela como uma oportunidade para que as coisas aconteçam”, apontou o deputado.

A adaptação da tribuna, do ponto de vista do também arquiteto, é uma “boa solução”, que está “bem integrada do ponto de vista patrimonial”, mas que poderia ter sido instalada mais cedo, visto que o equipamento necessário já estava disponível há algum tempo. “Ia implicar a realização dos plenários na sala do Senado e como eu estive de baixa foi decidido que só se completaria a obra durante as férias de agosto”, explicou Jorge Falcato. O deputado bloquista fez uma interpelação ao Governo levando à discussão a política da deficiência, falando no que considera ser necessário alterar para que deixe de ser focada no “assistencialismo e na institucionalização” das pessoas.

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Nova prestação social para pessoas com deficiência beneficiará 120 mil pessoas

O Governo estima que a nova prestação social para pessoas com deficiência venha a beneficiar cerca de 120 mil pessoas em idade ativa, incluindo as que estão inseridas no mercado de trabalho. A medida entra em vigor em 2017 e foi apresentada a meio de outubro. Segundo o Ministério do Trabalho, da Solidariedade e Segurança Social, que divulgou esta medida na apresentação do orçamento da Segurança Social para o próximo ano, o novo modelo de prestação para as pessoas com deficiência “tem como filosofia a consideração de um valor de cidadania para as pessoas com deficiência”. O objetivo é contrariar o risco de os sistemas de proteção social obrigarem a optar entre a prestação social ou um trabalho quando tinham nos casos em que as pessoas com deficiência conseguem ter acesso a empregos. A ideia é, aponta o Ministério, romper com um “paradigma de décadas de proteção” e promover o combate à pobreza das pessoas com deficiência ou incapacidade, com um enfoque nos rendimentos da própria pessoa. O pacote que inclui esta medida também fala de um aumento da bonificação fiscal para as pessoas com deficiência: os rendimentos de trabalho que eram considerados em 90% para efeitos fiscais passarão a ser considerados em 85%.


GRANDE ENTREVISTA

Entrevista à secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência

Ana Sofia Antunes: Disponibilizamos um conjunto de soluções de inclusão inexistentes em muitos outros países. (…) Agora daqui até dizer que tudo vai bem cá pelo nosso Portugal, vai um grande passo. Em entrevista à Plural&Singular, a secretária de Estado, Ana Sofia Antunes, fez um balanço de um ano de Governo de uma Secretaria dedicada à Inclusão das Pessoas com Deficiência. A governante abordou a mudança de paradigma que a prestação única para as pessoas com deficiência representa, medidas mais polémicas como é o caso da retirada de isenção do imposto de circulação automóvel e nem o “Orçamento de Estado para 2017” ficou isento de análise Fotos: Gentilmente cedidas

Plural&Singular (P&S) - Sobre a vida independente, e relativamente aos passos dados pelo anterior Governo em relação a esta matéria, qual é a apreciação que faz? Ana Sofia Antunes (ASA) - No decurso do mandato do anterior Governo, começamos a ouvir falar, com alguma insistência, e por pressão exclusiva da comunidade das pessoas com deficiência, em Vida Independente. Não conheço, até hoje, qual o modelo que eventualmente preconizava o Governo de então para esta matéria pois, muito embora tenha participado em algumas reuniões de trabalho havidas à época na qualidade de Presidente de uma associação de pessoas com deficiência, nunca ficou muito claro para mim o que pensavam realmente os então governantes sobre esta iniciativa, tanto mais que nunca vi qualquer medida política ser desenhada para propor um modelo a adotar nesta matéria. A única coisa que vi acontecer nessa altura foi a realização de uma “mega” ação de formação, com várias centenas de horas de frequência, supostamente destinada a formar assistentes pessoais, realizada em parceria com a União das Misericórdias Portuguesas. Dos formandos que terminaram a formação, sei que alguns realizaram estágios em algumas das misericórdias, mas desconheço as suas funções atuais. De todo o modo, foi possível extrair das conversas tidas então com os responsáveis governamentais, que não existia abertura à consideração da livre escolha de assistentes pessoais por parte das pessoas com deficiência que iriam utilizar os seus serviços, nem quanto à gestão das verbas destinadas ao respetivo pagamento. O modelo que ora propomos assenta na constituição de Centros de Apoio à Vida Independente (CAVI’s), que disponibilizam serviços de assistência pessoal de acordo com a vontade e necessidades das pessoas com deficiência. Estas têm sempre intervenção no processo de escolha dos/das assistentes pessoais que as apoiam e podem optar também pela flexibilidade deste apoio. Por outro lado pretendemos que o perfil comportamental dos/das assistentes pessoais seja adequados às funções 8


GRANDE ENTREVISTA

que desempenham. Procurámos salvaguardar, através de um modelo jurídico adequado, que as três partes no processo (pessoa com deficiência, assistente Pessoal e CAVI) tenham intervenção no contrato celebrado, procurando garantir que, ainda que as verbas de financiamento tenham de passar pelos CAVI por imposições processuais das candidaturas aos fundos comunitários, as mesmas sejam entregues à pessoa com deficiência para que esta proceda diretamente ao pagamento do seu assistente pessoal. Não abandonámos totalmente a ideia da necessidade de formação dos assistentes pessoais, contudo restringimo-la aos padrões mínimos indispensáveis de qualidade do atendimento a prestar, em função do tipo de deficiência do beneficiário do serviço em concreto (cerca de 40 horas), pois entendemos que o desenvolvimento da formação do assistente só pode ser feito em contexto direto de trabalho com a pessoa que vai assistir.

fase de finalização, para submissão a consulta pública e posterior aprovação. Simultaneamente, encontram-se em preparação os instrumentos técnicos para a abertura das candidaturas aos fundos. As candidaturas abrirão no início de 2017.

P&S – E em relação ao primeiro curso para assistentes pessoais realizado, que aproveitamento será feito desse investimento? ASA - As pessoas que concluíram a formação referida poderão candidatar-se a assistentes pessoais nos Centros de Apoio à Vida Independente. Têm toda a liberdade para isso e deverão mesmo fazê-lo. Todavia o modelo que propomos contempla uma avaliação de competências para efeitos de seleção. Pelo que estas pessoas, se possuírem as competências requeridas, poderão vir a desempenhar a atividade, sendo aí a formação obtida uma mais valia para o desempenho. P&S - Recentemente afirmou que até ao final de 2016 o Governo avançará com os apoios para a vida independente. Falta menos de um mês para o ano acabar, o que nos pode adiantar em relação aos apoios em causa? Como estão estruturadas as medidas de apoio? ASA - Os instrumentos normativos que definem a medida de política, isto é, que determinam o que se entende por Vida Independente em Portugal, estão em 9


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P&S - O que vem mudar a prestação única para as pessoas com deficiência? ASA - A nova prestação social na área da deficiência vem alterar profundamente o modo como o Estado apoia as pessoas com deficiência ou incapacidade. É uma alteração de paradigma no sentido em que as prestações atuais como o Subsídio Mensal Vitalício ou a Pensão Social de Invalidez estão absolutamente centradas na incapacidade da pessoa obter rendimentos de trabalho ou de se autossustentar. Em nosso entender, esta não é a melhor forma de proteger as pessoas com deficiência. Em primeiro lugar, porque as pessoas com deficiência não o são ou deixam de o ser em função da sua ligação ao mercado de trabalho. Em segundo lugar, porque as prestações sociais devem ser promotoras da participação plena, em função das capacidades de cada pessoa e do modo como se organiza a sociedade, sem que com isso se desproteja as pessoas que se encontrar em situação de maior vulnerabilidade. Por esse motivo, a nova prestação tem uma dimensão de cidadania, associada a graus mais elevados de incapacidade, possibilita acumulação com rendimentos, em particular com rendimentos de trabalho e contém uma vertente de combate à pobreza. Por outro lado, a nova prestação adapta-se ao ciclo de vida da pessoa com deficiência e internaliza no sistema da segurança social a complexidade relativa à combinação de diferentes componentes que dão origem ao montante global da prestação, simplificando a vida aos beneficiários que apenas têm de requerer uma prestação. P&S - Quantas pessoas são abrangidas por esta medida e quando vai entrar em vigor? ASA - A nova prestação entrará em funcionamento em 2017, estimando-se que abranja cerca de 120 mil pessoas. P&S - O que foi feito concretamente, por exemplo, em matéria de atribuição de produtos de apoio pelo atual Governo? ASA - O Decreto-Lei n.º 93/2009, de 16 de abril, criou o Sistema de Atribuição de Produtos de Apoio (SAPA) ao qual todas as pessoas com deficiência e pessoas com incapacidades temporárias podem recorrer, muito embora esta medida de apoio, por estranho que pareça, seja ainda desconhecida de muitos dos potenciais beneficiários que a ela poderiam recorrer. No passado dia 8 de setembro do corrente, foi publicado o despacho anual conjunto entre os Ministérios das Finanças, da Educação, do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social e da Saúde, o qual definiu o valor global de financiamento do Sistema de Atribuição de Produtos de Apoio para o ano de 2016: o valor corresponde a 14 milhões de euros, mais meio milhão de euros face ao ano de 2015. O anterior Governo criou dificuldades inaceitáveis às pessoas com deficiência, designadamente àquelas que necessitam de obter produtos de apoio no âmbito da Ostomia (para traqueostomia, ostomia, sistemas de drenagem e coletores de urina), e ainda produtos de apoio usados no corpo para absorção de urina e fezes, consumíveis de utilização permanente e diária, uma vez 10

que os obrigou a instruírem processos de atribuição de produtos de apoio exatamente iguais aos aplicáveis aos demais produtos de apoio (cadeiras de rodas ou softwares de apoio à leitura e escrita), estes naturalmente exigentes, com duração de alguns meses desde a fase de requerimento até à atribuição. Este processo burocrático reduzia de forma muito gravosa a qualidade de vida destes cidadãos. É de dignidade que falamos. O atual Governo alterou esta matéria permitindo que todos estes produtos sejam fornecidos ou reembolsados pelas unidades de cuidados de saúde primários ou prescritos por via eletrónica e dispensados em farmácias de oficina, processo que se encontra em vigor desde o dia 1 de novembro do corrente. P&S - E de que forma é que o modelo de atribuição do Atestado Médico de Incapacidade Multiuso está a ser revisto? ASA - No que ao Atestado Multiusos diz respeito, o Governo encontra-se presentemente a analisar a adequação do atual regime de avaliação das incapacidades das pessoas com deficiência. Esse trabalho irá avaliar as diferentes etapas do processo, desde logo no que respeita às juntas médicas e ao processo de avaliação, mas também à informação constante no atestado médico de incapacidade multiuso, bem como o seu modelo. Assim, após muitos anos sem qualquer atualização, definimos no âmbito do programa SIMPLEX+, os objetivos de proceder à uniformização e desmaterialização relativas a este documento, criando o Atestado Médico Multiusos Digital e o cartão multiusos de que muito beneficiarão as pessoas com deficiência ou incapacidade e o próprio sistema que carece de uma clara atualização nesta matéria. Por fim, atenta a imprescindibilidade deste documento para todas as pessoas com deficiência ou incapacidade, este Governo deliberou reduzir o custo de obtenção deste documento, reduzindo-o em 50% a partir de 1 de janeiro de 2017. Assim, o valor de obtenção do atestado multiusos, em primeira instância, passa a ser de €25,00, correspondendo a €50,00 o custo do pedido de recurso. As revalidações deste documento terão um custo de €5,00.


GRANDE ENTREVISTA

P&S – O que motivou o Governo a retirar a isenção do imposto de circulação automóvel (IUC)? ASA - Em 2015 a isenção de IUC para pessoas com deficiência foi aplicada a 90.058 veículos, dos quais 219 viaturas desportivas de luxo. Beneficiaram igualmente da isenção 1498 viaturas de alta cilindrada, tendo alguns dos veículos destas últimas marcas mais de 5.000 CC e apresentando um perfil mais próximo de carros de corridas do que de viaturas adaptadas a necessidades especiais. O Governo não retirou a isenção do Imposto de circulação automóvel, apenas a limitou relativamente a veículos de muito alta cilindrada, conferindo-lhe uma maior consistência, no que se refere aos princípios de Justiça e de equidade que se devem verificar no quadro fiscal. De facto, não se justifica o Estado subsidiar a aquisição de viaturas de luxo e, em particular, veículos desportivos pouco adaptados a pessoas com deficiência; a Assembleia da República estabeleceu em 2007, que perdiam a isenção de Imposto sobre Veículos, as viaturas com um nível de emissão de CO2 até 160 g/km. E, em relação às viaturas com a emissão de CO2 dentro daqueles parâmetros, foi estabelecido um teto máximo de isenção (correspondente ao imposto a pagar por uma viatura de gama média), devendo as pessoas com deficiência suportar a parte do imposto, que excedesse aquele montante. No caso dos veículos especialmente adaptados ao transporte de pessoas com deficiência, que se movam apoiadas em cadeira de rodas, o limite das emissões de CO2 é aumentado para 180 g/km. A recente alteração legislativa veio incorporar estas salvaguardas no Imposto Único de Circulação, estabelecendo, que as viaturas matriculadas após a data da entrada em vigor do limite às isenções no Imposto sobre Veículos, apenas beneficiariam da isenção, caso tivessem um nível de emissão de CO2 até 180 g/km. Desta forma, o limite estabelecido às isenções em IUC incorporou desde logo as especiais necessidades de adaptação ao transporte de pessoas com deficiência que se movam apoiadas em cadeira de rodas que haviam sido identificadas em sede de ISV. Em simultâneo, a recente limita-

ção à isenção de IUC havia previsto igualmente, num momento inicial, que o limite máximo de isenção seria de €200,00, devendo os beneficiários liquidar o excedente do imposto devido. Contudo, atentas algumas exposições entretanto recebidas, que davam conta do valor de imposto aplicado a determinados modelos de carrinhas de nove lugares, frequentemente utilizadas por pessoas com deficiência motora detentoras de cadeiras de rodas elétricas, em especial no caso de agregados com mais de uma pessoa com deficiência, entendeu o Governo proceder ao aumento do linear máximo da isenção, passando este para €250,00, valor que passa a proteger também estas situações, deixando-as inteiramente isentas. Estes limites às isenções não afetam a esmagadora maioria dos veículos, permanecendo as isenções intocadas para mais de 90% dos seus beneficiários. Apenas cerca de 1% dos veículos perdem a isenção. E menos de 10% dos veículos vão pagar um IUC reduzido. As pessoas com deficiência beneficiam de quase 10 milhões de euros de isenções de IUC. Estas alterações não têm qualquer impacto significativo ao nível da receita, representando apenas cerca de 0,1% da receita do imposto. No caso das famílias com dependentes deficientes, convém recordar que o OE para 2016 incluiu, no IRS, um aumento da dedução por dependente deficiente de 1,5 para 2,5 IAS (isto é, um benefício fiscal de 475€). Ou seja, mesmo as famílias que tenham uma redução da isenção de IUC são no cômputo global (IRS e IUC) largamente beneficiadas pelas medidas recentemente adotadas.

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GRANDE ENTREVISTA

P&S - Passado um ano de périplo pelo país, a realidade portuguesa é melhor ou pior do que imaginava? ASA - O percurso que já percorri nos últimos meses permitiu-me aprofundar o meu conhecimento da realidade da deficiência no nosso país, especialmente no que toca às características e necessidades próprias das pessoas com deficiências distintas da minha, uma vez que sou uma pessoa com deficiência visual, tendo por isso todo um percurso de vida que me permitiu vivenciar e sentir na pele muitas das dificuldades para cuja superação procuro agora contribuir. Algumas dessas dificuldades são transversais aos diferentes tipos de deficiência, (como as situações de discriminação, as dificuldades em encontrar trabalho, em viver de forma autónoma). Contudo, existem realidades muito específicas que afetam determinados grupos de pessoas, em razão da sua deficiência em concreto, as quais só temos a capacidade de perceber quando lidamos com elas de perto, quando procuramos ouvi-las, conhecer o seu dia a dia e as limitações que sentem na pele à sua plena inclusão. As dificuldades de uma pessoa surda são essencialmente comunicacionais e decorrem da falta de disseminação e da presença da Língua Gestual Portuguesa na sociedade portuguesa. As pessoas com deficiência motora têm maiores limitações ao nível da sua mobilidade, muito embora estas também sejam sentidas, de forma diferente, pelas pessoas com deficiência visual. A construção de respostas educativas cada vez mais inclusivas dependem de formação e da disponibilização de tecnologias específicas e diferenciadas, em função da deficiência em concreto de cada criança. Longe de mim ter a pretensão de, nestas breves linhas, procurar fazer uma análise global do “estado da arte” em matéria de inclusão das pessoas com deficiência em Por-

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tugal! Todavia sempre posso dizer, com bastante certeza, que nesta matéria não nos encontramos tão mal na fotografia como por vezes tendemos a pensar. Se nos compararmos com muitos outros países, tradicionalmente encarados como mais desenvolvidos do que Portugal, chegamos rapidamente à conclusão que disponibilizamos um conjunto de soluções de inclusão inexistentes em muitos outros países. Refiro como especialmente relevante os níveis de inclusão das crianças com deficiência nas escolas regulares (situação em que estamos muito mais à frente do que vários dos nossos congéneres europeus), ao nível da promoção da empregabilidade, da disponibilização de produtos de apoio. Talvez muitos não o saibam, mas fomos o primeiro país europeu a ter caixas multibanco “falantes”, acessíveis a pessoas com deficiência visual, e a ter uma lei que obriga todos os estabelecimentos de distribuição a disponibilizar aos seus clientes cegos etiquetagem em braille. Agora daqui até dizer que tudo vai bem cá pelo nosso Portugal, vai um grande passo. Temos de evoluir, temos de melhorar ainda mais, seja ao nível da qualidade da inclusão que disponibilizamos às crianças que já frequentam a escola regular, seja ao nível do apoio à procura de emprego por parte daqueles que não o têm, seja ao nível dos cuidados de saúde especializados de que necessita frequentemente esta população. Precisamos de mais e melhor intervenção precoce, precisamos de promover soluções de maior autonomia para aquelas pessoas com deficiência que se encontram em contextos de dependência. Há muito para fazer, mas considero que para o fazermos bem e de forma estruturada, temos também de ter a capacidade de olhar para trás e ver o que já foi feito, o que já tivemos a capacidade de fazer, especialmente nos últimos 40 anos.


GRANDE ENTREVISTA

de aproximadamente um milhão de euros no apoio a projetos e ao funcionamento de entidades financiadas pelo Instituto Nacional de Reabilitação. Aumentámos também a capacidade dos Centros de Atividades Ocupacionais em mais 500 lugares e reforçaram-se as verbas para a Intervenção Precoce, Centros de Apoio e Reabilitação para Pessoas com Deficiência, Residências e Residências Autónomas e SAD deficiência. Foi criada a Rede integrada de atendimento especializado – “Balcões da Inclusão”, já em funcionamento em sete centros distritais e no INR,IP e que até 31 de dezembro irá abranger os 18 centros distritais da Segurança Social. Paralelamente, estabelecemos a obrigatoriedade de prestar atendimento prioritário a pessoas com deficiência, bem como a grávidas e pessoas acompanhadas de crianças de colo, em todas as entidades públicas e privadas. Ao nível dos produtos de apoio, de 2015 para 2016, aumentámos o montante de financiamento em meio milhão de euros, assim como o catálogo de produtos elegíveis, no qual foram introduzidos mais 21 novos produtos. Por último, com intuito de proceder a uma avaliação independente da implementação da Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU, em Portugal, instituímos o Mecanismo Nacional de Monitorização da implementação da Convenção da ONU. A primeira reunião deste grupo será realizada no próximo dia 6 de dezembro. Estas, entre outras iniciativas, fazem com que 2016 tenha sido um ano francamente animador. Contudo, queremos fazer mais, mais por um país cada vez mais inclusivo e respeitador das pessoas com deficiência.

P&S - Que análise global faz de 2016 em relação à atividade do Governo direcionada às políticas da deficiência? ASA - Creio que todos quantos me conhecem, sabem que penso que não me cabe a mim fazer análises ou avaliações do meu trabalho. Penso que isso tem de ser feito por todos os portugueses. Agora tenho a certeza que começámos a dar passos seguros para termos mais e melhor inclusão em Portugal. Assim, em 2016 foi possível já desenvolver um conjunto significativo de medidas direcionadas para a melhoria dos rendimentos das pessoas com deficiência e suas famílias, entre as quais se destacam o aumento de prestações sociais com a Bonificação por deficiência em 3%, abrangendo mais de 80.000 pessoas; o Subsídio Por Assistência de Terceira Pessoa, em 14,5%, abrangendo mais de 13.000 utentes; o Abono de Família de Crianças e Jovens, que se repercute também nas famílias com crianças e jovens com deficiência e a reposição da proteção social no âmbito do RSI, o que protege igualmente as pessoas com deficiência inseridas em famílias pobres. Noutro âmbito, foi aumentada a dedução fiscal para famílias com descendentes e/ou ascendentes com deficiência para 1.187,50 euros, beneficiando 22.000 agregados familiares. Por último, desenvolveu-se uma nova política de descontos para pessoas com deficiência nos transportes ferroviários, através de desconto de 75% para a pessoa com deficiência e 25% para o acompanhante. Estima-se que esta medida irá beneficiar mais de 10.000 utentes. O Governo enviou um sinal inequívoco no seu apoia às organizações neste âmbito, através do acréscimo

P&S - O que é que as pessoas com deficiência podem esperar do Governo para 2017? O que está previsto no Orçamento de Estado? ASA - Em 2017, o Governo irá continuar a prosseguir um conjunto transversal, mas coerente de políticas públicas que visam garantir os direitos fundamentais das pessoas com deficiência, potenciando a sua inclusão na sociedade. Para além das medidas constantes no Orçamento de Estado para 2017, irão entrar em vigor outras, igualmente importantes, que embora não constem do articulado, contribuirão por certo para melhorar a qualidade de vida e participação das pessoas com deficiência. Em relação às medidas que integram o Orçamento de Estado destaco por exemplo os projetos piloto de vida independente, com recurso a assistente pessoal, o abatimento fiscal em sede de IRS para os trabalhadores com deficiência com rendimentos de categoria A e B, o que fará com que estes trabalhadores paguem menos impostos, a redução do custo do atestado multiusos em 50% ou o incentivo à adaptação de carros de aluguer, através da possibilidade de isenção do ISV nessas situações. Entre as medidas que entrarão em vigor em 2017 e que não constam da Lei do Orçamento, destaco a nova Prestação Social para Pessoas com Deficiência, a revisão da legislação no âmbito da educação inclusiva, o acesso da comunidade surda ao número de emergência 112, a alteração ao regime das incapacidades no âmbito do código civil e a instituição do regime de cotas de emprego 13


PORTUGAL

Um desfile de inclusĂŁo e de ternura

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PORTUGAL

Cerca de 20 meninos e meninas ligadas à Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra (APCC) desfilaram para mostrar que a indústria da moda também pode ser inclusiva, A plateia repleta de familiares, colaboradores, utentes e voluntários da APPC contribuíram para que estas duas dezenas de “ternuras” se sentissem estrelas por um dia ao desfilarem na Quinta das Lágrimas, para apresentar a coleção outono/inverno 2016 da MDD, uma marca 100% portuguesa de moda infantil. O “Desfile de Ternuras” foi uma iniciativa de sorrisos rasgados e todas juntas – a pé, sobre rodas, pela mão ou ao colo, mas sempre apoiando-se mutuamente – estas crianças concretizaram este desafio lançado pela loja Planeta das Ternuras. “Foi mais uma iniciativa pela inclusão a contar com a participação da APCC, onde todos os dias se trabalha para a habilitação e integração plena da pessoa com deficiência e incapacidades e outras em situação de desvantagem”, pode ler-se no comunicado enviado à Plural&Singular. Com mais de 40 anos de atividade, esta instituição atende, no jardim de infância, na escola básica ou seguindo em ambulatório, cerca de 40 crianças, que integram os cerca de 2.000 utentes que apoia, sendo uma entidade de referência nacional e internacional. 15


SOBRE NÓS

Quem é Paulo Jorge Ribeiro? Por Plural&Singular…

Nascido e criado em Guimarães, Paulo Jorge Lemos tem 25 anos e é o mais recente colaborador da Plural&Singular. Gosta de futebol e gosta de escrever. Publica as crónicas do Pevidém Sport Clube no site do clube e no facebook, páginas que está responsável por manter atualizadas. Também vibra com o Vitória Sport Clube, mas no que toca a torcer pela nação, assume que não se rendeu à última equipa da seleção nacional. Confessa até que ficou “mais ou menos” contente com a conquista do título de campeã europeia: “A seleção que merecia ganhar o título europeu era a França, é a seleção que eu mais gosto, porque tem rapazes novos que são vedetas nos clubes franceses. E a portuguesa não gosto porque tem velhada e não conseguem correr. Alguns deles já podiam ser reformados e deviam dar oportunidade aos mais novos que têm muito para dar e vender”, explicou Paulo Jorge Lemos à Plural&Singular. Além de futebol, diz que gostava de escrever sobre judo porque é uma modalidade, que embora tenha começado a praticar recentemente, já lhe valeram, em competições locais, três medalhas: duas de prata e uma de bronze. A Plural&Singular desafiou-o a escrever sobre outras coisas. Depois de escrever um texto de apresentação, arriscou uma nota a dar conta do programa vimaranense das comemorações do Dia Internacional das Pessoas com Deficiência. Paulo Jorge Lemos, na conferência de imprensa, questionou o presidente da câmara municipal de Guimarães, Domingos Bragança, perguntandolhe quais são as expetativas para a inicitiva. Seguem os primeiros dois textos, o próximo é sobre judo, na próxima edição.

Na primeira pessoa…

Eu sou o Paulo Jorge Ribeiro Lemos, tenho 25 anos e sou portador de trissomia 21. Nasci a 7 de maio de 1991 e moro em Pevidém (Guimarães). Andei no infantário da empresa Coelima, em Pevidém até aos seis anos de idade e depois vim para a escola primária fazer o 1.º ano até ao 4.º ano. O meu pai achou melhor eu ficar mais um ano na primária, foram cinco anos muito proveitosos, fiz amizades que ainda hoje duram, apesar de não ter algumas memórias desse tempo a não ser algumas peripécias contadas pelos meus pais e avós, que me dizem que eu era “fresco”.

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E sou feliz assim e contente à minha maneira.


SOBRE NÓS

Depois fui para a escola EB 2,3 de Pevidém onde andei do 5.º ao 9.º ano de escolaridade. Foi com esta escola que eu me identifiquei mais porque lá cresci bastante em todos os sentidos. Gostei muito de todos os colegas e professores, ainda hoje me lembro muito bem do nome deles todos e com alguns ainda mantenho contacto. Mesmo depois de fazer o 9.º ano não consegui abandonar a escola e continuei lá mas ajudando na biblioteca como voluntário. Um serviço que adoro porque tenho muito contacto com pessoas de todas as idades e eu relaciono-me muito bem e sou muito respeitado por toda a comunidade. Não consigo pensar em sair dela. Entretanto consigo conciliar com o futebol que também gosto bastante. Colaboro com o clube da minha terra que é o Pevidém Sport Clube. Publico no site e mantenho-o sempre atualizado, sou presidente da claque e mantenho-a sempre muito ativa. Todas as semanas assisto aos jogos onde tiro fotografias e faço os vídeos para meter na internet assim como as crónicas. Quando posso vou ver jogar a formação do clube. Sou muito estimado por todos. Não posso esquecer de dizer que tenho outras preferências como por exemplo, a dança, gosto bastante de dançar nas festas feitas na escola e os alunos gostam e pedem para eu dançar, por isso gostava de ser professor de dança, mas ainda não consegui chegar lá. Também já tive aulas de guitarra com o professor Marco Génio, foi uma fase da minha muito agradável e divertida. Gostei muito e ainda hoje sinto saudades. O ano passado resolvi ocupar o meu tempo livre com o judo. No início não tive muita vontade mas depois vi que realmente era mesmo isso que estava a precisar, e já entrei em alguns torneios onde recebi três medalhas, uma de bronze e duas de prata. Vou para os treinos sempre muito satisfeito, voltei a fazer novas amizades que são um orgulho e uma necessidade para mim. Os meus ídolos são cantores, como, por exemplo, o Rui Drumond, a Deolinda Kimzimba, o Marco Génio, o Rui Reininho, a Marisa Lis, a Áurea, o Ancelmo Ralph e o Mikael Carreira. E sou feliz assim e contente à minha maneira.

