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plástico bolha

@ O P l a s t i c o B o l h a | j o r n a l p l a s t i c o b o l h a . b l o g s p o t . c o m | w w w. j o r n a l p l a s t i c o b o l h a . c o m . b r

Distribuição Gratuita

Ano 7° - Número 30

é involuntário esboço no pé do caderno comecei a tracejar esse caminho quase acabado. sonhei com rampas e prédios incendiados esbocei que era Nero. Natália Eme

DESTAQUES Entrevista com Nicolas Behr, o poeta de Braxília, por Lucas Viriato Miriam Sutter interpreta com sabedoria os ensinamentos do Oráculo Dobradinha poética entre Alice Sant’Anna e Chacal Laura Erber escreve sobre Caetano Veloso na coluna Por dentro do tom Ilustrações de Ingrid Bittar, Raïssa Degoes, Ângelo Abu e Heinz Langer Textos de Isabella Pacheco, Flávia Muniz, Camila Silveira, Fernando Brum e Mauro Ferreira Poemas de Anelise Freitas, João Lima, Augusto Guimaraens Cavalcanti, www.angeloabu.com.br

Leonardo dos Santos Dias, Vania Osorio, Breno Coelho, Bráulio Coelho, Danilo Diógenes, Pedro Rocha e Ana B.

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BOLHETIM A volta dos que não foram

Fazendo o trabalho sujo

As edições impressas do jornal Plástico Bolha andaram meio sumidas no último ano, é verdade. Porém, 2012 é o ano em que o mundo acaba, mas o nosso fanzine literário, não. Chegando à casa das 30 edições lançadas, o Plástico Bolha é reconhecidamente um herói no campo das publicações independentes do Brasil. Agora, nosso maior compromisso volta a ser manter a constância e a periodicidade para as próximas edições. Desse modo, o jornal passa a ser trimestral. Pode agendar para abril seu próximo encontro com o melhor da nova prosa e poesia!

Heinz Langer

Twitter e Facebook

Meu destino é andaaar por esse país…

O Plástico Bolha anda mais intrépido do que nunca: influenciado pela Primavera Árabe e pela Dona Cléo, finalmente abriu uma conta no Twitter e no Facebook. Para nos encontrar no Facebook, basta ir a www.facebook.com/jornalplasticobolha. Estão lá uma página do projeto para curtir e um perfil para você matar o desejo de “ficar amigo” desse empreendimento literário. No Twitter, basta procurar por @OPlasticoBolha e começar a nos seguir para ficar por dentro dos últimos eventos, lançamentos e poesias escritas na bolhosfera. Nosso site oficial e o Blog do Bolha também continuam a todo o vapor.

Depois de participar, no final de 2010, da 12ª. Mostra SESC Cariri de Cultura, no Ceará, o jornal Plástico Bolha se empolgou e botou o pé na estrada. Ao longo do ano passado, participamos de eventos de literatura em diversos estados do país. Em agosto, invadimos a cidade de Tiradentes durante o XIV Festival de Gastronomia e Cultura. Com o grupo de poetas do Bolha, fizemos intervenções poéticas em praça pública e distribuímos a edição especial Plástico Bolha Tiradentes, que publicou poetas locais e textos com temática gastronômica. Fora isso, ainda em Minas Gerais, estivemos presentes no FELICA, o Festival Literário de Cataguases, e também no Terças Poéticas de Belo Horizonte. Em Juiz de Fora, marcamos presença no Eco Performances Poéticas e na IV Semana de Letras da UFJF. Pelo Rio de Janeiro, apoiamos a IX Jornada de Pós-Graduação de Letras da PUC-Rio, o 3º Prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia e, claro, curtimos o tradicional CEP 20.000, onde desenvolvemos o quadro Espaço Plástico Bolha. No Rio Grande do Sul, batemos ponto na 26ª Feira do Livro Osório e na Feira do Livro e Cultura de Lagoa Vermelha. Ufa, depois dessa maratona, só mesmo descansando um pouquinho na internet!

ENVIE SEUS TEXTOS PARA textos@jornalplasticobolha.com.br

EDIçÃo Lucas Viriato | Isabella Pacheco Conselho Editorial Alice Sant’Anna | Gabriel Matos | Marilena Moraes DIAGRAMAÇão Mariana Castro Dias Revisão Gabriel Matos | Marilena Moraes Equipe Beatriz Pedras | Fernando Fernandes | Daniela Pinheiro webdesign Henrique Silveira

unindo as consoais e as vogantes

Edição dedicada às professoras Pina Coco e Violeta Quental Edição Janeiro de 2012 / Março de 2012 DISTRIBUÍDO no estado do Rio de Janeiro e nas cidades de Belo Horizonte, Vitória, Braxília, Salvador, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre. TIRAGEM 13.000 | IMPRESSO na ZM Notícias

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Inventário acabar de transar beber coca-cola dissimular rir abrir a janela contar as horas num relógio de aço deitar os pratos e deixar que anoiteçam sem lavar escrever no escuro um poema incorruptível pensar os santos como pássaros histéricos dizer: estranha, senta nesta mesa perdoa as mentiras o canário morto e outros requintes dessa paz corrosiva que nos persegue outro copo e não ouso penetrar no milagre que assombrou o pássaro a enumeração tremulando ninguém falou de amor Juliana Bernardo

Ingrid Bittar

A menina que usava brincos

Alquimia

Ela não vivia mais de brincos. Não, vivia. Mas não eram mais fixos. Agora eles eram retirados e postos de volta. Não tinham mais posto! Haviam perdido o privilégio do travesseiro. Do cheiro da cama. Dormiam deitados na mesinha, brilhando, brilhantes, à espera incansável da manhã. Do banho. Da roupa. E então retornavam ao local, agora, de passeio. Haviam de passear. Todos os dias. Até quando fossem trocados, acomodados no veludo macio e na escuridão sem previsão de término. Mesmo se por um período curto, substituídos por um modismo qualquer. Ou por anos. Para aí, quem sabe, só saírem para festas.

Vou transvivendo tua ausência em alquimia.

E talvez fossem muito mais felizes assim, observando dali de cima somente os sorrisos, mesmo que mentirosos, dos dias supostamente alegres.

