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plástico bolha Distribuição Gratuita

Ano 3 - Número 23 - Agosto/Setembro de 2008

envolvendo palavras

E eis que, vejam vocês, já estamos no número 23. Enfim, o Plástico Bolha começa a entrar na juventude. as características dessa época mostram-se, interior e exteriormente, em todas as páginas do jornal. ao longo desse tempo, ele conheceu autores, cidades e mundos imaginários. Teve já algumas religiões, alguns amigos e até alguns amores (para mais detalhes, vejam o nosso Desafio poético). muito aconteceu nesse período e muito promete o futuro. Diversas idéias surgiram, cresceram e explodiram, como bolhas envolvendo as palavras de cada um dos números do jornal. na juventude, diz o escritor polonês Joseph Conrad, não se tem nada e não se ganha nada, exceto fortes pancadas e, de vez em quando, uma chance de sentir a própria força. Esperamos que sim...

Por Muhammad ibn ishaq Se a mãe largou o marido para trás se Dario atacou todas as regiões da terra se o discípulo se recusa a atender o telefone se barbitúricos se flautistas se o excesso de trabalho Desculpem. São os índios que usam o vento como baquetas são os anjos que fabricam os isqueiros são os peixes que carregam no lombo a espinha. Carlos Andreas

NESTA EDIÇÃO riCArdo doMENECK / MAriA do CArMo dE oLiVEirA ANtoNio MAttoSo / MAUro FErrEirA / SÉrGio BArCELLoS HEiNZ LANGEr / SANtUZA CAMBrAiA NAVES / LEoNArdo ViEirA roSÁLiA MiLSZtAJN / CoNStANZA dE CÓrdoVA / dANiEL PirAS NAtHALiA CALMoN / rAQUEL NAVEirA / roNALdo ZENHA FELiPE CArVALHo doS SANtoS / NiCoLE o’HArA / LUiZ CoELHo KiKo FErrEirA / JoHNNAtAN NASCiMENto / FrEdEriCo LAtrÃo BrUNA PiANtiNo / tÂNiA diNiZ / MAUro rEBELLo / CAroLiNA MAriA dE JESUS / HEitor VELASCo / MANUELLE roSA / LUCAS NiCoLAto SiLViA BAGriCHEVSKY / FABrÍCio CAStELLo BrANCo / oS AZUiS ÉriCA rAMMiNGEr / LASANA LUKAtA / LEANdro JArdiM CArLoS ANdrEAS / rAFAEL ViANA / FErNANdA GAZoLA ANA LUiZA LEMoS / PAULo HENriQUE MottA

OLÍMPICO!

Heinz Lan

ger


BOLHETIM Vitória!

Entreato

Em época de Olimpíadas não se pensa em outra coisa: Vitória, Vitória, Vitória! Então, numa guinada polissêmica, aproveitamos para iniciar a distribuição na capital do Espírito Santo. A partir de agora, os leitores capixabas podem também entrar no mundo das Bolhas e enviar seus textos para uma futura sessão dedicada aos leitores do estado. O jornal está disponível em mais de vinte pontos da capital Vitória, de Vila Velha e arredores. Livrarias, sebos, bancas de jornal, locadoras de vídeo, teatros e faculdades aceitaram firmar uma parceria conosco, tornando-se pontos oficiais de distribuição do Plástico Bolha, o jornal literário independente que vai terminar o ano com uma medalha de ouro.

Esbranquiçada, invadindo a persiana, arrastava-se a luz pelos corredores, e tudo era só bagunça. Cama, gavetas, armários, pensamentos. Cinzeiros cheios, copos vazios, sapatos e papéis, espalhados todos pelo apartamento, disputando o parco espaço com o corpo recém-consciente na cama, pois era também, de alguma forma, manhã. Como todo o resto, bagunçava-se o tempo: duas e vinte e cinco com cara de nove e meia. Precisava comprar cigarros, quem sabe tomar um café. Abre o armário, escava um jeans, agarra uma camiseta, procura os chinelos, chave, sai. A rua por demais clara, também muito movimentada para um domingo, que diabos, com licença, minha senhora. Sair incomodava, era melhor não gastar exposição. A padaria barulhenta e quente, um expresso e um Marlboro, por favor, e decide também comprar um jornal, três reais, que absurdo, bom dia, digo, boa tarde. A cafeína ajudava a despertar, a rua pelo menos parecia mais opaca, e a mente já arriscando estabelecer uma tosca organização. Uma vez desperto, inicia-se a caminhada de volta, duzentos metros da padaria ao prédio, pouco, não fosse o maldito sinal que não abre nunca, o carrinho de bebê atravancando a passagem, e a preguiça agora pressa. Em casa, de volta, maldita chave que não abre, correspondência, conta, carta, não, não estou interessado em descontos para chamadas internacionais. Escorrega pelo braço da poltrona e fuma, olha em volta. Põe um samba triste pra tocar, junta a bagunça num montinho e arrasta-a prum canto, até poder circular e alcançar o telefone. A combinação numérica tão bem conhecida flui rápida entre os dedos e os botões, está chamando. A voz atende muda, respira um alô. Ele poderia conversar por horas, passaria dias falando de si, risada casual, voz segura, masculina. Mas só responde um ‘sou eu’, seguido de um suspiro dela, como vai, bem, e você, vou bem também. Mais silêncio, mais suspiro, olha, não é uma boa hora, te ligo depois, ok? Desliga. O depois viria doze horas depois, quando, aflita, ela ligaria e diria que aceitava voltar e ficar só com ele mesmo trancada e solta naquele apartamento e naquele cheiro dele de pele, fumaça e perfume, até que a organização das paredes e portas e coisas reais crescessem, ganhassem vida e os cuspissem para a rua, onde o mundo era muito mais claro e cheio e barulhento e dolorido e frio. Até lá, apenas os cigarros acesos um no outro, e os dentes contra os lábios sem dó, e as muitas doses de café ao som de Elis. Até lá, ele não limparia os cinzeiros, tampouco fecharia as gavetas ou faria a cama. Até lá, antes dela, armários, livros, copos, pensamentos, vida: era tudo uma bagunça.

Alguns dos pontos de distribuição no Espírito Santo Livraria Reler Livraria e Papelaria Guanabara Sebo República das Letras Sebo Livraria e Café Praça Sebo Florestan Fernandes Alfabeto Livraria e Lanchonete Escola de Teatro e Dança Teatro Carlos Gomes Instituto Social Casa Verde Faculdade Saberes Centro de Ensino Superior de Vitória – CESV Papelaria e Livraria King of Kings Opus Papelaria e Livraria Papelaria e Livraria Doce Saber Livraria Celino Banca do Paulo Bella Vídeo Locadora Bauhaus Educação Cultura e Arte

EDITORES

Comissão Avaliadora

Lucas Viriato Paulo Gravina

Constanza de Córdova Carlos Andreas Tomé Lavigne Nadja Voss Mauro Rebello Letícia Simões Dimitri Merino Isabel Wilker Edson Santana

Editora Assistente Marilena Moraes

Conselho Editorial Luiz Coelho Gregório Duvivier Isabel Diegues

Constanza de Córdova

Manoela Ferrari Cristiane Mendes Roberta Rubinstein Rosimery Trindade Nathanna Alves

Revisão

Agradecimentos

Marilena Moraes Rubiane Valério Rafael Anselmé Gabriel Matos

Coordenação

Equipe

Gisela Gold Leonardo Marona Lasana Lukata Andrea C. Stark Léo Carnevale

Thiago Bento Lucas Viriato

Márcia Brito Beatriz Pedras

Edição dedicada à memória de Albert Laborde DISTRIBUÍDO no estado do Rio de Janeiro e na cidade de Belo Horizonte e Vitória / TIRAGEM 10.000 / IMPRESSO na CUT Graf ENVIE SEUS TEXTOS PARA JORNALPLASTICOBOLHA@GMAIL.COM

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Tradução indireta de um chinês de 2046 O amor não acaba. O amor fica. A paixão, não. Vai atrás do que se dê em outros corpos. Outros cheiros. Outras cumplicidades em outros registros. O amor permanece perdido entre parênteses. É ele que fica aprisionado. Você não entende, talvez. Sim. Acho que não. Você não entende que o amor entre parênteses poderia até se apagar com o tempo, mas que não é fácil, assim. Você não entende que ele ainda está ali — perdido, esperando ser achado. Ali perdido, mas sabido. Eu não esqueci. Sei que deixei por aí. E não foi por negligência. Displicência. Foi porque a paixão correu. Se esvaiu. A paixão tem medo. Vai embora quando começa a se comprometer muito. A minha paixão. Além do mais, ela fez muita besteira. Além do mais, ela aceitou de você muita coisa que não devia e depois se rebelou.