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DESAFIO

Flashes inclusivos: Onde está… a Inclusão? A Plural&Singular lança um desafio aos leitores, associações, malta que gosta de passear e ‘flashar’… Sejam atentos ou simplesmente curiosos: estão TODOS convocados para a Seleção “Paparazzis da Inclusão”! Um pouco por todo o país, seja ao ar livre ou dentro de portas, existem elementos que tantas vezes passam despercebidos ou permanecem discretos e misturados na diversidade que visam INCLUIR. Paula Serrano da Cercipóvoa na Póvoa de Santa Iria quis contribuir para esta rubrica apresentando uma praia inclusiva: a praia do Tamariz, na linha de Cascais. “É a praia para onde nós vamos em junho. Está preparada para nos receber, quer em termos de espaço quer em termos de apoios”, garantiu à Plural&Singular.

geral@pluralesingular.pt

Envie “flashes inclusivos” para e publicaremos ao longo das nossas revistas digitais trimestrais explicando o local e o contexto dos registos de forma a que TODOS passem a cruzar-se com a Inclusão notando a sua presença…

“Nada sobre vós sem vós” 18


OPINIÃO

Bruno Lopes Secretário da Direcção Nacional da APD

Desporto A prática desportiva é o meio universal facilitador da inclusão de todas as pessoas na sociedade. É com a prática desportiva que se conhecem novas pessoas, que se criam amizades e que se constroem projetos para a vida. É com a prática desportiva que se mudam mentalidades, que se formam personalidades e que ensinamos princípios e valores aos nossos jovens. É no desporto que nos ficamos a conhecer a nós próprios… É no desporto que conseguimos superar os nossos limites… É no desporto que podemos encontrar a nossa vocação, a nossa profissão, a nossa paixão… E é no desporto que, contra tudo e contra todos, conseguimos surpreender e ser medalhados por isso! Mas atenção…propositadamente ainda não utilizei a palavra “deficiência”… E porque acham que ainda não falei da “deficiência”?... Ou aliás,…porque haveria de falar em “deficiência” se a prática desportiva é o meio universal facilitador da inclusão de todas as pessoas na sociedade? Porque haveria de falar em “deficiência” se o desporto é igual para TODOS? Por que haveria de falar em “deficiência” se todos os benefícios e vantagens do desporto são transversais a todas as pessoas, de todas as classes sociais, de todas as idades, de todos os sexos, orientações sexuais e claro está deficiências? Pois bem, caros amigos e amigas, O desporto tem de ser realmente igual para todos! É um direito nosso mas também um dever em exigir que isso aconteça! E tem de ser igual para todos desde o berço, logo desde o ensino primário. Desde o desporto escolar até ao desporto universitário… É muito importante que todos juntos consigamos exigir e pressionar para que se criem as condições necessárias e obrigatórias para que o desporto seja realmente igual para todos! É muito importante que a disciplina de educação física não continue a ser discriminada e inferiorizada como tem sido até agora.

A educação física e os seus respetivos docentes devem possuir as ferramentas necessárias para um ensino de qualidade. Devem ser incentivados e apoiados para que o desporto adaptado seja uma realidade em todas as escolas e uma realidade integrada no âmbito do plano curricular da disciplina. Também deve ser uma realidade integrada no âmbito do desporto escolar. E claro está…não menos importante muito pelo contrário, as notas dos alunos em educação física, devem contar para as suas médias finais. Por outro lado, é também importante que as entidades competentes revejam a “Lista Homologada de Produtos de Apoio”, e que passem também a incluir produtos de apoio destinados para a prática desportiva adaptada. Na deficiência a prática desportiva faz TODA a diferença na vida de uma pessoa. Faz toda a diferença como no desporto… É a diferença entre perder e ganhar… É a diferença entre viver e morrer… É disso que estamos a falara amigos e amigas… Estamos a falar da VIDA das pessoas com deficiência! Estamos a falar de como melhorar a qualidade de vida de 1 milhão de pessoas em Portugal, de dezenas de milhões de pessoas na Europa e de centenas de milhões de pessoas no mundo inteiro! Juntos fazemos a força do desporto adaptado em Portugal… E por fim, para concluir a minha intervenção quero propor ao congresso que façamos uma saudação muito especial a toda a comitiva nos Jogos Paralímpicos Rio Janeiro 2016. Passo a ler: A todos os atletas paralímpicos que aumentam e dignificam o nosso país ao mais alto nível respondo, o nosso muito obrigado. A todos os ex. atletas paralímpicos e aos atletas que não conseguiram qualificação, por favor não desistam! As pessoas com deficiência e Portugal precisam do vosso exemplo.

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OPINIÃO

Jorge Falcato Deputado do Bloco de Esquerda jorge.falcato@be.parlamento.pt

Tempo de balanço Escrevo na véspera do dia 3 de dezembro. Dia internacional da pessoa com deficiência. Mais do que um dia de comemoração, enquanto não vivermos numa sociedade inclusiva, que não segregue nem discrimine ninguém pela sua cor de pele, orientação sexual ou diversidade funcional, penso que este dia deverá ser um dia reflexão sobre a vida das pessoas com deficiência. Aproveitemos então a data para fazermos um balanço do ano. Do tempo que passou desde o último dia 3 de dezembro. Foi um ano que trouxe novidades. Caiu um Governo de direita que de uma forma direta, ou indiretamente através de uma política de austeridade absurda, prejudicou seriamente a vida das pessoas com deficiência e das suas famílias. Novo Governo foi empossado. Dois orçamentos do estado foram aprovados. Já podemos tirar algumas conclusões. Há sinais, e algumas decisões já tomadas, que nos levam a crer que as coisas estão melhores, que uma nova política, um novo paradigma assente no reconhecimento de direitos humanos, e não num assistencialismo caritativo, está em marcha. E é verdade, se atendermos, por exemplo, a duas medidas já decididas. Os projetos-piloto de Vida Independente e a “revolução” que vai haver no domínio das prestações sociais com a entrada em vigor da chamada “prestação única”. São claramente duas medidas que vão no sentido correto. A Vida Independente permitirá a muitas pessoas com deficiência finalmente ter o poder de decidir onde, como e com quem viver. Uma alteração radical face a anos de políticas em que não havia alternativa, para quem precisava de ajuda de terceiros, entre ficar em casa e depender da família ou ir para um lar residencial e tornar-se dependente de uma instituição que lhe estabelecia horários, comidas, etc.. Será uma clara alteração de poder, em que a pessoa com deficiência terá os meios para ser dona da sua vida. Também a “prestação única” significa uma alteração significativa. Esta prestação irá ter uma componente de combate à pobreza que permitirá que as pessoas com deficiência que não tenham rendimentos suficientes vejam esses rendimentos complementados 20

até perfazer a quantia equivalente ao patamar do limiar de pobreza. Quer isto dizer, na prática, que quem era obrigado a viver com cerca de 200 euros da pensão social de invalidez, passará a ter um rendimento garantido que hoje seria cerca de 421 euros. Bastam estes dois exemplos para verificarmos que houve uma real alteração de paradigma nas políticas para a deficiência. Mas nem tudo corre bem. O problema está no tempo que está a levar a implementação destas políticas. Os projetos-piloto de vida independente já estavam previstos no orçamento do estado para 2016 e o que temos por enquanto é a promessa de que até ao fim do ano exista uma resolução no Conselho de Ministros de enquadramento destes projctos e a concretização das candidaturas passarão de certeza para o primeiro trimestre de 2017. Pior é a situação da “Prestação Única”. De acordo com os documentos de apoio às Grandes Opções do Plano para 2017, haverá uma implementação gradual e faseada que decorrerá até ao ano de 2019. Não sendo claro como vai ser este faseamento, o que sabemos é que está prevista a implementação duma primeira fase unicamente no quarto trimestre de 2017. Assim, o que podemos dizer do ano que passou? Que o caminho é este, mas que temos de caminhar muito mais depressa. Que o caminho é este, mas ainda há muita coisa para alterar e resolver. O Sistema de Atribuição de Produtos de Apoio continua um calvário burocrático sem resposta em tempo útil, onde ainda se continua a invocar a falta de verbas para recusar pedidos. A formação profissional inclusiva é ainda uma miragem. A educação inclusiva não está a cumprir de facto a sua função. A legislação sobre acessibilidade não está a ser respeitada, por incúria e desleixo dos responsáveis, mas também por falta de recursos disponíveis. O acesso ao emprego é o que se sabe. O próximo ano terá de ser o ano da concretização das intenções que têm sido expressas. Muito há para fazer. Mas há muito para fazer porque foram muitos os anos em que nada foi feito pela população com deficiência. Agora é meter mãos à obra e seguir em frente.


Saúde e bem-estar

A música é muito mais que um instrumento terapêutico


OPINIÃO

Ana Isabel Ferreira Terapeuta Ocupacional e presidente do I congresso Ibérico de Terapia Ocupacional

I Congresso Ibérico de Terapia Ocupacional Partilhar conhecimentos e práticas de excelência da Terapia Ocupacional entre Portugal e Espanha é o principal objetivo do I Congresso Ibérico de Terapia Ocupacional sob o tema “Terapia Ocupacional Além Fronteiras”. Este evento, organizado pela Associação Portuguesa de Terapeutas Ocupacionais em parceria com a sua congénere espanhola, contou com o apoio oficial do Instituto Politécnico de Beja – Escola Superior de Saúde e da Camara Municipal de Beja. A sua preparação foi desenvolvida por uma vasta equipa, constituindo a comissão organizadora e a científica, que desenvolveu o seu trabalho de forma afincada. O programa cientifico, divulgado em http://cibericotocupacional.wix.com/cibericoto incluiu a abordagem com pessoas e grupos com diferentes situações de disfunção ocupacional. A intervenção na comunidade com crianças com alterações de desenvolvimento e pessoas com alterações emocionais foram temas em destaque. Foi também disponibilizado um vasto leque de workshops, alguns patrocinados por empresas e outros que integraram o programa científico. Também houve lugar para a discussão, em formato de ted talks, de situações limite (por exemplo como as situações oncológicas, sequelas de queimaduras e os cuidados paliativos) em que o terapeuta ocupacional poderá ter um papel fulcral contribuindo para a qualidade de vida dos seus clientes e familiares.

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A intervenção com os mais velhos teve também vários momentos de destaque ao longo do congresso, nomeadamente a partilha de novas metodologias de intervenção em pessoas com demências e a importância da adaptação ambiental nos idosos. Para além do programa científico destaca-se a diversidade de comunicações propostas por colegas portugueses, espanhóis e brasileiros que decorreram em paralelo contribuindo para uma maior diversidade e riqueza dos temas abordados. Nos múltiplos workshops, científicos e das empresas patrocinadoras, foram abordados temas e equipamentos para a intervenção com populações específicas, criando-se nestes momentos uma maior interatividade entre os participantes, oradores e a experimentação de equipamentos. De igual forma o programa social contou com vários momentos, desde o jantar comemorativo do congresso à atuação da tuna do Instituto Politécnico de Beja e de um grupo coral infantil. A interação entre os participantes e oradores foi uma constante considerando-se que os momentos sociais constituíram excelentes oportunidades para tal. Os terapeutas ocupacionais Portugueses, Espanhóis e de outros países, os patrocinadores e as entidades oficiais, juntos, fizeram deste, um evento de sucesso!


OPINIÃO

I Congresso Ibérico de Terapia Ocupacional Em 2014 decidi criar um projeto digital em nome da Esclerose Múltipla, achava que havia muito pouca informação dada pelos portadores desta patologia, havia mais a fazer. Foi assim que o todosesclrosemultipla apareceu no Facebook, por ser o sítio onde mais circulavam os portadores, as famílias e os players que podiam fazer passar a mensagem. Ao longo destes anos, não foi fácil esta missão, mas é bastante gratificante. Partilhar experiências, encaminhar sugestões e alertas para uma sociedade muito desinformada. Nunca pretendia, vir a criar uma associação ou até fundação, somos um país relativamente pequeno onde já existem bastantes associações neste sentido, mas muito pouco estruturadas e organizadas. Aqui o objetivo é fazer circular informação, ao contrário de outras páginas que assumiram um carácter mais de desabafos e lúdica. Também pretendia divulgar eventos menos focados na doença, mais lúdicos, mas na perspetiva de atividades onde estejam os portadores com esclerose múltipla a participar, para que outros se sintam motivados a participar também. Mas o enfase maior e principal é chamar a sociedade civil, para a realidade desta patologia. Em breve, mais para o próximo ano, quero desmistificar a questão que a esclerose múltipla é algo que só se manifesta por incapacidade motora, também temos as incapacidades cognitivas que estão alojadas no cérebro de cada um de nós, que não se veem, como é o meu caso, com 26 anos de diagnóstico e sem sinais de incapacidade motora fortemente visíveis.

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OPINIÃO

Marta Figueiredo Psicóloga Clínica m.ffigueiredo12@gmail.com

O Cuidador. Aquele que cuida da dor do outro. “Ainda que os teus passos pareçam inúteis, vai abrindo caminhos, como a água que desce cantando da montanha. Outros te seguirão…” (Saint – Exupéry). A relação entre o ato de cuidar e o cuidador é consequência da história de vida de cada indivíduo envolvido na dinâmica familiar existente entre cuidador e a pessoa com uma doença crónica, deficiência ou outra condição de saúde de longa duração, ou com necessidade de cuidados. Ser cuidador informal é dar atenção, é ter disponibilidade, doar-se e dedicar-se, é algo inevitável, além de ser um trabalho (Mendonça, M.K, 1998). O cuidador vive em função de outra pessoa. Diariamente fica subentendido às necessidades do cuidado. Nesta perspetiva adia o seu “eu” para um logo que possível. É urgente criar um grupo de apoio a pessoas que vivam nestas circunstâncias e que possam ter um espaço deles no qual se possa partilhar os seus dilemas e encontrar no outro cuidador uma fonte de suporte e apoio. Segundo estudos, o cuidador é percecionado como um indivíduo que não procura atendimento regular para a sua saúde, não realiza actividades de lazer, de trabalho ou qualquer outro tipo de ações que não estejam relacionadas com as de cuidar do outro. O cuidador tem, por vezes, dificuldade em cuidar de si próprio. As prioridades vão-se alterando à medida que o estado de saúde da pessoa dependente se agrava e os cuidados pessoais do cuidador acabam por ficar em último lugar numa lista de tarefas árduas. Há quanto tempo não pensa em si? Há quanto tempo não vai ao cinema? De forma espontânea e com vontade de ir… Cuidar de um ente querido não é simples, mas é importante valorizar a sua qualidade de vida. Um cuidador que se sinta bem, física e psicologicamente, irá certamente prestar melhores cuidados. Numa entrevista recente à sábado, Manuel Capelas, presidente da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos

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defendeu que a sobrecarga dos cuidadores informais de doentes “é equivalente” ao burnout (reação de stresse crónico no trabalho) dos profissionais de saúde. Apesar de incentivar e defender a ideia de cuidar dos doentes em casa, mas com todas as condições reunidas. Os médicos e os enfermeiros saem dos seus trabalhos e regressam a casa onde encontram suporte e os cuidadores nem por isso. Estas famílias precisam de apoio social, laboral, psicossocial, psicológico, para evitar que atinjam “um ponto de ruptura, de desespero total, porque já não aguentam”. Portugal, segundo um estudo da Entidade Reguladora da Saúde, tem a maior taxa de cuidados continuados e paliativos, prestados por pessoas sem preparação nem qualificação para tal, e uma das mais baixas taxas de cobertura de cuidados prestados por profissionais em toda a Europa. É tempo de agir e, como tal, em parceria com a Plural e Singular, delineei uma resposta para este problema. Foi estruturado um projeto nesta área que tem como intuito criar grupos de apoio para pessoas que vivam nestas circunstâncias. Nas sessões os cuidadores vão poder usufruir de um espaço no qual se revejam e onde partilhem e encontrem no outro cuidador uma fonte de suporte e apoio. Aguardamos apenas alguma forma de financiamento ou patrocínio para avançar… Para mais informações não hesite em contactar-nos. Referências Bibliográficas http://www.sabado.pt/ciencia___saude/detalhe/sobrecarga_dos_cuidadores_equivalente_a_iburnouti_dos_medicos.html?utm_campaign=Echobox&utm_medium=Social&utm_source=Facebook#link_ time=1478250789 acedido a 15/11/2016. MENDONÇA, M. K. A realidade dos cuidadores: assistência em domicílio aos portadores de câncer. 1998. 173f. [Dissertação] - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul acedido a 10/03/2016. http://eurocarers.org/informcare/carers/your-own-needs-pt/copingwith-caregiving-pt/looking-after-yourself-pt/?lang=pt-pt acedido a 13/9/2016.


SAÚDE E BEM-ESTAR

A música é muito mais que um instrumento terapêutico Esta é uma história sobre o poder da música. Fala sobre um jovem com autismo que encontrou na música uma forma de comunicar com o mundo. Fala de uma mãe que nunca desistiu de encontrar um caminho para ajudar o filho. Fala também de uma terapeuta da fala que a acompanha nesse percurso, dos professores de piano e de guitarra que aceitaram o desafio de dar aulas ao Paulo e, mesmo sem falar delas, fala de todas as pessoas que fazem parte da vida dele. Texto: Sofia Pires Fotos: Gentilmente cedidas

O Paulo e a música

Provavelmente se o Paulo não tivesse um piano em casa, “à mão de semear”, agora, aos 16 anos, não estaria a ter aulas de guitarra no Conservatório de Música de Felgueiras. Não fosse o piano da irmã e a mãe nunca teria percebido a vocação que apresentava para a música. Aprendeu tudo sozinho, portanto, pode-se considerar um autodidata. Mas Conceição Ferreira, a mãe, entendeu que fazia sentido investir no desenvolvimento desta competência artística e decidiu acompanhá-lo nas aulas particulares de piano. “Ele ouve uma música e toca automaticamente. Então pensei que seria bom que ele lesse uma pauta e eu também comecei a aprender, porque vi na música mais uma linguagem para ter com ele”, explica a mãe do Paulo. Com mais três filhos e uma vida bastante ocupada, Conceição Ferreira não tinha tempo para praticar e, como tal, não conseguiu acompanhar os progressos do filho. “E eu bem queria estudar, porque música é estudo. O tempo foi passando e ele começou a avançar muito e eu, este ano, disse à professora que achava que o estava a prejudicar”, conta. Conceição Ferreira optou por abdicar das lições, mas decidiu apostar ainda mais na aprendizagem do filho e conseguiu que o Paulo complementasse as aulas de piano com aulas de guitarra clássica. Ana Luísa Silva é terapeuta da fala e acompanha o Paulo há 10 anos. Diz que a capacidade de aprendizagem de uma criança autista “vai depender da capacidade de interação e de comunicação” e “dos défices de motricidade global e, muitas das vezes, de motricidade fina” que apresentam. Mas uma criança autista “pode ser boa em qualquer área desde que essa área seja também do seu interesse, um interesse muito vincado”. “No caso do Paulo não é só ouvir música, é o tocar que implica uma série de competências muito diferentes. Eu, por exemplo, não conseguiria tocar piano da maneira que ele toca, nem de tirar as músicas de ouvido como ele faz e isso implica algum nível de abstração e está relacionado com esse interesse”, explica.

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SAÚDE E BEM-ESTAR

Olhando para a realidade que tão bem conhece, a terapeuta da fala afirma que “quase todas as crianças com autismo gostam de música”. Por isso, muitas das vezes a música é uma excelente aliada em contexto terapêutico, servindo “como uma forma de relaxamento”, ou sendo “utilizada como uma forma de adquirir outras competências, por exemplo, associar uma determinada ação a uma música”. “Quando vai lavar os dentes usar uma música que fale sobre lavar os dentes”, exemplifica. “E até os miúdos que não usam praticamente a fala, começam muitas vezes a repetir essas músicas em contexto adequado. E a música acaba por ser uma forma deles começarem a comunicar aquilo que vão fazer”, completa.

Neste momento o Paulo também foi evoluindo no sentido dessa área já não ser nem só de lazer, nem terapêutica, mas é no fundo uma área de estudo para ele. Porque realmente já é uma competência bastante avançada, na minha opinião.” Terapeuta da fala, Ana Luísa Silva O Paulo, a música, a interação e a comunicação

O problema do Paulinho, como a mãe carinhosamente se refere ao filho, está relacionado com a interação e é, por isso, que a terapeuta da fala, que o acompanha, utiliza a música como uma forma de potenciar a comunicação. “Esta foi uma das formas dele fazer pedidos, tinha que pedir música, tinha que pedir mais, pedir que tipo de música é que queria”, explica. O Paulo, segundo Ana Luísa Silva, é um jovem com défices acentuados em termos de compreensão linguística, em termos de expressão e em termos de comunicação, apesar de ser um rapaz com muita intenção para comunicar: “Ele sabe comunicar, ele sabe o que quer, tem gostos, tem preferências. O Paulo aprendeu a comunicar de uma forma correta e também a apreender aquilo que as outras pessoas lhe diziam”, descreve a terapeuta da fala. Quer isto dizer que ele é capaz de seguir instruções que lhe sejam dadas, é capaz de fazer pedidos, é capaz de cumprimentar. “As funções mais básicas ele tem-nas adquiridas. Comenta situações que veja, o que é já uma função comunicativa mais avançada. É capaz de responder a perguntas e fazer algumas perguntas. Depois em termos de diálogo é evidente que o Paulo tem mais dificuldades”, descreve.

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Conceição Ferreira quer que o Paulo saiba estar com as pessoas e tem esperança que não seja preciso a presença dela para “apaziguar” sempre que ele possa ficar “um bocadinho mais desadequado”. Já a terapeuta da fala diz que ele “é um miúdo muito dócil, muito fácil de levar”. “Desde que conheço o Paulo nunca o vi alterado, sempre foi um miúdo muito calmo. A maior dificuldade do Paulo tem mais a ver com algumas estereotipias que ele apresenta. E também é isso que prejudica a aprendizagem dele. Às vezes está tão centrado nas suas estereotipias que acaba por não conseguir prestar atenção a nada do que o rodeia”, refere Ana Luísa Silva. No entanto, tanto a mãe como a terapeuta da fala acreditam que a integração no mercado de trabalho, ainda que em sistema de emprego protegido, é possível em casos como o do Paulo. “Ele tem competências muito boas e o comportamento permite desenvolvê-las mesmo a nível de trabalho”, afirma a terapeuta da fala. É por isso que Conceição Ferreira não baixou os braços e preferiu adiar o Plano Individual de Transição (PIT) do Paulo por considerar que ainda não estava preparado para dar esse passo – “Deveria fazer uma espécie de estágio para a preparação e integração no mercado de trabalho”, explica. Prefere continuar a investir do ensino artístico da música para que um dia essa transição se faça através daquilo que ele mais gosta. “É aí que eu quero apostar, não sei se vou conseguir. Mas o meu objetivo é que o Paulo seja o mais independente possível”, refere.

O Paulo, a música, a interação, a comunicação e o Festival Internacional de Guitarra de Guimarães 2016

Há 16 anos atrás Conceição Ferreira conheceu o universo das perturbações do espetro do autismo. Quando o Paulo nasceu, a mãe, desde logo, notou que algo não estava bem, mas o pediatra considerava tudo normal. “Eu já tinha tido a minha filha e a dar de mamar era muito diferente, o Paulinho sugava-me, não olhava para mim. Ele não nos ligava e depois de repente ria-se sozinho. A gente falava e parecia que não ouvia. Tudo isso não era normal. O tempo foi passando e o primeiro teste que eu fiz foi auditivo. Depois foi uma procura e um dia li um artigo numa revista e eu disse ‘este é o meu filho’. Nunca tinha ouvido falar disso”, lembra. Olhando para trás, assume que andou muito tempo à procura de um salvador. “Não há salvadores para nada”, descobriu. Esta é uma doença cansativa e desgastante” – um desabafo que logo interrompe para afirmar: “Não gosto de falar do lado negativo desta doença porque não se pode olhar para aí”.


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O Paulo também frequenta aulas de natação e tanto a professora desta modalidade como os professores de piano e guitarra não tinham qualquer experiência a lidar com as peculiaridades dos miúdos com autismo. Há estratégias que se podem utilizar para ensinar miúdos com perturbações do espetro do autismo e a terapeuta da fala, Ana Luísa Silva, resumiu à Plural&Singular aquilo que considera mais importante para o ensino seja do que for: • Antecipar o que vai fazer, escrever de preferência num papel, tentar não alterar muito esta estrutura e sempre que se fizer uma alteração nessa estrutura deve-se antecipar devidamente: “Hoje não vamos fazer assim, vamos fazer de outra maneira”; • Ter cuidado na forma como se fala, porque eles têm muitas vezes dificuldade em processar a informação que lhes estamos a dar. Não podemos fazer frases muito complexas, nem muito longas porque senão acabam por se baralhar. Convém ter um discurso simples, concreto;

• Dar tempo para a pessoa poder processar a informação; • Ser firme. Eles precisam de alguns cuidados em termos de compreensão, mas devem ser tratados como os outros. Se é para fazer algo e o professor está a mandar é para fazer.