Com as lâminas da poesia, atravesso o meu avesso feito verso E reinvento a saudade de ti, refém da tua fotografia. M. Nazaré Laroca

Isabella Pacheco

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Invulva por que a gente não trepa mais, amor? agora nos habituamos a fazer amor

Convite surreal Meu corpo leve resplandecia ao seu convite. Suas suaves mãos vinham a me tocar como um apelo a experimentar o que nunca me fora proposto. Não sentia a ligação entre a minha pele e o mundo dos sentidos, só uma brisa longínqua me trouxera a percepção da realidade de

(embora as tuas bolas resvalem no meu cu enquanto me come por cima)

seu corpo. Seus olhos quase orientais me hipnotizaram com suas variações de tonalidades a cada encontro de seus oblíquos cílios. O ambiente em que nós estávamos não me podia ser conferido, devido ao mistério que o único filete de luz incidia em sua oscilante visão. Meus desejos se amedrontavam diante de tão belas curvas e do anseio de permanecer exposto ao

ainda fazemos amor

escuro desconhecido, porém estimulante. Sua face sombria orientou-me a um beijo seco e embora minha boceta na tua boca adocique: como o teu pau na minha

ávido. Agora, a única certeza de sua evidente realidade me fora suprimida. Com o fechar de seus olhos, a garantia de meu prazer estava em sentir aquele beijo cândido e surreal. Suas mãos vieram a contrastar com a brisa que formava uma leve camada a envolver meu corpo. Era uma mistura irrecusável ao nível de envolvimento que sua persuasão adentrava em minhas

(área é igual à soma das nossas línguas)

vontades. Eu não sentia nada que comprovasse a minha real existência, e ao mesmo tempo tudo que fizesse da minha existência algo real, de uma perfeição idealizada. Daí, seus dedos começaram com carícias em meus pés e, sorrateiramente, minhas coxas já haviam se tornado

ainda fazemos amor

o grande descuido de minha alienação. Seus toques me propunham um ardor cada vez mais intenso à medida que se aproximavam de meu ponto mais íntimo. De repente, aquilo que

queria, mesmo, amor que teu gozo escorresse e pintasse um quadro dentro de mim.

era abrasador e envolvente acabara por ganhar um aspecto gélido e conturbador, insistente em me expulsar do mundo dos devaneios: — Acorda, meu bem! Já é meio-dia.

então entendo: sexo, mesmo com amor, é cada um por si.

Hugo Pascottini

Anelise Freitas

PÃES ANTEPASTOS MASSAS MOLHOS PIZZAS SALGADOS DOCES TORTAS www.ettore.com.br | @EttoreCucinaIT | www.facebook.com/ettorecucinaitaliana Av. Armando Lombardi, 800 - lojas C/D. Condado de Cascais, Barra da Tijuca - RJ Tel.: 2493-5611 / 2493-8939 Rua Conde Bernadotte 26 - loja 110. Leblon - RJ Tel.: 2512-2226 / 2540-0036

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cresce ainda a mangueira onipresente no centro do quintal dos meus avós no verão as mangas caíam madurinhas na nossa mão

Eterna

Ingrid Bittar

Não sei de onde vem, és tão antiga e, no entanto, tão contemporânea. Fitando o tempo e os homens. Só a vejo no horizonte sem fim, Vindo, vindo... balançando seus belos adornos brancos, enlourecidos no brilho do sol, és mágica. Se deixando pentear pelo velho e generoso vento terral fica mais bela aos meus olhos. És bela e de majestosa exuberância, sem o vento também. E quero ousar-te, pois o tempo em mim é limitado. Eu sei e não nego. Permita-me ser mais um a te contemplar, se deixando dominar por mim, bem suave. Desabrocha-me de vez nas tuas entranhas magistrais, mesmo sem saber o que vai acontecer. Me ouso, me abuso sem pudor no teu tubo sem fim, envolvendo-me, no possível fim sem fim, não acabe de vez, não entendo. Pois assim me entristece. Respiro fundo e tomo força, porque a verei de novo, mesmo com as mil e uma formas, serás bela assim mesmo. Continuarei fiel a ti, és de verdadeira vontade, sempre que meus olhos me permitirem vê-la, deixando cada vontade sendo alimentada no eterno mais. Oh, vontade sem fim! Perpétua vontade de tê-la! Não há igual! Seja serena comigo, seja onda! Leonardo dos Santos Dias

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o tédio destrinchado nos dentes até lambuzar-se a alma. João Lima

lullaby flor ausente mar em carne viva seu jeito anjo exterminador palavras somem pelos guardanapos janelas se desfolham como bandeiras olhos transbordam pelas pétalas dos teus pelos pratos e copos se quebram sem nenhum escândalo acompanho suas pegadas como se fossem cidades todas as manhãs jogo minhas asas mortas no mar Augusto de Guimaraens Cavalcanti

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Avenue de La Motte-Picquet Avenue de La Motte-Picquet caminhávamos, eu e você, numa noite de inverno de volta pra casa. Uma flor entre os arbustos, uma lembrança nomes e luzes mais quentes e novos: caminhávamos lindamente até Grenelle como nunca, como nuvens, como noivos. Deine Wärme, deine Hände, dein Tee deine flimmernden Augen, deine Nähe waren für mich dort sofort ein Zuhause. Nos sentamos no banco do ponto, pouco antes de estar tudo fechado e era bom, era simples e pronto mesmo que comida de supermercado. Avenue de La Motte-Picquet Nous marchions, tu et je, dans une nuit d’hiver de volta pra casa.

Bizarre love triangle Com delicadeza ela insistia meu amor Amanhã não tem futuro Mas se andassem muito apressados talvez tropeçassem Se andássemos trôpegos Ele queria um plano perfeito filmado por Tarkovsky. A terceira pessoa impõe disfarces. Ana B.

