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Revista Plumas & PaetĂŞs

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EDITORIAL José Antônio & John Michael

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ais um ano de garra e determinação se passou e agora o desafio é ainda maior: O Prêmio Plumas & Paetês

Cultural envolve cada vez mais profissionais da economia criativa do carnaval, privilegiando o encontro dos diferentes talentos que contribuem para esse segmento inovador. A vontade e iniciativa dos colaboradores da equi-

pe, ao acreditarem e doarem um pouco do seu tempo em prol dos nossos objetivos, vão muito além da realização de um evento de premiação, pois o projeto busca reconhecimento, valorização e conscientização dos envolvidos neste processo, para que reflitam sobre as muitas oportunidades que este universo criativo pode proporcionar a cada um. Enfim, agradecemos pelas ações e atitudes daqueles que abraçam - sem medir esforços - o fazer parte do entendimento sobre a importância do Prêmio Plumas & Paetês Cultural para o desenvolvimento econômico, social e cultural do nosso Estado.


Expediente Revista Plumas & Paetês 3ª Edição - maio 2012 Tiragem da 3ª Edição : 10.000 exemplares www.plumasepaetescultural.com.br

DIRETOR EDITORIAL - José Antônio R. Filho VICE-DIRETOR EDITORIAL - John Michael COORDENADOR DE PATRIMÔNIO - Gustavo Luiz COORDENADORA ADMINISTRATIVA - Elisa Santos COORDENADOR OPERACIONAL - Izaquis de Paulo PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO - Levi Cintra FOTOGRAFIAS - Acervo Riotur, Henrique Matos, Marcelo O’ Reilly, Bárbara Alejandra, Lucia Mello, Valéria del Cueto, Ricardo Almeida e Welington Jorge TEXTOS - Cláudia Leitão, Cristina Lodi, Jorge Castanheira, Antônio Pedro Figueira de Mello, Luiz Carlos Prestes Filho, Lília Gutman P. Langhi, Luis Carlos Magalhães, Carlos Fernando Andrade, Fábio Fabato, Martinho da Vila, Milton Cunha, Sergio Cabral, Nei Lopes, Tiago Ribeiro, Jair Martins de Miranda, Claudio Brito e Hiran Araújo REVISÃO DE TEXTOS - Lília Gutman, Márcia Helena Nogueira (estagiária) e equipe editorial IMPRESSÃO - GRAFICA MEC, Rua Visconde de Santa Isabel, nº 420 Vila Isabel - Rio de Janeiro - CNPJ Nº 42.459.891/0001-99 RELAÇÕES PÚBLICAS - Regina Lúcia Sá e Glória Salomão RELAÇÕES INSTITUCIONAIS - Lydia Rey AGRADECIMENTOS - Luiz Gustavo Mostof, Américo da Costa Borges, Marcelo Veríssimo, Raquel Thomaz, Luiz Carlos Prestes Filho, Cláudia Jacob Silva, Vicente Datolli, Maria Moura, Haroldo Costa, Miro Ribeiro, Thatiana Pagung, Bonifácio Júnior, Jorge Luiz Alves, Ruidglan Barros, Paulo Cesar Alcântara, Suely Sanz, George Santos, Suellen Ferreira, Marilda Ferreira, Mônica Beja, Carlos Rezende e todos os que contribuíram para a realização da 8ª edição do Prêmio Plumas & Paetês Cultural CIRCULAÇÃO - A Distribuição da Revista será nas Instituições de Ensino, Centros Culturais, Secretarias de Cultura, seminários, teatros, oficinas de artes, escolas de samba.

CAPA

A arte da Capa da revista é inspirada em imagens da cidade do Rio de Janeiro no início do século XX, contrapondo com as imagens artisticas e paisagísticas do Rio na atualidade, em clara alusão à música do compositor homenageado, Donga, ressaltando a vocação musical e cultural desta cidade.


Mensagem Antônio Pedro Figueira de Mello, Secretário de Turismo e Presidente da Riotur

Um viva para as estrelas dos bastidores do carnaval carioca! Ano após ano, o Carnaval carioca dá um show na Marquês de Sapucaí: as passistas capricham no requebrado, as baterias esquentam no batuque, as alas surpreendem com coreografias elaboradas e as alegorias encantam o público com muitas cores e detalhes minuciosos. Mas nada disso seria possível sem o trabalho árduo de milhares de profissionais que, nos bastidores, contribuem para que cada parte desse grande espetáculo se concretize. Com o Prêmio Plumas e Paetês, o mérito destes trabalhadores é finalmente reconhecido e eles podem ter aquela gostosa sensação de reconhecimento pelo suor e empenho ao longo de tanto tempo dentro dos barracões, e saber que toda aquela dedicação valeu a pena. Depois de mais um carnaval bem-sucedido, chegou a hora de costureiras,

nomia criativa na cidade e faz essa festa ser mais bonita a cada ano que a Riotur apoia o projeto e torce para que tenha vida longa e sucesso. O Carnaval faz parte da identidade do Rio de Janeiro e é um motivo de orgulho para o povo carioca. Igualmente importantes são as pessoas que trabalham para pôr esse grande show na avenida. No Prêmio Plumas e Paetês, é a hora desses profissionais brilharem. Afinal, eles também são estrelas do Maior Espetáculo da Terra.

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miação. E é por incentivar o reconhecimento de quem movimenta a eco-

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muitos outros profissionais, receberem a devida homenagem nessa pre-

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carpinteiros, aderecistas, iluminadores, coreógrafos e carnavalescos, entre


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Mensagem Jorge Castanheira,

presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro

A cada dia que passa verificamos o valor do chamado terceiro setor da economia. Algumas atividades ligadas ao lazer, ao entretenimento, ao turismo e à cultura passam a ser cada vez mais importantes para as economias das cidades, dos estados e dos países. Há algum tempo, a indústria, na sua forma mais difundida de produção pura e simples, deixou de ser a única formadora de riqueza do chamado mundo desenvolvido. No Rio de Janeiro, para nossa felicidade, temos o Carnaval como parte pujante e visível deste novo pensamento de indústria. Uma economia que cresce a cada ano, envolvendo diversos profissionais e trazendo mais turistas, que movimentam nossa economia e provocam um círculo virtuoso de desenvolvimento. Em sua oitava edição, o Prêmio Plumas & Paetês mais uma vez reconhece e valoriza aqueles artistas antes anônimos, que contribuem para o desenvolvimento da festa e desta indústria, cultural e econômica. Uma indústria criativa e instigante, onde todos os envolvidos buscam, a cada ano, dar o seu melhor para que o passado, além de saudade, seja também fonte de inspiração e alavanca para a modernidade. Ao reconhecer o talento desses profissionais, o

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Prêmio Plumas & Paetês dignifica e respeita artistas que o mercado cultural cada vez mais valoriza, independente de formações

grande personalidade homenageada, que neste ano será o compositor e violonista Donga, autor, simplesmente, daquele que é considerado o primeiro samba gravado na história, o inesquecível “Pelo telefone”. Aos organizadores do Prêmio Plumas e Paetês manifesto meu respeito e admiração pelo carinho que dedicam àqueles que fazem do nosso Carnaval esta festa vibrante e que emociona a todos que a conhecem e admiram.

APOIO CULTURAL

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O reconhecimento é ao talento.Talento, por sinal, que nunca faltou à

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culturais e estéticas reconhecidas pelos bancos das universidades.


CIDADE DO SAMBA, porto da diversidade cultural

Desde a sua inauguração, a Cidade do O volume do que é feito nos andares destinados Samba vem consolidando seu lugar no mapa aos ateliês de fantasias e adereços surpreenderia das atrações turísticas como espaço de visitação e de realização de eventos.

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Muito além dessas características, podemos considerar o espaço como o lugar com a maior concentração de artistas por metro quadrado, numa convivência intensa nos meses que precedem o carnaval. Como polo de produção de arte brasileira, lá é possível encontrar artistas de várias origens, representantes do que há de melhor em criatividade e técnica. Evocando o samba antológico de Martinho da Vila, “são escultores, são pintores, bordadeiras, são carpinteiros, vidraceiros, costureiras, figurinistas, desenhistas e artesãos.” E toda essa gente empenhada em dar o melhor de si só pode dar o resultado que o mundo todo conhece: o espetáculo dos Desfiles das Escolas de Samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro.

qualquer gestor industrial, acostumado a acompanhar a produção em série de uma fábrica. Com um diferencial: o que é produzido na Cidade do Samba tem a marca da diversidade – afinal, são formas e cores que expressam o orgulho de cada pavilhão... Uma vez ensacadas, as fantasias são entregues aos componentes em intenso movimento pré-carnaval, quando se “escoa a produção” pelos portões das agremiações, no entorno da Cidade do Samba. Há o trabalho dos coreógrafos, ensaiando anônimos empenhados em trazer à tona ideias tão intangíveis quanto inovadoras, concretizadas pelo gesto exigente de quem conduz a agenda de ensaios. É lá, também, o ponto de encontro de carnava-


lescos, circulando pela área central, entre trabalhadores e turistas, exercitando uma prática característica do carnaval - a quebra de paradigmas hierárquicos.

“...são escultores, são pintores, bordadeiras, são carpinteiros, vidraceiros, costureiras, figurinistas, desenhistas e artesãos.” Quanto às alegorias, há o paradoxo de se produzir, com base em sofisticada engenharia, algo grandioso composto por delicados detalhes, desafiando a capacidade de transformar imaginação em realidade.

Shows temáticos nos palcos da Cidade do Samba

A Cidade do Samba potencializa o sentido de união das comunidades que frequentam as quadras quando fortalece o sentimento de coletividade, uma vez que as escolas são fisicamente colocadas lado a lado, eliminando as barreiras e o distanciamento geográfico. E, nesse aspecto, seu cenário remonta a um porto, com o movimento de containers e estivadores, guindastes em deslocamento. Na Gamboa, área de armazéns debruçados sobre a baía, a Cidade do Samba confirma sua vocação de convergência, como patrimônio de alto significado cultural e econômico, legitimando, de uma vez por todas, o espaço do samba na sociedade brasileira.