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Não é fácil, mas anda tudo a aprender, não se sabe nada ainda. Se for a um congresso sobre autismo, não há respostas. Mas se eu encontrasse alguém que tivesse um bebé pequenino acho que aconselhava a fazerem intervenção precoce e intensiva. Uma vez por semana, isso não faz nada. Tudo é pouco. E outra coisa: é importante fazer perceber aos pais que eles também têm poder sobre aquela doença”. Conceição Ferreira

A mãe do Paulo frequentou, em 2011, a primeira formação de apresentação do Programa Son-rise em Portugal e considera que, embora de uma forma informal e ingénua, desde sempre aplicou estes princípios para lidar com o filho. “É o método do amor, do amor verdadeiro. Luta-se, aceita-se, compreende-se e tem que se encontrar mecanismos para ajudar. Isso não é fácil, é muito difícil”, explica. Conceição Ferreira acredita que este é o caminho para se observar melhorias e entende que vale a pena insistir. “A mãe do Paulo é uma pessoa muito atenta e muito empenhada. É a pessoa que mais o ajuda, ela funciona, não só como mãe, mas também como terapeuta e professora do Paulo”, refere Ana Luísa Silva. As expetativas são elevadas em relação ao Paulo. Mas poderiam ter outro grau? “Se ela [Conceição Ferreira] não tivesse essas expetativas também não se empenharia tanto. Se ela achasse que o Paulo era um caso perdido, o Paulo nunca conseguiria aquilo que é capaz hoje em dia porque ela já teria desistido”, avalia a terapeuta da fala. É por isso que o Paulo vai participar no III Festival Internacional de Guitarra de Guimarães 2016, que decorre de 22 a 30 de dezembro, na Cidade Berço. Este evento conta com a direção artística de Nuno Cachada, o professor de guitarra que há cerca de dois meses aceitou o desafio de lhe dar aulas. “Agradeço-lhe do fundo do coração. Acho-o muito corajoso”, elogia a mãe. O evento é composto por concertos, masterclasses, workshops, conferências e um concurso internacional e, em princípio, o Paulo vai participar na componente formativa. São experiências, e o “Paulo tem muitas experiências que outros miúdos com autismo não têm”. Ana Luísa Silva explica que “como o comportamento destas pessoas é muito instável, não saem de casa como deviam”. A terapeuta da fala considera que “não se pode culpar os pais por isso”. “Realmente há jovens que têm comportamentos complicados e nunca se sabe como vão reagir em determinadas situações e os pais têm receio e a nível social acaba por ser complicado”, conclui. O Paulo, este ano, vai ao Festival Internacional de Guitarra de Guimarães, graças à mãe que acredita. Graças à mãe que não desiste. E o Paulo agradece, certamente. 28


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Festival Internacional de Guitarra de Guimarães 2016

Onde se encontra a música ao serviço da inclusão Em conversa com o diretor artístico do Festival Internacional de Guitarra de Guimarães, Nuno Cachada, a Plural&Singular ficou a conhecer as novidades do programa da edição de 2016 deste evento que decorre de 22 a 30 de dezembro, em Guimarães. Texto: Sofia Pires Fotos: Gentilmente cedidas

com universidades e associações e contando com vários apoios. P&S - Quais são as expetativas para esta edição? NC - À semelhança dos anos transatos, esperamos uma forte adesão não só no contexto formativo, mas também ao nível do público para os concertos. Esperamos atingir não só o público especializado no instrumento, mas também o público em geral. P&S - Em relação às condições de acessibilidade mantém-se a disponibilização de programas em Braille e o apoio às deslocações de pessoas com deficiência, assim como, a acessibilidade de alguns dos espaços onde se realizam alguns momentos da programação? Há mais alguma coisa a assinalar? NC - Temos tentado ao longo destes três anos tornar o festival acessível a TODOS. Na medida do que nos é possível tentaremos sempre melhorar as condições de forma a que todos possam usufruir da nossa oferta ao nível das várias rubricas que compõem o Festival Internacional de Guitarra de Guimarães.

Plural&Singular (P&S) – Quais são as novidades, de uma forma geral, em relação à programação e outros aspetos relevantes para o público? Nuno Cachada (NC) – O FIGG 2016 mantém o formato de sucesso do ano de 2015, concertos, masterclasses, concurso internacional e ciclo de conferências. O festival começará este ano mais cedo com o Ciclo de Conferências, que foi antecipado para o dia 22 de dezembro de forma a dar-lhe um pouco mais de visibilidade e de permitir que todos possam participar sem colidir com os horários das restantes atividades. No que diz respeito à oferta formativa, resolvemos aumentar o número de masterclasses de duas para três. O Concurso Internacional de Guitarra “Cidade de Guimarães” ganhou também uma nova categoria até 8 anos de idade. Paralelamente às suas rubricas dominantes, a edição de 2016 apoia também a realização de outros eventos tais como partidas simultâneas de xadrez com mestres nacionais, um torneio de xadrez e a discussão de variados temas como o ambiente, atividades alicerçadas em várias parcerias 30

P&S - Este ano, como professor, tem um aluno autista. Como tem sido trabalhar com ele? Fale-me dele? NC - Tem sido uma experiência muito enriquecedora. O Paulinho tem uma grande paixão pela música e comunica através dela. Como já possuía algumas competências ao nível do instrumento, adquiridas de forma autodidata, facilitou bastante o meu trabalho inicial. Até ao momento, o Paulinho tem cumprido com facilidade as metas propostas para todas as aulas. Ao nível comportamental é necessária alguma adaptação da minha parte, mas vou procurando novos caminhos para o motivar, mantendo sempre em vista um objetivo que é o de que ele adquira competências técnico/musicais que lhe permitam concluir o curso de guitarra como qualquer outro aluno, caso deseje candidatar-se a exame. O apoio da mãe e da família também tem sido fundamental no sucesso da sua aprendizagem. P&S - Tem alguma mensagem a deixar para quem julga que o ensino artístico está vedado a pessoas que tenham perturbações do espetro do Autismo? NC - O Conservatório de Música de Felgueiras, uma das instituições onde trabalho, prova exatamente o contrário. O ensino artístico é para TODOS.


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OPINIÃO

Andreia Rocha, Fisioterapeuta saraandreia@gmail.com Cátia Candeias, Fisioterapeuta Ana Candeias, Médica de Medicina Geral e Familiar Teresa Moura Bastos, Médica interna de Medicina Geral e Familiar

Quedas nos Idosos. Como evitá-las? Em Portugal, a cada ano, uma em cada três pessoas idosas (idade igual ou superior a 65 anos) sofre um acidente doméstico (Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, 2005). Estes são essencialmente devido a quedas que ocorrem em casa quando a pessoa está nas suas atividades habituais e, apesar do risco de cair ser grande, muitos destes acidentes podem ser evitados ao compreendermos as suas causas e ao preveni-las (DGS. Prevenção de Acidentes Domésticos com pessoas Idosas). As consequências destas quedas não são apenas diretas, resultante da lesão em si, mas também indiretas, pois condicionam o nível de ansiedade, decorrente do medo de voltar a cair, a perda de confiança e consequentemente a redução da atividade diária, com perda de qualidade de vida. Nas pessoas idosas as principais causas que contribuem para o aumento da probabilidade de queda são: a) diminuição da massa muscular, b) osteoporose, c) diminuição da visão e da audição, d) diminuição ou ausência de condições de segurança da habitação (DGS. “Prevenção de Acidentes Domésticos com pessoas Idosas”). As mais recentes recomendações publicadas pela U.S. Preventive Services Task Force apontam para a avaliação individual do risco em todas as pessoas de mais de 65 anos, a fim de identificar as que têm risco acrescido de queda, de forma prática e rápida, baseada na história anterior de queda, na existência de problemas de mobilidade e numa execução inadequada do Teste Timed Get‐up and Go (DGS e fundação MAPFRE. 2012). A partir desta avaliação há um conjunto de áreas nas quais podemos intervir. A efetividade da intervenção depende de uma abordagem combinada e multidisciplinar, concentrada num esforço conjunto do próprio, do cuidador, do seu médico assistente, do seu fisioterapeuta e do seu farmacêutico. A identificação dos fatores de risco da pessoa idosa para quedas assume extrema importância (DGS e fundação MAPFRE. 2012). Esta área prende-se com a avaliação

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das condições de segurança da habitação. O cuidado de ter uma boa iluminação em casa, espaços amplos que permitam a mobilidade fácil, fios elétricos presos à parede, prateleiras ao nível da cintura, barras de apoio na banheira ou sanita, escadas com corrimão (no menor número possível), poucos tapetes (bem fixos ao chão) são apenas alguns dos exemplos que permitem reduzir o risco de queda. A utilização de sapatos com saltos largos e calcanhares reforçados (não use chinelos, prefira sapatos fechados), bem como auxiliares da marcha (bengala, andarilho) são outras medidas consideradas importantes (DGS. “Prevenção de Acidentes Domésticos com pessoas Idosas”). A revisão da medicação assume um carater essencial, dado que um maior consumo de medicamentos poderá traduzir-se numa maior probabilidade de efeitos secundários e de interações entre eles (DGS e fundação MAPFRE. 2012). Acresce o facto de uma maior disponibilidade de medicamentos aumentar a confusão sobre posologia. Reforça-se o papel do cuidador, do médico de família, do fisioterapeuta e do farmacêutico na revisão da medicação, nomeadamente conferindo “a caixa dos medicamentos”. A existência de uma doença crónica (como diabetes, incontinência urinária, patologia cardíaca, doença reumática e depressão), doença neurológica ( com afetação do equilíbrio e a marcha,) problemas cognitivos e problemas de visão estão com frequência associados a um aumento do risco de queda no idoso (DGS e fundação MAPFRE. 2012). Por fim, há que salientar a importância da prática moderada, regular e disciplinada de atividade física para a manutenção da saúde mental, controlo ponderal, manutenção da massa óssea, do equilíbrio, da mobilidade e do tempo de reação (DGS e fundação MAPFRE. 2012). Para as pessoas idosas que iniciam uma atividade física é essencial perceber o nível de esforço e atividade adequada à sua situação clínica e para tal podem contar com o


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apoio do seu médico de família e fisioterapeuta. De facto, neste ponto, o fisioterapeuta revela um papel fundamental, nomeadamente ao estabelecer um plano de exercício físico individualizado e que abranja as componentes de endurance, força muscular, equilíbrio estático, equilíbrio dinâmico, equilíbrio ativo e equilíbrio reativo/protetivo. Integrar o idoso em grupos de exercício com indivíduos da mesma faixa etária e com condição clínica semelhante assume particular importância, uma vez que é este aspeto social e de interação com pessoas da mesma idade que mais motiva os indivíduos a não abandonarem as sessões de exercício e a revelar, no final, melhores índices de sucesso (SKELTON et al., 1999). Segundo a evidência, a realização de exercício em grupo complementado com exercícios em casa melhoram o equilíbrio e o número de quedas em pessoas idosas (BARNETT et al., 2003). Em suma, a prevenção de quedas no idoso implica uma atenção em vários domínios de forma a minimizar danos e potenciar um envelhecer ativo e saudável.

Bibliografia: • BARNETT, A. [et al.] - Community-based group exercise improves balance and reduces falls in at-risk older people: a randomised controlled trial. Age Ageing. Vol. 32, n.º 4 (2003), p. 407-14. • Center for disease control and prevention. “Preventing falls: A Guide to Implementing Effective Community-Based Fall Prevention Programs”. Georgia, 2015 • Direção-Geral da Saúde. “Prevenção dos acidentes domésticos com pessoas idosas”. • Direção-Geral da Saúde e Fundação MAPFRE. Programa Nacional de Prevenção de Acidentes. Projeto: COM MAIS CUIDADO - Prevenção de acidentes domésticos com pessoas Idosas. Manual de Apoio e Formulário. Lisboa. 2012 • Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge. Observatório Nacional de Saúde. ADELIA – Acidentes Domésticos e de Lazer Informação Adequada. Relatório 2005 • Jamehl L. Demons, Pamela W. Duncan . “The Role of Primary Care Providers in Managing Falls”. NCMJ, vol 75 nº5. 2014 • Luk. J, Chan. T, Chan. D. “Falls prevention in the elderly: translating evidence into practice.” CME. 2015 • SKELTON, D. A.; DINAN, S. M. - Exercise for falls management: Rationale for an exercise programme aimed at reducing postural instability. Physiother Theory Pract. Vol. 14, n.º 1 (1999), p. 105 16. https://www.google.pt/search?q=quedas+em+idosos&client=firefox-b&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwjqvf-R5ZfQAhXEwxQKHTT9A8UQ_AUICSgC&biw=1131&bih=490&dpr=0.9#imgrc=7f9IMJdL0tnhXM%3A

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OPINIÃO César Sá Fisioterapeuta na CERCI Moita-Barreiro Docente Externo da Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa (ESSCVP) ft.cesarsa@gmail.com Maria Jantarão Aluna do 4º Ano de Fisioterapia da Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa (ESSCVP) mariajantarao3398@esscvp.eu

A utilização da Toxina Botulínica e a Intervenção da Fisioterapia na Pediatria A Toxina Botulínica é um dos recursos utilizados no tratamento da espasticidade (aumento de tónus muscular no momento da contração) nas crianças, existindo 7 tipos (A, B, C, D, E, F e G), com efeitos variáveis na fisiologia da junção neuromuscular, sendo produzida pela Clostridium Botulinum (bactéria anaeróbia).1 A toxina do tipo A (TBA) é a mais utilizada clinicamente por apresentar um efeito mais rápido e eficaz, em crianças com Paralisia Cerebral, demonstrando maior evidência na Paralisia Cerebral Espástica que apresenta como características, rigidez muscular, contrações musculares involuntárias, diminuição da amplitude de movimento, coordenação, movimentos seletivos e desempenho funcional, assim como, podem também apresentar alterações cognitivas, visuais e perceptuais.2 A Toxina Botulínica é assim uma neurotoxina que atua na junção neuromuscular, a nível do terminal pré-sináptico, impedindo a libertação de acetilcolina na fenda sináptica e o impedimento da despolarização no terminal pós-sináptico, bloqueando a contração muscular (sendo o efeito de 3 a 6 meses ou de 4 a 6 meses dependendo da literatura), ou seja, irá criar uma inibição do músculo agonista (o que realiza o movimento) e uma facilitação da atividade/contração do músculo antagonista (músculo oposto ao que realiza o movimento), sendo o efeito reversível após alguns meses da sua aplicação, pois não impede a produção de acetilcolina. Pode causar também uma desenervação química reversível sobre a placa motora, atuando na redução da atividade muscular tónica (rigidez constante) ou fásica (espasmos, contrações involuntárias e repetitivas) excessiva, levando a uma diminuição da espasticidade. É aplicada através de injeção intramuscular no ponto motor do músculo ou dependendo do número de músculos, dosagem e combinação dos mesmos, a sua ação química irá reduzir a atividade muscular tónica ou fásica excessiva, levando à melhoria do movimento ativo e passivo, permitindo também um maior e melhor alongamento dos músculos.1,2 Geralmente a dose total é distribuída por quatro pontos, para abranger um número maior de placas neurais. A melhor técnica é aquela na qual a menor dose e volume de TBA são libertados próximos da placa motora terminal (local de transmissão neuro química de acetilcolina), sendo que a aplicação deve ser feita através de electroestimula34

ção, de forma a localizar os pontos motores com maior precisão. A indicação para a utilização da Toxina Botulínica é a presença de espasticidade localizada num grupo muscular ou apenas num músculo, sendo que existem outras indicações tais como: o alívio de espasmos dolorosos, a melhoria da higiene, do posicionamento e a facilitação do uso de ortóteses.1,2 Os possíveis efeitos colaterais são as reações cutâneas locais, dor nos pontos de injeção, podendo também sofrer fraqueza nos músculos bloqueados adjacentes.1,2 São consideradas como contraindicações relativas, o uso de antibióticos do grupo dos aminoglicosídeos, afeções da junção neuromuscular e doenças do motoneurónio, gravidez e lactação.1,2 Os efeitos clínicos resultantes da aplicação da TBA geralmente começam a ser evidenciados no período de um a três dias (24-72 horas) após a aplicação, sendo que os maiores efeitos são observados na segunda e quarta semana após o procedimento. Contudo, esta resposta à aplicação deste medicamento não é consensual.1,2 Como a aplicação da TBA tem efeitos num período reduzido de tempo, frequentemente adota-se a conduta clínica de mais de uma aplicação no mesmo utente.1 Os efeitos observados numa aplicação, nem sempre se mantêm em aplicações posteriores. Em geral, o início do efeito da segunda aplicação é mais gradual e tardio, comparado com a primeira aplicação.1 Num estudo prospetivo, realizado por Pascual (1997, citado por Portella et al, 2004) os efeitos da primeira dose foram observados, em média, sete a oito dias após a aplicação, sendo que a duração dos mesmos foi de quatro meses e meio.1 Posto isto, após a sua aplicação o grupo muscular sofre uma redução de espasticidade (podendo levar a fraqueza muscular e paresia - diminuição dos movimentos, nos primeiros momentos após a aplicação), o que irá facilitar os movimentos para a realização de um programa de intervenção fisioterapêutico.1,2 É assim um método pouco invasivo, apresentando resultados quase imediatos e com efeitos colaterais mínimos, que retarda a necessidade de cirurgias ortopédicas em crianças portadoras da doença. Na Paralisia Cerebral a qualidade dos resultados tornase melhor, quanto mais cedo for administrada a TBA, evitando o desenvolvimento de contraturas e permitindo que o músculo alongado cresça juntamente com o esqueleto ósseo.1,2


OPINIÃO

promoção do desempenho funcional.3 Concluindo, de acordo com a evidência cientifica mais recente, a TBA combinada à Fisioterapia tem demonstrado ser útil no tratamento da espasticidade de utentes portadores de Paralisia Cerebral, sendo um elemento facilitador para a realização de atividades funcionais através da graduação na escala de atividades funcionais dinâmicas, contribuindo para a melhoria clínica global, observando-se também que a TBA reduz a hipertonia (aumento de tónus) muscular através da graduação na escala de Ashworth modificada.1,2 O uso da TBA em crianças com Paralisia Cerebral demonstrou como principal resultado a redução da espasticidade nos membros inferiores.2 Estes estudos estão direcionados ao uso da TBA para a diminuição da espasticidade da extremidade inferior e os resultados revelam um efeito temporário, com consequente melhoria da amplitude de movimento e da marcha nestas crianças.2,3,4,5 Estes efeitos funcionais são geralmente observados quando o uso da TBA é associado ao tratamento fisioterapêutico e ao uso de ortóteses de posicionamento. Assim, a TBA é um método de tratamento eficaz e seguro para a redução da espasticidade que, associado com o tratamento fisioterapêutico, proporciona maior independência funcional na marcha e noutras atividades funcionais como o sentar, levantar, rolar, gatinhar, e, na qualidade de vida destas crianças.2,3,4,5

A literatura atual faz referência à importância da fisioterapia após este bloqueio químico.2,3,4,5,6 Com o tratamento fisioterapêutico ocorre a inibição da atividade reflexa patológica, possibilitando a adequação terapêutica do tónus muscular, facilitando dessa forma, padrões de movimento próximos da normalidade, e consequentemente, o aumento da mobilidade articular, da força muscular, do controlo seletivo, bem como na melhoria da função motora através do treino funcional (processo de reaprendizagem do movimento através da prática e aumento da função motora), no alongamento e posicionamentos adequados (tornam os músculos menos reativos a estímulos nervosos alterados), na melhoria da funcionalidade e evitando o surgimento de deformidades. 3,4,5 O Fisioterapeuta possui assim um papel muito importante desde o auxílio na avaliação, seleção e determinação de objetivos mesmo antes da aplicação da TBA, sendo posteriormente importante realizar um plano de intervenção adequado e que permita o aumento e ganho das componentes nomeadas anteriormente. Sendo assim, é muito importante que o utente esteja inserido num processo de reabilitação, de modo que após o procedimento, os músculos antagonistas aos músculos injetados possam ser trabalhados especificamente, e que se demonstre sucesso no tratamento após a aplicação de TBA. Quanto à utilização de ortóteses para manutenção do posicionamento articular adequado, é fundamental no tratamento da espasticidade e após aplicação de TBA, pois posicionam os músculos num determinado grau de alongamento, evitando que os mesmos entrem em retração, podendo auxiliar na função e melhorando o padrão de marcha e a posição de pé. 2,3,4,5 A Fisioterapia Aquática também desempenha um papel importante na melhoria da funcionalidade e nos padrões motores alterados, uma vez que, as propriedades físicas da água como a impulsão (força oposta à força de gravidade) e a pressão hidrostática (força que atua sobre as superfícies submersas) tornam o movimento mais fácil de ser realizado, auxiliando no fortalecimento muscular e no relaxamento pelo calor (temperatura da água 3233ºC). Assim, a reabilitação faz com que os benefícios da redução da espasticidade após a aplicação da toxina possam ser maximizados através de exercícios de fortalecimento, alongamento e eletroestimulação, visando a

Referências Bibliográficas: 1- Portella.V.L; Dornelas.L.F; Santiago; Maia. A. P; Mancini.C.M. (2004). Os efeitos da Toxina Botulínica no tratamento de espasticidade. Revisão da Literatura; 2- Franco.B.L; Pires.C.L; Pontes.S.L; Sousa.J.E. (2006). Avaliação da amplitude articular do tornozelo em crianças com paralisia cerebral após a aplicação de toxina botulínica seguida de Fisioterapia; 3- Resende.C.M.G; Nascimento.V.F; Leite.J.M.R.S. (2005). Eficácia da toxina botulínica tipo A- associada a fisioterapia em uma criança hemiplégica espástica; 4- Teles.S.M; Mello.L.C.M.E. (2011). Toxina botulínica e fisioterapia em crianças com paralisia cerebral espática. Revisão bibliográfica; 5- Júnior.C.P.I; Toffol.C.W; Júnior.B.C; Fonseca.P.G. (2009). Desempenho funcional da marcha em indivíduos com paralisia cerebral após aplicação de toxina botulínica submetidos à fisioterapia. Revisão da literatura; 6- Barber.L; Hasting-Ison.t; Baker.R; Graham.K.H; Barrett.R; Lichtwark.G.(2013).

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1.º Prémio | Nuno Pereira| Amputação | 2016 | Porto

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Concurso de fotografia: 144 imagens de inclusão na diversidade O concurso de fotografia “A inclusão na diversidade”, lançado em 2014 pela Plural&Singular, em parceria com o Centro Português de Fotografia (CPF), conseguiu cumprir o desafio de ultrapassar a centena de “exemplares” de inclusão ou exclusão. Das 144 fotografias a concurso, este ano o júri distinguiu três fotos e atribuiu duas menções honrosas. Texto: Sofia Pires Fotos: Gentilmente cedidas

Sobre as fotografias vencedoras…

As fotografias vencedoras são excelentes, de uma plasticidade incrível. Para além das questões estritamente técnicas, são imagens marcantes e muito bonitas, o que eu penso que é fundamental quando tratamos temos de inclusão”. Presidente do júri do concurso de fotografia, Sónia Silva

A Julieta é a protagonista da fotografia que recebeu o 1.º Prémio do concurso de fotografia. Amputada desde os cinco anos, devido a uma virose mal curada que levou à necrose dos tecidos das pernas e respetiva amputação, na fotografia, ela está sentada na escadaria principal da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Está sem as próteses que lhe permitem descer essas mesmas escadas. “O seu olhar contemplativo sobre as próteses retrata o sentimento existente relativamente a elas: de ódio por não poder dispensá-las, de necessidade por serem a razão que lhe permite locomover-se”, pode ler-se na memória descritiva da fotografia vencedora. Mas embora a fotografia retrate a dependência que Julieta tem desses apêndices ortopédicos, quer, ao mesmo tempo, fazer pensar na dificuldade que teria em subir ou descer as escadas se não os usasse. “Sem as próteses, a Julieta não chegaria aonde chega”, refere a descrição da foto. E chegou longe, não desistiu, tem 30 anos, é médica e casou em julho deste ano. É feliz. Nuno Pereira é fotógrafo profissional e o autor desta fotografia. Diz que a imagem também pretende provocar uma reflexão sobre “as acessibilidades deste país (ou falta delas)” e sobre “a luta que cada pessoa com deficiência trava para vencer os obstáculos”.

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Para Nuno Pereira esta distinção representa uma oportunidade “de chamar a atenção para os problemas que os portadores de deficiência têm”. “E a nível pessoal é uma satisfação ver quem alguém deu valor ao meu trabalho”, completa. Nuno Pereira já tinha realizado um trabalho nesta área com paraplégicos e tetraplégicos, mas na hora de decidir que imagens enviar para o concurso de fotografia optou por este projeto mais recente por, nestes últimos anos, se ter “aprimorado” como fotógrafo, enquanto profissional numa faculdade de arte e design. “Os arquitetos e professores das belas artes à minha volta obrigaram-me a andar da perna e a envolver-me muito com a fotografia, a ler muito, aprender muito e a praticar muito. Portanto eu olhando para trás, para aquele projeto que fiz em 2009 digo que faria tudo de forma diferente e faria da maneira que fiz este: com mais qualidade a nível fotográfico, com outra visão e depois para não repetir o tema, tive a ideia de incluir pessoas que ninguém diz que tem algum tipo de limitação, mas que eu acho que têm”, explica. Refere-se a pessoas deprimidas, pessoas com doenças mentais, pessoas obesas. Quis desenvolver um projeto que englobasse todas estas questões, ainda está em curso, mas no âmbito dele vão resultar um conjunto de 10 ou 12 fotografias. Tem 42 anos e é fotógrafo profissional. Vive da fotografia desde que, em 2002, “foi agraciado” por uma doença que se chama síndrome de Síndrome de Guillain–Barré. “É tal e qual igual à Esclerose Múltipla com a única diferença de que a Esclerose Múltipla vai piorando ao longo da vida e a minha doença paralisa completamente a pessoa em dois, três dias, mas tem um lado bom que é a pessoa pode recuperar”, esclarece Nuno Pereira. Podem ficar sequelas e a recuperação é muito lenta: “A doença é muito rara, dá em média em uma a cada cem mil pessoas e só em 5% das pessoas é que a crise se repete e eu novamente voltei a ser agraciado com a doença: tive a primeira vez em 2002 e passados 10 anos, em 2012, voltei a ter. O ataque não foi tão forte, só tive seis meses no hospital porque da primeira vez estive dois anos. Eu fiquei com uma incapacidade de 80%. Tenho os pés paralisados e a cara um bocadinho paralisada”, descreve o fotógrafo vencedor. Conseguiu libertar-se da cadeira de rodas e utiliza talos de massa em ambos os pés porque não “funcionam bem”, além do mais, tem falta de equilíbrio, apesar de conseguir andar bem sem muletas e sem bengala.

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2.º Prémio |Jorge Antunes | Vida num saco | 2016 | Lisboa

Já Jorge Antunes quando chegou ao conhecimento deste concurso de fotografia pensou logo nas fotografias que tirou em Lisboa. Natural de Braga, este fotógrafo amador, embora entendesse que as imagens candidatas respondiam ao tema do concurso, não imagina arrecadar o 2.º prémio com a fotografia que intitulou “Vida num saco”. “Chamou-me a atenção o facto de haver muitas pessoas a viver nas ruas da capital. E o senhor da fotografia, vi-o várias vezes e tenho várias fotografias dele e também de outras pessoas da cidade”, explica. Jorge Antunes considera que a imagem representa a indiferença “das várias pessoas que passam e não ligam ao senhor”. “É como se não estivesse lá ninguém, como se fosse uma pessoa invisível”, afirma. O nome que decidiu atribuir à fotografia deve-se ao facto de acreditar que sempre que viu o homem a deambular pela baixa lisboeta, trazia o saco preto e que provavelmente tudo o que tinha na vida cabia dentro dele. “A vida dele estaria ali, foi a interpretação que eu tirei daquilo”, completa. “Não estava à espera de ser um dos selecionados e estar dentro das três melhores fotografias, tanto é que li o email a informar que era um dos vencedores e não assimilei logo, só quando vi o nome do meu pseudónimo é que cheguei à conclusão que era a minha fotografia. Fiquei muito contente”, confessa.