Rafael H. Silveira

Atenas Não falo francês, não xingo em alemão, não passei um fim de semana em Havana, não nasci com parentes no México, não tenho o tango, não tenho o flamenco, não sou uma estátua na Rússia, não comi uma romena, não passei o inverno na Virgínia, não tenho saudades de Varsóvia, não pernoitei em Dublin, não almocei em Kingston, não sofri um acidente no Paquistão, não peguei um ônibus na Arábia, não desenhei a China, não chovi nas ilhas Maldivas, não pisei no vulcão Vesúvio, não acendi uma vela em Mônaco, não tive uma crise de riso em Bogotá, não construí uma casa em Florença, não pintei uma tela em Veneza, não velejei na Baía de Aramã, não voei nos céus de Rabat, não conheço ninguém nascido na Hungria, não peguei um trem em Moçambique, não entrei num elevador em Barcelona, não discuti em Ruanda, não fumei um cigarro em Estocolmo, não hasteei uma bandeira no Monte Sinai, não peguei um resfriado em Montreal, não meditei em Nova Deli, não sei falar tibetano, não voei de balão em Melbourne, não roubei relíquias do Cairo, não sei o esporte favorito dos sul-coreanos, não tenho a menor ideia de que língua falam em Sumatra, não sei qual a cor do Mar Vermelho, não bebi água do Oceano Índico, não sei onde te perdi, mas te encontrei no Rio de Janeiro. Fernando Brum

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NOTAS NO PLÁSTICO

Em busca da Paz Nunca meus passos formaram estradas, ou pontes, ou labirintos. Formaram, porém, rugas na face da Terra. Formaram aquele amarelo de pus; e as estrias que a noite repudia por denegrirem sua vaidade. Nunca meus passos, no cimento, tiveram a maciez do trigo; no quarto, a hospitalidade do medo; na treva, a luz do firmamento.

por MAURO FERREIRA

Notas Musicais está de site novo. Confira em http://blognotasmusicais.blogspot.com

McCartney libera música de álbum romântico que traz Clapton e Wonder Paul McCartney lança álbum de canções românticas em 7 de fevereiro de 2012, via Hear Music / Concord Group. McCartney já liberou para audição a faixa “My valentine”, inédita da lavra do compositor. A melodiosa balada é pontuada pela guitarra acústica de Eric Clapton. Especula-se que “My valentine” daria título ao disco, mas, de acordo com comunicado oficial do site do Beatle, o artista ainda não batizou o álbum que gravou ao longo de 2011. Stevie Wonder participa do CD na faixa “Only our hearts”, outra canção inédita de McCartney, alocada entre vários standards selecionados pela memória afetiva do artista. Produzido por Tommy LiPuma, o álbum é o primeiro de McCartney em que ele somente canta, sem tocar sequer um instrumento. O disco foi gravado com a adesão da banda de Diana Krall — outra convidada do romântico CD de Paul.

Agora mais simples é o ato de caminhar. Perder, no chão, as incertezas, os rostos imóveis e as cores da tarde. Cada passo é um deserto maior que a guerra. Cada morte é um silêncio maior que a guerra. Cada guerra é menor. Danilo Diógenes

Engrenagem Organismo Calma a noite ainda é seda e as estrelas estardalhaço estampido dos seus olhos esmaltando a cidade deitada meu tecido trabalha a asma no tato duro da superfície do solo no vapor da madrugada na calada da seiva enveneno a vida vidro líquido no asfalto falta ainda a frigideira da fala

I

II

Negrume onde há, ou lume de onde ser mais luz se falta o ar, induz amanhecer bulícios. Vozes frias bulcões, vultos e ventos, presos em lócus vão.

Murmúrios lanceiam, fenecem silêncio Ruídos cortantes vazios animam

Para cada uma luta que treme seu intento e o trinca, com pálidos cravos lançados, donde inspira o Senhor, intenso olor, se esconde sob espesso areal seu escuso remir: Existir perenal

Calma fauna Pedro Rocha

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Crepúsculo Alvorar

De verbos e rimas dispõe o divino Na cruz carregada poeta errante fitando a mortalha, flores, cravoária, encontra perdida na ausência, a vida.

Naiara Barrozo

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POR DENTRO DO TOM

por Santuza Cambraia Naves

Caetano Veloso e o quereres do intérprete Autora Convidada: Laura Erber Drume pretinha Que eu te trago de toda Bahia Tudo que der pra trazer Com quase todo prazer (“Drume negrinha”) “Drume negrita” é um acalanto composto por Eliseo Grenet que percorreu o mundo na voz cativante de Ignácio Villa, o Bola de Nieve. Como tantas outras canções de ninar ou canções de mucuru, como diziam nossos índios, essa também encena a relação entre um adulto e uma criança que resiste ao sono. Grenet dá a entender que o bebê tem uma cama pequena demais, está com os pezinhos fora do berço, o adulto então lhe promete uma cama maior, com cortinas rendadas. Mas, se o bebê continuar a resistir, o regalo se transforma em ameaça: um babalao que da pau pau. Em 1982, Mercedes Sosa gravou a versão de Atahualpa Yupanqui para a mesma canção, dando ênfase ao caráter étnico (as raízes africanas do tema), principalmente pelo uso expressivo de tambores. A interpretação de Sosa, assim como a de Atahualpa, sugere uma leitura mais metafórica, o sono da negrita deixa de ser um sono individual e passa a simbolizar o sono de um povo, de um país inteiro, ou mesmo de um continente marcado por uma história de violência e privações. Já o compositor cubano Leo Brower, seguindo um caminho bem diferente, rearranja “Drume negrita” para violão. A versão traz a delicadeza das trilhas de filmes cubanos assinadas pelo Grupo de Experimentação Sonora do ICAIC. Entre Grenet e Brower, são incontáveis os intérpretes que embalaram a sua negrita insone. No Brasil, foi Caetano Veloso quem dela se apropriou, numa canção que leva o título “Drume negrinha” e que aparece no disco Qualquer coisa, de 1975. A versão de Caetano fascina não porque seja especialmente transgressora em relação ao original. Na verdade, Caetano se mantém bem próximo a Bola de Nieve; tão próximo que sentimos o seu sorriso largo e generoso pairando sobre a voz mansa e sinuosa de Caetano. “Drume negrinha” exibe a atração pelo delicioso “Canto do Bola de Nieve”, que dá título a uma música composta por Caetano em 1987, na qual mimetiza abertamente o cantarolar de Bola. A interpretação de Bola é mesmo apaixonante, sobretudo porque instaura uma ambiguidade na música de Grenet, dando a berceuse uma inflexão amorosa que extrapola o quadro da relação adulto-criança. Sua voz e toda a performance musical remetem à brincadeira de um casal que joga com as posições amorosas. Em “Minha mulher”, que abre o disco Joia, também de 1975, Caetano já cantava este jogo: “quem vê assim pensa que você é muito minha filha / mas na verdade você é bem mais minha mãe”. “Minha mulher” gira em torno dessa brincadeira num exercício amoroso de nominação (bichinho bonito, mãe, mulher), que faz o sentido deslizar, desfazendo a fixidez das formas líricas tradicionais. Assim, também, a negrita deixa de ser apenas o bebê chorando de noite num casebre frio de Havana: eu sou neguinha, a pretinha, c’est moi, é quase