O amor tem toda uma história contada. Que esta nunca será totalmente apagada.

Só porque eu deixei ele falar. Coisa que a paixão não deixa.

Sim, pode ser que as cores se esmaeçam, mas... ele é pra sempre. De fato, as cores se esmaecem; mas, pelo menos em tom pastel, o amor é eterno.

Eu descobri e tenho tanta coisa pra te contar.

O eterno retrato de uma construção. A gente construiu. Tantas linhas pra dizer só isso. O meu amor ainda está em cores vivas. A paixão deu uma volta. Mas você também abusou dela. Nós. Nós abusamos. Nós três: eu, você, nós dois. E às vezes é preciso que a paixão se retire para que se possa perceber com alguma serenidade quais eram os abusos que se estava cometendo — a ela e ao amor. Ela não sabe falar. Veja só que incrível: eu descobri os segredos do amor.

Não sei se você ainda quer saber. Se ainda te interessam esses segredos. Talvez você não entenda. Sim. Acho que você não entende. Comigo foi assim. Ou pelo menos foi assim que eu percebi o que me aconteceu. Não sei que etiquetas você gruda nos potes de que sentimentos. Eu grudei assim. Agora tenho um amor em cores vivas e uma paixão perdida. Eu grudei assim. Talvez tenha feito errado. Mas era o que eu podia. Era o que eu sabia. Agora eu entendi. Queria ao menos te explicar os segredos que eu descobri. Nathalia Calmon

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PUZZLES

por SÉRgIO BaRCEllOS

As armadilhas reais e ficcionais de Carlos Sussekind É certo que, no Rio de Janeiro da década de 50, havia uma família composta de pai e mãe, um filho e uma filha. O pai, corregedor de menores no Tribunal de Justiça, escrevia religiosamente duas vezes ao dia, em seu diário. Ao longo dos anos, mais de trinta mil páginas foram escritas. O conteúdo dos diários refere-se ao dia-a-dia da família, ao contexto político do país, aos problemas no trabalho, às doenças, etc. Especificamente em relação ao cotidiano da família, o diário do pai conseguiu a proeza de relatar uma vida absolutamente sem sobressaltos. Nas trinta mil páginas escritas, inscreveram-se os membros da família — em um retrato interno e externo de seus cotidianos. “Textualizados”, passaram a ter existência confi rmada somente após serem inseridos no texto do diário. Os cadernos contendo a história da família sob a forma de diário íntimo estiveram sempre ao alcance das mãos dos inscritos e possíveis leitores ideais. Já foi dito que a natureza sigilosa da escrita diarística propicia a confidência. Segredos inconfessáveis e diálogos impossíveis de realizar no plano real encontram abrigo e concretização nas páginas de diários íntimos. Escritos de forma a dialogarem com o eu que escreve, os diários não previam a possibilidade de serem lidos. Bem, isto seria uma maneira convencional de abordar a escrita diarística. No entanto, nem sempre a regra é aplicada ao pé das Letras. Carlos Sussekind de Mendonça, jurista, pai do escritor e tradutor Carlos Sussekind, escreveu as trinta mil páginas do diário real. O filho leu e se fascinou com a sua existência e com a existência narrativizada de sua família. O fascínio transformou-se em obsessão e, logo, existência real e existência textualizada passaram a se confundir. Em um momento de sua vida de adolescente, ainda sob os cuidados dos pais, Carlos Sussekind surta e é enviado para um sanatório, para cumprir um período de reabilitação e busca de equilíbrio. Em outro momento, Carlos Sussekind publica seu segundo romance, Armadilha para Lamartine, no qual reescreve, ficcionalizando, sua experiência no sanatório e seu envolvimento obsessivo com o diário do pai. Em entrevistas, admite ter-se apropriado de textos do diário do pai para a elaboração do romance. Tanto que a autoria do romance é atribuída ao filho e ao pai (este já falecido à época da publicação): Carlos & Carlos Sussekind. Em Armadilha para Lamartine, há dois tipos de narrativa. A primeira, o “Diário da

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Varandola-Gabinete”, diário de Espártaco M., pai de Lamartine; a segunda, “Duas mensagens do pavilhão dos tranqüilos”, escritas por Lamartine “fazendo-se passar por um outro doente (Ricardinho)” (Sussekind, 1998: 7), também interno do Sanatório Três Cruzes, para onde Lamartine é enviado após ter um surto psicótico. As duas seções do romance são introduzidas por um texto curto, objetivo e explicativo que as apresenta nessa mesma ordem. O texto não leva uma assinatura, podendo, assim, ser considerado um paratexto introdutório do texto ficcional. Ao virar a página, o leitor se depara com o primeiro índice da não confiabilidade do organizador do material narrativo: a ordem das partes é invertida sem nenhum aviso. A natureza de relato surrealista de “Duas mensagens do pavilhão dos tranqüilos” expõe de forma não muito sutil a realidade das instituições mentais; suas práticas de cura que se assemelham às práticas de tortura que, na época da publicação do romance, serviam para “curar” desvios ideológicos. O período retratado no texto do “Diário da Varandola-Gabinete” compreende os meses que precederam o surto psicótico de Lamartine, sua internação e, finalmente, sua volta a casa. Curiosamente, tanto no texto introdutório quanto em “Duas mensagens do pavilhão dos tranqüilos” há uma menção ao fato de que o conteúdo do diário de Espártaco M. seja relatado por Lamartine, aos outros internos do sanatório. Através de uma suposta leitura telepática, Lamartine é capaz de narrar aos colegas de confinamento um relato de uma vida “sã”, do lado de fora da instituição mental.

escolhas de estratégias narrativas também diferem do romance anterior. Em Que pensam vocês que ele fez, as vozes narrativas se multiplicam e, apontando para uma polifonia (ou seria uma cacofonia?) pós-moderna, denunciam a natureza fragmentária tanto do status ontológico dos personagens quanto da estrutura narrativa em si mesma. O diário de Espártaco M. está presente sob a forma de um escrito apócrifo, no qual tudo o que era supostamente omitido passa a ser assunto preferencial. A normalidade da vida em família, as insignificâncias do enredo do “Diário da Varandola-Gabinete” surgem aqui como um caixa dois, um livro que relata as obsessões, as perversões e a infidelidade de Espártaco M. Assim como em Armadilha para Lamartine, a voz extradiegética contida no texto introdutório está presente. A princípio, de forma anônima, através de um aviso ao leitor. Ao logo da narrativa, essa voz se personifica na figura do professor Guaraná, que é o responsável pela leitura e edição do romance e também autor do texto da orelha. Como o professor mesmo explica, ele, de personagem passa a colaborador do processo de escrita do romance. A ausência de voz daquilo que se convencionou chamar de autor implícito provoca o desejo de localizar, na obra de Carlos Sussekind, uma instância que se interpõe entre o que seria o autor implícito e os seus narradores estabelecidos. Apesar de ter voz, esta funciona somente como um organizador, um controlador das outras vozes narrativas. A figura do narrador tem sido constantemente — de forma acidental ou proposital — confundida com a pessoa do escritor. A condição ontológica de um e a natureza abstrata do outro sugerem que o motivo da confusão não está necessariamente na compreensão lógica de que “alguém escreveu o texto que está sendo lido”, mas nas marcas culturais e estilísticas contidas no texto e sua projeção involuntária ao nome constante na capa, ao qual é atribuída a autoria.

Com exceção do texto introdutório, as narrativas das duas seções do romance são efetuadas por um narrador em primeira pessoa. A aparente organização do material narrativo esconde um jogo de cisões entre aquilo que é revelado e aquilo que é omitido. As perspectivas narrativas são dissimuladas, o que configura a sugestão de uma armadilha, como consta no título do romance, As fronteiras que separam o mundo real do tanto para o leitor quanto para os personagens mundo narrado têm sido, cada vez mais, transposenvolvidos com os relatos do mundo narrado. tas e enfraquecidas. Uma evidência disso é, sem Em 1994, Carlos Sussekind publica seu ter- dúvida, o cruzamento entre ficção e realidade, enceiro romance Que pensam vocês que ele fez, tre texto literário e texto memorialístico existente no qual retoma sua obsessão pelos diários do nos dois romances de Carlos Sussekind. pai e recupera os personagens de Armadilha Carlos Sussekind é autor também de Ombros Alpara Lamartine. O tempo retratado no terceiro tos (Edição do autor, 1960 e 7 Letras, 2003) e O romance, em vez de continuar uma ordem cro- autor mente muito, em parceria com Francisco nológica, retrocede à infância de Lamartine. As Daudt da Veiga (Dantes Editora, 2001).