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Foi, naturalmente, o mesmo estado de espírito que invadiu Delfina Brochado quando recebeu a notícia de que uma das imagens do projeto que desenvolveu no ano passado no âmbito de uma formação em Fotografia Documental, ao qual denominou “À força de braços”, ficou em terceiro lugar. “Ter uma fotografia premiada no âmbito de 144 fotos a concurso numa iniciativa com estes contornos é muito gratificante, não só pelo facto de a fotografia ter sido avaliada quanto à sua estética e técnica, mas sobretudo pela sua mensagem. É um forte incentivo para continuar a melhorar sempre o meu trabalho”, refere. Ao longo de cerca de três meses a fotógrafa freelancer acompanhou a vida desportiva e pessoal de dois atletas de remo adaptado do Viana Remadores do Lima. Um deles é João Paulo Ribeiro, campeão nacional de velocidade de remo adaptado na época 2014/2015, que foi “apanhado pela câmara” atenta de Delfina Brochado enquanto abraçava a namorada durante um habitual passeio noturno em Ponte de Lima, onde vive o atleta. Quando se cruzou com o anúncio do concurso de fotografia nas redes sociais decidiu concorrer por considerar que a “a fotografia e a sua divulgação constituem uma ferramenta essencial para dar voz a temáticas tão importantes socialmente”. “Selecionei imagens que pela sua estética e mensagem ajudassem a quebrar barreiras e mostrassem também o que as estruturas podem fazer pelo desenvolvimento e participação ativa na sociedade da pessoa com deficiência”, esclarece a fotógrafa. Para Delfina Brochado a “fotografia foi acontecendo muito naturalmente, há mais de 20 anos, sempre muito ligada ao mundo motociclístico, registando viagens e eventos, até começar a extravasar para o quotidiano e se tornar indispensável”. “Senti então necessidade de aprofundar conhecimentos pelo que recorro regularmente a formações. Fotografo profissionalmente há pouco mais de um ano, numa decisão tomada já

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depois do meio século de existência, altura em que realmente me consciencializei de que era esta atividade que me fazia sentir realizada”, conta. É graças à fotografia que consegue ir ao encontro de pessoas e lugares que “de outra forma seria difícil ter acesso”. “Sinto sempre uma grande necessidade de fotografar, pelo que, sempre que consigo, saio para fotografar livremente. Tento, sempre que possível, inserir o elemento humano nas minhas fotografias, mas não consigo resistir a uma bela paisagem, sobretudo quando vai de encontro ao meu estado de espírito”, diz. A fotógrafa não se imagina a fazer outra coisa, não se imagina a deixar de procurar a fotografia perfeita, aquela que a prenda ao primeiro olhar, que a faça querer revêla. “Não tem de estar excelente a nível técnico, tem de me inquietar e emocionar”, explica. Foi no Centro Português de Fotografia, no Porto que, sem a chuva que “abençoou” as reuniões dos anos anteriores, o júri decidiu ainda atribuir menções honrosas a dois portfólios por considerarem que o conjunto das três imagens a concurso deveria ser premiado por entenderem que as fotografias fazem mais sentido agrupadas.


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3.º Prémio | Delfina Brochado | À força de braços | 2015 | Ponte de Lima

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As duas menções honrosas atribuídas pelo júri desta edição são a prova de que este concurso de fotografia é realmente dedicado à “inclusão” e à “diversidade”. Uma quis aplaudir o conjunto das três fotografias enviadas pela Fundação AFID Diferença. A outra o portfólio de Paulo Simão e a ousadia de Sandra Manuel, a modelo retratada. “Judite”, “Marcelo” e “Luís” são três clientes da instituição sedeada na Amadora, foram os fotógrafos e ao mesmo tempo os retratados nas imagens. Podese considerar que tiraram “selfies” que remontam às origens da fotografia, recorrendo a técnicas artesanais de construção de câmaras denominadas de pinhole. Este trabalho composto por autorretratos foi realizado no contexto da residência artística “O espanto de ver” que decorreu durante os meses de abril e maio de 2016. As artistas Anabela Mota e Marta Silva ficaram responsáveis por dar a conhecer técnicas de fotografia analógica aos alunos do atelier de pintura da Fundação AFID Diferença, uma entidade que “tem feito ao longo de 31 anos de existência, uma aposta muito forte na inclusão pela Arte”. “A ideia era sensibilizar os alunos para a natureza e o valor do nosso próprio olhar subjetivo sobre o mundo, queríamos de certa forma deixar-nos encantar novamente pela magia de ver”. Quem o diz é Nuno Lacerda, o responsável pelo atelier que considera que este reconhecimento é importante porque com frequência quando são canalizados recursos para um trabalho que é acima de tudo experimental, corre-se o risco de não haver um retorno significativo. “Mas este não foi claramente o caso. Por um lado porque a experiência em si foi muito gratificante, e porque resultaram imagens pelas quais nos apaixonámos. Por outro lado porque nos valeu esta menção honrosa, nesta decisão do júri encontramos uma confirmação do nosso entusiasmo e um reconhecimento que é muito importante para nós”, refere Nuno Lacerda. O conjunto tem cerca de 40 fotografias tiradas durante a residência e quase todas são autorretratos. “A seleção das três imagens não foi fácil”, confessa o formador. “Estas três sobreviveram a um processo de escolha complicado que teve em conta o mote do concurso, mas a grande maioria delas são imagens muito interessantes”, acrescenta. E foi com muita surpresa e alegria que a Judite, o Marcelo e o Luís reagiram à notícia de serem premiados. “Desde a direção, aos monitores, às artistas, aos autores das fotografias e todos os colegas que fazem parte da vivência diária daquele espaço fantástico, todos partilhamos e contagiamos este entusiasmo. Se contarmos também com as famílias dos alunos, os envolvidos acabam por ser muitas pessoas mesmo”, contabiliza Nuno Lacerda.

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Menção Honrosa |Fundação AFID Diferença| Judite; Marcelo; Luís | 2016 | Amadora

A técnica pin-hole é excelente neste sentido porque utiliza meios à partida muito rudimentares, manipulamos uma caixa de cartão e não uma máquina complexa com tecnologia que não dominamos. Isso permite uma explicação muito clara do funcionamento do nosso olhar e produz não apenas uma imagem mas um objeto palpável, único e irrepetível”. Nuno Lacerda, responsável pelo atelier de pintura da Fundação AFID Diferença

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Paulo Simão acredita que a menção honrosa que distinguiu a candidatura que enviou ao concurso de fotografia é sinónimo de que a mensagem, que pretendia transmitir, “passou”. “Ganhar um prémio não é necessariamente importante quando o que está em causa é a transmissão de uma mensagem. Ainda assim, receber uma menção honrosa entre 144 participantes, é, sem dúvida, motivo de orgulho para mim e todos os amigos que envolvi”, aponta. Paulo Simão é um autodidata que descobriu a fotografia por acidente. Desde sempre se dedicou ao desenho, à pintura e à escultura, “mas devido a uma doença oncológica, e antecipando ‘um fim’ iminente, e ainda com muitos projetos por concretizar”, dedicou-se “a uma forma de expressão artística mais imediata”. “Foi quando surgiu a hipótese da fotografia. Comprei uma câmara e comecei a fotografar”, conta. Vítima de violência doméstica, Sandra Manuel foi a heroína que o fotógrafo escolheu para mostrar que “alguém que viva nesta situação, pode perfeitamente, continuar a ser sexualmente apelativa, ostentar a sua beleza, e inserir-se num cenário aleatório, não obstante o uso de equipamentos auxiliares para a sua locomoção”. “A nossa vida, tal como a conhecemos, pode alterarse a qualquer instante. Porém, vale a pena viver! Seja como for, sem nunca desistir de termos o nosso lugar na sociedade, sermos úteis, fazendo aquilo a que nos dispusermos fazer. No fundo, tudo se trata de nos reinventarmos.

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Paulo Pimenta

Álvaro Laborinho Lúcio

TODOS os participantes…

Sónia Silva

A 3.ª edição do concurso de fotografia “A inclusão na diversidade” superou as expetativas da organização em termos de participação: contabilizam-se 144 imagens candidatas, um número que ultrapassa as duas edições anteriores em que se registaram 61 (1.ª edição) e 85 (2.ª edição) fotografias a concurso. “Quando, no final da edição de 2015, decidimos lançar o desafio de, este ano, se chegar à centena de imagens tínhamos a noção que era um patamar difícil de atingir e que tal poderia não acontecer porque é sempre tudo muito imprevisível. Estamos muito contentes com este resultado”, refere a organização. Esta edição do concurso de fotografia da Plural&Singular, à imagem do ano passado, além de ligadas à área da deficiência, também foca outras questões alvo de inclusão ou exclusão, nomeadamente, a pobreza social, os direitos das crianças, a terceira idade e outros temas que geram controvérsia e preconceito ou que merecem uma homenagem por serem exemplos de inclusão na diversidade.

Elas obedecem, ainda que por caminhos diferentes, ao tema que era proposto. Sem se confundirem, revelam uma grande sensibilidade, qualidade na criação da imagem e na sua expressão fotográfica, constituindo um forte apelo para a reflexão sobre a questão da inclusão e da diversidade. Uma vez mais, a arte atinge aqui uma dimensão profunda que toca, à maneira de Umberto Ecco, a inteligência, a moralidade e a sentimentalidade. Tudo a reforçar a importância da iniciativa e o incentivo para que prossiga”. Juiz Álvaro Laborinho Lúcio

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A 3.ª edição deste concurso, promovido em parceria com o Centro Português de Fotografia, contou com 57 candidaturas tanto nacionais como internacionais. A aposta da Plural&Singular, em 2016, foi na divulgação do concurso junto das instituições para fomentar a participação junto delas e para poderem dar a conhecer os projetos que desenvolvem. Estes resultados vêm confirmar que o concurso de fotografia “A inclusão na diversidade”, a cada edição, vai aos poucos, devagar, mas com consistência, conquistando cada vez mais espaço no calendário dos eventos ligados à fotografia, em geral, e dos que estão ligados à inclusão, em particular”, continua a organização. Ao fazer uma análise geral das candidaturas, o juiz Álvaro Laborinho Lúcio, elemento convidado do júri do “A inclusão na diversidade”2016 considera que as 144 fotografias candidatas “são significativamente diferentes entre si”. “Umas são mais ingénuas, produto de uma espontaneidade generosa mas de resultado menos valioso no contexto do concurso. Outras há, que resultam de uma construção trabalhada, de uma preparação com preocupações de natureza técnica e artística. Outras ainda que são um meio-termo entre as primeiras e estas últimas”, comenta. No conjunto, Álvaro Laborinho Lúcio acredita que “o balanço é de uma qualidade muito aceitável, em alguns aspetos mesmo bastante interessante”. Sónia Silva, a presidente do júri, que de uma forma direta tem acompanhado o concurso de fotografia desde que foi lançado em 2014, diz ficar “muito feliz de, de ano para ano, ver que as fotografias a concurso aumentam quer em número, quer em qualidade”. “Cada vez é mais difícil decidir, o que é um ótimo sinal! É bom sentir que há cada vez mais projetos feitos com e acerca pessoas com deficiência, que essas pessoas estão cada vez mais integradas”, refere.

Direitos – Os uns e os outros”, realizada há três anos no âmbito da INCLUDiT - Conferência Internacional para a Inclusão do Instituto Politécnico de Leiria, fez uma análise da evolução do conceito de inclusão e ‘substituiu’ o conceito de diferença, pelo de diversidade como sendo muito mais abrangente e capaz de abarcar TODOS os cidadãos. Nessa palestra Álvaro Laborinho Lúcio falou de inclusão associada aos conceitos de espaço e de tempo e que pressupõe, atualmente, uma cidadania centrada nos princípios da dignidade e participação ativa na vida pública. Mas considerou, ainda, que “a exclusão nega em absoluto a condição humana de dignidade” que, por sua vez, quando respeitada encontra o ponto “em que as pessoas são consideradas iguais”. Mas iguais “numa sociedade em que o padrão não é a norma, mas sim a diversidade”. Por último, sublinhou a ideia que a deficiência não está do lado do indivíduo mas sim ligada ao ambiente e que a inclusão assentando numa sociedade democrática e de direitos e, por isso, “não deve partir de pessoas com necessidades, mas de pessoas com direitos violados”. Uma mudança de paradigma que a Plural&Singular quis espelhar no concurso de fotografia que se desafiou a promover tendo em conta uma recompensa, embora simbólica, muito apelativa. O júri do concurso de fotografia “A inclusão na diversidade” não teve uma tarefa fácil para escolher as melhores fotografias participantes na 3.ª edição desta iniciativa. No final da reunião que juntou os três elementos do júri, a 3 de novembro, exatamente um mês antes da cerimónia de entrega de prémios que se realiza no CPF e também assinala o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, Álvaro Laborinho Lúcio admitiu que “participar nele, foi um gosto e uma honra” e considerou esta iniciativa “muito importante”. “A fotografia dános um olhar próprio, um olhar diferente sobre uma realidade que muito nos toca. Ela traz-nos novas perspetivas, criação na busca do resultado, interrogação no paralítico que é o seu produto final. E isso permitenos desfocar o tema de uma visão fechada, desligada de uma aproximação crítica. Diria que aqui é pela diversidade que se chega à inclusão”, referiu. Também o fotojornalista do jornal Público, Paulo Pimenta, voltou a manifestar o interesse e a vontade de continuar ligado a esta iniciativa e garantiu que para o ano volta a fazer parte do júri. A técnica do CPF, Sónia Silva, que integrou o júri na 1.ª edição, voltou a presidir a reunião que elegeu as vencedoras do concurso entre as 144 fotografias. Foi renhida a decisão final, mas a escolha foi feita por unanimidade.

O júri e a continuidade do concurso…

À 3.ª edição do concurso, este órgão de comunicação decidiu que era hora de convidar um dos impulsionadores, por assim dizer, desta iniciativa, portanto, o atual presidente do Conselho Geral da Universidade do Minho e Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, Álvaro Laborinho Lúcio integrou o júri do concurso de fotografia “A inclusão na diversidade”. Quando a Plural&Singular decidiu avançar, em 2014, com esta iniciativa tinha que escolher um tema suficientemente abrangente para abarcar tudo e TODOS. Desta forma e sem que o saiba, foi o juiz que incitou à escolha do tema “A inclusão na diversidade”. O antigo ministro da Justiça na comunicação “Inclusão e

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“A Inclusão na diversidade” numa imagem

O concurso de fotografia decidiu na 3.ª edição lavar a cara e lançou o desafio para criar um novo cartaz ao +1 Creative Studio. O designer criativo desta empresa, Nuno Pires, decidiu inspirar-se no Tetris para, através das diferentes cores, formas e tamanhos das peças deste jogo eletrónico, conseguir ilustrar o tema que o concurso anuncia: “A inclusão na diversidade”. “A ideia era conseguir criar uma imagem simples que toda a gente percebesse, porque o conceito é um bocado complexo. À procura de uma linguagem para o cartaz que fosse compatível com o tema surgiu a ideia de ligar ao Tetris, que é um jogo banal que toda a gente conhece. E encaixar as peças numa desigualdade de peças tanto de formas como de cores pareceu-me uma boa maneira para explicar a inclusão e a diversidade”, explica Nuno Pires. Para a organização desta iniciativa – a Plural&Singular e o Centro Português de Fotografia – “o resultado não podia ser melhor”. “O cartaz consegue de uma forma simples e acessível à maioria mostrar a diversidade pelas diferentes cores e aparências das peças e, ao mesmo tempo, pela maneira como essas peças encaixam a inclusão. Não imaginávamos uma imagem melhor para transmitir este tema”. O +1 Creative Studio nasceu em 2016 pela mão de Manuel Machado e Nuno Pires. Estes jovens profissionais vão dando largas à criatividade sempre que o mestrado de Manuel Machado e o trabalho de Nuno Pires como designer de produto na Sensitive Architectural Studio o permitem. Esta é uma dupla que se inspira na velha máxima do arquiteto Mies van der Rohe “menos é mais” para conseguir no caminho entrópico do processo criativo chegar “ao equilíbrio através do caos”. “Nós não acreditamos no ruído e na complexidade. Nós achamos que são as ideias simples e inteligentes que constroem as marcas sólidas e disruptivas”, lê-se no site do +1. Já faz parte do portfólio deste estúdio criativo a nova roupagem de dois dos principais vinhos, o Vinha dos Ingleses e o Verdisa, da Quinta dos Ingleses, uma empresa agroalimentar com mais de 30 anos e a criação de novas marcas para duas empresas de vestuário que decidiram avançar para novos segmentos de mercado. “Nós pensamos globalmente e nunca paramos. O nosso trabalho vai desde a criação identidade à publicidade, à estratégia de marcas, ao design de interiores, design de produto, fotografia, ilustração e muito mais”, referem.

O tema e os critérios de avaliação

Relembramos que o tema para este concurso - “A inclusão na diversidade” –pretende estimular o “olhar atento” por parte das pessoas ao verdadeiro sentido de inclusão e à presença ou ausência dela no meio que as rodeia, assim como, fazer com que reflitam sobre o que é uma sociedade caraterizada pela diversidade. Desmistificar a deficiência junto das pessoas sem deficiência e combater os atos discriminatórios associados às ‘diferenças’ são outros propósitos importantes deste concurso de fotografia promovido em prol de uma sociedade verdadeiramente inclusiva na diversidade. Embora esteja patente no regulamento, nota para o facto das fotografias serem avaliadas com base nos seguintes critérios: adequação ao tema do concurso; originalidade; criatividade; composição e podem concorrer todos os fotógrafos, amadores e profissionais, crianças e adolescentes, jovens, adultos e idosos, a título individual ou em representação de alguma entidade. Os premiados, além de integrarem a reportagem da revista digital em que a capa da publicação de dezembro é ‘cedida’ à fotografia vencedora, podem ver os seus trabalhos expostos no emblemático edifício da antiga cadeia do Tribunal da Relação, onde, atualmente funciona o Centro Português de Fotografia, no Porto.

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Sobre a cerimónia…

É a 3.ª edição deste evento que, como vem sendo habitual, conta com um momento artístico, desta vez proporcionado por um dos grupos de teatro do Espaço t - Associação para Apoio à Integração Social e Comunitária - uma entidade formadora e com larga experiência em projetos de formação profissional que, através de diferentes áreas de intervenção interrelacionadas, pretende despertar nos seus alunos uma participação social ativa, consciente e livre. O Grupo de Dança Inclusiva do Espaço t vai apresentar o espetáculo de expressão corporal “Denial ain’t just a river in egipt” [A negação não é só um rio no Egito] propondo-se a criar uma floresta como forma de escapar às evidentes e drásticas alterações ambientais que têm sido ignoradas pelos líderes mundiais. A formadora de dança, Filipa Duarte, está ao comando dos oito elementos que vão participar neste espetáculo que abre o evento de entrega de prémios aos vencedores do concurso de fotografia. A cerimónia serve também para cantar os parabéns à Plural&Singular que completa quatro anos – lançou a 1.ª edição digital da revista trimestral a 3 de dezembro de 2012 – e sobretudo assinalar o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência que se comemora neste mesmo dia, logo TODOS são convidados para um ‘porto de honra’ com o tradicional bolo de aniversário.

Sobre os parceiros…

Quer na divulgação, quer no apoio ou patrocínio, a Plural&Singular, na reta final desta iniciativa, quer agradecer a todos os que colaboraram para tornar possível que no sábado, 3 de dezembro, se realize o evento mais importante do ano para celebrar a inclusão na diversidade. Antes de agradecer a TODOS os que se juntaram a este órgão de comunicação digital na realização desta iniciativa, lança-se o apelo a TODOS os que ainda se queiram associar a este evento. A Plural&Singular é uma marca registada gerida pela Palavras Infinitas – Núcleo de Inclusão, Comunicação e Media, que desenvolve também outros projetos de organização de eventos, de informação, de formação e de assessoria. Como não tem fins lucrativos, toda a ajuda para poder continuar a publicar a revista digital, dinamizar a secção Sexualidade&Afetos, organizar este concurso de fotografia e avançar com outros projetos que tem na gaveta, é bem vinda. Este é o culminar de uma iniciativa planeada a partir da convicção de que assinalar, divulgar e refletir sobre o real significado do Dia Internacional das Pessoas com Deficiência é missão de TODOS. E a Plural&Singular abraçou essa missão e criou o concurso de fotografia “A inclusão na diversidade” e o Centro Português de Fotografia aceitou o desafio de ser parceiro desta iniciativa que já vai na 3.º edição. Aqui fica o primeiríssimo Obrigada. 50

Para o +1 Creative Studio, responsável pela nova cara do concurso, segue um segundo Obrigado. A Clarim, empresa com sede em Matosinhos, é uma empresa pioneira no transporte personalizado de pessoas com mobilidade reduzida, cujos veículos estão preparados para o transporte de cadeiras de rodas e disponibilizou, gratuitamente, um veículo às pessoas com mobilidade reduzida que quiseram assistir e participar neste evento. Esta empresa desde logo aceitou o desafio de apoiar esta iniciativa por entender que “a inclusão é a principal missão da Clarim”. Esta forma de estar no mercado, segundo uma das colaboradoras da Clarim, Cláudia Costa, está patente no trabalho que a empresa desenvolve, nos valores que a caraterizam e nos serviços que proporciona - apoio domiciliário, de reabilitação e readaptação, e acompanhamento personalizado. Obrigada pelo esforço incansável. A Confeitaria do Bolhão volta este ano a patrocinar o lanche oferecido a todos os presentes nesta cerimónia. Localizada no número 339 da Rua Formosa, na Baixa portuense, a Confeitaria do Bolhão é uma padaria e pastelaria com fabrico próprio que, além das fornadas quentes ao longo do dia, tem um serviço de cafetaria e um restaurante buffet aberto de segunda a sexta à hora do almoço. A Padaria das Trinas, que mantém as portas abertas há mais de um século, volta a oferecer o bolo de aniversário


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da Plural&Singular. Esta padaria com mais de 130 anos localiza-se na rua com o mesmo nome, em Guimarães, e distingue-se das demais por manter os processos tradicionais de fabrico de pão e pastelaria. O pão-de-ló é uma das iguarias a não perder, mas o bolo de água, em que se vai soprar as três velas do aniversário deste órgão de comunicação, também fez as delícias de TODOS. Muito obrigada a ambas por adoçarem este momento. E a cerimónia será abrilhantada por uma performance de dança com jovens do Espaço t – Associação para Apoio à Integração Social e Comunitária. Esta é uma estrutura que surgiu em 1994, fruto do empenho de um grupo de profissionais das áreas da saúde e das artes que mobilizaram conhecimentos e para “a criação de uma realidade sustentada por um objetivo primordial: o combate à exclusão social adoptando a arte, linguagem das emoções, como um instrumento privilegiado de comunicação”, conforme se lê no seu site. Obrigado! Mais um agradecimento importante a TODOS os que ajudaram a divulgar esta iniciativa. Uns de forma mais informal, outros que se constituíram nossos parceiros e o fizeram com muita dedicação. Mil obrigadas ao Projeto In My Shoes, à Associação Nacional de Docentes de Educação Especial, à Associação Nacional de Arte e Criatividade de e para Pessoas com Deficiência e à Cooperativa Regional de Economia Solidária. Obrigada, obrigada, obrigada ao júri deste concurso de fotografia. Obrigada a TODOS.

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OPINIÃO

Rui Machado r.lucas.machado@gmail.com

O corpo Nunca ninguém nasceu sem corpo. Fala-se de espíritos e de entidades espectrais mas provas da sua existência teimam em não ser claras. Resta-nos então o corpo como prova cabal da nossa existência. De ser tanto, é difícil de o definir. Mas vou tentar... É, pelo menos, aquilo que nos permite ser e fazer; aquilo que nos possibilita existir e interagir com os outros e o meio. É, normalmente, o que primeiro tomam conhecimento sobre nós, é a primeira informação que disponibilizamos com a força das inevitabilidades. Talvez por isso, nos cuidamos e não nos apresentamos na rua sem antes fazer todo um conjunto de preparos. Temos gosto em ser aceites. Vou ainda mais longe: procuramos ajustar-nos a um padrão que nos interessa respeitar (por alguma razão) e que alguém definiu e validou. Cuidar do corpo não é mau! Antes pelo contrário. É importante sermos investidores de nós mesmos. Mas que padrões serão estes que procuramos chegar perto? Quem os definiu? Quem os valida? Acho que entramos naquilo que se poderá chamar de ideais de beleza. E é importante não os aceitar sem perceber exatamente o que estamos a fazer. Eu tenho sérias dúvidas do seu contributo para vivermos numa sociedade igualitária e inclusiva. É extraordinariamen-

te difícil definir a importância certa e saudável a dar ao corpo. Quanto a mim, a medida certa é aquela que permite aceitar e compreender todos os corpos em toda a sua diversidade. Altos, baixos, gordos, magros, direitos, tortos, etc. Excluir alguém, única e exclusivamente, pela sua aparência corporal constitui o corte cruel e pela raiz de toda a possibilidade de inclusão com implicações em todas as dimensões que a vida vai assumindo. Tenho uma doença neuromuscular que me provocou alterações, bem notadas, no meu corpo. Alguns de vós ficariam incomodados se me vissem sem roupa, tenho ossos diferentes, e carne e músculos a menos. Mas garanto-vos que isto é um corpo mais semelhante ao vosso do que diferente. Gosto de o manter quente, asseado, ele pede-me alimentos e até os processa com uma competência assinalável. Para além disso, quando passa por mim uma menina cheirosa, partes desse meu corpo alegram-se-me. Acho possível que isto seja um corpo, sim. Arrepia-se quando alguém o trata como qualquer outra coisa menos.

O movimento informal Unidos Pela Audição (UPA) lança o desafio de “vestir” com esta imagem a capa no Facebook do seu perfil, assumindo este gesto solidário por todos os que querem ouvir e apelam por melhores condições de qualidade auditiva (Próteses Auditivas,IC, Baha, SoundBridge....) Para que, cada vez mais, as barreiras entre as pessoas não ouvintes e ouvintes sejam quebradas, em prol de uma sociedade mais inclusiva! Vamos... Unam-se pela Audição Portugal Imagem elaborada por Alice Inácio 52


tecnologia e inovação

SUPERA E CRID: Uma década a pensar na acessibilidade e na inclusão


TECNOLOGIA E INOVAÇÃO

SUPERA E CRID: Uma década a pensar na acessibilidade e na inclusão O Centro de Recursos para a Inclusão Digital (CRID) da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais (ESECS) do Politécnico de Leiria (IPLeiria) e a Sociedade Portuguesa de Engenharia de Reabilitação e Acessibilidade (SUPERA) existem há 10 anos. Para fazer o balanço de uma década de atividade destas entidades, a Plural&Singular falou com a coordenadora do CRID, Célia Sousa, e com o sócio n.º 1 da SUPERA, Francisco Godinho, que manifestaram uma visão positiva em relação à evolução do país no que diz respeito a esta área. Texto: Sofia Pires Fotos: SUPERA e CRID

Parabéns SUPERA!

A 30 de novembro de 2006, o Instituto Politécnico de Beja foi a incubadora da SUPERA, uma associação que se viria a constituir formalmente um ano depois, a 19 de novembro. Foi durante o II Encontro de Engenharia de Reabilitação e Acessibilidade que um grupo muito reduzido de investigadores nesta área se decidiu juntar para partilhar informação de interesse comum e organizar alguns eventos - cerca de 10 investigadores fundaram esta entidade e neste momento a SUPERA é composta por 154 sócios e algumas empresas. “Uma entidade como a SUPERA não é novidade. Existem noutros países associações desta natureza científica, técnica e multidisciplinar que reúnem profissionais de várias áreas com um interesse comum que é a utilização da tecnologia para a autonomização das pessoas com deficiência ou algum tipo de incapacidade”, refere Francisco Godinho.