possível ouvi-lo dizer… Caetano gosta de fazer deslizar as palavras entre diversos campos de sentido, e o fato de inserir “Drume negrinha” logo após “A tua presença, Morena” certamente contribui para uma leitura menos ortodoxa do acalanto. A inclusão de gírias bem características dos anos 1970 (descolar e transar, além de quase todo o prazer e um gosto d’ocê) sensualiza a letra e intensifica a ambiguidade presente na versão de Bola. A ambiguidade é trabalhada como um sex appeal que, além de seduzir, permite ao artista preservar uma importante margem de manobra: a contínua flutuação dos lugares de onde se fala e se goza. “Onde queres Leblon, sou Pernambuco”, a bruta flor do querer é espinhosa e oscilante porque, tanto em música como em poesia, os lugares de frustração e gozo são sempre posições de enunciação, modos de ser e de estar na linguagem. Um trecho do “Manifesto do movimento qualquer coisa”, escrito em 1977, é revelador do descontentamento de Caetano com posições criativas estabilizantes, disseminadas não apenas pelo mercado, mas também pelos discursos da democratização cultural, que, apesar de se imbuir das melhores intenções, tende a encerrar o artista no mapa, fechando o cerco e impedindo certos fluxos (os maus fluxos?) de contaminação criativa. Penso aqui em Ariano Suassuna e no ideal de pureza que guiou suas investidas contra o Mangue Beat no momento de renovação musical em Pernambuco. Contrariando a fixidez das posturas criativas que os discursos afirmativos da diversidade cultural sustentam, Caetano provoca e propõe um “jazz carioca feito por mineiros / samba paulista feito por baianos / baião mineiro feito por cariocas / rock baiano feito por paulistas”. A mesma questão retorna em “Haiti”: “para os americanos, branco é branco, preto é preto / (e a mulata não é a tal) / bicha é bicha, macho é macho / mulher é mulher e dinheiro é dinheiro / e assim ganham-se, barganham-se, perdem-se / concedem-se, conquistam-se direitos / enquanto aqui embaixo a indefinição é o regime / e dançamos com uma graça cujo segredo / nem mesmo eu sei”. O próprio Bola de Nieve é também exemplo dessa plasticidade camaleônica: cantava em várias línguas — português, italiano, catalão, francês —, arrastando esses idiomas para dentro do espanhol falado em Cuba, com sua articulação aberta, preguiçosa, terna e sacana. Quando canta “La vie en rose”, por exemplo, Bola se apropria do romantismo exacerbado de Piaf, aproveitando o estilo codificado do canto ao amor como possibilidade de escancarar uma sensualidade gay. É também nesse tipo de enlace entre diferentes lugares enunciativos que Caetano canta sua negrita, pretinha, negrinha, neguinha. “Drume negrinha” é um passeio lúbrico sobre o solo nada liso da interpretação musical. Caetano enlaça a sua voz na de Bola e, de certo modo, faz da interpretação um exercício de tradução. Tradução aqui no sentido que a poeta Ana Cristina Cesar propôs em “Pensamentos sublimes sobre o ato de traduzir” (jornal Alguma poesia, julho de 1985). Ela distingue dois gestos tradutórios, um preocupado com a tarefa pedagógica e com a formação do público-leitor, e outro que seria um delírio tradutório, distante da von-

tade edificante e da fidelidade matrimonial que baliza o primeiro gesto. Para Cesar, a segunta atitude é “um acesso de paixão que divide o tradutor entre a sua voz e a voz do outro, confunde as duas, e tudo começa num produto novo onde a paixão é visível”. Caetano nunca deixou de ser o menino que, de tanto adorar certa canção de Nelson Gonçalves, pediu aos pais que batizassem sua irmã de Maria Bethânia. Caetano intérprete é o profanador que exibe a paixão pela musicalidade alheia num metabolismo antropofágico sutilíssimo. Caetano incorpora o kitsch, a canção de amor brega, os subgêneros musicais, dejetos que o orgulho cultural denega. Essas idas e vindas se refletem também no modo como investe sua imagem pública e constrói uma posição muito singular de astro/artista da música brasileira. Essa estratégia foi analisada por Silviano Santiago no brilhante ensaio Caetano Veloso como superastro (1978), que merece ser relido. O que Caetano almeja com esse incessante faz-desfaz de si mesmo não é apenas a capitalização do impacto, a visibilidade midiática que o efeito-surpresa pode gerar; mas a possibilidade de abolir a lógica excludente do ou-ou, que estratifica a produção em nome da construção de uma identidade de circulação fácil e segura. Caetano afirma tanto o fulgor do apocalipse quanto a liberdade de poder se integrar, tascar da massa um naco de emoção. A manutenção dessa flutuação incessante entre a construção bem-arquitetada, o lirismo hard e a emoção pop ou a lágrima cafona é o que muitos artistas contemporâneos tentam fazer, mas quase nenhum com a mesma força camaleônica de Caetano. A grande maioria sucumbe, imobilizada, costurada na fantasia como a tal cabrocha de Chico. Caetano curte essa flutuação da subjetividade e sabe jogar com ela para criar uma massa de sentidos menos classificável. Se, por um lado, é evidente seu interesse pela sonoridade latino-americana — desde Soy loco por ti America (1968) até Fina estampa (1995) —, a força da sua produção, por outro lado, reside menos numa suposta afirmação do hibridismo cultural que na criação de um lugar instável, nem inteiramente Bahia, nem inteiramente Havana, um pouco lá e um pouco cá, os dois e nenhum. Talvez por isso em “Drume negrinha” ele faça questão de manter algumas palavras em espanhol, substituindo outras em que comparecem a Bahia, o axé, o carnaval e um araçá cor do céu de lá, que aí é menos a árvore do que uma referência ao seu disco de 1965. Essas palavras não são qualquer coisa, e Caetano sabe disso. Elas têm valor afetivo e se inscrevem no circuito de signos que marcam a sua biografia. Assim como Borges no conto El otro encena o encontro consigo em um parque que é ao mesmo tempo Oxford e Genebra, numa conversa entre o velho Borges cético e o jovem Borges idealista, Caetano cria uma canção que encena o encontro da sua voz com esse duplo, essa outra voz que a sua reflete e ecoa. O duplo não é nem a cópia nem o oposto simétrico do mesmo. “Drume negrinha” expõe a alegria de ser atravessado pela voz do outro, esse outro que é uma abertura, bem ali onde eu acreditava que meu contorno se fechava.