Agenda cultural com grandes eventos

LÍLIA GUTMAN P. LANGHI, Gestora Cultural e Mestre em Literatura

www.cidadedosambarj.globo.com

Cidade do Samba, espaço de convergência


Mensagem Cristina Lodi,

Superintendente do Iphan no Estado do Rio de Janeiro

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Assim como preservar o Patrimônio Cultural, organizar Carnaval não é tarefa fácil. Na verdade, é um trabalho sem fim que se recicla a cada ano e nunca para. Carnaval e Patrimônio também têm em comum serem repletos de arte, história... Memória e encantamento! Cada qual executando, ininterruptamente, projetos em várias áreas que envolvem um vasto leque de profissionais de diferenciados e específicos ofícios, com um só objetivo: preparar a grande festa ou preservar a memória. Trabalhando com madeira, ferro, papel, tintas, resinas, novos materiais que surgem a cada ano, recentes tecnologias e arte, muita arte, os profissionais do Patrimônio e do Carnaval têm bastante em comum, principalmente o fato de serem especialistas e apaixonados por aquilo que fazem. Mão de obra preciosa cuja renovação é sistematicamente incentivada, tanto pelos que organizam a folia quanto pelos que preservam a cultura. Costureiros, jardineiros, maquiadores, restauradores, marceneiros, engenheiros, coreógrafos, arquitetos, ferreiros, carnavalescos, historiadores... Um número sem fim de profissionais ligados tanto ao Carnaval quanto ao Patrimônio que, através de seu talento, ajudam a contar e a registrar a nossa história, mantendo viva a memória e os ensinamentos de seu próprio ofício. O vídeo “Artesãos do Samba”, produzido pelo Núcleo de Vídeo da Superintendência do Iphan/RJ, é um instrumento de resgate do fazer do Carnaval, agora sob o enfoque daqueles que atuam na preservação. Nele, estão todos os detalhes que constituem a realização da festa, da concepção da ideia ao desfile, incluindo os trabalhos que acontecem nos barracões, verdadeiros canteiros de obras, de arte... Aos artesãos que fazem o nosso Carnaval, que por vezes executam o inacreditável em tempo recorde, com técnica única e muito trabalho, nós do Patrimônio, que já reconhecemos as matrizes do samba no Rio de Janeiro (Partido Alto, Samba de Terreiro e Samba-Enredo) como patrimônio cultural imaterial do Brasil, dedicamos a realização desse vídeo.

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Um viva para as estrelas dos bastidores do carnaval carioca!


BASTIDORES

Reunião sobre educação, ciência e cultura no CCBB com a Diretora da OEI, (Organização dos Estados Ibero-americanos), Ivana de Siqueira, Cláudia Castro, Dr Hiran Araújo (LIESA), organizado por Luiz Carlos Prestes Filho ( Coordenador Executivo da CODEPIN).

José Antônio, John Michael e Gustavo Luiz, em entrevista na Super Rádio Tupi, no programa do jornalista e radialista Eugênio Leal.

ANIVERSÁRIO

Lançamento oficial do Troféu em homenagem a Donga no dia 05 de Abril, na Igreja da Penha, data do aniversário do compositor, com presenças ilustres de Haroldo Costa, Maria Moura e Lygia Santos, seguindo as tradições dos antigos sambistas que batizavam suas composições aos pés da Padroeira.

DOCUMENTÁRIO Bastidores da gravação do Documentário “Artesãos do Samba”, produzido pelo IPHAN, sob a direção da Jornalista Denise Barreto, Milton Cunha apresentador, ao lado da equipe de Gestores Culturais, José Antônio, John Michael e Lilia Gutman. Na foto abaixo - Rômulo Ramos - Diretor de Harmonia, sendo entrevistado pela jornalista Denise Barreto


Aos mestres, com carinho! MILTON CUNHA Carnavalesco e Doutor em Ciência da Literatura pela UFRJ.

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Meus alunos saíram pelo mundo do carnaval salpicando prêmios; fotografando e documentando barracões e processos de criação para Momo; auxiliando Carnavalescos; sendo carnavalescos; trabalhando em grandes equipes de Harmonia; abrindo ateliês para reprodução de fantasias. Uma virou até Presidente (!) de uma Escola do Grupo D. Incrível: a saga dos “Miltetes”, que me enlouqueciam de tanto perguntar em sala de aula. Tinha até o mau humoradíssimo que virou radialista especializado em samba: não podia ser confundido com veado (aliás amor, ser não é para quem quer, é só para nós, que podemos!), e de tão raivoso, chegava a ser engraçado e nós o adorávamos. Houve até o preto velho que morreu em sala de aula. Muitos são os tipos de pessoa interessadas em cursar a Folia nos currículos acadêmicos, aliás, igualzinho a Escola de Samba, que vai da Empregada Doméstica Passista à Destaque socialite. Um leque, um mosaico democrático, futriqueiro e brigão, graças a Deus. Somos todos da mesma enfermaria, e salve-se quem puder! Quantas possibilidades existiam ou foram criadas pelos gestores sedentos por desbravar o fascinante território das possibilidades do ziriguidum. E agora que se passaram sete anos da primeira e inesquecível turma, fico de longe, vendo Zé e John, realizadores do Plumas e Paetês, e me lembro dos olhos questionadores e um ponto de interrogação na testa. Sentavam enfileirados, sempre participantes, e tinham o quality do pulo do gato: na hora em que vissem a brecha, entrariam para nunca mais sair. A oportunidade faz a estrela, e, como repetíamos em

mantra em sala de aula “a vida é assim mesmo!”. Estão aí, agora, os dois, que não me deixam mentir: cumprem o destino que traçaram para o labor e sucesso! Como correm, como engrandecem, como focaram certo, na hora certa, nos bastidores do carnaval. Muitos prêmios para os famosos, quase nenhum para a brava equipe do backstage sapucaiano. Farejaram e se jogaram. Apresentei a premiação nos primeiros anos, depois Toronto me levou fazendo coincidir as datas, e entre a National Tower e meus pupilos, fiz o contrário dos pais que querem segurar filhos: mandei que seguissem sozinhos e de longe testemunho seu crescimento. Quanta verve e empolgação por empreendimento que nas mãos de outros seria pífio, mas eles sabem bater o bolo, usam fermento de primeira, e nunca descansam. Juventude é estado de espírito, mas força física é para poucos, e geralmente jovens. Do convés do navio, aceno meu lenço branco emocionado, quando a visão de meus garotos no Cais vai sumindo. Deixo-os nos braços de Dionísio, embalados pelas Bacantes. Viajo muito, sempre retorno para uma espiadela, e entre confetes e serpentinas, todos os meus ex-alunos se transformam em alegóricos brincantes de um museu que vou tecendo em amor e fúria, arando terras selvagens e plantando em almas o sopro da Hermenêutica da Suspeita: “desconfiem sempre, meninos: ninguém sabe tudo, o tempo todo – estamos todos apenas de passagem, e enquanto a gola do pierrot nos for leve, com ou sem maquiagem, só há uma opção para o melhor desfecho, que é dançar e gargalhar no grande baile que a vida é!”.


BASTIDORES EXPO CARNAVAL Em abril desde ano aconteceu o evento “Expo Carnival”, no teatro Trianon, Campos dos Goytacases, onde o estilista e hors concours do carnaval carioca, Nelcimar Pires, realizou a 1ª exposição com suas fantasias para o público que lotou a casa, além de presenças ilustres, e Milton Cunha como apresentador.

ALÔ, TROFÉU! LEVI CINTRA é o designer responsável pela criação do troféu da 8ª Edição do Plumas & Paetes.

CIDADANIA 1ª Feira de Empregabilidade da Rocinha ´”ARTE CIDADÔ Participação da equipe Plumas & Paetês Cultural, com oficinas de máscaras para comunidade da Rocinha

BONIFÁCIO JÚNIOR

Lançamento da 2ª edição da Revista Plumas & Paetês Cultural no Corcovado em Junho de 2011

Pelo terceiro ano consecutivo, o professor de etiqueta e mestre de cerimônias estará à frente da 8ª Edição do Prêmio do Plumas & Paetes Cultural.

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Quatro grandes, três irmãs e por aí vai... Quando Fernando Pamplona, julgador de Alegoria, rabiscou um 8 (oito), a maior nota, para o “Debret” do Salgueiro e um 7 (sete) para a Portela - era 1959, meus nobres adoradores de datas -, meio que por acaso instaurou a modernidade do carnaval carioca. A atenção dos brincantes ainda estava dividida com ranchos, sociedades, blocos, mas as escolas de samba já começavam a assumir o protagonismo da festa.

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FÁBIO FABATO Jornalista e Comentarista de Carnaval Logo depois, Nelson de Andrade – dirigente com atuação destacada, mas ainda pouco lembrado pelos alfarrábios momescos –, tratou de convidá-lo para ser o carnavalesco do mesmíssimo Salgueiro tão diferente. Pamplona relutou, mas cedeu. E lá, junto com Arlindo Rodrigues, deslocou a lente de aumento para a história abafada pelos livros didáticos, enchendo de negritude um território então dominado pelas tramas de capa e espada. Vieram Zumbi dos Palmares (1960), Xica da Silva (1963), Chico Rei (1964) e a construção de uma nova visão de Brasil. As agremiações então chamaram para elas mesmas a responsabilidade da reflexão e síntese dessa porção gigantesca de terra tão diversificada. E também construíram personalidades variadas, a partir de um diálogo natural no seio de suas comunidades. Ora, o legado de Salgueiro, Portela, Mangueira e Império Serrano – as ditas “quatro grandes” que dominaram o cenário a partir da ruptura do começo dos anos 60 –, é bastante conhecido. Mas faltava deixar de lado certo ar de preconceito e paternalismo ainda reinante nas resenhas históricas sobre a folia e também sacramentar que Beija-Flor de Nilópolis, Mocidade Independente de Padre Miguel e Imperatriz Leopoldinense já deixaram seus quinhões de entrega cultural para

a nossa cidade. Não só elas, mas também agremiações como a Unidos de Vila Isabel, Estácio de Sá (descendente direta da precursora Deixa Falar) e tantas outras. Sim, possuem títulos, grandes nomes, mas, acima de tudo, marcas. Marcas identitárias. No livro AS TRÊS IRMÃS – COMO UM TRIO DE PENETRAS “ARROMBOU A FESTA” (Editora Nova Terra, 2012), Alan Diniz, Alexandre Medeiros e eu nos debruçamos sobre as histórias de Beija-Flor, Mocidade e Imperatriz. Fomos atrás dos pormenores que entregaram identidade e, a partir de 1976, liderança às autênticas filhas da revolução capitaneada por Fernando Pamplona.

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Beija-Flor foi do controverso Governismo presente em enredos como “Brasil ano 2000” (1974) e “O grande decênio” (1975) – associação pouco gloriosa com os anos de chumbo –, para o Surrealismo de João Trinta, o maior de todos. Terminou por promover o mais completo tema sobre a história do país já desenvolvido – “Ratos e urubus, larguem a minha fantasia” (1989) – síntese dos 500 anos de uma pátria mãe pouco gentil com a sua gente. E que outra bandeira deitou e rolou em ousadia, brasilidade e vanguarda como a Mocidade Independente? Pediu Anistia em “Tropicália maravilha” (1980), criticou o desmatamento do Xingu


Imperatriz, 1997

(1983), foi ao espaço sideral (1985), clamou para que o índio vivesse em paz na sua Tupinicópolis (1987). A mais sensual de todas as agremiações, cá pra nós. Já a Imperatriz, reduto de intelectuais populares, como o grande Oswaldo Macedo – médico, cigano, apaixonado pelo carnaval e pelas coisas do povo –, notabilizou-se por distribuir biscoito fino para a massa. A professorinha pudica apaixonada por um Brasil que, nas suas palavras, é a autêntica “flor amorosa de três raças” (1969). Nenhum outro grêmio retratou melhor a pujança desse chão (política, cultura, história), não à toa o nome de soberana que ganhou na pia batismal.