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Nessa altura também arrancou a licenciatura em Engenharia de Reabilitação e Acessibilidade Humanas, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) portanto, a sede da SUPERA ficou próxima dos futuros profissionais que viessem a ser membros dessa associação. “Estamos a pensar criar delegações em todo o território e no estrangeiro para permitir o crescimento da associação e multiplicar as suas iniciativas de uma forma mais próxima das pessoas”, revela Francisco Godinho. Esta associação, ao longo destes 10 anos, não contribuiu diretamente para o desenvolvimento desta área, mas passou a funcionar como um fórum agregador do maior número de profissionais especializados em Reabilitação e Acessibilidade, servindo até como um órgão consultivo sobre esta matéria. Para aclarar o posicionamento desta entidade, Francisco Godinho explica que o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior quando recentemente organizou um fórum dedicado à investigação


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A SUPERA é uma associação científica e técnica de natureza multidisciplinar, que entre os sócios conta com engenheiros de várias especialidades, informáticos, arquitetos, docentes e estudantes do Ensino Superior, investigadores, docentes do ensino especial, médicos, terapeutas, psicólogos, técnicos especializados em tecnologias de apoio, entre outros profissionais, tendo em comum um interesse forte pelas Tecnologias de Apoio e pela Acessibilidade.

e acessibilidade. Este é o primeiro passo para, no entender de Francisco Godinho se “fomentar a colaboração entre as instituições, entidades de investigação, formação e serviços” que permitam “uma maior interligação, interajuda e cooperação entre as instituições a nível de recursos”. A SUPERA foi ainda convidada para participar num projeto europeu para a criação de um centro de investigação em Tecnologias de Apoio e Acessibilidade no âmbito da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). “É uma candidatura ao programa Horizonte 2020 que esperemos que seja bem sucedida e que poderá originar a primeira unidade de investigação na área da deficiência cá em Portugal. Terá um centro de investigação interdisciplinar: território, saúde, ciência, tecnologia”, antecipa o investigador.

neste domínio, contactou a SUPERA para que ajudasse a identificar colaboradores e projetos de interesse. “Temos esse conhecimento mais abrangente e há uma massa crítica que pode ajudar a definir políticas e a contribuir para que sejam mais assertivas. Gera-se no fundo esse potencial”, completa. Francisco Godinho diz ainda que “o simples facto” de alguns destes investigadores andarem em contacto há 10 anos “vai facilitar as colaborações futuras, porque se cria um mecanismo de confiança mútua”. “E porque temos conhecimento do que se faz nas várias instituições e isso vai permitir que as coisas possam efetivamente funcionar”, explica. Dez anos volvidos, decidiu-se avançar com a alteração dos estatutos. Primeiro modificando a denominação “para ficar mais clara para outros profissionais que não têm formação em engenharia que é uma associação multidisciplinar”. Passou a incluir o conceito de Tecnologias de Apoio: SUPERA – Sociedade Portuguesa de Engenharia de Reabilitação, Tecnologias de Apoio e Acessibilidade. “Vai-se criar o conceito de sócio institucional e portanto algumas instituições do Ensino Superior vão poder agregar-se à SUPERA para que possamos ter uma massa crítica de investigadores, sermos mais fortes e possamos concorrer a financiamentos, constituirmo-nos até, no futuro, como uma unidade de investigação, com investigadores de várias áreas do Ensino Superior”, acrescenta Célia Sousa, também ela uma das sócias fundadoras da SUPERA. Outra novidade é a assinatura de um memorando de entendimento entre os sócios para a criação, em 2017, de uma rede de competências em tecnologias de apoio

A SUPERA tem como foco a aplicação da ciência e tecnologia na melhoria da qualidade de vida de populações com necessidades especiais, nomeadamente pessoas com deficiência, idosos e acamados, em áreas como o acesso a tecnologias e serviços, educação, emprego, saúde e reabilitação funcional, transportes, vida independente e recreação.

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Parabéns CRID!

Este Centro de Recursos para a Inclusão Digital, conforme ele próprio se apresenta no site oficial, não é apenas “um espaço apetrechado de equipamentos adaptados aos cidadãos com necessidades especiais”, é também “um serviço privilegiado de apoio à comunidade na área da acessibilidade digital”. Esta entidade é, apenas, alguns dias mais nova que a SUPERA. O CRID nasceu a 7 de dezembro para promover a inclusão social da população com necessidades educativas especiais e a coordenadora Célia Sousa considera que a missão tem sido cumprida e, por isso, faz “um balanço, extremamente, positivo” dos 10 anos de atividade. Começa por destacar “a criação do conceito do livro multiformato, que permite que todas as crianças possam ter acesso a um livro: crianças cegas, surdas, crianças com deficiência intelectual”. Somam-se os trabalhos de edição de livros em braille que o CRID tem vindo a editar para todo o país. Célia Sousa contabiliza, nesta década, cerca de 500 avaliações de pessoas “para perceber qual o software e qual o hardware que necessitam” e realça o trabalho que tem sido feito com públicos minoritários, nomeadamente nas questões da acessibilidade dos museus às pessoas com deficiência intelectual.

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A coordenadora do CRID deixa uma nota para o facto de terem chegado a este centro estagiários de diferentes licenciaturas, por constituir um sinal indicativo de que “esta é uma temática que está cada vez mais a chamar jovens”. “Também o conjunto de pessoas que nos visitaram: Tivemos ao longo destes 10 anos aproximadamente cinco mil visitas de todos os continentes que vêm de várias universidades, de várias instituições. Que vêm até nós conhecer o nosso trabalho para depois poderem replicar nos seus países”, explica Célia Sousa. Feito o balanço de dez anos “de muita força de vontade, muita garra, de uma equipa empenhada”, Célia Sousa informa que o CRID vai assinalar o aniversário no dia 7 de dezembro, quarta-feira, às 15h30, na ESECS numa cerimónia que antecipa algumas das muitas novidades para o próximo ano. “São 10 anos de história, de muitos projetos de sucesso, para os quais contamos sempre com o apoio da comunidade académica do Politécnico de Leiria e dos parceiros da instituição, mas queremos mais, queremos manternos na linha da frente das melhores práticas de inclusão, queremos que todos sem exceção sintam o IPLeiria como a sua casa, e sem dúvida que estes novos projetos continuarão esse caminho”, assegura Célia Sousa.


TECNOLOGIA E INOVAÇÃO

E passados 10 anos o que mudou?

O último decreto-lei sobre acessibilidade (DL163/2006) também completa este ano, por assim dizer, o décimo aniversário e o evento de aniversário da SUPERA, que foi celebrado no IPLeiria, foi também dedicado à análise dos 10 anos de aplicação desta legislação. Participaram nesta iniciativa a deputada e antiga secretária de Estado Adjunta e da Reabilitação, e responsável pelo DL163/2006, Idália Serrão, o presidente do Instituto Nacional para Reabilitação, José Serôdio, a engenheira Paula Teles da MPT – Mobilidade e Planeamento do Território, a provedora dos Cidadãos com Deficiência da Câmara Municipal do Porto, Lia Ferreira, bem como o antigo presidente da FCT, Luís Magalhães. “A legislação existe mas ela de facto não é ainda aplicada na prática, ainda se contorna muito a legislação”, comenta Célia Sousa em jeito de resumo das conclusões tiradas da análise feita no dia de aniversário da SUPERA. E a solução passa por “uma fiscalização mais intensa”. Se temos outros institutos que noutras áreas da sociedade fazem essa avaliação, se calhar também faria todo o sentido que ela fosse feita a este nível para a acessibilidade e para as barreiras arquitetónicas”, completa. Para a coordenadora do CRID a maior conquista destes últimos 10 anos aconteceu ao nível das tecnologias que se tornaram “muito mais acessíveis e muito mais conhecidas”. “Mas a maior revolução foi ao nível da comunicação: perceber que de facto nós temos que dar voz a estes públicos e que há outro tipo de comunicação para além daquilo que a gente faz normalmente que é comunicar oralmente”, analisa Célia Sousa. A coordenadora de CRID considera que “há 10 anos atrás as coisas eram muito diferentes”, em relação às tecnologias de apoio que careciam de uma legislação “coerente”. “Hoje em dia existe uma plataforma que permite dar equipamentos às pessoas”, completa. Célia Sousa aplaude também a criação dos Centros de Recur-

sos TIC [Tecnologias de Informação e Comunicação] para a Educação Especial em cada capital de distrito. “E nós acreditámos muito que contribuímos para isso, uma vez que eles seguem o modelo do CRID”, considera. Diz que “não se falava em comunicação aumentativa, hoje em dia há uma preocupação constante” e embora se falasse das pessoas cegas e das pessoas surdas, não se falava intensamente das pessoas com deficiência intelectual, nem da população idosa e da população com baixa literacia. Célia Sousa diz que “não faz falta legislação neste âmbito”, mas, por sua vez, aponta para a necessidade de legislar o direito das crianças terem brinquedos adaptados à venda. “Não faz sentido que um pai que tenha uma criança com deficiência e precise de um brinquedo adaptado tenha que estar dependente de campanhas como a nossa ou da boa vontade de algum investigador ou de algum técnico fazer essa adaptação”, explica. Falta por um lado, os fabricantes de brinquedos perceberem que esta é uma oportunidade de negócio e que “estes brinquedos pelo facto de estarem adaptados não quebram em nada as normas de segurança, e por outro que a legislação venha obrigar a que as grandes superfícies tenham expositores de brinquedos adaptados. 57


TECNOLOGIA E INOVAÇÃO

Campanha solidária “Mil Brinquedos Mil Sorrisos”, por iguais oportunidades de brincar.

A este breve resumo dos contributos para a inclusão social da população com necessidades educativas especiais através do recurso a produtos de apoio no âmbito da acessibilidade digital, junta-se a campanha “Mil Brinquedos Mil Sorrisos”. O CRID abraçou a missão de recolher brinquedos com um sistema eletrónico simples, a fim de serem transformados em brinquedos que possam ser utilizados por crianças com necessidades especiais. Estudantes e professores voluntários do Departamento de Engenharia Eletrotécnica da Escola Superior de Tecnologia e Gestão do IPL-ESTG estão encarregues de adaptar o circuito de alimentação de cada brinquedo, de modo a que possa ser utilizado a partir de um interruptor externo que aciona o seu funcionamento. “Um brinquedo quando nasce devia ser permitido que todas as crianças o tivessem, ou seja que seja um brinquedo inclusivo com design para todos. Pensamos na moda e mais grave do que isso, achamos que estas crianças não brincam e não têm direito a brincar e isso é alguma coisa que está consagrado nos direitos da criança. Não podemos continuar a fechar os olhos e achar que as nossas crianças com deficiência não brincam”, comenta Célia Sousa. A responsável do CRID salientou, à Plural&Singular, a importância desta campanha que permitiu a adaptação de mais de “cinco mil brinquedos” que foram distribuídos por cerca de 231 instituições, localizadas em três continentes. Neste momento a campanha está a decorrer e qualquer pessoa pode contribuir com brinquedos, enviando-os a qualquer uma das escolas do IPL localizadas em Leiria, Peniche, Caldas da Rainha, ou entregando no Instituto Nacional para a Reabilitação, em Lisboa. Caso se esteja a falar de uma quantidade apreciável, o CRID está disponível para os ir buscar. “Este ano pretendemos angariar brinquedos para enviar para as equipas locais de intervenção precoce nos Açores”, revela Célia Sousa. A mais recente novidade em relação a este projeto prende-se com o facto da secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência, Ana Sofia Antunes ser madrinha desta campanha solidária e ter aceitado dar a voz e a cara pela recolha de brinquedos do IPL, gravando um spot que vai ser apresentado no dia 3 de dezembro, na Gala da Inclusão, a partir das 21h00, no Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria.

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Gala da Inclusão

A VII Gala da Inclusão este ano para assinalar as comemorações nacionais do Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, a 3 de dezembro, conta com a associação do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, e o apoio do Instituto Nacional de Reabilitação. Para Ana Sofia Antunes, em declarações durante a apresentação da VII Gala da Inclusão, a associação do Governo a esta iniciativa deveu-se à necessidade de “dar dimensão nacional àquilo que já é feito em Leiria”, em matéria de inclusão. A secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência considerou que “Leiria tem dado cartas” nesta vertente. O Ministério associou-se ainda à iniciativa do Município “Leiria Cidade Natal 2016”, que compreende um conjunto de atividades a pensar em todas as crianças, com e sem deficiência, que, para Ana Sofia Antunes, é uma iniciativa essencial “para que as crianças se possam pôr na pele de uma criança com deficiência”. “Quanto mais prepararmos as crianças hoje, quanto mais forem conhecedoras da diferença, mais vamos potenciar adultos abertos, sem complexos, sem rejeições ou preconceitos, criando uma sociedade mais inclusiva e promotora de igualdade”, disse. Nesta Gala de homenagem às boas práticas e exemplos a nível nacional, todos os anos são distinguidas personalidades e instituições nas seguintes áreas: Acessibilidades, Cultura, Desporto e Lazer, Educação, Investigação Aplicada, Mérito Regional e Prémio Carreira.


TECNOLOGIA E INOVAÇÃO

O CRID para mostrar como “Comunicar é possível… na diferença”, no dia 24 de novembro, no âmbito da Semana da Ciência e da Tecnologia, que decorreu em todo o país entre os dias 21 e 27 de novembro, abriu as portas à comunidade para “mostrar à sociedade que ainda está um bocadinho de costas viradas e perceber que a ciência pode ser feita dentro da universidade, mas pode ser colocada ao serviço de todos”. Esta ação pretendia, segundo Célia Sousa, “dar a conhecer e sensibilizar a população em geral para os diferentes modos de comunicar através do uso de diferentes tecnologias de apoio e a importância das mesmas na vida das pessoas com deficiência”.

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desporto

José Carlos Macedo – O atleta excelência!


DESPORTO

Campeonato do Mundo de Meia Maratona INAS Évora

Portugal campeão e José Azevedo revalida vitória de 2015

A Seleção Nacional Masculina de Meia Maratona ANDDI (Associação Nacional de Desporto para a Deficiência Intelectual) sagrou-se pela quinta vez consecutiva Campeã Mundial INAS, numa prova que decorreu a 27 de novembro, em Évora, Cidade Património da Humanidade. Fotos informação: ANDDI

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DESPORTO

O 7.º Campeonato do Mundo de Meia Maratona para a Deficiência Intelectual foi integrado na “EDP Meia Maratona de Évora 2016” organizada pela Running Wonders e que contou com milhares de participantes. Individualmente, José Azevedo repetiu a vitória conquistada do ano passado no Peso da Régua, tornando-se bicampeão mundial da distância. O atleta de Vila Nova de Famalicão terminou a prova na cidade alentejana com 1.11.14, seguindo-se o japonês Ryo Kaneko (1.11.20) e o espanhol Asier Santos (1.11.55).

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DESPORTO

Também os resultados de Paulo Pinheiro, que foi 5.º classificado com 1.14.35, de João Monteiro, que conseguiu um recorde pessoal e o 9.º lugar com 1.18.10, bem como de Paulo Benevente, 11.º com 1.20.42, permitiram a Portugal vencer coletivamente com apenas quatro segundos de diferença em relação ao Japão, 2.º classificado. Arleta Meloch da Polónia com 1.21.48, seguida da compatriota Anna Bodziony com 1.34.05 e da brasileira Lindinalva Silva com 1.34.06 completaram o pódio feminino, enquanto a portuguesa Maria Graça Fernandes terminou no 5.º lugar com a marca de 1.47.40.

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DESPORTO

CPP: Passado, Presente e Futuro Humberto Santos, de saída do Comité Paralímpico de Portugal, faz balanço positivo dos oito anos, que na realidade foram mais, de movimento paralímpico. “Foram momentos de transcendência, momentos de superação…Uma experiência que jamais irei esquecer. Neste espaço cresci imenso enquanto pessoa”, disse em entrevista à Plural&Singular P&S – O nome ‘Humberto Santos’ fica indubitavelmente na história do movimento paralímpico em Portugal… HS – O meu nome de uma forma particular porque estive à frente do projeto mas o que foi conseguido é fruto de um trabalho de equipa. São muitos aqueles, que ao longo destes últimos oito anos – aliás mais porque são oito anos de existência do Comité enquanto instituição, mas antes disso houve uma comissão instaladora –, estiveram e estão envolvidos. É natural que esta década tenha sido decisiva porque coincidiu com o desenho e desenvolvimento do Comité. Não tenho dúvidas que todos nós ficaremos registados para os anais da história. Naturalmente que no meu caso, como de qualquer outra pessoa com as minhas funções, há um espaço próprio. Mas reafirmo que tudo isto só foi possível fazer graças a uma equipa quer dos órgãos sociais, quer o quadro técnico. São um garante essencial do funcionamento desta entidade. P&S – Sente que com a criação do CPP a realidade do desporto para pessoas com deficiência sofreu muitas alterações, evoluiu, melhorou? HS – Há uma mutação muito significativa. Tenho referido em algumas sedes e em alguns momentos que estamos ainda longe de conseguir perceber qual a dimensão de desenvolvimento social que este projeto irá acabar por ter e influenciar no nosso país. Hoje ainda não é possível perceber de que forma é que o desporto, nesta sua versão inclusiva, pode ser ou não uma ferramenta fundamental e como é que ele vai ter impacto na vida das pessoas para mudarmos percepções, opiniões da população em geral em relação às pessoas com deficiência.

Plural&Singular (P&S) – Que balanço faz destes anos à frente dos destinos do Comité Paralímpico de Portugal (CPP)? Humberto Santos (HS) – É um balanço muito positivo em que as melhores expectativas que podíamos ter sobre este projeto não teriam conseguido certamente ir tão longe como aquilo que acabamos por realizar. Foram oito anos muito profícuos, muito frutuosos, em que se conseguiram abrir enumeras portas, em que se conseguiu crescer imenso, em que se conseguiu partilhar imenso e isso permitiu catapultar esta organização muito recente para um espaço de visibilidade e de reconhecimento institucional que tem sido decisivo para dar uma nova dimensão e uma nova visibilidade aos projetos do movimento paralímpico em Portugal.

Antes de presidir ao CPP, Humberto Santos teve funções de coordenação na comissão instaladora que precedeu a criação do Comité.

FOTOS: CPP

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DESPORTO P&S – Refere-se a uma mudança de mentalidades, a mudanças estruturais, a um novo olhar e forma de fazer… HS – Este trabalho que temos vindo a fazer, um trabalho de abrir portas juntamente com as federações de modalidade para que as modalidades sejam praticadas numa mesma federação, num mesmo clube, independentemente se as pessoas são altas, baixas, magras, fortes, se têm ou não deficiência… Isso vai permitir um processo de interações, um processo de vivências, um processo de socialização quer para as pessoas com deficiência mas também para as pessoas sem deficiência. No futuro iremos sentir todos os efeitos desta prática desportiva inclusiva. Este processo foi se calhar um dos processos mais surpreendentes ao longo destes oito anos porque nós começamos com cinco federações apenas e cinco associações nacionais de desporto pessoas com deficiência [referindo-se à Federação de Desporto para as Pessoas com Deficiência (FPDD), Vela, Remo, Equestre e Judo, bem como à ANDDI, PCAND, ANDDEMOT, ANDDVIS e a LPDS]. E neste momento temos perto de 40 membros, em que 30 são federações desportivas. P&S – O que é que esta adesão pode significar? HS – Isto traduz-se num grande acolhimento da atividade, um grande entendimento por parte dos diferentes agentes desportivos neste país quanto à importância que o desporto pode ter para dar uma outra qualidade de vida às pessoas com deficiência. Isso tem-se vindo a refletir de várias formas. Mais clubes em Portugal têm vindo a abrir as portas a estes cidadãos. E hoje se formos olhar para o quadro de competições nacionais sobre a responsabilidade das respetivas federações, é incontornavelmente muito superior. Hoje temos um campeonato nacional de paracanoagem, um campeonato nacional de remo adaptado, temos um campeonato nacional de ténis de mesa… As organizações têm competições organizadas por si mas mais: têm vindo a potenciar a participação de atletas em competições internacionais e em alguns casos isto sucedeu sem que essas federações tivessem recebido qualquer tipo de apoio direto para se envolverem nesta área. P&S – Isto é fruto de um trabalho intenso. Como o avalia? HS – É algo que me marcará para toda a vida. Tenho uma divida de gratidão para com muitas pessoas com quem tive o prazer, o privilegio e a honra de trabalhar ao longo deste tempo. Muitas pessoas perceberam a mensagem que lhes estava a ser transmitida. Muitas pessoas acharam que independentemente de estarem ou não criadas as condições, que tinha de se avançar, que tinha de se fazer trabalho. Há hoje federações que estão com um trabalho extraordinário. Há maior oferta desportiva, mais espaços para o desporto com pessoas com deficiência, maior qualidade porque estamos a falar de técnicos da modalidade em concreto, são os peritos, são os especialistas. 66

P&S – Sente que as federações já procuram, mais do que juntar-se ao movimento paralímpico, superar-se? HS – Sim e posso dar exemplos… Anualmente as federações têm de fazer prova do número de atletas com deficiência que têm inscritos. E esse número tem um reflexo direto no número de votos que têm em assembleia plenária. Anualmente as federações têm vindo a ter cada vez mais atletas inscritos. E tem sido com enorme satisfação que tenho vindo a registar que cada vez mais, e pelo menos nas tomadas de posse em que tive oportunidade de estar presente, todos os presidentes de federação, sem exceção, fizeram referência aos seus programas para a área do desporto adaptado. Estamos de forma discreta a promover todos uma mutação desportiva e social muito significativa no país que irá ter reflexos a prazo. P&S – Em termos desportivos há já reflexos… HS – Termos no Rio2016 o tiro e o judo são provas daquilo que tem sido o trabalho e o investimento de federações que há três/quatro anos atrás, pelo menos uma delas, não tinha qualquer atividade. Mais: um dos nossos medalhados, o Manuel Mendes [medalha de bronze nos Jogos Rio2016], vem não pelo percurso da área da deficiência, mas pelo percurso do desporto. Já era atleta, corria e fazia as suas provas, mas nunca lhe tinha passado pela cabeça que podia participar nos Jogos Paralímpicos até que um dia lhe colocaram essa questão. Estão-se a abrir portas que há muito pouco tempo atrás seriam impensáveis para grande parte de nós e esta é uma dimensão que me deixa muito feliz. Este não é um trabalho exclusivo do CPP, é um trabalho do movimento paralímpico. P&S – Portugal pode então orgulhar-se deste percurso. E comparativamente com outros países? HS – Claro que quando olhamos para os vários países, vemos que há diferenças e os caminhos não são exatamente os mesmos. Nuns casos a situação está mais avançada do que em outros… Em torno deste fenómeno há dinâmicas e fatores que influenciam essas dinâmicas diferentes. São 170 comités ou entidades ligadas a esta realidade. É natural que existam diferenças. Esta dinâmica da “Igualdade, Inclusão e Excelência Desportiva” que colocamos no lema do CPP é a nossa visão, o nosso mote, não é exclusivo a Portugal. O lema é nosso, mas os outros países à sua maneira estão a trabalhar neste sentido.


DESPORTO

Em outubro de 2014 decorreu o I Congresso do Comité Paralímpico de Portugal sob o lema “Igualdade, Inclusão e Excelência Desportiva”, dedicado aos temas “Inclusão Desportiva” e “Excelência Desportiva”: “Tivemos um número e inscrições absolutamente inesperado. Tivemos de fechar as inscrições. Tivemos apresentações de trabalhos, posters, intervenções absolutamente enriquecedoras. Como era a primeira edição do evento, tínhamos receio de alguma dificuldade de adesão. Foi exatamente ao contrário. Notamos muito envolvimento por parte de docentes, técnicos, federações, autarcas, muita gente boa que se associou a nós. Foi um marco indelével da afirmação institucional e daquilo que é o papel insubstituível do Comité Paralímpico em Portugal”, descreveu Humberto Santos. Outro dos momentos destacados pelo presidente do CPP é a organização em Lisboa da Assembleia Geral do Comité Paralímpico Europeu (outubro de 2015): “Imensos colegas de outros Comités da Europa estiveram cá. Temos guardados, para memória futura, registos de agradecimento pela qualidade do evento. Nunca convém perdermos de vista que estamos a falar de uma estrutura técnica muito pequena. Há aqui uma capacidade de superação das pessoas que levaram a organização a bom bordo. O CPP conta com uma equipa não muito grande mas de um empenho e superação muito grande”..

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DESPORTO P&S – Além da adesão das federações ao movimento paralímpico, que outros factores destaca? HS – As portas que se têm aberto ao nível do Ensino Superior: universidades, centros de investigação. São muito importantes e podem ser um elemento decisivo para a qualidade do trabalho que se possa vir a fazer no futuro. O CPP tem quatro entidades do Ensino Superior como membros. Espero que no futuro tenha muito mais porque podem ser fatores críticos de sucesso para os desafios com que estamos confrontados, nomeadamente através dos currículos das licenciaturas. Eu costumo dizer de uma forma carinhosa que nenhum miúdo deve sair do estabelecimento de ensino sem em algum momento ter falado e ter contactado com a realidade das modalidades adaptadas. Porque muitas vezes vão para clubes, federações, autarquias e quando são confrontados com uma criança ou jovem com deficiência ficam um pouco sem saber como abordar aquela nova realidade. Aqui as universidades podem ter um papel fundamental, bem como junto dos técnicos que estão no terreno e precisam também eles de ser apetrechados com este ‘kit’ de universalidade. E também em termos de investigação: temos muito trabalho para fazer em matéria de investigação. P&S – É inevitável perguntar-lhe: foi difícil tomar esta decisão de partir para um projeto novo e deixar o CPP? HS – De facto foi difícil, embora fosse difícil em qualquer das situações. Quando fui convidado para um novo projeto, eu não tinha decidido que iria continuar no CPP. Ainda não tinha decidido. Tinha pensado que depois do Rio2016 iria sugerir aos meus colegas que refletíssemos sobre o que iriamos fazer no futuro. Estou no CPP a full-time há cerca de sete anos. São sete anos de afastamento a minha atividade profissional [Humberto Santos é técnico superior dos Serviços Intermunicipalizados de Águas e Resíduos, estrutura que serve nomeadamente o concelho de Loures] e isto tem peso, encargos, do ponto de vista da nossa progressão na carreira, tem impacto na nossa própria formação. E uma das possibilidades que tinha em cima da mesa era regressar à minha entidade de origem. Era uma hipótese regressar e manter-me no CPP mas sem ser presidente a full-time. Outra possibilidade era fazer a desvinculação total. E, em regra olhamos para aquelas pessoas que permanecem nas organizações durante muito tempo em alguns casos como apego ao poder. Isso era algo que eu queria evitar que me acontecesse também. Tudo isto estava em cima da mesa, aliado ao facto de que podemos ter feito um trabalho bom e conseguido fazer coisas extraordinárias mas se chegarmos aos Jogos Paralímpicos e os Jogos nos correrem menos bem, é evidente que o nosso capital de crédito fica abalado. Não foi o caso, muito pelo contrário, mas à cautela referi sempre que antes dos Jogos não tomava qualquer decisão e depois dos Jogos

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logo se veria. Na verdade não tinha como adquirido o que ia fazer. Mas uma coisa é não pensarmos no assunto e outra é estarmos confrontados com a situação de ter um convite, um desafio. Trata-se de algo que não é de âmbito público, logo permito-me, como compreenderão, manter privacidade quanto ao projeto. Não foi fácil. Todos estes anos trabalhei permanentemente e muitas vezes sete dias por semana a saber quando começava e sem saber quando terminava. Mas fi-lo sem queixume porque este é um projeto que galvaniza, é um projeto envolvente, é um projeto que tem um crescimento e um potencial enorme. Os desafios crescem a cada dia… Para o ano temos a Missão Surdolímpica que já está a ser trabalhada. Dias paralímpicos nas escolas, o Dia Paralímpico. Muitos eventos. A gala, a primeira gala do CPP (ver caixa). P&S – Que conquistas mais o marcaram ao longo destes anos? HS – Vou partilhar pela primeira vez… Quando regressei de Londres [Jogos Paralímpicos de 2012] um dos atletas, um dos mais conhecidos, sentou-se comigo no avião e disse-me ‘presidente, até podem não aumentar as bolsas mas por favor eu preciso que me paguem sempre no mesmo dia porque a minha vida depende do valor que recebo da bolsa’. Eu sabia que este era um problema que afetava muitos outros, não era só aquele que estava a falar comigo. Quero dizer que é com uma enorme satisfação que depois de termos conseguido um contrato quadrienal, ou seja durante quatro anos conseguimos garantir e gerir em função dos valores que contamos, termos conseguido também criar uma regra, uma matriz de ação que permite que qualquer atleta, independentemente da zona do país em que esteja, no mesmo dia e à mesma data sabe que tem a sua bolsa na sua conta bancária. Sei perfeitamente das condições em que muitos destes nossos atletas se encontram e o quanto é importante esta atenção. Geralmente as organizações têm a tendência para implementar procedimentos internos virados para dentro. A implementação deste procedimento pode ser algo considerado menos importante mas para mim faz toda a diferença. No fundo colocamos os atletas como o elemento central da nossa ação. P&S – Durante este período também foram alcançados avanços na dimensão Surdolímpica… HS – A introdução das esperanças Surdolímpicas foi de facto um elemento muito significativo. Não tínhamos até então qualquer instrumento de ajuda para impulsionar os novos atletas a poderem surgir e a partir de 2013 passamos a ter condições para o fazer. Ter-se conseguido que os Surdolímpicos passassem a ter um contrato plurianual [também a quatro anos], quando nem sequer contrato tinham, é também um passo na organização do modelo desportivo em Portugal muito significativo. Os contratos-programa podem parecer instrumentos


DESPORTO presidente da Associação Portuguesa de Deficientes] me permitiu abrir portas. Houve uma mais-valia por ter pertencido a essa organização, interagi com muitos responsáveis políticos, governamentais, autárquicos… Nenhum país no mundo tem os recursos todos que são precisos e há aquela tensão entre a sociedade organizada e os poderes instituídos. A sociedade civil que deve, tanto quanto possível, assumir uma postura de desenvolvimento social e de vanguarda e os poderes instituídos que tentam canalizar os recursos que têm de acordo com a sua visão e estratégia. Isto constitui alguma litigância. E eu fui o rosto de parte dessa litigância na área da deficiência durante muitos anos e cheguei a recear que essa situação pudesse afetar a minha prestação e a relação com entidades terceiras e o que eu vim a verificar foi o contrário.

administrativos ou de mera retórica política mas são instrumentos fundamentais para o apoio e a promoção do desporto ao mais alto nível em Portugal, nomeadamente dos atletas que têm condições para estar em programas de excelência como são os programas de preparação Paralímpica e Surdolímpica. Temos um longo caminho por fazer. Mesmo muito grande, mas demos passos muito mas muito significativas. P&S – Que realidade encontrou? HS – Partimos de um ponto muito baixo. Quando o CPP foi criado as bolsas que existiam há muitos anos que não eram revistas. Tínhamos valores muito, muito, muito baixos e não houve condições para ir tão longe como todos nós gostávamos mas estou em crer que Tóquio2020 vai ser um elemento fundamental para dar mais um passo em frente. Estão criadas as condições de entendimento e receptividade fruto do trabalho de visibilidade e de criação de condições, de maior implantação do próprio CPP. Acredito profundamente que quem vier a ter a responsabilidade de fazer futuros processos negociais vai encontrar condições totalmente diferentes para melhor.