MULHERES-DAMAS por nICOlE O’haRa ingrid Por seis longos anos Viver esperando Num inferno amazônico — a carne minguando Aos olhos do mundo. Homens imundos! Certamente não foi o que se pensara Com aquele nosso pôster do amigo Che Guevara.

Proteu

(SOBRE)VIVÊNCIAS por FElIpE CaRvalhO DOS SanTOS 000 Uma historinha antiga, contada pelos antepassados africanos do ancião branco, me ensina como cada qual possui um caminho e deve conduzir sua vida conforme sua cabeça, seus limites e possibilidades. Segundo a história, existiam, num tempo fora do tempo, um cego e um coxo. A casa do coxo pegava fogo; o cego, evidentemente, não enxergava, e o coxo, por certo, tinha dificuldade de andar. Os dois se uniram: um se pôs em movimento guiado pela sua sensibilidade despertada, o ouro aguçou a visão; assim, apagaram o fogo. Cada qual aceitando o que não podia fazer e, ao mesmo tempo, potencializando seu lado ágil. Hoje, sei que essa história está presente em outras culturas do extremo oriente, depois que conheci uma outra figura, Nyima Gurum Lajrar. Uma comunidade nasce daí, uma comunicação épica, em que se atam certos laços.

O mar e o teu corpo têm esta onda que dá em mim e os dois têm sal e brisa suave, e uns fósseis de seres que habitaram antes e estas coisas pequenas que eu não sei o nome O mar e o teu corpo são calmos, só se agitam nas tempestades quando me afogam e os dois têm a areia quente ao redor, e me dão vontade de cerveja gelada à sombra de qualquer um O mar e o teu corpo são tão iguais que sei que não podem existir a não ser na música distante que soa através da concha de onde nunca saí Lucas Nicolato

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BOLHAS GERAES Esta edição especial dedica uma página inteira aos mineiros, que recebem o jornal há mais de um ano e vêm respondendo com uma participação maciça. A seguir, entre inéditos e reincidentes, seis poetas das “Geraes”.

por FERnanDa gazOla Um Pouquinho Buda O caminho da dor O caminho da alegria O caminho do meio. O caminho da miséria O caminho da fartura O caminho do meio. O caminho do errado O caminho do certo O caminho do meio. O caminho das trevas O caminho da luz O caminho do meio. O caminho do outro O caminho do eu O caminho do meio. Um pouquinho Buda. Transcendente, Às portas do Nirvana! Essencialmente... Sem rodeio.

por KIKO FERREIRa Céu

Cantora Lírica

então, é assim: palato no infinito, finito no céu da boca,

Na face oculta da lua escuto os refúgios tardios dos anjos que, na busca desesperada de se fazerem existir, perturbam o sono sagrado dos Deuses do Olimpo.

sua boca com gosto de lua, estrela marcando caminho, sol alpino entre gotas de chocolate, seu creme entre minhas mãos, minhas cismas, minhas lembranças.

por BRuna pIanTInO razão Traços protistas Feição apolínea Incitam sutil propriedade Da eterna transitoriedade Quão inimiga pode ser A perfeição sem porquê Nem por onde transfigurar-se Em quantas e por quanto?

por JOhnnaTan naSCImEnTO A Arte A solidão faz a barba crescer coloca um livro do Drummond nas mãos Faz trocar o pijama ao meio-dia E quase mata os cachorros de fome A própria solidão é só: Quer nossa companhia.

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por ROnalDO zEnha

Na fase secreta da lua mergulho nos falsetes sustenidos do Soprano, obesa e deprimida, que, numa obscenidade etílica, lança farpas de luz no breu da breve estrela que submerge na face oculta da lua. cansei.

por TÂnIa DInIz Borboleta Um beijo pelo corpo inteiro ligeiro deixou uma borboleta roxa modida na coxa


CONTOS INSÓLITOS

por lEOnaRDO vIEIRa

de Carla. E a menina de dentes verdes encostou as bochechas nas mãos cruzadas de Carla e começou a Quando soube do enterro de Carla, começava a desen- guinchar pequenininho. rolar a estampa com o desenho de mulher, que guardo O que seus olhos viam por trás das pálpebras? Carla desde a infância. Vieram com a notícia: “Carla morreu, fora a mais justa de todas as mulheres, para nós, o enterro é agora etc.” Não terminei de desenrolar a homens silenciosos, homens retos, cordatos, cordiais, estampa, com a gravura sem olhos parada numa janela. de corações encaixados num copo, nos nossos peitos Usava um vestido de noiva e riria de mim. construídos desde que nascemos por um fazedor de Pensei que Carla não estivesse sozinha, isso me gaiolas, ela, Carla, a mais gentil das mulheres, nos consolou um pouco. Ela devia dormir sobre grande recebera sempre em seu quarto com as pálpebras cama de casal, as mãos cruzadas sobre o vestido de fechadas, mas as mãos abertas como o vôo prestes renda. O rosto já esverdeava, e, do lado de fora da da pomba, sim, agora na noite que castrava a todos casa em que vivera — postados diante da janela —, como uma orquídea, só então é que deveriam ter uns homens tão comuns quanto eu, tão iguais na dor, aberto suas pálpebras. Ela nos recebia em seu quarto, estariam olhando para Carla dormindo, descansando ela me recebeu, a menina para quem contávamos que como mulher justa. Esses homens souberam, como eu, em seu peito soava uma máquina de bóreas, para nos descansar muitas vezes ao lado de Carla, e, naquela refrescar. Deveriam ser totalmente brancos, seus olhos, hora, esperavam descansar uma vez mais ao seu lado, iguais aos da freira que andou um tempo por aqui, caminhando com a bengala, as órbitas brancas que homens pálidos como círios, luz forte a protegê-la. me seguiam quando eu ia dormir. E ela sentava num Já era noite. Enrolei novamente a gravura da mulher banco em frente à minha casa e ficava me vendo de sua sem olhos; guardei-a embaixo do colchão. Depois me silenciosa brancura. Alisava a bengala e urinava. levantei, olhei uma vez mais o espelho e não me vi. No espelho cabia o quarto todo, só não vi a cadeira Carla possuía uma bengala e ninguém podia acreditar em que costumava sentar todas as noites quando não que ela vivesse como vivia, que se vestia de vermelho e que suas mãos eram da cor do regato quando é estação conseguia dormir. de lírios. Ela sabia doar alegria aos homens cansados, Na rua, mulheres ofereciam os corpos aos clientes, homens de chapéus e ternos negros. Ela andava como símios providos de focinhos descarnados e gotejando. se o chão não a tocasse, e ajudavam-na a atravessar Eram baixos e de pernas roliças como pescoços de a rua. Sorriam tristes para ela; havia o menino que gansos engordados. Depois seriam castrados e servi- pensava quando crescer casar com Carla. Mas era dos. Uma velha gorda, que andava sobre uma perna ainda um menino muito novinho para saber que não é de osso de baleia, me excitou muito. Então pensei que bom casar com uma cega. Ainda mais se soubesse das ela poderia ter me oferecido sua órbita vazia, com coisas que fazia Carla, de como ela se vestia e como doçura. Minhas pernas apressaram-se quentes e fugi era “boa” para os homens. Para todos, Carla era o logo dali. “anjo no céu”, era para ser cuidada, com seu pequeno cabelo louro e seus olhos que viviam da noite. Que enorme chaminé cortava o céu! A coluna de tijolos exalava dos fornos subterrâneos a fumaça azulada. Tiraram seu corpo da cama, colocaram no caixão Nuvens se encharcavam de hulha. Havia no alpendre e tamparam-no. Só cabia a nós, quatro homens da casa uma latada de loendros. postados, cada uma das alças. Não havia peso ali, era como se segurássemos o vento, as mulheres nos O cheiro das flores me atraiu para as três figuras posacompanharam e sabíamos que, por trás das janelas tadas na janela, três homens de terno e chapéus. Eles dos prédios, lojas e casas, todos dormiam, ninguém esmagavam com os pés os loendros. Ao me aproxigostaria de espionar a noite, todos os cegos do lugar mar, as três formas se abriram, acolheram-me numa eram enterrados sozinhos, como numa reunião muda expectativa macia e quente, como a branca umidade entre leprosos, sentindo o peso de suas línguas dentro de um lençol. de frascos de vidro banhados por tochas.