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NAU ARGOS No pé de página está escrito: minha gravidez amanhece junto ao sol. Não sou poema. Sou plenamente letras ávidas — alguma retina me permanece. O luar não pisca. Imagino o tempo: corre léguas antes. Futuro é tudo que não sei... No corpo do livro é o que não está escrito. Os olhos margeiam — sílabas, fonemas, sussurros — pradarias extensas de nenhum verso. Meus nadas esclarecem silêncio: por isso escrevo... Depois vem a chuva. Ah! Alívio de saciar sede. Um oceano em cada gota. Ventania: vendaval de ser eu mesma... Minha natureza essa, sopro boquiaberto. Barqueio leme pra onde vou. Perguntas não pensadas, respostas nunca vistas. Nem terra firme ou cais. Ar rarefeito imaginado. Existências quando. Pormenores extras. Coragem: desnudar marés. Flávia Muniz

Ingrid Bittar

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Tetê Terraço era uma mulher, vivia no alto do direito, [beijo] no sol quente do meio-dia, [mão na mão] da lua ardente. contra melancolia, vendia colheres de chá, de folhas, que ela secava, que ela mesma moía. que dela mesma saía.

Antônimo Esqueça tudo o que você aprendeu na ex-cola — diferença nem sempre subtrai a soma dos algarismos individualistas². De repente aquela menina baixinha [óculos grande timidez que nunca foi a bola preta dos olhos ou o prato principal dos animais sexualmente transmissíveis] pode ser a resposta certa de todos os seus erros.

“Malaquias 3:10”, Escrevia da bíblia, em catálogos de revistas. contava com deus para o que queria. Ficou careca cedo. [coisas do cerebelo] Desesperada, em seu maior medo, de viver sem os cabelos [bebeu urina em segredo]

Anima & Ânimo De mãos dadas eles sonham com um mesmo sinônimo transformando dialética em adjetivo romântico. Juntospodemser a regra que toda exceção gostaria de ser.

não adiantou reza nem urina nem bíblia nem mijo. o bulbo, the Tetê Terraço desconhecia endereço

Sinônimo guardo no bolso provas concretas do que ando fazendo por aí tenho escrito coisas incríveis sobre perdas mas nem por isso atendo por Gentileza.

a coroa pelada no alto da cabeça luzia na cara dela, toda vez que se via, careca sofria, bandida é a vida de levar o único chumaço de mulher que ela tinha.

Breno Coelho e Bráulio Coelho

se eternizou, rainha, sozinha, pelada de solidão, que nem poeira leve, pulou do terraço no dia de cosme e damião

Mariana Dias

Érica Magni

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DESAFIO POÉTICO Nesta edição comemorativa, de número 30, convidamos nossos participativos leitores a escrever poemas que tivessem exatamente 30 palavras. O resultado segue abaixo, sem mais nem menos! (Ainda faltam

Aos Trinta

O nosso amor já foi tão lindo!

Não ser mais somente a promessa, E nem ser apenas saudade.

Lembre-se que nós gozamos Muitas e muitas vezes De forma colorida

A infância findou há duas décadas.

Eu gemendo: — Vem meu Azul, Porque eu te quero!

O espelho diz uns fios brancos...

E você gritando: — Vai minha Rosa, Porque eu te amo!

Sem tempo para envelhecer, envelheço.

Felizpe Inferreira

Henrique Fagundes Carvalho

4 palavras…)

Escada

Da expansão das favelas

Amores Possíveis

Na matemática da palavra, conto até sete. Número da Sorte. Progressão sem corte. Quatorze. Um trissílabo forte. Na escada de letras, degrau é consoante. Trinta: O tempo é um instante.

Cada vez que o morro desaba Se dilacera. Mas o morro não morre Ressurge na passarela.

Eles nos despertam E nos lançam Bem perto do fogo Tudo se consome Levantamos da cama E eles já não existem: O fogo apagou! Amores possíveis... Os queremos pra quê?

Rodrigo Cabral

Quando ele desaba É como se, se replantasse Revolvendo a terra Como milagre, quimera... Sil Eli San

Meio dia Sua pele quente me queimou. A lua por onde escorrega fácil, no meio, o dia. Minha pele de gota em gota, teu suor e nesse dia fez chuva de verão. Mayara Almeida

Camila da Vinci

Para a próxima edição, aproveitaremos um tema recorrente em nosso jornal: os mitos que povoam o imaginário dos homens desde os tempos mais primórdios. Se precisarem de inspiração, basta dar uma olhada na coluna “Oráculo”, em que nossos colaboradores Miriam Sutter e Antonio Mattoso trazem, a cada edição, os temas da antiguidade em leituras atualizadas. Vale versar sobre qualquer mitologia. Estamos aguardando o seu nada que é tudo!

Envie seus poemas para desafio@jornalplasticobolha.com.br

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ORÁCULO

por Miriam Sutter

UM SOLDADO, UM MONGE, UM ENIGMA Corria o ano de 107 a. C. Fazia dez anos que Roma estava em guerra contra Jugurta, rei da Numídia, e o Senado entregou a Caio Mário a missão de decidir de vez a questão. O exército do cônsul estava acampado no sul da Itália, à espera do embarque para a África. A tensão entre os homens era grande, principalmente entre os proletários alistados. Para estes cidadãos sem terra, o alistamento no exército era muito mais um meio de melhoria de vida que de devoção à pátria: almejavam o seu lote de terra quando chegassem a veteranos. Dentre estes soldados, um estava sobremodo aflito. Afinal, esta seria sua última participação ativa como legionário: estava prestes a completar sessenta anos e, como veterano, teria finalmente o seu merecido lote de terra. Acossado pela excitação e angústia de ver-se obrigado a enfrentar mais uma vez o limiar do inferno e impulsionado pelo medo de não mais retornar, nosso soldado decidiu consultar Apolo. Quem sabe este deus pudesse intervir a seu favor junto ao feroz Marte. Com a deferência, talvez o deus da guerra lhe poupasse a vida mais uma vez. Sorriu à vaga ideia de uma vida civil. Os acampamentos até então tinham sido sua casa, e seus companheiros de caserna, sua família.