P&S – Continuará atento e a torcer pelo projeto… HS – Eu utilizei a expressão “eu não vou migrar”. Estou aqui e podem contar comigo dentro do meu quadro de disponibilidade mas vou estar por cá para ajudar e nada mais do que isso. Para ajudar e quando solicitado. Por exemplo uma das regras que tenho relativamente à Associação Portuguesa de Deficientes, e na qual ainda sou membro da assembleia geral, é a de só colaborar nas atividades quando me é suscitada essa colaboração. Ou para a apreciação de um documentou, ou para fazer parte de um projeto em concreto. Muito pontualmente. Se não, caso contrário, quem está os anos que eu estive à frente de uma estrutura, sem quer e admitindo que com a melhor das intenções, pode estar a dar opinião e, sem querer, condicionar a ação da pessoa que está à frente da instituição. Eu quero ser parte da solução e não parte do problema. Por isso faço este posicionamento de princípio: sempre que precisarem de mim, contam comigo. Mas mais do que isso não. Há um ditado que diz que ‘de boas intenções está o inferno cheio’ e eu com boas intenções poderia criar entropia na organização. Vou fazer no CPP, o que fiz na APD: o que for necessário e estiver ao meu alcance, terei todo o gosto. De resto vou-me inibir totalmente de emitir opinião porque isso será da responsabilidade das pessoas que cá vão ficar.

P&S – E relativamente às conquistas nos jogos, nos ringues, nas piscinas e pistas, etc… HS – Tantos momentos. Momentos de transcendência. Descrevo dois mais recentes… Nos Jogos Paralímpicos Rio2016: um momento de enorme felicidade foi a conquista da medalha de bronze pelo José Carlos Macedo [boccia, BC3] pela forma como foi disputada e alcançada. Todos os que estávamos no pavilhão sentimos que estávamos num momento decisivo, em que o adversário iria disputar, contestar, com todos os meios ao seu alcance o resultado final. Foram momentos de enorme tensão. Um momento de quase ir às lágrimas a ver um jogo de boccia que é uma coisa quase inacreditável. Parece contraditório. Quem esteve lá, quem assistiu sabe que foi assim. E depois o Manel [Manuel Mendes, atleta vimaranense que pratica atletismo]… Estava assistir à prova, vi nas condições em que ele passou na última volta. Pensei que dificilmente ele conseguiria chegar à meta e quando me começam a fazer sinais de que tínhamos mais uma medalha, eu não percebia o sinal porque estava completamente fora da minha expectativa. Foi uma emoção tremenda.

A página de facebook do CPP foi reconhecida entre os Comités Paralímpicos do Mundo como a sexta [atrás da Austrália, Canadá, EUA, Brasil e Inglaterra, países que têm uma dimensão demográfica incomparável com Portugal] melhor em termos da adesão de pessoas.

P&S – É possível resumir oito anos de CPP? Uma década de projeto paralímpico? HS – Foram momentos de transcendência, momentos de superação…Uma experiência que jamais irei esquecer. Neste espaço cresci imenso enquanto pessoa, quer no ponto de vista das minhas competências pessoais, mas também sociais e nos meus conhecimentos. Percebi que o meu trabalho de outrora [Humberto Santos foi

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I Gala do Comité Paralímpico de Portugal

“Ao longo destes oito anos uma das estratégias que

utilizamos foi constituir um conjunto de eventos que permitissem criar visibilidade. Sabemos que há aqui ainda uma certa invisibilidade por parte dos nossos atletas, técnicos, desta dimensão em concreto”, aponta Humberto Santos

O CPP organiza, no dia 06 de dezembro, no Convento do Beato, em Lisboa, a I Gala do Comité Paralímpico de Portugal, um evento no qual serão distinguidas pessoas, instituições e trabalhos que se tenham destacado por ações que visam o movimento Paralímpico e Surdolímpico. Também está prevista uma homenagem à Missão Paralímpica Rio2016, Jogos nos quais Portugal conquistou quatro medalhas. Na entrevista à Plural&Singular, Humberto Santos revelou que realizar esta gala é algo que já está a ser trabalhado e pensado há alguns anos e que o objetivo é que, após esta primeira edição, o evento “se consiga afirmar marcando pela diferença”. “Sendo uma gala de excelência, de uma entidade de topo, é expectável que o que de melhor existe no país e no mundo possa vir a passar por ali. O objetivo da gala é fazer um reconhecimento público do que melhor se faz, quer do ponto de vista da participação desportiva, quer do compromisso que existe por parte de muitas pessoas relativamente a esta realidade desportiva”, resumiu o dirigente, acrescentando à dimensão dos homenageados não-atletas, mas gente de “igual excelência”. Assim, com a sua I Gala, o CPP propõem-se, descreveu Humberto Santos, “reconhecer o que de melhor existe em matéria de atletas portugueses, quer pelas suas prestações em Jogos Paralímpicos mas também em campeonatos do Mundo e da Europa”, mas serão também reconhecidas entidades e personalidades que se tenham distinguido no contributo para o surgimento e para a afirmação do CPP. Soma-se um prémio de jornalismo (mediante candidatura e análise de júri) que visa distinguir o que de melhor foi feito em termos de jornalismo (dentro dos prazos de publicação que constam do regulamento). “Este prémio de jornalismo é ainda muito insipiente. É a primeira edição, temos consciência que temos um longo caminho nessa área, mas o que pretendemos com isto é criar mecanismos de incentivo aos jornalistas deste país para que possam escrever e interessar-se sobre esta dimensão em concreto. Estamos a tentar contaminar a dimensão da comunicação para que existam mais trabalhos sobre esta área”, explicou. 70

Na 3.ª edição da revista digital da Plural&Singular foi publicada um “À conversa com o presidente do Comité Paralímpico de Portugal”. Os dados da peça foram recolhidos antes de junho de 2013, mas desafiamos os leitores a relerem a entrevista que marcava a reeleição de Humberto Santos como presidente do CPP e na qual este dirigente lançava já vários desafios e objetivos para o futuro.


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Esta será uma gala anual. Este ano muito dirigida aos Paralímpicos e para o ano naturalmente dirigida aos Surdolímpicos. “É incontornavelmente um espaço de afirmação institucional do CPP. Mas é um espaço em que nós queremos catapultar para o espaço público tudo aquilo que nós consideramos que é o melhor que o país e não só tem”, disse Humberto Santos com a ressalva que no que diz respeito a atletas, em causa estão atletas portugueses, mas no que diz respeito a personalidades poderão não ser só personalidades portuguesas. O CPP não quer que esta seja apenas mais uma gala. Quer que exista um elemento distintivo de prestígio e de excelência que seja mais um contributo para a afirmação do lema: “Igualdade, Inclusão e Excelência Desportiva”.

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DESPORTO

Escalada adaptada – paredes sem barreiras A escalada é um dos mais recentes desportos olímpicos… Vai estar integrada nos próximos Jogos Tóquio2020. O mundo começa a despertar para esta modalidade, mas em Braga já se pratica escalada adaptada desde 2014. Pessoas cegas, amputadas e com deficiência intelectual sobem paredes, mostrando que não existem barreiras na inclusão Texto:Paula Fernandes Teixeira Fotos: Clube de Escalada de Braga

Em julho o Clube de Escalada de Braga (CEB) realizou a II Prova Nacional de Escalada Adaptada. Alguns dias antes do evento, os organizadores escreviam nas redes sociais: “Felizes por ter dobrado o número de inscrições do ano passado”. Já em entrevista à Plural&Singular, em jeito de balanço, o presidente e treinador do CEB, Filipe Costa, contou que o ‘feedback’ que tem recolhido mostra que “se trata de uma experiência que muda vidas. “O impacto é gigantesco quer a nível psicológico como físico”, descreve. O responsável teve contacto com o projeto adaptado brasileiro em 2013. Conta que se emocionou e pensou: “poderíamos fazer o mesmo cá”. “Gosto de me desafiar a mim mesmo também”. O CEB iniciou o projeto de escalada adaptada em 2014 com a Cooperativa de Educação e Reabilitação de Cidadãos com Incapacidades (CERCI) de Braga. Entretanto as parcerias e os interessados foram alargando e aumentando. A Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental (APPACDM) e a Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) também de Braga, bem como a Associação Nacional De Amputados (ANAMP), que tem sede em Vila Nova de Gaia, juntaram-se. 72

O crescente interesse não surpreende Filipe Costa que vê nas instituições os “principais parceiros” por serem, acrescenta, “veículos de informação essenciais para levar a escalada adaptada às pessoas”. O aumento de participantes é visto com naturalidade e aliás vai ao encontro da convicção do clube de que há “vontade de o desporto adaptado ser cada vez mais real dentro das instituições”. “Quando avançamos em 2014 com a criação de uma escola de escalada percebemos que não existia nenhum projeto de escalada adaptada em Portugal. Com este projeto temos a possibilidade de ajudar muitas pessoas de várias formas e ao mesmo tempo promover a modalidade que amámos”, aponta Filipe Costa. O formato da “prova” adaptada é de demonstração e experiência mais do que de uma competição em si. Portanto não vamos falar de vencedores nem vencidos! “O objetivo é proporcionar às pessoas uma experiência diferente e de perceberem como a escalada os pode ajudar. Ao mesmo tempo mostrámos à sociedade o potencial da modalidade e as conquistas dos nossos participantes”, descreve o responsável do clube. Na II Prova Nacional de Escalada Adaptada, o CEB juntou participantes um pouco de todo o Norte de Portugal.


DESPORTO

A prova juntou mais de 80 participantes divididos pelas respetivas categorias, sendo que a Categoria A (Intelectual) tem sido a mais concorrida.

Além de Braga, aderiram à iniciativa pessoas de Vila Verde, Viana do Castelo, Ponte de Lima, Amarante, Porto, Vila Nova de Gaia e Matosinhos. E o clube já está a pensar em futuras edições com Filipe Costa a revelar ter “esperança de poder fazer crescer o evento em número de participantes, mas também em atividades”. O dirigente pondera até trazer a Portugal alguns parceiros internacionais que desenvolvem projetos semelhantes.

Mais sobre o clube

O Clube de Escalada de Braga, que conta com cerca de uma centena de associados, foi legalmente fundado em 2011, embora segundo os responsáveis o projeto de criação do clube com escola e infraestruturas remonte ao início de 2014. O principal objetivo é o do desenvolvimento e promoção da escalada a nível local, nacional e internacional. “A isto juntam-se os nossos valores de que todos podem e dever ser incluídos na nossa sociedade e na vida desportiva”, descrevem. Dentro do clube existem atletas de grande valor no cannyoning, montanhismo e na slackline. “As nossas atividades vão tão longe quanto a nossa carteira e a meteorologia deixar. O céu é o limite!”, completam os responsáveis do clube.

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DESPORTO

O cartaz alusivo ao evento que decorreu nos dias 30 e 31 de julho mencionava quatro categorias: deficiência intelectual (categoria A), cegos (categoria B), amputados membro superior (categoria C1) e amputados membro inferior (categoria C2). Para cada categoria os problemas a escalar são ajustados pelos equipadores de vias de forma a tornar os problemas desafiantes mas possíveis a cada problemática. Por exemplo, os cegos trabalham em equipa com o treinador que vai orientado verbalmente sobre os movimentos a executar, antecipando o percurso. Em relação aos amputados são livres de escolher se querem ou não usar a sua prótese, é facultativo e não altera a categoria em que concorrem.

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DESPORTO

Há muitas histórias que nos marcam. Prefiro não destacar nenhuma pois são pessoais. Posso apenas dizer que é muito comum principalmente nas nossas provas, ver voluntários, público e participantes a chorarem de emoção e felicidade. Esse é grande parte do combustível que nos faz querer fazer cada vez mais e melhor”, Filipe Costa.

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PERFIL

José Carlos Macedo – O atleta excelência! Logo na estreia em Jogos Paralímpicos, em Atlanta1996, José Carlos Macedo conquistou para Portugal dois ouros. Seguiram-se muitos outros troféus, o título de campeão Europeu e mais medalhas em Jogos, como a recentemente conquistada em Rio2016. O ‘Ronaldo’ do boccia, descrito por quem o rodeia como um atleta de excelência, tem ainda um sonho por cumprir: ser campeão do Mundo… Por Paula Fernandes Teixeira No dia 16 de setembro José Carlos Macedo bateu o sulcoreano Han Soo Kim no torneio de boccia BC3 dos Jogos Paralímpicos que decorreram no Brasil. Conquistou mais uma medalha de bronze para juntar aos quilos de troféus que preenchem os armários, mesas e paredes de casa, em Braga. Foi a sua sexta medalha em cinco participações paralímpicas. Em Atlanta1996 e Sydney2000 conquistou três ouros, em Londres2012 uma prata e um bronze. Do Rio2016 trouxe o bronze. Na plateia estava o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, e não só… À conversa com a Plural&Singular, José Carlos Macedo lembrou a presença do governante mas também de ter sido surpreendido pelos primos que moram no Brasil e se deslocaram à Arena para ver o atleta português com mais medalhas em BC3 em ação. “Tinham-lhe feito essa promessa quando vieram a Portugal de férias e cumpriram. É muito bom perceber que o José é reconhecido porque são tantos os sacrifícios e tanto o empenho. A câmara de Braga, o clube, várias entidades e agora até o Presidente da República, já fizeram homenagens. Ele quando vai na rua gritam: ‘campeão’. É merecido”, contaram Maria Sameiro Costa e Manuel Macedo Costa, mãe e pai do nosso “Ronaldo” do boccia. O facto de ser uma referência já não intimida José Carlos Macedo. Diz-se aliás “habituado” porque os elogios são o reconhecimento pelo seu “muito esforço”. A aventura no boccia começou quando com 18 anos lhe perguntaram se queria praticar desporto. Queria! Sonhava com isso desde que em criança dava pontapés na bola. Até quis ser jogador de futebol. Um dia, num dos muitos domingos em que ia com o pai ver o Braga ao estádio, enquanto Manuel Macedo Costa empurrava a cadeira, um dirigente da Associação de Paralisia Cerebral daquela cidade nortenha desafiou-o para os treinos. “Com dois meses de treino, que não era treino, era deitar bolas, ganhou um torneio. A partir daí começou a ganhar tudo”, descreveu o pai. José Carlos Macedo acabaria por ser convocado para a Seleção Nacional em 1993.

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Só os atletas de elite se mantêm no cume durante mais tempo e sobrevivem às alterações da modalidade. É reconhecido a nível internacional. Ao longo de todos estes anos, o Zé Carlos mantém-se no top” – Luís Marta, conhece José Carlos Macedo desde 1992


PERFIL

O atleta, que representa o Sporting Clube de Braga, conquistou a medalha de bronze no torneio de boccia BC3 dos Jogos Paralímpicos Rio2016, ao impor-se ao sul-coreano Han Soo Kim, repetindo assim o bronze conseguido há quatro anos em Londres2012, precisamente contra o mesmo adversário.

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PERFIL

Atualmente tem como assistente – ou “parceiro de competição” como preferiu descrever à Plural&Singular – Roberto Mateus. O treinador é Luís Marta. Ambos falam de um atleta de excelência que dá tudo no jogo. “É um jogador de elite. O que está escrito nos livros sobre um atleta com deficiência ou sem deficiência que seja de elite, o Zé Carlos tem, o José Carlos Macedo está no livro. É uma pessoa que se entrega muito ao treino, à preparação. Tem por base uma qualidade inata para a prática desportiva. Tem uma entrega ao jogo fora do normal. O pavilhão pode cair, mas o Zé está concentrado. O nível de focalização e a vontade de fazer bem e ser sempre o melhor naquilo que faz, faz do José Carlos um atleta de eleição”, descreveu Luís Marta. Roberto Mateus acrescenta “é um jogador brilhante e irreverente” e descreve um dos muitos momentos em que essas caraterísticas se refletiram: “Só conheço um jogador que consegue virar um resultado muito negativo a seu favor de forma tão brilhante. O Zé Carlos. Foi o que aconteceu no campeonato da Europa [Guimarães, 2013] quando parecia tudo perdido e na última bola tudo muda. Eu estava a olhar para o adversário [nos momentos de competição os assistentes técnicos ficam de costas para as bolas]. O adversário estava sorridente. E o Zé lança e a bola cai onde parecia impossível. Foi o ponto de ouro. Olho para a expressão do Zé Carlos que estava de olhos arregalados e vejo o adversário a chorar. Percebi exatamente o que tinha acontecido quando o pavilhão começou a gritar ‘Macedo’”. Este momento, num campeonato da Europa que decorreu em Guimarães que era Cidade Europeia do Desporto em 2013, também é recordado pelos pais e pelo treinador. “Não podíamos gritar. No futebol dizemos ‘chuta” mas no boccia não se pode. Exige-se muita disciplina, muita concentração. Não foi fácil adaptarmo-nos. Contermos os nervos. Aplaudimos às vezes mas está-se mais em silêncio. Quando vimos o José ganhar foi uma emoção muito grande”, contaram. Não era para menos. Foi um jogo do outro mundo, com uma bola fantástica. A meio da final, José Carlos Macedo ganhava ao grego Grigorios Polychronidis por 4-0. No terceiro parcial sofreu quatro pontos. Ficou 4-4. No último parcial o 1-1, ou seja, o 5-5, obrigou a desempate. E na última bola, eis a tal jogada fantástica, a tal do outro mundo… Macedo arriscou um lançamento de sete metros e a bola colou na bola alvo depois de saltar sobre as duas bolas do atleta grego. José Carlos Macedo sagrou-se ali campeão da Europa. Este perfil já lhe valou uma alcunha – é o “kamikaze”. Foi exatamente o treinador quem lhe deu esse ‘cognome’. “Ele consegue levar o jogo ao limite. Tem essa caraterística: consegue adaptar o seu jogo às caraterísticas das bolas daquele jogo e consegue desequilibrar. Um jogo [em Guimarães] que parecia perdido, com José Carlos Macedo passou a estar na mão”, completou Luís Marta que treina o bracarense desde 1992. 78

José Carlos Macedo foi porta-estandarte de Portugal na cerimónia de abertura dos Jogos Paralímpicos Rio2016, que se realizou a 07 de setembro. À Plural&Singular, o atleta bracarense revelou que “não contava” com esta distinção e que só a soube na véspera da partida para o Brasil. “Estava na mesa principal com pessoas importantes, o ministro, o embaixador, presidentes e dirigentes desportivos e recebi essa notícia. Foi comovente. É um orgulho enorme ser porta-estandarte de uma Seleção. Na verdade às vezes penso: José já não tens muito mais a fazer. Mas depois estas situações, reconhecimentos, a adrenalina do jogo, mostram-me que enquanto puder vou procurar

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Medalhas Paralímpicas

3

Ouros

1

Prata

2

Bronzes

5

Participações em jogos


PERFIL

Descreve-o como “um extraordinário ser humano”, alguém que “é capaz de ser um atleta altamente agressivo e ao mesmo tempo ser o mais leal possível” ou seja, nas palavras do técnico de boccia, estamos perante “um desportista nato que tem sentido ético e uma forma extraordinária de estar no jogo”. “Quando o Zé Carlos vai lá fora traz sempre um miminho, traz sempre a t-shirt ou a revista da competição. E faz questão de levar sempre a medalha ao treino depois de uma prova internacional para me mostrar”, descreveu. Já Roberto Mateus tem orgulho no facto de ambos serem vistos como uma dupla “exemplo”. “Toda a gente que nos conhece no meio do desporto adaptado, quer sejam mais próximos ou adversários de outros países, perguntam se somos familiares. Mais do que a parte desportiva, somos muito amigos, somos companheiros, somos cúmplices. Ele é uma pessoa muito verdadeira. Não tem papas na língua. Dá tudo na parte desportiva. Não fica à espera que as coisas lhe caiam do céu”, referiu. Também José Carlos Macedo nutre um afeto especial quer pelo treinador, quer pelo seu companheiro de competição, do qual aliás é padrinho de casamento. Os pais, por sua vez, descrevem que notam que o filho comunica com os olhos melhor com Roberto do que com qualquer outra pessoa. “O Roberto é cinco estrelas, um amigo, um companheiro, temos uma grande empatia. E ao meu treinador devo a evolução, o crescimento. Motiva-me muito”, apontou José Carlos Macedo, sem deixar de destacar que a calha que usa no jogo foi desenhada por Roberto Mateus à medida das suas necessidades. Voltando ao Rio2016! “Gostei muito dos Jogos no Brasil. Foi especial ser porta-estandarte. Foi especial ser um país onde se fala português e ter família lá. Foi espetacular ganhar a medalha. Foi importante para Portugal”, concluiu ‘kamikase’, o ‘Ronaldo’ do boccia. 7979

José Carlos Macedo, acompanhado de Roberto Mateus, recebeu a 09 de novembro o título de comendador da ordem de mérito das mãos do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Antes, a 16 de setembro, exatamente no dia em que conquistou o bronze nos Jogos Rio2016, o chefe de Estado português já tinha enviado uma mensagem de congratulação, na qual sublinhava que “o esforço compensa”. Em jeito de resposta e também de agradecimento, Macedo confessou à Plural&Singular que “foi muito especial ter recebido o grau de comendador” porque “é sinal que o país reconhece” o seu trabalho e o seu valor.


PERFIL

José Carlos Macedo em discurso direto Plural&Singular (P&S) – Como avalia o futuro do boccia português a nível mundial? José Carlos Macedo (JCM) – Portugal já foi e ainda é uma potência nesta modalidade. Até já ensinamos outros países e jogar. Mas é verdade que o Brasil, a Coreia e outros países como a França, Inglaterra ou Grécia estão muito fortes. Acredito em Portugal sinceramente. Mas é importante ver que os outros países fazem investimentos maiores ou pelo menos muito grandes. Eu, por exemplo, sou atleta de alta competição e ganho a bolsa de 1.º nível que já não é mau, mas é muito menos do que os valores de desporto não adaptado. Era importante que fizessem mais publicidade, divulgassem e ajudassem mais. O que tenho de mais certo, de certeza, é que tanto eu como os meus colegas damos tudo de nós por Portugal. Ouvir o hino é muito especial. P&S – O que podem os portugueses esperar mais do José Carlos Macedo? JCM – Não há idade para sair. Ainda não me vejo a sair. Às vezes penso nisso porque não quero sair velhinho, quero sair bem. Olhar para mim e ver que ainda consigo, não alguém que se arrasta. Acho que me falta um título. Queria muito ser campeão do Mundo. Podem esperar que persiga objetivos e sonhos sempre e enquanto puder. Onde vou a ambição é ganhar sempre tudo.

BI Nome: José Carlos Macedo Modalidade: Boccia Categoria: BC3 Idade: 44 anos Clube que representa: Sporting Clube de Braga Parceiro de competição: Roberto Mateus Treinador: Luís Marta Ídolos no futebol: Maradona e Cristiano Ronaldo Ídolos na música: Elvis Presley e Freddie Mercury Sonho: Ser campeão do Mundo

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PERFIL

Recentemente, no dia em que a Plural&Singular visitou José Carlos Macedo em sua casa – localizada em Merelim S. Pedro, concelho de Braga, onde aliás há um pavilhão gimnodesportivo com o nome deste atleta – encontrou além dos pais babados uma vitrina a abarrotar de medalhas, taças e diplomas. A mãe, Maria Sameiro Costa, confidenciou mesmo que no armário do hall de entrada já só cabem os troféus internacionais. Os restantes estão guardados ou espalhados pelos móveis da casa.

José Carlos Macedo tem quatro irmãos, um dos quais gémeo. A paralisia cerebral foi adquirida com um traumatismo de infância, como relata uma brochura das narrativas do desporto paralímpico, da Universidade do Porto. Uma queda durante uma brincadeira rendeu-lhe um coma e anos de recuperação. Os pais recordam esse período sem entrar em pormenores, enquanto Macedo brinca: “Perdeu-se um jogador de futebol que não se sabe a que patamar chegaria e nasceu um grande jogador de boccia”. Como hobbies, o atleta enumera ouvir música e assistir a jogos. É um dos padrinhos da candidatura de Braga à Cidade Europeia do Desporto 2018.