A incerteza da noite

Todas rodeavam Carla, as mulheres com espartilhos vermelhos, bocas rasgadas na carne empoada, algumas fumando cigarrilhas. Uma jovem cujos ossos despontavam da pele leve como plástico, de dentes verdes e olhos verdes, estava sentada na borda da cama de casal e apoiava a mãos sobre as mãos cruzadas de Carla. Eu e os homens já havíamos nos divertido com todas aquelas figuras de bricabraque; nossos corpos é que exalavam o perfume dos loendros, e não elas, ainda menos Carla, pois nessa noite elas eram os lírios, e toda a noite regurgitava um som de animais lúbricos, porque fora daquele quarto a noite se retesava. Éramos nós, eu e os homens, que vínhamos perturbar o sono

Quatro homens de cera acendiam a sagração da noite. E no cimo do lugar, um pouco afastado do cemitério, cavamos um buraco, colocamos Carla dentro dele, como se guarda uma estampa que não queremos ver, e cada um de nós, homens e mulheres, a cobriu com um pouco de terra. A menina de dentes verdes apoiava o ombro no peito de uma mulher gorda, com uma espécie de bigode. Depois todas desceram em fi la o morro, dava para ver os espartilhos vermelhos andando sozinhos, sem substância.

Havíamos trazido o jogo de cartas. Sentamos em torno de Carla, acendemos nossos cigarros, começamos a jogar. Da chaminé da fábrica mais um gole de fumaça azul ajoelhou-se na noite.

BURCA Há uma mulher por dentro da burca, Estranha veste que envolve o corpo Como um capuz, Um casulo, Um enorme grão. A mulher por dentro da burca Espia o mundo Por uma janela quadriculada, Vê sem ser vista, Boca calada. A mulher por dentro da burca Busca a estrada, A repisada trilha dos camelos Rumo ao oásis, Mas seu caminho se bifurca Entre o amor e a morte. A mulher por dentro da burca É vulcão, Em suas mãos, Em sua nuca, Escorre lava quente; Gota de fogo é o seu coração. A mulher por dentro da burca Tem algo de verme, De serpente, De pássaro, É feita de neblina A sua face triste. Por dentro da burca O medo sufoca, A mulher segue a procissão Com passos lentos, Não permaneceria imóvel Assistindo à procissão passar. Por dentro da burca A opressão enforca, A mulher, De costas viradas ao sol, Enxerga sua sombra. Por dentro da burca A louca caminha pela praia, A maré alta apagará suas pegadas. A burca azulada como o céu Torna a mulher Invisível. Raquel Naveira

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POR DENTRO DO TOM

por SanTuza CamBRaIa navES

Entrando na conversa sobre o fim da canção (3) A partir deste número, a coluna abre espaço para pessoas que, como artistas ou críticos, atuam na cena amusical contemporânea e se dispõem a discutir o “fi m da canção”. O convidado deste mês é Ricardo Domeneck, poeta, tradutor, ensaísta e DJ. Paulista de Bebedouro, Ricardo, hoje com 31 anos, está radicado em Berlim, onde, entre outras coisas, atua como editor do fanzine HILDA e como DJ da festa Berlin Hilton. Publicou dois livros de poesia — Carta aos anfíbios (Rio de Janeiro, Editora Bem-Te-Vi, 2005) e A cadela sem Logos (São Paulo, Cosac Naify, 2007) — e dois ensaios considerados importantes sobre poesia brasileira contemporânea — “Ideologia da percepção ou Algumas considerações sobre a poesia contemporânea no Brasil” (em Inimigo Rumor — Revista de Poesia 18, segundo semestre de 2005 e primeiro semestre de 2006) e Dos figurinos possíveis em um cenário em construção (publicado pela Berinjela como encarte da revista Modo de usar & co., novembro de 2007).

significado, para a geração imediatamente anterior à nossa, também a morte daquela prática artística. Não foi como morte da arte tal qual a conheceram, que os homens e as mulheres do início do século XX viram o surgimento do Modernismo? No entanto, se tal transformação significou, sim, a morte da arte como a conheceram, significou também o nascimento da arte como passamos a conhecê-la, usando tal estrutura conceitual para passarmos a julgar mesmo a arte que foi concebida fora e antes dela. É comum que artistas mais velhos vejam as transformações engendradas por artistas mais jovens como morte das práticas como as conheceram. Unido ao hábito de leitura linear e irreversível, chegamos ao labor funerário dos fi ns da história, da lírica, da canção. Quando um poeta-compositor como Chico Buarque declara ver no surgimento do rap o fim da canção, flagramos essa tendência a que me referi no início deste texto. Esta morte é totalmente fictícia, creio. No início da década de 1990, com o fortalecimento da cena musical que gerou o tecno, o trance, o drum ’n’ bass, a house music, Passemos então a palavra para Ricardo Domeneck: numa clave eminentemente instrumental, falou-se também do fi m da canção. Nada impediu, porém, o fim dos fins da canção que poetas-compositores continuassem surgindo, como Chan Marshall e Jeff Buckley, assim como a própria união das novas estruturas musicais ao gênero da canção, levando ao surgimento daquilo que foi, em minha opinião, a grande contribuição Mostra-se muitas vezes difícil evitar certa tendência, da década de 1990: o trip hop, com grupos como no momento de transição constante em que vivemos, Portishead e Massive Attack, e artistas como Björk de geração em geração, de tomarmos a estrutura e Tricky, que seguiram compondo a canção (que mutante e fluida de uma manifestação artística e teve sua primeira estrutura entre os trovadores metentar dotá-la do caráter de essência imutável e re- dievais), mas obviamente não como a conheceram corrente, iludindo-nos na crença de que a maneira até aquele momento. como praticamos uma arte foi a maneira como a humanidade a praticou desde os primórdios dos Mesmo hoje, presenciamos o surgimento de muitos tempos, esquecendo-nos que nossa práxis também poetas-compositores, songwriters, como se diz gerou mudanças em estruturas passadas e pode ter em inglês, seguindo as estruturas criadas por Bob

por RICaRDO DOmEnECK

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Dylan ou Leonard Cohen, como Adam Green (bastante conservador, em minha opinião) ou os geniais Conor Oberst e Sufjan Stevens, levando muitos a falarem na Europa de um renascimento da canção, da prática da songwriting. Se, no Brasil, podemos realmente ver no samba da década de 1920 e 1930 a estruturação da canção como foi conhecida por décadas, sua reformulação pela Bossa Nova e a reestruturação pelo Tropicalismo, não vejo o que poderia justificar o velório da canção nos dias de hoje. A década de 1990 presenciou o surgimento de herdeiros da Tropicália, como Chico Science, Otto e Fred Zero4, mas nos últimos anos pudemos ver no trabalho de Marcelo Camelo um sinal da sobrevivência da canção como foi praticada por Chico Buarque e outros. Concordo com Santuza Cambraia Naves em sua formulação de que a Tropicália teria sido o golpe fi nal contra a autonomia da canção como gênero específico textual e musical, ajudando-nos a entrar no que tenho chamado de poética multimedieval, um retorno à saúde pluralista do medievo da canção e do poema como escrita, música e performance. Essa autonomia dos gêneros foi algo que marcou o Modernismo, e vejo em sua morte (não a da canção, mas da taxonomia engessada de gêneros estanques) uma das coisas mais saudáveis do pós-guerra. Se a Tropicália contribuiu para isso, a Lira Paulistana e o Mangue Beat consolidaram esta nova estrutura. O que não impede que, a qualquer momento, um artista jovem faça uma estrutura conceitual antiga ressurgir com força. Parece-me muito mais interessante, de qualquer forma, discutir não o fi m como morte da canção, mas o fi m como objetivo. A propósito, este texto foi escrito ao som do cancioneiro de Sufjan Stevens.