Dirigiu-se, pois, a Cumas. Ali chegado, feitas as abluções, nosso amigo finalmente viu-se em face da impressionante Sibila. Fez-lhe a pergunta que não queria calar, mas... Pobre homem! Não ouviu nem um sim, nem um não. Ao invés de uma resposta unívoca, a Sibila lhe proferiu um enigma. Ei-lo:

IBIS REDIBIS NON MORIERIS IN BELLO! IRÁS VOLTARÁS NÃO MORRERÁS NA GUERRA!

Sabemos que as cortes de Mário, apesar de êxitos impressionantes, não conquistaram a vitória definitiva. A traição derrotou Jugurta, condenado à morte em 104 a. C. Mas ninguém, nem poeta, nem historiador, nem cronista, nos informa se nosso anônimo soldado interpretou corretamente o enigmático oráculo! Apenas sabemos que foi proferido. Quem nos assegura isto é Alberico della Tre Fontane, monge e cronista medieval francês, que o usou como exemplo para comentar o caráter ambíguo dos oráculos proferidos por pitonisas ou sibilas na Antiguidade. E você, caro leitor: em que posição colocará suas vírgulas ao interpretar este ORACULUM?

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Parafernália

Somos em nós

Zumbido de serra, martelo, explosão Eu invasor Adentrando como um pirata tua saia de camurça, tuas pernas de camurça Você olhos fechados Antecipando meu tato com um gemido Contorce Sincronia de movimentos & Sincretismo de monotonias A trama decapitada coincide com o texto que não li, portanto respondo, de bate-pronto, em silêncio: (_________________) Teu cheiro — que não tem nada com isso — se adianta e dá adeus Que maldade tua sorte de corsa (Que azar perder esse teu tom de rosa) Já não chove, teu cabelo é curto e o Chico está mudo Quero te zunir de mim Deslizar prum copo e acordar somente na Copa do Mundo Hoje levantei mais disposto & atento & comunicativo — desesperei-me, pensei até estar saudável Olhei o caco de espelho e reconheci aquela velha opacidade no olhar Era tristeza.

Poliglotas em nosso dialeto Mudos ao resto do mundo. Somos em nós a própria contradição.

Matheus Pinheiro

Somos em notas a contradança. Somos o samba de pernas mortas. Somos a valsa. Eternos em nossos caminhos Miúdos nos outros do mundo. Somos em nós a própria contradição. Somos em metros a contramão. Somos o chão duro do deserto. Somos a manhã. Somos os nós do poema. Puros em nós Munidos contra o mundo Espero que sejamos sempre enfim A própria contradição. Sejamos então Pacientes como os grãos Que florescem um pouco por dia E intensos como o instante antes do choro... O choro de alegria

Freeway

Eduardo Pascottini

pensamentos transitam puro caos dia afora não há parada obrigatória sinal de qualquer espécie busco uma curva um olhar palavra tábua de salvação não existem túneis telefones nenhum chamado se completa outdoors vazios anunciam um futuro próximo equidistante de todas as coisas que juntas fazem os dias as horas a vida seguir procurando alguma via de acesso ao coração Vania Osorio

www.leonardodavinci.com.br Av. Rio Branco, 185 – Subsolo – Ed. Marquês do Herval Centro – Rio de Janeiro/RJ Tel.: (21) 2533-2237

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DOBRADINHAS

CLIQUE AQUI

por ALICE sANT’ANNA & Chacal PEDRAS PORTUGUESAS

english breakfast

pedras pedros pedradas pedros pedras perdidas as pedras por onde pisas estão felizes da vida

é curioso, o chá escurece os dentes mas por outro lado a água não os clareia, ela

revistaumconto.wordpress.com

segura a haste da caneca como se daquilo dependesse a vida as flores pintadas na caneca

felizes porque circulas entre elas encantada enquanto eu aqui fico nesse tilintar sem fim

toma chá pelando mesmo no verão, pela janela não chega o cheiro de sal nem as quinas das pedras portuguesas

no meu descalçado jardim queria que aqui viesses passear dentro de mim

Alice Sant’Anna

e depois de tremoço e cerveja rolarmos nus indolentes pelas pedras portuguesas

A revista de literatura UM CONTO, feita pelos alunos de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), foi criada para difundir os textos que vêm sendo produzidos dentro e fora do meio acadêmico. Livre de amarras ou pretensões, a publicação concisa e de textos ágeis tem por objetivo principal ir em busca dos leitores. Quem ainda não teve a oportunidade de trocar seu R$1,00 por uma UM CONTO pode dar uma espiadinha no que está rolando no blog do projeto.

paulacajaty.com O site da escritora, poeta e advogada Paula Cajaty apresenta, de modo dinâmico, resenhas e notícias literárias, além de divulgar eventos e os últimos lançamentos editoriais. Os seus textos correm por várias frentes da rede literária, como em Criticaliteraria.com, OLivreiro.com, Rebra.org, por publicações como Revistas Aliás, MundoMundano e Jornal Rascunho, assim como pelas redes sociais e blogs coletivos do Brasil e do exterior. São, por fim, enviados para uma mala-direta com cerca de 5 mil nomes. O site é o lugar certo e de qualidade para a divulgação de novos autores.

mundomundano.com.br

Chacal

A MundoMundano é uma revista multimídia digital que, além de unir texto, áudio e vídeo, aceita a colaboração dos leitores. Seu irreverente conteúdo trata dos diversos aspectos do mundo de hoje. Debate os mais diversos temas, expostos em forma de crônicas, poesias e críticas. Há dicas de bons livros e autores, entrevistas especiais e oportunas. O principal objetivo, portanto, é difundir a cultura oferecendo um ponto de encontro para grupos interessados em conversar.

filterfoundry.com/bittaris Ingrid Bittar é a mais nova ilustradora do Plástico Bolha. Com traços finos e delicados, ela monta uma rede de intricados detalhes, onde faixas e feixes vêm montar as mais diferentes imagens, sempre utilizando toda a potência do preto e do branco. A artista foi descoberta quando o jornal lançou um desafio aberto aos alunos de Desenho Industrial da PUC-Rio, convidando-os para ilustrar a capa da Edição Especial Tiradentes. Ingrid, aluna do 6º período, ficou em primeiro lugar no concurso e teve sua ilustração estampada na capa. A partir daí, ganhou as páginas internas das edições convencionais, deixando o Plástico Bolha muito mais charmoso. Mais do seu trabalho pode ser conferido no link acima.