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PERFIL

Armando Costa, de Gondomar, também pratica boccia e é um dos atletas portugueses nesta modalidade com mais títulos conquistados. Esta foto ilustra o quão antiga é a convivência de ambos: José Carlos Macedo e Armando Costa conhecem-se desde 1993 e partilham quartos em estágios. Em Sidney2000 foi exatamente isso que aconteceu: na véspera de uma final na qual seriam adversários voltaram a estar lado a lado. “Foram três semanas a dormir no mesmo quarto, a partilhar tudo. Sofri por ele e ele por mim ao longo do percurso. Na noite antes da final não quis falar com ele. Somos grandes amigos e nem os torneios abalam a nossa amizade”, relatou Macedo à Plural&Singular. Nessa disputa levou a melhor o atleta de Braga que considera estes Jogos uns dos “mais marcantes” da sua carreira.

[O sonho de campeão do mundo] é algo que temos perseguido. Ele já ganhou tudo o que havia para ganhar e esse escapa-nos. Ele já pensou parar em 2012 e depois em 2016, mas acho que por lhe faltar esse título... Nestes próximos quatro anos, vamos dar tudo por tudo para conseguir um título que escapa ao Zé e a Portugal. Acho sinceramente que de todos os atletas do panorama nacional e até europeu, é o José Carlos Macedo quem está mais perto de alcançar esse feito” – Roberto Mateus, acompanha José Carlos Macedo desde outubro de 2017

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OPINIÃO

BISFED 2017 European Championships - Póvoa de Varzim A PCAND viu coroada de êxito mais uma candidatura à organização duma prova de âmbito internacional, mais concretamente o Campeonato da Europa de Boccia, que terá lugar na cidade da Póvoa do Varzim, entre os dias 17 e 25 de Junho de 2017. Numa fase ainda prematura do novo ciclo paralímpico, os melhores jogadores, pares e equipas europeias, irão dar o seu melhor, uns para confirmar os bons resultados obtidos recentemente nos Jogos do Rio 2016 e outros para demonstrar que estão ao mesmo nível dos melhores. Póvoa de Varzim - Cidade anfitriã Já conhecida como a capital do Boccia, a cidade da Póvoa do Varzim apresenta características geográficas e localização muito favoráveis, aliadas a um cuidado permanente com a acessibilidade a pessoas com mobilidade reduzida. Para além destes fatores, disponibiliza os recursos pertinentes e de qualidade, na promoção e implementação destas provas de âmbito internacional. Como evidência deste apoio da autarquia local e dos vários inúmeros voluntários, que sempre têm participado com enorme entusiasmo, é bom recordar as provas já realizadas na cidade, nomeadamente o Campeonato do Mundo (2002), Campeonatos da Europa (2005 e 2009), World Open (2014 e 2016) e Masters (2001, 2004 e 2012).

O Pavilhão Municipal da cidade da Póvoa do Varzim será, uma vez mais, o palco principal para acolher uma prova com um carácter tão importante, pois apresenta características que lhe conferem uma adaptação eficaz e a logística necessária para a realização de eventos de boccia, em particular pelo elevado grau de acessibilidade de pessoas em cadeira de rodas, mas também pela dimensão, que permite a implementação da área de competição e espaços de apoio, facilitadores de toda a organização desportiva. A seleção nacional Os atletas portugueses, e respetiva equipa técnica que constitui a seleção nacional, irão certamente procurar aproveitar o facto da prova internacional se realizar no nosso país, e numa “casa” que tão bem conhecem. Portugal tem uma boa tradição em termos de organização e de resultados em Campeonatos da Europa. Basta recordar que na última edição, realizada na cidade de Guimarães em 2013, a Seleção Nacional conquistou cinco medalhas e vai querer continuar a demonstrar o seu elevado valor, para isso, é necessário contar com o apoio de todos quantos puderem deslocar-se ao Pavilhão Municipal, que tão boas memórias nos tem deixado.

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OPINIÃO

António Costa Pereira Técnico Nacional de Andebol da ANDDI-Portugal

Da Deficiência Intelectual à competência de Jogo Nos dias que correm, ainda muitos ficam impressionados com as capacidades evidenciadas por praticantes desportivos com deficiência intelectual (DI) e naturalmente a pergunta que me fazem é invariavelmente esta: “Ah, mas aquele não tem nenhuma deficiência, pois não?”… e lá tenho eu de explicar que se trata de um indivíduo com deficiência intelectual ligeira, com imensas dificuldades ao nível da aprendizagem mas que tem uma ótima capacidade física e técnica para a prática daquela modalidade específica. Outros evocam os velhos mitos… “a deficiência só é “real” quando se vê” ou “as pessoas que têm uma “verdadeira” deficiência mental não conseguem alcançar elevados níveis de performance desportiva!”. A estes últimos dou sempre o exemplo de Pedro Isidro, marchador olímpico (sim, disse bem, OLÍMPICO!) que começou a sua atividade desportiva através do Desporto Adaptado e que, dentro de um centro de ensino especial, foi desenvolvendo as suas competências de tal forma que mais tarde entrou para o Desporto dito Regular, tornando-se internacional e sendo uma das atuais referências da Marcha Atlética em Portugal. Posso acrescentar que Pedro Isidro apesar de ser perfeitamente autónomo, evidencia dificuldades na leitura e na escrita e em se exprimir, nomeadamente quando entrevistado por órgãos de comunicação social. Isidro participou nos 50kms Marcha dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e Rio 2016 obtendo o 40º e o 32º lugar, respetivamente. Mas o que pode parecer modesto para muitos é, no entanto, um enorme feito, porque competiu contra atletas que não têm a sua limitação cognitiva. Concorrendo com os que tem o mesmo deficit é o melhor do Mundo, sendo inclusivamente o recordista mundial da deficiência intelectual em todas as distâncias da Marcha. Importante ainda referir que apesar de chegar ao topo da pirâmide no Desporto Regular, nunca deixou de competir no Desporto Adaptado a nível nacional e internacional porque sempre assumiu a sua deficiência. Há ainda o caso inverso, ou seja, os atletas com DI que começam a sua prática pelo Desporto Regular e mais tarde é que chegam ao Desporto Adaptado. Normalmente começam cedo a prática mas à medida que o jogo ou a disciplina desportiva se vai tornando complexa em termos táticos e estratégicos, nomeadamente ao nível da tomada de decisão, estes não conseguem evoluir ao ritmo dos praticantes ditos normais. Normalmente também 84

são casos problemáticos que criam mau estar dentro dos grupos de trabalho, sendo mesmo um “estorvo” para a maioria dos treinadores devido sobretudo à instabilidade emocional e até mesmo aos comportamentos desajustados em situação de treino e/ou jogo/competição. Posso referir que existem casos destes no Andebol Adaptado, havendo mesmo alguns jovens com DI que jogavam andebol em clubes regulares mas que com o tempo foram sendo pouco utilizados ou até mesmo dispensados das equipas onde estavam a jogar. Se não existisse o Desporto Adaptado estes já tinham abandonado a prática da modalidade. Hoje estes mesmos casos que refiro, são alguns dos melhores jogadores da Seleção Nacional de Andebol da ANDDI e sentem o sucesso na prática que já não sentiam no Desporto Regular há muito tempo ou que até nunca sentiram, pois não adquiriram todas as competências necessárias para obterem esse sucesso. No entanto, com a “bagagem” dos anos de andebol que têm, tornam-se os tais indivíduos que falei no 1º parágrafo, que são extremamente competentes quando jogam contra outros indivíduos com deficiência intelectual resultante das capacidades técnicas que já adquiriram e evidenciam, comparativamente com outros que praticam a modalidade há relativamente pouco tempo. Alguns defendem que estes praticantes com deficiência intelectual ligeira não deveriam fazer parte dos quadros competitivos existentes para o Desporto Adaptado, argumentando que deveriam ser enquadrados no Desporto Regular. Em certa parte concordo, mas o que é um facto é que para a maioria deles, caso não existisse esta possibilidade, o abandono da prática seria uma realidade e não alcançariam o que hoje sentem… a Felicidade!


cultura

Um livro para “suportar melhor tudo o que é maior que nós”


CULTURA

Identidade Uma centena de pessoas com e sem deficiência participaram de 05 a 11 de setembro no Campus Artístico promovido pela Associação do Porto de Paralisia Cerebral (APPC). “As artes performativas poderão ser uma das armas poderosas para a inclusão, sensibilização e integração”, apontam os mentores desta iniciativa, uma residência artística que decorreu em Ponte de Lima Texto: Paula Fernandes Teixeira Fotos: APPC

O quinto Campus Artístico da APPC juntou, este ano, num espaço preparado pela APPACDM de Viana do Castelo, delegação de Ponte de Lima, 100 pessoas desde utentes de instituições, a professores e estudantes universitários. A iniciativa nacional traduz-se numa residência artística fechada, na qual é criado um diálogo artístico que culmina com apresentação de um produto final no último dia do campus, um momento aberto ao público geral. Ao longo de sete dias os participantes abordaram diversas linguagens artísticas através de ‘workshops’ dedicados ao teatro, escrita criativa, dança e movimento, clown, expressão plástica, música acústica, construção de cabeçudos e hip-hop composição musical. O elo comum era a temática do Campus Artístico2016 “Identidade”. “Todos os participantes tiveram oportunidade desenvolver todo o seu potencial artístico, sendo o ponto de partida a autenticidade de cada um. Os trabalhos desenvolvidos em cada uma das formações fomentaram aos participantes ferramentas, que lhes permitirão desenvolver os seus próprios projetos, assim como criar pontes e parcerias nacionais. Pensamos ter contribuído para oportunidades reais nas artes”, descreveu, à Plural&Singular, a responsável por este projeto da APPC, Mónica Cunha. “Partindo do princípio de que a arte é pura, procuramos abolir que a mesma é um elo especial da criação humana separada do mundo do quotidiano. Assim é um ponto de partida que deverá inspirar novas perspetivas abertas, servindo objetivos sociais e a construção de um mundo inclusivo, partindo do eu para a projeção na sociedade”, completa por sua vez, o relatório sobre a iniciativa, quando descreve o que é um campus artístico. Já sobre o impacto na sociedade civil, Mónica Cunha reforçou que “as artes performativas poderão ser uma das armas poderosas para a inclusão, sensibilização e integração”, acreditando que todos os participantes foram dotados de ferramentas que podem contribuir “para melhorar a sua performance artística nos seus projetos locais, contribuindo assim para a identificação do indivíduo como parte integrante do sistema social”.

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CULTURA

Objetivos do Campus Artístico

. Contribuir na formação e desenvolvimento da pessoa com deficiência; . Proporcionar o acesso à cultura e às artes; . Identificar igualdade de oportunidades reais nas artes do espetáculo para a pessoa com deficiência; . Conferir visibilidade e promoção de projetos artísticos de e para pessoas com deficiência; . Estabelecer futuras parcerias institucionais com grupos ligados às artes do espetáculo; . Descobrir, estimular e promover a criação artística.

Público-alvo

Dirigido ao público em geral, com incidência a pessoas com deficiência, profissionais relacionados e estudantes de artes performativas.

Atividades

Além dos ‘workshops’, o Campus Artístico da APPC incluiu aulas de yoga, encontro com o dramaturgo e encenador Zeferino Mota, relaxamento com taças tibetanas, passeios e concertos de música.

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CULTURA

Só triunfam os que se atrevem a atrever-se”, George Clémenceau

Preciso ser outro para ser eu mesmo”, Mia Couto 88


OPINIÃO

Pedro Muriel Bertolini geral@inmyshoes.pt

Deficiência, Autonomia e Inclusão: Uma Reflexão Introdutória O que podemos fazer para que a cidade seja, de fato, um lugar acolhedor para as pessoas com deficiência? Penso que, mesmo sendo uma questão com muitas variáveis, podemos começar pontuando algumas atitudes simples que poderiam amenizar um pouco da exclusão que as pessoas com deficiência sentem ao tentar se relacionar com uma cidade que, por muitas vezes, é mais deficiente que a pessoa com deficiência. O primeiro passo, no meu entendimento, seria trabalhar para quebrar as barreiras atitudinais criadas pelas instituições governamentais, instituições de ensino, empresas e estabelecimentos privados de uso público, fazendo com que os gestores desses sítios entendam que as pessoas com deficiência não são um prejuízo financeiro ou um peso morto, mas pessoas que podem ser uma ferramenta de transformação da mentalidade dos sítios e das pessoas como um todo. Abram a cabeça, os olhos e os ouvidos! As pessoas com deficiência, mesmo que não sigam uma receita padrão e tenham demandas muito heterogêneas, também querem estudar, trabalhar e consumir como as outras pessoas ditas “normais” nessa sociedade pós moderna. Elas querem, sobretudo, se sentirem inseridas em um contexto onde convívio social, cidadania e inclusão caminhem juntos. Depois que a importância da mudança atitudinal for entendida e implementada, seguiríamos para a eliminação das barreiras arquitetônicas e comunicacionais, fase em que as pessoas com deficiência seriam

o agente central do processo de elaboração das políticas de acessibilidade dos ambientes da cidade. Gestores, arquitetos, engenheiros, educadoras, profissionais da área da saúde trabalhariam em conjunto com as pessoas com deficiência, entendendo e ouvindo suas ideias e demandas. Técnica e prática na mesma sintonia, criando ambientes que sejam plenamente acessíveis, que fujam das armadilhas dos lugares que o senso comum + a técnica sem prática criam e dizem que estão prontos para receber as pessoas com deficiência. É importante que as pessoas com deficiência tenham autonomia, possam ter independência na hora da utilização dos equipamentos de acessibilidade, não precisem, salvaguardados casos específicos onde a pessoa necessita de auxílio constante de terceiros, contar com auxílio de outras pessoas na hora de entrar em um museu, ler o cardápio de um restaurante ou assistir um programa de televisão. O caminho para uma cidade inclusiva é longo e exige um esforço grande para que não sejamos surdos, cegos e mudos para as batalhas diárias enfrentadas pelas pessoas com deficiência. Por fim, é preciso que entendamos que a luta por acessibilidade não é uma luta só das pessoas com deficiência, é uma luta de todos. É uma luta para que os deficientes não sejam mais tratados como pessoas invisíveis, mas como pessoas relevantes na construção da sociedade.

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CULTURA

Um livro para “suportar melhor tudo o que é maior que nós” Rui Machado habituou os leitores a um livro por ano e garante que vai manter este ritmo. Depois de, em 2014, ter lançado o primeiro livro de poesia “Finalmente Mar”, o escritor aventurou-se, o ano passado, pela prosa, ao publicar “Uma forma de continuar” mas decidiu regressar aos versos com a publicação de “Qualquer dia, Amo-te”. Em entrevista à Plural&Singular revelou que qualquer que seja o livro que escreva fica guardado “num lugar de destaque” na biblioteca pessoal, “mas bem fechado”. Confessa que não gosta de reler o que escreve, com receio de já não lhe encontrar o sentido. Texto: Sofia Pires Fotos: Gentilmente cedidas

P&S - O que distingue esta terceira obra das anteriores? RM - É difícil para mim comparar os livros. Com “Uma Forma de Continuar” julgo mesmo ser impossível já que se tratam de géneros diferentes. Com “Finalmente Mar” já será mais fácil e justo fazê-lo visto serem ambos de poesia. Assim, parece-me que “Qualquer dia, Amo-te” é um livro menos ingénuo, mais cuidado e, por ventura, até mais adulto que o primeio livro. Vivi e li mais nos dois anos que separam os livros e julgo que isso se traduz numa maior maturidade e rigor na composição estética da escrita. Gosto de acreditar nisso. Plural&Singular (P&S) - Como descreve “Qualquer dia, Amo-te”? Rui Machado (RM) - “Qualquer dia, Amo-te” é um livro de poesia ou qualquer coisa próxima disso. E é sempre muito difícil falar sobre um livro de poesia, para além de achar ser pouco útil fazê-lo. A poesia deve ser lida, não explicada. Deve ser sentida e não teorizada. Assim, aquilo que lhe posso dizer é que a minha busca continua. A procura da compreensão por tudo o que se sente parece ser infindável e “Qualquer dia, Amo-te” apresenta-se como mais uma tentativa empenhada, honesta e provavelmente falhada que nos permita suportar melhor tudo o que é maior que nós. E essa tentativa, para mim, já tem a importância das coisas que permitem sobreviver. P&S - Porquê este título? RM - Trata-se de um título ambíguo e que por isso promove a reflexão, julgo eu. Não é direto e objetivo. É preciso ler e encontrar uma intenção que o justifique. Essa procura e essa liberdade para encontrar significado interessa-me muito provocar no leitor. Depois a incerteza de uma inevitabilidade como é o Amor, desconcerta e é quase como desistir para vencer. Aceitar que não se escapa ao Amor é a condição para o viver plenamente.

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P&S - É possível associar a estas três obras fases da vida do escritor ou transcendem a vida de Rui Machado? RM - Eu consigo fazê-lo. Escrevo muito sobre o que me rodeia ou sobre o que num determinado momento da minha vida sinto necessidade de entender ou refletir. Mas os livros devem transcender a vida dos autores. Espero que os meus consigam fazer isso, a minha vida não é assim tão interessante para se ficar por ela. Eu tento dar mais à escrita do que aquilo que sou ou me acontece. P&S - Que relação tem com as suas obras? Mima-as? Esquece-as? Relê-as? Os textos, as histórias e as palavras estão desgastadas? São parte de si, são autónomas? RM - Fazem parte da minha história, seguramente. Mas têm a sua vida própria. Ganharam-na com a publicação. Não as releio por medo de não gostar do que apresentei a todos quantos queiram ler. Mas tenho apreço por elas, o objeto livro exerce um fascínio enorme em mim e, no que respeita aos meus, acresce um carinho quase infantil. Estão num lugar de destaque na minha biblioteca, mas bem fechados. Há muito mais para escrever. A minha paixão maior é sempre pelo que ainda falta publicar.


CULTURA

P&S - É sempre um motivo de curiosidade para o leitor perceber como é o processo de criação de um escritor. No caso do Rui como é que normalmente escreve? RM - A escrita não oferece um rendimento razoável que me permita viver exclusivamente dela. Assim, torna-se mais complicado estabelecer uma desejável rotina para produzir um trabalho regular. Todavia, tento ser disciplinado e escrevo praticamente todos os dias. Escrever é muito mais do que ato em si. É essencial ler muito e ir trabalhando a história ou a ideia que se quer concretizar. Esse trabalho é diário seja observando, lendo ou refletindo. Faz-se quase sem querer. Depois a escrita em si pode ser mais trabalhosa ou conflituosa e por isso mais demorada sendo que, por vezes, parece interminável. P&S – O Rui tem publicado/escrito um livro por ano. Quer isto dizer que, por esta altura em 2017, podemos contar com outro lançamento? Já está mais algum livro na forja ou o Rui ainda não pensou nisso e está a saborear o nascimento deste “terceiro filho”? RM - Sim, em 2017 haverá certamente um novo livro. Será um livro infanto-juvenil escrito em co-autoria com Carla Monteiro que também fez as ilustrações do livro. Como autor, gosto de ter sempre um livro pronto por publicar e de experimentar vários géneros.

Rui Machado, licenciado em Psicologia da Saúde e mestre em Psicologia Clínica, atualmente, é também cocriador do projeto ligado à desmistificação da sexualidade na deficiência “Sim, nós fodemos”.

P&S - Que livro tem pousado na mesinha de cabeceira? RM - “Da família” de Valério Romão publicado pela Abysmo. Um livro brilhante de um autor com uma obra já muito reconhecida mas que, seguramente, ainda muito se falará. O casamento tão feliz quanto preverso entre o no-sense e metáforas poderosíssimas da miséria de se ser humano, prendem o leitor logo no primeiro conto.

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CULTURA

P&S - Qual é o seu escritor favorito? RM - É muito difícil nomear apenas um. Há, de facto, livros e autores extraordinários. Ultrapassada esta questão da escolha a partir de uma grande e genial multidão, surgem outras questões que atrapalham a decisão, como por exemplo, o género ou o estilo. Como escolher entre um poeta ou um romancista? Como escolher entre a cruel inteligência de Camus ou a perspicaz e subtil narrativa de Setienbeck? Tudo isto e muito mais é bom e interessa, sendo assim um esforço enorme destacar um. Mas vamos lá a isso, é preciso ser corajoso na vida e está na hora de eu começar a ser. O nome que destaco é Gonçalo M. Tavares. Há várias razões para o fazer, trata-se efetivamente de um homem ímpar e admirável. Começa na juventude com que começou a mostrar trabalhos que o tornaram logo alvo de atenção e curiosidade. José Saramago disse que “era injusto alguém tão jovem escrever tão bem” e tinha razão, é realmente injusto. Depois o volume de trabalho que produz é absolutamente invulgar e dificilmente terá par a nível mundial. Como escreve vários livros por ano e com a qualidade com que o faz, será para mim o mais insondável dos mistérios. O rigor com que disciplina (de forma aparentemente natural!) a, tendencialmente indisciplinada, profissão de escritor merece a maior admiração, assim como a devoção constante que demonstra pela leitura. Por fim, falo do que é mais e verdadeiramente importante: a sua escrita, estilo, estética e universo que criou. Ler os livros de Gonçalo M. Tavares é entrar num universo de profunda intelectualidade, de surpreendente reflexão sobre a condição de ser humano, é ter uma mão que nos aperta o pescoço, é, no fim das contas, ser corajoso. P&S – E o livro favorito é mais fácil de nomear? RM - “Jerusálem” de Gonçalo M. Tavares. Acho um livro absolutamente brilhante sob vários aspetos. A construção envolvente da narrativa e as ligações entre as personagens que ao longo do livro vão sendo descobertas só pode ser classificada como genial ou muito perto disso. Depois, a reflexão profunda, inteligente e crua da obscuridade da condição de se ser apenas Homem é um cruel repasto premiado com uma saborosa congestão pela impossibilidade de negar tudo o que se descobre com o livro. Tudo isto se torna num inesperado prazer. A verdade sabe bem, mesmo a mais cruel. P&S - Costuma reler os livros? RM - Não é comum. Mas há um livro que releio amiudadas vezes. Trata-se d’O Principezinho. É um dos melhores livros alguma vez escrito, muito maior do que o seu tamanho e muito mais que um livro infantil. É, na verdade, uma maravilhora reflexão sobre os Homens e fundamentalmente sobre o Amor. Quem não leu, não merece ter olhos. 92

P&S - E parar de ler livros ou vai sempre até ao fim? Que livro é que não conseguiu ler? RM - É muito raro parar de ler um livro. Mas, não tenho problemas em fazê-lo porque bons livros para ler, felizmente, não faltam e não acho inteligente perder tempo com livros que nada nos oferecerão. Sucede que sou muito criterioso na seleção dos livros que leio, tenho inclusivamente uma já longa lista de espera, e isso faz com que dificilmente me engane na escolha e assim os interrompa de ler. Ainda assim, por vezes, acontece. O que mais me vem à memória, tem uma ligação com a pergunta anterior. Refiro-me ao “O Regresso do Jovem Príncipe” de Roemmers que tenta fazer a continuação d’O Principezinho. Considerei essa tentativa uma absoluta falta de humildade e profundamente desastrosa. Em última análise trata-se um crime cometido contra a obra de Saint-Exupéry. P&S - Escreve e/ou sublinha nos livros? RM - Sublinho, apenas. Não escrevo por considerar esse direito exclusivo ao seu autor. Nem sequer escrevo o meu nome nos livros como faz muita gente. Assiná-lo, a lápis e bem levezinho (para o livro não sangrar), as passagens mais marcantes para mim, com o desígnio de orientar as minhas re-visitas. Só porque preciso. Mais do que isso, não faço. P&S - Como acha que estão os hábitos de leitura em Portugal? RM - Não tenho acesso a números oficiais nem, tampouco, tenho conhecimento se, efetivamente, existem. Todavia, o que me vai parecendo é que o interesse pela leitura é crescente. No entanto, não tenho a certeza de que esse interesse se materialize na leitura de literatura de qualidade. Na verdade, tenho sérias dúvidas a esse respeito, a avaliar os tops de vendas das livrarias onde, cada vez mais, aparecem “fenómenos de literatura pop” de valor literário muito duvidoso. Acredito que aqui as entidades governamentais têm uma responsabilidade de informar e possibilitar, a todos os portugueses, lerem livros de inequívoca qualidade. Ler faz bem e potencia o crescimento humano. Medidas como o Plano Nacional de Leitura podem e devem ser trabalhadas a nível da divulgação e é essencial reforçá-las em número de obras e abrangência de públicos.


SUGESTÃO DE LEITURA

Título: Naquela Ilha Autor: Ana Simão Editora: Marcador Preço: 13,50€

Título: O Velho Malaquias e o seu espelho mágico... Entre outros contos Autor: Nuno Meireles Género: Contos

Título: Petalled Sonia Autor: Anastasia Volkhovskaya Editora: The Blueberry Bear Books Género: Infantil

A autora de “Naquela Ilha” ficou conhecida quando, em 2014, publicou o livro “A Menina dos Ossos de Cristal”, em que abordava a osteogénese imperfeita, uma doença rara que acompanha a vida de Ana Simão desde sempre. Nesta nova obra ao longo de 224 páginas narra uma história diferente que assenta num amor complicado entre uma jovem e um homem mais velho. Mas além de relatar a relação improvável entre as duas personagens principais, este livro dá também a conhecer o arquipélago das Berlengas, o cenário que a escritora escolheu para a história romântica. “Parece que ainda estou a ouvir aquela voz nova. Fecho os olhos e procuro -a dentro de mim. Consigo escutá-la. Gosto dela. É uma voz rouca de mel, serena e macia. Foi a única voz que ouvi quando regressei a mim. Estava tão perto e as outras tão longe. Não sei quanto tempo estive ausente, mas foi aquela voz que me trouxe à vida. Nunca a vou esquecer. Nem quero. Percebi naquele instante que estava viva e em segurança. E isso foi bom. Não sei quem é. Queria tanto agradecer-lhe: salvou-me a vida. Não sei como o vou encontrar. Já perguntei, mas ninguém sabe.” (excerto)

Com um conto guardado na gaveta, Nuno Meireles decidiu que esse era um ótimo pretexto para escrever um livro de contos. Os 12 que completam esta obra, segundo o autor, pretendem fazer com que “o leitor faça uma reflexão sobre a sociedade em que está inserido e talvez sobre as suas atitudes no dia-a-dia”. “Durante a leitura deste livro e dos seus 12 contos, a probabilidade de o leitor se rever em todos os sentimentos é bastante elevada. Uma obra que proporciona momentos para rir, chorar, pensar muito, sentir raiva e, sobretudo, vontade de fazer algo para melhorar o mundo em que vivemos. É um livro simples mas com muitos sentimentos”, refere a sinopse da obra. Nuno Meireles já publicou um romance autobiográfico e dois de ficção – “A Vida e Eu”, em 2007, “Duas vidas, um destino”, em 2010 e “Amar Depois de Amar”, em 2013, respetivamente. O autor do “O Velho Malaquias e o seu espelho mágico... Entre outros contos” participou, ainda, na coletânea de contos e poesia “Lugares e Palavras de Natal – Volume II” da editora Lugar da Palavra, em 2014. Nuno Meireles tem paralisia cerebral, é natural de Amarante e licenciado em Engenharia Informática pela Escola Superior de Tecnologias e Gestão de Felgueiras do Instituto Politécnico do Porto. É também mestre em Sociologia pela Faculdade de Letras do Porto e doutorando em Sociologia na Universidade do Minho.