Hoje, quilômetros e mais quilômetros de Avenida rodados, e no seio de uma nova fase do carnaval (houve mais uma passagem de bastão no protagonismo dos desfiles a partir dos anos 2000, e que já merece relato histórico) é imperativo que também louvemos as glórias e personagens marcantes das “três irmãs”. Alguns nos ouvirão “Pelo telefone” celestial – para não nos esquecermos de Donga, o homenageado da vez do Prêmio Plumas e Paetês. Mas muitos deles ainda estão conosco. Um salve a Mestre André, Zé Catimba, Cabana, Joãosinho Trinta, Fernando Pinto, Arlindo Rodrigues, Maria Helena, Careca, Pinah, Tôco, Amaury Jório, Tiãozinho da Mocidade, Laíla, Rosa Magalhães, Renato Lage, Soninha, Niltinho Tristeza, Tia Nilda, Selminha Sorriso, Chiquinho, Paulinho Mocidade, Ivo Lavadeira, Remba, Ney Vianna, Tio Vivinho, Dominguinhos do Estácio, Neguinho da Beija-Flor e tantos outros bambas imortais...

Tupinicópolis, 1987

Ratos e Urubus da Beija-Flor , 1989


A Capital do Samba LUIS CARLOS MAGALHÃES

Colunista e pesquisador de carnaval

No meu...digamos, “bairrismo”, o fim do mundo se Você conhece alguém preconceituodaria quando as três primeiras fossem escolas periféso? Claro que sim, né? E alguém que se admita, a si próprio, como preconceituoso... você conhece? O que melhor caracteriza a postura preconceituosa é a tentativa de descaracterizá-la. Mais ou menos assim: – “não é preconceito, não, mas ...” Bem, dito isto aí em cima, começo esse meu texto pós-carnavalesco assim: Não é preconceito, não, mas... Não tenho nada contra as escolas da periferia da cidade, mas fico feliz da vida quando o resultado aponta para a hegemonia das escolas cariocas. Prefiro que chamem isto de bairrismo, acho menos politicamente incorreto. Sou do tempo anterior ao das “três irmãs”, ou de uma delas em especial. O carnaval era todo “nosso”, sem a menor “ameaça externa”.

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Comecei a ter esse tipo de preocupação já no início deste século quando o resultado apresentava a “incômoda” presença de duas “periféricas no desfile das campeãs”

ricas. A contar pelo resultado desse ano aí, o fim do mundo esteve próximo... muito próximo. E assim foi indo, nesse diapasão, até que agora neste carnaval três escolas cariocas, e vizinhas, – Tijuca, Salgueiro e Vila – conquistam os três primeiros postos, para meu alívio, ainda que, bem sei, por pouco tempo. E foi aí que o presidente-campeão se adiantou em proclamar a Tijuca como capital do samba, colocando Vila Isabel no pacote da grande Tijuca. Como morador da Muda, uma beirada tijucana, e tendo passado boa parte da infância na casa de avós e bisavós em Vila Isabel, acumulo conhecimentos suficientes para reconhecer meu bairro atual como destaque absoluto dos desfiles. Só que aí coloco a Unidos da Tijuca, a Acadêmicos do Salgueiro e o Império – Imperinho – da Tijuca com seus últimos belíssimos carnavais.

E foi assim nos anos seguintes quando invariavelmente duas ou três delas estavam no sábado e, muitas vezes, ali com a Beija-flor campeã rondada por Grande Rio, Viradouro e, mais distante, Porto da Pedra.

Excluo a Vila por saber que a única característica que une os dois bairros é a proximidade. Vila Isabel é um bairro personalíssimo, com sua própria cara, história única na cidade e no país e, sobretudo, com heróis próprios. Os sociólogos do samba diriam que Tijuca e Vila Isabel são nações diferentes. E bota diferentes nisso...

O alerta veio no carnaval de 2006. Vila Isabel ganhava após desempate com Grande Rio e era “perseguida” com a “incômoda” Viradouro em um ano em que Beija-flor ficava longe com Poços de Caldas.

Do ponto de vista cultural não será difícil encontrar, no bar do Costa, alguém invertendo a lógica comercial incluindo a Tijuca na Grande Vila Isabel, ainda que jocosamente.

O alerta “gritou” quando no ano seguinte deu Beija-flor com Grande Rio em segundo. Pela primeira vez, duas escolas da baixada nos primeiros lugares. E com a insinuante Viradouro em quinto.

E tem mais, Tijuca é Tijuca... Estácio é Estácio... Esta pequena digressão não afasta a Tijuca da posição de bairro mais destacado no universo das escolas de samba em nossos dias. E aí não consigo não lembrar palavras-advertências do jornalista-sambista


Waldinar Ranulpho, o “Meu Sinhô”, que assinava a coluna “Samba e Outras Coisas” na prestigiadíssima Última Hora de seu tempo. Dizia Waldinar algo semelhante a “samba é uma coisa, escola de samba é outra”. Madureira consagrou-se como capital de samba por ambas as vertentes de Waldinar. Uma porque se fazia capital de duas potências vizinhas: Império Serrano, de Vaz Lobo e Portela, de Oswaldo Cruz, ambas, ao contrário de Vila Isabel em relação à Tijuca, sub-bairros da estação principal. Madureira tornou-se capital das escolas de samba principalmente em torno do início dos anos cinquenta quando, no carnaval de 1952, se enfrentavam a Portela hexacampeã e o Império tetracampeão. De 1941 até 1953, foram doze carnavais divididos entre elas com um no meio - o de 1952 – sem decisão da comissão julgadora. Entre 1939 e 1960, apenas quatro vezes o título fugiu de Madureira. Se houvesse sábado das campeãs ambas estariam em todos. É ou não é para ser capital do samba e das escolas de samba. Fez-se também capital do samba porque do ventre das duas escolas surgiriam seguidas gerações de compositores de “samba-samba”, não apenas “samba-para-o-carnaval”. Gerações que até hoje formam a base do repertório das melhores rodas de samba desse Brasil afora, com toda reverência à formidável ala de compositores do Salgueiro dos anos 60. Ostentando em suas cores os maiores ícones em atividade, Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz, a mais importante e ativa de todas as velhas guardas, trazendo em sua galeria imortal as maiores referências vivas do samba brasileiro - Monarco e Ivone Lara – Madureira permanece com o título de capital do samba. Por outro lado os tijucanos vão buscar no ranking da LIESA os 50 pontos de cada uma de suas duas escolas principais. Somarão 100 e jogarão contra os 87 da campeoníssima Beija-flor e, contando com os 14 pontos do Imperinho no ranking da Lesga, sairão por aí garbosamente autointitulando-se campeões do maior espetáculo da terra. E com toda a razão.


POR UMA CIDADE CRIATIVA

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O Ministério da Cultura assumiu, na -lhes infraestrutura para a criação, a distribuição e o atual gestão, o desafio de criar a Secre- consumo dos bens e serviços criativos. Além disso, taria da Economia Criativa, uma pasta cuja o Brasil tem o desafio de ter uma educação criatimissão é conduzir a formulação, a implantação e o monitoramento de políticas públicas para o desenvolvimento local e regional, priorizando o apoio e o fomento aos profissionais e aos micro e pequenos empreendimentos criativos. São segmentos criativos: artes, patrimônio, artesanato, design, moda, arquitetura, cultura digital, livro, culturas populares, cinema e vídeo, entre outros caracterizados pela dimensão simbólica. Também constituem os jogos eletrônicos, os softwares, enfim, as tecnologias da informação, que hoje configuram boa parte da economia, também denominada de “economia do intangível”. Sabemos que nosso país é criativo. Mas não transformou essa criatividade em inovação e mais riqueza. Por isso, é fundamental que os poderes públicos conheçam os números que essa economia movimenta para construir políticas, qualificar tecnicamente os empreendedores, apoiá-los com crédito e oferecer-

va e que corresponda ao novo trabalho deste século, que prepare os jovens para esses novos ofícios.

Podemos, então, investir diretamente nos segmentos da economia criativa e também querer que essa nova economia seja fomentada em territórios específicos. O que seria, assim, um território criativo ou uma cidade criativa? Se observarmos a trajetória das grandes cidades e suas idades de ouro, como Atenas na Grécia (da democracia), Florença na Itália (das artes), Viena na Áustria (do conhecimento moderno) ou Berlim na Alemanha (da inovação), constatamos que todas se tornaram criativas por serem conectadas, cosmopolitas e abertas à criatividade e à inovação. Uma cidade criativa também é o lugar em que os bens culturais são parte integrante e vital das atividades econômicas e sociais. E mais: veicula e difunde símbolos produtores de sinergia e solidariedade, trazendo resultados para o turismo e potencializando a autoestima de


essa criatividade em inovação e mais riqueza.” Cidades criativas são, ainda, aquelas cujos gestores compreendem a dimensão estratégica do turismo cultural para o seu desenvolvimento. Não por acaso, Paris é o maior destino turístico do planeta. A sua identidade é o bem mais precioso que a França tem para mostrar, uma vez que a cidade se alimenta economicamente de uma imagem esboçada ao longo de sua história e representada por símbolos como a torre Eiffel e o Museu do Louvre. Barcelona é outra cidade onde se construiu uma nova identidade e um planejamento, a partir dos jogos olímpicos de 1992, com a transformação das zonas degradadas e a “ressignificação” dos conteúdos. Outro recorte interessante sobre territórios criativos diz respeito aos bairros. Em Brisbane, na Austrália, por exemplo, bairro criativo é aquele onde as residências e os aluguéis são baratos e pessoas de baixa renda se tornam potenciais consumidores de produtos e serviços criativos. Lá, no andar térreo de cada prédio, foram estruturados negócios que ajudam a reduzir o valor do aluguel. É nos bairros criativos que se cria, também, um ciclo virtuoso, em que as universidades produzem pesquisa; a pesquisa contribui com dados e informações para o Estado; o Estado formula políticas, dialoga com as empresas; e as empresas comercializam produtos gestados em incubadoras

Precisamos, também, difundir boas práticas, desenvolver tecnologias sociais, redes colaborativas, explorar potencialidades e pensar em transformar e dar conteúdo criativo a áreas degradadas. A economia criativa vem oferecer, às cidades, novos conteúdos para a requalificação de bairros e regiões metropolitanas. Isso acontece em Nova York, Los Angeles, Lisboa e Buenos Aires, que se transformam graças aos negócios culturais advindos das reformas urbanas. A Secretaria da Economia Criativa do Ministério da Cultura, em breve, vai chancelar cidades criativas brasileiras, a partir de uma metodologia própria que pressupõe que cidade criativa é aquela em que as políticas públicas culturais municipais atravessam diversas pastas. Assim, para gerir cidades criativas, necessitamos de gestores competentes, tecnicamente qualificados, prontos para enfrentar o desafio da transversalidade das políticas, marca da nova gestão pública.