Raïssa Degoes

Vale o clique!

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ENTREVISTA

por Lucas Viriato

Divulgação

A poexia de Nicolas Behr

Nicolas Behr nasceu em Cuiabá, em 1958. Aos 10 anos, mudou-se para a capital, onde vive até hoje. Em 1977 lançou em mimeógrafo Iogurte com farinha, seu primeiro livrinho que vendeu 8.000 exemplares de mão em mão. Em 1978 foi preso e processado pelo DOPS por “porte de material pornográfico”; no ano seguinte foi julgado e absolvido. Até 1980 publicou ainda 10 livrinhos mimeografados. Em 1982 ajudou a fundar o MOVE (Movimento Ecológico de Brasília). Em 2008 seu livro Laranja-seleta: poesia escolhida, publicado pela Língua Geral, foi finalista do Prêmio Portugal Telecom de Literatura. Nesta entrevista ao Plástico Bolha, o fundador de Braxília conversa sobre sua trajetória e sobre poesia.  Como começou a escrever poesia? Em Brasília, 1975-1976, aos 16-17 anos. Já lia poesia, éramos bem engajados politicamente, líamos Fernando Pessoa, Maiakovski, Brecht, Oswald de Andrade, Drummond, João Cabral. Assinava a revista Escrita, em que tinha uma entrevista com o pessoal da Nuvem cigana, e falava do mimeógrafo, de vender livro na rua, de bar em bar. E, assim, em agosto de 1977, imprimi 200 exemplares do Iogurte com farinha: leia antes que azede, que foi meu best-seller, com uns 8.000 vendidos de mão em mão. Uma curiosidade: no ginásio, quando eu via algo escrito errado no meu livro de português, eu questionava a professora, e ela dizia: “ah, isso pode, sim. É licença poética”. Isso ficou no meu inconsciente. E acho que foi fundamental para me levar à poesia. “Cante a sua aldeia e serás universal”. Essa frase de Tolstói é citada por você em seu DVD Braxília. Como definiria a relação entre o poeta e a cidade, ligação presente no seu trabalho? Brasília é minha aldeia. E digo: Brasília precisa de mim. Esta cidade é muito estigmatizada por ser o centro do poder. E, no imaginário nacional, Brasília é uma cidade corrupta, corrompida, onde só tem pilantra e sanguessuga. Sim, tem. Mas tem também gente honesta e trabalhadora, a maioria. Brasília é minha obsessão poética. Os poetas querem resgatar a utopia. A Brasília original, orgulho do povo brasileiro. Brasília foi a maior realização coletiva do povo brasileiro, não me canso de repetir. Brasília um dia vai deixar de ser capital, como um dia foram Salvador e Rio de Janeiro. E a cidade passará a se chamar Braxília, com x mesmo. Já existe na

cidade um movimento nativista, incomodado com a ideia da cidade-poder, cidade-capital, cidade dos políticos. Existe uma Brasília subterrânea, roqueira, criativa, poética. É Braxília. E se escreveu pouco sobre a cidade, por isso tudo que se escreve é a primeira vez. Um privilégio para poucos, nascer com uma cidade. E escrever sobre ela. Tento fugir do rótulo o poeta de Brasília e estou escrevendo agora sobre minha infância — A lenda do menino Lambari — e rabiscando uns poemas eróticos — Meio seio. Você diz no filme que a ideia de Braxília surgiu de um erro de digitação. O poeta é aquele que faz do erro o seu Eldorado? É o click, é aquele momento mágico em que um erro pode virar um grande achado. E poeta pensa meio que ao contrário, pensa nas várias possibilidades da palavra, do som, do sentido. Poeta vive experimentando, tentando vencer as barreiras, sair da prisão poética que ele mesmo cria. Romper com seu estilo, essa limitação. No fundo, somos todos reféns de nós mesmos. Você teve um poema musicado pelo grupo Legião Urbana. Como foram seus contatos com Renato Russo? Foi uma grande honra ter uma letra minha num disco da Legião Urbana, com a música “Travessia do eixão”, do Nonato Veras, um músico de Brasília. Conheci Renato Russo e todos os dias lamento que ele tenha se matado. Sim, tinha pressa em virar mito. E virou. Mas pagou com a vida. Vale a pena? Dar seu bem mais precioso, sua vida, em troca da eterna lembrança? Eu não era propriamente da turma, mas via os punks em vários locais, onde eu também vendia livrinhos. E em Brasília aconteceu um fenômeno curioso: o movimento punk começou de dentro pra fora, do centro pra periferia. Os primeiros punks de Brasília eram filhos de professores da UnB que foram fazer mestrado na Inglaterra. E os filhos voltavam com discos e ideias na cabeça. Foi assim. Você foi preso e acusado pela ditadura por escrever e publicar material pornográfico. Como foi ser considerado um poeta subversivo? A polícia política da ditadura, o famigerado DOPS, queria me enquadrar na Lei de Segurança Nacional, mas não conseguiu. Pensavam que na minha casa tinha uma gráfica, com mimeógrafo e tudo o mais, que imprimia tudo que era folheto mimeografado na cidade, principalmente os do movimento estudantil. Como eu usava o mimeógrafo de colégios à noite, não tinha mimeógrafo em casa, que foi a primeira coisa que os agentes do DOPS perguntaram. Fui preso, paguei fiança e fui julgado no ano seguinte, e absolvido. O mesmo delegado do DOPS que me prendeu também prendeu Honestino Guimarães, ilustre desaparecido político de Brasília. Ele disse: “se fosse uns 5, 7 anos atrás, a gente sumia com você”. Por isso eu digo, não há glamour nenhum em viver sob