NOTAS NO PLÁSTICO por mauRO FERREIRa rappa faz ‘Súplica Cearense’ no Cd ‘Sete Vezes’ Música do repertório do cantor e compositor baiano Gordurinha (1922 - 1969), composta por ele em parceria com Nelinho como um pedido ao céu para amenizar a seca que periodicamente assola o sertão nordestino, Súplica Cearense é a única regravação entre as 14 faixas do sétimo álbum do grupo carioca O Rappa, Sete Vezes, nas lojas a partir de 15 de agosto, pela Warner Music. Lançada por Gordurinha em 1960 e usualmente regravada por cantores nordestinos como Elba Ramalho e Fagner, a toada figura entre 13 músicas inéditas compostas pela banda com parceiros com Marcos Lobato e Vinicius Falcão. Uma das inéditas é a música que dá título ao CD, produzido pelo próprio Rappa — com Ricardo Vidal e Tom Sabóia. A faixa Monstro Invisível já chegou às rádios.

Bio de Lyra dá visão (superficial) sobre a bossa Carlos Lyra tem autoridade para (re)contar a História e as várias histórias da Bossa Nova. Afinal, compôs numerosos clássicos do gênero e freqüentou todos os cantinhos em que floresceu a velha bossa na segunda metade dos anos 50. Contudo, no livro Eu & a Bossa, Lyra optou por dar mergulho raso no mar de histórias que revolveram as tradições da música brasileira. Em narrativa superficial e episódica, o livro — mais do que oferecer uma visão da Bossa Nova — passa em revista a vida e obra do autor, em texto escrito na primeira pessoa. Há mais fotos do que fatos. Lyra relata alguns causos, revela uma ou outra particularidade de seus principais parceiros (Ronaldo Bôscoli, Vinicius de Moraes, Geraldo Vandré, Gianfrancesco Guarnieri) e historia brevemente sua trajetória no mercado fonográfico. Pela fartura de fotos raras (o maior mérito do livro) e pela estrutura cronológica da narrativa, Eu & a Bossa se parece mais com um almanaque do que com uma biografia substancial, coerente com o currículo do autor. Os dois CDs que vem encartados no livro — anunciado como CDBook — reúnem 48 gravações da obra de Lyra e fornecem o bem-vindo complemento auditivo para compreender uma trajetória importante, contada sem a menor bossa pelo autor.

FUTUROS ESTOUROS

por mauRO REBEllO

oS AZUiS Não há como não reparar nos Azuis quando eles passam; os jeans, os óculos escuros e os cabelos algo despenteados, nos remetem às bandas de rock dos anos 60 e 70, revelando o movimento circular estético do rock com o passar dos anos. “A nossa imagem tem a ver com as nossas influências e com o som que a gente faz”, explica o guitarrista Tomé Lavigne. “Se você gosta de rock e de se divertir, tem que vir ao nosso show”.

se a animadíssima versão da clássica “Twist Twist and shout”, ”, dos Beatles, e “Não adianta negar”, primeiro single do grupo carioca — o videoclipe de “Não adianta negar”, disponível há pouco mais de um mês no youtube, já teve mais de cinco mil acessos e, desde 24 de julho, faz parte da programação da MTV Brasil.

Os Azuis ensaiam todos os dias desde a sua formação; acreditam que o sucesso está no trabalho Os rapazes, que foram influenciados pelos Beatles diário e na perseverança. “Sabemos que ainda e os Rolling Stones, acreditam que sempre haverá não somos famosos e que temos de correr atrás”, público para o rock feito com qualidade; os qua- enfatiza o baterista Lucas Mamed; “trabalhamos tro se declaram amantes do rock clássico e dizem pra chegar ao topo”, garante Greco. fazer um som universal, sem se desprender de suas O lançamento do disco dos Azuis, que terá raízes. o mesmo nome da banda, está previsto para Formada em 2006, a banda já tocou em algumas das agosto e acontecerá de forma independente. Eles casas de rock mais freqüentadas do Rio de Janeiro pretendem fazer uma ampla divulgação na intere de São Paulo, como o Empório, em Ipanema, a net, disponibilizando o download gratuito das Tribe House, em Pinheiros, participando também canções no myspace. Eu, que me diverti muito de festivais de bandas independentes nas duas no bate-papo, espero ansioso pelo disco e as cidades. próximas apresentações dos rapazes, que podem ser conferidas no myspace da banda: “Nosso show é para dançar”, resume o vocalista e guitarrista Greco Blue. No repertório da banda, www.myspace.com/osazuis composto de canções próprias e covers, destacamDivulgação

Para ler mais notas musicais acesse http://blogdomauroferreira.blogspot.com

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QUARTO DE DESPEJO por CaROlIna maRIa DE JESuS 16 de junho. ... O José Carlos está melhor. Dei-lhe uma lavagem de alho e uma chá de ortelã. Eu zombei do remédio da mulher, mas fui obrigada a dar-lhe porque atualmente a gente se arranja como pode. Devido ao custo de vida, temos que voltar ao primitivismo. Lavar nas tintas, cozinhar com lenha. ... Eu escrevia peças e apresentava aos diretores de circos. Êles respondia-me: — É pena você ser preta. Esquecendo-se êles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rustico. Eu até acho o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de preto onde põe, fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça êle já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que existe reincarnações, eu quero voltar sempre preta. ... Um dia, um branco disse-me: — Se os pretos tivessem chegado ao mundo depois dos brancos, aí os brancos podiam protestar com razão. Mas, nem o branco nem o preto conhece a sua origem. O branco é que diz que é superior. Mas que superioridade apresenta o branco? Se o negro bebe pinga, o branco bebe. A efermidade que atinge o preto, atinge o branco. Se o branco sente fome, o negro também. A natureza não seleciona ninguém.

Trechos do diário da moradora da favela do Canindé, São Paulo, catadora de lixo e mãe de três filhos.

Metamorfose Acontece que às vezes me encontro diferente. Como se dormisse em mim e acordasse em outro alguém. Encontro uma peça estranha, que não estava na embalagem mas que devo encaixar em algum lugar. E não tem manual de instruções, não! E todo o mundo pensa que sou eu, porque está em mim, mas eu sei que não sou, não. Sei que JAMAIS faria isso e começo a achar que talvez tenha sido abduzida, não sei... E começo a pensar numa forma de tirar o intruso de mim, de dar um fi m... Mas chega uma hora que não tem mais jeito, o parasita já se instalou aqui dentro e, quando percebo, já ando, falo, sorrio, escrevo de outro jeito. Diferente, sabe? Diferente da época da escola, dizem os amigos. Diferente de quando era criança, diz mamãe. Diferente de como eu conheci, diz ele. Mas ainda sou eu, juro! Ainda sinto-me eu. São apenas reparações internas, não me leve a mal. Só retirei alguns parafusos excedentes e coloquei o triplo no lugar. Mas ainda sou eu, de uma época diferente, com uma outra idade... Não me reconhece? Não fomos apresentados? Ah, sim, desculpe-me! Prazer, sou a multiplicidade. — Perdoe-me se eu me apresentar novamente, a cada cinco minutos?

Manuelle Rosa

Sobre a morte CONSULTORIA DE NEGÓCIOS E MARKETING ESPORTIVO AGENCIAMENTO DE CARREIRAS DE ATLETAS EVENTOS CORPORATIVOS CAPTAÇÃO E GESTÃO DE PATROCÍNIOS Av. Luis Carlos Prestes, nº 180 / 3º andar – Barra Trade V Barra da Tijuca – Rio de Janeiro / RJ. CEP: 22.775-055. Tel.55 21 2112 – 4909 / Fax. 55 21 2112 – 4601 / www.kpaz.net

Eu vi a morte, mas não ousei dirigir-lhe a palavra. Ela me olhou com aquele olhar de desdém. Eu lhe respondi com um sorriso encabulado, e o meu olhar vazio fez com que ela se interessasse por mim. Os lábios não desgrudaram, quando quis falar. Nada lhe podia dizer enquanto se aproximava. Petrificado, preso ao chão, fechei os olhos. Tarefa muito árdua era encará-la. Foi quando uma brisa soprou e por ela ouvi a voz da morte. Não era um som de voz humana, mas a ouvi claramente. Apenas abri os olhos para lhe agradecer, cara a cara, o recado. Ela não estava mais ali, e com ela foi-se o medo.