CLÁUDIA LEITÃO, Secretária da Economia Criativa do Ministério da Cultura

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criativo. Mas não transformou

Como produzir cidades criativas no Brasil? Em primeiro plano, precisamos de governos municipais e estaduais capazes de melhorar a nossa visibilidade externa para atrairmos investimentos. Para isso, precisamos dialogar com as grandes cidades do mundo. São as cidades conectadas com as experiências criativas e inovadoras de outros lugares que apresentam mais oportunidades. Brisbane diz: Queremos ser cada vez mais uma cidade conectada com o mundo.

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“...Sabemos que nosso país é

dentro das universidades, formando um ciclo virtuoso fundamental. Outro exemplo de Brisbane é o Midia Map (MOS), em que estão mapeados todos os eventos da cidade, com informações, inclusive, da cadeia destes eventos, como artistas, iluminadores, cenógrafos, produtores, escritórios de advocacia que tratam do direito autoral, além dos contatos de cada elo.

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seus habitantes. Portanto, deve dispor de uma infraestrutura voltada à produção, à difusão e ao consumo de bens e serviços criativos; e inovar em suas formas de combater problemas sociais, promovendo a inclusão produtiva dos excluídos. Essa inovação deve refletir a busca de alternativas para seus próprios problemas, a partir da geração de emprego e renda, ao mesmo tempo em que reforce identidades locais sem fechar-se ao novo. Enfim, cidades criativas têm que permitir um comércio amplo, mas, sobretudo, um acesso ainda maior da população aos produtos e serviços culturais.


Galeria 2011

Revivendo a criatividade de Arlindo Rodrigues, a 7ª Edição do Prêmio Plumas & Paetês aconteceu no Teatro Carlos Gomes , na cidade do Rio de Janeiro.


CARNAVAL DO RIO DE JANEIRO EXPORTA ALEGRIA À ARGENTINA! E isso é possível. Sim! Bambas do carnaval carioca, numa parceria com o Governo da Província de San Luis, ousaram e levaram uma caravana de 2000 sambistas e reproduziram o carnaval carioca! Considerado internacionalmente como o Maior Espetáculo a Céu Aberto da Terra, o Carnaval do Rio de Janeiro tem nos desfiles das Escolas de Samba a sua maior forma de expressão! Ao longo dos anos os desfiles se profissionalizaram, ganharam maior visibilidade no país e no mundo inteiro. Com o avanço das tecnologias, despertaram o interesse de patrocinadores, agregando valor a nossa cidade, aumentando o número de turistas e, consequentemente, aumentando a sua cadeia produtiva, ampliando as chances de vários profissionais do samba tanto na área de gestão, atraindo cada vez mais pessoas qualificadas e experientes, como também criaram novas perspectivas de futuro às comunidades no entorno de cada agremiação.

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Durante décadas o carnaval carioca tinha como seu maior símbolo o gingado de mulatas, que passaram a ser vistas como produtos e agenciadas mundo afora. Atualmente, é comum encontrar pessoas ligadas ao carnaval carioca se apresentando em todas as partes do planeta. Essas pequenas exibições nem sempre contam com um bom nível de profissionalismo e em alguns momentos nossos sambistas chegaram até a passar algum tipo de privações. Esse cenário teve uma grande reviravolta a partir do ano de 2010! Profissionais do carnaval, cada qual com um curriculum invejável, que venceram vários campeonatos da GRES Estação Primeira de Mangueira, além de dirigentes da LIESA, uniram suas respec-

ADRIANA BAPTISTA

tivas experiências e fundaram a AMI 7 Produções e Eventos Artísticos e Culturais Ltda e se lançaram em parceria com as empresas AMEBRAS e GANGAZUMBA Produções Cinematográficas Ltda, na ousada proposta do Governo da Província Argentina de San Luis onde se propuseram a realizar o 1º Carnaval do Rio de Janeiro em San Luis. E assim levaram, pela primeira vez, para o exterior a atmosfera dos desfiles da Sapucaí. Na prática isso significou transportar do Rio de Janeiro um grupo de mil componentes (bateria, alas, baianas, destaques, passistas, mulatas, cantores e músicos) para apresentar dois desfiles de Escola de Samba, em um Sambódromo montado no Autódromo Internacional de Potrero de los Funes. A experiência, que deu certo e hoje já está na sua terceira edição, desenvolve várias oficinas de carnaval como também detém a gestão operacional do grandioso evento, englobando o projeto de pista de desfiles (ornamentação, pista, segurança e apoio médico, arquibancadas, frisas, iluminação, som, fogos de artifício) logística de deslocamento, transporte, hospedagem, alimentação dos componentes e os desfiles propriamente ditos (contratação dos carnavalescos, harmonia, elaboração do samba enredo e supervisão da montagem das alegorias). O sucesso do Carnaval Exportação deve ser atribuído também ao compromisso e profissionalismo de todos os envolvidos no processo, dos dirigentes das Escolas de Samba, das Ligas e dos componentes. Esse empreendimento é uma oportunidade de proporcionar aos brasileiros que participam como componentes, o acesso à outra cultura e o conhecimento de novos locais e costumes, proporcionando uma convivência com a diversidade cultural.


O bloco na rua... Carlos Fernando Andrade, Arquiteto e Doutor em Urbanismo

Anos 1980, e, depois do Simpatia, Barbas e Suvaco, constatou-se que não havia bloco na segunda-feira. Eram tempos de (re)descoberta e, daí, surgiu o Bloco de Segunda. Encostado no Morro Dona Marta, encontrou, imediatamente ali, a base de sua bateria e também passou a compor uma ala na Escola. Centenas de pessoas do asfalto passaram a se credenciar como ritmistas e a turma do morro a se apresentar como notórios musicistas. Ganharam as casas noturnas da Lapa e o bloco virou, de acordo com a mídia especializada, um bloco tradicional. Tudo cresceu. Volto os olhos para o passado, tentando entender o presente. O Carnaval do Rio, que, em 25 anos, saiu do completo ostracismo para se tornar a maior festa popular do Mundo... (calcularam que 5 milhões de pessoas foram aos blocos) não pode ser reduzido a um problema de micção. É, para mim, um momento de humanidade, quando a cidade se encontra com si mesma, em toda a sua plenitude. Os blocos simbolizam a fusão entre morro e asfalto, lembrando que a cidade não pode prescindir nem de um nem de outro, porque, como o Carnaval, ela é feita das duas coisas. Penso que o “Plumas e Paetês” entendeu isso há mais tempo. E vai buscar, nos operários da folia, a força e a estrutura, que ela tem. Parabéns para nós todos que sabemos transformar alegria em energia, samba em fé, suor em cor, visão e beleza.


Donga e a Cidadania do Samba NEI LOPES Compositor e Escritor

O “DNA” do Samba, ouso dizer, veio do centro oeste-africano, território dos povos do grupo Banto. E a prova disso está na origem etimológica do termo.

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O vocabulário da língua cokwe, do povo Quioco, de Angola, registra um verbo samba, com o sentido de “cabriolar, brincar, divertir-se como cabrito”; e, no quicongo, língua falada no Congo e também em Angola, palavra semelhante designa uma espécie de dan-ça em que um dançarino bate contra o peito de outro. E essas duas formas se originam da raiz semba, “rejeitar”, “separar”, presente em várias línguas do grupo banto para fazer referência ao movimento físico produzido na umbigada, que é a característica principal das danças dos povos bantos, na África e nas Américas. Esse “DNA” deu origem, na Bahia, ao samba mais tradicional, dançado em roda ao som das “chulas”, versos curtos musicados e ritmados por palmas. Esse samba de roda chegou ao Rio de Janeiro, a velha Capital do Império. E, no início da República, a partir do bairro do Estácio, começou a tomar a forma com a qual chegou ao grande consumo; e se diversificou, tomando várias formas, umas sofisticadas, como a bossa-nova, outras popularescas, como o “pagode” romântico de hoje. Para tudo isso, muito contribuiu a visão e a atuação de um músico pioneiro, o violonista e compositor Ernesto dos Santos, o “Donga”. Mas vamos ver como isso se deu. A partir dos anos de 1870, na região que se estendia da antiga Praça Onze de Junho até as proximidades

da atual Praça Mauá, constituía-se o núcleo principal da comunidade baiana na cidade do Rio de Janeiro. Compreendendo diversas freguesias e localidades, tendo por centro a “Cidade Nova”, a região acabou sendo em parte mencionada como “Pequena África”, por óbvias razões. Pólo concentrador de múltiplas expressões da cultura afro-brasileira, da religião à música, a região foi o berço onde se gerou o samba em sua original forma urbana. Também na “Pequena África” foi que se estabeleceram os primeiros candomblés jeje-nagôs em terras fluminenses, ainda no século 19. E certamente graças à comunidade baiana foi que aqui se popularizou, por exemplo, a culinária de origem africana, a qual, em 1881 já era oferecida em restaurantes como o Bahiano, que servia vatapá de garoupa, moqueca de peixe, angu de mocotó e cuscuz de tapioca. O âmbito de influência dos baianos se estendia, também, além dos limites da “Pequena África”, com membros residindo muitas vezes alguns quilômetros além; como foi o caso de Tia Amélia do Aragão. Membro atuante da comunidade baiana, Amélia Silvana de Araújo morou primeiro na rua Teodoro da Silva, em Vila Isabel, e depois na rua “do Aragão”, no Andaraí Pequeno, próximo à Fábrica das Chitas, nas vizinhanças da atual Praça Saenz Pena. Daí ser conhecida como “Tia Amélia do Aragão”, em alusão à


Vivia-se, entretanto, no Brasil, pelos primeiros anos do século 20, um clima absolutamente desfavorável a qualquer expressão cultural emanada do povo negro. Menos de duas décadas tinham-se passado da extinção legal do trabalho escravo e a sociedade brasileira procurava, de todos os modos, apagar a “mancha africana”. Assim, em termos musicais, ao tempo das chapas de gramofone, que eram os primitivos suportes fonográficos, gravavam-se polcas, valsas, modinhas, maxixes, lundus, etc. Mas o samba propriamente dito (e o termo “samba” designava qualquer batuque de negros) tinha interesse apenas etnográfico, sem qualquer possibilidade mercadológica. À parte, então, esse particular interesse etnográfico, do ponto de vista mais geral o samba era prática marginal, desclassificada. Era a música dos libertados porém deserdados pela Abolição, dos desordeiros, dos capadócios, da malta enfim. E por isso era reprimido pela ordem constituída, num estado de coisas que, menos ou mais brandamente, veio até a década de 1930. “Os sambistas, cercados em suas próprias residências pela polícia, eram levados para o distrito e tinham seus violões confiscados” – contava Donga ao escritor Muniz Sodré, conforme transcrito no livro “Samba, o dono do corpo” (Rio, Codecri, 1979).