uma ditatura, essa nossa tendência e mania de valorizar sempre o passado — “nos anos 1970 é que era bom”. Era nada, era péssimo. Não havia garantia nenhuma de que você voltaria vivo pra casa. Qual foi a sua relação com a Geração Mimeógrafo? De que modo você acha que esses movimentos tem ocorrido hoje em dia, com a internet? Os livrinhos mimeografados circularam, e muitos despareceram, fisicamente. Pois o papel era ruim, os livros eram toscos e ninguém fazia a menor ideia de que um dia esses livrinhos se transformariam em raridades. Houve muita troca de livrinhos pelos correios. Na verdade, o mimeógrafo era o blog dos dias de hoje. Mas só que blog você deleta; livrinho, não. Hoje tem a internet, esse meio revolucionário de comunicação. Mas a internet é apenas um novo meio, ainda não criou uma linguagem própria e nem sei se vai criar. O meu ditado é: vale o que está escrito. Não adianta colocar o poema piscando com várias cores no blog, pois se não comunicar, se não tiver invenção, nao há pisca-pisca que dê jeito. Você diz que faz poesia de jovem para jovem. Qual o segredo para manter-se jovem na poesia? Eu vou fazer 54 anos. “Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?” diz o verso do Drummond no poema Os ombros suportam o mundo. Tenho filhos adolescentes e um entrando na idade adulta. Gosto e procuro o contato com a juventude, vou sempre a saraus, escolas e universidades. Participo de debates. Isso me reenergiza. Novamente, Drummond: “a razão está sempre com a mocidade”. Você diz que o livro é uma parte sua, já que você o escreve, imprime e distribui. O poeta pode descobrir mecanismos não contemplados pelo mercado editorial tradicional? Eu, particularmente, e isso é bem pessoal, tenho e faço questão de ter uma relação bem orgânica com o objeto livro, tanto que agora aprendi a diagramá-lo, através do InDesign. Gosto das possibilidades de contato que o livro me dá. O grande problema é mesmo a distribuição. Mesmo poeta com editora sofre esse problema. Fazer o livro chegar ao leitor, esse é o desafio. E com poesia isso é ainda mais difícil. O gênero mais praticado, a poesia, é o gênero menos lido, acredito. A poesia carrega a pecha de hermética, difícil, e o poeta traz ainda o mito romântico do louco, irresponsável, louco e doente. Quais são as maiores influências na sua poesia? Mario Quintana dizia: confluências, e não influências. A gente sempre lê os poetas que se parecem com a gente. Aí vai uma lista: Chacal, Leminski, Francisco Alvim, Cacaso... Todos poetas da minha geração.

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SAMSKARAS: A sublime arte de apertar botões ou Coisas a dizer às pessoas no ponto de ônibus Moça, é uma história de amor, né? Sempre é. E você está assim por causa do amor... Não, estou assim por causa da história. Amanhã eu me apaixonarei por você irremediavelmente assim que acabar de ler meu livro. Há vinte anos eu tinha uma bicicleta rosa e o Cazuza morreu. 2010: uma odisseia no descompasso. NUNCA MAIS CHOVEU DEPOIS DE VOCÊ. Sumi para ver se você aparecia essa foi a coisa mais perniciosa que eu já disse a alguém PARA SEMPRE talvez tenha sido pior e meu deus do céu você acreditou, né? Confesso que por um momento o prazer inebriante de proferir essas palavras me embriagou a tal ponto que eu também acreditei, acredita? Amanhã já é Natal penso que realmente poderíamos nos ver com mais frequência já que moramos NO MESMO PLANETA. Mas olha, não precisa ficar franzindo a sobrancelha desse jeito senão eu acabo perdendo o rumo o sono e pior o ônibus e você acaba uma hora ou outra ficando vesgo mesmo, aqui não se esqueça (NUNCA) de guardar (PARA MIM) o biscoito da SORTE dá um beijinho na sua mãe e pede para ela continuar rezando, tá? Para eu ter um futuro BEM BONITO. Não, é claro que eu não queria ter dado o cachorro mas ele não tinha mais tempo para ficar cuidando de mim do mesmo jeito que você não ama loucamente porque a sua mente não é louca mas isso foi há sete anos e eu tinha vinte anos PARÁGRAFO Mas você tem certeza que você não quer ter filhos? Hoje não estou muito cansada podemos comprar pipocas e assistir às pessoas passando na rua? Mas hoje é domingo está chovendo e nessa rua NUNCA PASSA NINGUÉM. Então deixa pra próxima VIDA quem sabe o tempo para algumas vezes sabia? Dá uma espécie de ânsia (ou angústia) de rodoviária ainda bem que você nunca coube na minha mochila essa foi a única coisa que pensei quando aquele bandido me avisou de forma quase educada: Moça, eu não quero te machucar agora me entrega TUDO O QUE VOCÊ TEM please há vinte anos eu tinha um aquário e o Cazuza e todos os meus peixes MORRERAM. Quando eu crescer quero ter uma grama para deixar TODO O MUNDO PISAR NELA. Por que será que eu não consigo ouvir a sua voz em NENHUMA dessas fotos? Deve haver alguma coisa muito mas muito errada comigo mesmo. Tá, não precisa dizer nada tô usando aquele perfume que você gosta aquele que te faz lembrar alguma coisa que não tem ou simplesmente você não sabe o nome WHATEVER FLOATS YOUR BOAT eu vou deitar aqui e fazer de conta que tudo isso não é de faz de conta A MELHOR FORMA DE ESQUECER É LEMBRAR isso eu vi num filme do Jim Carrey aquele sobre lagos congelados e garotas de cabelos coloridos? e não importa o que aconteça: Amanhã eu vou esquecer você irremediavelmente assim que acabarem as cervejas. É claro que eu bebo também para ter IDEIAS BRILHANTES mas nada que me tire o mérito de ser uma alcoólatra tá vendo já estou chegando no(S) ponto(S) como sempre sem vírgulas: O número... ligou e não deixou NENHUM RECADO Camila Silveira

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Jornal Plástico Bolha #30  

Jornal literário independente aberto à publicação de poesia e prosa de autores contemporâneos.

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