Em torno do livro “Petalled Sonia” – uma obra escrita por Anastasia Volkhovskaya e ilustrado pela Yana Fefelova que se baseia na história real de Sónia Cartaxeiro, que tem um problema crónico de insuficiência renal – está em marcha uma campanha de crowdfunding para angariar fundos para a Operação Nariz Vermelho. Esta obra dirigida a crianças e a adultos é uma espécie de tributo da escritora “à coragem e à resiliência de Sónia”, que desde tenra idade tem vindo a lutar pela vida e pela felicidade e como tal pode ser um exemplo a seguir para outros “corações fortes, em corpos frágeis” que não se deixam vencer pelos problemas. Todos os lucros desta campanha serão doados à Operação Nariz Vermelho que ajuda a iluminar os dias das crianças que nos hospitais portugueJulio Barulho FOTOGRAFO ses têm também elas batalhas para enfrentar. Neste momento os doutores palhaços visitam semanalmente, durante 42 semanas por ano, 13 hospitais abrangidos pelo programa. A equipa de artistas é constituída por 22 Doutores Palhaços e nos bastidores trabalham nove profissionais. O lançamento do livro está marcado para o dia 3 de dezembro, a partir das 17h00, na Livraria “Leituria”, em Lisboa.

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LUGAR

Hortas acessíveis – inclusão para TODOS Os utentes da Casa de Santa Maria, um dos três equipamentos do Centro Social Paroquial de Ribe irão, concelho de Vila Nova de Famalicão, produzem legumes sem recorrer à terra em plataformas suspensas que perm item o acesso a cadeiras-de-rodas. A esta atividade somam-se muit as outras integradas numa resposta à área da defic iência que teve o seu arranque em 2013 num centro com três déca das que mistura idades em plena inclusão Texto: Paula Fernandes Teixeira Fotos: CSPR

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LUGAR

São 300 metros quadrados de estufa com tecnologia de ponta instalada num terreno com 5.190. Em outubro a primeira leva de cultivo gerou 235 quilos de alface, 40 de nabiça, 25 de agrião e 10 de espinafre. Um pé de alface demora cerca de três semanas a crescer. “Estar em contacto com a planta, com a água, traz melhorias mesmo em termos de bem-estar não só físico, mas também psicológico”, acreditam os responsáveis pela horta acessível do CSPR. O projeto horta acessível tem como objetivo possibilitar a integração de 70% dos cliente do Centro de Ribeirão, contribuir para a redução de gastos com a aquisição de produtos hortícolas e receber visitas com carater pedagógico. É ambição do CSPR a formalização de intercâmbio com o Instituto do Ceará, Brasil, onde a prática de hidroponia social é uma realidade com alguns

“Temos repolho, couve e estas alfaces lindas” – vai descrevendo à Plural&Singular Rui Areal, de 19 anos, utente da Casa de Santa Maria, enquanto remexe nas plantas e alinha as ferramentas agrícolas. Estamos na estufa construída num dos terrenos do Centro Social Paroquial de Ribeirão, mesmo nas traseiras da Casa de Santa Maria que acolhe jovens com deficiência e incapacidade. Praticamente ao lado – só é preciso atravessar um jardim que tem cheiro de Outono e contornar os saltos entusiasmados das crianças em hora de recreio – está o espaço reservado à infância e um grupo de meninas, ora envergonhadas, ora em modo orgulhoso, explicam à jornalista o que se faz na horta que visitaram no dia anterior… “Tem máquinas no início e a água leva comida às plantas”. Antes o Rui, que gosta de ver as sementes crescer até ficarem legumes “espetaculares” também já tinha explicado o processo: “o segredo está numa mistura que vem na água e não é preciso terra”, disse. Na semana anterior tinha ajudado a colher 400 alfaces que serviram quer para as refeições das várias valências do CSPR, quer para 95


LUGAR

vender, ajudando a garantir o sustento e desenvolvimento do projeto. Em causa está um sistema de cultivo inovador e que utiliza tecnologia de ponta. O fluxo laminar de nutriente (NFT) permite cultivar legumes acima do solo, pondo a circular uma solução nutritiva composta por água pura e por nutrientes dissolvidos. “Este projeto é uma aposta inovadora, sustentável, diferenciadora e que promove a solidificação de uma comunidade solidária com uma forte aposta na igualdade de oportunidades e na inclusão de públicos socialmente desfavorecidos”, indica a candidatura que valeu ao “Hortas Acessíveis” ganhar um dos “selos” do “Famalicão Visão 25” atribuídos este ano pela primeira vez pela câmara local a empresas e instituições que criem impactos assinaláveis no território. Antes, em 2015, o CSPR foi contemplado com uma menção honrosa do Prémio BPI Capacitar através da apresentação deste projeto. O projeto também já foi distinguido pelo Prémio Cooperação e Solidariedade António Sérgio. E outras candidaturas estão em fase de preparação. O facto do sistema estar montado em plataformas suspensas permite a circulação de cadeiras-de-rodas mas também torna a atividade acessível a pessoas idosas que assim não têm de se vergar ou baixar, graças às caraterísticas ergonómicas da “engenhoca”, como lhe chama o “pai” do CSPR, o padre Joaquim Fernandes. “A estufa nasceu para ocupar de forma sadia os utentes com deficiência e eventualmente pessoas de outras valências, pessoas com mais idade que possam e queiram. E no futuro ainda mais pessoas, ajudando outras e mais realidades. Isto é um brinquedo muito caro. Esperemos que não seja só um brinquedo. Nem sequer sei dizer 96


LUGAR números”, conta Joaquim Fernandes, admitindo que o investimento foi “maior do que o pensado inicialmente”, mas “está a valer a pena”. Atualmente na horta acessível do centro de Ribeirão trabalham jovens com défice cognitivo ligeiro e jovens com doença mental, acompanhados pelo engenheiro agrónomo José Carlos Oliveira, mas é verdade que também podiam trabalhar utentes do Lar de Santa Ana que vivem ou frequentam instalações a poucos metros do equipamento dedicado à deficiência e do espaço dedicado aos mais miúdos. Aliás alguns graúdos de cabelos brancos, no passeio habitual pelo jardim comum, espreitam as nabiças e os espinafres e dão dicas repletas de experiência de vida. “Ressalva-se que contamos com o fator intergeracionalidade, pois os nossos idosos detêm o saber-fazer nesta área e serão um elemento ditador de sucesso. A acessibilidade a todas as zonas de cultivo é crucial para possibilitar que todos os interessados usufruam das atividades agrícolas independentemente das suas limitações físicas”, lê-se também na síntese do projeto admitida para os “selos” do “Famalicão Visão 25”. Segundo José Carlos Oliveira o produto criado em hidroponia, que é o nome dado a esta técnica, “é de qualidade superior pois é cultivado em estufa protegida e limpa e, uma vez que as plantas não entram em contacto com os contaminantes do solo, fica diminuído o ataque de pragas e doenças”. Rui Areal completa: “são muito melhores do que aquelas que se encontram nos supermercados”. O engenheiro fala de um grupo “muito entusiasmado e muito interessado” que quando acaba outras atividades procura “voltar rapidamente para a horta”. “Temos grupos que têm mais capacidade na execução de determinada tarefa. Outros têm mecanismos muito dirigidos. A planta é para colocar aqui… Com a experiência começam mais facilmente a repetir. As técnicas vão sendo melhoradas e adaptadas às capacidades que cada um tem”, descreve José Carlos Oliveira. Já a diretora técnica da Casa de Santa Maria, Cecília Vieira, explica que o projeto “reconhece a capacidade das pessoas com deficiência, a sua dignidade”, descrevendo avanços em termos sociais porque, acredita, “é o trabalho que dá dignidade”. “É importante a valorização enquanto pessoa. Ao verem a planta a crescer, [os utentes com deficiência] perguntam como é que se vai dar conta da situação. Vamos vender? E vão às vezes. Assim também se combate o estigma. Acaba-se com o medo que algumas pessoas têm de se aproximar das pessoas com deficiência”, aponta Célia Viera. Joaquim Fernandes junta outro objetivo. É que o terreno está preparado para acolher mais estruturas, sendo meta do Centro de Ribeirão promover no futuro a integração de desempregados de longa duração do concelho de Famalicão.

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LUGAR

Três edifícios interligados entre si quer no espaço, quer no afeto

Além da horta, na valência dedicada à deficiência do CSPR há outras atividades como hidroterapia, boccia, sala snoezelen, atividades desportivas, danças, grupos de estimulação cognitiva, teatro, grupo de gestão do dinheiro, atelieres de conhecimento. Já tiveram trabalhos encomendados por empresas ligadas ao têxtil e vestuário. Às vezes os utentes na rua reparam se uma pessoa vai com um par de calças que tem um pormenor feito por si e orgulham-se, provando a tese de Célia Vieira: “É importante para o reconhecimento e dignidade que sentem ao ver o seu trabalho a ser usado por outras pessoas”. E todos ajudam, descrevem os responsáveis. Até os colaboradores levam peças para casa. Esta é “uma grande família”. Quanto à ligação entre as várias valências do CSPR, a diretora geral, Conceição Oliveira, descreve-a como “muito grande”, falando mesmo em “intercâmbio”. Tanto esta responsável, como o padre Joaquim Fernandes, conseguiriam estar horas a fio a contar histórias de encontros, conversas, momentos partilhados pelas crianças do jardim-de-infância com os idosos do Lar de Santa Ana e com os utentes da Casa de Santa Maria. “Todos convivem e criam expectativas juntos”, garantem.

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Anos de Centro Social Paroquial de Ribeirão

140

Crianças na creche e jardim-de-infância

125

Atelier de tempos livres

65

Utilizadores da cantina social

41

Pessoas em centro de dia

40

Idosos em lar

40

Apoio ao domicílio

24

Lar residencial dedicado à deficiência

12

Centro de Atividades Ocupacionais

120

Colaboradores

Centro Centro Social Paroquial de Ribeirão

Constituído em 1985, ou seja com mais de 30 anos de existência, o CSPR iniciou-se com Atividades de Tempos Livres, ocupando algumas salas do salão paroquial, mas os vários sonhos incluíam instalações construídas de raiz para instalar valências diferentes como creche, jardim-de-infância, resposta à Terceira Idade e à deficiência. As várias áreas de ação foram-se multiplicando ao longo dos anos, bem como as instalações que cresceram e foram alvo de remodelações e ajustes. Também a resposta de cantina social que se destina ao fornecimento de refeições, a pessoas e famílias economicamente desfavorecidas merece destaque. O acesso é gratuito e são disponibilizadas refeições diárias. Com a missão “Educar e Apoiar ao Longo da Vida”, o CSPR tem crescido e, atualmente, atende cerca de 450 utentes, nas diversas valências, e desde os quatro meses de idade. O número de colaboradores ultrapassa os 120.

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AGENDA

O quê? Semana de sensibilização da comunidade bracarense para o risco diário de exclusão social das pessoas com deficiência Quando? De 25 de novembro até 3 de dezembro Onde? Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva Mais… Promovido pelo Serviço de Apoio à Inclusão da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em colaboração com a Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal, a Associação Portuguesa de Deficientes, a CerciBraga, o Agrupamento de Escolas D. Maria II – unidade de referência para os alunos surdos do concelho – e o Agrupamento de Escolas de Maximinos – unidade de referência para os alunos cegos ou com baixa visão - e a Associação Pais em Rede. O quê? Comemorações do Dia Internacional das Pessoas com Deficiência: “Por uma Vida Digna para Todos” Quando? De 28 de novembro a 14 de dezembro Onde? Em vários espaços do concelho Mais… As comemorações culminam num espetáculo intitulado “Diferentes vozes: Por uma Vida Digna para Todos”, que se realiza a 14 de dezembro no grande auditório do Centro Cultural de Vila Flor a partir das 10h00 e conta com atuações das várias escolas e entidades participantes. O quê? 1.º Desfile de Moda Inclusiva Quando? 3 de dezembro, a partir das 17h00 Onde? Caves Ferreira Mais…A APPACDM de Vila Nova de Gaia (Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental), a CerciGaia (Cooperativa para a Educação e Reabilitação de Cidadãos Inadaptados), a APPDA–Norte (Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo) e a ANAMP (Associação Nacional de Amputados), com o apoio da Câmara Municipal de Gaia e da União de Freguesias de Sandim, Olival, Lever e Crestuma, além deste evento também promovem uma Feira de artesanato e de livros usados, das 14h00 Às 17h00 no Centro Cívico de Gaia e um Sarau, marcado para as 21h00 no Centro Social de Olival, e que conta com a participação de João Pedro Pais, da Academia de Música de Vilar de Pinheiro, do Bando das Cordas e de Ginasiano. O quê? Palestra “Cuidado com o cuidador” Quando? 3 de dezembro, às 14h30 Onde? Sede da Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla Mais… A palestra gratuita é dirigida aos portadores de EM, os seus cuidadores, familiares e amigos. No dia 4 de Dezembro em que assinala o dia da pessoa com Esclerose Múltipla desenvolver-se-á uma atividade no museu Machado de Castro relacionado com a Escrita Criativa. O quê? Lançamento do livro “Petalled Sonia” Quando? 3 de dezembro, das 17h00 às 19h00 Onde? na Livraria “Leituria”, Rua Dona Estefânia 123 A Mais… Em torno do livro “Petalled Sonia”, escrito por Anastasia Volkhovskaya e ilustrado pela Yana Fefelova, existe uma campanha de crowdfunding para apoiar a Operação Nariz Vermelho. Baseado na história real de Sónia Cartaxeiro, que tem um problema crónico de insuficiência renal, esta obra é dirigida a crianças e a adultos e funciona como uma espécie de tributo da escritora “à coragem e à resiliência de Sónia”, que desde tenra idade tem vindo a lutar pela vida e pela felicidade e como tal pode ser um exemplo a seguir para outros “corações fortes, em corpos frágeis” que não se deixam vencer pelos problemas.

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PLURAL

Uma comunidade que quebra barreiras e promove a integração A Comunidade de Inserção, concelho de Valongo, realiza um trabalho personalizado com jovens com deficiência e incapacidade, incentivando-os e dando-lhes competências para que criem o seu projeto de vida. Mas além de trabalhar a capacitação dos utentes, o projeto tem conseguido quebrar barreiras e mostrar à sociedade que a integração é possível Texto: Paula Fernandes Teixeira Fotos: ADICE

Há uma década, a Associação para o Desenvolvimento Integrado da Cidade de Ermesinde (ADICE) percebeu que em Valongo, distrito do Porto, não existia resposta para a área da deficiência e colocou mãos à obra. Nasceu a Comunidade de Inserção, uma “casa-escola” para 30 utentes, mas pela qual ao longo dos anos já passaram centenas. A lista de espera ronda os 10/20 casos. A Plural&Singular visitou esta comunidade numa tarde que enquanto uma turma confecionava biscoitos, outra cosia e bordava almofadas. Ao fundo, na horta e estufa, crescia rúcula, espinafres, salsa, alface, penca… Aprende-se de tudo um pouco, incluindo matemática e português. A decisão da ADICE de criar a Comunidade de Inserção ligada à deficiência foi feita depois de um trabalho “muito intenso e apurado”, descreve a presidente Trindade Vale, acrescentando que não existia no concelho uma resposta para esta área. “Era uma área nova também para nós como instituição. Mas achamos que havia a oportunidade de fazermos uma candidatura [ao PARES- Programa de Alargamento da Rede de Equipamentos Sociais] que não podia ser desperdiçada. As coisas foram nascendo. O balanço é muito positivo mas se o arranque fosse hoje teria feito uma casa maior”, descreve. 100


PLURAL

Atividades regulares e não só…

“A inovação desta comunidade é o seu público-alvo. O nosso objetivo é ajudar os utentes a criarem o seu projeto de vida. Trabalhamos muito a capacitação. O nosso público-alvo é muito diversificado: pessoas dos 18 aos 51 anos com problemáticas muito diferenciadas e com retaguardas familiares muito diversificadas”, acrescenta a diretora técnica, Dora Martins. Na Comunidade de Inserção da ADICE existem utentes com multideficiência, trissomia 21, debilidades mentais ao nível do desenvolvimento, esquizofrenia, entre outras situações. Em primeira instância o objetivo é a integração social e idealmente a profissional. O processo passa por trabalhar a capacitação e quando a equipa técnica percebe que um determinado utente está preparado, sinaliza-o para formação que tem componente de estágio. Dora Martins admite que às vezes “é complicado por causa do ponto de partida de cada um deles e também por causa do mercado de trabalho que não se coaduna tanto com a diferença”, mas existem casos de sucesso no que se refere à empregabilidade de utentes, sobretudo de jovens que frequentaram formação em madeiras e ficaram nos sítios onde estagiaram.

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Uma das atividades é a Autonomia de Vida, na qual se trabalha a higienização pessoal, a higienização do espaço casa, o cuidar de si, o recorrer a serviços como centro de saúde, correios ou ir ao médico, ir ao banco. Os grupos vão ao supermercado periodicamente para aprenderem a fazer as compras, por exemplo. Soma-se a Arte Jovem, onde se trabalha a criatividade, o contacto com outros materiais, o sentido estético. Mais: cantina pedagógica, oficina de têxteis, expressão dramática e danças, relaxamento, jardinagem e horticultura… Na educação para a saúde estão a ser trabalhadas as questões da alimentação saudável. Nas dinâmicas de grupo trabalha-se a coesão de grupo, gestão de conflitos, trabalho em equipa… Já as idas à piscina ou ao pavilhão até ajudam os ‘jogadores de futsal’ a aperfeiçoarem as técnicas dentro de campo (ver texto sobre a Liga para a Inclusão Social). “Cada um tem o seu ritmo. Vamos tentando adequando os trabalhos aos seus gostos e às suas capacidades. Os trabalhos têm de ser desafiadores porque precisamos trabalhar a resistência à frustração porque na vida, no quotidiano, eles também vão ter obstáculos portanto têm de ter mecanismos para lidar com eles”, descreve Dora Martins. Às atividades regulares somam-se outras, mais lúdicas e que são dinamizadas entre julho e setembro. Podem incluir uma semana de acampamento, férias balneares, atelier de ciência, atelier de cozinha, passeios e caminhadas. “Dá-se a oportunidades aos jovens de realizarem atividades ou fazerem visitas que muitas das vezes as famílias não têm como lhes proporcionar”, aponta Dora Martins.


PLURAL

Quebrar barreiras e promover a integração…

Na realidade nesta Comunidade de Inserção os conhecimentos alcançados numa vertente cruzam-se com outras. Exemplo disso é o Grupo de Danças e Cantares que é fruto da conjugação de competências da equipa (uma das educadoras sociais que já fez parte de um rancho e um dos voluntários é músico). Os ensaios são semanais e todos participam: utentes, equipa técnico-pedagógica e voluntários, culminando em quase quatro dezenas de pessoas em palco. “As questões da música, da dança, do canto são importantes porque fazem com que contactem consigo próprios, se valorizem, torna-os mais felizes, mais concentrados e focados, motivados e isso traz vantagens para as restantes atividades”, analisa a diretora técnica, acrescentando outra faceta interessante: todos contactam com as tradições de Valongo. “As apresentações também são importantes para esbater estigmas que existem. À partida quando as pessoas veem pessoas com deficiência ou doença mental acham-nas limitadas e incapacitadas. E ao verem-nos num palco a cantar, tocar e dançar, todos organizados, todos concentrados, com uma alegria impar, ficam admiradas pela

positiva. Isso quebra muitas barreiras. A consciência da sociedade de que estes jovens têm capacidades ocultas é importante para promover a integração”, salienta Dora Martins. O Grupo de Danças e Cantares da Comunidade de Inserção da ADICE atuou, em 2013, na Festa das Castanhas, organizada pelo Centro Social de Ermesinde. Em 2014 animaram o Centro Hípico de Campo, e em 2016 abriram o Festival de Teatro do Grupo Dramático e Recreativo de Retorta. Também a festa de Natal da instituição, em 2015, teve a presença deste grupo que foi apresentado oficialmente em março deste ano, depois de ter conseguido “alindar-se” com trajes e instrumentos novos. No âmbito de outras atividades, os utentes da ADICE também já participaram no espetáculo de variedades da Caminhada “Mãe Amiga” e apresentaram-se em maio deste ano, perante cerca de 250 pessoas no Centro Social e Paroquial de Valongo, com o musical “Violência à Solta”, um trabalho em que todos foram participantes ativos no processo de construção criativa. Os responsáveis revelaram à Plural&Singular que agora está a ser preparado um espetáculo com base no ‘rock em rol’.

As ambições e sonhos são muitos, mas a presidente quer “pés bem assentes na terra” e exige aos coordenadores das várias áreas que “façam um plano que sejam capazes de cumprir”. “Quero que quem nos procura, quem está aqui connosco tenha qualidade de vida, seja autónomo. Queremos ajudar os jovens a ter o seu próprio projeto de vida. Todas as competências que a equipa está a transmitir aos utentes têm dado os seus frutos. Conseguimos ver pessoas que entraram de uma forma e agora estão totalmente diferentes. A aposta é completamente ganha”, diz a presidente da ADICE, Trindade Vale (na foto ao lado da coordenadora da Comunidade de Inserção, Dora Martins). 102


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Um novo projeto: dinamizar o PIN da Liga para a Inclusão Social A ADICE integra a Liga para a Inclusão Social, uma “plataforma informal” que junta cerca de 30 instituições do Grande Porto e apoia anualmente mais de 200 pessoas. Além de participar nas atividades da Liga, na Comunidade de Inserção será dinamizado um PIN – Projeto de Inclusão Social ligado à dança. A sala está a ser preparada e as sessões semanais arrancam em dezembro, podendo juntar jovens com deficiência, pessoas em situação de sem-abrigo, entre outras realidades. Texto: Paula Fernandes Teixeira Foto: ADICE

Uma das salas da Comunidade de Inserção estava a ser transformada quando a Plural&Singular visitou esta instituição. Na parede nova iria ser colocada uma pelicula espelhada para ajudar nas atividades de dança que os responsáveis da ADICE vão dinamizar para um grupo que além dos seus utentes, terá pessoas de outras instituições que se queiram juntar. Dora Martins explica que qualquer associação que integra a Liga para a Inclusão Social pode participar no PIN dinamizado pela ADICE. E instituições como a Santa Casa de Misericórdia da Maia ou a Albergues Noturnos do Porto, bem como o Centro de Atividades Ocupacionais de Alfena, já manifestaram interesse. “Será trabalhada a autoestima. O objetivo é capacitá-los de forma a melhor se integrarem na sociedade. A dança faz com que as pessoas contactem com o seu corpo, percebam o que são e o que podem fazer, dá-lhes visibilidade, motivação”, descreve Dora Martins, revelando que inicialmente vão ser trabalhados sons latinos, passando a aspetos mais complexos quando o grupo se conhecer melhor. A ADICE já integra a Liga para a Inclusão Social há alguns anos, mas a partir deste ano integra a comissão executiva. A ideia de dinamizar um PIN foi sendo matu-

rada e foi apresentada aos parceiros a 14 de novembro. “Vemos, quer neste projeto, quer na participação em outros PINs da Liga, mais-valias incríveis porque quer os utentes, quer os técnicos, contactam com outras pessoas, outras instituições, outras experiências, outras formas de fazer”, aponta a responsável. Com a equipa TROCOPASSO, a Comunidade de Inserção participa no Campeonato Interinstitucional de Futsal que é organizado pela Liga para a Inclusão Social em parceria com a Associação de Futebol do Porto. A época desportiva deste torneio, cujos “planteis” são mistos e multigeracionais, desenrola-se de novembro a junho e este ano tem como como equipa convidada uma do Comando Metropolitano do Porto da PSP. “Há espirito competitivo mas com muito ‘fair play’. O principal não é o jogo. É o que trazem do treino, o espírito de equipa. Os nossos jovens quando integraram este torneio começaram por não defender. Só um jovem é que defendia e até o guarda-redes saia da baliza muitas vezes. Agora estão concentrados, conhecem as regras do jogo, empenham-se na piscina para estarem fortes em campo”, refere Dora Martins.

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Há no entanto um momento em que a TROCOPASSO se desfoca do jogo… Quando a equipa de reclusos em processo de reintegração e de reinserção, que também faz parte da Liga, entra no pavilhão, as partidas param para que os jovens da ADICE e os jogadores dos estabelecimentos prisionais se cumprimentem. “Construíram uma amizade. É enriquecedor a alegria mútua quando se encontram”. A Comunidade de Inserção também integra o PIN das Artes Plásticas da Liga. Recentemente trabalhou, com a ajuda do escultor Rui Anahory, a lousa que é a pedra de excelência do concelho de Valongo. Sobre a Liga para a Inclusão Social – que tem ainda outros PINs, o de música desenvolvido em parceria com o Serviço Educativo da Casa da Música e o de teatro dinamizado pela Santa Casa de Misericórdia da Maia – um dos dinamizadores, Miguel Neves, explica que o objetivo é “dar mais alternativas de desenvolvimento de competências sociais”, destacando que a prática desportiva e as artes favorecem o desenvolvimento de hábitos de vida saudável, relacionamento interpessoal, autoestima, trabalho em equipa, entre outros.

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Os jovens que frequentam esta Comunidade de Inserção têm de ser maiores de 16 anos, ter deficiência ou doença mental, proximidade ao concelho, e ter autonomia para a higienização pessoal e para a alimentação. Esta é a grande diferença face a um Centro de Atividades Ocupacionais (CAO). O projeto da ADICE tem patamares mínimos para conseguir fazer o trabalho de capacitação a que se propõe. A equipa trabalha com três turmas de 10 jovens cada. Trabalha o português e a matemática semanalmente por considerar que são ferramentas para o dia-a-dia. É que, por exemplo, muitos utilizam o comboio e perceberem a sinalização da paragem é importante. Fazer o troco de um pingo ou de uma maça também é diferente. Em processos abertos e, entretanto, encerrados a Comunidade de Inserção da ADICE contabiliza 400 processos. Alguns utentes entraram e saíram (havendo abertura/ encerramento) mais que uma vez, em virtude, principalmente, de alterações na patologia que lhe está associada. Em processos abertos e, entretanto, encerrados a Comunidade de Inserção da ADICE contabiliza 400 processos. Alguns utentes entraram e saíram (havendo abertura/ encerramento) mais que uma vez, em virtude, principalmente, de alterações na patologia que lhe está associada.

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A Associação para o Desenvolvimento Integrado da Cidade de Ermesinde (ADICE) tem 15 anos e as valências foram crescendo. O ponto de partida foi um projeto de luta contra a pobreza. As primeiras valências desta instituição foram o Centro Comunitário e os ATLs instalados em empreendimentos sociais. Depois nasceu o Centro de Apoio à Vida, um Telecentro espaço de recursos, que conta com os equipamentos informáticos e de telecomunicações necessários para desenvolver atividades de teletrabalho, e a vertente de formação foi crescendo, abrangendo, atualmente, várias áreas e protocolos. O Prival instituiu-se em janeiro de 2010 com o objetivo de promover ações de reinserção no âmbito das toxicodependências. E a 17 de outubro deste ano a associação lançou um projeto “pioneiro”: oito restaurantes de Valongo “adotaram” famílias carenciadas, entregando-lhes refeições. “É uma associação que tem de tudo um pouco. É uma família. A caraterística da ADICE é o rigor porque não serve só fazer, temos de fazer bem”, refere a presidente, Trindade Vale.

17.ª edição da revista trimestral da Plural&Singular  

A Plural & Singular é um órgão de comunicação digital dedicado à temática da deficiência que lançou a 1.ª edição no início de dezembro de 20...

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