Banca da PUC Tel.: 2512-7109

Àquele dia ela se foi, e nunca mais voltei a vê-la. Nunca senti saudades, pois aquela voz ainda não saiu da minha cabeça. Ainda escuto seus conselhos. Cedo ou tarde, é certo que nos encontraremos novamente. Talvez para uma conversa fi nal. Heitor Velasco

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DESAFIO POÉTICO Atendendo ao chamado da última edição, nossos leitores apaixonados aproveitaram para mostrar seus poemas de amor. Para a próxima edição, convidamos os leitores para um desafio Poético bem traiçoeiro: escrever um poema inteiro,

Se você for o meu amor

Amando-se

Se você for o meu amor Nem tudo está perdido Farei trilhas em minhas rimas Te lamberei os dedos

Agonia de um despertar. Na penumbra das noites solitárias e mal dormidas, desespero, pesadelo turbulento. Sua chama, úmida e desejosa, ardendo e gemendo. Solitária, então, se dá a si própria, ansiosa, em busca de prazer, se acaricia, se toca, se esfrega. Suas mãos agitadas nas entranhas, seu fluxo de vida mais caudaloso, os pensamentos vai matando, a mente, aquietando, o corpo e a alma vivos, pulsando uma energia visceral na alegria de mais um vendaval.

Primavera serei linda A jorrar rosas e rosas sobre ti Se você for o meu amor Também ficarei exausta Te mandarei embora Como fazem os vendavais Outonal ficarás nu, árvore sêmen-esquecida A desfolhar folhas da minha memória

aparecer sequer uma vez

Se você for o meu amor Quando eu chegar No outro dia de manhã Me receberás florindo

a letra A. Então, aproveite

Eu sorrindo vou entrando no teu quarto devagar

com tema e forma livres, sem

seus bês, cês, e até zês, e envie seu poema para jorn*lpl*sticobolh*@gm*il.com

Silvia Bagrichevsky

Rosália Milsztajn

6 bilhões de Pessoas No Mundo Seis bilhões de pessoas no mundo, Seis bilhões de problemas, Que se dobram em um segundo... Seis bilhões de ritmos e cores Seis bilhões de absurdos E amores... Seis bilhões de pessoas no mundo, Seis bilhões de almas, Presas neste nó. E às vezes, Tudo que você precisa, Tudo que você quer, É uma só... Erica Ramminger

Versos diversos Se um dia tu quisesses Deste amor que só faz bem... Quanto brilho tens nos olhos! Fez nascer amor a quem? Um a um foi se partindo Um a um amor e preces... Vozes lindas te daria Se um dia tu quisesses. Quando passas mal me vê Quando passo vejo a ti Mas um dia há de passar E sorrir só para mim De amor não chorarias Ai que ânsia e vontade! De te ter sempre sorrindo Nos meus braços de verdade.

Versos Patéticos

Paulo Henrique Motta

Querida, aceite meus versos patéticos que não possuem uma forma definida muito menos um conteúdo palpável pois amar você tanto assim me faz ser patético assim como o próprio amor já é. Frederico Latrão

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ORÁCULO

por anTOnIO maTTOSO

NoS BrAÇoS dE CALiPSo Maré (2008), o mais novo cd de Adriana Calcanhotto, integra, segundo a compositora, uma trilogia dedicada ao mar, inaugurada com Maritmo (1998). Maré e Maritmo guardam uma simetria não só pelas duas canções que intitulam ambos os cds, mas por duas composições de Caymmi, o nosso Nereu, aquele que conhece tudo de mar e de música: “Sargaço Mar” (1975) e Quem vem pra beira do mar (1954). À exceção de quatro canções, todas as outras fazem referências implícitas ou explícitas ao mar. Na deliciosa canção Porto Alegre (Nos Braços de Calipso), Péricles Cavalcante brinca com duas aventuras de Odisseu: as Sereias e Calipso, desconstruindo o relato homérico. As Sereias, filhas do rio Aquelôo e de Melpômene, uma das nove Musas, ou Estérope, são seres híbridos, i.e., quer mulheres-pássaro, quer mulherespeixe, devido à punição de Deméter, por elas não terem feito nada para evitar o rapto de sua filha Core ou à punição de Afrodite, segundo uma variante, por elas se recusarem aos prazeres do amor. A iconografia dos vasos gregos em relação a Odisseu faz referência à primeira tradição. Antes de deixar a ilha de Eéia, Circe alertara Odisseu sobre as Sereias que “seduzem com seu canto melodioso ligyrêi thlégousin aoidôi” (Od., XII, 44) os homens para depois matá-los. A maga obstou aos nautas o canto, porém ofereceu a Odisseu a possibilidade de ouvi-lo, se quisesse. Ao passar pelas Sereias, Odisseu tapa o ouvido da marinhagem com cera, e os nautas amarram-no ao mastro, conseguindo, então, passar incólume ao canto. Já na Argonáutica, Apolônio de Rodes (V.a.C.) relata que as Sereias, mulheres-pássaro, hedeíeisin thélgousai molpêisin (Arg., IV, 893-894) “seduzindo com o seu canto agradável, destruíam quem quer que lançasse as amarras do navio” Orfeu, no entanto, participava da tripulação e

das Sereias. O verbo thélgein, empregado para descrever-lhes o canto em Homero e Apolônio de Rodes, contém uma ambivalência; significa tanto fascinar, seduzir alguém por meio de encantamentos mágicos, quanto enganar, induzir ao erro. Emprega-se sobretudo em relação à magia e ao poder encantatório das palavras e da música. Por promoverem a morte e o esquecimento, o que é incompatível com o discurso épico, uma vez que esse visa celebrar a memória imorredoura dos heróis, as Sereias funcionariam assim como Anti-Musas e relacionar-se-iam com um feminino destrutivo e pervertido. Deixando à ilha Trinácria, a única nau de Odisseu que sobrevivera a todas aventuras foi atingida pelo raio de Zeus e os nautas pereceram afogados. O herói tem de passar agora por Caribdes, uma jovem de voracidade insaciável, que roubou algumas reses de Héracles, quando este conduzia os bois de Gerião. Zeus puniu-a, lançando-a ao mar e metamorfoseando-a em monstro. Odisseu agarra-se ao tronco de uma figueira enquanto o monstro encontra-se em fase de ingestão; quando em fase de vômito, lança-se à quilha e ao mastro, salvando-se então. O herói sem mais recursos vaga náufrago por nove dias e, no décimo, avista Ogígia. A ilha é habitada por Calipso, a que esconde, (< kalýptein, cobrir, esconder), uma ninfa que vive sozinha e se alimenta de néctar e ambrosia. No tempo da narrativa, Odisseu passa sete anos contínuos em sua companhia, a mais longa de todas as aventuras; no oitavo parte, mas simbolicamente está fora do tempo, na eternidade, e do espaço, em atopia. Inclusive a ninfa pretende mudar-lhe o status ontológico, transformá-lo em divindade. Odisseu recusa a imortalidade, pois ser deus significa esquecer seu nóstos, o retorno, seu oîkos, Ítaca, e seu génos, Penélope e Telêmaco, optando, portanto, pela condição humana.

“tomando em suas próprias mãos a phórmiks* da Trácia Odisseu, através da forma latina Vlixes, -is donde prontamente fez ressoar a melodia de uma canção Ulisses, é um personagem cuja principal característica talvez seja sua longevidade na história ligeira da literatura ocidental, como revela a canção de modo que seus ouvidos fossem preenchidos Porto Alegre (Nos Braços de Calipso). Péricles Cavalcante concebe um Odisseu em primeira pespelo som do instrumento; a phórminks sobrepu- soa, que opta por não ouvir o canto das Sereias, jou a voz das jovens”. segunda possibilidade oferecida por Circe, e que, (Arg., IV, 906-909) em Ogígia, não resiste aos encantos de Calipso nem ao ritmo calipso, um divertido anacronismo. Os nautas sequer sentiram-se atraídos pelo canto O compositor aponta para uma nova escolha de das Sereias, exceto Butes, que se lançou ao mar, Odisseu, ou seja, não mais retornar a Ítaca. A sua porém foi salvo por Afrodite. A melodia dedi- “odisséia” talvez se concluísse ali, em companhia lhada por Orfeu é capaz de neutralizar o canto de Calipso. Desconstruindo assim uma de suas

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grandes façanhas, ter ouvido o canto das Sereias, e sinalizando para uma nova faceta de Odisseu, Péricles Cavalcante reelabora e reescreve um mito literário. A faixa conta ainda com o auxílio luxuoso de Marisa Monte entoando líquidas melodias. Adriana Calcanhotto apresentou o show Maré, apenas em um final de semana de junho, no Rio de Janeiro. Ficamos todos aguardando sua volta. *A phórmiks é o instrumento de corda grego mais primitivo.