Foi nesse quadro que Donga, já respeitado como violonista e compositor, à frente de outros músicos negros, resolveu “introduzir o samba na sociedade”, numa ação iniciada em 1916, com o registro autoral, na repartição competente, de “Pelo telefone”, historicamente a primeira obra do gênero samba a receber estatuto legal. O grande mérito de Donga, então, além do inegável valor artístico – como compositor e como exímio executante de violão – foi o de, motivado pelo advento da indústria fonográfica, ter dado ao samba o status indiscutível de gênero musical brasileiro, o que o governo de Getúlio Vargas, na década de 1930, viria convalidar. E o fez visando à ampliação das possibilidades de uma música antes restrita a um ambiente específico, o do seu povo negro. Sobre Donga e o Samba, então, é preciso que se diga o seguinte: O samba, ainda embrião, veio do centro-oeste africano, num ventre escravo talvez. Nasceu na Bahia, talvez num canavial às margens do rio Paraguaçu ou numa praia ou fazenda da cidade de São Salvador. De lá, bem menino ainda, veio para o Rio de Janeiro, onde botou a cara no mundo. Mas ainda não tinha certidão de nascimento. E isto quem lhe deu foi cidadão-músico Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o “Donga” (cognome ligado ao quicongo ndonga, ensinamento), em 1916, legitimando-o e lhe dando cidadania.

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Bem cedo, levado por sua mãe, começa ele a frequentar a “Pequena África” e a conviver com figuras de nomes tão sonoramente simbólicos quanto evocativos de sua importância histórica: Tia Sadata, Miguel Pequeno, Amélia Quindúndi, Tia Bebiana, Tia Presciliana, Rosa Olé, Bambala, Hilário Jovino e Tia Ciata! E aos 16 anos já está ele às voltas com o cavaquinho; para logo depois já estudar violão com o célebre Quincas Laranjeira, autor de um método inovador.

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Nascido nessa alegre circunstância, e numa casa baiana onde se realizavam grandes reuniões de samba, Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o Donga, era provavelmente um filho de Oxum. Ciumento, lutador vigoroso pelo sucesso, emotivo, inspirado e sensível, um filho de Oxum assim nascido tem sempre grandes chances de ser um músico de sucesso. E assim foi.

Segundo Donga – bem falante e articulado, conforme Sodré – no governo de Rodrigues Alves (1902 – 1906) as funções de delegado de polícia, antes exercidas por “beleguins” que compravam patentes da Guarda Nacional, passaram a ser exercidas por bacharéis em Direito, o que deu início a um certo abrandamento das perseguições a sambistas. Mas em 1908, seu amigo e companheiro João da Baiana ainda tinha o pandeiro confiscado pela polícia, tendo que, então, recorrer ao todo-poderoso senador Pinheiro Machado, que lhe teria dado um instrumento novo e com dedicatória, numa espécie de salvo-conduto.

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rua onde morava. Na Teodoro, no número 44, foi que Amélia deu à luz seu filho Donga, em 5 de abril de 1889, um pleno sábado de aleluia.


Donga, o fundamental! SERGIO CABRAL Jornalista e Escritor

Prudente de Morais, neto, o grande jornalista e estudioso da música popular brasileira, contava que uma das impressões musicais mais fortes proporcionadas pelo Carnaval ocorreu em 1917, na Avenida Rio Branco, na passagem dos Democráticos, que conduzia num dos seus carros uma orquestra executando Pelo telefone, de Donga e Mauro de Almeida. “Naquele momento, percebi que se tratava de um novo tipo de música, uma revolução destinada a mudar a música carnavalesca”, dizia ele. Vale a pena lembrar o depoimento do velho Prudente, porque Pelo telefone é quase sempre lembrado apenas como o primeiro samba gravado. Mas foi muito mais do que isso. Inaugurou uma nova época para nossa música, pois foi a partir dele que a música popular brasileira conquistou oficialmente um gênero musical chamado samba. Não se trata de exagero a afirmação de que todos os sambas do mundo são descendentes do Pelo telefone, mesmo aqueles com ritmo e sincopa diferentes, pois, como se sabe, nem todos são iguais numa mesma família. Apenas o Pelo telefone seria suficiente para inscrever o nome de Donga como um dos grandes nomes da nossa música, mas ele foi além da sua obra revolucionária. O mestre Pixinguinha sabia muito bem disso, tanto que ambos estabeleceram uma espécie de parceria profissional iniciada nos primeiros anos do Século XX e que foi até o começo da década de 1970, com os dois já em idade avançada. Pixinguinha contou sempre com o violão e o cavaquinho de Donga nos vários conjuntos

criados por eles, desde 1914, quando fundaram o Grupo de Caxangá, passando pelo conjunto Oito Batutas, que, em 1922, levou a música brasileira a Paris, e nas muitas orquestras, grandes e pequenas, lideradas pelos dois e presentes inúmeras vezes nas gravações de discos e nas apresentações públicas. Além do excepcional instrumentista, o compositor Donga também merece uma atenção especial pela quantidade e pela qualidade das músicas presentes em cerca de duzentas gravações. São músicas de uma imensa variedade rítmica – das valsas e sofisticadas peças de choro às batucadas e às marchinhas carnavalescas – e que permitem aos pesquisadores atestarem a própria riqueza musical do Brasil. Ao lado do seu talento de compositor, vale a pena conhecer também a sua batalha pela valorização profissional dos criadores de músicas, um aspecto, aliás, presente no lançamento do Pelo telefone, cuja partitura foi registrada por ele na Biblioteca Nacional. Desde a década de 1920, ele nunca deixou de manifestar-se em defesa dos direitos autorais, sendo, por isso, uma das figuras de destaque nas instituições que seriam criadas mais tarde para arrecadar e distribuir a remuneração dos autores musicais. Uma avaliação da obra e da atuação de Donga coloca-o, sem dúvida, entre os personagens fundamentais para a formação da música popular brasileira.


Saudades do Donga! MARTINHO DA VILA Cantor, Compositor e Escritor

Um acontecimento marcante na minha vida artística foi ter contato com o compositor Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o Donga, em um convívio musical na casa da sua filha Lygia Santos. No primeiro encontro, eu, tomado de emoção por estar de frente a um dos precursores do samba, fiquei de voz embargada, não cantei e quase não falei. E o genial músico queria me ouvir. Depois, as reuniões musicais da casa da Lygia, na Rua Almirante João Cândido Brasil, passaram a ser permanentes nos finais de semana, também em dias úteis, e eu estava muito presente. Por mais incrível que pareça, pasmem, eu fiquei íntimo do homem que oficialmente gravou o primeiro samba no Brasil. Ficamos amigos de verdade. Ouvi muitas histórias e cantei para ele, acompanhado pela sua viola de raros ponteios, muito apreciados pelo Maestro Villa-Lobos. Através de Donga, conheci o João da Baiana. Apaixonei-me pelo João e gravei um disco denominado “Batuque na Cozinha”. Depois também me encantei com o Pixinguinha e gravei o samba “Patrão, prenda seu gado”, parceria dos três, a quem eu chamo de Santíssima Trindade da música popular brasileira. Para gravar o LP “Orígens – Pelo Telefone” eu, abusando da intimidade, falei com o Donga: “Mestre, eu quero fazer uma gravação da sua música com Mauro de Almeida, mas há diversas versões e, alguns versos cantados de várias maneiras.” E perguntei: “Qual é a letra correta?“ “Ih! Menino... Isso já deu muito pano pra manga.“ “É que eu pretendo regravar no meu próximo disco.”

O compositor desconversou, eu deixei passar um tempo e voltei ao assunto. Com muito jeito consegui que ele me falasse, mais ou menos assim: “Eu fiz a melodia da primeira parte, sem letra, e o refrão completo “Ai, ai, ai. Deixa as mágoas para trás, ó rapaz / Ai ai ai, Fica triste se és capaz e verás” e ponteava cantarolando “Tantaram TAM, tantaram TAM tantaram TAM tantaram TAM TAM”. Toda a turma que frequentava a casa da Ciata gostou muito e eu tinha que repetir várias vezes. Depois fiz a melodia da segunda parte, o Mauro fez aquele verso da rolinha que se embaraçou e daí pra frente surgiram muitos improvisos. Eu fui um dos batalhadores pelo direito autoral e registrei o samba, só a melodia, porque naquela época não havia gravador portátil e as partituras eram comercializadas. Passado um tempo, o Mauro registrou a letra. Eu gravei e foi um sucesso retumbante. Os improvisadores, que eram muitos, sentiram-se também autores do samba maxixado e houve um falatório danado. Do Mauro, que era jornalista, ninguém falava nada, mas até na imprensa diziam que eu me apropriei de uma composição coletiva. E eu só registrei a minha melodia.” Gravei, então, o “Pelo Telefone” do jeito que Donga cantava e fiz um sucesso enorme. Até hoje é um grande hit entre os meus. Toda vez que eu o canto fico emocionado e sinto uma imensa saudade do grande Donga, mas a emoção mais forte foi quando eu cantei com a última mulher dele, a Vó Maria, em um show no extinto Canecão. Teve gente que chorou.


Donga, a santíssima trindade e a praça da velha guarda JAIR MARTINS DE MIRANDA

A importância de Donga (Ernesto Joa- participarem, com níveis distintos de contribuição, como quim Maria dos Santos) na história do sam- os principais protagonistas das festas e rodas de samba, do carnaval carioca e, consequentemente, ba na casa da Tia Ciata e também pela popularização da música e cultura popular brasileiras é incontestável: desde sua participação no Grupo do Caxangá (1913), passando pelo Oito Batutas (1922) até integrar o grupo (1932) e o conjunto da Velha Guarda (1956), foi protagonista de um movimento musical que fundou, à revelia do movimento intelectual e modernista de 1922, uma música popular genuinamente brasileira, ainda hoje moderna, com várias obras de sucesso que transitam da vanguarda de então à velha guarda de hoje. Como se não bastasse todo esse legado, há muito referendado, gravado e regravado por seus contemporâneos e remanescentes, Donga também foi providencial para a nossa cultura popular ao escolher a companhia luxuosa dos seus inseparáveis amigos e músicos excepcionais, João da Baiana e Pixinguinha nos muitos momentos marcantes da nossa música: a exitosa excursão para Paris com Os Batutas, por exemplo, prevista para um mês, se estendeu por mais cinco meses, tamanho o sucesso, a aceitação e o reconhecimento externo daquela nova música brasileira, naquela capital cultural da Europa. Não é a toa que esse trio ficou consagrado e conhecido como a “Santíssima Trindade”, tamanha foi sua influência na formação da música brasileira. Portanto, não é surpresa se hoje em dia essa santíssima trindade, uma entidade quase religiosa, seja venerada por uma legião de músicos e admiradores mundo afora: afinal, tanto Donga, como João da Baiana e Pixinguinha podem ser considerados como os legítimos fundadores do samba urbano no Rio de Janeiro ao

do samba e do carnaval ao estenderem para as ruas da cidade, aquele nascente caldeirão cultural brasileiro, consagrando sucessos musicais que se eternizaram no cancioneiro e imaginário popular, a começar pelo estrondoso sucesso de “Pelo Telefone”, no carnaval de 1918. Há de se reconhecer, sem dúvida, o mérito desse trio por uma renovação e evolução da música brasileira, mas também, e em especialmente, por terem inaugurado um movimento de valorização do samba e de profissionalização do sambista, até então marginalizados pela sociedade racista, burguesa e afrancesada de então. Até porque nem tudo foi fácil para esses desbravadores. É digno de nota, por exemplo, a reação dos intelectuais, escritores e jornalistas dessa época, que, a contragosto daquela renovação, consideraram um acinte para a cultura brasileira, o choro, o samba e um grupo de “pardavascos” - forma pejorativa que se referiam a eles, como músicos negros - representarem o Brasil e a música brasileira em Paris, naquela temporada de sucesso dos Batutas. Por isso e por muitas outras contribuições que Donga, João da Baiana e Pixinguinha nos legaram - e, que por questões de espaço, não cabe citar neste breve artigo –, é que essa “Santíssima Trindade”, merece todas as nossas honras. Basta observar nos dias de hoje a dimensão que o samba tomou na cultura dos brasileiros e a importância que o carnaval carioca adquiriu para todo (o) mundo.