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MACHAdo dE ASSiS ErA JAPoNÊS Os jornais publicaram a foto do encontro do privada do sono falhará no meu caso, por exemnosso presidente, Laranjito, com o príncipe plo. E já adianto, há muitos apaixonados pelas herdeiro do trono japonês, Naruhito. Laranjito/ empresas e fábricas do planeta. Eu migraria de um Naruhito. Respeitem, porque foi o Japão quem sono a outro sono. Gostoso, quentinho, ah como puxou essa rima. Monara é quentinha... Neste inverno...Hummm! Fiz até um poeminha para ela: Perdão, mas foi um encontro sem harmonia. Não combina um presidente zoiúdo, fingindo um não SÍMBOLO terceiro mandato, e um príncipe de olho apertado. O cheiro do teu corpo sobe costurado Não, não... Combina, sim; desculpe. Não nos À fumaça do café olhos, mas na ganância. Os dois querem ficar nos E a cada xícara se recusa tronos até a morte. A descoser o reencontro Mas a verdadeira harmonia vem mesmo é do encontro do príncipe de olhos apertados com o es- Sei que é ir longe demais, surreal, neste mundo de critor que apertava os olhos. Ambos comemoram bilhões de gente imaginar que milhões tenham no café um símbolo amoroso, mas pode acontecer. 100 anos. Um de chegada, o outro de partida. Pode acontecer de uma fábrica inteira ter o café Certamente nenhum japonês daquela época, de como símbolo de uma grande paixão e daí a quetão explorados que eram, olha nós também ex- da da produção, perdas de dedos, mãos, cabeças... ploramos, vejam Angola, pôde se deslocar de São Indenizações! Meu Deus! Os japoneses têm que Paulo para o Rio e participar do enterro de Ma- fazer uma segunda pesquisa auxiliadora daquela: chado de Assis. E Machado de Assis era japonês. quantos têm no café o símbolo de um amor.?! Apertava os olhos como ele mesmo disse em uma de suas crônicas. Confessava-se japonês. Ouçam Porque é grande o perigo. Aperte os olhos e veja que todo japonês tem olhos apertados, mas nem o responsável de uma bomba atômica tomando todo olho apertado é japonês. E não basta ter os café, perto do botão e entrelaçado ao cheiro do olhos apertados para ver os problemas japoneses café, o cheiro da sua amada, mesmo que não da vida. De tanto apertar os olhos, Machado de seja japonesinha, mas daquela que aperta os Assis tornou-se japonês por usucapião. Machado olhos quando o vê. Mire o botão macio, como a pele da amada dele e que ele costuma dar umas era japonês na observação, é claro. apertadinhas. Mas deixemos o claro e entremos no escuro porque, na mesma semana da chegada do prín- Admiro Machado de Assis, o café, os japoneses, cipe dos olhos apertados, chegou pelos jornais a mas a bomba atômica, não. Lasana Lukata notícia de um estudo apertado, precisa ser mais estudado, afirmando que o “Cheiro do café é despertador” e poderá ajudar a criar soluções para amenizar o cansaço dos trabalhadores. Fala-se na criação de um perfume de café. Sem precisar de pesquisa, conheço um cheiro que tira rapidinho o cansaço dos trabalhadores: é o cheiro do dinheiro. Reverencio o estudo japonês, mas vejo perigo na pesquisa feita com ratos. Ratos não se apaixonam. Não mandam flores, orquídeas... Não ficam pensando na amada, lembrando da amada por sete anos. O rato vai lá e pimba! umas seis vezes e depois só no ano seguinte. Ratos distantes de suas fêmeas não pensam nelas ao sentir o cheiro de queijo, pão, salaminho... Eu, sim... Eu sinto. E eis aqui o perigo: Toda vez que sinto o cheiro do café lembro da Monara. A conclusão de que apenas o cheiro do café pode ser suficiente para despertar a pessoa

CLIQUE AQUI http://journal.neilgaiman.com O blog do autor Neil Gaiman é ideal para os fãs ou simplesmente para alguém interessado em conhecê-lo melhor. Nele, é possível encontrar detalhes de sua vida e obra de Gaiman, o qual também aproveita o espaço para tirar algumas dúvidas dos leitores.

http://revistalasanha.bravehost.com VERSINHOS DE RECIFE A vista mais bonita vi do adeus à cidade, há belezas (independente da janela do avião) que só a memória pode enxergar. Leandro Jardim

A Revista Lasanha reúne diversos autores prontos para serem digeridos ao molho digital. As edições ou, como eles chamam, cardápios trazem diversos contos e poemas de autores variados. É de lamber a tela...

http://www.jornaldepoesia.jor.br O site Jornal de Poesia é uma compilação mais do que completa da poesia em língua portuguesa. Lá se encontra uma pequena amostra da obra de (quase) todo o mundo — de Adélia Prado a Zuenir Ventura.

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Curriculum Vitae No início você liga. Com alguma camisa social ressuscitada de um tolo natal do ano passado, se esforça para calçar seu melhor sapato. Engraxando-o com o zelo e a nobreza de um profissional, pede até aquele cinto marrom verniz emprestado de seu pai que ele guarda para as datas comemorativas mais relevantes. A calça de vinco passada com exaustão dá aos citados componentes uma aparência de sobriedade, de seriedade que você duvida realmente que o espelho possa estar dizendo a verdade. Você faz a barba, de forma que algum pêlo rebelde não possa revelar sua disposição crescente em participar de uma insurreição armada no interior do Rio de Janeiro. O cabelo penteado de fora para dentro com um pente perolado de 28 dentes dá o toque final à produção expressivo-corporal do seu nobre ofício. A camisa enrolada por dentro da calça é puxada alguns centímetros para fora, numa medida algébrica impecável, sendo afixada definitivamente pelos senos e cosenos de seu cinto marrom-verniz. Todo o conjunto fornece a tônica de um dia extremamente cínico. Algo entre o amargo do café e o doce do açúcar. No segundo dia você relaxa. Troca a melhor camisa do mundo por uma camisa day-by-day. Uma substituta de segunda, talvez até de terceira categoria, mas que ainda lhe concede o tom respeitável necessário. Suas unhas continuam cortadas como de costume. Seu sapato continua brilhante e seu cabelo mantém a aparência blasé necessária. Tristemente chega-se ao fatídico terceiro dia. Você já não está usando seu sapato brilhante. Ele te apertava. Seu cabelo não é mais o mesmo, mas você ainda pode passar por uma blitz policial sem ser espancado por um cassetete de 90 centímetros. Quatro dias. Já os quatrocentos minutos de falsidade estética apresentada pelo seu personagem começam a se desfazer com alguns itens do seu antigo vestuário. Você usa uma blusa de malha simples, um verdadeiro pecado gerencial; talvez você tenha roubado o departamento financeiro, uma ou duas vezes. Aboliu a camisa social, mas continua exalando limpeza pelos cantos dos corredores administrativos. O sapato fora trocado por um tênis, o cinto continua emperolado como antes e exala um pouco de catolicismo fervoroso que tanto agrada ao senhor Vilaça, do terceiro andar. Depois da primeira, da segunda e finalmente da terceira semana, você é você novamente. O tênis preto está sujo por falta de tempo e de vontade, sustenta sua calça jeans horrorosa, uma ode preconceituoso aos anos 90, desbotada pelo clima e pelo seu perceptível gosto musical duvidoso. As camisas sóbrias dão lugar a uma de malha laranja, o que demonstra claramente sua predisposição a cometer crimes familiares. Suas unhas grandes, sua barba por fazer já não conseguem te ajudar a resolver o problema do banco de dados da senhorita Hilda, do terceiro andar. Seu cabelo desgrenhado, abusado, é praticamente uma afronta à gerência de produtos e a processos industriais. Não que você se importe, é claro. Enfim, fizeste teu currículo falar por si só. Tu és um mártir.

Rafael Viana

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Anatomia MÃoS No meio da rua, de gente alheia. Dentro de um carro qualquer. Beijando outra boca e deslizando em minhas coxas. Num escuro sequer. Sempre se encontram quando mais ninguém percebe Debaixo d’água do rio barrento. Quando o tempo, passa mais lento. Hoje, elas andam no bolso. BoCA Pede para pedir mais uma vez. oUVidoS Os dedos que a circundavam conheceram território. Como investigador do espaço. De punho laço. Para saber se poderia por ali depositar a frase não dita do verbo amar CABEÇA Já sabe como é ruim ficar longe. Quer aprender como é bom ficar junto. CorAÇÃo Não está mais aqui. Está ai. Fabrício Castello Branco


ENTREVISTA

por Luiz Coelho

Empreendendo palavras Maria do Carmo Leite de Oliveira é Doutora em Lingüística, na área de discurso empresarial, e professora Associada do Departamento de Letras da PUC-Rio, com atuação no Programa de Pós-Graduação de Letras e dos MBA IAG —  a Escola de Negócios da PUC-Rio. Presta consultoria nas áreas de comunicação interna e externa e na de atendimento ao cliente para empresas (CEG, João Fortes Engenharia, Banco Nacional), sendo, desde 1976, instrutora em programas  de desenvolvimento gerencial para empresas como a Rede Globo. Além disso, tem oferecido valiosa contribuição aos alunos de licenciatura de Letras, com uma proposta de formação que privilegia um perfil de vanguarda para os novos educadores, mais conforme com o mundo contemporâneo, inclusive acreditando em abordagens singulares para aulas de Literatura para o Ensino Médio.

Fale-nos um pouco do seu trabalho de aproximação entre os estudos de linguagem e educação com o universo profissional moderno e suas novas exigências. Como se estabelece a relação entre os estudos sobre empreendedorismo e os estudos de linguagem? Isso é uma história antiga. Começou na década de 70, quando fui convidada pelo IAG para dar um módulo sobre Redação Empresarial, num curso para executivos de várias empresas. Foi ali que descobri o mundo organizacional e a necessidade de construir pontes entre as áreas da Linguagem e da Administração. Começou, assim, a minha opção por uma lingüística aplicada às profissões, caracterizada pela produção de conhecimento relevante para os profissionais e construída também a partir do ponto de vista desses profissionais, e não só o do analista/lingüista. A minha entrada no Empreendorismo, já no final da década de 90, deveu-se a esse meu interesse e a essa experiência. A implantação do curso de Empreendedorismo foi uma proposta de oferecer ao aluno uma formação que lhe habilitasse desenvolver um traço do novo perfil profissional desejado no mercado. A inclusão do curso de Técnicas de Comunicação para Empreendedores buscava desenvolver habilidades comunicativas que capacitassem o aluno a enfrentar com sucesso a complexidade das situações impostas a profissionais que se gerenciam. Se, na psicanálise a palavra é o que cura, na cultura empreendedora a palavra é o que faz de uma idéia inovadora um projeto, de um homem um líder, de um grupo, uma equipe; de um sonho uma realidade. O meu trabalho em Letras, nas oficinas oferecidas a futuros professores, tem essa inspiração prática também. Procuro chamar a atenção para uma prática pedagógica que não seja orientada apenas por ementas ou pelo vestibular. Precisamos criar espaço para que o aluno se delicie com a linguagem e seus jogos e, por outro lado, desenvolva habilidades para atuar eficazmente nos diferentes cenários comunicativos da vida moderna. Nos cursos oferecidos às empresas, a

preocupação é levar o participante a compreender a complexidade do processo de comunicação e a usar e reconhecer os usos estratégicos da linguagem verbal e não verbal, tornando-o mais sensível ao modo como os contextos micro e macro da interação refletem e constituem o texto oral ou escrito.

De que espaço e relevância a Literatura e outros campos artísticos dispõem nesses projetos? O que você pensa da inserção do profissional de Literatura no mercado de trabalho? O mercado ainda oferece restrições de acesso ao profissional das Letras, de um modo geral. Somos ainda reféns de um quadro histórico em que a marca ‘Letras’ significava primeiramente formação de professor, profissional de texto e pesquisador em estudos lingüísticos ou literários. No caso do profissional de Literatura, além da escola, se abriam o mercado da diplomacia ou da imprensa. Falta hoje, portanto, uma releitura da marca, com a atualização de seus significados. Mas sou mais otimista hoje quanto a uma abertura de mercado. A complexidade do mundo atual tem exigido mais a integração dos saberes. As empresas, por exemplo, já abrem espaço para antropólogos, filósofos, ainda que na condição de visitantes. No meu trabalho em empresas, eles descobrem que um lingüista é um especialista em linguagem e, portanto, alguém capaz de pensar as questões de comunicação no trabalho. Acho que o profissional de Literatura também tem que mostrar sua cara, rever seus conceitos e descobrir aplicações ainda não contempladas para a área.

Como você avalia e projeta a tarefa do profissional das letras, sobretudo a do educador? Como já disse, a minha prática nas empresas me abriu um campo de pesquisa e um horizonte de atuação profissional fora da escola. Mas, mais do que isso, ela foi uma fonte de aprendizagem, de reflexão sobre o meu próprio ofício. Um exemplo foi o estudo do documento “Declaração de Missão”, um texto portador da ideologia e da cultura institucional. A discussão em sala sobre esse tema me levou a pensar que os funcionários conhecem a missão da empresa, mas nem sempre a sua missão. Do mesmo modo, descobri que eu não tinha escrito a minha missão pessoal como professora. Eu só conhecia aquela do juramento de formatura. Mas não a minha. De repente, olhando para trás, vi com clareza que uma missão havia orientado as minhas escolhas de atuação profissional, a minha prática pedagógica, a minha visão de aluno e de professor: a missão de contribuir para construir um mundo melhor e mais justo. Na oficina Interação e Ensino, começo exatamente desafiando o aluno a pensar como o modo de interagir numa aula pode refletir um determinado tipo de missão para aquele professor. Escrever — e reescrever — a missão pode contribuir para que tenhamos mais clareza sobre nossa tarefa como profissional das Letras e como educador.

Quais são seus novos projetos relativos à educação e que expectativa você deposita neles? Como você vê as contribuições da educação a distância para o ensino de língua? A minha experiência no projeto de formação de professor é muito recente, mas o meu interesse em interação é antigo. Hoje vejo como um novo projeto pode explorar a questão da interação virtual, em fóruns eletrônicos de cursos de ensino a distância. Venho desenvolvendo pesquisa, em parceria mais uma vez com o IAG e com o apoio de alunos PET de Letras, sobre os novos papéis do professor num curso a distância. Há muita literatura sobre isso, mas não numa perspectiva interacional. É preciso formar professores que compreendam como a tecnologia afeta a interação professor/aluno. Tem sido reconhecido que as novas formas de comunicação tecnológica vêm tornando obsoletos nossos modos tradicionais de pensar “autores”, “leitores”, “informação” e “texto”. Do mesmo modo, entendo que o fórum eletrônico, por exemplo, obriga-nos a repensar a questão dos gêneros oral versus escrito. Enfim, EAD é um campo para pesquisa e para a prática. Nossos alunos têm muito a nos ensinar sobre tipografia, a ortografia, seleção vocabular, gramática num ambiente virtual.

Que mensagem deixaria aos nossos leitores? Eu gostaria de deixar a mensagem de Edgar Morin, ao falar sobre a prática do professor: (ela) Exige algo que não é mencionado em nenhum manual, mas que Platão já havia acusado como condição indispensável a todo ensino: o eros, que é, a um só tempo, desejo, prazer e amor; desejo e prazer de transmitir amor pelo conhecimento e amor pelos alunos. O eros permite dominar a fruição ligada ao poder, em benefício da fruição ligada à doação. É isso que, antes de tudo mais, pode despertar o desejo, o prazer e o amor no aluno e no estudante. Márcia Brito

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Quatro Poemas de Ana Luiza Lemos Liberdade

Nada

Sabor

Valor

Voam Libertas Com asas abertas Aves. Andam Momento Os pés em movimento Mamíferos. Nadam Ondulando Nadadeiras trabalhando Peixes. Todos Diferentes Iguais Porém nem sempre Livres.

Onde? Quem? Quando? Como? Em nenhum lugar. Ninguém. Nunca. De jeito nenhum. O que aconteceu? Nada.

O doce sabor de uma fruta Confunde-se cegamente Com o sal da água do mar. Enquanto bóia, Uma fruta é recolhida. Para revelar, apenas uma mordida: o amargor é criado.

O ardor da beleza esconde a frieza de uma pessoa.

VIU?

O esplendor do mais belo coração é oculto pela aparência ou pela primeira impressão.

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Jornal Plástico Bolha #23  

Jornal literário independente aberto à publicação de poesia e prosa de autores contemporâneos.

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