Por tudo isso, tenho a dizer que é muito bem-vinda essa homenagem da 8ª edição do Prêmio Plumas e Paetês à Ernesto Joaquim Maria dos Santos. Ao atribuir o Prêmio Donga, aos melhores profissionais do carnaval, que contribuíram para realizar o último desfile do maior espetáculo do planeta, estão reconhecendo e rememorando a importância desse velho sambista para esse espetáculo que tanto nos orgulha.

“afinal, tanto Donga, como João da Baiana e Pixinguinha podem ser considerados como os legítimos fundadores do samba urbano no Rio de Janeiro.” No entanto, tenho também a dizer que, apesar das muitas homenagens a essa santíssima trindade, elas ainda são poucas no Rio de Janeiro, considerando a importância desse trio para a nossa cidade, nitidamente musical. Fica a sugestão: sinalizar a Praça da Velha Guarda que os homenageia e instalar o mural-memorial Santíssima Trindade (imagens abaixo) nesse logradouro da Lapa, bairro onde Donga, Pixinguinha e João da Baiana fizeram muita música e muita história.

JAIR MARTINS DE MIRANDA - Professor do Centro de Ciências Humanas da UNIRIO e coordenador do projeto Portal do Carnaval; presidente do CRIAR – Centro de Referência e Informação em Artes, Entretenimento e Cultura Brasileira e idealizador do “Projeto Santíssima Trindade”.


Uruguaiana: Carnaval de uma cidade inteira

FORA DE ÉPOCA, GAÚCHO E CARIOCA Sempre se ouviu falar muito bem do o Carnaval acontece 15 dias depois do Enterro dos Carnaval de Uruguaiana, na fronteira do Ossos. Em 2013, acontecerá nos dias 28 de fevereiro, Brasil com a Argentina. Foram os Fuzileiros 1° e 2 de março. Navais que lhe deram os primeiros traços do formato atual. Nas primeiras décadas do século passado, instalados em uma unidade avançada da Marinha do Brasil às margens do Rio Uruguai, organizaram um grupo carnavalesco. Eram “Os Filhos do Mar”, com toda a vontade, a ginga e o jeito carioca de ser.

Os bailes nos clubes e os corsos de automóveis em torno das praças da cidade foram substituídos pelos desfiles das escolas de samba. Em 1952, aconteceu o primeiro campeonato, conquistado pela Engrenagem dos Navais. No ano seguinte, Os Filhos do Mar levaram os prêmios. Em 1954, Os Rouxinóis inauguravam uma nova fase, com luxo e requinte. Foram surgindo várias entidades carnavalescas, organizou-se uma Liga e as escolas dividiram-se em grupos, de acordo com o tamanho e a força de cada uma. Mas, até o ano de 2005, ainda era apenas o bom Carnaval de Uruguaiana. Hoje, em um calendário especial e com acentuado intercâmbio, é um megaevento. Lá,

O Prefeito Sanchotene Felice alterou a data dos desfiles, fugiu da concorrência com Porto Alegre, Rio e São Paulo e deixou Uruguaiana como a dona de uma forte atração para um período até então nostálgico de pós-Carnaval. As escolas de samba de Uruguaiana, hoje, oferecem um grande espetáculo e são, também, um bom mercado de trabalho. Diretores, compositores, carnavalescos, aderecistas, casais de mestre-sala e porta-bandeira e intérpretes destacados do Rio de Janeiro têm presença certa nas escolas do Grupo Especial uruguaianense. Porém, há uma preocupação em não haver a “carioquização” definitiva. Características do lugar precisam ser preservadas e todos se empenham nisso. Haja o que houver, mantém-se o que é mais importante: o povo de Uruguaiana. O Carnaval de Uruguaiana é o Carnaval de uma cidade inteira. Toda a sociedade local se envolve apai-


xonadamente. A competição leva as escolas duas vezes à avenida. É da soma dos pontos dos dois desfiles que sai a campeã. Isso provoca interessantes discussões nos bares, nas casas e nas ruas, entre um desfile e outro. O clima é de uma festa permanente, na avenida e fora dela.

“O Carnaval de Uruguaiana é o Carnaval de uma cidade inteira. Toda a sociedade local se envolve apaixonadamente.” Os jurados são do Rio de Janeiro atualmente, superando a extrema rivalidade e a íntima ligação das pessoas com suas escolas, pois lá se pergunta se alguém é desta ou daquela agremiação. Fica difícil encontrar 22 jurados completamente desvinculados da realidade local. Há cinco anos, um grupo de especialistas do Rio vai a Uruguaiana para o julgamento, interessados também em pesquisas e cobertura jornalística.. São aproximadamente 130 mil habitantes brasileiros separados da Argentina por um rio. Isso ainda acrescenta outra constatação: existe Carnaval do lado

de lá da fronteira, com grandes escolas de samba na cidade de Paso De Los Libres, que também produz bons sambistas. As escolas de samba de Uruguaiana estão repletas de argentinos nas alas e nas baterias. E são baterias com cadência e ritmo tipicamente cariocas, por conta da origem desse Carnaval peculiar. O jeito de fazer samba que os Fuzileiros Navais deixaram como raiz frutificou, se multiplicou e, até hoje, dá frutos, no Brasil e na Argentina. Vale a pena ver essa beleza toda de perto. Programe-se. Uruguaiana sabe receber muito bem seus visitantes. E, se você for de samba, será acolhido como um nativo.

CLAUDIO BRITO, é jornalista e radialista. Coordena a cobertura carnavalesca da Rádio Gaúcha, que, há 25 anos, está presente aos desfiles do Rio de Janeiro e Porto Alegre. Sua ligação com o Carnaval carioca é muito intensa. Esteve entre os criadores da Premiação S@ mbaNet e foi um de seus primeiros coordenadores. Desde 2005, acompanha os desfiles de Uruguaiana e colabora com sua organização. Também é comentarista da RBSTV (afiliada da Rede Globo). É Editor do site www.gauchanocarnaval.com.br e apresentador do programa Personagens da Folia, na TVCom, também do Grupo RBS. Como palestrante, tem participado dos cursos do Instituto do Carnaval.


O Rei do Carnaval Joãosinho Trinta

Há pessoas privilegiadas, dotadas de inteligências fora de série, que “já nascem sabendo”, independente de ensinamentos prévios. Seus sentidos são apurados: escutam e enxergam de imediato, o que não acontece conosco, seres humanos comuns que precisamos de tempo para apreender e aprender. Seus conhecimentos não vêm das Academias. Trazem em si o saber popular. Essas criaturas contêm “chispas” no raciocínio. Sabem as respostas de imediato, não precisam de tempo para res-

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ponder aos desafios.

Como diz Arthur da Távola: “O Rei é símbolo poderoso.... Da linguagem popular à técnica, passando pela poética, esotérica e iniciativa, o símbolo da realeza atrela-se a ideais humanos; a reconhecimento de valores; a altas inspirações; à necessidade de atribuir a alguém poderes especiais ou reconhecer a existência de dignos “acima da média”. Num primeiro sentido, portanto, o símbolo “Rei” relaciona-se com a ânsia de superação do trivial. É a existência de virtudes e qualidades atribuídas a deuses e heróis. Não é por outra razão que as monarquias sempre se fundaram nas misteriosas disposições da divindade. Assim ocorre com o cristianismo, por exemplo. Seu avatar, máximo, o Cristo, é o filho de Deus. E seu representante na Terra, o Papa, é escolhido por direta influência do Espírito Santo. Há, portanto,

Quando seus neurônios são estimulados, encontram-

em imagens arquetípicas poderosas de qualquer civilização,

-se iluminando o raciocínio, que disparam como relâmpa-

tempo, templo ou religião, a íntima veiculação entre figuras

gos: as idéias fluem rápidas, galopantes, atropelantes e

basilares e a divindade. São - tais figuras - a expressão da

sempre brilhantes.

certeza, intuição com esperança humana em relação à exis-

Esses indivíduos se destacam nas atividades que exer-

tência de valores acima do trivial, transcendendo-os”.

cem na sociedade, funcionam como desbravadores de obs-

É dessa forma que olho João Trinta. Vindo de sua ter-

táculos, são os construtores vitoriosos do futuro e, por isso,

ra natal, o Maranhão, jovem, na década de 50, João Trinta

lideram a vanguarda e permanecem imortais na sua obra.

adentrou a cidade do Rio de Janeiro, abrigando-se no Teatro

Suas vidas flutuam entre a realidade e a ficção, passando rapidamente de plano real para o fictício alcançando a magia e o encantamento como o ato natural de respirar. Não há forma melhor de enquadrá-los senão pelo designativo de “Rei”.

Municipal, para se dedicar à dança. Ainda como bailarino começou a se interessar pelas artes plásticas, frequentando o atelier de Arlindo Rodrigues, responsável pela cenografia do Teatro Municipal.


O Brasil vivia entre o final dos anos 50 e o início dos 60, uma fase extremamente criadora. Nas Escolas de Samba surgiu o grupo que instalou um núcleo de renovação no Salgueiro formado inicialmente por Fernando Pamplona, Arlindo Rodrigues, casal Dirceu e Maria Luise Nery e o aderecista e desenhista Nilton Sá, todos do Teatro Municipal. João Trinta veio na cola desse grupo pioneiro como um iniciante talentoso. Em 1957, as Escolas de Samba foram chamadas para ocupar o palco nobre do carnaval carioca, a Avenida Rio Branco, substituindo as decadentes Grandes Sociedades e Ranchos Carnavalescos. Nascidas nas periferias da cidade, as Escolas de Samba, que resistiam ao mau gerenciamento do Poder Público – empresário do carnaval a partir do Estado Novo logo clamaram a atenção da intelectualidade brasileira, atenta à fase renovadora da sociedade. A nova sociologia “indagativa” que dominava a intelligentsia se interessou pelo fenômeno e promoveu um grande debate no I Congresso Nacional do Samba, acontecido no Palácio Monroe, em 1962. Preocupados com a invasão do capital estrangeiro, toda a discussão girou em torno da preservação do nacionalismo no samba. Nossos intelectuais, distanciados do processo interno das Escolas de Samba, não perceberam que naquele momento elas construíam uma ruptura importante (com o “estado empresário’’) que, se conduzida corretamente, significaria sua a libertação econômica - e ideológica. A transferência dos desfiles da Avenida Rio Branco para uma pista mais apropriada ao seu crescimento, a Avenida Presidente Vargas (trecho Candelária), em 1963, condicionou o inicio do processo da “barroquisação” dos desfiles. A mudança do olhar do espectador, não mais posicionado no mesmo nível do desfile mas, “empoleirado’’ nas novas arquibancadas tubulares verticais (olhar de cima para baixo), e o início da comercialização dos desfiles com a cobrança de ingressos proporcionaram uma mudança radical das Escolas de Samba no carnaval carioca. Nesse momento, o desfile deixa de ser exclusivamente linear baseado unicamente nos valores do samba para adotar também o sentido do alto, predominando os

No desfile o primado passou a ser do visual.

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valores das artes plásticas, rumo ao espetáculo.

É nesse momento que entra o gênio João Trinta, passando de simples artesão

(Parte I do texto “O Rei do Carnaval”, de Hiram Araújo. Para ler o texto na íntegra, acesse o site www.plumasepaetescultural.com.br )

HIRAM ARAÚJO, Diretor Cultural da LIESA.

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auxiliar a “condutor do processo”.


Premiados 2012

GRUPO ESPECIAL

ADERECISTA

Adalberto Ferreira (Salgueiro)

ARTESÃO

Priscila Motta e Rodrigo Negri

Cristiano Bára (Beija Flor)

CARNAVALESCO

Renato Lage e Márcia Lage (Salgueiro)

CARPINTEIRO

Edson Lima “Futica” (Salgueiro/São Clemente e U.Tijuca)

COMPOSITOR

Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Toninho Nascimento e Naldo (Portela)

COREÓGRAFO

Priscila Motta e Rodrigo Negri (U. da Tijuca)

Regina Marins

COSTUREIRA

Ademildes Silvino de Souza - (Beija Flor)

DESENHISTA

Alex de Souza (União da Ilha)

DESTAQUE PERFORMÁTICO Thiago Martins (São Clemente)

DESTAQUE DE LUXO MASCULINO Carlos Reis (Portela)

DESTAQUE DE LUXO FEMININO Regina Marins (Mocidade)

Fernando Magalhães

DIRETOR DE CARNAVAL

Ricardo Fernandes (U. Tijuca)

DIRETOR DE HARMONIA Fernando Costa (U. Tijuca)

ESCULTOR

Rossy Amoedo (Vila Isabel /Grande Rio/ Beija Flor/ São Clemente e Renascer)

FERREIRO

Alexandre Vieira (Salgueiro)

Thiago Martins

FIGURINISTA

Fabio Ricardo (São Clemente)

ILUMINADOR / ELETRICISTA

Luiz Antonio Silva Pereira (Mocidade, Renascer, Porto da Pedra)

2012

GESTOR DE ATELIÊ

Fernando Magalhães (Portela/Salgueiro)

MAQUIADOR ARTÍSTICO Rosa Bandeira (Mangueira)

Revista Plumas & Paetês

36

PESQUISADOR

Alexandre Louzada (Mocidade)

PINTOR

Cássio (Grande Rio)

PERSONALIDADE DO CARNAVAL 2012 Marcela Alves e Rafael Rodrigues (Mangueira)

Fábio Ricardo

Lygia Santos


Renato Lage e Márcia Lage

Ademildes Silvino Cláudio Brito

PRÊMIOS ESPECIAIS: “Eu Sou o Samba” – Lygia Santos e Vó Maria “Vem de Lá” – Claudio Brito (Rádio Gaucha) Jornalista/Colunista – Fábio Fabato

Alex de Souza

Site de Carnaval – “Galeria do Samba” (Fábio Silva)

Rossy Amoedo

Divulgadora – Flor de Maria Fotógrafo – Ricardo Almeida

Edson Lima “Futica” Cássio Mendes Alexandre Louzada

Cristiano Bára Carlos Reis Ricardo Fernandes e Fernando Costa

Revista Plumas & Paetês

37

2012

Marcela Alves e Raphael Rodrigues


Premiados 2012

GRUPOS ACESSO A E B

Jaime Cezário

GRUPO ACESSO A Arlindo Cruz, Tico do Império e Arlindo Neto

ARTESÃO / ESCULTOR Rossy Amoedo (Inocentes)

ADERECISTA

Antonio Carlos “Cerezo” (Cubango)

CARNAVALESCO

Mauro Quintaes (Império Serrano)

CARPINTEIRO

Marcelo Vianna (Império Serrano)

COREÓGRAFO

Sérgio Lobato (Rocinha)

COSTUREIRA

Marli Mattos (Império da Tijuca)

COMPOSITOR

Arlindo Cruz, Tico do Império e Arlindo Neto (Império Serrano)

DESENHISTA

Wagner Gonçalves (Inocentes)

DESTAQUE LUXO MASCULINO Marli Mattos

Mauro Quintaes

Edmilson Araujo (Santa Cruz )

DIRETOR DE CARNAVAL

André Luiz S Marins, Jener Tonasso (Império Serrano)

DIRETOR DE HARMONIA

Marcos da Costa de Souza (Império Serrano)

FERREIRO

Devalcyr Ribeiro (Viradouro)

FIGURINISTA

Severo Luzardo (Império da Tijuca)

GESTOR DE ATELIER

Leonardo Leonel e Leandro Santos (Ateliê Aquarela Carioca)

ILUMINADOR

Luiz Antonio da Silva Pereira (Inocentes)

2012

Sérgio Lobato

MAQUIADOR ARTÍSTICO

Wagner Gonçalves

PESQUISADOR

Jaime Cezário (Cubango)

PINTOR

Eduardo Alves (Inocentes)

38 Revista Plumas & Paetês

Elaine Jansen Pereira (Império da Tijuca)

Jener Tonasso

Marcos da Costa de Souza Edmilson Araujo


GRUPO ACESSO B ADERECISTA

Carlos Calado (Caprichosos de Pilares)

CARNAVALESCO

Amauri Santos – (Caprichosos de Pilares)

CARNAVALESCO ESCOLA-MIRIM

Ana Claudia Colatino Barreto, Julio Cerqueira e Rita de Cássia (Herdeiros da Vila)

CARPINTEIRO

Sergio Loureiro (Caprichosos de Pilares)

COREÓGRAFO

Marcio Moura (Caprichosos de Pilares)

COSTUREIRA

Reyla Ravache (U. de Padre Miguel)

Elaine Jansen Pereira

DIRETOR DE CARNAVAL

Jr Escafura, Alex Fab, Marcelo Jacob (Caprichosos de Pilares)

DIRETOR DE HARMONIA

Leandro Germano, Márvio, Dudu Falcão (Caprichosos de Pilares)

Severo Luzardo

ESCULTOR

Carlos Eduardo Hilário (Caprichosos de Pilares)

FERREIRO

Antônio da Silva “Tuninho 70” (U. de Padre Miguel)

FIGURINISTA

Dudu Falcão

Eduardo Gonçalves (Alegria da Zona Sul)

ILUMINADOR

Luiz Cairo (Caprichosos de Pilares)

PESQUISADOR

Eduardo Gonçalves (Alegria da Zona Sul)

PINTOR

Sílvio de Souza Felipe “Índio” (Caprichosos de Pilares)

Eduardo Gonçalves

Leandro Santos e Leonardo Leonel

Marcelo Jacob, Jr Escafura e Alex Fab Marcio Moura

Revista Plumas & Paetês

39

Amauri Santos

2012

Luiz Cairo


Premiados 2012 GRUPO C

GRUPO AESCRJ

ADERECISTA

Rodrigo Marques e Germano Nagare (Acad. Sossego)

CARNAVALESCO

Josimar Vieira (U. Vila Kennedy)

PESQUISADOR

Diego Jesus, Cristiano Chulyd e Erica Patrícia (U. Vila Kennedy)

COMPOSITOR

Andinho do Samba, André Fluido, Cadu Regis, Douglas Monteiro, Leandro Partideiro e Nei Barros (Unidos do Jacarezinho)

COREÓGRAFO

Patrick Hernandes (Império da Praça Seca)

COSTUREIRA

Verônica Suely e Marly (Favo de Acari)

Andinho do samba, André Fluido, Cadu Regis, Douglas Monteiro, Leandro Partideiro e Nei Barros

DIRETOR DE CARNAVAL / HARMONIA Sergio Harmonia (Império Praça Seca)

GRUPO D ADERECISTA

Leandro Mourão (Mocidade U. de Jacarepaguá)

Laércio, Naldo, PC do Repique, Mauricio do Pandeiro, Toti e Fernando de Lima (Boca do Siri)

COMPOSITOR

COREÓGRAFO

COMPOSITOR

COREÓGRAFO

Wanderson Oliveira (Boca de Siri)

COSTUREIRO

Jan Oliveira (Mocidade U. de Jacarepaguá)

Antonio de Azevedo Bastos (Matriz de são João de Meriti)

Maralina Santos (Mocidade U de Jacarepaguá)

Edvaldo Pereira de Oliveira (Boca de Siri)

Kátia Regina Moutinho (Unidos de Lucas)

Marcus Do Val (Chatuba de Mesquita)

COSTUREIRA

2012

CARNAVALESCO

Lino Sales, Alexandre Costa e Marcus Do Val (Chatuba de Mesquita)

Laio Lopes, Lelo, Pedro Camilo e Hugo (GRES Unidos de Cosmos)

40

ADERECISTA

Alexandre Costa (Chatuba de Mesquita)

Carlos Eduardo da Silva e Paulo Roberto Roque (Mocidade U de Jacarepaguá)

CARNAVALESCO

Revista Plumas & Paetês

GRUPO E

DIRETOR DE CARNAVAL / HARMONIA PESQUISADOR

DIRETOR DE CARNAVAL PESQUISADOR

Afonso Delone e Vinicius Vaitsman (Acadêmicos de Vigário Geral)

Maralina Santos

Rodrigo Marques


Alexandre Costa, Lino Sales e Marcus Do Val

Edvaldo Pereira

Laércio, Naldo, PC do Repique, Mauricio do Pandeiro, Toti e Fernando de Lima

Patrick Hernandez

Diego Jesus, Cristiano Chulyd e Erica Patrícia

Jan Oliveira

Marcus Do Val Leandro Mourão

deste ano de 2012, o nosso muito obrigado. Saber julgar é uma arte e cabe a nós valorizar o olhar atento de vocês às nuances Alexandre Costa

de cada artesão: Lygia Santos, Bruno Filippo, Felipe Ferreira, Fábio Fabato, Vicente Magno, Rafael Azevedo, Luiz Carlos Magalhães, Alberto João, Wellington Peçanha, Teresa Piva, Sandro Gomes, Sayonara Pontes, Carlos Rezende, Maurício de Paula, Roberto Martins, Jorge Luis Matias e Regina Lúcia Sá.

Revista Plumas & Paetês

A todos os que integraram o corpo de jurados junto à equipe do Plumas e Paetês

41

2012

Carlos Eduardo


Trabalhadores do Carnaval Carnaval dos Trabalhadores As mãos invisíveis do Carnaval

da cidade

do Rio de Janeiro formam um exército de 250 mil trabalhadores que executam 470 mil tarefas relacionadas diretamente com a festa. Esses dados fornecidos pelo Ministério do Trabalho e Renda (MTR) no ano de 2000, levantados numa pesquisa da Social Democracia Sindical, serviram de ponto de partida para o desenvolvimento do estudo Cadeia Produtiva da Economia do Carnaval que coordenei, entre os anos de 2006/2009. Pela grandiosidade destes números vemos que estes trabalhadores não deveriam ser invisíveis. Espe-

2012

fabricam 39 milhões (comprovadamente) de peças todos os anos, injetando na economia daquele município R$50 milhões. Lembramos que 80% das encomendas são feitas pelas escolas de samba dos Grupos Especiais do Rio de Janeiro e de São Paulo - Mangueira, Portela, Grande Rio, Gaviões da Fiel, Vai-Vai, entre outras. Hoje, este importante núcleo de criatividade já exporta 20% de sua produção para os Estados Unidos, Emirados Árabes, Alemanha, Portugal e África do Sul.

por que esta falta de visibilidade? Pelo visto devem existir

“Criaram sua própria maneira de gestão do negócio carnaval, que pode servir de modelo para outros negócios na cidade e no Brasil.”

trabalhadores como ativos da indústria do Estado. Num dos mais antigos prêmios do Carnaval Carioca, o Estandarte de Ouro, não tem espaço para o operário do Momo, por exem-

42

mil bordadeiras - identificamos comprovadamente 734 - que

cialmente, para as políticas públicas e empresariais. Mas barreiras que impedem o reconhecimento deste exército de

Revista Plumas & Paetês

onde desenvolvem suas atividades produtivas cerca de 2

plo. No meu estudo não foi possível levantar informações detalhadas sobre a quantidade de carpinteiros, maquiadores, costureiras, ferreiros, escultores, pintores, artesãos ou desenhistas que trabalham no Carnaval do Rio de Janeiro. Não localizei – também – nenhuma base de dados confiável sobre as matérias primas que estes profissionais transformam em fantasias, carros alegóricos ou efeitos especiais. Tive recursos disponíveis somente para levantar informações detalhadas sobre o Polo de Bordado de Carnaval de Barra Mansa, cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro

Por tudo isso, é absolutamente inovadora a proposta da iniciativa cultural Plumas & Paetes de premiar - todos os anos - os trabalhadores do carnaval. É importante destacar que os representantes desta entidade julgam os desfiles de todas as escolas de samba do Rio de Janeiro e que acompanham na íntegra todos os trabalhos realizados pelas


agremiações da Passarela do Samba da Marquês de Sa-

Ao realizar uma leitura da lista dos operários do carna-

pucaí (Centro da cidade), 53 escolas dos grupos Especial,

val premiados desde 2008 pelo Plumas & Paetês, verifico

A, B e Mirim; e da Estrada Intendente Magalhães (bairro de

que estamos frente a um trabalho de impacto econômico e

Madureira), 40 escolas, dos grupos C, D e E. Todas estas

social. Econômico, porque demonstra que o Rio de Janeiro,

escolas juntas, 93 no total, levam para as ruas de maneira

para reverter o seu esvaziamento econômico, processo ini-

organizada 110 mil pessoas devidamente caracterizadas.

ciado a partir de 1964, deve se voltar para suas vocações

Outro exército, só que de artistas populares amadores, que

(e o Carnaval é uma delas). Social, porque o Carnaval está

cantam e dançam para defender o enredo escolhido por

muito mais enraizado no Rio de Janeiro do que a Festa de

suas comunidades.

Ano Novo na praia de Copacabana; o Rock in Rio; os Jogos

Mas, finalmente, quem são estes profissionais que produzem os arames das fantasias, as sapatilhas, chapéus ou fantasias? Quem são os trabalhadores que executam as tarefas de marcenaria, carpintaria, modelagem ou de serralheria? Na maioria dos casos são anônimos, pessoas com autoestima baixa, esquecidas pelo luxo que ofusca. São conhecidos como Zezinhos, Manés, Tiazinhas, Florzinhas, Dudus ou Benzinhos.

Olímpicos; ou a Copa do Mundo de Futebol. O carnaval, digamos assim, está no sangue, na alma, na carne, na raiz do fio de cabelo.

“...devemos entender o que é esta Economia do Carnaval!”

Por tanto, o Plumas & Paetês está dando às mãos invisíveis do Carnaval Carioca a certidão de nascimento e a carteira de identidade. Abrindo espaço para que num futuro bem próximo todos tenham carteiras de trabalho. E... assinadas! Muitos já são micro-empresários ou empreendedores individuais. Não existe informalidade nas 93 escolas de samba. Todas são constituídas formalmente, são sociedades civis sem fins lucrativos, são prestadoras de serviços. Muitas delas desde 1935 recebem subvenção pública. Hoje as do Grupo Especial recebem milhões e as dos grupos de acesso milhares de reais. Recebem porque a cidade é beneficiada. As indústrias de transporte, gastronomia, hospedagem, bebidas, instrumentos musicais, audiovisual, editorial e de entretenimento têm lucro. O Carnaval de 2012 trouxe para a cidade do Rio de Janeiro 850 mil turistas. É um desempenho maior do que o da Copa do Mundo de Futebol em Joanesburgo. Cidade sede que recebeu, durante todo o evento, 200 mil turistas.

O Professor Carlos Lessa afirma que “devemos entender o que é esta Economia do Carnaval!”. Para ele o povo marginalizado buscou sua própria maneira de “fabricar um entretenimento”. Pois, sabia que “no espaço dos bacanas não seria possível manter sua linguagem musical, suas vestimentas, suas danças”. Mas, na sua opinião, as escolas de samba foram muito além: “Criaram sua própria maneira de gestão do negócio carnaval, que pode servir de modelo para outros negócios na cidade e no Brasil.” Estabeleceram relações próprias com aqueles que trabalham para a festa. Relações boas, que devem se mantidas, e relações críticas, que devem ser transformadas. A iniciativa cultural Plumas & Paetês está colocando em prática ações que vão obrigar muita gente a sair da teoria: fazer o trabalhador deixar de ser um conceito abstrato. Invisível.

LUIS CARLOS PRESTES FILHO, Assessoria para Desenvolvimento da Indústria Cultural .


Carnaval, a festa de um ano inteiro TIAGO RIBEIRO Publicitário, Ator e Estudante de Jornalismo

E lá se foi mais um carnaval! Os dias de folia, repletos de emoção e novidade, pas-

começar a dar forma às alegorias. Com este aumento de flu-

despercebidos. Graças à tecnologia, hoje podemos assistir

xo de funcionários, o trabalho do DIRETOR DE BARRACÃO

aos desfiles quantas vezes quisermos, pela TV e internet,

aumenta, ao mesmo tempo em que os COMPOSITORES

assim como visitar a Cidade do Samba para conhecermos

buscam inspiração para elaborar letra e melodia que façam

as minúcias dos efêmeros desfiles de carnaval.

toda a comunidade cantar.

Dessa forma, alegorias, fantasias, coreografias e todos

Lá pelo mês de outubro, com o hino escolhido, os INTÉR-

os outros pormenores das apresentações já não são mais

PRETES gravam o CD de sambas de enredo e os ensaios

vistos por apenas alguns minutos. Seguindo este mesmo

começam pra valer. A partir daí, a atenção dos DIRETORES

princípio, o Prêmio Plumas e Paetês Cultural existe para

DE HARMONIA só tende a aumentar. Os componentes en-

que o empenho dos milhares de artistas da folia não seja

saiam nas quadras, os MESTRES DE BATERIA preparam

esquecido.

as bossas e os COREÓGRAFOS se juntam à comissão de

falta é trabalho. Quando se diz que um desfile é o resultado dos esforços de um ano inteiro, não é exagero. Na verdade, hoje, muitos dos carnavais já começam a ser elaborados antes mesmo do desfile antecessor ir para avenida. E nessa

2012

complexa rede de funções, as escolas de samba se tornam

46

po para que os CARPINTEIROS e ESCULTORES possam

saram tão rápido que muitos detalhes podem ter passado

Em meio a este verdadeiro mutirão de artífices, o que não

Revista Plumas & Paetês

trabalham nos ateliês, os FERREIROS correm contra o tem-

verdadeiras empresas, aplicando o sistema de divisão de trabalho, com planejamento esmiuçado para evitar surpresas. O processo se inicia com a definição do enredo, que vem das conversas entre o CARNAVALESCO e o presidente da agremiação, gerando temática autoral ou patrocinada. Com tema definido, entram em cena os PESQUISADORES, que são responsáveis por embasar a história a ser contada. Com a definição dos aspectos abordados nos desfiles, começa a idealização visual da apresentação, que passa pelas mãos dos DESENHISTAS. A partir daí o desmonte das alegorias do ano anterior ganha um rumo, retirando o que não convém e adaptando o que pode servir. Enquanto os FIGURINISTAS

frente para os treinos secretos. Nos barracões, os ADERECISTAS, PINTORES e ILUMINADORES aceleram os seus afazeres, juntos das COSTUREIRAS, que dão os retoques finais em tudo o que foi idealizado. Liderando e equilibrando todas estas pessoas, está o DIRETOR DE CARNAVAL, que a esta altura está a mil por hora. E mais rápido do que se imaginava, os carros alegóricos saem dos barracões e chegam na avenida, onde os MAQUIADORES vão paramentar os desfilantes, os DESTAQUES brilharão no alto das alegorias, e todos os componentes darão vida a tudo o que foi planejado. Entre samba no pé, euforia das arquibancadas e reconhecimento da imprensa, todos saberão que tudo aquilo não foi feito apenas para atravessar a Sapucaí, mas, sim, que a função do desfile é servir de instrumento para essa gente mostrar toda a sua arte!


Revista Plumas & Paetês 2010  
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